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Administração de pessoal em obras Apresentação Para que os processos de gestão ocorram de forma adequada em uma indústria ou durante o fornecimento de um serviço, é necessário que haja o planejamento, a organização e o controle das atividades, principalmente em um setor tão dinâmico quanto a construção civil. A correta administração de pessoal em obras permite que haja uma compatibilização entre as expectativas do indivíduo e o que a empresa espera que seja desenvolvido por seu capital humano. A etapa inicial desse processo se dá nos momentos de seleção, contratação e treinamento de pessoal. Quando a administração de pessoal em obras ocorre de forma exitosa, têm-se um menor fluxo de entradas e saídas de pessoal e a melhoria de produtividade no setor. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai compreender que o capital humano é primordial para o bom desempenho das atividades em uma organização — daí a relevância dos processos de contratação e treinamento de colaboradores. Você também vai ver que o controle de pessoal e a atenção à saúde e à segurança do trabalho são fatores correlacionados e interdependentes com a produtividade do setor da construção civil. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Relacionar seleção, contratação e treinamento de pessoal. • Identificar controles de entrada e saída de pessoal.• Explicar as formas de acompanhamento da produtividade dos trabalhadores na obra.• Infográfico A segurança do trabalho constitui parcela importante do dia a dia da administração de pessoal em obras, além de influenciar diretamente a produtividade da mão de obra e a qualidade final da obra acabada. Considerando-se que a contratação e o treinamento de pessoal é uma etapa fundamental para garantir a qualidade do produto a ser entregue na indústria da construção civil, compreender o conceito de cultura de segurança é importante. Neste Infográfico, você vai ser apresentado ao conceito de cultura de segurança e vai poder refletir sobre a importância da realização de treinamentos de segurança do trabalho para os colaboradores. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/9724b01d-7fe6-484a-bf96-718d5beef372/cfb85e43-3a92-47d8-a97c-81bc379a2773.png Conteúdo do livro A gestão de obras e patologias das estruturas é um dos pilares basilares da indústria da construção civil. A sustentação desse pilar perpassa, necessariamente, a administração estratégica de pessoal em obras. Considerando-se que as obras são realizadas por pessoas, é fundamental que se consiga administrar o capital humano, a fim de reter talentos, melhorar índices produtivos, firmar parcerias e conseguir fazer com que o setor da construção civil seja atrativo às novas gerações. No capítulo Administração de pessoal em obras, base teórica desta Unidade de Aprendizagem, você vai ver que há diferentes formas de contratação de pessoal e vai entender como é importante que haja o treinamento dessa mão de obra. Você também vai estudar conceitos iniciais de saúde e segurança do trabalho aplicados à indústria da construção civil. Assim, você vai perceber como é importante monitorar o capital humano de forma adequada e vai verificar quais são os impactos disso na produtividade do setor. Boa leitura. GESTÃO DE OBRAS E PATOLOGIA DAS ESTRUTURAS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Relacionar seleção, contratação e treinamento de pessoal. > Identificar controles de entrada e saída de pessoal. > Explicar as formas de acompanhamento da produtividade dos trabalha- dores na obra. Introdução As competências humanas definem a competitividade de uma organização, e a indústria da construção civil é um setor produtivo que demanda, historicamente, grande volume de mão de obra. Assim, a gestão de pessoas, considerada um conjunto de políticas e práticas que permitem a conciliação das expectativas entre os indivíduos e a organização, é um dos pontos estratégicos críticos para o sucesso de um empreendimento no setor (DUTRA, 2016). Neste capítulo, falaremos sobre a relevância da contratação e do treinamento da mão de obra desse setor econômico tão complexo que é a construção civil. Explicaremos por que um dos pilares das estratégias organizacionais é o capital humano e a importância de controlá-lo. Veremos, ainda, quais são as finalidades dos treinamentos para o trabalho em equipe e que existem diferentes formas de contratação da mão de obra. Além disso, abordaremos as normas regula- mentadoras (NRs) que visam à manutenção da saúde e à qualidade de vida do trabalhador no meio laboral. Por fim, sabendo que o capital humano impacta diretamente a produtividade de uma obra, definiremos os conceitos básicos de acompanhamento de produtividade dos trabalhadores em canteiros de obras. Administração de pessoal em obras Dione Dulcinea dos Santos A construção civil e a importância do treinamento pessoal Conforme Marcondes (2016), a contratação da mão de obra pode representar até 52% do custo de uma edificação quando observados, de fato, as leis sociais e os encargos trabalhistas vigentes no país. No entanto, quando a mão de obra contratada tem baixa qualificação técnica para a execução do serviço, esse custo será superior ao estimado acima. No ato inicial da contratação de mão de obra para a construção civil, além de se observar se realmente a mão de obra está qualificada para a execução apropriada das tarefas, deve-se observar se há vínculo emprega- tício na prestação dos serviços e qual é a modalidade de contratação mais adequada ao tipo de tarefa que se deseja executar. Caso haja as condições legais que caracterizem o vínculo trabalhista, esse registro deve ser efetuado na carteira de trabalho do funcionário e o empregador deve observar todas as leis e responsabilidades sociais fundamentadas na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e na Constituição Federal. Existem, porém, duas formas de contratação que permitem à empresa optar, de forma legal, por não se submeter às obrigações observadas na CLT, desde que seu corpo diretivo e os próprios funcionários nos cargos de coordenação compreendam a relação existente entre os profissionais e a companhia nesses modelos de trabalho. Contratar mão de obra por meio do regime autônomo ou como pessoa jurídica (empresa aberta enquadrada, por exemplo, no regime de microempreendedores individuais, o MEI) pode ser o caminho para os empreendedores que estejam em busca de uma relação cuja característica principal seja a parceria entre negócios para o alcance de benefícios mútuos. Isso significa que não se pode contratar fora da CLT e exigir o mesmo comportamento de um trabalhador enquadrado na legisla- ção trabalhista, visto que a relação de negócios se dará entre duas pessoas jurídicas, não entre duas pessoas físicas. A temática da saúde e segurança do trabalho é outro ponto a ser observado e que tem sido motivo de preocupação nas corporações, no meio acadêmico e no setor da construção civil, em atenção à relevância e ao volume das per- das financeiras e sociais decorrentes de fatalidades, lesões e doenças, que impactam as próprias organizações, a sociedade, as famílias das vítimas e, indubitavelmente, as próprias vítimas. Acidente de trabalho é a ocorrência imprevista e indesejável, instantânea ou não, relacionada com o exercício do Administração de pessoal em obras2 trabalho, de que resulte ou possa resultar lesão pessoal (ASSOCIAÇÃO BRASI- LEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 2001). Os acidentes de trabalho são rastreáveis e evitáveis, e seu acontecimento causa um grande impacto na produtividade e na economia, além de grande consternação para a sociedade. Entretanto, apesar de evitáveis, continuam acontecendo. Apesar das críticas às abordagens costumeiras, ainda prevalece uma visão reducionista e tendenciosa de que acidentes e incidentes têm apenas uma ou poucascausas e são decorrentes de falhas dos operadores (erro humano, ato inseguro, comportamento fora do padrão, etc.) associadas ao descumpri- mento de normas e padrões de segurança ou de falhas técnicas e materiais. De acordo com o Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho (desen- volvido e mantido pelo Ministério Público do Trabalho em cooperação com a Organização Internacional do Trabalho), entre 2012 e 2019, foram registrados 4,5 milhões de casos de acidente de trabalho no Brasil. Esses casos resultaram na morte de 16.455 pessoas e geraram um custo de R$ 29,145 bilhões para os cofres públicos, com gastos da Previdência Social como auxílio-doença, aposentadoria por invalidez, pensão por morte e auxílio-acidente para pessoas que ficaram com sequelas (SMARTLAB, c2021). A legislação brasileira estabelece, por meio das NRs do Ministério da Economia, obrigações e procedimentos referentes à medicina e à segurança do trabalho que são de observância obrigatória pelas empresas privadas e públicas e pelos órgãos públicos da administração direta e indireta, bem como pelos órgãos dos Poderes Legislativo e Judiciário que possuam empregados regidos pela CLT. Existem, hoje, 37 NRs e, em 11 delas (as de número 5, 6, 10, 11, 12, 13, 18, 20, 23, 33 e 35), há itens referentes a capacitações e treinamentos obrigatórios aos trabalhadores envolvidos. A NR que trata especificamente da segurança e da saúde no trabalho na indústria da construção civil é a de nº 18, e sua redação mais recente passou a vigorar a partir de fevereiro de 2020. As Recomendações Técnicas de Procedimento (RTP) detalham as ações que devem ser praticadas pelas empresas em trabalhos envolvendo demolição, escavações e desmonte de rochas, carpintaria, instalações elétricas e andaimes. Os equipamentos de proteção coletiva (EPC) (como guarda-corpos, extintores e bandejas e redes de contenção) são instrumentos essenciais para a segurança tanto dos trabalha- dores quanto dos transeuntes do entorno onde se desenvolvem os trabalhos de construção e demolição. Administração de pessoal em obras 3 Segundo Costa e Vale (2003), a finalidade dos treinamentos e das capa- citações sempre está associada à melhoria do desempenho do indivíduo ou de uma equipe no trabalho, a fim de: 1. superar determinadas limitações aparentes; 2. preparar pessoas para o exercício de trabalhos que requerem novos conhecimentos, habilidades e atitudes; 3. readequar o trabalho em virtude da introdução de novas tecnologias. Esses elementos estão sempre baseados nos fundamentos e nas diretrizes e metas organizacionais, bem como nas análises das tarefas e dos indivíduos. No setor da construção civil, o Sistema S e os sindicatos da indústria da construção são fundamentais para promover a educação continuada no setor. O que é comumente chamado de Sistema S é o conjunto de nove instituições administradas por federações e confederações empresariais dos principais setores econômicos do Brasil. O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e o Serviço Social da Indústria (Sesi) compõem o Sistema S. Um dos setores prioritários e estratégicos de atendimento para o Senai tem sido o setor da construção civil, pela sua dimensão e por suas características e peculiaridades. Assim, a instituição dedica um grande esforço ao setor no sentido de garantir, aos trabalhadores e às empresas, um atendimento específico, pautado nas necessidades do mercado. O Senai oferece uma quantidade regular de opções em treinamento técnico-operacionais, dirigidos especialmente à construção civil. São disponibilizados desde cursos técni- cos, como os de edificações, segurança do trabalho e mecânica, até cursos operacionais de curta duração (como treinamentos voltados à segurança do trabalho com eletricidade, trabalho em altura e movimentação de máquinas). Vê-se, de fato, que as iniciativas nacionais estão distribuídas em duas vertentes: por um lado, a preocupação básica em alfabetizar e reduzir os índices de analfabetismo, ainda existentes; por outro lado, iniciativas que visam à formação de trabalhadores mais qualificados e preparados. Para Goulding e Alshawi (2004), além de benefícios aos operários, os programas de treinamento e desenvolvimento podem facilitar e promover mudanças no comportamento das empresas, ajudando, inclusive, no alcance e na manutenção de saúde financeira. Para os autores, o treinamento é um investimento que prepara as empresas para se adaptarem às mudanças no ambiente de negócios. Administração de pessoal em obras4 A realização de treinamentos pode proporcionar benefícios reais, obser- váveis no canteiro de obras e no âmbito macro da organização, como: � aumento contínuo das habilidades dos trabalhadores e melhoria de desempenho; � aumento da motivação e melhoria da qualidade de vida no ambiente laboral; � melhoria dos padrões profissionais para a classe operária; � maior facilidade de adaptação a mudanças estratégicas e merca- dológicas; � conscientização quanto a sua importância dentro da cadeia produtiva; � redução de incidentes e acidentes do trabalho; � aumento da competitividade da empresa contratante da mão de obra treinada. Reason (2016), no esforço para compreender o que é a cultura de segurança, define-a como o conjunto de valores compartilhados e de crenças que se inter- -relacionam com as estruturas institucionais e com os sistemas de controle para produzir normas comportamentais. Essas diretrizes comportamentais são, comumente, baseadas na observância das normas legais vigentes no país. Conjecturando que uma parcela ainda significativa de empresas (par- ticularmente aquelas consideradas de menor porte, seja pelo número de funcionários ou pelos rendimentos pecuniários) não observa ou não põe em prática as ações de saúde e de segurança do trabalho adequadamente, havendo deficiências no cumprimento das normas impostas, é corriqueiro, nos achados da literatura, pesquisadores alegarem que faltam educação e treinamento nas empresas pequenas e médias. Isso se converte em ônus às ações de saúde e de segurança, sendo necessário maior comprometimento das organizações com a saúde de seus colaboradores (JOHANSSON; JOHANSSON, 1992; CHAMPOUX; BRUN, 2001; JENSEN; ALSTRUP; THOFT, 2001). Alguns estudos apontam que as elevadas harmonia e interação das equipes de trabalho podem constituir-se como um fator importante para a prevenção de acidentes de trabalho (HUNTER, 2002). Observou-se essa situação em alguns casos em que os próprios trabalhadores poderiam escolher seus parceiros de trabalho. A redução de acidentes parece derivar da coesão de grupo e do bom relacionamento entre pares, o que indica que as equipes mais coesas tendem a se autoproteger (AREOSA, 2010). Administração de pessoal em obras 5 Por mais elaborado e complexo que seja um programa voltado à saúde e à segurança do trabalho (seja ele obrigatório por lei ou apenas um documento interno da cultura organizacional) e por melhores que sejam os instrumentos por ele oferecido para o reconhecimento e a solução dos riscos envolvidos na realização de tarefas no trabalho, se não houver determinação e cooperação compromissada de todos os envolvidos em suas atitudes, sobretudo do corpo gerencial da empresa, os resultados por ele produzidos serão limitados, tanto do ponto de vista quantitativo quanto do ponto de vista qualitativo. Dessa forma, comportamentos seguros devem ser constantemente es- timulados nas organizações. Podem ser encarados como comportamentos seguros o uso adequado de ferramentas e de EPCs e equipamentos de proteção individual (EPI), o respeito às placas e às sinalizações voltadas à segurança do trabalho, a disseminação, por parte dos funcionários, de procedimentos de segurança e o cumprimento das normas referentes à segurança do trabalho. Programas e projetos não são a mesma coisa. Um projeto tem obje- tivos, equipe e tempo de duração específicos (sendo encerrado e a equipe desmobilizada ao finaldo período estipulado). Já um programa tem um maior escopo de atuação, com objetivos mais complexos. Os planos traçados em um programa visam a orientar os gerentes de projetos em sua atuação. O controle da mão de obra na construção civil e suas consequências Os principais fatores que afetam a produtividade da mão de obra no mercado da construção civil se relacionam à gestão de mão de obra e de serviços, como a gestão logística de insumos necessários à execução das atividades, a ampliação de frentes de trabalho, a configuração de leiautes e o dimensiona- mento racional dos canteiros de obras, e o acompanhamento e a execução de cronogramas realistas e racionalizados. Todos esses fatores correlacionam-se, de modo que é fundamental analisar cada um deles a fim de geri-los. Sabe-se que modificações na metodologia de execução do serviço, in- clusive entre obras e dias diferentes, podem afetar a produtividade. Além disso, outros fatores que afetam diretamente a produtividade incluem o Administração de pessoal em obras6 peso dos blocos, a seção dos pilares a serem concretados, a espessura do revestimento com argamassa, o equipamento para aplicação do gesso no revestimento de parede, o equipamento para acesso à fachada para realizar serviço de pintura, a temperatura do ambiente durante os serviços, etc. Algu- mas ocorrências relacionadas ao conteúdo ou ao contexto também podem gerar grande alteração na produtividade, como a ocorrência de precipitações pluviométricas inesperadas ou a quebra de algum maquinário ou ferramenta. Trabalhos penosos e atividades noturnas também devem ser considerados quando do acompanhamento das entradas e saídas de pessoal. Segundo Chiavenato (2014), a gestão de pessoas tem múltiplos objetivos, sendo o principal promover a eficácia da organização. A administração de pessoal, em obras, contribui para o fomento de uma cultura de alto desem- penho dentro do setor, garante a retenção de bons profissionais, melhora as relações interpessoais dentro e fora do canteiro de obras e coloca o capital humano como setor estratégico no desenvolvimento do negócio. Eficiência é capacidade de realizar bem uma atividade, enquanto eficácia significa fazer a coisa certa. Nosso foco, como profissionais da indústria da construção civil, deve voltar-se para a efetividade: fazer a coisa certa (eficácia) da melhor forma possível (eficiência). Conforme Souza (2005), a produtividade, no processo de obras de cons- trução civil, pode ser vislumbrada a partir de diferentes abordagens, segundo o tipo de entrada (recurso) a ser transformada ou os pontos de vista: � físico, ao estudar a produtividade quando do uso de materiais, equi- pamentos ou mão de obra; � financeiro, quando o objeto de análise é o capital orçamentário; � social, quando o esforço da sociedade como um todo é encarado como recurso inicial do processo. Um exemplo do ponto de vista social é a análise de passivos ambientais decorrentes da execução de determinada interferência humana. Administração de pessoal em obras 7 Na construção civil, administrar a entrada e a saída de pessoas que desempenham atividades diferentes, mas correlacionadas, é uma tarefa complexa. O descanso dos colaboradores é indispensável e interfere diretamente na produtividade da mão de obra. As atividades da construção civil geralmente ocorrem em canteiros de obras ou frentes de trabalho, lugares que não necessariamente correspondem à sede da empresa, o que pode atrapalhar a gestão da jornada de trabalho desses colaboradores. Além do mais, somam-se a isso a dificuldade de controle de entradas e saídas de pessoal, a qualifica- ção da mão de obra, o grande número de interdependências entre tarefas e a necessidade de respostas rápidas às possíveis ocorrências. Dados da Confederação Nacional da Indústria (2013), em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), mostram que 89% das empresas de construção civil relatam a falta de trabalhadores com mão de obra qualificada como um entrave para o setor. De acordo com a CBIC (2016), o setor da construção conseguiu reduzir em 43% o percentual de analfabetismo entre os anos de 2010 a 2015. De fato, por absorver grande quantidade de trabalhadores braçais, a construção civil sempre foi marcada por contratar profissionais não treinados, com aprendizados de maneira informal, nômades e sem vínculo empregatício, estando isso tudo ligado à grande rotatividade no setor. Para Saboy (1998), é extremamente importante a valorização da mão de obra, considerando que ela tem a possibilidade de dar ou não qualidade ao resultado do projeto. Segundo Marcondes (2016), construir com qualidade e baixo custo não depende exclusivamente das técnicas ou dos materiais empregados, mas relaciona-se, também, com a qualificação e o treinamento das pessoas e com a forma como elas aplicam esse conhecimento de forma rotineira e cotidiana ao exercerem suas funções. A construção civil é, historicamente, vista como um setor da economia com um nível de instrução baixíssimo, mas entidades e empresários ligados ao setor estão cada vez mais empenhados em mudar esse panorama. Os empresários, órgãos públicos e sindicatos, como o Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon), estão em grande movimento no sentido de aperfeiçoar e qualificar a mão de obra na esfera construtiva (CÂMARA BRASILEIRA DA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO, 2010). Nesse contexto, é notório que as organizações devem tomar medidas vi- sando ao monitoramento e à minimização de impactos negativos desencadea- Administração de pessoal em obras8 dos junto aos processos produtivos, preservando a saúde e a integridade física do trabalhador. Senge (2013) já expunha que as empresas que sobreviveriam e se manteriam líderes em seus nichos de atuação seriam aquelas voltadas ao futuro, as que seriam capazes de assimilar novas informações e tecnologias, aprendendo e gerindo continuamente. Isso fica cada vez mais evidente no cenário da Indústria 4.0, sobretudo após a pandemia de coronavírus. Um dos pilares da estratégia organizacional é seu capital humano. Conforme Torres Gómez e Calderon Hernández (2011), é necessário ge- rir cuidadosamente o capital humano de uma empresa, alinhando os interesses, as metas e os objetivos da organização com o bem-estar de seus profissionais, sendo esse o papel atual da gestão de pessoas. Produtividade na construção civil Como vimos na seção anterior, na construção civil, a produtividade é estudada de acordo com o elemento a ser considerado, que pode ser físico (materiais, equipamentos e mão de obra), financeiro (dinheiro gasto) ou social (esforço da sociedade) (OLIVEIRA; SOUZA; SABBATINI, 2002). O estudo da produtividade não serve somente para avaliar um serviço já realizado, mas, também, para obter dados para futuras obras, retroalimentando o processo para que os erros não se repitam (SOUZA, 2005). Souza (2005) afirma que o controle da produtividade da mão de obra nas construtoras tem sido usado como base para planejar a construção de uma obra, remanejando trabalhadores e formas de executar os serviços pela consideração de fatores que determinam a produtividade. A produtividade, em um conceito mais elaborado, estabelece uma produção de maior es- cala com a mesma quantidade de recursos utilizados ou, de outra maneira, quando são utilizados menos recursos para obter a mesma produção (CASTELO et al., 2012). Dessa forma, a produtividade se firma como a transformação de procedimentos de entrada em saída, ou seja, os recursos devem ser utili- zados da melhor maneira possível para que o retorno seja favorável. Assim, a produtividade estuda o processo produtivo de um recurso físico em que a mão de obra está inserida (SOUZA, 2000). Administração de pessoal em obras 9 Segundo Gandhi, Khanna e Ramaswamy (2016), a construção civil ocupa o segundo pior resultado na avaliação realizada pela Harvard Business School baseada na adoção de tecnologias de acordocom o setor de atuação empresarial. Acompanhar a produtividade na construção civil é uma tarefa complexa, visto que cada atividade a ser desenvolvida (fundação, estrutura, hidráulica, elétrica, acabamento, etc.), de acordo com cada etapa particular de execução da obra, demanda técnicas e insumos específicos. A quantificação e a quali- ficação dessas atividades são de suma importância para que o cronograma físico e financeiro da obra seja realista e contenha o cálculo orçamentário preciso. Assim, é possível obter prazos com metas fidedignas, reduzir perdas, acompanhar e controlar a qualidade, reduzir desvios de produção com conse- quentes desperdícios e retrabalho, e, por consequência, maximizar os lucros. Vários gurus da gestão defendem que é impensável gerir aquilo que não se consegue medir e especificar. A partir da sistematização de rotinas e de processos, é possível identificar, quantificar e qualificar riscos e perdas mais facilmente. Por meio das informações coletadas, tratadas e analisa- das, pode-se realizar uma gestão de custos mais eficiente. No núcleo desse pensamento, está o conceito de desempenho, presente em diferentes áreas do conhecimento, desde contabilidade e gestão de pessoas até marketing e gestão de operações. Considerando que a medição de desempenho não é um processo estático, Lebas (1995) define medição de desempenho como um processo de gestão cíclico composto de duas etapas: 1. geração e coleta de indicadores de desempenho (medição propria- mente dita); 2. gestão do desempenho. A etapa de gestão de desempenho só ocorre, de fato, quando a equipe conhece muito bem a organização, seus setores, suas tarefas e como tudo isso está relacionado com os objetivos do negócio. Bassioni, Price e Hassan (2004), ao encontro do que afirma Lebas (1995), argumentam que essas etapas são indissociáveis. Administração de pessoal em obras10 Os indicadores de desempenho refletem as competências organiza- cionais mais importantes que devem ser desenvolvidas ou mensura- das. O modo como cada indicador se traduz em medidas específicas difere entre as unidades, os departamentos ou as funções da organização. Por exemplo, a satisfação do cliente pode ser um indicador de desempenho importante para os departamentos de produção, de serviço ao cliente e financeiro. No entanto, ela será mensurada de modo diferente em cada um desses departamentos. No entendimento de Martins e Costa Neto (1998), a medição do desem- penho deve ir sofisticando-se à medida que a empresa avança nos níveis de maturidade corporativa, na implementação da qualidade total e no amadu- recimento da cultura de segurança. Para Tachizawa (2019), as medições são consequências das estratégias corporativas da organização e devem abranger os principais processos e seus resultados. Em construtoras e incorporadoras de maior porte, podemos observar que já há uma cultura de qualidade total bem consolidada. Cabe a nós, como profissionais da área, levar essa cultura de qualidade total para todas as tarefas e os serviços, independentemente do tamanho das empresas envolvidas. Fundamentalmente, para medir a produtividade de uma dada tarefa, é preciso considerar a quantidade de serviço a ser executado e quantos pro- fissionais são necessários para a realização de cada atividade em determinada quantidade de tempo (hora, dia ou mês). Além disso, a produtividade pode ser considerada individualmente ou por equipe. A produtividade individual pode ser obtida a partir da seguinte equação: Produtividade individual = quantidade de serviço a ser realizado / (tempo × número de profissionais) Já a produtividade por equipe pode ser representada pela seguinte equação: Produtividade por equipe = quantidade de serviço / tempo Administração de pessoal em obras 11 Na construção civil, é comum que a produtividade seja expressa por coeficientes que levam em consideração o tempo necessário para que um profissional execute uma unidade de serviço, geralmente expresso por ho- mem/hora (Hh). Assim, um coeficiente pode ser obtido a partir da seguinte expressão: Coeficiente = (tempo × número de profissionais) / quantidade de serviço Por exemplo, se um pintor demora duas horas para pintar 10 m² de parede, seu coeficiente é de 0,2 Hh/m². Falhas de gestão podem impactar negativamente os resultados e, por consequência, o nível de satisfação dos clientes e demais stakeholders. Falhas comuns de gestão que impactam a produtividade na construção civil incluem: � desconhecimento dos custos totais planejados (ou seja, orçamento falho); � planejamento realizado de forma superficial, não abrangendo todas as questões operacionais; � ausência de registros e de documentações desde o início do projeto e que sejam fidedignos ao cotidiano da obra; � falhas no fluxo de informação e interpretações equivocadas. Quando se trata de pessoas, a probabilidade de eventos de risco imprevis- tos é muito grande. No processo de estimativa da produtividade, algumas in- formações são fundamentais para que o gestor não tenha surpresas. Vejamos: � Estime as horas produtivas considerando apenas cerca de seis ou sete horas produtivas por dia. � Determine quantas pessoas trabalharão em cada tarefa ao mesmo tempo. � Lembre-se de considerar feriados e dias não produtivos (como férias, por exemplo). � Identifique as restrições de recursos e insumos. � Documente todas as informações. Sem o monitoramento da produtividade, não sabemos como está o andamento da obra e se estamos respeitando os marcos orçamentários e temporais previstos. De acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Administração de pessoal em obras12 Pequenas Empresas (2015), há seis fatores de impacto para a produtividade na construção civil: 1. capacitação e treinamento da mão de obra; 2. retrabalho; 3. matéria-prima (visto que o uso de bons materiais proporciona menos retrabalho e o controle do estoque proporciona continuidade ao fluxo de trabalho); 4. leiaute do canteiro de obras adequado; 5. segurança do trabalho; 6. planejamento e controle de obras. Portanto, jamais esqueça de considerá-los em seus projetos. Referências AREOSA, J. Riscos e sinistralidade laboral: um estudo de caso em contexto organiza- cional. 2010. 436 f. Tese (Doutorado em Sociologia) — Departamento de Sociologia, Instituto Universitário de Lisboa, Lisboa, 2010. Disponível em: https://repositorio. iscte-iul.pt/bitstream/10071/4422/1/TESE.pdf. Acesso em: 23 jan. 2021. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. 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Administração de pessoal em obras 15 Dica do professor O capital humano é o maior capital de qualquer organização ou setor produtivo. Assim, a administração de pessoal em obras deve introduzir em suas políticas mudanças de paradigmas que interferem substancialmente na melhoria de índices de desempenho e produtividade da indústria da construção civil. Nesta Dica do Professor, você vai perceber que, para que haja melhoria dos índices de desempenho do setor da construção civil, é necessária a realização de um planejamento estratégico, e a administração de pessoal em obras é um dos pilares desse processo. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/64dab79990566d44fdf82999078ea9cb Na prática A temática da saúde e segurança do trabalho tem sido motivo de preocupação nas corporações, no meio acadêmico e também no setor da construção civil. Isso se deve à relevância e ao volume das perdas financeiras e sociais decorrentes de fatalidades, lesões e doenças, que impactam as próprias organizações, a sociedade, as famílias das vítimas e, indubitavelmente, as próprias vítimas. Neste Na Prática, você vai ver que, durante o processo de administração de pessoal em canteiros de obras, é necessário que o tomador de decisão tenha ciência das boas práticas de produção. Ainda, ele deve contar com o auxílio de uma equipe preparada, a fim de que todas as possíveis intercorrências sejam solucionadas sem que haja perda de qualidade, produtividade ou qualidade de vida no meio laboral. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino!