Logo Passei Direto
Buscar
Material

Prévia do material em texto

40 CAPÍTULO Como vimos no capítulo anterior, a filosofia nasce no 4 momento em que mito deixa de ser considerado a explicação mais convincente e satisfatória da realidade natural e humana. Apesar disso, a filosofia grega Períodos e representa menos uma ruptura com a teologia e mais campos de uma reformulação das narrativas míticas na tentativa de explicar a origem do mundo e das coisas. investigação da filosofia grega Ao longo de alguns séculos, suas preocupações se ampliam para as questões humanas e, depois, para que está além do mundo físico. Com os gregos, a filosofia também passa a categorizar as formas de saber e se coloca como campo privilegiado na busca do conhecimento de todas as coisas. Entrada da Moderna Academia de Atenas, na Grécia, com as estátuas dos filósofos Platão (à esquerda) e Sócrates (à direita). Atrás e acima deles podem ser vistos deuses Atena e Apolo. Foto de 2004. Duncan Hull/Arquivo da editoraOs PERÍODOS DA FILOSOFIA GREGA PERÍODO PRÉ-SOCRÁTICO OU COSMOLÓGICO Os quatro grandes períodos da filosofia grega, nos quais seu conteúdo se altera e se enriquece, são: A filosofia pré-socrática se desenvolve em cidades 1. Período pré-socrático ou cosmológico, do fim do da Jônia (na hoje chamada Ásia Menor): Mileto, Éfeso, século VII a.C. ao fim do século V a.C., quando a filo- Samos e Clazômena; em cidades da Magna Grécia (sul sofia se ocupa fundamentalmente com a origem do da atual Itália e ilha da Sicília): Crotona, Tarento, Eleia e mundo e as causas das transformações na natureza. Agrigento; e na cidade de Abdera, na Trácia (nordeste 2. Período socrático ou antropológico, do fim do do atual território da Grécia). século V a.C. ao fim do século IV a.C., quando a filo- sofia investiga as questões humanas isto é, a ética, Centros de desenvolvimento da filosofia cosmológica a política e as técnicas e busca compreender qual é 20°L o lugar do homem no mundo. Mar Negro EUROPA 3. Período sistemático, do fim do século IV a.C. ao fim Mar TRÁCIA do século III a.C., quando a filosofia busca reunir e Abdera ÁSIA Tarento sistematizar tudo quanto foi pensado pela cosmolo- Mar 40°N Maps World/Arquivo da editora Mar JONIA ÁSIA MENOR Crotona gia e pelas investigações sobre a ação humana na Tirreno Efeso MAGNA Clazômena Mar Samos Mileto Jônico Atenas ética, na política e nas técnicas. A filosofia se interes- Sicília PELOPONESO Esparta Agrigento Chipre sa em mostrar que tudo pode ser objeto do conheci- Creta N mento filosófico, desde que as leis do pensamento e M de suas demonstrações estejam firmemente estabe- ESCALA L 0 305 610 km lecidas para oferecer critérios da verdade e da ÁFRICA S ciência. Nesse período desenvolvem-se a teoria do Adaptado de: WORLD History Atlas Mapping the Human conhecimento, a psicologia e a lógica. Além disso, Journey. London: Dorling Kindersley, 2005. filósofos procuram encontrar fundamento último Os principais filósofos pré-socráticos foram: de todas as coisas. Essa investigação, séculos mais da Escola Jônica: Tales de Mileto, Anaxímenes de tarde, será designada metafísica. Mileto, Anaximandro de Mileto e Heráclito de Éfeso; 4. Período helenístico ou greco-romano, do fim do da Escola Itálica: Pitágoras de Samos, Filolau de século III a.C. ao século VI d.C. Nesse longo período, Crotona e Árquitas de Tarento; que abrange a época da hegemonia de Roma e do OS da Escola Eleata: Parmênides de Eleia e Zenão de surgimento do cristianismo, a filosofia se ocupa so- Eleia; bretudo com as questões da ética, do conhecimento humano e das relações entre o homem e a natureza, OS da Escola da Pluralidade: Empédocles de Agrigen- to, Leucipo de Abdera e Demócrito de Abdera. e de ambos com Deus. Os dois primeiros períodos da filosofia grega têm Vejamos as principais características da cosmologia: É uma explicação racional e sistemática sobre a ori- como referência filósofo Sócrates de Atenas, donde a divisão em filosofia pré-socrática e socrática. gem, ordem e transformação da natureza, da qual seres humanos fazem parte. Desse modo, ao explicar a natureza, a filosofia também explica a origem e as mudanças dos seres humanos. antropológico Busca princípio natural, eterno e imperecível, gera- Em grego, ântropos quer dizer 'homem'; por isso, dor de todos seres. A cosmologia não admite a período socrático, centrado nas questões humanas, criação do mundo a partir do nada; ela afirma a gera- foi chamado antropológico. ção de todas as coisas por um princípio natural deA filosofia 42 UNIDADE I onde tudo vem e para onde tudo retorna. Esse novo-velho, pequeno-grande, bom-mau, cheio-vazio, princípio é a physis, causa natural contínua e im- um-muitos, vivo-morto, etc., e também no sentido perecível da existência de todos seres e de suas inverso, noite-dia, escuro-claro, frio-quente, muitos- transformações. A physis não pode ser conhecida -um, etc. Essa passagem obedece a leis determinadas pela percepção, pelos sentidos (esses só nos ofere- pela physis. cem as coisas já existentes), mas apenas pelo pensa- Embora todos pré-socráticos afirmassem as mento. Em outras palavras, ela é aquilo que o ideias que acabamos de expor, nem por isso concor- pensamento descobre ao indagar a causa da existên- daram ao determinar que era a physis. Assim, Tales cia e da transformação de todos seres percebidos. dizia que a physis era a água ou úmido; Anaximan- A physis é a natureza em sua totalidade, isto é, enten- dro considerava que era o ilimitado, sem qualidades dida como princípio e causa primordial da existência definidas; Anaxímenes, que era ar ou frio; Pitágo- e das transformações das coisas naturais (os seres ras julgava que era número (entendido como estru- humanos aí incluídos) e como conjunto organiza- tura e relação proporcional entre elementos que do de todos seres naturais ou físicos. compõem as coisas); Heráclito afirmou que era fogo; Afirma que, embora a physis seja imperecível, ela dá Empédocles, que eram quatro raízes (úmido, seco, origem a todos seres infinitamente variados e di- quente e frio); Anaxágoras, que eram sementes que ferentes do mundo, que são seres perecíveis ou mor- contêm elementos de todas as coisas; Leucipo e tais. A physis é imortal e as coisas físicas são mortais. Demócrito disseram que eram átomos. Afirma que, embora a physis seja imutável, seres fí- sicos ou naturais gerados por ela, além de serem mor- PERÍODO SOCRÁTICO tais, são mutáveis. Como os seres estão em contínua OU ANTROPOLÓGICO transformação, mundo está numa mudança contí- nua, sem por isso perder sua forma, sua ordem e sua Com desenvolvimento das cidades, do comércio, estabilidade. Qualquer tipo de mudança nascer; do artesanato e das artes militares, Atenas tornou-se o mudar de qualidade, de quantidade, de um lugar para centro da vida social, política e cultural da Grécia. Em outro; perecer se diz em grego kinésis ('movimento'). seu período de esplendor, conhecido como Século de As coisas naturais se movem ou são movidas por ou- Péricles, a democracia floresceu. Dela, é possível ressal- tros e o mundo está em movimento ou transforma- tar duas características de grande importância para o ção permanente. O movimento das coisas e do mun- futuro da filosofia. do chama-se devir, e devir segue leis rigorosas que o Em primeiro lugar, afirmava a igualdade de todos pensamento conhece. Essas leis mostram que toda homens adultos livres perante as leis. Em segundo, ga- mudança é a passagem de um estado ao seu contrá- rantia a todos eles a participação direta no governo da rio: dia-noite, claro-escuro, quente-frio, seco-úmido, pólis, e que dele participavam tinham o direito de exprimir, discutir e defender em público suas opiniões sobre as decisões que a cidade deveria tomar. Surgia, assim, a figura política do cidadão. Design Pics Inc./Alamy/Other Images physis Palavra grega que significa 'fazer surgir, fazer brotar, fazer nascer, produzir'. cidadania na Atenas antiga Lagarta em estágio final de formação de Embora tivesse sentido de mediante crisálida. Embora a a qual um membro da pólis possa exercer seu physis seja imutável, direito de participar da vida conceito seres físicos ou de cidadania excluía aqueles que gregos naturais gerados por chamavam de dependentes: mulheres, escravos, ela são mutáveis ou crianças e idosos. Também estavam excluídos estão em contínua estrangeiros. Portanto, só a minoria da população transformação. de Atenas de fato participava de sua vida política.Períodos e campos de investigação da filosofia grega Mestres e alunos de uma Reprodução/Museu Público de Berlim, Alemanha escola de Atenas, retratados em uma vasilha grega de argila do século V a.C. 0 ideal da educação do Século de Péricles já não é a formação do jovem guerreiro, belo e bom, e sim a formação do bom cidadão. Ora, para conseguir que sua opinião fosse aceita nas Para dar aos jovens essa educação, substituindo a assembleias, o cidadão precisava ser capaz de persuadir educação antiga dos poetas, surgiram, na Grécia, os os demais. Com isso, uma mudança profunda vai sofistas, os primeiros filósofos do período socrático. ocorrer na educação grega. Os sofistas mais importantes são: Protágoras de Ab- Antes da instituição da democracia, as cidades eram dera, Górgias de Leontini e Isócrates de Atenas. dominadas pelas famílias aristocráticas, senhoras das Que diziam e faziam sofistas? Diziam que ensi- terras e do poder militar. Essas famílias criaram um pa- namentos dos filósofos cosmologistas estavam repletos drão de educação pelo qual homem ideal ou perfeito de erros e contradições e que não tinham utilidade era o guerreiro belo e bom. Belo: seu corpo era formado para a vida da pólis. Apresentavam-se como mestres de pela ginástica, pela dança e pelos jogos de guerra, imi- oratória ou de retórica, afirmando ser possível ensinar tando heróis da Guerra de Troia (Aquiles, Heitor, aos jovens essa arte para que fossem bons cidadãos. Ajax, Ulisses). Bom: seu espírito era formado escutando Que arte era essa? A arte da persuasão. Os sofistas poetas como Homero, Píndaro e Hesíodo, aprendendo ensinavam técnicas de persuasão aos jovens, que apren- com eles as virtudes admiradas pelos deuses e pratica- diam a defender a posição ou opinião A, depois a posi- das pelos heróis; a principal delas era a coragem diante ção ou opinião contrária, não A, de modo que, numa da morte, na guerra. A virtude era a aretê, própria dos assembleia, pudessem ter fortes argumentos a favor ou melhores, ou, em grego, própria dos aristoi. contra uma opinião e ganhassem a discussão. Quando a economia agrária foi sendo suplantada pelo artesanato e pelo comércio, surgiu nas cidades (particularmente em Atenas) uma classe social urbana rica que desejava exercer o poder político, até então aretê privilégio da classe aristocrática. É para responder aos Palavra grega que significa e anseios dessa nova classe social que a democracia será instituída. Com ela, 0 poder vai sendo retirado dos aris- tocratas e passado para cidadãos. Dessa maneira, o antigo ideal educativo ou pedagógico também foi sen- sofistas do substituído por outro. ideal da educação do Sé- É difícil conhecer pensamento dos sofistas culo de Péricles já não é a formação do jovem guer- porque restaram apenas fragmentos de seus textos e, principalmente, relato de seus reiro, belo e bom, e sim a formação do bom cidadão. adversários Platão, Xenofonte, Aristóteles. Assim, Ora, qual é o momento em que cidadão mais apa- não temos como saber se estes foram justos com rece e mais exerce sua cidadania? Quando opina, discu- aqueles. Historiadores mais recentes consideram sofistas verdadeiros representantes do espírito te, delibera e vota nas assembleias. Assim, a nova edu- democrático, isto é, da pluralidade conflituosa de cação estabelece como padrão ideal a formação do opiniões e interesses, enquanto seus adversários bom orador, isto é, aquele que sabe falar em público e defenderiam uma política aristocrática, na qual somente algumas opiniões e interesses teriam persuadir outros na política. direito de fato perante a sociedade.A filosofia 44 UNIDADE I Sócrates contra.os sofistas dita, aquilo em que está pensando, aquilo que está di- zendo?". "Você diz", falava Sócrates, "que a coragem é Sócrates rebelou-se contra sofistas, dizendo que importante, mas que é a coragem?", "Você acredita eles não eram filósofos, pois não tinham amor pela sa- que a justiça é importante, mas que é a justiça?", bedoria nem respeito pela verdade, defendendo qual- "Você diz que ama as coisas e as pessoas belas, mas quer ideia, se isso fosse vantajoso. Corrompiam espíri- que é a beleza?", "Você crê que seus amigos são a me- to dos jovens, pois faziam 0 erro e a mentira valerem lhor coisa que você tem, mas que é a amizade?". tanto quanto a verdade. Sócrates fazia perguntas sobre as ideias, sobre va- Como homem de seu tempo, Sócrates concordava lores nos quais gregos acreditavam e que julgavam com os sofistas em dois pontos: por um lado, a educa- conhecer. Suas perguntas deixavam interlocutores ção antiga do guerreiro belo e bom já não atendia às embaraçados, irritados, curiosos, pois, quando tenta- exigências da sociedade grega e, por outro, filósofos vam responder ao célebre "o que é?", descobriam, sur- cosmologistas defendiam ideias tão contrárias entre si presos, que não sabiam responder e que nunca tinham que também não eram fonte segura para conheci- pensado em suas crenças, valores e ideias. mento verdadeiro. Discordando dos antigos poetas, dos antigos filósofos e dos sofistas, 0 que propunha Sócrates? Propunha que, "Só sei que nada sei" antes de querer conhecer a natureza ou persuadir outros, cada um deveria conhecer-se a si mesmo. Mas 0 pior não era isso: as pessoas esperavam que Só- crates respondesse por elas ou para elas. Que soubesse as retrato que a história da filosofia possui de Sócra- tes foi traçado por seu mais importante aluno e discí- respostas às perguntas, como sofistas pareciam saber. pulo, filósofo ateniense Platão. Que retrato Platão nos Mas Sócrates, para desconcerto geral, dizia: "Eu também deixa de seu mestre Sócrates? não sei, por isso estou perguntando". Donde a famosa expressão atribuída a ele: "Só sei que nada sei". de um homem que andava pelas ruas e praças de A consciência da própria ignorância é 0 começo da Atenas, pelo mercado e pela assembleia indagando a filosofia. O que procurava Sócrates? A definição daquilo cada um: "Você sabe 0 que é isso que você está dizen- que uma coisa, uma ideia, um valor são verdadeiramen- do?", "Você sabe que é isso em que você acredita?", te. Aquilo que uma coisa, uma ideia, um valor são real- "Você acha que conhece realmente aquilo em que acre- mente em si mesmos chama-se essência. Como a essência não é dada pela percepção senso- rial, pelo que sentidos nos trazem, e sim pelo traba- lho do pensamento, procurá-la é procurar que pen- Atlantide Phototravel/Corbis/Latinstock Museu Whitney de Arte Americana, Nova York, Estados Unidos/UCS Image samento conhece da realidade e da verdade de uma coisa, de uma ideia, de um valor. Isso que 0 pensamen- to conhece da essência chama-se conceito. Sócrates procurava 0 conceito, e não a mera opinião que temos de nós mesmos, das coisas, das ideias e dos va- lores. Qual a diferença entre uma opinião e um conceito? A opinião varia de pessoa para pessoa, de lugar para lugar, de época para época. É instável, mutável, depende de cada um. conceito, ao contrário, é uma verdade intem- poral, universal e necessária que pensamento descobre, pois mostra que é a essência universal, intemporal e ne- cessária de alguma coisa. À esquerda, Vênus de Milo 130 a.C.), escultura grega que representa a deusa do amor e da beleza, Afrodite (Vênus, na cultura romana). À direita, Vênus Negra (1965-1967), da artista francesa Niki de Saint-Phalle (1930-2002). 0 que é a beleza? Qual é a essência do belo?Períodos e campos de investigação da filosofia grega 4 Por isso, Sócrates não perguntava se uma coisa era oferecer a si mesmo caminhos próprios, critérios pró- bela pois nossa opinião sobre ela pode variar -, e sim prios e meios próprios para saber que é 0 verdadeiro "O que é a beleza?", "Qual é a essência ou 0 conceito do e como alcançá-lo em tudo 0 que investigamos. belo, do justo, do amor, da amizade?". Ao buscar a definição das virtudes morais (do indiví- Sócrates perguntava: "Que razões rigorosas você pos- duo) e das virtudes políticas (do cidadão), a filosofia sui para dizer que diz e para pensar que pensa?", "Qual toma como objeto central de suas investigações a é 0 fundamento racional daquilo que você fala e pensa?". moral e a política. Cabe a ela encontrar a definição, Ora, as perguntas de Sócrates referiam-se a ideias, conceito ou a essência dessas virtudes, para além da valores, práticas e comportamentos que atenienses variedade das opiniões contrárias e diferentes. julgavam certos e verdadeiros em si mesmos e por si É feita, pela primeira vez, uma separação radical entre, mesmos. Ao suscitar dúvidas, Sócrates fazia pensar de um lado, a opinião e as imagens das coisas, trazidas não só sobre si mesmos, mas também sobre a pólis. pelos nossos órgãos dos sentidos, pelos hábitos, pelas Aquilo que parecia evidente acabava sendo percebido tradições, pelos interesses, e, de outro lado, concei- como duvidoso e incerto. tos ou as ideias. As ideias se referem à essência invisível e verdadeira das coisas e só podem ser alcançadas pelo pensamento puro, que afasta os dados sensoriais, As ideias de Sócrates hábitos recebidos, preconceitos, as opiniões. Sabemos que poderosos têm medo do pensamen- A reflexão e o trabalho do pensamento são tomados to, pois o poder é mais forte se ninguém pensar. Sem como uma purificação intelectual que permite ao pensar, todos aceitam as coisas como elas são, ou melhor, espírito humano conhecer a verdade invisível, imu- como nos dizem e nos fazem acreditar que são. Para os tável, universal e necessária. poderosos de Atenas, Sócrates tornara-se um perigo, Sócrates e Platão se diferenciam dos sofistas porque pois fazia a juventude pensar. Por isso, eles o acusaram de não aceitam a validade das opiniões e das percep- desrespeitar deuses, corromper jovens e violar as ções sensoriais, vistas como fonte de erro, mentira e leis. Levado à assembleia, Sócrates não se defendeu e foi falsidade, e repudiam que elas sejam usadas para condenado a tomar um veneno, a cicuta. produzir argumentos de persuasão. Só assim pen- Por que Sócrates não se defendeu? "Porque", dizia samento pode seguir seu caminho próprio rumo ao conhecimento verdadeiro. ele, "se eu me defender, estarei aceitando as acusações, e eu não as aceito. Se eu me defender, o que os juízes São essas ideias que, de maneira alegórica ou simbó- lica, encontramos na exposição platônica do Mito da vão exigir de mim? Que eu pare de filosofar. Mas eu pre- firo a morte a ter de renunciar à filosofia". Caverna, que apresentamos no Capítulo 1. Nesse mito ou alegoria, Platão estabelece uma distinção decisiva Sócrates nunca escreveu. O que sabemos de seu para toda a história da filosofia e das ciências: a diferen- pensamento encontra-se nas obras de seus vários ça entre sensível e inteligível. discípulos, e Platão foi mais importante deles. Se reunirmos que esse filósofo escreveu sobre sofistas e sobre Sócrates, além da exposição de suas próprias ideias, poderemos encontrar algumas características sensível e inteligível gerais do período socrático: O sensível são as coisas que percebemos por A filosofia se volta para as questões humanas no pla- meio da experiência sensorial ou dos órgãos dos no da ação, dos comportamentos, das ideias, das sentidos e pela linguagem baseada nesses dados. crenças, dos valores e, portanto, se preocupa com as O sensível nos dá imagens das coisas tais como nos questões morais e políticas. aparecem e nos parecem, sem alcançar a realidade ou a essência delas. As imagens sensíveis formam A filosofia parte da confiança no pensamento ou no a mera opinião a doxa variável de pessoa homem como um ser racional, capaz de conhecer-se para pessoa e variável numa mesma pessoa, dependendo das circunstâncias. a si mesmo e, portanto, capaz de reflexão. Como se trata de conhecer a capacidade de conheci- inteligível é conhecimento verdadeiro que alcançamos exclusivamente pelo pensamento. mento do homem, filósofos procuram estabelecer São as ideias imateriais de todos seres ou as procedimentos que garantam que se encontre a ver- essências reais e verdadeiras das coisas. Para dade. Isto é, considera-se que pensamento deve Platão, a filosofia é esforço do pensamento para abandonar sensível e passar ao inteligível.UNIDADE A acusação de Sócrates diálogos Vós tendes conhecimento de que os jovens que dispõem de mais tempo que os outros, os filhos das famílias mais ricas, seguem-me de livre e espontânea vontade, e se regozijam filosóficos em assistir a esta minha análise dos homens; inúmeras vezes procuram imitar-me e ten- tam, por sua própria conta, analisar alguma pessoa. Logicamente, deparam-se com nume- rosos homens que julgam saber alguma coisa e sabem pouco ou nada, e então, aqueles que são analisados por eles voltam-se contra mim e não contra quem analisou, declarando que Sócrates é homem por demais infame e corruptor dos jovens. E se alguém indaga: "Afi- PLATÃO.Apologia nal, o que faz e o que ensina este Sócrates para corromper os jovens?", nada respondem, de Sócrates. porque o desconhecem, e, só para não evidenciar que estão confusos, dizem as coisas que São Paulo: Nova Cultural, 1999. p. 73-74. comumente são ditas contra todos os filósofos, além de afirmarem que ele especula sobre (Os pensadores). as coisas que se encontram no céu e as que ficam embaixo da terra, e que também ensina a não acreditar nos deuses e apresenta como melhores as piores razões. A verdade, porém, é que esses homens demonstraram ser pessoas que dão a impressão de saber tudo, porém, naturalmente, não querem dizer a verdade. Desta maneira, ambiciosos, dominados pela paixão e numerosos como são, e todos da mesma opinião nesta difamação a meu respeito e com argumentos que podem parecer também convincentes, sem escrúpulo algum en- cheram vossos ouvidos com suas calúnias. Este é o motivo pelo qual, finalmente, lançaram- -se contra mim Meleto, Ânito e Lícon: Meleto profundamente irado por causa dos poetas, Ânito por causa dos artesãos e dos políticos, Lícon por causa dos oradores. Contudo, como vos disse desde o início seria de fato um verdadeiro milagre se eu tivesse a capacidade de arrancar-vos do coração esta calúnia que possui raízes tão firmes e profundas. Esta é, ó ci- dadãos, a verdade, e eu a revelo por completo, sem ocultar-vos nada, nem mesmo esquivan- do-me dela, embora saiba que sou odiado por muitos exatamente por isso. Por sinal, é outra prova de que digo a verdade, e que esta é a calúnia contra mim e esta a causa. Indagai quan- to quiserdes, agora ou depois, e recebereis sempre a mesma resposta. PERÍODO SISTEMÁTICO ocidental, os campos de investigação da filosofia como totalidade do saber humano. Este período tem como principal nome o filósofo Cada saber possui um campo próprio, um objeto es- Aristóteles de Estagira, discípulo de Platão. Passados pecífico, procedimentos específicos para sua aquisição quase quatro séculos de filosofia, Aristóteles apresen- e exposição, formas próprias de demonstração e prova. ta uma verdadeira enciclopédia que se propunha a Cada campo do conhecimento é uma ciência (em gre- reunir todo o saber produzido e acumulado pelos gre- go, epistéme). Antes que se constitua esse conjunto de gos em todos ramos do pensamento e da prática, fatores para um conhecimento, porém, Aristóteles afir- considerando essa totalidade de saberes como sendo ma que é preciso conhecer princípios e as leis gerais a filosofia. Esta, portanto, não é um saber específico que governam o pensamento, independentemente do sobre algum assunto, mas uma forma de conhecer to- conteúdo que possa vir a ser pensado. das as coisas, com procedimentos diferentes para estudo dos princípios e das formas do pensamen- cada campo de coisas. to, sem preocupação com seu conteúdo, foi chamado Além de a filosofia ser o conhecimento da totalida- por Aristóteles de analítica, mas, desde a Idade Média, de dos conhecimentos e práticas humanas, ela tam- passou a se chamar lógica. Aristóteles foi o criador da bém diferencia esses conhecimentos, distribuindo-os lógica como instrumento do conhecimento em qual- numa escala que vai dos mais simples e inferiores aos quer campo do saber. A lógica não é uma ciência, mas o mais complexos e superiores. Essa classificação e distri- instrumento para ela e, por isso, não consta da classifi- buição dos conhecimentos fixou, para pensamento cação feita por Aristóteles.Períodos e campos de investigação da filosofia grega PERÍODO HELENÍSTICO Os CAMPOS DO CONHECIMENTO FILOSÓFICO Trata-se do último período da filosofia antiga, quando a pólis grega desaparece como centro político e deixa de Devemos a Aristóteles a primeira grande classifica- ser a referência principal dos filósofos, uma vez que a ção dos campos da atividade filosófica ao distinguir e Grécia se encontra sob poderio de outros impérios, classificar todos saberes humanos (cuja totalidade é particularmente Macedônico e Romano. Os filósofos a filosofia). critério por ele adotado é a distinção en- dizem, agora, que mundo é sua cidade e que eles são tre ação e contemplação. Isto é, Aristóteles diferencia os cidadãos do mundo. Como, em grego, mundo se diz saberes ou ciências que constituem a filosofia confor- mos, esse período é chamado o da filosofia cosmopolita. me seus objetos e finalidades atividades produtivas, Essa época da filosofia é constituída por grandes sis- éticas e políticas ou puramente intelectuais, interessa- temas ou doutrinas que buscam entender a realidade das exclusivamente no conhecimento. como um todo articulado e entrelaçado formado pelas Vejamos, pois, a classificação aristotélica dos cam- coisas da natureza, seres humanos, pelas relações en- pos do saber: tre estes e destes com a divindade. Esta estabelece e Ciências produtivas: ciências que estudam as práti- conserva a ordem universal. Predominam preocupa- cas produtivas ou as técnicas, isto é, as ações huma- ções com a física, a ética e a teologia. nas que visam à produção de um objeto, de uma Datam desse período quatro grandes sistemas que in- obra. São elas: arquitetura, economia, medicina, pin- fluenciaram o pensamento cristão, em formação nessa tura, escultura, poesia, teatro, oratória, arte da guer- época: estoicismo, epicurismo, ceticismo e neoplatonismo. ra, da caça, da navegação, etc. Em suma, são objeto A amplidão do Império Romano, a presença cres- das ciências produtivas todas as atividades humanas cente de religiões orientais no Império, as relações técnicas e artísticas que resultam num produto ou merciais e culturais entre Ocidente e Oriente fizeram numa obra distintos do produtor. aumentar os contatos dos filósofos helenistas com a Ciências práticas: ciências que estudam as práticas sabedoria oriental. Podemos falar numa orientalização humanas que têm seu fim nelas mesmas. Em outras da filosofia, sobretudo com a aparição de aspectos mís- palavras, aquelas em que a finalidade da ação é ela ticos e religiosos no pensamento e na ação. mesma, e não há distinção entre o agente e o ato que ele realiza. São elas: ética, em que a vontade guiada pela razão leva à ação conforme as virtudes morais (coragem, generosidade, fidelidade, lealdade, clemên- RMN-Grand Palais (Musée du Louvre)/Les frères Chuzeville/Other Images cia, prudência, amizade, justiça, modéstia, honradez, etc.), tendo como finalidade bem do indivíduo; e política, em que a ação racional voluntária tem como fim o bem da comunidade ou o bem comum. Ciências teoréticas ou contemplativas: são aque- las que estudam coisas que existem independente- mente dos homens e de suas ações e que, não tendo sido feitas pelos homens, podem apenas ser contem- Alexandre com lança pladas por eles. O que são as coisas que existem por si (séc. IV a.C.), miniatura de escultura realizada por Lísipo, um dos retratistas oficiais de ética e política Alexandre, 0 Grande, Para OS gregos da época clássica, a política é rei da Macedônia. Em seu reinado, superior à ética, pois a verdadeira liberdade, sem a filósofos deixam de qual não pode haver vida virtuosa, só é conseguida na pólis. Por isso, a finalidade da política é a ter a pólis grega como vida justa, a vida boa e bela, a vida livre, da qual referência principal e depende a atividade ética ou moral dos indivíduos. tomam contato com as contribuições do theória pensamento de Em grego, da verdade'. outros povos.A filosofia UNIDADE I 48 mesmas e em si mesmas, independentemente de ética, política ou técnica para ser realidade. A ciên nossa ação técnica e de nossa ação moral e política? cia teorética que estuda o puro Ser foi chamada Fi São as coisas da natureza e as coisas divinas. Aristóte- losofia Primeira por Aristóteles. Alguns séculos de les, aqui, classifica as ciências teoréticas por graus de pois, como livros que a expunham estavam loca superioridade, indo da mais inferior à superior: lizados nas bibliotecas depois dos livros que ex 1. ciência das coisas naturais submetidas à mudança punham a física, ela passou a ser chamada ou ao devir: física, biologia, meteorologia, psicologia sica (em grego, meta significa que vem depois, (a alma em grego, psyché é um ser natural que que está além'; ou seja, no caso, os livros que vinham existe de formas variadas em todos os seres vivos, depois da física e que tratavam da realidade para plantas, animais e seres humanos); além da física); 2. ciência das coisas naturais que não estão submeti- 4. ciência das coisas divinas que são a causa e a das à mudança ou ao devir: as matemáticas e a astro- dade de tudo que existe na natureza e no homem nomia (os gregos julgavam que astros eram eter- Deus em grego, théos e as coisas divinas são nos e imutáveis); madas theion; por isso, esta última ciência se chama 3. ciência da realidade pura, que estuda que Aris- teologia. tóteles chama de Ser ou substância de tudo que A filosofia, para Aristóteles, encontra seu ponto mais existe. Ou seja, trata-se daquilo que deve haver em alto na metafísica e na teologia, das quais derivam to- toda e qualquer realidade natural, matemática, dos outros conhecimentos. A HERANÇA ARISTOTÉLICA Reprodução/Mansão da Primavera, Atenas, Grécia A classificação aristotélica só seria desfeita no século XIX de nossa era, quando as ciências particulares foram se separando do tronco geral da filosofia. Consideran- do-se a herança deixada pela classificação aristotélica, podemos dizer que, até hoje, campos de investiga- ção da filosofia são três: 1. O do conhecimento do Ser: isto é, da realidade fun- damental e primordial de todas as coisas, ou da es- sência de toda realidade. Como, em grego, ser é on e as coisas, ta onta, esse campo é chamado ontologia. Na concepção de Aristóteles, a ontologia era forma- da pelo conjunto da Filosofia Primeira e da teologia. 2. O do conhecimento das ações humanas ou dos va- lores e das finalidades da ação humana: das ações que têm em si mesmas sua finalidade, a ética e a po- lítica; e das ações que têm sua finalidade num produ- to ou numa obra, as técnicas e as artes e seus valores (utilidade, beleza, etc.). 3. O do conhecimento da capacidade humana de nhecer: isto é, conhecimento do próprio pensa- mento em exercício. Nesse campo estão: a lógica, que oferece as leis gerais do pensamento; a teoria do conhecimento, que oferece procedimentos pelos quais conhecemos; as ciências propriamente ditas; e conhecimento do conhecimento científico, isto é, Afresco minoico, encontrado na ilha de Santorini e datado a teoria das ciências ou epistemologia, que estuda e de aproximadamente 1500 a.C., que retrata um pescador. avalia OS procedimentos empregados pelas diferen- Museu Arqueológico Nacional, em Atenas, na Grécia. tes ciências para definir e conhecer seus objetos.50 CAPÍTULO A partir do declínio do Império Romano 5 e da conversão da maioria dos povos europeus ao cristianismo, a filosofia incorpora novas questões e enfrenta outros desafios. Principais Desse período até os dias de hoje, ela continuou períodos da a se modificar: suas áreas de interesse se ampliaram, porém, parte de seus conhecimentos se tornaram história da disciplinas independentes e os problemas sobre os filosofia quais os filósofos se debruçam são outros, mais atuais. Essas mudanças são esperadas, dado que, como todas as criações e instituições humanas, a filosofia está na história e tem uma história. Vamos, então, conhecer as principais características de cada período da história da filosofia. Escola de Atenas (1509-1511), Palácio do Vaticano. Esta obra do pintor renascentista Rafael Sanzio retrata filósofos de diversas épocas ocupados numa discussão, tendo ao centro Platão e Aristóteles. FratelliA FILOSOFIA NA HISTÓRIA campos de investigação da filosofia A filosofia teve seu campo de atividade aumentado, Como vimos, a filosofia está na história e tem uma no século XVIII, com a filosofia da arte ou estética; história. Está na história: a filosofia manifesta e exprime no século XIX, a filosofia da história; no século XX, os problemas e as questões que, em cada época, a filosofia da linguagem. Por outro lado, seu campo diminuiu quando as ciências que dela faziam seres humanos colocam para si mesmos diante do que parte passaram a constituir suas próprias esferas é novo e ainda não foi compreendido. A filosofia pro- de investigação. É que ocorre no século XVIII, cura enfrentar essa novidade oferecendo caminhos, quando se desligam da filosofia a biologia, a física e a química; e, no século XX, as chamadas ciências respostas e, sobretudo, propondo novas perguntas, humanas (psicologia, antropologia, história, etc.). num diálogo permanente com a sociedade e a cultura de seu tempo. Tem uma história: as respostas, soluções e novas per- e João), mas também dos chamados padres da Igreja guntas que filósofos de uma época oferecem ou católica, isto é, dos primeiros dirigentes espirituais e tornam-se saberes adquiridos que outros filósofos políticos do cristianismo, após a morte dos apóstolos. prosseguem, ou, frequentemente, tornam-se novos A patrística resultou do esforço feito pelos dois problemas que outros filósofos tentam resolver. Nesses apóstolos intelectuais (Paulo e João) e pelos primeiros momentos, as gerações posteriores podem tanto apro- padres para conciliar a nova religião o cristianismo veitar o passado filosófico como criticá-lo e refutá-lo. com o pensamento filosófico dos gregos e romanos, Além disso, as transformações nos modos de conhe- pois somente com tal conciliação seria possível conven- cer podem ampliar os campos de investigação cer pagãos da nova verdade e convertê-los a ela. A da filosofia, fazendo surgir novas disciplinas filosófi- filosofia patrística liga-se, portanto, à evangelização e à cas. Por outro lado, podem também diminuí-los, por- defesa da religião cristã contra ataques teóricos e que alguns de seus conhecimentos podem formar dis- morais que recebia dos antigos. Seus nomes mais im- ciplinas separadas. portantes foram Justino, Tertuliano, Orígenes, Clemen- te, Eusébio, Santo Ambrósio, São Gregório Nazianzo, Os PRINCIPAIS PERÍODOS DA FILOSOFIA São João Crisóstomo, Santo Agostinho e Boécio. Por estar na história e ter uma história, a filosofia tuma ser apresentada em grandes períodos que acom- panham, de modo mais geral, períodos em que os historiadores dividem a história da sociedade ocidental. Filosofia antiga (do século VI a.C. ao século VI d.C.) Compreende os quatro grandes períodos da filoso- Tibor Bognar/Photononstop/Agência France-Presse fia greco-romana, indo do período pré-socrático ao helenístico, vistos no capítulo anterior. Filosofia patrística (do século ao século VII) Inicia-se com as Epístolas de Paulo e o Evangelho de Santo Basílio, São João Crisóstomo e São Gregório Nazianzo João e termina no século VIII, quando teve início a filo- retratados em mosaico do século XIV na antiga Igreja de sofia medieval. São Salvador, atual Museu Chora (Kariye Muzesi), em Istambul, Turquia. Muitos dos filósofos da patrística eram religiosos que A filosofia desse período é conhecida com nome de buscavam conciliar as crenças cristãs com a herança filosófica patrística, pois foi obra não só de dois apóstolos (Paulo de gregos e romanos.A filosofia 52 UNIDADE I A patrística introduziu ideias desconhecidas para 3. que julgavam razão e fé irreconciliáveis, mas afir- filósofos greco-romanos: a ideia de criação do mundo a mavam que cada uma delas tem seu campo próprio partir do nada, de pecado original do homem, de Deus de conhecimento e não devem se misturar (a razão como trindade una, de encarnação e morte de Deus, se refere a tudo que concerne à vida temporal dos de juízo final ou de fim dos tempos e ressurreição dos homens no mundo; a fé, a tudo que se refere à sal- mortos, etc. Precisou também explicar como o mal vação da alma e à vida eterna futura). pode existir no mundo, uma vez que tudo foi criado por Deus, que é pura perfeição e bondade. Filosofia medieval (do século VIII ao século XIV) Introduziu, sobretudo com Santo Agostinho e Boécio, a ideia de "homem interior", isto é, da consciência moral Abrange pensadores europeus, muçulmanos e ju- e do livre-arbítrio da vontade, pelo qual homem, por deus. É período em que a Igreja romana dominava a ser dotado de liberdade para escolher entre bem e Europa, ungia e coroava reis, organizava Cruzadas à mal, é o responsável pela existência do mal no mundo. chamada Terra Santa e criava, à volta das catedrais, as Para impor as ideias cristãs, padres da Igreja católica primeiras universidades ou escolas. A partir do século as transformaram em verdades reveladas por Deus (por XII, por ter sido ensinada nas escolas, a filosofia medie- meio da Bíblia e dos santos) que, por serem decretos divi- val também é conhecida com o nome de escolástica. nos, seriam dogmas, isto é, verdades irrefutáveis e in- A filosofia medieval teve como influências principais questionáveis. Com isso, criou-se uma distinção entre Platão e Aristóteles, embora Platão conhecido pelos verdades reveladas ou da fé e verdades da razão ou hu- medievais fosse o neoplatônico (isto é, interpretado manas, ou seja, entre verdades sobrenaturais e verdades pelo filósofo Plotino, do século II d.C.), e o Aristóteles naturais, as primeiras introduzindo a noção de conhe- por eles conhecido fosse aquele conservado e traduzi- cimento recebido por uma graça divina, superior ao do pelos pensadores muçulmanos, particularmente simples conhecimento racional. Dessa forma, grande Avicena e Averróis. tema da filosofia patrística é da possibilidade ou im- Conservando e discutindo mesmos problemas que possibilidade de conciliar a razão com a fé. a patrística, a filosofia medieval acrescentou outros. Du- A esse respeito, havia três posições principais: rante esse período surge propriamente a filosofia cristã, 1. que julgavam fé e razão irreconciliáveis e a fé su- que é, na verdade, uma teologia fundada na nova fé do- perior à razão (diziam eles: "Creio porque absurdo"); minante no Ocidente. Alguns de seus grandes temas são: 2. que julgavam fé e razão conciliáveis, mas subordina- a diferença e separação entre infinito (Deus) e finito (ho- vam a razão à fé (diziam: "Creio para compreender"); mem, mundo); a diferença entre razão e fé (a primeira saber e a iluminação divina Nosso saber consta de coisas que vemos e coisas em que acreditamos; das primeiras, diálogos somos testemunhas diretas, das segundas, temos o testemunho idôneo de outros que nos filosóficos fazem crer porque, por meio de palavras e escritos, nos oferecem sinais dessas coisas que não vemos. Podemos com razão dizer que há saber quando cremos em algo com certeza e dizemos que vemos com a mente essas coisas nas quais cremos, ainda que não estejam SANTO presentes aos nossos órgãos dos sentidos [...] Realmente, a fé se vê com a mente [...] Por isso Carta a Paulina. o apóstolo Pedro diz: "Aquele em quem agora crês, não o e disse o Senhor: "Bem- In: FERNÁNDEZ, -aventurados que não viram e [...] Terás, assim, reconhecido a diferença entre ver Clemente (Org.). com olhos do corpo e com olhos da mente [...] Crer se realiza com a mente e se vê com Los filósofos medievales. a mente e as coisas em que com essa fé cremos distam do olhar de nossos olhos. Por isso Selección de textos. vejo a minha fé, mas não posso ver a tua, assim como tu vês a tua fé e não podes ver a minha, Madrid: Editorial Católica, 1979. pois ninguém sabe o que se passa no espírito que está em cada homem até que venha o p. 493-494. Senhor e ilumine os segredos das trevas e manifeste os pensamentos do coração para que Texto traduzido. cada um possa ver não somente seus, mas também alheios.5 deve subordinar-se à segunda); a diferença e separação recebem novas traduções, mais acuradas e fiéis. Nessa entre corpo (matéria) e alma (espírito); Universo como época, muitos também se dedicam a recuperar obras uma hierarquia de seres, pela qual superiores (Deus, de autores e artistas gregos e romanos e a imitá-los. serafins, querubins, arcanjos, anjos, alma) dominam e go- São três as grandes linhas de pensamento que pre- vernam os inferiores (corpo, animais, vegetais, minerais); dominavam na Renascença: a subordinação do poder temporal dos reis e nobres ao 1. Aquela proveniente da leitura de três diálogos de poder espiritual de papas e bispos. Platão (Banquete, Fédon, Fedro), das obras dos filóso- Outra característica marcante da escolástica foi 0 fos neoplatônicos e da descoberta do conjunto dos método por ela inventado para expor as ideias filosófi- livros de hermetismo ou de magia natural, que se cas, conhecido como disputa: apresentava-se uma tese supunha terem vindo do Egito, escritos séculos antes e esta devia ser ou refutada ou defendida com argu- de Moisés e de Platão, ditados por deuses a seus fi- mentos tirados da Bíblia, de Aristóteles, de Platão ou de lhos humanos. padres da Igreja, particularmente Pedro Lombardo. Essa linha de pensamento, surgida na cidade de Flo- Assim, uma ideia era considerada uma tese verda- rença (na atual Itália), concebia a natureza como um deira ou falsa dependendo da força e da qualidade dos grande ser vivo, dotado de uma alma universal (a argumentos encontrados nos vários autores. Por causa Alma do Mundo) e feito de laços e vínculos secretos desse método de disputa, costuma-se dizer que, na de simpatia e antipatia entre todas as coisas. O ho- Idade Média, pensamento estava subordinado ao mem, como parte da natureza, poderia agir sobre princípio da autoridade, isto é, uma ideia é conside- mundo por meio de conhecimentos e práticas que rada verdadeira se tiver respaldo nos argumentos de operam com essas ligações secretas, isto é, por meio uma autoridade reconhecida Bíblia, Platão, Aristó- da magia natural, da alquimia e da astrologia. teles, um papa, um santo. 2. Aquela originária dos pensadores florentinos que va- lorizavam a vida ativa (a política) e defendiam a liber- dade das cidades italianas contra poderio dos pa- pas e dos imperadores. Na defesa da liberdade política, esses pensadores recuperaram a ideia de Reprodução/Pinacoteca Nacional de Siena, Toscana, Itália. república presente nas obras dos grandes autores políticos da Roma antiga, como Cícero, Tito Lívio e Tácito, bem como nos escritos de historiadores e ju- ristas clássicos. Sua proposta era a da "imitação dos antigos", ou o renascimento da república livre. 3. Aquela que propunha o ideal do homem como artí- fice de seu próprio destino, tanto por meio dos nhecimentos (astrologia, magia, alquimia) como por meio da política (o ideal republicano), das técnicas (medicina, arquitetura, engenharia, navegação) e das artes (pintura, escultura, poesia, teatro). Essas três linhas de pensamento explicam por que se costuma falar no humanismo como traço predomi- nante da Renascença, uma vez que nelas homem é colocado como centro do Universo, defendido em sua Catarina de Siena (1347-1380), filósofa e teóloga escolástica, retratada por Domenico Beccafumi no século XVI. Pinacoteca liberdade e em seu poder criador e transformador. Nacional de Siena, na Itália. A intensa atividade teórica e prática dessa época foi alimentada com as grandes viagens marítimas, que leva- vam europeus a conhecer novos mares, novos céus, Filosofia da Renascença (séculos XIV e XV) novas terras e novas gentes, permitindo-lhes ter uma É marcada pela descoberta, na Europa ocidental, das visão crítica de sua própria sociedade. Essa efervescên- obras de Platão e de outras obras de Aristóteles, desco- cia cultural e política levou a críticas profundas à Igreja nhecidas na Idade Média. Essas obras, lidas em grego, romana, que culminaram na Reforma protestante.54 UNIDADE I Filosofia moderna (do século XVII a meados O ponto de partida é, portanto, sujeito do conhe do século XVIII) cimento como consciência de si reflexiva, isto é Nesse período, conhecido como Grande Raciona- como consciência que conhece sua capacidade de lismo Clássico, foi preciso enfrentar um ambiente de conhecer. sujeito do conhecimento é pessimismo teórico, reinante desde o fim desde o sécu- ou a inteligência que, com a vontade, existe no lo XVI. Dominava 0 ceticismo, a atitude filosófica que interior de uma substância espiritual, a alma. A natu duvida da capacidade da razão humana para conhecer reza da alma é completamente diferente da nature a realidade exterior e o homem. za de outra substância, a corpórea, que constitui a As guerras de religião, encontros dos europeus natureza do nosso corpo e dos corpos exteriores. com povos que desconheciam, as disputas filosóficas e Por isso, para vencer ceticismo, a filosofia precisa teológicas criaram um ambiente em que 0 sábio já não responder às perguntas: "Como intelecto pode podia admitir que a razão humana é capaz de conheci- conhecer que é diferente dele?"; "Como o espírito mento verdadeiro e que a verdade é universal e neces- pode conhecer a matéria?"; "Como sujeito espiri- sária. Ao contrário, diante da multiplicidade de opiniões tual pode conhecer os objetos corporais, o seu pró- em luta, sábio tornou-se cético. prio corpo e demais corpos da natureza?". Para restaurar ideal filosófico da possibilidade do 2. A resposta a essas perguntas constituiu a segunda conhecimento racional verdadeiro e universal, a filoso- grande mudança teórica, que diz respeito ao objeto fia moderna propõe três mudanças teóricas principais: do conhecimento. Para modernos, as coisas exte- 1. O surgimento do sujeito do conhecimento: a filosofia, riores (a natureza, as instituições sociais e políticas) são em lugar de começar por conhecer a natureza (como conhecidas quando sujeito do conhecimento as re- na filosofia antiga) ou Deus (como na patrística e na presenta intelectualmente, ou seja, quando as apreen- escolástica), começa indagando qual é a capacidade da de como ideias que dependem apenas das operações razão humana para conhecer e demonstrar a verdade cognitivas realizadas pelo próprio sujeito. dos conhecimentos. Em outras palavras, em vez de Isso significa, por um lado, que tudo que pode ser meçar pelas coisas a serem conhecidas, sobre as quais conhecido deve poder ser representado por um só cabem dúvidas e desconfianças, a filosofia começa conceito ou por uma ideia clara e distinta, demons- pela reflexão. Assim, aquele que conhece (o sujeito do trável e necessária, formulada pelo intelecto; e, por conhecimento) volta-se para si mesmo para saber se é capaz de conhecimento verdadeiro e, se for, sob quais condições ele é capaz disso. Somente depois de conhecer-se a si mesmo como capaz de conhecimento cognitivo verdadeiro é que sujeito se volta para as coisas a Palavra originada do latim cognoscěre, 'conhecer'. No caso, trata-se dos processos mentais que nhecer ou para objetos do conhecimento. permitem conhecimento. Vista da Galleria degli Uffizi, em Florença, Itália, em 2012. Construída a mando da dinastia dos Médici, século XVI, a edificação expressa os valores renascentistas em sua arquitetura (como a valorização da perspectiva) e em seu uso (foi sede de escritórios da administração da antiga República de Florença e, até hoje, abriga importantes obras de arte).Principais períodos da história da filosofia 5 outro lado, que a natureza, a sociedade e a política pela razão, 0 homem pode conquistar a liberdade e podem ser inteiramente conhecidas pelo sujeito do a felicidade social e política (as ideias do conhecimento, porque são racionais em si mesmas e foram decisivas para a Revolução Francesa de 1789); propensas a serem representadas pelas ideias do su- a razão é capaz de aperfeiçoamento e progresso, e o jeito do conhecimento. homem é um ser perfectível. A perfectibilidade con- 3. Essa concepção da realidade como racional e plena- siste em libertar-se dos preconceitos religiosos, sociais mente captável pelas ideias e conceitos preparou a e morais, em libertar-se da superstição e do medo, terceira grande mudança teórica moderna. A natu- graças ao avanço das ciências, das artes e da moral; reza, a partir de Galileu, é concebida como um siste- aperfeiçoamento da razão se realiza pelo progres- ma ordenado de causas e efeitos cuja estrutura pro- das civilizações, que vão das mais atrasadas (tam- funda e invisível é matemática. O "livro do mundo", bém chamadas de "primitivas" ou "selvagens") às diz Galileu, "está escrito em caracteres matemáticos, mais adiantadas e perfeitas (na visão da maioria de e para lê-lo é preciso conhecer seus filósofos, as da Europa ocidental); Essa ideia deu origem à ciência clássica, na qual pre- há diferença entre natureza e civilização: a nature- za é reino das leis naturais universais e imutáveis, valece o ponto de vista da mecânica, isto é, de enquanto a civilização é reino da liberdade e da que nas relações de causa e efeito entre as coisas a finalidade proposta pela vontade livre dos pró- causa é sempre movimento, e este segue leis uni- prios homens em seu aperfeiçoamento moral, téc- versais necessárias que podem ser explicadas e re- nico e político. presentadas matematicamente. Todos fatos da A natureza é 0 reino da necessidade, isto é, das coi- realidade podem ser conhecidos pelas relações ne- sas e acontecimentos que não podem ser diferen- cessárias de causa e efeito que produzem, os tes do que são; a civilização é 0 reino da liberdade, conservam ou destroem. isto é, onde os fatos e acontecimentos podem ser A realidade é um sistema de causalidades racionais diferentes do que são porque a vontade humana rigorosas que podem ser conhecidas e transforma- pode escolher entre alternativas. das pelo homem. Nascem, assim, a ideia de experi- Nesse período há grande interesse pelas ciências que mentação científica (são criados os laboratórios) e operam com a ideia de transformação progressiva. Por ideal tecnológico, ou seja, a expectativa de que ho- isso, a biologia terá um lugar central no pensamento mem poderá dominar tecnicamente a natureza e a ilustrado, pertencendo ao campo da filosofia da vida. sociedade, graças à invenção de máquinas. Há igualmente grande interesse e preocupação com as Existe também a convicção de que a razão huma- artes, na medida em que elas seriam a expressão por na é capaz de conhecer a origem, as causas e os excelência do grau de progresso de uma civilização. efeitos das paixões e das emoções e, pela vontade orientada pela razão, é capaz de governá-las e dominá-las, de sorte que a vida ética pode ser ple- 2 namente racional. A mesma convicção orienta racionalismo político, isto é, a ideia de que a razão é capaz de definir para cada sociedade qual melhor regime político e Dr. Jeremy Burgess/SPL/Latinstock como mantê-lo racionalmente. Os principais pensadores desse período foram: Francis Bacon, Descartes, Galileu, Pascal, Hobbes, Leibniz, Espinosa, Malebranche, Locke, Berkeley, Newton, Gassendi. Filosofia da Ilustração ou lluminismo (meados do século XVIII ao início do século XIX) 1. Geospiza magnirostris 2. Geospiza fortis. 3. Geospiza parvula. 4. Certhidea olivasea. Esse período também crê nos poderes da razão, cha- para a edição inglesa de 1889 da obra A origem das espécies, do naturalista inglês Charles Darwin. A ideia de mada de As Luzes (por isso nome llu- transformação progressiva, presente em ciências como a biologia, minismo afirma que: também podia ser percebida na filosofia iluminista.A filosofia 56 UNIDADE I Data também desse período 0 interesse pelas bases Filosofia contemporânea econômicas da vida social e política. Surge uma refle- xão sobre a origem e a forma das riquezas das nações, Abrange 0 pensamento que vai de meados do sécul com uma controvérsia sobre qual é a fonte de maior XIX aos nossos dias. Este período, por ser mais próxim importância: a agricultura (corrente fisiocrata) ou 0 de nós, parece 0 mais complexo de definir: as diferença entre as várias posições filosóficas nos parecem comércio (corrente mercantilista). grandes, pois as estamos vendo surgir diante de nós. Os principais pensadores do período foram: Hume, Para facilitar uma visão mais geral do período, fare Voltaire, D'Alembert, Diderot, Rousseau, Kant, Fichte mos, no próximo capítulo, uma contraposição entre as e Schelling. principais ideias do século XIX e as do século a filosofia nas entrelinhas Uma das linhas de pensamento da Renascença propunha o ideal do homem Reprodução/Galeria da Academia, Veneza, Itália. como artífice de seu próprio destino, tan- to por meio dos conhecimentos como por meio da política, das técnicas e das artes. Esse ideal tinha como base a razão, cuja in- fluência chegou até os dias atuais. homem vitruviano, de Leonardo da Em grupo ou individualmente, escolha(m) Vinci sintetiza 0 uma atividade do mundo contemporâneo ideário renascentista: em que você(s) identifique(m) a presença humanista e clássico. da razão. Em seguida, elabore(m) um breve Galeria da Academia, comentário sobre ela e sobre como a razão em Veneza, na Itália. a influencia. atividades 1. A filosofia está à margem da história ou intimamente li- gada a ela? Por quê? 2. A patrística tentou conciliar a teologia cristã com ideias da filosofia greco-romana, em especial nas relações entre fé e razão. Para você, essa proposta era coerente? Por quê? INDICAÇÃO DE FILME 3. Quais eram OS grandes temas da filosofia medieval? Danton 4. Resuma as três grandes linhas da filosofia da Renascença e explique por que exprimem humanismo renascentista. Direção de Andrzej Wajda. França/Polônia, 1983. 5. Por que surgimento do sujeito do conhecimento foi importante para que se superasse O ceticismo na filoso- Pouco tempo após a deflagra- fia moderna? ção da Revolução Francesa, dois de seus líderes entram em rota 6. De acordo com texto, como era concebida a nature- de colisão: Georges Danton e za na filosofia moderna? Por que essa concepção leva às Maximilien Robespierre. No ideias de experimentação científica e de tecnologia? ríodo chamado Terror, OS ideais ator francês Gérard 7. Consulte a linha do tempo, no final do livro, e identifique OS da revolução acabam sendo Dépardieu como 0 temas abordados por filósofos do período moderno que postos em xeque por seus pró- personagem-título de se relacionem com que você leu sobre 0 racionalismo. prios idealizadores. Danton.