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INTRODUÇÃO À FARMÁCIA CLÍNICA E HOSPITALAR EM ONCOLOGIA NO BRASIL 1 1 Sumário NOSSA HISTÓRIA .................................................................................. 2 1. O FARMACÊUTICO HOSPITALAR NO UNIVERSO DA ONCOLOGIA ...................................................................................................... 3 2. ATENÇÃO FARMACÊUTICA AO PACIENTE ONCOLÓGICO....... 4 3. ANÁLISE DA PRESCRIÇÃO MÉDICA ........................................... 7 4. FARMÁCIA CLÍNICA ...................................................................... 9 5. ATENÇÃO FARMACÊUTICA ....................................................... 12 5.1 Diretrizes e acompanhamento farmacoterapêutico.......................... 14 6. INTERVENÇÕES FARMACÊUTICAS .......................................... 16 7. ORGANIZAÇÃO E PRÁTICAS DA ASSISTÊNCIA FARMACÊUTICA EM ONCOLOGIA NO ÂMBITO DO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE 19 8. FINANCIAMENTO ........................................................................ 20 9. TECNOLOGIAS ............................................................................ 23 10. REFERÊNCIAS: ........................................................................... 31 2 2 NOSSA HISTÓRIA A nossa história inicia-se com a ideia visionária e da realização do sonho de um grupo de empresários na busca de atender à crescente demanda de cursos de Graduação e Pós-Graduação. E assim foi criado o Instituto, como uma entidade capaz de oferecer serviços educacionais em nível superior. O Instituto tem como objetivo formar cidadão nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em diversos setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e assim, colaborar na sua formação continuada. Também promover a divulgação de conhecimentos científicos, técnicos e culturais, que constituem patrimônio da humanidade, transmitindo e propagando os saberes através do ensino, utilizando-se de publicações e/ou outras normas de comunicação. Tem como missão oferecer qualidade de ensino, conhecimento e cultura, de forma confiável e eficiente, para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. E dessa forma, conquistar o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos de qualidade. 3 3 1. O FARMACÊUTICO HOSPITALAR NO UNIVERSO DA ONCOLOGIA Em oncologia, o farmacêutico é o principal instrumento para a qualidade da farmacoterapia. Suas atribuições excedem a simples dispensação da prescrição médica, ou ainda a manipulação propriamente dita. Sua atuação é importante em várias etapas da terapia antineoplásica, a saber: Seleção e padronização de medicamentos e materiais: O farmacêutico, ao conhecer efetivamente os protocolos terapêuticos e de suporte na terapia antineoplásica, tem a responsabilidade na seleção de produtos que atendam às exigências legais, na averiguação do cumprimento das boas práticas de fabricação pelo fornecedor, na avaliação técnica e na notificação de queixas técnicas aos órgãos reguladores. Auditorias internas: O farmacêutico, também, é o responsável por realizar auditorias internas, no que diz respeito à estrutura da área de preparo de quimioterapia, estocagem de medicamentos e manutenção preventiva de equipamentos, de acordo com as necessidades operacionais e normas estabelecidas pela legislação vigente. Informação sobre medicamentos: O farmacêutico assume a função de avaliar a bibliografia, veiculando informação isenta e segura, de fontes confiáveis, contribuindo para o aprimoramento da qualidade das condutas de prescrição e terapêuticas. O farmacêutico atua no processo de comunicação, fornecendo aos membros da equipe multidisciplinar informações sobre farmacocinética, farmacodinâmica, doses usuais, formas e vias de administração, doses máximas, toxicidade acumulativa, incompatibilidade de medicamentos. Em virtude dos avanços tecnológicos e da descoberta de novas terapias, é disponibilizado aos pacientes um amplo espectro de opções terapêuticas empregadas na prevenção e minimização dos principais sintomas que ocorrem, após a quimioterapia. Diante do exposto, as orientações farmacêuticas são 4 4 imprescindíveis para que se obtenha o melhor resultado dentro da posologia prescrita e do protocolo terapêutico proposto. Farmacovigilância: O farmacêutico, por ser parte importante na equipe multidisciplinar na terapia antineoplásica, deve acompanhar a visita médica, discussões de casos clínicos, podendo esta aproximação, influenciar de forma positiva, o perfil de prescrição. Em se tratando de terapia antineoplásica, os pacientes são candidatos ao desenvolvimento de potenciais reações adversas, devido à poliquimioterapia, margem terapêutica estreita dos medicamentos em uso, tratamento prolongado e em concomitância com outros tratamentos de suporte. Neste contexto, a participação deste profissional, na área da farmacovigilância, tem colaborado muito com a detecção e identificação de reações adversas, de fatores de risco para o desenvolvimento destas, além de ele propor medidas de intervenção e prevenção, visto que as reações adversas a medicamentos são algumas das causas de internação, onerando os custos da instituição. 2. ATENÇÃO FARMACÊUTICA AO PACIENTE ONCOLÓGICO A oncologia desenvolve-se, de forma muito dinâmica, e o farmacêutico é desafiado a manter-se informado sobre as novas terapias. Conhecer em detalhes os aspectos farmacológicos dos medicamentos em uso é essencial para o desenvolvimento de uma adequada assistência farmacêutica. Por meio da assistência farmacêutica, o farmacêutico torna-se corresponsável pela qualidade de vida do paciente. A definição de atenção farmacêutica mais difundida, em nosso meio, é a de Linda Strand e Charles Hapler (EUA), de 1990, que diz: “Atenção farmacêutica é a provisão responsável do tratamento farmacológico com o 5 5 propósito de alcançar resultados terapêuticos concretos que melhorem a qualidade de vida dos pacientes”. Já a OMS, em 1993, definiu atenção farmacêutica como sendo o “conjunto de atitudes, comportamentos, compromissos, inquietações, valores éticos, funções, conhecimentos, responsabilidades e destrezas do farmacêutico na prestação da farmacoterapia, com o objetivo de alcançar resultados terapêuticos definidos voltados para a saúde e qualidade de vida do paciente”. Com base nessas definições, a necessidade de desenvolver atenção farmacêutica passou a ser a tônica, em se tratando de paciente oncológico. Esta, também, é uma atividade realizada pelo farmacêutico, imediatamente no início do ciclo de quimioterapia ou hormonioterapia e, ainda, no transcorrer da terapia de suporte ou no controle dos sintomas dos pacientes em cuidados paliativos. O foco da atenção farmacêutica para o paciente oncológico está no aconselhamento e monitoramento da terapia farmacológica. O aconselhamento do paciente em regime de quimioterapia deve ser precedido de todas as informações necessárias para garantir a adesão ao tratamento, além de desenvolver a confiança entre o paciente e o farmacêutico. Essas informações devem ser repassadas preferencialmente em material informativo, de caráter educativo e através deorientação direta ao paciente e ao cuidador. O monitoramento da terapêutica é feito, através do acompanhamento detalhado do tratamento do paciente. O farmacêutico deve exercer assistência, auxiliando o(a) paciente quanto ao modo de usar e quanto ao armazenamento correto do medicamento, alertando sobre os prováveis efeitos colaterais e interações medicamentosas ou alimentares, alertando para não usar nenhum medicamento, se estiver grávida ou amamentando, a menos que tenha expressa orientação médica, e sobretudo seguir as orientações médicas sobre o horário de administração e as restrições na alimentação, porque alguns alimentos modificam os efeitos dos medicamentos. O farmacêutico deve, também, informar o paciente se o medicamento que ele vai usar causa dependência física ou psíquica, informar os perigos da automedicação e de tratamentos alternativos não comprovados cientificamente, 6 6 dentre outras orientações. O farmacêutico deve ser capaz de fornecer, também, recomendações para minimizar os efeitos secundários da terapia, bem como determinar os medicamentos que podem interferir na eficácia do tratamento. Para tanto, deve-se definir um plano de atenção farmacêutica que contemple os seguintes aspectos: ▶ O farmacêutico deve estar atento para que, ao longo do tratamento, as reações adversas aos medicamentos sejam as mínimas possíveis. Essas reações devem ser devidamente registradas e notificadas. ▶ Coletar, sintetizar e analisar as informações relevantes sobre o paciente; ▶ Listar e classificar os problemas relatados pelo paciente e identificados na anamnese; ▶ Estabelecer o resultado farmacoterapêutico desejado para cada problema relacionado com o medicamento; ▶ Disponibilizar informações sobre as alternativas terapêuticas disponíveis; ▶ Eleger, juntamente com o médico, a melhor solução farmacoterapêutica e individualizar o regime posológico; ▶ Desenvolver um plano sistemático de monitorização terapêutica; ▶ Realizar seguimento do paciente para medir o resultado. A terapia farmacológica deverá ser adequada ao estilo de vida de cada paciente, respeitando suas limitações, hábitos, sua motivação para cumprir o plano terapêutico, tendo como objetivo maior, garantir a adesão ao tratamento e melhorar a qualidade de vida do paciente. Trata-se, portanto, de uma conquista fomentada pela cumplicidade desenvolvida entre farmacêutico e paciente. 7 7 3. ANÁLISE DA PRESCRIÇÃO MÉDICA Este é o momento de maior interferência e interação do farmacêutico com o prescritor, principalmente, pela possibilidade de atuar em caráter preventivo e ainda corretivo. Nesta interação, o objetivo do farmacêutico não é exercitar o diagnóstico, ou intervir na conduta terapêutica, mas garantir a segurança, a provisão, o acesso e a qualidade destes medicamentos aos pacientes em terapia oncológica. Os agentes antineoplásicos possuem janela terapêutica estreita, razão pela qual o menor erro na análise da prescrição ou manipulação pode causar sérios danos ao paciente. Cada serviço possui um perfil particular e padrão de prescrição, mas existem informações básicas que devem estar disponíveis para que o farmacêutico possa fazer a avaliação e preparo seguro de cada dose. As prescrições médicas devem contemplar no mínimo as seguintes informações: ▶ Nome do paciente, número do prontuário e data de consulta; ▶ Peso, altura, superfície corporal, idade e sexo; Resultados de avaliações laboratoriais (citar exemplo); ▶ Estadiamento da doença; ▶Protocolo recomendado; ▶Dosagem a ser administrada por intervalo de tempo; ▶Vias de administração; ▶Plano terapêutico; ▶Nome do médico, assinatura e carimbo com número de registro no conselho de classe. 8 8 Por ser de fundamental importância a avaliação da prescrição antes do preparo, a equipe de farmacêuticos do Instituto do Câncer do Ceará (ICC), estabeleceu a seguinte rotina, visando minimizar os erros de preparo e dispensação: 1. Checagem do nome do paciente, número do prontuário e número do atendimento do mesmo, para evitar erros de preparo e de dispensação para outro paciente; 2. Avaliação do protocolo prescrito, verificando se está de acordo com o padronizado. O ideal é que os medicamentos não sejam prescritos por siglas, para evitar confusões no preparo. 3. Checagem dos diluentes, verificando se há incompatibilidade físico- química com os citostáticos. 4. Verificação de dose, posologia e interação dos medicamentos de suporte (antieméticos, corticoides, estimulantes de crescimento de colônias, hidratação, etc). 5. Checagem do cálculo da dose prescrita, baseado na superfície corporal do paciente e se está de acordo as doses definidas no protocolo do paciente. Os valores de superfície corpórea devem ser sempre os mais recentes, pois permitem o cálculo adequado e conferência correta das doses. 6. Via e velocidade administração dos medicamentos. 7. Esquemas de infusão da quimioterapia e posologia: se estão de acordo com o que é preconizado no protocolo. 8. Verificação da duração dos ciclos, número apropriado das doses e os dias de terapia. Caso haja não conformidades na avaliação da prescrição pelo farmacêutico, o médico prescritor é contactado para que sejam feitas as devidas correções. Uma das grandes vantagens do trabalho em equipe, especialmente na EMTA, é que o farmacêutico realiza as intervenções 9 9 necessárias, além de propor melhorias nos processos e padronização de condutas relevantes, relacionadas à descrição médica. Deve-se salientar, ainda, que, além da análise da prescrição, o farmacêutico deve monitorar todas as etapas que envolvem a manipulação propriamente dita, tais como: a aquisição, o armazenamento, o preparo, a dispensação, o transporte e a administração do medicamento ao paciente. 4. FARMÁCIA CLÍNICA Ainda no início do século XX, a farmácia estava ligada ao desenho do boticário, estabelecimento com o papel de preparar e comercializar produtos com efeitos curativos. Este ofício tradicional teve sua ascensão quando a elaboração de medicamentos começou a ser exercida gradualmente pela manufatura farmacêutica, subsequente a Segunda Guerra Mundial. Um desacerto entre a instauração do profissional e as atuações exigidas pela sociedade, aliado a frustração que muitos profissionais sentiam em relação aos conhecimentos adquiridos na graduação que já eram mais aproveitados de forma constante na prática cotidiana, pois acabavam se perdendo, motivou os profissionais farmacêuticos que agiam na área assistencialista, a darem início a operacionalidade de dispensar produtos farmacêutico. A Farmácia Clínica nasceu ainda na década de 1960 nos Estados Unidos e vigorava no âmbito hospitalar. Posteriormente houve a distorção da função do profissional farmacêutico, onde o mesmo era visto como um vendedor de medicamentos. Este foi um fator motivador gerado pela grande insatisfação, pois muitos deles culpavam a o avanço da tecnologia pela fragmentação de sua atuação. 10 10 A farmácia clínica é uma área da farmácia que se concentra no uso seguro e eficaz dos medicamentos em pacientes. Os farmacêuticos clínicos, que trabalham na farmácia clínica, desempenham um papel crucial na otimização da terapia medicamentosa, colaborando com outros profissionais de saúde para garantir o melhor resultado possível paraos pacientes. Algumas das principais funções e responsabilidades da farmácia clínica Revisão da Medicação: Os farmacêuticos clínicos revisam as prescrições médicas para garantir que os medicamentos sejam apropriados, eficazes e seguros para o paciente. Avaliação do Paciente: Eles avaliam o histórico médico do paciente, incluindo condições pré- existentes, alergias a medicamentos e outros fatores relevantes. Educação do Paciente: Fornecem informações e orientações aos pacientes sobre o uso adequado dos medicamentos, efeitos colaterais, interações medicamentosas e medidas para melhorar a adesão ao tratamento. Monitoramento Terapêutico: Monitoram os resultados da terapia medicamentosa, como testes de laboratório, para garantir que os medicamentos estejam produzindo os efeitos desejados. Colaboração Interprofissional: Trabalham em estreita colaboração com outros profissionais de saúde, como médicos, enfermeiros e terapeutas, para garantir uma abordagem integrada e coordenada ao tratamento do paciente. 11 11 Gestão de Problemas Relacionados a Medicamentos: Identificam e resolvem problemas relacionados a medicamentos, como efeitos colaterais, falta de eficácia ou questões de adesão. Desenvolvimento de Protocolos Clínicos: Participam no desenvolvimento e implementação de protocolos clínicos para otimizar o uso de medicamentos em diversas condições de saúde. Promoção da Segurança do Paciente: Trabalham para prevenir erros de medicação, interações medicamentosas prejudiciais e outros eventos adversos relacionados a medicamentos. A farmácia clínica desempenha um papel vital na prestação de cuidados de saúde abrangentes e individualizados. Essa abordagem centrada no paciente ajuda a maximizar os benefícios dos medicamentos, minimizando os riscos associados ao seu uso. Os Conselhos Regionais de Farmácia (CRFs) são entidades autônomas e fiscalizadoras que têm como principal objetivo regular e fiscalizar o exercício da profissão farmacêutica em suas respectivas regiões. Suas atribuições estão relacionadas à garantia da qualidade dos serviços farmacêuticos e à proteção da sociedade. As principais atribuições do Conselho Regional de Farmácia incluem: Registro Profissional: Emitir carteiras profissionais e registrar os farmacêuticos legalmente habilitados para o exercício da profissão em sua jurisdição. Fiscalização: Fiscalizar o exercício profissional, as atividades e os estabelecimentos farmacêuticos, garantindo que estejam em conformidade com as normas éticas e técnicas. 12 12 Normatização: Elaborar normas e regulamentos relacionados ao exercício da profissão farmacêutica, em conformidade com as leis federais e diretrizes nacionais. Ética Profissional: Atuar na promoção da ética profissional, recebendo denúncias e realizando processos ético-disciplinares quando necessário. Educação Continuada: Estimular e promover a educação continuada dos profissionais farmacêuticos, visando o aprimoramento técnico e científico. Orientação à População: Prestar orientações à população sobre o uso correto de medicamentos, serviços farmacêuticos e demais atividades relacionadas à área. Ações Legais: Adotar medidas judiciais e administrativas quando necessário para garantir o cumprimento das leis e normas relacionadas à profissão farmacêutica. Colaboração com Órgãos de Saúde: Colaborar com órgãos de saúde, autoridades sanitárias e demais entidades relacionadas à área da saúde para promover a melhoria da qualidade dos serviços. É importante ressaltar que a atuação dos CRFs está vinculada à regulamentação federal, mas eles têm autonomia para gerir suas atividades dentro dos limites estabelecidos pela legislação. Cada estado ou região do país possui seu próprio Conselho Regional de Farmácia, subordinado ao Conselho Federal de Farmácia (CFF), que é a entidade máxima de regulamentação da profissão no Brasil. 5. ATENÇÃO FARMACÊUTICA O Farmacêutico Clínico é um profissional capaz a perceber sintomas e sinais, monitorar, praticar a terapia medicamentosa e sobre tudo fazer orientações ao paciente. 13 13 O farmacêutico tem como pilar da sua atividade em assistência em saúde, garantir que os pacientes recebam os medicamentos de forma segura, acompanhar possíveis eventos adversos relacionados a medicamentos durante o seguimento farmacoterapêutico e esclarecer dúvidas sobre medicamentos a membros de Equipes Médica e Multidisciplinar (BRASIL., 2013 apud DEPARTAMENTO DE APOIO TÉCNICO E EDUCAÇÃO PERMANENTE COMISSÃO ASSESSORA DE FARMÁCIA CLÍNICA SÃO PAULO, 2019). A Assistência Farmacêutica é definida como “grupo de atividades relacionadas com o medicamento, destinada a apoiar as ações de saúde demandadas por uma comunidade” (GONÇALVES ,1996 apud SOUZA, 2011). Envolve diversas etapas desde a seleção de medicamentos até sua utilização, interligando duas grandes áreas, porém distintas, a tecnologia de gestão e a tecnologia de uso do medicamento. A tecnologia de gestão tem como objetivo maior garantir o abastecimento e o acesso aos medicamentos enquanto a tecnologia de uso dos medicamentos visa o uso correto e efetivo dos medicamentos, e é neste contexto que se inserem as atividades de farmácia clínica. Farmácia clínica pode ser entendida como “a ciência da saúde cuja responsabilidade é assegurar, mediante a aplicação de conhecimento que o uso dos medicamentos seja correto e adequado”. Ainda para o desenvolvimento desta atividade há a necessidade de educação especializada e treinamento estruturado, além de coleta e interpretação de da dos, motivação pelo paciente e integração entre os profissionais da equipe de saúde. A atuação do farmacêutico junto aos pacientes e integrado à uma equipe multiprofissional é uma opção mais avançada para o pleno exercício da profissão farmacêutica e tem como objetivo aprimorar os conceitos de segurança e melhor utilização da farmacoterapia. Os resultados positivos podem ser observa dos na identificação e resolução de problemas relacionados à medicamentos que favorecem a prática de uma terapia medicamentosa mais segura e racional e que melhorem a qualidade de vida do paciente. O farmacêutico clínico atua diminuindo a alta incidência de erros de medicação, de reações adversas a medicamentos, interações medicamentosas 14 14 e incompatibilidades e a implantação de um Serviço de Farmácia Clínica possibilita o aumento da segurança e da qualidade da atenção ao paciente, redução de custos e aumento da eficiência hospitalar. Na Farmácia Clínica o farmacêutico insere-se como um dos principais profissionais envolvidos no combate ao uso irracional de medicamento. Através da realização de atividades clínicas e da avaliação do impacto dessa atividade, atua como o último elo entre a prescrição e a administração dos medicamentos contribuindo significativamente, para melhoria da farmacoterapia (SBRAFH, 2009 apud SOUZA, 2011). A Farmácia Clínica pressupõe que o farmacêutico estabeleça relacionamento ativo com os demais membros da equipe de saúde presentes no ambiente hospitalar, principalmente médicos e enfermeiros. Porém, também pressupõe o contato com os pacientes, para assim assegurar resultados clinicam ente apropriados para a farmacoterapia. Neste contexto, o paciente é objeto principal das atividades do farmacêutico hospitalar, enquanto o medicamento é um dos instrumentos utilizados para a melhoria das condições de saúde de um indivíduo. 5.1 Diretrizes e acompanhamento farmacoterapêuticoO serviço clínico pelo qual o farmacêutico avalia os resultados obtidos pela ação dos medicamentos, associados ou não, a outras medidas de cuidado à saúde é definido como acompanhamento farmacoterapêutico. Fundamenta-se no gerenciamento da farmacoterapia, identificando possíveis fatores de risco e eventuais problemas relacionados ao uso dos medicamentos, assim como avalia o alcance das metas terapêuticas. A Resolução CFF nº 585/2013 coloca como uma das atribuições clínicas do farmacêutico relativas ao cuidado à saúde, nos âmbitos individual e coletivo, a provisão da consulta farmacêutica em consultório farmacêutico ou em outro ambiente adequado, que garanta a privacidade do atendimento. A normativa define ainda que a consulta farmacêutica é o atendimento a o paciente, respeitando os princípios éticos e profissionais, com 15 15 a finalidade de obter os melhores resultados com a farmacoterapia e promover o uso racional de medicamentos e de outras tecnologias em saúde. Para a realização do seguimento farmacoterapêutico, faz-se necessária a participação da equipe multidisciplinar: enfermeiros, auxiliares e técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, nutricionistas, médicos e o farmacêutico, que nesse caso é o profissional de maior envolvimento em monitorar o uso de medicamentos nos pacientes. O seguimento não atua somente na prevenção de um problema relacionado ao medicamento, mas de forma integral nos problemas que os pacientes apresentam. É importante que o farmacêutico mantenha um diálogo com o paciente e faça desse momento uma parceria, sendo que o farmacêutico deve assegurar ao paciente que os medicamentos que ele faz uso são os mais efetivos e seguros possíveis. Para isso o seguimento farmacoterapêutico necessita da elaboração de métodos que visem a uma intervenção eficaz e tudo deve ser documentado de forma sistematizada, garantindo o registro de todas as atividades clínicas do profissional. Deve ser preenchida fichas de entrevista com o paciente; esses formulários são ferramentas úteis para consultas e toma das de decisão, são informações que auxiliam na hora de realizar a atenção farmacêutica. É de grande valia que o farmacêutico colete, obtenha todos os dados sobre o paciente, para que isso sirva para avaliação da sua evolução clínica, visando à solução de casos relacionados a medicamentos e o desenvolvimento do plano de assistência multidisciplinar. 16 16 6. INTERVENÇÕES FARMACÊUTICAS Todas as ações em que o profissional farmacêutico esteja participando de forma ativa, isto é, decisões frente à terapia de pacientes bem como avaliação dos resultados, pode ser entendida como Intervenções Farmacêuticas. Trata-se de uma fase que antecede o acompanhamento farmacoterápico no âmbito da Atenção Farmacêutica e Farmácia Clínica. Este é o momento mais importante, uma vez que o profissional farmacêutico pode estar fazendo as orientações devidas aos pacientes e atuando de forma efetiva junto aos outros profissionais da equipe de saúde, com vistas a perceber e prevenir problemas alistados aos medicamentos, somando nesta efetividade a diminuição de riscos no círculo da farmacoterapia (ZUBIOLI, 2000). Um dos maiores desafios para o profissional farmacêutico é efetivar o acompanhamento farmacoterapêutico. Contudo, é de grande valia na utilização para o prosseguimento de pacientes diabéticos e /ou hipertensos, paciente internados em Unidade de Terapia Intensiva, e mais atualmente em pacientes com diagnóstico de Câncer. Este acompanhamento pode ser ainda avaliado como um artifício importante frente ao planejamento de forma documentada que se concretiza junto aos pacientes e profissionais de saúde, onde, o farmacêutico se propõe a prevenir e resolver problemas que venham interferir na farmacoterapia. Um dos artifícios mais empregados para o prosseguimento farmacoterapêutico é o Dader, nascido no ano de 1999 na Universidade de Granada na Espanha (STURARO, 2009). Existem dois meios de intervenção farmacêutica no âmbito da atenção farmacêutica, podendo ser entre Farmacêutico-Paciente e/ou entre Farmacêutico Doente-Médico. 17 17 A primeira situação se dá quando há problemas relacionados com medicamentos (PRM); e a segunda situação se dá quando não ocorrem os efeitos esperados dentro da farmacoterapia escolhida, ou ainda quando existe um problema de saúde com necessidade de diagnóstico médico. Considera-se uma intervenção aceita, quando o doente ou o médico modificam o uso do medicamento para tratar o problema em consequência da intervenção do farmacêutico. (MACHUCA; FERNANDEZ-LLIMOS; FAUS, 2003). Embora no Brasil, a importância do farmacêutico clínico na prevenção, detecção precoce e resolução dos PRM´s, já se mostram evidente, ainda há um longo caminho a percorrer. A necessidade de incluir o farmacêutico clínico nas equipes de saúde é benvinda, visto que a incidência de erros de medicação ainda é alarmante e que as intervenções do farmacêutico podem gerar benefícios diretos para a segurança do paciente, bem como, proporcionar melhoria na qualidade do cuidado. Além disso, o processo de uso de medicamentos é dinâmico e as intervenções feitas pelo farmacêutico clínico podem melhorar os resultados terapêuticos, garantindo segurança, eficácia e custo-efetividade da farmacoterapia (REIS, et. al.; 2013). Sabe-se que a Farmácia Clínica é extremamente nova para o profissional farmacêutico e veio a cunhar muita preocupação dentre os profissionais farmacêuticos que acabaram sendo distanciados desta prática pela carga de trabalho da indústria farmacêutica e áreas de atuação do profissional farmacêutico dificultando sua proximidade com o paciente e outros profissionais da saúde. Contudo, é correto afirmar que o farmacêutico clínico é capacitado para programar e orientar o paciente, agindo em conjunto com os demais profissionais de saúde. Um grande desafio para a classe farmacêutica é o ato de conseguir alterar as condutas, agrupando em seu método de trabalho um modelo que possa proporcionar a ele o direito de assumir a responsabilidade com a farmacoterapia 18 18 atuando de forma a ser um agente que obtenha êxito frente ao uso racional de medicamentos. Entende-se assim a necessidade de conscientização de instituições hospitalares sobre os vários melhoramentos que a intervenção farmacêutica pode proporcionar a fim de que a mesma seja conquistada no meio profissional e também dos pacientes, colaborando assim, para o resultado final da terapia medicamentosa, que é a melhoria da qualidade de vida do paciente. Portanto, a junção do profissional farmacêutico com o médico e demais profissionais da saúde tende a melhores resultados frente ao acompanhamento farmacoterapêutico, fortalecendo o aconselhamento junto aos pacientes. Nesta perspectiva, percebe-se a importância que existe na intervenção clínica do farmacêutico. Deste modo, será possível que haja neste enlace, maior aderência diante da terapêutica medicamentosa, com redução no número de prescrições e seus relativos problemas e possivelmente diminuição da taxa de hospitalização. Diante das colocações aqui expostas, há um interesse de fazer com que os profissionais farmacêuticos passem a se conscientizar da importância e valor que seu ofício tem diante do universo terapêutico, para não ser visto apenas como fabricante e distribuidor de medicamentos. O farmacêutico é um profissional inserido na técnica clínico altamentecapacitado para desenvolver o seu trabalho visando proporcionar ao paciente farmacoterapia efetiva e segura. 19 19 7. ORGANIZAÇÃO E PRÁTICAS DA ASSISTÊNCIA FARMACÊUTICA EM ONCOLOGIA NO ÂMBITO DO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE No Brasil, segundo a Política Nacional para a Prevenção e Controle do Câncer, a AF deve estar organizada para atender às necessidades do tratamento oncológico, de acordo com o plano regional de organização das linhas de cuidado dos diversos tipos de câncer, e com as regras de incorporação de tecnologias no Sistema Único de Saúde (SUS). É compreendida como um (sub)componente diagonal e essencial para os demais pontos de atenção da rede, devendo atuar, de forma articulada, com estes, em prol da integralidade do cuidado e da efetividade e qualidade da assistência prestada ao indivíduo com câncer. As atividades da AF deverão ser realizadas de forma multiprofissional, interdisciplinar e intersetorial, articulando e integrando as ações e serviços, em suas múltiplas dimensões, realizadas nos diferentes níveis de atenção à saúde. No contexto macropolítico, as atividades estão direcionadas ao estabelecimento de princípios e diretrizes que busquem garantir o acesso e a racionalidade do uso dos medicamentos antineoplásicos. Na lógica da gestão, para ser eficiente, a AF deve ser integrada ao cuidado prestado, englobando duas grandes vertentes complementares: uma relativa à gestão técnica da AF (macrogestão) e a outra à gestão clínica do medicamento (micro gestão). Ambas auxiliam na obtenção de resultados clínicos, econômicos e humanísticos positivos em saúde. Para garantir o funcionamento adequado da Rede de Atenção Oncológica, são responsabilidade dos entes municipais: o planejamento, a programação e a organização das ações e serviços de saúde necessários para a realização do cuidado integral ao paciente oncológico. No entanto, a estruturação da AF em oncologia vem sendo atravessada por inúmeros fatores contextuais relacionados à própria organização da área, especialmente quanto: às dificuldades de acesso e continuidade do tratamento, 20 20 insuficiência de financiamento, problemas relativos à oferta de serviços e limitações na integração entre os diversos pontos de atenção à saúde. A legislação sanitária brasileira preconiza que a preparação da terapia antineoplásica deve ser realizada por profissionais de nível Superior na área da saúde. A realização da manipulação por profissionais pouco capacitados pode favorecer a exposição ocupacional, as falhas no processo e os riscos aos pacientes. Conforme apontado, a farmacêutica buscou explicações para a prática adotada justamente na segurança do paciente, além de mencionar também o número limitado de farmacêuticos atuando em oncologia (dois) na unidade. Questões relacionadas ao grande volume de atendimento em relação ao número de farmacêuticos também foram destacadas por outras unidades. A excessiva quantidade de trabalho é um dos principais motivos de erros cometidos pelos trabalhadores, além de ser importante causa de adoecimento. Outra questão refere-se à ausência de documentos estruturantes da AF em algumas unidades. Esta situação compromete a organização do cuidado e as práticas desenvolvidas. É fundamental que pacientes e cuidadores sejam adequadamente orientados quanto aos cuidados com armazenamento, administração e descarte. Para alguns pacientes, se faz necessária a adoção de estratégias que favoreçam a adesão à terapia, além de ações voltadas para a detecção e manejo das reações adversas a medicamentos. 8. FINANCIAMENTO O financiamento é um recurso de caráter indutor para o desenvolvimento das ações e serviços de saúde. No que se refere à assistência farmacêutica, os valores financeiros podem ser alocados para aquisição de medicamentos e para a estruturação de serviços. 21 21 No SUS, o financiamento da quimioterapia não é relacionado ao medicamento empregado, mas ao procedimento realizado. O ressarcimento do tratamento refere-se a um valor médio mensal, segundo o esquema terapêutico utilizado. A aquisição e o fornecimento dos medicamentos são de responsabilidade do prestador de serviço contratualizado. Somente após a realização do procedimento, deverá ser preenchida a Autorização de Procedimento de Alta Complexidade (APAC) para que ocorra a indenização. Foi consenso entre os entrevistados que o financiamento do tratamento oncológico tem sido insuficiente. “Então, houve um achatamento do financiamento num todo e houve essa disparada do quimioterápico em específico, tanto em diversidade [...] mas principalmente em custo.” (GR4) É importante observar que o valor financiado, por meio da APAC, não contempla o pagamento do tratamento de cuidados paliativos e dos medicamentos de suporte necessários para o controle das doenças, sinais e sintomas apresentados após administração da quimioterapia ambulatorial. Esta questão tem se traduzido em importante coerção para a ação dos agentes, uma vez que, em alguns municípios, o paciente não recebe todo o seu tratamento, nem na unidade habilitada ou nos estabelecimentos municipais. As compras dos medicamentos de suporte da quimioterapia, que eram dispensados, ambulatorialmente, pelas unidades públicas (2 e 4) aconteciam por financiamento institucional. Diversos antineoplásicos provoca efeitos mediatos e tardios, que, se não forem adequadamente controlados, poderão comprometer todo o tratamento, por impedir que o paciente realize um novo ciclo de quimioterapia, e a continuidade de cuidado. Além de perversa para os pacientes, a não garantia do cuidado integral em oncologia promove ineficiência no uso dos recursos públicos. A fala de uma das entrevistadas traz uma reflexão importante sobre o tema. “... a incidência de câncer tá sendo volumosa... e infelizmente a gente está vendo os pacientes chegarem muito tarde. Então, o custo na oncologia tá ficando muito oneroso... Você não consegue tratar o 22 22 paciente com aquela expectativa de que você trata um pouco e vai curar. Não, você vai tratar até ele morrer.” (MED4). A entrevistada estabelece um nexo causal entre incidência, desarticulação da rede e necessidade de uso de terapias mais custosas na fase de tratamento. Todo o investimento que será empregado terá um único desfecho – a morte. Siqueira et al., ao analisarem o impacto econômico do câncer para o SUS, identificaram que, embora exista um aumento histórico no financiamento da atenção oncológica, 63% do custo total estão relacionados à mortalidade por câncer. A revisão desta lógica é imperiosa. A rede de atenção oncológica precisa ser amplamente estruturada. Significa dizer que todos os serviços precisam ser fortalecidos, que o conhecimento sobre o câncer deve ser amplamente divulgado e que o combate aos fatores de risco e o diagnóstico precoce sejam questões centrais no enfrentamento das neoplasias. Na lógica do financiamento, um tema que se destacou foi a farmacoeconomia, que constitui uma estratégia para melhorar a eficiência dos gastos com medicamentos em relação aos resultados clínicos. É uma importante ferramenta para a gestão pública, pois, auxilia o processo de tomada de decisão, especialmente em oncologia, devido ao número significativo de opções terapêuticas para um mesmo tipo de tumor e ao alto custo dos medicamentos. Uma das entrevistadas aponta para a necessidade de realização do uso deste instrumental para a revisão dos valoresdas APAC. “Na realidade, é mais a questão do valor que a APAC ‘institucional’ [adota] para aquele tratamento [...] por mais que a gente saiba que todo mundo tem câncer de mama, os cânceres de mama não são iguais [...] tem medicações direcionadas para mutações específicas [...] Então seria para beneficiar quem tem essas alterações. Mas [...] o próprio SUS não cobre a pesquisa de muitas mutações... Então fica difícil indicar remédios onde a gente não consegue fazer o diagnóstico [molecular]... Mas que a gente sabe que uma parcela vai ter esse diagnóstico, [...] e, tendo, tem o benefício das medicações. É uma questão de atualização de valores e do custo x benefício.” (MED2). 23 23 É possível perceber a preocupação da entrevistada em não onerar o sistema, mas de promover racionalidade ao processo. Sabendo que o câncer tem causas multifatoriais e genéticas, realizar diagnóstico molecular é extremamente relevante, antes da definição da indicação terapêutica. Esta estratégia, também, é importante para fomentar a pesquisa e aperfeiçoar as políticas de atenção em oncologia e o processo de avaliação de tecnologias em saúde. Outro ponto a ser fortalecido, no contexto do financiamento, se refere à auditoria terapêutica, uma vez que os entrevistados relataram que este processo não tem sido frequente. A auditoria em saúde é entendida como um conjunto de procedimentos técnicos utilizados para avaliar a assistência prestada, utilizando, como base, parâmetros considerados aceitáveis, com o intuito de se evitar o desperdício dos recursos públicos e de se promover economicidade. Em oncologia, a auditoria é prevista em regulamentação, sendo importante instrumento de qualificação, eficiência e resolutividade da gestão. Porém, os processos de auditoria no SUS não são regulares, além de serem atravessados por interesses políticos e econômicos, que direcionam aonde e como serão realizadas. 9. TECNOLOGIAS As tecnologias em saúde são importantes recursos alocativos. Para a obtenção do máximo benefício, o seu uso deve ser acompanhado da divulgação de informações adequadas. A incorporação de tecnologias nos sistemas de saúde deve ser precedida por uma etapa de avaliação que considera aspectos éticos, características de eficácia e segurança das tecnologias, questões econômicas e sua contribuição para a promoção, manutenção ou reabilitação da saúde. 24 24 É importante, portanto, que haja um grupo responsável por avaliar tais aspectos, podendo ser um Núcleo de Avaliação de Tecnologias ou uma Comissão de Farmácia e Terapêutica. Em oncologia, o processo de incorporação de tecnologias é complexo devido ao grande número de inovações, ao alto custo das novas terapias e ao elevado grau de incerteza sobre os benefícios aos usuários. “Poxa, eu não sei te informar. Se tem uma comissão eu não sei, sinceramente eu não sei.” (MED5) “... o Sistema Único de Saúde demora muito a incluir vários tipos de drogas no nosso protocolo. E o maior exemplo que a gente tem é a presença do trastuzumabe mesmo, no tratamento da mama metastática...” (MED1). O processo de análise para incorporação de medicamentos pela Conitec deve considerar as evidências científicas sobre benefícios clínicos e econômicos que o medicamento apresenta em relação às tecnologias já incorporadas no SUS. É comum observar, nos relatórios emitidos pela comissão, menção sobre a inexistência de dados de vida real em pacientes brasileiros, que suportem a tomada de decisão. Apesar da veracidade do argumento, não se podem negar as dificuldades em realizar esses estudos, devido: à desarticulação da rede de atenção, a ausência de informações fidedignas sobre as terapias utilizadas nas instituições e a inexistente mensuração de resultados clínicos com as práticas realizadas. A utilização de evidências científicas, de caráter clínico e econômico, capazes de nortearem a tomada de decisão, é recomendada para o adequado processo de avaliação de tecnologia. Apenas uma unidade descreveu ter acesso e utilizar as bases de dados eletrônicas que fornecem informações científicas. Porém, a iniciativa era individual, e não institucional. O uso insuficiente das evidências científicas tem sido relacionado a variados fatores, desde dificuldades para interpretar, adaptar e aplicar o conhecimento científico, até as barreiras de acesso à literatura, especialmente pelo fato de que muitas bases de dados são pagas. 25 25 A falta de acesso à informação atualizada e adequada favorece escolhas tendenciosas e equivocadas. Na atenção oncológica, área em que acontecem atualizações frequentes, o emprego da evidência científica qualifica o cuidado, minimiza o risco do uso inapropriado das tecnologias e dos recursos financeiros, e proporciona maior qualidade de vida para as pessoas com câncer. Ademais, é essencial, para o alcance da integralidade do cuidado, a adoção de mecanismos de informação sobre as tecnologias incorporadas. A informação sobre medicamentos é entendida como um direito do cidadão, uma vez que sua ausência traz riscos que podem ser danosos à vida. Nenhum dos municípios e das unidades habilitadas visitadas relatou possuir um serviço formal de informações sobre medicamentos para pacientes e/ou profissionais. A atuação do farmacêutico em oncologia é uma realidade presente em praticamente todos os serviços de quimioterapia. Embora tenha iniciado sua atuação exclusivamente nas atividades de manipulação e gerenciamento de quimioterápicos, tornou-se peça fundamental para a garantia de qualidade dos procedimentos. Além das atribuições relacionadas ao preparo da terapia antineoplásica, cabe ao farmacêutico compor a equipe multiprofissional nas visitas aos pacientes submetidos ao tratamento oncológico. Conhecer os aspectos farmacológicos, suas propriedades, mecanismos e efeitos adversos dos medicamentos, é o principal fator para o sucesso e qualidade da farmacoterapia de um paciente, uma vez que faz do farmacêutico uma peça fundamental em todo o processo de tratamento. Há anos o farmacêutico vem ampliando a sua atuação no universo da oncologia, desde que o Conselho Federal de Farmácia estabeleceu que é uma função privativa do farmacêutico a competência para o exercício da atividade de manipulação de drogas antineoplásicas e similares nos estabelecimentos de saúde, e no exercício desta atividade tendo também outras atribuições relacionadas. Diante do crescimento no número de pacientes oncológicos inseridos em protocolos onde há necessidade de terapia antineoplásica, se faz necessário o esclarecimento sobre os medicamentos ao paciente. 26 26 Logo, o farmacêutico é um profissional indispensável na equipe multiprofissional do tratamento oncológico, qualificado a desenvolver várias funções dentro da equipe multidisciplinar, como Atenção Farmacêutica aos pacientes oncológicos e informações aos demais profissionais da equipe de saúde. Assim, o farmacêutico vai agregando atitudes, valores éticos, habilidades, responsabilidade na prevenção de doenças e recuperação da saúde com a integração da equipe. É a relação mais próxima do farmacêutico com o usuário de medicamentos, levando a uma farmacoterapia racional com a obtenção de resultados voltados a melhoria da qualidade de vida. Os pacientes se sentem amparados quanto às informações relacionadas à ação dos fármacos, seus efeitos adversos, às interações medicamentosas e ao desenvolvimento do tratamento, podendo contribuirsignificativamente para o seu sucesso, até porque muitos pacientes relutam em aderir a um tratamento, pois não foram esclarecidos devidamente. O processo de atenção farmacêutica começa quando o paciente disponibiliza informações a respeito do seu tratamento, sendo que as primeiras referências são coletadas no prontuário médico e comprovadas por meio de entrevista com o paciente, permitindo que o farmacêutico analise a indicação e a posologia de cada medicamento em uso, averiguando interações medicamentosas, condições de armazenamento e verificando problemas relacionados aos medicamentos. É uma atividade específica do farmacêutico no cuidado do paciente ou usuário de medicamento. Compreende a educação em saúde, orientação farmacêutica, dispensação, atendimento farmacêutico, acompanhamento farmacoterapêutico, registro sistemático das atividades, determinação e estimativa dos resultados. O farmacêutico deve relacionar-se de maneira ativa com o paciente buscando solucionar problemas que envolvam ou não o uso de medicamentos e acompanhar seus resultados, para que desta forma, a dispensação do medicamento ao paciente seja feita de forma consciente e segura. 27 27 Os eventos adversos da terapia oncológica são conhecidamente agressivos aos pacientes o que pode ocasionar o abandono da terapia ou também a diminuição na qualidade de vida, pelas dificuldades físicas e psicológicas que surgem no decorrer de todo o tratamento. A atenção farmacêutica ao paciente oncológico requer do profissional farmacêutico atributos mais específicos, que não somente abordem o conhecimento da detecção de problemas associados aos medicamentos, mas também adentrem o campo do aconselhamento não farmacológico, com a utilização de linguagem simples e próxima da realidade do paciente, ao ponto que este possa entender e contornar os eventos adversos de forma mais amena. Por meio de recursos utilizados pelo farmacêutico na análise de prescrição médica, a terapia antineoplásica torna-se mais segura para o paciente. Esta é uma das principais atividades do farmacêutico clínico, pois com o prontuário nas mãos e o conhecimento clínico do paciente é possível fazer o acompanhamento farmacoterapêutico analisando a prescrição quanto à dose dos medicamentos, diluição e tempo de infusão, via e frequência de administração, compatibilidade e interações. O acompanhamento farmacoterapêutico é um grande desafio para o profissional farmacêutico e se torna uma ferramenta importante para reduzir os erros com medicações, o que implica na eficácia do tratamento e na melhora da qualidade de vida. Cabe ao farmacêutico desenvolver e utilizar estratégias para favorecer a comunicação com o paciente a fim de realizar o acompanhamento farmacoterapêutico. O tratamento farmacológico deverá ser adequado à forma de vida de cada paciente, considerando suas limitações, hábitos, sua motivação para cumprir o plano terapêutico, objetivando garantir a adesão ao tratamento e melhorar a qualidade de vida do paciente. Trata-se, portanto, de uma conquista facilitada pela cumplicidade desenvolvida entre farmacêutico e paciente. O cuidado farmacêutico não envolve apenas terapia medicamentosa, mas também envolve decisões sobre o uso adequado de medicamentos para cada doente como por exemplo a seleção da dose e via de administração, a oncologia 28 28 desenvolve-se, de forma muito dinâmica e o farmacêutico é desafiado a manter- se informado sobre as novas terapias. Em contrapartida Suzuki em um estudo realizado no Japão com 583 farmacêuticos, para avaliar o seu nível de segurança em prestar esclarecimentos sobre o tratamento antineoplásicos aos pacientes em tratamento, verificou que apenas 6-10% dos farmacêuticos achavam que tinham recebido uma educação adequada sobre quimioterapia e, portanto, não se sentiam seguros o suficiente para prestar atenção farmacêutica na oncologia. Embora 81% deles, tenham participado de treinamentos continuados relacionados à oncologia, somente 54% se sentiam confortáveis em dispensar agentes anticancerígenos orais e apenas 40% em educar os pacientes sobre o tratamento. Por outro lado, os bons resultados da Atenção Farmacêutica em pacientes sob tratamento oncológico já foram verificados e atestados por vários estudos na área, entre eles, o de Nightingale, nos Estados Unidos, para testar a viabilidade e eficácia da implementação da Atenção Farmacêutica individualizada. Na Espanha, 102 pacientes participaram de um estudo realizado por Caracuel para analisar os efeitos da Atenção Farmacêutica sobre a incidência de reações adversas a medicamentos, principalmente náuseas e vômitos induzidos pela quimioterapia e foi observado que com um acompanhamento farmacoterapêutico houve uma redução de 59% destas reações, o que consequentemente melhorou a adesão ao tratamento. Outro estudo realizado na Holanda, por Lopez para verificar a incidência de interações medicamentosas em pacientes que recebiam quimioterapia e investigar a influência das intervenções farmacêuticas durante o tratamento, constatou que o farmacêutico conseguiu intervir em 20 casos onde foi identificado algum tipo de interação medicamentosa, o que ajudou a descontinuar ou modificar as prescrições solucionando assim, 94% dos casos. Chew, em uma pesquisa realizada em Cingapura, para identificar a taxa de aceitação das intervenções farmacêuticas em solucionar problemas relacionados a medicamentos, registrou um total de 331 intervenções 29 29 farmacêuticas e uma taxa de 93% de aceitação, demonstrando que esta atividade proporciona resultados positivos para a terapia de cada paciente. No Brasil foi realizado no Rio de Janeiro no Hospital do Câncer I - INCA por Couto um Projeto Piloto de Atenção Farmacêutica, onde foram realizadas intervenções farmacêuticas em 23 pacientes e houve uma aceitação de 81% dos casos, sendo que o farmacêutico contribuiu para resolução de 79% dos problemas relacionados a medicamentos. O projeto trouxe resultados positivos e significativos resultando na sua implantação permanente. Na farmácia hospitalar, o papel desempenhado pelo farmacêutico nas etapas de seleção, aquisição, armazenamento, controle e distribuição de medicamentos já é amplamente conhecido. No entanto o seu envolvimento com a farmácia clínica vem possibilitando uma participação mais efetiva no processo de acompanhamento farmacoterapêutico e aproximação do paciente. A atuação do farmacêutico clínico, através do trabalho de atenção farmacêutica, junto à equipe multiprofissional, visa promover a qualidade da terapêutica do paciente, uma vez que orienta os profissionais sobre o uso seguro e racional dos medicamentos. Este profissional é importante na identificação, correção e redução de possíveis riscos associados à terapêutica, sendo o paciente o principal beneficiário das suas ações, compete a ele acompanhar diariamente o trabalho da equipe buscando agregar seus conhecimentos farmacológicos na qualidade do trabalho assistencial. A Farmácia Clínica pressupõe que o farmacêutico estabeleça um relacionamento ativo com os demais membros da equipe de saúde, principalmente médicos e enfermeiros. Porém, também pressupõe o contato com os pacientes, para assim assegurar resultados clinicamente apropriados para a farmacoterapia, o paciente é objeto principal das atividades do farmacêutico hospitalar. O paciente oncológico sofre desde o diagnóstico da doença, passando pelo tratamento e também o período pós tratamento, enfrentando momentos de ansiedade e stress, ele se torna mais vulnerávele carente, merecendo carinho e atenção especial por parte de todos os integrantes da equipe de saúde. 30 30 A presença do farmacêutico oferecendo informações adequadas ameniza a preocupação do paciente, transmitindo mais segurança, prevendo e tratando possíveis reações adversas e, portanto, melhorando os resultados obtidos com a terapia. A prática da Atenção Farmacêutica ao paciente oncológico em tratamento é possível devido a necessidade de detectar possíveis suspeitas de problemas relacionados a medicamentos, a fim de buscar maneiras de amenizar reações adversas que acometem a grande maioria dos pacientes que estão em tratamento com antineoplásicos, visando a melhoria na qualidade de vida do paciente e uma terapia segura. Aproximando o profissional farmacêutico do paciente, muda-se a postura comumente empregada no ambiente, seja ele hospitalar ou ambulatorial, o farmacêutico passa a enxergar o paciente como foco de seu trabalho. Baseado no levantamento de dados dos artigos selecionados observou- se que a prática da atenção farmacêutica é uma atividade promissora por inúmeras razões: acessibilidade; redução de custos; melhor acompanhamento e eficácia do tratamento farmacológico; uso racional dos medicamentos; redução de problemas relacionados a medicamentos (PRM); melhoria na qualidade de vida; contribuição para adesão ao tratamento; melhoria na relação farmacêutico/paciente. Ressaltando que todas as contribuições a participação ativa do farmacêutico junto aos pacientes em tratamento e junto à equipe multiprofissional se faz necessária, pois este profissional possui qualificações para desempenhar na oncologia papel administrativo e clínico cooperando para uma terapia segura aos pacientes em tratamento e também com os membros da equipe. 31 31 10. REFERÊNCIAS: SOUZA, A. R. C. et al. Da teoria à prática: experiência de implantação das atividades de Farmácia Clínica em Hospital Oncológico. Conselho Federal de Farmácia, 2011. CONSELHO FEDERAL DE FARMÁCIA. Resolução nº 565, de 6 de Dezembro de 2012. Dá nova redação aos artigos 1º, 2º e 3º da Resolução/CFF nº 288 de 21 de Março de 1996. Diário Oficial da União. 7 Dez 2012. COSTA NM, LIMA SCS, SIMÃO TA, PINTO LFR. The potential of molecular markers to improve interventions through the natural history of oesophageal squamous cell carcinoma. Biosci Rep. 2013. Dias RISC, Barreto JOM, Vanni T, Candido AMSC, Moraes LH, Gomes MAR. Estratégias para estimular o uso de evidências científicas na tomada de decisão. Cad Saúde Colet. 2015. GADELHA MIP, MARTINS SJ, PETRAMALE CA. Oncologia: desfechos e experiências da comissão nacional de incorporação de tecnologias no Sistema Único de Saúde. Gest Saúde. 2015. GREENALL J, SHASTAY A, VAIDA AJ, U D, JONHSON PE, O’LEARY J, et al. Establishing an international baseline for medication safety in oncology: Findings from the 2012 ISMP International Medication Safety Self Assessment® for Oncology. 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