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Apostila do
PROFESSOR
FILOSOFIA e
SOCIOLOGIA
FILOSOFIA
Aula Caderno 1
zero Introdução à Filosofia
1 e 2 Pré-socráticos e Sócrates
3 Platão e Aristóteles
Aula Caderno 2
4 Filósofos romanos
5 Filosofia medieval (Santo. Agostinho/São Tomás)
6 Filosofia no Renascimento
7 Racionalismo e Empirismo (Descartes e Locke)
Aula Caderno 3
8 Iluminismo: Voltaire e Rousseau
9 Iluminismo: Kant
10 Hegel e Marx e Nietzsche
Aula Caderno 4
11 Existencialismo (Sartre)
12 Foucault e seu tempo
13 Habermas e o neomarxismo
SOCIOLOGIA
Aula Caderno 5
1 e 2 Introdução à Sociologia (Marx, Durkheim e Weber)
3 e 4 Estrutura social e suas desigualdades
Aula Caderno 6
5 Sociedade e trabalho
6 Estado e política
7 O Estado no Brasil
Aula Caderno 7
8 e 9 Cidadania e movimentos sociais
10 Ideologia e cultura
Aula Caderno 8
11 e 12 Sociedade e religiosidade
FILOSOFIA E SOCIOLOGIA
ATENA 018
1 AULA
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FILOSOFIA 1
2 POLISABER
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Introdução à Filosofia
Origens da Filosofia
Bilhões de pessoas espalhadas pelo planeta, vivendo
sob diferentes modos de organização política, econô-
mica, social e cultural. A humanidade é um coletivo de
indivíduos que se impôs como espécie dominante no
planeta, dando a si própria a denominação de Homo
sapiens, o “homem sábio”, fato este que coloca o ato de
pensar como seu diferencial enquanto “animal racional”,
estabelecendo relações entre seus semelhantes e com as
demais espécies. Neste conjunto de ações do ser humano
com tudo o que está a sua volta, portanto, na produção
de cultura e dentro desta, podemos começar a pontuar
o que viria a ser Filosofia.
A primeira ação se dá pelo questionamento, base para
a produção do conhecimento filosófico: nós observamos
tudo o que está a nossa volta e daí, tentamos buscar a
compreensão de quem somos, onde estamos, o que
fazemos e entendemos.
Quando começamos a fazer isso?
Há uma dificuldade para localizar no tempo e no es-
paço o início da produção dos saberes, bem como seus
primeiros autores. Provavelmente, diferentes grupos
humanos, em contextos mais ou menos próximos, ten-
taram responder a essas indagações e aos problemas
cotidianos, talvez de forma semelhante ou não, mas isso
ocorreu com maior ou menor intensidade ao longo da
história da humanidade.
Não se pode ignorar a existência de outras fontes de
reflexão do ser humano sobre si e sobre o conhecimen-
to fora do chamado “mundo ocidental”, como a China
e a Índia, bem como as culturas da Pérsia, da Arábia e
do Oriente Próximo ou vindas de tradições ágrafas dos
continentes africano, americano e austral. 00
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FILOSOFIA – AULA ZERO
Na busca pela compreensão de si próprio e do mundo
que o cercava, o ser humano criou os mitos (do grego
mythos, "narrativa"), lendas orais ou escritas que colo-
cavam a sua relação com o Universo em uma constante
interação com o sagrado.
Daí se explicava a origem de tudo o que conhecemos,
como os fenômenos naturais, os animais, a humanidade
e suas atitudes. Dessa compreensão, deduzia-se a exis-
tência de um conjunto de forças criadoras poderosas e
imortais, com o qual nós, humanos, e demais seres, frá-
geis e mortais, teríamos uma relação espelhada, na qual
encontrávamos identidade (os deuses têm características
humanas) e, ao mesmo tempo, distanciamento (poder
infinitamente superior ao humano).
Os gregos eram politeístas, acreditavam que os deu-
ses se relacionavam com as forças da natureza e eram
capazes de alterar ou decidir os destinos dos mortais.
O templo era uma das principais construções da cidade,
geralmente erguido no lugar mais alto e seguro (acrópole),
e ali se depositavam as oferendas e os sacrifícios, que
recebiam a atenção dos sacerdotes e dos oráculos, os
quais prediziam o futuro segundo a fala dos deuses. Era
comum que em cada casa houvesse um pequeno altar
para o culto das divindades e dos antepassados.
Muitas das divindades gregas são conhecidas nos dias
de hoje, mas os resquícios arqueológicos nos mostram
que deuses reverenciados em uma pólis não eram ne-
cessariamente conhecidos em outra. Do panteão grego,
destacamos: Zeus, senhor de todos os deuses; Poseidon,
deus dos oceanos; Afrodite, deusa do amor; Apolo, deus
da beleza e do sol; Dionísio, deus do vinho; Hermes,
mensageiro dos deuses; Ares, deus da guerra; e Hades,
deus do mundo dos mortos.
Entre os valores da cultura grega, destaca-se a busca
pela imortalidade, impossível no plano físico, mas pos-
sível nos registros históricos dos feitos memoráveis e
honrosos, que dariam a um simples mortal a grandeza e
a distinção da condição de herói, cujas proezas seriam
Eis o traço pelo qual distingo as índoles sequiosas de
ver, amantes da arte e limitadas à prática, dos homens
em questão, os contempladores da verdade, aos quais
unicamente convém o nome de filósofos.
A República, de Platão, séc. IV a.C.M
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aula zero FILOSOFIA
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narradas de geração a geração ao longo dos séculos e
que se distinguiria dos outros mortais por ter uma ex-
celência (areté): a bravura de Teseu, a força de Héracles
(Hércules), a sagacidade de Odisseu (Ulisses) ou a perícia
de Aquiles no combate.
Do variado panorama do patrimônio cultural grego,
evidenciam-se ainda a Filosofia e o teatro.
Não é simples definir Filosofia, mas, como vimos no
início desta aula, a própria palavra significa “apreço pelo
saber”. De fato, para Platão, no Fédon, o filósofo é “aquele
que ama a sabedoria” e, no Livro V de A República, em
que Platão sistematiza os ensinamentos de seu mestre
Sócrates, o filósofo é “o contemplador da verdade”.
O que no início tinha um caráter espontâneo foi to-
mando uma forma mais regrada, saindo da cultura oral
para se manifestar na cultura escrita, mantendo seus
elementos de origem. O conteúdo da tragédia era o mito,
inicialmente com a vida de Dionísio e das personagens
ligadas a ele; ao longo do século VI a.C., o tema dionisíaco
cede passo às narrativas de heróis e de outros deuses.
A fusão dos mitos heroicos com os mitos divinos tam-
bém faz parte das relações entre o plano humano e o
mundo sobrenatural, pois, na concepção grega, os deuses
interferiam diretamente na vida dos humanos, que muitas
vezes cometiam erros e crimes por agir “sob influência
divina” ou contavam com sua proteção e ajuda.
A forma de pensar e de exprimir seus pensamentos
segue, entre os gregos, um percurso muito específico,
distinguindo-os de outros povos, uma vez que envolve
a ideia de conhecimento da natureza (no sentido mais
amplo da palavra) e de seus diferentes componentes
(humanos ou não), bem como os conceitos de realidade,
ação e suas variadas manifestações. Não ignoramos a
existência de outras formas de pensar, desenvolvidas
por outros povos, mas a matriz do que entendemos hoje
como pensamento ocidental é inegavelmente grega, ten-
do se disseminado pela Europa ocidental e depois para
seus domínios – por exemplo, a América portuguesa, que
deu origem ao Brasil, ou mesmo a América inglesa, que
originou Canadá e Estados Unidos, bem como as demais
colônias francesas, holandesas e espanholas. A estas,
agregaram-se também os elementos nativos indígenas
e dos africanos, compondo uma estrutura multiétnica e
bastante diversa da fonte europeia.
A cultura grega foi uma das principais inspirações para
a literatura, a música, a pintura e a escultura na cultura
ocidental, tendo sido lida, apropriada e recriada em dife-
rentes momentos, como na Idade Média (de acordo com
os interesses do clero), no Renascimento (séculos XV e
XVI) ou no Neoclassicismo do século XVIII, o chamado
Século das Luzes, quando a razão, tão cara aos gregos,
fundamentou os elementos primordiais da metodologia
científica utilizada atualmente.
A origem dos deuses
Quantos da Terra e do Céu nasceram,
filhosconceito de justiça.
Mas por que Platão precisou usar esta alegoria? Ele ter-
mina o livro VI (511 a.C.) ordenando os modos de conheci-
mento da seguinte forma: o mais elevado, a inteligência; o
segundo, o entendimento; o terceiro, a crença e a opinião;
e o último, a imaginação ou a suposição. O terceiro e o
quarto baseiam-se no mundo sensível e, portanto, não
levam à verdade suprema. Os dois primeiros são do do-
mínio do inteligível, mas o entendimento diferencia-se
da inteligência porque não vai até o princípio, mas parte
de hipóteses, o que o torna um intermédio entre a doxa
e a episteme.
O livro VII (514 a.C.) começa com o seguinte: “Em segui-
da – continuei – imagina a nossa natureza, relativamente
à educação ou à sua falta, de acordo com a seguinte ex-
periência”. Esta primeira fala de Sócrates neste capítulo
mostra a sua intenção de tratar da educação ao utilizar-
-se de tal alegoria. Ele estava preocupado em ilustrar
como deveria ser a formação dos habitantes da cidade,
ou seja, como eles deveriam ser orientados a buscar as
ideias e os valores mais elevados. A proposição principal
do ideário de Platão é formar o homem moral dentro do
Estado justo. Para orientar os habitantes a tais ideias, é
necessário o filósofo como educador pois é ele quem tem
o conhecimento das ideias unas e imutáveis.
“Escola de Atenas” de Rafael Sanzio, 1510.
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aula 3 FILOSOFIA
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Período sistemático:
Aristóteles
Nasceu em Estagira, na península da Calcídica, região
sob o domínio macedônico. Sua família era de condição
aristocrática e tinha laços com a dinastia real, pois o pai
de Aristóteles, Nicômano, fora o médico do rei Amintas II
(pai de Felipe II). Mudou-se para Atenas aos 17 anos e se
tornou discípulo de Platão na Academia. Gradativamente,
ganhou espaço como “comentador”, recebendo desta-
que por seus apontamentos. No entanto, com a morte
de Platão em 347 a.C. e a escolha de um novo diretor
para a Academia, o ateniense Espeusipo, Aristóteles se
sentiu preterido. Em 343 a.C., foi convidado por Felipe II
para ser o preceptor de Alexandre Magno. Construiu um
grande laboratório, graças à amizade com Felipe II e seu
filho Alexandre, atuando de modo ativo na educação da
corte macedônica.
Em 335 a.C., retorna a Atenas e, aos cinquenta anos,
funda sua própria escola, perto de um bosque dedicado
a Apolo Lykeos, daí o nome de Liceu e de seus alunos, os
peripatéticos (peripateîn, em grego, significa "passear"),
porque ficavam discutindo e caminhando por ali, entre
uma pausa e outra, pelas sombras das árvores. Seus úl-
timos anos são entremeados de lutas políticas, pois fora
próximo do tirano Hérmias e, com a morte de Alexandre
em 323 a.C., Atenas buscava recuperar sua autonomia.
A composição de um hino em louvor a Hérmias, no qual
dava-lhe o status divino, lhe valeu uma acusação de
impiedade semelhante à de Sócrates e, assim, tentando
evitar o mesmo fim, Aristóteles se exilou em Cálcis, na
ilha de Eubeia (terra de sua mãe, na qual detinha proprie-
dades), onde morreu em 322 a.C. O Liceu, bem como a
biblioteca ali existente, contendo sua obra, entre outros
textos, ficou sob os cuidados do discípulo Teofrasto.
Aristóteles e as ciências
A obra aristotélica aborda todos os ramos do saber:
Lógica, Física, Filosofia, Botânica, Zoologia. Seus tra-
balhos foram de grande importância para se iniciar a
construção daquilo que hoje entendemos como pen-
samento científico e metodologia científica. Apesar
de algumas deduções equivocadas, entendemos que
a importância dos estudos de Aristóteles estava na
metodologia estabelecida. A classificação e a siste-
matização dos seres vivos a partir da observação de
suas características físicas e funcionais, bem como
de seu ambiente e comportamento, fundamentaram
gradativamente o olhar sobre a vida (conceito por
ele também explorado) e daí poderíamos considerar
Aristóteles o “pai da Biologia”. Desse modo, a ideia de
estudar os fenômenos naturais não era algo exclusivo
do que chamamos na atualidade de “Ciências da
Natureza” e, assim, entendemos que, além do desen-
volvimento do conhecimento filosófico, encontramos
aí também o desenvolvimento de um conhecimento
científico e de um importante capítulo para a História
da Ciência, que, naquele contexto, eram uma coisa
só e que, muito mais tarde, a partir do séculos XVII
e XVIII, passou a sofrer uma sistemática divisão até
os tempos atuais.
No campo do pensamento filosófico, são livros fun-
damentais de Aristóteles: Retórica, Ética a Nicômaco,
Ética a Eudemo, Órganon: conjunto de tratados da
Lógica, Física, Política e Metafísica. Ao contrário de
seu mestre, Aristóteles criticava o conceito platônico
de ideia, que, para ele, não possuía uma existência
separada, porque só são reais os indivíduos concretos.
A ideia só existe nos seres individuais: ele a chama de
“forma”. Preocupado com as primeiras causas e com
os primeiros princípios de tudo, Aristóteles dessacrali-
zou o “ideal” platônico, realizando as ideias nas coisas,
e, para tanto, apontou o destaque para a experiência.
Assim, os caminhos do conhecimento seriam os da
vida. O ponto central de sua teoria é a distinção entre
potência e ato. O que leva à segunda distinção básica,
entre matéria e forma: “a substância é a forma”.
Daí sua concepção de Deus como ato puro, primei-
ro motor do mundo (Deus ex machina, na tradução de
seus textos para o latim), motor imóvel, inteligência,
pensamento que ignora o mundo e só pensa a si
mesmo. Quanto ao homem, é um “animal político”,
submetido ao Estado, que, pela educação, obriga-o a
realizar a vida moral, pela prática das virtudes: a vida
social é um meio, não o fim da vida moral. A felicidade
suprema consiste na contemplação da realização de
nossa forma essencial. A política aparece como um
prolongamento da moral. A virtude não se confunde
com o heroísmo, mas é uma atividade racional por
excelência. O equilíbrio da conduta só se realiza na
vida social: a verdadeira humanidade só é adquirida
na sociabilidade.
Matéria (lat. materia)1
1. Substância sólida, corpórea. Substância da qual
1. JAPIASSU, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. Rio de janeiro:
Jorge Zahar Editora, 1991. p. 126.
FILOSOFIA aula 3
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algo é feito, constituinte físico de algo. Oposto a
forma, espírito.
2. Nas cosmogonias dos pré-socráticos, a matéria
se constituía dos quatro elementos primordiais (água,
terra, ar, fogo), de cuja combinação resultava toda a
natureza. Diferentes correntes privilegiaram um ou
outro elemento como mais central, e essa visão teve
forte influência nas ciências da Antiguidade.
3. Em Aristóteles e na tradição escolástica, a maté-
ria é a realidade sensível, princípio indeterminado de
que o mundo físico é composto, caracterizando-se a
partir de suas determinações como “matéria de” algo.
Nesse sentido, a matéria é sempre relativa à forma.
A matéria é o princípio da individuação, sendo que
dois indivíduos da mesma espécie são diferentes
entre si não quanto à sua forma, que é a mesma,
mas quanto à matéria.
4. Na lógica aristotélica, a matéria de um juízo é o
seu conteúdo, ou seja, os conceitos designados pelo
sujeito e pelo predicado, enquanto a forma é o tipo
de relação estabelecida. Ex.: os juízos “Este homem
é branco” e “Este homem não é branco” são iguais
do ponto de vista material, diferindo pela forma,
sendo o primeiro particular afirmativo e o segundo
particular negativo.
Forma (do latim, forma)2
Princípio que determina a matéria, fazendo dela
tal coisa determinada: aquilo que, num ser, é inteli-
gível. A matéria e a forma constituem o par central
da física aristotélica. A forma é aquilo que, na coisa,
é inteligível, podendo ser conhecido pela razão (ob-
jeto da ciência): a essência, o “definível”. A matéria
é considerada como um substrato passivo que deve
tomar forma para se tornartal coisa. Matéria e forma
só podem ser dissociadas pelo pensamento.
Lógica (do latim, logica; do grego, logike, de
lógos, "razão")3
1. Em um sentido amplo, a lógica é o estudo da
estrutura e dos princípios relativos à argumentação
válida, sobretudo da inferência dedutiva e dos méto-
dos de prova e demonstração, dedução; implicação.
2. Tradicionalmente, há três maneiras gerais de se
conceber a lógica:
a) Como ciência do real: ou seja, as categorias
2. Japiassu, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editora, 1991. p.81.
3. Japiassu, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editora, 1991. p.120.
(como sujeito e predicado) e princípios lógicos
(como a lei da identidade e a lei do terceiro exclu-
ído) refletiriam categorias e princípios ontológicos;
seriam, portanto, derivados da própria natureza e
estrutura do real. Esta é essencialmente a concep-
ção aristotélica, que predomina em grande parte no
pensamento antigo e medieval, embora sobreviva
em certas concepções contemporâneas como o
platonismo de Frege.
b) Como ciência do pensamento: ou seja, as ca-
tegorias e princípios lógicos refletiriam a estrutura
e o modo de operar de nosso pensamento, especi-
ficamente de nosso raciocínio dedutivo; seriam o
resultado da explicitação e sistematização dessas
categorias e princípios. Essa visão é característica
do pensamento moderno, sendo representada prin-
cipalmente pela Logique de Port-Royal (1662), de
Antoine Arnauld (1616-98) e Pierre Nicole (1625-95),
inspirada no racionalismo cartesiano, e cujo subtítulo
era precisamente “a arte de pensar”. O intuicionismo
contemporâneo, ao menos com Brouwer (1881-
1966), mantém urna visão próxima a esta.
c) Mais contemporaneamente, a lógica é vista, so-
bretudo, como ciência da linguagem, ou seja, como
ciência das linguagens formais, e das categorias
e princípios que utilizamos para a construção de
sistemas formais, para operar com esses sistemas
e para fundamentar sua validade.
Resumo da ópera
Nesta aula, trabalhamos com os pensamentos de
Platão e de Aristóteles. Para Aristóteles, um crítico de
Platão, a ideia não possui uma existência separada. Só
são reais os indivíduos concretos; desse modo, a ideia
só existe nos seres individuais: ele a chama de “forma”.
Preocupado com as primeiras causas e com os primeiros
princípios de tudo, dessacralizou “ideal” platônico, reali-
zando as ideias nas coisas, estabelecendo-se o primado
da experiência, cujos caminhos do conhecimento são os
da vida. Sua teoria capital é a distinção entre potência e
ato, o que leva à segunda distinção básica, entre matéria
e forma: “a substância é a forma”.
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aula 3 FILOSOFIA
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EXERCÍCIOS
1. (Enem)
Para Platão, o que havia de verdadeiro em Parmênides era que o objeto de conhecimento é um objeto de razão e não
de sensação, e era preciso estabelecer uma relação entre objeto racional e objeto sensível ou material que privilegiasse
o primeiro em detrimento do segundo. Lenta, mas irresistivelmente, a Doutrina das Ideias formava-se em sua mente.
ZINGANO, M.
Platão e Aristóteles: o fascínio da filosofia.
São Paulo: Odysseus, 2012. Adaptado.
O texto faz referência à relação entre razão e sensação, um aspecto essencial da Doutrina das Ideias de Platão (427
a.C.-346 a.C.). De acordo com o texto, como Platão se situa diante dessa relação?
a) Estabelecendo um abismo intransponível entre as duas.
b) Privilegiando os sentidos e subordinando o conhecimento a eles.
c) Atendo-se à posição de Parmênides de que razão e sensação são inseparáveis.
d) Afirmando que a razão é capaz de gerar conhecimento, mas a sensação não.
e) Rejeitando a posição de Parmênides de que a sensação é superior à razão.
2. (Enem)
A felicidade é, portanto, a melhor, a mais nobre e a mais aprazível coisa do mundo, e esses atributos não devem estar
separados como na inscrição existente em Delfos “das coisas, a mais nobre é a mais justa, e a melhor é a saúde; porém
a mais doce é ter o que amamos”. Todos estes atributos estão presentes nas mais excelentes atividades, e entre essas
a melhor, nós a identificamos como felicidade.
ARISTÓTELES.
A política.
São Paulo: Cia. das Letras, 2010.
Ao reconhecer na felicidade a reunião dos mais excelentes atributos, Aristóteles a identifica como:
a) busca por bens materiais e títulos de nobreza.
b) plenitude espiritual e ascese pessoal.
c) finalidade das ações e condutas humanas.
d) conhecimento de verdades imutáveis e perfeitas.
e) expressão do sucesso individual e reconhecimento público.
3. (UFU) Leia o trecho abaixo.
E que existe o belo em si, e o bom em si, e, do mesmo modo, relativamente a todas as coisas que então postulamos como múlti-
plas, e, inversamente, postulamos que a cada uma corresponde uma ideia, que é única, e chamamos-lhe a sua essência (507b-c).
PLATÃO.
República.
Trad. de Maria Helena da Rocha Pereira.
8a ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996.
FILOSOFIA aula 3
26 POLISABER
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Marque a alternativa que expressa corretamente o pensamento de Platão:
a) Somente por meio dos sentidos, em especial da visão, pode o filósofo obter o conhecimento das ideias.
b) No pensamento platônico, o conhecimento das ideias permite ao filósofo discernir a unidade inteligível em face da
multiplicidade sensível.
c) Para que a alma humana alcance o conhecimento das ideias, ela deve elevar-se às alturas do inteligível, o que so-
mente é possível após a morte ou por meio do contato com os deuses gregos.
d) Tanto a dialética quanto a matemática elevam o conhecimento ao inteligível; mas, somente a matemática, por seu
caráter abstrato, conduz a alma ao princípio supremo: a ideia de Bem.
4. (Enem)
SANZIO, R. Detalhes do afresco "A escola de Atenas".
Disponível em: fil.cfh.ufsc.br.
Acesso em: 20 mar. 2013.
No centro, conhecimento se encontra em uma instância na qual o homem descobre a:
a) suspensão do juízo como reveladora da verdade.
b) realidade inteligível por meio do método dialético.
c) salvação da condição mortal pelo poder de Deus.
d) essência das coisas sensíveis no intelecto divino.
e) ordem intrínseca ao mundo por meio da sensibilidade.
ESTUDO ORIENTADO
Caro(a) aluno(a),
Na aula "Platão e Aristóteles", temos o objetivo de apresentar as principais características dos dois últimos períodos da
filosofia grega, observando-se as diferenças entre o pensamento de Platão (a percepção de um mundo sensível e de um
inteligível) e seu discípulo Aristóteles (que buscava entender a importância da ação e o papel do homem nesse contexto).
Nos exercícios selecionados, propomos a fixação dos conceitos discutidos para trabalhar a habilidade de leitura e
interpretação de textos, os quais podem ser dos filósofos do período estudado ou de especialistas contemporâneos
que buscam apresentar as principais ideias dos pensadores.
Na Roda de leitura, os textos de Platão apresentados na forma de diálogos mostram um exemplo do pensamento
dialético, além do destaque no texto I para o famoso mito de “Atlântida”, enquanto no texto de Aristóteles encontramos
uma reflexão sobre o discurso artístico e seu fazer como forma de expressão e pensamento no fragmento da Poética.
Bons estudos!
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aula 3 FILOSOFIA
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EXERCÍCIOS
1. (UEL)
Todos os homens, por natureza, desejam conhecer.
Sinal disso é o prazer que nos proporcionam os nos-
sos sentidos; pois, ainda que não levemos em conta a
sua utilidade, são estimados por si mesmos; e, acima
de todos os outros, o sentido da visão”. Mais adiante,
Aristóteles afirma: “Por outro lado, não identificamos
nenhum dos sentidos com a Sabedoria, se bem que
eles nos proporcionem o conhecimento mais fidedigno
do particular. Não nos dizem, contudo, o porquê de
coisa alguma.
ARISTÓTELES.
Metafísica.
Trad. de Leonel Vallandro.
Porto Alegre: Globo, 1969. p. 36 e 38.
Com base no texto acima e nosconhecimentos so-
bre a metafísica de Aristóteles, considere as afirma-
tivas a seguir.
I. Para Aristóteles, o desejo de conhecer é inato ao
homem.
II. O desejo de adquirir sabedoria em sentido pleno
representa a busca do conhecimento em mais alto
grau.
III. O grau mais alto de conhecimento manifesta-se no
prazer que sentimos em utilizar nossos sentidos.
IV. Para Aristóteles, a sabedoria é a ciência das causas
particulares que produzem os eventos.
A alternativa que contém todas as afirmativas cor-
retas é:
a) I e II.
b) II e IV.
c) I, II e III.
d) I, III e IV.
e) II, III e IV.
2. (UFSM)
Portanto, nem por natureza nem contrariamente à
natureza a virtude moral é engendrada em nós, mas
a natureza nos dá a capacidade de recebê-la, e esta
capacidade se aperfeiçoa com o hábito.
ARISTÓTELES.
Ética a Nicômaco. Brasília: Editora da UNB, 2001.
Analise as afirmações:
I. O ser humano é mau ou bom por natureza.
II. A virtude moral não é algo inato ao ser humano.
III. A ética ocupa-se basicamente de questões subjeti-
vas, abstratas e essencialmente de interesse parti-
cular do indivíduo.
IV. Uma ética deontológica é aquela construída sobre o
princípio do dever.
Com base no texto e nos conhecimentos sobre éti-
ca, marque a alternativa correta.
a) I, II.
b) I, II, III.
c) I e IV.
d) II e IV.
e) I, II, III e IV.
3. (Vunesp)
De acordo com a Alegoria da Caverna, a possibilidade
de um indivíduo tornar-se justo e virtuoso depende de
um processo de transformação pelo qual deve passar.
Assim, afasta-se das aparências, rompe com as ca-
deias de preconceitos e condicionamentos e adquire
o verdadeiro conhecimento. Tal processo culmina com
a ideia da forma do Bem, representada pela metáfora
do Sol. Para Platão, conhecer o Bem significa tornar-se
virtuoso. Aquele que conhece a justiça não pode deixar
de agir de modo justo.
MARCONDES, Danilo.
Textos básicos de ética: de Platão a Foucault.
Rio de Janeiro, Zahar, 2007. p. 31
A importância histórica do método de conhecimento
estabelecido na obra de Platão justifica-se
a) pela defesa de uma rigorosa separação entre a esfera
da política e a esfera da filosofia.
b) por definir proposições instrumentais para o agir
político, antecipando as estratégias maquiavélicas.
c) por identificar as coisas empíricas como sendo em
si mesmas dotadas de sua própria verdade.
d) pela definição de uma esfera suprassensível que
contém as formas perfeitas, necessárias e universais
das coisas.
e) por entender os preconceitos e condicionamentos do
mundo sensível como esfera virtuosa e justa.
FILOSOFIA aula 3
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4. (UEL) Considere a citação abaixo:
SÓCRATES: Tomemos como princípio que todos os
poetas, a começar por Homero, são simples imitadores
das aparências da virtude e dos outros assuntos de que
tratam, mas que não atingem a verdade. São semelhan-
tes nisso ao pintor de que falávamos há instantes, que
desenhará uma aparência de sapateiro, sem nada en-
tender de sapataria, para pessoas que, não percebendo
mais do que ele, julgam as coisas segundo a aparência?
Glauco: “Sim”.
PLATÃO.
A república.
Trad. de Enrico Corvisieri.
São Paulo: Nova Cultural, 1997. p. 328.
Com base no texto acima e nos conhecimentos
sobre a mímesis em Platão, assinale a alternativa
correta.
a) Platão critica a pintura e a poesia porque ambas são
apenas imitações diretas da realidade.
b) Para Platão, os poetas e pintores têm um conheci-
mento válido dos objetos que representam.
c) Tanto os poetas quanto os pintores estão, segundo
a teoria de Platão, afastados dois graus da verdade.
d) Platão critica os poetas e pintores porque estes, à
medida que conhecem apenas as aparências, não
têm nenhum conhecimento válido do que imitam
ou representam.
e) A poesia e a pintura são criticadas por Platão porque
são cópias imperfeitas do mundo das ideias.
RODA DE LEITURA
Texto I
Muitos e grandes foram os feitos da vossa cidade
que são motivo de admiração nos registos que deles
aqui ficaram. Mas, entre todos eles, destaca-se um em
grandeza e beleza; os nossos escritos referem como
a vossa cidade um dia extinguiu uma potência que
marchava insolente em toda a Europa e na Ásia, depois
de ter partido do Oceano Atlântico. Em tempos, e este
mar podia ser atravessado, pois havia uma ilha junto
ao estreito a que vós chamais Colunas de Héracles4
– como vós dizeis; ilha essa que era maior do que a
4. O estreito de Gibraltar
Líbia e a Ásia juntas, a partir da qual havia um acesso
para os homens daquele tempo irem às outras ilhas,
e destas ilhas iam diretamente para todo o território
continental que se encontrava diante delas e rodeava
o verdadeiro oceano. De facto, aquilo que está aquém
do estreito de que falamos parece um porto com uma
entrada apertada. No lado de lá é que está o verdadeiro
mar e é a terra que o rodeia por completo que deve ser
chamada com absoluta exatidão “continente”.5
Nesta ilha, a Atlântida, havia uma enorme confe-
deração de reis com uma autoridade admirável que
dominava toda a ilha, bem como várias outras ilhas e
algumas partes do continente; além desses, domina-
vam ainda alguns locais aquém da desembocadura:
desde a Líbia6 ao Egito e, na Europa, até à Tirrénia.7 Esta
potência tentou, toda unida, escravizar com uma só
ofensiva toda a vossa região, a nossa e também todos
os locais aquém do estreito. Foi nessa altura, ó Sólon,
que, pela valentia e pela força, se revelou a todos os
homens o poderio da vossa cidade, pois sobrepôs-se
a todos em coragem e nas artes da guerra, quando
liderou o exército grego e, depois, quando foi deixada à
sua própria mercê, por força da desistência dos outros
povos e correu riscos extremos. Mas veio a erigir o
monumento da vitória ao dominar quem nos atacava;
impediu que escravizassem, entre outros, quem nunca
tinha sido escravizado, bem como todos os que habi-
tavam aquém das Colunas de Héracles, e libertou-os
a todos sem qualquer reserva.8 Posteriormente, por
causa de um sismo incomensurável e de um dilúvio
que sobreveio num só dia e numa noite terríveis,9 toda
a vossa classe guerreira foi de uma só vez engolida
pela terra, e a ilha da Atlântida desapareceu da mesma
maneira, afundada no mar. É por isso que nesse local o
oceano é intransitável e imperscrutável, em virtude da
lama que aí existe em grande quantidade e da pouca
profundidade provocada pela ilha que submergiu.”10
Acabas de ouvir, ó Sócrates, o essencial do relato e
de Crítias, o ancião, segundo o que ele ouviu de Sólon.
Ontem, enquanto tu falavas sobre o Estado e dos
homens que referias, eu fiquei atônito ao recordar-me
disto de que agora vos falo, por me aperceber de que,
5. Segundo esta descrição, que recupera alguns elementos do Fédon (108c-114c), a
bacia mediterrânica é apenas a parte central da superfície terrestre e não a sua
totalidade: é circundada pelo oceano, onde se situa a Atlântida, e é além deste que
se situa o território continental. No fundo, a zona do mediterrâneo equivale a um
conjunto de ilhas desse verdadeiro mar.
6. Todo o território entre o Egito e a costa ocidental de África.
7. Parte ocidental da península Itálica.
8. Este dilúvio é igualmente referido no Crítias e também por outros autores.
9. No Menéxeno é descrita em termos muito semelhantes a prestação ateniense
contra a invasão dos Persas.
10. Semelhante testemunho dá Aristóteles nos Meteorológicos.
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aula 3 FILOSOFIA
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miraculosamente e por obra de um acaso, sem que
fosse tua intenção, tinhas coligido muito do que Sólon
dissera. Ainda assim, não quis falar de improviso, pois
não me lembrava o suficiente, em virtude do tempo
decorrido. Portanto, decidi que seria preciso que eu
próprio recuperasse adequadamente tudo isto, antes de
vos contar deste modo. Por isso, concordei prontamen-
te com as tuas determinações de ontem, acreditando
que, em todos os casos como este, o encargo mais
importante é propor um discurso que seja adequado
aosobjetivos e possa ser suficientemente vantajoso
para nós. Assim, tal como Hermócrates disse, mal on-
tem saí daqui, repeti-lhes aquilo de que me lembrava;
e, depois de me ter ido embora, refleti durante a noite
e recuperei quase tudo. Em boa verdade, o que se
aprende na infância, segundo se diz, fica admiravelmen-
te retido na memória. Com efeito, o que ouvi ontem,
não sei se eu o conseguirei trazer de novo à memória
por completo, mas em relação ao que apreendi há já
muito tempo, ficaria absolutamente admirado se me
escapasse alguma coisa. De fato, era com tanto prazer
e entusiasmo infantil que as escutava, além de o ancião
mas contar de bom grado (enquanto lhe fazia perguntas
repetidamente) que, tal como aquele tipo de escrita
em pintura encáustica11 que subsiste, se tornaram para
mim indeléveis. Assim, logo ao amanhecer, contei-lhes
isto, de modo a que me acompanhassem no relato.
E agora, pois foi por causa disso que referi tudo isto,
estou preparado, ó Sócrates, a relatá-lo não só no que
se refere aos seus aspectos principais, mas também
ao pormenor, tal como o ouvi. Quanto aos cidadãos e à
cidade que tu ontem nos descreveste como num mito,
ponhamo-los aqui, transportando-os para a realidade,12
como se aquela cidade fosse esta aqui, e suponhamos
que aqueles cidadãos que tu tinhas em mente são os
nossos antepassados – os reais; aqueles de que falava
o sacerdote. Estarão em absoluta harmonia e nós não
estaremos fora de tom se dissermos que eles são
os que existiram naquele tempo. Assim, dentro dos
possíveis, tentaremos todos em conjunto ocupar-nos
da tarefa que nos entregaste. Portanto, ó Sócrates, é
preciso ter em atenção se este discurso está de acordo
com o nosso propósito, ou se devemos procurar um
outro em substituição dele.
SÓCRATES: E que outro discurso, ó Crítias, podería-
mos nós preferir melhor que este, que seja ainda mais
adequado ao festival da deusa que celebramos, pois
11. Método de pintura que consistia em aplicar cera aquecida numa base metálica;
garantilando-lhe grande durabilidade.
12. Epi talêthes.
está-lhe intimamente ligado, e, além disso, é muito
relevante o facto de não se tratar de uma narrativa
forjada, mas sim de um discurso real. Na verdade, como
e onde encontraríamos outros, caso deixássemos este
de lado? Não é possível. Agora, boa sorte, pois é a vós
que compete falar. Quanto a mim, em troca dos discur-
sos de ontem, mantenho-me em silêncio e retribuo o
papel de ouvinte.
CRÍTIAS: Observa, então, ó Sócrates, o programa que
preparámos para a tua recepção. Com efeito, pareceu-
-nos que Timeu, por de nós ser o mais entendido em
astronomia e o que mais se empenhou em conhecer
a natureza do mundo,13 deveria ser o primeiro a falar,
começando pela origem do mundo e terminando na
natureza do homem. Depois dele, serei eu, como se dele
tenha recebido os homens gerados pelo seu discurso e
de ti um certo número de homens educados de forma
particularmente apurada. Então, de acordo com as
palavras e a lei de Sólon, depois de os trazer à nossa
presença, como se estivessem perante juízes, fá-los-ei
cidadãos desta cidade, como se fossem os Atenienses
de outrora, cuja existência permanece esquecida e foi
agora desvelada pelo testemunho dos escritos sagra-
dos. Daqui em diante, farei o meu discurso como se
na verdade se tratasse de cidadãos e de Atenienses.
TIMEU-CRÍTIAS.
Platão.
Coimbra: FCT, 2011, p. 87-92.
(Coleção Autores Gregos e Latinos. Série Textos.)
Texto II
Poesia e história. Mito trágico e mito tradicional.
Particular e universal. Piedade e terror. Surpreendente
e maravilhoso.
50. Pelas precedentes considerações se manifesta
que não é ofício de poeta narrar o que aconteceu; é,
sim, o de representar o que poderia acontecer, quer
dizer: o que é possível segundo a verossimilhança e a
necessidade. Com efeito, não diferem o historiador e
o poeta por escreverem verso ou prosa (pois que bem
poderiam ser postos em verso as obras de Heródoto,
e nem por isso deixariam de ser história, se fossem
em verso o que eram em prosa) — diferem, sim, em
que diz um as coisas que sucederam, e outro as que
poderiam suceder. Por isso a poesia é algo de mais
filosófico e mais sério do que a história, pois refere
aquela principalmente o universal, e esta o particular.
13. Kosmos
FILOSOFIA aula 3
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Por “referir-se ao universal” entendo eu atribuir a um
indivíduo de determinada natureza pensamentos e
ações que, por liame de necessidade e verossimilhança,
convém a tal natureza; e ao universal, assim entendido,
visa a poesia, ainda que dê nomes às suas personagens;
particular, pelo contrário, é o que fez Alcibíades ou o
que lhe aconteceu.
51. Quanto à comédia, já ficou demonstrado [este
caráter universal da poesia]; porque os comediógra-
fos, compondo a fábula segundo a verossimilhança,
atribuem depois às personagens os nomes que lhes
parece, e não fazem como os poetas jâmbicos, que se
referem a indivíduos particulares.
52. Mas na tragédia mantêm-se os nomes já existen-
tes. A razão é a seguinte: o que é possível é plausível;
ora, enquanto as coisas não acontecem, não estamos
dispostos a crer que elas sejam possíveis, mas é claro
que são possíveis aquelas que aconteceram, pois não
teriam acontecido se não fossem possíveis.
53. Todavia, sucede também que em algumas tra-
gédias são conhecidos os nomes de uma ou duas
personagens, sendo os outros inventados; em outras
tragédias nenhum nome é conhecido, como no Anteu
de Agatão, em que são fictícios tanto os nomes como
os fatos, o que não impede que igualmente agrade.
Pelo que não é necessário seguir à risca os mitos tra-
dicionais donde são extraídas as nossas tragédias; pois
seria ridícula fidelidade tal, quando é certo que ainda
as coisas conhecidas são conhecidas de poucos, e
contudo agradam elas a todos igualmente.
54. Daqui claramente se segue que o poeta deve ser
mais fabulador que versificador; porque ele é poeta
pela imitação e porque imita ações. E ainda que lhe
aconteça fazer uso de sucessos reais, nem por isso
deixa de ser poeta, pois nada impede que algumas das
coisas que realmente acontecem sejam, por natureza,
verossímeis e possíveis e, por isso mesmo, venha o
poeta a ser o autor delas.
55. Dos mitos e ações simples, os episódicos são os
piores. Digo “episódico” o mito em que a relação entre
um e outro episódio não é necessária nem verossímil.
Tais são os mitos de maus poetas, por [imperícia] deles,
e às vezes de bons poetas, por [condescendência com
os] atores. É que, para compor partes declamatórias,
chegam a forçar a fábula para além dos próprios limites
e a romper o nexo da ação.
56. Como, porém, a tragédia não só é imitação de uma
ação completa, como também de casos que suscitam o
terror e a piedade, e estas emoções se manifestam prin-
cipalmente quando se nos deparam ações paradoxais,
e, perante casos semelhantes, maior é o espanto que
ante os feitos do acaso e da fortuna (porque, ainda
entre os eventos fortuitos, mais maravilhosos parecem
os que se nos afiguram acontecidos de propósito — tal
é, por exemplo, o caso da estátua de Mítis em Argos,
que matou, caindo-lhe em cima, o próprio causador
da morte de Mítis, no momento em que a olhava —,
pois fatos semelhantes não parecem devidos ao mero
acaso), daqui se segue serem indubitavelmente os
melhores os mitos assim concebidos.
ARISTÓTELES.
Poética.
Livro IX, 50-56.
São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 249-250.
NAVEGAR
Filme
Alexandre
Direção: Oliver Stone.
Alemanha/Estados Uni-
dos/Reino Unido, 2004.
O filme resgata a figura
do conquistador Alexan-
dre Magno, apresentando
não só uma preciosa re-
constituição das batalhas
e dos ambientes do mun-
do antigo, mas também a
conturbada biografia do
personagem-título: logo
no início, há uma pequena amostra do que teria sido
sua relação com Aristóteles e suas ideias, inclusive mos-
trando a influência do sábio de Estagira para o príncipe
e sua corte e oemprego da metodologia peripatética,
ensinando ao ar livre.
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Livros
STRATHERN, Paul. Platão
em 90 minutos. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1998.
Na pólis de Atenas, um jo-
vem bem-nascido chamado
Arístocles decidiu esquecer as
suas ambições enquanto luta-
dor. Depois de adotar o nome
Platão, resolveu dedicar-se à
filosofia. Em 387 a.C., fundou a
Academia, a primeira universi-
dade do mundo, e ensinou aos
seus alunos que tudo aquilo que vemos não é a realidade,
mas simplesmente uma reprodução da verdadeira ori-
gem. E, na sua famosa República, descreveu as políticas
da “mais alta forma de Estado”.
STRATHERN, Paul. Aristó-
teles em 90 minutos. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
Aristóteles escreveu acer-
ca de tudo, desde a forma
das conchas à esterilidade,
especulou acerca de temas
como a natureza da alma, a
meteorologia, a poesia e a
arte, e até a interpretação dos
sonhos. Fora a matemática,
transformou todos os ramos
de conhecimento em que tocou. Acima de tudo, Aristó-
teles é recordado por ter fundado a lógica. Quando, pela
primeira vez, dividiu o conhecimento humano em catego-
rias separadas, permitiu que a compreensão que temos
do mundo se desenvolvesse de uma forma sistemática.
CASERTANO, Giovanni.
Uma introdução à República de
Platão. São Paulo: Paulus, 2011.
Esta introdução a um dos
mais longos, densos, multifa-
cetados e controvertidos diá-
logos de Platão — a República
— soma-se a uma bibliografia
sobre Platão e o platonismo
que vem crescendo nos úl-
timos anos em português. A
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obra escrita por Casertano divide-se em uma apresenta-
ção geral, seguida da exposição analítica de cada um dos
dez livros que compõem o diálogo e mais três capítulos.
Ao longo de seu livro, o autor lança luzes acerca de
questões presentes na República que foram objeto de
grandes controvérsias, desde Aristóteles até a atualidade.
ÁGORA
Matrix é um ótimo exemplo para trabalharmos a releitu-
ra cinematográfica de temas ligados à Filosofia. Produção
estadunidense e australiana, de 1999, do gênero ficção
científica, dirigida pelos irmãos Andy e Lana Wachowski,
protagonizado por Keanu Reeves e Laurence Fishburne,
traz em seu enredo uma ampla gama de elementos que
constituem as bases da cultura ocidental.
Atividade
Análise do discurso filosófico a partir do filme Matrix.
Objetivos
– Identificar conceitos filosóficos presentes no filme.
– Estabelecer os paralelos entre a proposição dos
diretores e a visão dos filósofos.
– Observar a aproximação e o distanciamento dos
temas tratados pelo filme e pela Filosofia.
FILOSOFIA aula 3
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O sábio se contenta de viver feliz, não simplesmente de viver.
Cartas a Lucílio, de Sêneca.
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aula 3 FILOSOFIA
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GABARITO – FILOSOFIA
Aula Zero
Estudo orientado
1. São corretas as alternativas 01 + 08 + 16 = 25
2. b
3. b
Aulas 1 e 2
Estudo orientado
1. a
2. c
3. Segundo o autor, o pensamento filosófico diferen-
cia-se do mitológico pelo fato de propor uma expli-
cação natural aos fenômenos naturais, valendo-se
da observação e análise de determinados eventos,
podendo ser aprendido por qualquer pessoa que
se interesse pelo assunto, enquanto a mitologia se
baseia na crença sem reflexão de determinada nar-
rativa, que de geração em geração foi reproduzida
e aponta para a intervenção de forças sobrenatu-
rais entre os homens e o mundo. No entanto, sua
compreensão não é possível sem a atuação de um
sacerdote ou mago, que é capaz de interpretar e
entender seu funcionamento: aqueles que são “ini-
ciados” nos conhecimentos de tais mistérios teriam
uma percepção parcial e os leigos estariam total-
mente fora da sua compreensão.
Aula 3
Estudo orientado
1. a
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FILOSOFIA 2
FILOSOFIA aula 4
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Filósofos romanos
Do Império Helenístico ao Império Romano
O enfraquecimento dos gregos favoreceu sua assimilação pelos macedônios, que vieram do Norte e iniciaram a for-
mação de um vasto império a partir da submissão da Hélade, em 338 a.C., na batalha de Queroneia, liderada por Filipe II
com a participação de seu filho e herdeiro, o príncipe Alexandre.
Com a morte de Filipe, em 336 a.C., Alexandre deu continuidade ao processo de conquista, anexando o Egito, a Ásia
Menor, a Mesopotâmia e a Pérsia e chegando até o rio Indo, formando, portanto, um dos maiores impérios da Antigui-
dade entre 336-323 a.C.
Império Helenístico
Antioquia
Sídon
Biblos
Laudiceia
Selêucia
SardesAtenas
Bizâncio
MACEDÔNIA
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Mileto
Ectabana
PersépoliaAlexandria
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Mên�s
Alexandria
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Alexandria
Alexandria
Cabul
Pattaia
Selêucia
Eufrates
Babilônia
Dura
Europos
MAR MEDITERRÂNEO
MAR NEGRO
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R CÁSPIO
GOLFO PÉRSICO
MAR DA ARÁBIA
Alexandre permitiu a manutenção dos povos dominados, resultando na fusão de valores gregos e orientais.
A principal forma de manutenção do Império Helenístico foi a força militar, inicialmente composta de macedônios e
gregos e, à medida que as anexações avançaram, também de muitos asiáticos. No interior do Império, Alexandre preser-
vou a estrutura administrativa persa, com a divisão em satrapias, cada qual administrada por um sátrapa, responsável
pela manutenção da ordem, pela tributação e pelo exercício da justiça.
Tendo sido educado por Aristóteles e detentor de uma visão de mundo mais plural que seus conterrâneos, Alexandre
permitiu a manutenção da cultura dos povos dominados, resultando na fusão de valores gregos e orientais. Isso gerou
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FILOSOFIA – AULA 4
O privilégio do ser humano de bem é acolher com
satisfação e amor o que lhe acontece e é urdido na
trama de sua vida.
Meditações (Livro III, 16), de Marco Aurélio.W
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aula 4 FILOSOFIA
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um império híbrido, de múltiplas culturas, e um exemplo disso foi o próprio Alexandre, que se casou com a princesa
Roxana, filha de um potentado da região da Báctria, e depois com mais três princesas persas.
Alexandre empenhou-se na construção da própria imagem, espelhando-se tanto na tradição grega, evocando as
figuras de Aquiles ou de Hércules, quanto na tradição oriental, ordenando que o retratassem como o faraó no Egito
conquistado, e ainda cultivou os valores teocráticos do Egito, da Mesopotâmia e da Pérsia, sendo cultuado como rei (o
basileus grego) e, ao mesmo tempo, deus.
Portanto, de um lado, destaca-se a cultura helênica, oriunda da Hélade, cujas referências foram muito bem consolidadas
por Aristóteles na educação de Alexandre, e, de outro, a cultura oriental de diferentes povos (persas, babilônios, egípcios
e outros) que, uma vez dominados por Alexandre, foram incorporados ao Império e deram origem à cultura helenística.
Busto de Alexandre.
Atualmente, este mosaico encontra-se no Museu Nacional de Arte Antiga, em Nápoles, mas originalmente estava na
cidade de Pompeia (ao sul de roma, próxima de Nápoles), quando foi engolida pela erupção do Monte Vesúvio, em 79 d.C.
O que vemos é a parte sobrevivente à erupção e aos 17 séculos de soterramento. Nela, Alexandre Magno persegue o xá
da Pérsia, Dário III, que fora derrotado nesta batalha em 333 a.C.
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FILOSOFIA aula 4
4 POLISABER
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Além de construir um extenso império, Alexandre pro-
curou preservar sua memória com a fundação de cerca de
mais de vinte cidades com o nome de Alexandria, entre
as quais, uma no norte do Egito, já herdada do período
faraônico (desde Ramsés II 1279-1213 a.C.). Ele também
preservou e ampliou uma grande biblioteca, resguar-
dando parte significativa da culturagrega em milhares
de rolos de papiro.
Apesar de seu grande êxito militar, Alexandre não
conseguiu deixar um sucessor, pois seu filho com Roxana
não assumiu depois de sua morte, em 323 a.C., ocorrida
em condições suspeitas, que incluíam a possibilidade de
assassinato por envenenamento. Morreu às vésperas de
completar 33 anos, ainda jovem, como seu império, que
fora retalhado entre seus principais generais: a Hélade fi-
cou sob o controle de Antígono, o Egito passou ao domínio
de Ptolomeu, a Síria e a Mesopotâmia ficaram ao cargo
de Seleuco, e os reinos do leste, além do planalto persa,
foram fragmentados em unidades menores, perdendo as
referências helênicas ali implantadas e depois agregadas
a outros domínios da Ásia central.
Em 146 a.C., os romanos dominaram a Hélade, que foi
transformada em uma província romana denominada
Graetia, termo latino do qual deriva a palavra “Grécia”.
Dali, os novos senhores iniciaram a conquista do Medi-
terrâneo oriental e do Oriente próximo, então uma fração
menor conquistada do antigo império de Alexandre, de
quem os romanos se colocaram como sucessores no
domínio do Oriente.
Do ponto de vista cultural, a importância dos romanos
é controversa, pois seus feitos militares foram sempre
mais exaltados que sua herança cultural, argumento
sustentado também por Horácio, poeta romano do século
I a.C. para quem “A Grécia conquistada conquistou seu
feroz vencedor e introduziu as artes no agreste Lácio”.
Há muitos pontos comuns entre as duas culturas, pois,
com a conquista dos gregos pelos romanos, milhares
de escravos da Hélade foram levados para a Itália para
trabalhar em diferentes áreas. A religião romana recebeu
influência direta dos gregos, em virtude da correspondên-
cia entre vários deuses das duas culturas, assim como a
arquitetura, a escultura e a pintura.
Segundo Epicuro, a felicidade é alcançada com a
moderação.
Epicuro
Epicuro nasceu em Samos (341 a.C.), filho de um pro-
fessor e de uma curandeira que fazia previsões para o
futuro. Quando jovem, fundou, em Atenas, uma escola de
filosofia, conhecida como O Jardim, na qual reunia seus
discípulos. De suas obras, só chegaram aos dias atuais
fragmentos de suas máximas e três cartas destinadas
respectivamente a Meneceu, Heródoto e Pítocles.
Segundo Epicuro, a religião e as explicações supersti-
ciosas e míticas sobre os fenômenos naturais geravam a
angústia humana. Apenas a ciência era capaz de dissipá-
-la e proporcionar uma vida tranquila.
Com base nas ideias de Demócrito sobre a física ma-
terialista e o atomismo, Epicuro dizia que os fenômenos
naturais são explicados de formas naturais e têm aí a
sua causa. No entanto, a investigação desses fenômenos
não se propõe à satisfação científica, pois a finalidade da
ciência é trazer tranquilidade aos seres humanos. Nada
provém do nada, mas se forma a partir de elementos que
existem antecipadamente. O atomismo de Demócrito
elimina, portanto, a crença em um Deus criador, já que os
átomos são eternos. Além disso, não cabe em sua teoria
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a ideia de um Deus que intervém no mundo, que pune e
recompensa. Os deuses abstêm-se de interferir no mundo
porque ficariam expostos aos movimentos incessantes
dos átomos e deixariam de ser invulneráveis.
O epicurismo tem como objetivo principal a felicidade,
livrando o ser humano de suas angústias e inquietações.
Ataraxia é o nome dado a esse processo de “salvação”.
Na filosofia epicurista, a busca pela felicidade e o prazer
é amparada pela austeridade moral. O prazer não é o
prazer desenfreado, mas a ausência de dor, ou seja, uma
fuga de todas as ocasiões de dor, de todos os riscos, de
todas as aventuras.
Na busca pelo prazer é preciso discernir entre os
prazeres existenciais (luxo, vaidade etc.) que devem ser
evitados, e aqueles naturais ou absolutamente necessá-
rios, que devem ser perseguidos, mas de forma ascética
(alimento, conforto, amizade). Segundo Epicuro, a sa-
bedoria consiste em livrar-se das paixões e refugiar-se
na discrição. As influências que o mundo exterior pode
exercer sobre nós, pelos sentimentos e desejos desen-
freados, devem ser domadas.
O epicurismo é dividido em três partes: canônica, física
e ética. A parte canônica, que é a introdução ao pensa-
mento de Epicuro, apresenta o critério que embasa sua
teoria do conhecimento. A física vai tratar da teoria dos
átomos e suas implicações na constituição do universo
e dos seres vivos. A ética, ponto de convergência de
toda a doutrina de Epicuro, apresenta a forma como a
humanidade pode alcançar a felicidade, livrando-se das
perturbações, sejam essas causadas pela política, socie-
dade ou advindas da religião.
É importante entender que a relação canônica de
Epicuro não se apresenta por meio de proposta teórica.
Ela tem uma finalidade prática, utilitarista; é um saber
para a vida. As gradações e os critérios da verdade são
as sensações, antecipações e sentimentos. As sensações
são impressões recebidas pelos sentidos via estímulos
externos e são verdadeiras porque causam movimento.
Só o que existe gera movimento. Segundo Epicuro, as
sensações seriam resultantes de pequenas imagens
(em grego eidola, de onde se origina a palavra ídolo) e,
tal qual nos altares de culto das casas, essas pequeninas
imagens estariam presentes. Essas imagens afetam os
sentidos na medida em que eles as registram. São cópias
verdadeiras da realidade.
Os juízos são verdadeiros quando são confirmados pela
sensação. Por exemplo: prazer e dor são sinais verdadei-
ros (sensações) do que deve ser evitado ou buscado do
ponto de vista moral. Por outro lado, os juízos podem
produzir o erro, já que a totalidade das impressões rece-
bidas e a natureza dos homens são iguais. Então não é
na sensação ou percepção que fundamenta o erro, mas
naquele que expressa o julgamento sobre ela. O julga-
mento sobre se algo é bom ou não, se causa felicidade
ou dor, vem do movimento muscular. Esse movimento
vai dizer se o objeto merece ser aceito ou rejeitado. A
vontade também ocupa um lugar importante no processo
de conhecimento, já que a alma pensante é movida pelos
objetos desejados ou que não são desejáveis.
É na ética que a filosofia de Epicuro encontra sua razão
de ser. A ética epicurista é entendida como a busca da
felicidade pela remoção dos obstáculos lançados pela
política, pela religião e pelas relações sociais, o que pode
ser enfatizado na lembrança de seu quádruplo remédio:
os deuses não devem causar medo; não é preciso temer
a morte; o prazer é acessível ao homem e é possível
suportar a dor. O filósofo conduzia seus discípulos, por
meio da prática, a uma vida em que ideias e experiência
andassem juntas. O próprio nome, Epicuro, do grego
epíkouros, significa auxiliador, aquele que presta ajuda.
Quando o ser humano busca o prazer, na verdade, bus-
ca a felicidade natural. Como na vida é impossível gozar
todos os prazeres e evitar todas as dores, é necessário
fazer uma escolha inteligente por meio do logismós.
Os prazeres dos quais resultam uma dor maior devem
ser evitados. No entanto, suportar uma dor, quando for
inevitável, pode ser recompensador − serenidade, au-
sência de dor, tranquilidade. O ser humano não pode ser
perturbado pelos deuses, pela morte, pela dor ou pelas
opiniões dos outros. A eudaimonia surge como proposta
à nakodaimonia (infelicidade), sabedoria para livrar-se
dos temores e para poder decidir quando a dor deve ser
abraçada e quando se deve desfrutar do prazer.
A virtude não pode se constituir apenas de sacrifício.
Deve buscar também a recompensa pessoal e nesse sen-
tido deve ser escrava do prazer. Só se alcança a virtude
com phróneses, logismós, soprousýne e dike (inteligência,
calculismo, autodomínio e justiça). A prudência proporcio-
na o verdadeiro prazer, buscando evitar a dor, porque se
fundamenta em reflexão, emponderação, fruto da razão
e do cálculo. O autodomínio é necessário para que sejam
evitados os bens materiais, a cultura sofisticada e a par-
ticipação na política. Todas essas coisas são supérfluas.
Mesmo como resultado de convenção social, a justiça deve
ser buscada porque produz a imperturbabilidade para quem
dela usufrui. O paradigma do epicurismo pode ser resumido
na atitude interior que independe de condições exteriores,
na qual a individualidade se pauta em suas ações.
Texto extraído de “A porta e o jardim: uma
introdução ao epicurismo e estoicismo da
Grécia pós-socrática”, de Uipirangi Franklin da
Silva Câmara. In: Revista Eletrônica do Curso de
Pedagogia das Faculdades OPET, junho 2014.
Adaptado por Elias Feitosa de Amorim Júnior .
FILOSOFIA aula 4
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Estoicismo
Estudar o estoicismo compreende a necessidade de
sua vinculação com reflexões sobre a natureza, a lei e
as formas de relação entre elas. A necessidade de um
fundamento para a boa lei, para legitimar o cotidiano, os
novos tempos, vai levar os estoicos a formularem um
cosmos teorizado como harmonia de forças contrárias.
A justa medida contemplada na natureza é o que se deve
buscar na vida política e particular. Os estoicos vão justifi-
car essa afirmativa ao ler a natureza de forma dogmática.
Todos devem se submeter aos princípios da natureza. A
natureza é quem determina o que somos e como agimos:
A natureza estoica é teorizada como divina em sua
eterna normatividade, em sua prevista ordenação e
força constitutiva dos seres. Sem a presença das di-
vindades míticas, ela é abstrata em sua sacralidade e
ampara a universalidade do homem quanto ao uso do
logos, uma vez que ele é cósmico e pertinente a todos
os seres, portanto à própria natureza humana. A physis
sustenta a noção de igualdade, e forma, por princípio, o
modo de ser e de agir dos seres. Todo homem é lógikos,
pois o natural é lógikos. Todo homem pertence ao
cosmo, e toda cidade deve ser a expressão do modo
de ser cósmico. (Gazolla, 1999, p. 41)
O núcleo fundamental no estoicismo pode ser a con-
cepção de que uma lei divina e natural, comum a todos
os cidadãos, é o paradigma pelo qual todos os seres
humanos têm o seu princípio constitutivo e pelo qual
baseiam sua conduta.
O estoicismo pode ser dividido em três períodos:
I) Estoicos antigos (séculos III-II a.C.): Zenão de Cício
(336-246 a.C.); Cleanto de Assos (331-232 a.C.); Crisipo
de Soles (277-208); Ariston de Chíos, Hérilo de Cartagena,
Dionísio de Heracleota, Perseu de Cício, Esfero do Bósforo.
II) Estoicos médios (século II a.C.): Panécio de Rodes
(185 a.C.); Possidônio de Apameia (130-51 a.C.).
III) Estoicos tardios ou romanos (séculos I-II d.C.): Lúcio
Naneu Sêneca, de Córdoba, (8 a.C. a 65 d.C.); Epicteto de
Hierápolis (50-125 d.C.); Marco Aurélio, Imperador Roma-
no (121-180 d.C.); Musônio Rufo e Arriano.
A filosofia estoica nos é conhecida pelas obras dos
estoicos tardios: Epiteto, Sêneca e Marco Aurélio. Em
relação aos fundadores da escola, os estoicos antigos, só
nos restam os fragmentos citados por Diógenes Laércio
e Estobeu, ou por críticos como Plutarco e Cícero.
O estoicismo foi fundado por Zenão de Cício, a atual
ilha de Chipre (336-264 a.C.). Em Atenas, para onde foi
ainda jovem, tornou-se discípulo dos cínicos. No início
do século III a.C. fundou uma escola localizada perto do
pórtico de colunas Poecile. Do nome stoa, coluna, surgiu
o termo "estoico". Além de Zenão, nesse período de fun-
dação, temos Cleanto (331-232 a.C.), que compôs o “Hino
a Zeus”, e Crisipo (280-210 a.C.), nascido em Tarso, que
deu o caráter sistemático à doutrina estoica. A doutrina
estoica é geralmente dividida em três partes: uma física,
uma lógica e uma ética.
Na perspectiva filosófica estoica, essas três partes
estão interligadas e a física não pode ser concebida se-
parada da moral. O estoicismo compreende uma razão
suprema, natureza, que é a causa e determinação de tudo
o que acontece. Há uma harmonia imanente no universo,
expressão da racionalidade da qual a natureza é portado-
ra. A natureza é a vida universal (o próprio Deus). O mundo
inteiro se assemelha a um imenso ser vivo, cujos órgãos
são os diversos indivíduos e cuja alma é Deus, a razão
imanente do universo. O universo, cujo corpo é Deus, é
um organismo perfeito, cujo mal só existe em função do
bem. Sendo o homem um órgão desse imenso organismo
é natural que se submeta ao seu destino. A lógica estoica
expressa a ideia de um cosmos harmonioso em que todos
os acontecimentos e todos os seres estão ligados, unidos
por um destino racional. A teoria do conhecimento faz
uma distinção entre representação mental, assentimento
e compreensão (katalepsis): uma apreensão da ideia. A
ciência é uma ligação de conhecimento da razão humana
do seu parentesco com a razão divina, a concordância
com a natureza.
O estoicismo compreendeu a felicidade como uma ati-
tude da vontade. O homem é feliz quando deseja que as
coisas sejam o que são. A ideia expressa nessa atitude é
de que se deve viver de acordo com a natureza, sendo um
ser racional, consentindo com a racionalidade do destino.
A liberdade é entendida como um assentimento a essa
determinação, por compreendê-la como racional e seu
assentimento como expressão de sua natureza racional.
Na vida, existem coisas que dependem de nós, como
nossas decisões e outras que não, como saúde, morte etc.
Como o ser humano tem posse de seus juízos e paixões,
o objeto dessas paixões só se valoriza em função do juízo
que se faz dele. Dessa maneira a importância das coisas
provém tão somente de nossa opinião. Se dominarmos
nossas opiniões, seremos senhores do universo. A moral
estoica é considerada uma disposição de vontade, uma
moral de intenção. É extremamente rigorosa porque
não considera casuística nem meias medidas. A virtude
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aula 4 FILOSOFIA
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consiste na retidão do querer. Segundo Crisipo, “Quem
não é sábio é louco. Afogamo-nos tanto com meio palmo
de água acima do nariz quanto nas profundezas de um
abismo do mar”.
Famoso por seus discursos e articulações políticas, Cícero
viveu e morreu pela defesa da República romana.
Cícero
Em janeiro de 49 a.C., o triúnviro romano Júlio César
atravessou o Rubicão e desencadeou a guerra civil que
o levaria a dominar todo o império. Venceu Pompeu em
Farsala, instalou Cleópatra no trono do Egito, reorganizou
o Oriente e derrotou os últimos adeptos do segundo
triúnviro da África, em 46 a.C., e na Espanha, um ano
depois. De volta a Roma em 45 a.C., começou a governar
como déspota absoluto e tratou de eliminar os últimos
adversários.
Entre os adversários perseguidos estava Marco Túlio
Cícero (106-43 a.C.), senador e figura proeminente da
política romana nos anos anteriores. Obrigado a deixar
os negócios públicos, Cícero recolheu-se à vida privada
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e retomou a meditação filosófica, de que já se ocupara
em um primeiro exílio, por volta de 51 a.C. O resultado
foi um conjunto de obras, escritas em aproximadamen-
te dois anos e que versavam sobre os mais variados
assuntos: Sobre os fins, Controvérsias tusculanas e
Sobre os deveres tratam de problemas éticos; Os tó-
picos e Os acadêmicos abordam questões lógicas; A
natureza dos deuses, Sobre a arte adivinhatória e Sobre
o destino são dedicados a temas da física.
Do ponto de vista da filosofia, essas são as principais
obras escritas por Cícero no retiro forçado por César
e vinham juntar-se a Sobre o orador, escrito em 55
a.C., A República, redigida em 51 a.C., e Sobre as leis,
provavelmente da mesma época.
Esse conjunto de obras desempenharia papel de pri-
meiro plano na história do pensamento porque fazia do
latim um idioma filosófico. Pouco antes, Lucrécio tinha
escrito o poema Sobre a natureza, mas a obra não foi
publicada senão após a morte do poeta e, ao que tudo
indica, sob os cuidados de Cícero.
Apesardesse valor histórico, as obras de Cícero não
contêm um pensamento original, limitando-se a amal-
gamar diferentes teorias filosóficas gregas. Cícero foi
um pensador eclético, discutindo os argumentos das
diferentes doutrinas gregas correntes na época, sem
vincular-se inteiramente a nenhuma.
Ele conheceu essas correntes quando, na juventu-
de, estudou em Atenas, antes de tornar-se famoso
advogado e homem público. Foi discípulo e amigo de
epicuristas, estoicos, peripatéticos e acadêmicos. De
todos eles Cícero retirou algumas ideias e compôs uma
síntese que, além da importância pela criação de um
vocabulário filosófico latino, constitui fonte de estudo
de boa parte do pensamento clássico.
No que diz respeito a suas próprias posições dou-
trinárias, Cícero, em teoria do conhecimento, opôs-se
tanto ao ceticismo radical de Pirro de Elis (360-270
a.C.) quanto ao dogmatismo extremado. Defendeu
como critério de verdade o probabilismo do consenso
universal, isto é, aquela posição que acha possível ao
homem chegar a algum conhecimento das coisas, sem,
no entanto, atingir a verdade absoluta. A verdade estaria
naquilo que pode ser aceito por todos. As razões dessa
posição são colocadas menos num plano puramente
lógico do que no terreno das necessidades práticas do
homem. Para Cícero, o problema do conhecimento não
pode ser solucionado exclusivamente em sua estrutura
interna. O homem necessita, todavia, de admitir como
verdadeiras algumas noções sem as quais não é pos-
sível manter a coesão da sociedade.
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Em moral, Cícero aderiu às doutrinas estoicas sem,
entretanto, aceitar todo o rigor da concepção segundo
a qual o exercício da virtude basta-se a si mesmo e
consiste na conformidade da conduta humana às leis
racionais da natureza.
Aceita essas ideias, mas exige que tais normas se-
jam válidas pelo consenso universal. Esse consenso
universal articula-se em torno de algumas ideias que
dão fundamento à vida moral e social, principalmente
a da existência de Deus e sua providência. Tais noções
seriam comprovadas pela consciência natural dos ho-
mens e pela constatação de que na natureza os fenô-
menos organizam-se em torno de fins, os quais supõem
a existência de um fim último de todas as coisas. Outra
ideia com a mesma função de fundamentar a vida social
e moral é a da essência espiritual e divina da alma e sua
imortalidade. Essa ideia encontrar-se-ia confirmada na
preocupação do homem com sua vida futura.
Epicuro, Lucrécio, Cícero,
Sêneca, Marco Aurélio.
São Paulo: Abril Cultural, 1985.
(Coleção Os pensadores).
Destacado pensador que se tornou tutor do Imperador
Nero, sendo, mais tarde, uma de suas vítimas.
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Sêneca
Depois de Cícero ter iniciado a história da filosofia em
língua latina, formulando sua síntese eclética, o movi-
mento de ideias mais importante do pensamento romano
foi o desenvolvimento das doutrinas estoicas, também
originárias da Grécia, como o epicurismo e o ecletismo.
A escola estoica foi fundada por Zenão de Cício (334-
264 a.C.) e continuada por Cleanto de Assos (331-232 a.C.)
e Crisipo de Soles (280-210 a.C.). Posteriormente, a escola
transformou-se, tendendo a uma posição eclética, com
Panécio de Rodes (185-112 a.C.) e Possidônio de Apameia
(135-51 a.C.). O primeiro representante do estoicismo
romano, sem considerar as ideias estoicas presentes no
ecletismo de Cícero, foi Lucius Annaeus Sêneca, nascido
em Córdoba (Espanha), por volta do ano 4 a.C. Era filho do
orador Annaeus Sêneca (55 a.C-39 d.C.) – conhecido como
Sêneca, o Velho –, autor da obra Declamações. Sêneca,
o Jovem, foi educado em Roma, onde estudou retórica
ligada à filosofia. Em pouco tempo tornou-se um advo-
gado respeitado e ascendeu politicamente, tornando-se
membro do Senado romano e depois nomeado questor
(responsável pela cobrança de impostos).
Entre seus adversários, estava o imperador Calígula, que
tinha intenção de assassiná-lo, mas o poupou por acre-
ditar que ele morreria precocemente em razão da saúde
debilitada. Calígula acabou morrendo antes de Sêneca.
A morte de Calígula, no entanto, não garantiu tranqui-
lidade a Sêneca. Em 41 d.C., foi acusado por Messalina,
esposa do novo imperador, Cláudio César Germânico, de
praticar adultério com Júlia Livila, irmã de Calígula e so-
brinha de Cláudio. Ambos acabaram sendo desterrados e
Calígula passou oito anos na Córsega, vivendo na pobreza.
Em 49 d.C., Messalina foi acusada de conspiração e
condenada à morte. O imperador Cláudio então se casou
com Agripina, prima de Messalina. A nova imperatriz
mandou trazer Sêneca de volta do exílio para educar seu
filho, Nero. Em 54 d.C., quando Nero se torna imperador,
Sêneca passa a ser seu principal conselheiro. Esse perío-
do estende-se até 62 d.C., ano em que começa a perder
sua influência sobre o despótico soberano. Sêneca deixou
a vida pública e passou a ser perseguido por Nero, o que
acabou por levá-lo ao suicídio, em 65 d.C.
As cartas morais de Sêneca, escritas entre os anos 63
e 65 e dirigidas a Lucílio, misturam elementos epicuristas
com ideias estoicas e contêm observações pessoais,
reflexões sobre a literatura e crítica satírica dos vícios
comuns na época. Entre seus doze Ensaios morais,
destacam-se Sobre a clemência, cautelosa advertência
a Nero sobre os perigos da tirania, Da brevidade da vida,
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análise das frivolidades nas sociedades corruptas, e
Sobre a tranquilidade da alma, que tem como assunto o
problema da participação na vida pública. As questões
naturais expõem a física estoica enquanto vinculada aos
problemas éticos.
Além dessas obras propriamente filosóficas, Sêneca
escreveu ainda nove tragédias e uma obra-prima da
sátira latina, Apokolokintosis, que ridiculariza Cláudio e
suas pretensões à divindade.
Em suas obras Sêneca teve um significativo interesse
pela questão da moral e, assim, a filosofia era para ele
um constructo da ação humana, cujo foco seria a com-
preensão dos males da alma do homem e sobretudo
um meio pelo qual se alcançaria a virtude. O centro da
reflexão filosófica deve ser, portanto, a ética; a física e a
lógica devem ser consideradas seus prelúdios.
Sua concepção do mundo repete as ideias dos estoicos
gregos sobre a estrutura puramente material da natureza.
Contudo, a razão universal dos gregos Cleanto e Zenão,
em Sêneca, transforma-se em um deus pessoal, que é
sabedoria, previsão e vigilância, sempre em ação para
governar o mundo e realizar uma ordem maravilhosa.
Marco Aurélio
Marco Aurélio nasceu em 121, no seio de uma família
aristocrática, e muito cedo perdeu os pais. Foi então
adotado pelo tio, Aurélio Antonino. Aos 11 anos, Marco
Aurélio conheceu o estoicismo e passou a adotar hábitos
de vida austera. Depois dos anos de formação, passou a
colaborar intimamente com o imperador, seu pai adotivo,
ocupando o cargo de cônsul por três vezes. Em 161,
Aurélio Antonino faleceu e Marco Aurélio foi nomeado
seu sucessor.
O governo de Marco Aurélio – que se estendeu por qua-
se vinte anos, até sua morte em 180 – foi perturbado por
guerras sangrentas e prolongadas, com as consequentes
dificuldades internas. Além disso, Roma foi vítima de
inundações, tremores de terra e incêndios. Marco Aurélio
conseguiu enfrentar todas as dificuldades, tendo sido
excelente guerreiro e administrador e, ao mesmo tempo,
humanizando profundamente o exercício do poder.
Foi um grande admirador de Epiteto (cerca de 50 d.C-
130 d.C), que pode ser considerado cronologicamente o
segundo grande representante do estoicismo romano.
Epiteto foi escravo durante muitos anos e, posteriormen-
te, professor de filosofia. Seu ensino foi recolhido pelo
discípulo Ariano de Nicomeia em oito livros. Chegaram
até a atualidade quatro livros inteiros e apenas alguns
fragmentos dos restantes.
Nos poucos momentos que os encargos de governo
permitiam, Marco Auréliorecolhia-se à meditação filosófi-
ca e escrevia seus pensamentos em língua grega, que lhe
parecia a mais apta a exprimir inquietações intelectuais e
morais profundas. As meditações (como posteriormente
ficaram conhecidos aqueles pensamentos) são simples
notas, apenas esboçadas.
O conteúdo das Meditações é a filosofia estoica, mas
de um estoicismo bastante distante das doutrinas de
Zenão, Cleanto e Crisipo. As especulações físicas e lógicas
cedem lugar ao caráter prático dos romanos e ao acon-
selhamento moral. Em Marco Aurélio – como também
nas Máximas de Epiteto – a questão central da filosofia
é o problema de como se deve encarar a vida para que
se possa viver bem. Esse problema assume a forma de
intensa preocupação com o estado de sua própria alma,
em virtude da natureza delicada e sensível do autor
das Meditações, homem sobretudo religioso e pouco
interessado na investigação científica. Por essa razão o
estoicismo de Marco Aurélio frequentemente apresenta
discrepâncias em relação a suas origens gregas. Marco
Aurélio não chegou a ser um pensador original e não pro-
curou resolver as inconsistências de sua própria posição.
Enquanto a ortodoxia estoica levava-o na direção de um
credo materialista, seu sentimento religioso impelia-o
no sentido da força moral e da benevolência. Por isso,
as Meditações de Marco Aurélio expressam-se por meio
de uma linguagem que, por um lado, parece pressupor a
aceitação de um panteísmo puramente físico; por outro,
abandona os dogmas da escola estoica para seguir os
ditames do coração.
Por certo a verdadeira chave para a compreensão das
oscilações de Marco Aurélio deve ser procurada menos
em suas características psicológicas que nas circunstân-
cias históricas em que viveu. Observemos alguns excertos
das Meditações (Marco Aurélio, 1964):
Não te atordoes; a cada impulso, pratica a justiça; a
cada ideia, resguarda o intelecto. (Livro IV, p. 22)
Aos conselhos já ditos, acrescente-se mais um: deter-
minar e definir invariavelmente a imagem percebida, para
vê-la qual é na sua essência, nua e por inteiro, distinta
no seu todo, e dizer para consigo o nome que a designa,
bem como o das partes que a compõe e em que se dis-
solverá. (Livro III, p. 11)
Nem todas as acepções se conhecem por aí dos termos
furtar, semear, comprar, repousar, ver o que deve ser
feito; isso não se faz com os olhos, mas com certa outra
visão. (Livro III, p. 15)
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Se pecou, o mal é seu; quiçá não tenha pecado. (Livro IX, p. 38)
Trabalha não como um coitado, nem como quem quer inspirar dó ou ser admirado; deseja, sim, apenas uma coisa:
andar e parar como determina a razão. (Livro IX, p. 12)
O Império Romano estava perdendo o antigo esplendor e a cultura clássica greco-latina mostrava os últimos sinais
de vitalidade. Cada vez mais ganhava corpo uma nova concepção do mundo: o cristianismo.
Marco Aurélio expressa claramente essa etapa de transição. Nele, a autossuficiência do antigo estoicismo grego cede
lugar à falta de confiança em si mesmo e à consciência das próprias imperfeições. Com isso, antecipa a virtude cristã
da humildade e mais um passo apenas poderia levá-lo à concepção de um deus único e pessoal.
Estátua de bronze fundido por volta de 175 d.C., hoje preservada no Palazzo dei Conservatori, mas com uma cópia de
mesmo tamanho na Piazza del Campidoglio, em Roma, tornou-se uma referência para as representações dos governantes
como "vencedores e conquistadores" durante o Renascimento em diante.
Resumo da ópera
Nesta aula tratamos de duas correntes de pensamento: o epicurismo (relacionado à busca dos prazeres) e o estoicismo
(à busca das virtudes). Ambas foram formas de pensar que permearam o pensamento dos séculos finais da Antiguidade
e depois foram reinterpretadas no período medieval, sendo o epicurismo condenado e o estoicismo cristianizado, influen-
ciando pensadores da Igreja posteriormente, em especial, com a discussão sobre a busca da virtude como guia moral.
Destacamos também o desenvolvimento da tradição retórica romana, na qual Cícero e Sêneca tiveram um papel
central, influenciando a tradição ocidental em virtude de sua releitura durante a Idade Média e o Renascimento.
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EXERCÍCIO
1. (Enem)
Alguns dos desejos são naturais e necessários; outros, naturais e não necessários; outros, nem naturais nem necessá-
rios, mas nascidos de vã opinião. Os desejos que não nos trazem dor se não satisfeitos não são necessários, mas o seu
impulso pode ser facilmente desfeito, quando é difícil obter sua satisfação ou parecem geradores de dano.
EPICURO DE SAMOS.
Doutrinas principais.
In: SANSON, V. F. Rio de Janeiro: Eduff, 1974.
No fragmento da obra filosófica de Epicuro, o homem tem como fim
a) alcançar o prazer moderado e a felicidade.
b) valorizar os deveres e as obrigações sociais.
c) aceitar o sofrimento e o rigorismo da vida com resignação.
d) refletir sobre os valores e as normas dadas pela divindade.
e) defender a indiferença e a impossibilidade de se atingir o saber.
ESTUDO ORIENTADO
Caro(a) aluno(a),
Selecionamos, neste Estudo orientado, exercícios e textos que têm o objetivo de ajudá-lo(a) a se familiarizar com
as correntes do epicurismo e do estoicismo, identificando os principais conceitos e as principais características relacio-
nados a essa corrente. Nesse processo, é importantíssimo não só a leitura e interpretação dos textos, mas também a
elaboração de explicações em respostas dissertativas.
Os fragmentos escolhidos de Epicuro e Cícero reforçam a importância do contato direto com as fontes do discurso
filosófico, as quais são usadas para a elaboração dos enunciados nos exames, portanto, isso se enquadra também no
objetivo de desenvolver a habilidade de leitura e interpretação de texto.
Observe com atenção a seção Navegar sobre a famosa conspiração de Catilina contra a República romana.
Bons estudos!
EXERCÍCIO
1. (UEM) O Período Helenístico inicia-se com a conquista macedônica das cidades-Estado gregas. As correntes filosófi-
cas desse período surgem como tentativas de remediar os sofrimentos da condição humana individual: o epicuris-
mo ensinando que o prazer é o sentido da vida; o estoicismo instruindo a suportar com a mesma firmeza de caráter
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os acontecimentos bons ou maus; o ceticismo de
Pirro orientando a suspender os julgamentos sobre
os fenômenos.
Sobre essas correntes filosóficas, assinale o que for
correto.
01) Os estoicos, acreditando na ideia de um cosmo
harmonioso governado por uma razão universal,
afirmaram que virtuoso e feliz é o homem que vive
de acordo com a natureza e a razão.
02) Conforme a moral estoica, nossos juízos e pai-
xões dependem de nós, e a importância das coisas
provém da opinião que delas temos.
04) Para o epicurismo, a felicidade é o prazer, mas o
verdadeiro prazer é aquele proporcionado pela au-
sência de sofrimentos do corpo e de perturbações
da alma.
08) Para Epicuro, não se deve temer a morte, por-
que nada é para nós enquanto vivemos e, quando
ela nos sobrevém, somos nós que deixamos de ser.
16) O ceticismo de Pirro sustentou que, porque to-
das as opiniões são igualmente válidas e nossas
sensações não são verdadeiras nem falsas, nada se
deve afirmar com certeza absoluta, e da suspensão
do juízo advêm a paz e a tranquilidade da alma.
2. (CESP/UnB)
À noção de clemência, Sêneca contrapõe a miseri-
córdia: “enquanto a primeira define-se como abranda-
mento da pena merecida, a segunda é caracterizada
pela partilha emocional na dor do condenado, com a
exclusão total da pena”.
Comentário de Luiz Feracine.
In: SÊNECA. A clemência. Col. Grandes Obras do
Pensamento Universal. Vários autores: Escala, 2007.
p. 22.
Adaptado.
O filósofo romano Lucius Sêneca foi, sobretudo, um
moralista. A filosofia é para ele uma arte da ação huma-
na, uma medicina dos males da alma e uma pedagogiaque forma os homens para o exercício da virtude.
Separata.
In: SÊNECA. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural,
1977. p. 101.
Adaptado.
Considerando que os fragmentos de texto têm ca-
ráter unicamente motivador, explique sobre a prin-
cipal tendência filosófica de Sêneca, justificando
sua importância para o Império Romano.
RODA DE LEITURA
Texto I
Todo desejo incômodo e inquieto se dissolve no amor
da verdadeira filosofia.
Nunca se protele o filosofar quando se é jovem, nem
canse o fazê-lo quando se é velho, pois que ninguém
é jamais pouco maduro nem demasiado maduro para
conquistar a saúde da alma. E quem diz que a hora de
filosofar ainda não chegou ou já passou assemelha-se
ao que diz que ainda não chegou ou já passou a hora
de ser feliz.
Assim como realmente a medicina em nada benefi-
cia, se não liberta dos males do corpo, assim também
sucede com a filosofia, se não liberta das paixões da
alma.
Não pode afastar o temor que importa para aquilo
a que damos maior importância quem não saiba qual
é a natureza do universo e tenha a preocupação das
fábulas míticas. Por isso não se podem gozar prazeres
puros sem a ciência da natureza.
Antes de tudo, considerando a divindade incorruptível
e bem-aventurada, não se lhe deve atribuir nada de
incompatível com a imortalidade ou contrário à bem-
-aventurança.
Realmente não concordam com a bem-aventurança
preocupações, cuidados, iras e benevolências.
O ser bem-aventurado e imortal não tem incômodos
nem os produz aos outros, nem é possuído de iras ou
de benevolências, pois é no fraco que se encontra
qualquer coisa de natureza semelhante.
01 + 02 + 04 + 16 = 23
Sêneca foi tutor do imperador Nero e buscava nessa condição oferecer ao jovem príncipe,
posteriormente imperador, exemplos de valores morais que pudessem consolidar seu
caráter, pensando no comportamento deste enquanto imperador. A busca das virtudes
para a condução da vida é uma preocupação presente na tradição estoica, à qual Sêneca
está relacionado e a partir da qual, conduzia seus estudos e ensinamentos.
Sêneca também se destacou como um grande orador, sendo que seus discursos ficaram
famosos não só em sua época, mas constituíram as bases dos estudos de retórica no
mundo latino, desde o período imperial até nossos dias.
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Habitua-te a pensar que a morte nada é para nós,
visto que todo o mal e todo o bem se encontram na
sensibilidade: e a morte é a privação da sensibilidade.
É insensato aquele que diz temer a morte, não
porque ela o aflija quando sobrevier, mas porque o
aflige o prevê-la: o que não nos perturba quando está
presente inutilmente nos perturba também enquanto
o esperamos.
O limite da magnitude dos prazeres é o afastamento
de toda a dor. E onde há prazer, enquanto existe, não
há dor de corpo ou de espírito, ou de ambos.
A dor do corpo não é de duração contínua, mas a dor
aguda dura pouco tempo, e aquilo que apenas supera
o prazer da carne não permanece nela muitos dias.
E as grandes enfermidades têm, para o corpo, mais
abundante o prazer do que a dor.
O essencial para a nossa felicidade é a nossa condi-
ção íntima: e desta somos nós os amos.
Epicuro de Samos.
A filosofia e o seu objetivo.
Texto II
[...]
V. Na verdade, não devemos ouvir os subterfúgios
que empregam os que pretendem gozar facilmente
de uma vida ociosa, embora digam que acarreta
miséria e perigo auxiliar a República, rodeada de
pessoas incapazes de realizar o bem, com as quais a
comparação é humilhante, em cujo combate há risco,
principalmente diante da multidão revoltada, pelo que
não é prudente tomar as rédeas quando não se podem
conter os ímpetos desordenados do populacho, nem é
generoso expor-se, na luta com adversários impuros, a
injúrias ou ultrajes que a sensatez não tolera; como se
os homens de grande virtude, animosos e dotados de
espírito vigoroso, pudessem ambicionar o poder com
um objetivo mais legítimo que o de sacudir o jugo dos
maus, evitando que estes despedacem a República,
que um dia os homens honestos poderiam desejar, mas
então inutilmente, erguer de suas ruínas.
VI. Quem pode demonstrar a isenção que nega ao sá-
bio toda participação dos negócios públicos, exceto nos
casos em que o tempo ou a necessidade o obrigue? A
quem pode sobrevir maior necessidade do que a mim, na
qual nada teria podido fazer, mesmo não sendo cônsul?
Como o poderia eu ter sido sem ter feito esta carreira
desde a minha infância, pela qual teria de chegar, de
cavaleiro, a esta suprema honra? Não está em nossas
mãos servir à República quando a vontade o ordena e de
improviso, mesmo quando ela corra grave risco, se não
nos tivermos colocado antes em condições favoráveis. E,
em geral, o que mais estranho nos discursos dos sábios
é que os que negam ser possível governar uma nave
num mar tranquilo, porque nunca procuraram saber
fazê-lo, se julguem capazes de tomar o leme quando
sobrevém a borrasca. Assim costumam falar e disso
se gabam com não pouca frequência; esquecendo os
meios de constituir solidamente um Estado, atribuem
tal conhecimento não aos homens doutos e eminentes
mas aos experimentados nessa modalidade de conhe-
cimento. Como poderão cumprir a promessa de auxiliar
a República em transes difíceis, quando ignoram o que
é mais fácil: governar o Estado em tempo de bonança?
Realmente, os sábios não costumam, por vontade
própria, descer aos negócios públicos, e nem sempre
admitem esse encargo; mas também julgo perigoso
descuidar arbitrariamente o conhecimento dos negócios
públicos sem se preparar para qualquer eventualidade
e desconhecendo o que pode ocorrer.
Marco Túlio Cícero.
Da República.
NAVEGAR
Livros
FUNARI, Pedro Paulo. Grécia
e Roma. 4. ed. São Paulo: Con-
texto, 2006.
Trata-se de uma síntese dos
principais elementos do mundo
grego e romano, passando pela
organização socioeconômica e
cultural, dando ao leitor uma visão
panorâmica dessas civilizações.
GUARINELLO, Norberto Luiz.
Imperialismo greco-romano. 3.
ed. São Paulo: Ática, 1994.
Em um texto muito objetivo e
conciso, o historiador descreve
o conceito de imperialismo e o
aplica ao universo greco-romano,
analisando a formação, ascensão
e decadência dos dois impérios.
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As disputas pelo poder na República romana.
Nesta obra de Cesare Maccari, observamos a representação de um célebre momento da história da República romana,
quando Cícero confronta perante o Senado o cônsul Lúcio Sérgio Catilina, que articulara um golpe contra a República,
envolvendo a tentativa de assassinato de dois outros cônsules e do próprio Cícero. Ao desmascarar Catilina, tornou-
-se célebre a fala de Cícero: “Qvosque tandem abvtere, Catilina, patientia nostra?” que significa “Até quando, Catilina,
abusarás de nossa paciência?”.
Cícero encontra-se ao centro, contando com a plena atenção dos senadores, enquanto Catilina está no canto à direita
do espectador, acoado e cabisbaixo. Esse afresco é uma representação do episódio feita em 1889 por Cesare Maccari,
no Palazzo Madama, que é a sede do Senado da Itália. O retrato de Cícero em discurso, defendendo a República romana,
buscava na história a legitimação do poder da Itália, recém-unificada em 1870.
ÁGORA
Desde o golpe de 1889, o Brasil se tornou uma República e desde então vivenciamos diferentes situações políticas e
sociais que oscilaram entre o autoritarismo e a maior liberdade da vontade coletiva em prol do “bem comum”, que é
o significado de “Res publica” em latim. No entanto, o exercício da cidadania tem esbarrado nas tensões entre os inte-
resses privados e os públicos e como tanto a sociedade brasileira como seus representantes nas esferas do governo
(Municipal, Estadual e Federal) têm exercido seus papéis e suas responsabilidades.
Atividade: discussão sobre a República no Brasil contemporâneo.
Objetivos:
Identificar as características de funcionamentoos mais temíveis, detestava-os o pai
dês o começo: tão logo cada um deles nascia
a todos ocultava, à luz não os permitindo,
na cova da Terra. Alegrava-se na maligna obra
o Céu. Por dentro gemia a Terra prodigiosa
atulhada, e urdiu1 dolosa e maligna arte.
Disse com ousadia, ofendida no coração:
“Filhos meus e do pai estólido2, se quiserdes
ter-me fé, puniremos o maligno ultraje de vosso
pai, pois ele tramou antes obras indignas”.
Assim falou e a todos reteve o terror, ninguém
vozeou. Ousado o grande Cronos de curvo pensar
devolveu logo as palavras à mãe cuidadosa:
“Mãe, isto eu prometo e cumprirei
a obra, porque nefando não me importa o nosso
pai, pois ele tramou antes obras indignas”.
Assim falou. Exultou nas entranhas da Terra prodigiosa,
colocou-o oculto em tocaia, pôs-lhe nas mãos
a foice dentada e inculcou-lhe todo o ardil.3
Veio com a noite o grande Céu, ao redor da Terra
desejando amor sobrepairou e estendeu-se
a tudo. Da tocaia o filho alcançou com a mão
esquerda, com a destra pegou a prodigiosa foice
longa e dentada. E do pai o pênis
ceifou com ímpeto e lançou-o a esmo
para trás.
HESÍODO.
Teogonia: a origem dos deuses, versos 155-182.
Edição bilíngue greco-portuguesa
traduzida por Jaa Torrano.
São Paulo: Iluminuras, 2006, p. 111.
Hesíodo, poeta do século VIII a.C., nos oferece uma pre-
ciosa visão do pensamento mitológico, apresentando a
tensa dinâmica existente entre os deuses, os quais muitas
vezes, envolveriam direta ou indiretamente os homens
para a saciedade de seus desejos, enquanto os homens
por seu turno, buscavam os favores e proteção divinos,
por meio de sacrifícios, rituais e festas, responsáveis pela
1. Teceu.
2. Estúpido.
3. Plano engenhoso.
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construção de um modo de pensar e lidar com o sagrado que estaria diretamente presente e ativo no cotidiano humano.
O embate entre a tradição mitológica e o pensamento científico significou uma quebra de paradigma (do grego pará-
deigma, "modelo"): as ações humanas e os fenômenos naturais deveriam ser compreendidos de modo racional, portanto
pelo uso do logos, a razão. Assim, as superstições seriam abandonadas e é justamente neste sentido que Platão fala do
filósofo como “contemplador da verdade”, ponto de partida para a melhor leitura e compreensão do mundo.
Uma pessoa comum da Hélade, o mundo grego antigo, se presenciasse um terremoto que causasse destruição, mortes
e muitas perdas, diria que Poseidon, deus dos oceanos conhecido como “Treme Terras”, estaria irado, e a melhor solução
seria um grande sacrifício, oferecendo sangue de um touro no templo. Já o filósofo se colocaria a perguntar: Por que a
terra tremeu? Quanto tempo durou? O que há debaixo da terra?
Dessa forma, a Filosofia se coloca como portadora de um conjunto de procedimentos (observação de um problema,
questionamento, análise e proposição de uma explicação) construídos a partir do uso das ideias, abrindo assim o es-
paço necessário para o que se entenderia mais tarde como metodologia científica. O método (do grego méthodos, que
significa "caminho", "percurso") é justamente o conjunto de procedimentos mais adequado para o desenvolvimento
do raciocínio e daí se construirá o conhecimento, não por simples reprodução de lendas que, de geração em geração,
reproduziam uma dimensão limitada e imprecisa sobre o mundo; portanto, as noções de conhecimento e do sagrado
estavam se separando.
Cronologia
Filosofia
antiga
Filosofia
medieval
Filosofia
renascentista
Filosofia
moderna
Filosofia
iluminista
Filosofia
contemporânea
VII a.C. - V VII ao XIV XIV - XVI XVII - XVIII XVIII - XIX XIX - XX
Magna Grécia
Moeda
Escrita
Pólis
República
romana
Império Romano
Filosofia cristã
Teocentrismo
Padres da
Igreja
Neoplatonismo
Feudalismo
Escolástica
Antropocentrismo
Grandes Navegações
Colonização do
“Novo Mundo”
Absolutismo
Racionalismo
Empirismo
Mercantilismo
Revoluções
inglesas
Racionalismo
“Era das
Revoluções”
EUA (1776)
França (1789)
Independência
das Américas
Capitalismo
industrial
Imperialismo
Primeira Guerra
(1914-1918)
Revolução Russa
Fascismos
Segunda Guerra
(1939-1945)
Guerra Fria
Nova Ordem
Mundial
Tales
Anaximandro
Anaxímenes
Parmênides
Sofistas
Sócrates
Platão
Aristóteles
Epicuro
Cícero
Sêneca
Marco Aurélio
Agostinho
Plotino
Basílio Magno
Ibn Sina
Ibn Roshd
Abelardo
Tomás de
Aquino
Roger Bacon
Guilherme de
Ockham
Maquiavel
Erasmo de
Rotterdam
Thomas Morus
Campanella
Jean Bodin
Montaigne
Berkeley
Descartes
Francis Bacon
Hobbes
Pascal
Locke
Espinosa
Leibniz
Hume
Rousseau
Voltaire
Diderot
Montesquieu
Kant
Hegel
Marx
Schopenhauer
Nietzsche
Sartre
Heidegger
Russell
Foucault
Derrida
Deleuze
Habermas
O quadro acima, na condição de síntese, oferece apenas alguns nomes, distribuídos ao longo do tempo, mostrando os
diferentes pensadores que conduziram as discussões da Antiguidade aos nossos dias sobre a Filosofia e seu papel na
sociedade. Uma grande lista, com idas e vindas, apresentando questionamentos, conceitos, definições, metodologias e
proposições que colocavam o ser humano e o conhecimento produzido no centro do debate e, para cada época e autor,
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existe um imenso acúmulo de saberes, os quais buscare-
mos debater ao longo de nossas aulas para aprofundar
os estudos filosóficos, não apenas com o único fim de
conduzi-lo à Universidade, mas para que você vivencie
a Filosofia de modo intenso e questione a sua relação
com o mundo.
Instrumentos conceituais
Quando discutimos um tema na Filosofia, geralmente
partimos de alguma pergunta: “O que é?”, “Como é?”,
“Por que é assim e não diferente?” etc. Existem várias
perguntas e várias possibilidades de respostas, e tudo
depende de como o questionamento e as relações feitas
entre as perguntas e respostas conduzem a discussão,
que não significa “briga” como no senso comum. A troca
de ideias é a base para o pensamento filosófico e, nesse
processo, é prioritário estar aberto para as contradições.
A epígrafe desta aula é uma citação do livro A Repú-
blica, de Platão, na qual Sócrates define o filósofo como
o “contemplador da verdade”; porém, cabe, para come-
çarmos nossa conversa, a seguinte pergunta: O que é a
verdade para a Filosofia?
Se perguntarmos o que é a verdade entre nossos
familiares, amigos, colegas de trabalho ou a qualquer
outra pessoa, teremos uma chuva de respostas, as mais
diversas possíveis. A verdade pode ser tomada como o
oposto da mentira ou como a fidelidade no relato de um
acontecimento; portanto, se eu alterando as informações
sobre um acontecimento, escondendo (omissão) ou alte-
rando o relato do evento (fraude), estou mentindo, logo,
faltando com a verdade. Ao recebermos determinada
notícia, tomados pela surpresa, geralmente perguntamos:
“Isso é verdade, mesmo? Tem certeza?”. Neste caso, a
verdade se relaciona com a ideia que temos da realidade,
em oposição à fantasia.
O termo grego para a "verdade" era aletheia, que sig-
nifica “aquilo que não pode ser encoberto, escondido”.
Daí vieram as representações artísticas que mostram a
personificação da verdade como uma mulher nua e a
expressão popular “a verdade nua e crua”. Essa também
era a ideia de verdade para os romanos, que usavam a
palavra veritas, da qual as línguas latinas verteram uma
grande família (no italiano, veritá; no francês, verité; no
espanhol, verdad; no português, verdade) e originaram
termos como "verossimilhança", "veracidade", "verifica-
ção", "veredito" e sua imediata relação com “precisão",
"exatidão", "evidência" e "realidade”.
O anseio em buscar a verdade, no contexto de nossa
experiência de vida, percorre os caminhos mais variados:
na educação que recebemos, falar a verdade é um valor
muito importante, porém, percebemos que isso tem con-
sequências, porque não são todas as pessoas que estão
preparadas para “lidar com a verdade”. Exemplo simples:
um casal conversa sobre um parente, apontando proble-
mas destado governo republicano.
Apresentar os problemas existentes no exercício da vida pública; proposição de alternativas para a resolução dos
problemas.
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Na realidade não chego a aprender tudo o que sou. Mas então o espírito é limitado demais para
compreender-se a si mesmo? E onde está aquilo que ele não aprende de si mesmo?
Confissões (X, 8), de Santo Agostinho.
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A primeira se glorifica em si mesma; a segunda se glorifica no Senhor. A primeira está dominada pela ambição do domí-
nio de seus príncipes ou as nações que submetem; a segunda utiliza mutuamente a caridade dos superiores mandando
e os súditos obedecendo.
A Cidade de Deus (XIV, 28), de Santo Agostinho.
Filosofia medieval (Santo Agostinho/ São Tomás)
A transição do mundo pagão para o mundo cristão
A passagem entre os séculos IV e V foi um período de transição em todos os sentidos, pois os desdobramen-
tos da divisão do Império em 395 e as ondas de invasões de tribos que assolaram diferentes partes dos domínios
romanos foram decisivos para a transformação do chamado mundo romano para aquilo que depois foi denominado
mundo feudal.
Nesse período, alguns pensadores concorreram para a organização da doutrina cristã, como Ambrósio de Milão (374-
397), Agostinho de Hipona (395-430) e Eusébio Sofrônio Jerônimo (342-420), que ficou conhecido como são Jerônimo,
os quais foram depois, com outros autores, chamados de “Pais da Igreja”, pois seus textos fundamentaram a doutrina
cristã e serviram de referência para a construção do cristianismo como conhecemos hoje. Ambrósio era filho de uma
abastada família romana e dotado de uma erudição exemplar; ingressou na vida religiosa e, por sua capacidade ímpar
no exercício da oratória, passou rapidamente de diácono (auxiliar que ainda não fez os votos de compromisso, mas
colabora com as atividades cotidianas da igreja) a bispo de Milão, no ano de 374. Agostinho também vinha de família
abastada, e sua conversão à fé cristã deveu-se à influência dos sermões de Ambrósio, o qual conheceu pessoalmente
e que, mais tarde, foi uma de suas referências para A Cidade de Deus, escrita em 410. Agostinho foi influenciado ainda
por Jerônimo, que, a partir de 384, traduziu o texto bíblico para o latim, versão que ficou conhecida como Vulgata e foi
a principal referência dos cristãos por vários séculos.
Nesse contexto de múltiplas transformações, a cultura greco-romana foi gradativamente assimilada pelo mundo
cristão, de acordo com os interesses da Igreja: em 394, foram proibidos os Jogos Olímpicos, que não só eram uma cele-
bração em honra dos deuses greco-romanos como serviam de referência temporal. Por isso, o Império passou a adotar
o calendário cristão, tendo o ano do nascimento de Jesus como marco central: a datação anterior seria decrescente (o
período antes de Cristo seria indicado por a.C.) e a posterior, crescente (acompanhada de d.C. ou A.D. – em latim, Anno
Domini, Ano do Senhor).
Em outra perspectiva, veremos a releitura da tradição filosófica greco-romana absorvida pelos primeiros autores cris-
tãos como Agostinho, que interpretou Platão na perspectiva cristã, abrindo caminho para conceitos importantes como
a predestinação, pela qual Deus escolhe o destino dos homens, mostrando quem teria a alma salva ou condenada pela
eternidade. Essas leituras de Platão tiveram grande influência e resultaram no pensamento neoplatônico que predominaria
FILOSOFIA – AULA 5
Dois amores deram origem a duas cidades: o amor a si
mesmo até o desprezo de Deus, a terrena; e o amor de
Deus até o menosprezo de si, a celestial.
A Cidade de Deus (XIV, 28), de Santo Agostinho.TH
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na Igreja até meados do século XIII e, além disso, acabou sendo um ponto primordial para os questionamentos teológicos
do século XVI, durante a Reforma.
"É muito mais fácil o oceano todo ser transferido para este buraco do que compreender-se o mistério da Santíssima
Trindade". E a criança desapareceu...
Santo Agostinho
Aurélio Agostinho, bispo de Hipona, nasceu em Tagaste, hoje Souk-Ahras, na Argélia, e é um dos mais importantes ini-
ciadores da tradição platônica no surgimento da filosofia cristã, sendo um dos principais responsáveis pela síntese entre
o pensamento filosófico clássico e o cristianismo. Estudou em Cartago, depois em Roma e Milão, tendo sido professor
de retórica. Reconverteu-se ao cristianismo, que fora a religião de sua infância, em 386 d.C., após ter passado pelo ma-
niqueísmo e pelo ceticismo. Regressou, então, à África (388 d.C.), fundando uma comunidade religiosa. Suas obras mais
conhecidas são As confissões, publicada em 400 d.C., de caráter autobiográfico, e A Cidade de Deus, composta entre
412 d.C. e 427 d.C. Santo Agostinho sofreu grande influência do pensamento grego, sobretudo da tradição platônica, por
meio da escola de Alexandria e do neoplatonismo, com sua interpretação espiritualista de Platão.
Sua filosofia tem como preocupação central a relação entre a fé e a razão, mostrando que sem a fé a razão é incapaz
de promover a salvação do homem e de trazer-lhe felicidade. A razão funciona como auxiliar da fé, permitindo esclare-
cer, tornar inteligível aquilo que a fé revela de forma intuitiva. Esse é o sentido da célebre fórmula agostiniana Credo ut
intelligam (Creio para que possa entender).
Na obra A Cidade de Deus, Santo Agostinho interpreta a história da humanidade como conflito entre a Cidade de
Deus, inspirada no amor a Deus e nos valores cristãos, e a Cidade Humana, baseada exclusivamente nos fins e inte-
resses mundanos e imediatistas. Ao final do processo histórico, a Cidade de Deus deveria triunfar. Em razão desse tipo
de análise, Santo Agostinho é considerado um dos primeiros filósofos da história, um precursor da formulação dos
conceitos de historicidade e de tempo histórico. A influência do pensamento agostiniano foi decisiva na formação e no
desenvolvimento da filosofia cristã no período medieval, sobretudo na linha do platonismo.
A temática platônica encontrada na obra de Agostinho é a ideia de que o reino terreno é muito inferior quando com-
parado ao reino divino, sendo uma referência à doutrina de Plotino (205-270), que em seus estudos metafísicos diz que
todo o Ser é causado pelo Uno, que equivaleria a Deus, ao Bem e à Beleza, conectando-se com a República de Platão,
quando este cita a “Ideia do Bem”.
Ao se analisar a proposição de Plotino sobre o Uno, este se apresenta dotado de simplicidade, indivisibilidade e despro-
vido de atributos e além de qualquer Ser. Talvez haja aqui uma conexão com Parmênides (515-440 a.C.), mas Plotino não
consegue expor como a multiplicidade do Universo seria oriunda de algo tão simples, enquanto Parmênides dedicou-se
a explicar a origem da multiplicidade.
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Plotino diz que o universo se origina do Uno distan-
ciando-se da perfeição deste por necessidade, derivado
de um processo de emanação de princípios organizados
hierarquicamente: cada um menos perfeito que o anterior
e tudo isso sendo derivado do Uno.
Destacam-se como mais importantes: Noûs (Intelecto
ou Pensamento), Mundo-Alma e o mundo material. Pode-
mos dizer que as ideias de Plotino sobre a emanação são
motivadas por um compromisso com a ideia pré-socrática
de que o complexo deve ser explicado em termos simples
e também pela ideia de que os fenômenos contingentes
devem em última instância ser explicados em termos
de algo que em si não exige explicação. Assim, no fim
ele tem uma concepção do Uno absolutamente simples,
autocausado e causa de tudo o mais no Universo.
Santo Agostinho, especialmente nas suas obras mais
antigas, aceita em grande parte a concepção plotiniana
da realidade. Em particular, ele considera Deusa fonte
e a origem dos vários estágios de pluralidade e multipli-
cidade que existem abaixo d’Ele. Plotino iguala Deus ao
Ser, à Verdade e à Bondade, e enfatiza o contraste entre
o mundo inteligível da verdade espiritual e o mundo
sensível dos objetos materiais.
Esse contraste entre os reinos inteligível e sensível per-
mite a Santo Agostinho afirmar que, se voltarmos os olhos
para o mundo inteligível, para Deus, por outras palavras, e
deixarmos ser seduzidos pelo brilho do mundo material,
então encontraremos a Verdade eterna, fixa e o consolo
para os problemas da vida cotidiana. Essa ideia encontra
nas Confissões sua expressão mais poética na famosa
experiência mística que ele compartilhara em Óstia (porto
marítimo próximo de Roma) com sua mãe Mônica:
[...] gradualmente nós passamos por todos os níveis
de objetos corporais e até pelo próprio céu, onde o Sol,
a Lua e as estrelas brilham sobre a Terra. Na verdade,
nós nos elevamos ainda mais por uma meditação
interior, falando e nos maravilhando com tuas obras.
E por fim chegamos à nossa própria mente e fomos
além dela, para podermos subir tão alto quanto aquela
região de abundância inesgotável onde alimentaste
Israel para sempre com o alimento da verdade, onde a
vida é essa Sabedoria pela qual as coisas são feitas, as
que foram e as que serão. A Sabedoria não é feita, mas
é como sempre foi e será para sempre [...]
Agostinho, 1999.
O livre-arbítrio e a origem do Mal
No entanto, existem aspectos da visão de Plotino que
Santo Agostinho não aceitou, principalmente a insistência
da natureza voluntária da atividade divina, pois entendia
que Deus estava ativo no desenvolvimento do Universo.
Além das observações sobre o Ser e o Uno, Santo Agos-
tinho desenvolveu um importante estudo sobre a questão
do livre-arbítrio, buscando compreender a origem do Mal
e o não envolvimento de Deus com a existência deste.
Sendo os humanos seres dotados de racionalidade,
esta última possibilita o livre-arbítrio e, assim, podem
optar entre o bem e o mal, portanto, podem agir bem
ou agir mal, logo o Mal não é uma criação de Deus, e
sim a ausência de algo: se alguém rouba algo, falta-lhe
honestidade; se alguém mente faltou com a verdade; se
uma pessoa é muito vaidosa, faltou-lhe humildade etc.
A liberdade de escolha está condicionada ao uso da
Razão, que permite a tomada de uma boa ou má decisão.
E na análise do “Pecado Original”, a mesma faculdade que
permitia Adão e Eva serem obedientes a Deus permitiu
a desobediência e daí a “Queda” e, por conseguinte, a
condenação da Humanidade, implicando uma responsabi-
lidade pesada ao casal primordial que cedera à tentação.
Afinal, se a oferta da serpente tivesse sido recusada,
a obediência a Deus teria sido fortalecida ao invés da
ousadia e desrespeito que provocaram a expulsão do
Paraíso. Desse modo, Santo Agostinho apresenta o papel
da consciência moral na condição humana ao pensar o
exercício do livre-arbítrio.
Com a ascensão do cristianismo à condição de religião
do Império Romano, os pensadores que fundamentaram
a doutrina cristã ficaram conhecidos como os “Pais da
Igreja”, de onde vem a Patrística, dividida em grega e
latina, representando a produção intelectual da base
da Igreja Cristã: Clemente (35-100), Justino (100-165),
Orígenes (185-254), Basílio Magno (330-379), Santo Am-
brósio (340-397), são João Crisóstomo (347-407), Santo
Agostinho (354-430), Gregório Magno (540-604) e Isidoro
de Sevilha (560-636).
Assim, a filosofia patrística se constituiu na apropriação
dos diferentes saberes e métodos desenvolvidos no uni-
verso greco-romano para a elaboração dos fundamentos
teológicos do cristianismo: os dogmas, as verdades ab-
solutas inquestionáveis reveladas por Deus. Aí se esta-
beleceu uma distinção entre as verdades humanas ou da
razão e as verdades sobrenaturais oriundas da revelação
da fé, portanto, a primeira serve a segunda.
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Tendo Deus e os evangelistas sobre sua cabeça, cercado
por Platão e Aristóteles, e o muçulmano Averroés sob
seus pés, Tomás de Aquino é exaltado como "Doutor da
Igreja".
São Tomás de Aquino
Nasceu na Itália, de família nobre, e entrou cedo para a
Ordem dos Dominicanos. Percorreu toda a Europa medie-
val. Depois dos estudos em Nápoles, Paris e Colônia (onde
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teve por mestre Alberto Magno), ensinou em Paris e nos
Estados Papais. Morreu quando se dirigia ao Concílio de
Lyon. Sua extensa obra compreende duas Sumas, a Suma
contra os gentios e a Suma teológica, vários tratados e
comentários sobre Aristóteles, a Bíblia, Boécio etc.
O pensamento de São Tomás está profundamente
ligado ao de Aristóteles, que ele, por assim dizer, “cristia-
niza”. Seu papel principal foi o de organizar as verdades
da religião e de harmonizá-las com a síntese filosófica de
Aristóteles, demonstrando que não há ponto de conflito
entre fé e razão.
São Tomás mostra que há, em Aristóteles, uma filosofia
verdadeiramente autônoma e independente do dogma,
mas em harmonia com ele. Assim, São Tomás introduz
no teísmo cristão o rigor do naturalismo peripatético.
Porém, distingue o Estado e a Igreja, o direito e a moral,
a filosofia e a teologia, a natureza e o sobrenatural. “A
última felicidade do homem não se encontra nos bens
exteriores, nem nos bens do corpo, nem nos da alma:
só pode ser encontrada na contemplação da verdade”
(Gilson, 1960, p. 125).
São Tomás reconheceu, assim como seu mestre Alberto
Magno, que aqueles argumentos eram persuasivos e,
assim, teve de descobrir um jeito de conciliar filosofia e
fé. Segundo o papa Leão XIII (1878-1903): “Distinguindo
claramente razão da fé, como deve ser, e ao mesmo
tempo, reunindo-as numa harmonia de amizade, ele
protegeu os direitos de cada uma delas e cuidou da
dignidade de ambas”.
Ao tomar emprestado de Aristóteles a alegação de que
em qualquer disciplina é preciso reconhecer a diferença
entre o suposto e o provado, Tomás de Aquino abriu um
importante espaço na discussão teológica, tendo a dis-
cussão sobre a existência de Deus, assim, sua teoria do
conhecimento pretendia ser, ao mesmo tempo, universal
(estende-se a todos os conhecimentos) e crítica (determi-
na os limites e as condições do conhecimento humano).
O conhecimento verdadeiro seria uma “adequação da
inteligência à coisa”. Retomando a física e a metafísica
de Aristóteles, estabelece as cinco “vias” que nos condu-
zem a afirmar racionalmente a existência de Deus: com
base nos efeitos, afirmamos a causa. Estabelece sua
concepção de natureza como ordem do mundo, ordem
decifrável das coisas e que permite fixar fins particulares
a cada uma delas. Deus é a causa de tudo, mas não age
diretamente nos fatos da criação. Ele instaurou um sis-
tema de leis, causas segundas, ordenando cada um dos
domínios naturais segundo sua especificidade própria.
Deus é o primeiro motor imóvel, é a primeira causa efi-
ciente, é o único Ser necessário, é o Ser absoluto, o Ser
cuja Providência governa o mundo.
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A Suma teológica
Combinando a filosofia de Aristóteles com a doutrina
católica, e unindo para sempre a fé e a razão, a Suma
teológica é um livro obrigatório para qualquer estudan-
te de filosofia. São cinco volumes inacabados, escritos
entre 1265 e 1273, sendo que no primeiro volume estão
as famosas cinco provas da existência de Deus por São
Tomás. Ele afirma que a existência de Deus não é evidente
por si mesma, mas existem dois tipos de demonstração:
uma pela causa e outra pelos efeitos. Sempre que um
efeito é mais manifesto que sua causa, recorremos a ele
a fim de conhecer a causa. Por qualquer efeito podemos
demonstrar a existência de sua causa, porque os efeitos
dependem da causa e, estabelecida a existência do efeito,
necessariamente temos a preexistência de sua causa.
Então, se a existência de Deus não é evidente para nós,
pode ser demonstrada pelos efeitos por nós conhecidos.Assim, pelas obras de Deus, pode-se demonstrar sua
existência, ainda que por elas não possamos conhecê-lo
quanto à sua essência.
São Tomás nega que possamos ver a essência de Deus
pois Santo Agostinho diz que “ninguém jamais viu a Deus,
nem nesta vida, tal como Ele é, nem na vida angélica,
como os olhos do corpo veem as coisas visíveis. E nem um
intelecto criado porque o conhecimento de todo aquele
que conhece é segundo o modo de sua natureza. Santo
Agostinho escreveu: “os objetos sublimes das ciências
não podem ser vistos se não são iluminados por seu Sol”,
isto é, por Deus. Não é necessário para ver algo intelec-
tualmente ver a essência de Deus. Porém, nesta vida
podemos conhecer a Deus pela razão natural. O homem
não pode, a partir do conhecimento das coisas sensíveis,
conhecer todo o poder de Deus, nem ver sua essência.
No entanto podemos conhecer a Deus se É, e conhecer
aquilo que é necessário que lhe convenha como à causa
primeira universal.
Filosofia islâmica
O processo de expansão do Islã resultou na articula-
ção entre a árabe e as mais variadas culturas, tanto no
Ocidente como Oriente, favorecendo o intercâmbio dos
mais diversos saberes. Além da manutenção de rotas
comerciais, a dominação de diferentes povos permitiu aos
árabes um amplo fluxo de contato e circulação, seja das
mercadorias e metais preciosos, seja do conhecimento
que hoje também integra a chamada cultura ocidental:
em matemática (desenvolvimento da aritmética, da
álgebra e da trigonometria, além do que os gregos já
conheciam, e a adoção dos algarismos hindus, depois
denominados arábicos); em química (foram os primeiros
a descrever os processos de filtração, destilação e su-
blimação, como também a descobrir várias substâncias
como o álcool, o ácido sulfúrico, o salitre e o alume); na
medicina (estudaram o diagnóstico do sarampo e da
varíola, bem como doenças cuja contaminação provém
da água e do solo); e na astronomia (conheciam o uso
da bússola, inventada pelos chineses, além do uso do
sextante e do astrolábio para a navegação, orientando-
-se pelas estrelas, e ainda participaram da construção de
observatórios astronômicos).
A produção de conhecimento entre os árabes estava
ligada às Casas do Saber (Bayt al-hikma), com estrutura
semelhante à das universidades ocidentais, destacando-
-se as das cidades de Bagdá, Cairo, Damasco, Isfahan e
Córdoba (Al-Andalus), onde se estudava medicina, teo-
logia, direito, matemática e filosofia.
Entre os intelectuais árabes, destacam-se o médico
Ibn Sina (Avicena, 980-1037), que vivera na Pérsia e cujos
estudos sobre a anatomia humana (princípio de medicina)
foram referência no Ocidente até o século XVII; o filósofo
Ibn Rushd (Averróes, 1126-1198), nascido no Al-Andalus,
que foi um dos grandes estudiosos de Aristóteles, res-
ponsável pela tradução e introdução de vários textos no
Ocidente, fator importante para o chamado renascimento
cultural dos séculos XV e XVI, demonstrando que a cul-
tura greco-romana não foi preservada exclusivamente
pela Igreja Católica Romana e Ortodoxa, mas outros
componentes colaboraram para seu reflorescimento na
Europa ocidental – nesse caso, os árabes tiveram um
papel significativo.
Na literatura, encontramos o ciclo de histórias co-
nhecido como As mil e uma noites, cuja origem está na
tradição popular e oral, depois registrada em árabe, entre
os séculos X e XII, sendo posteriormente copiadas em di-
ferentes manuscritos, espalhados entre o norte da África
e o Oriente próximo, e ainda traduzidas para as línguas
ocidentais no século XVIII, embora sem a preocupação
de manter as características originais, gerando uma va-
riante de texto que não corresponde aos textos árabes
mais antigos. Essa “adaptação” se deveu ao pensamento
“moralizador” europeu, interessado em falar sobre a cul-
tura oriental, mas despida de seus “vícios”; além disso,
acrescentaram-se personagens antes inexistentes como
Aladim, o marujo Simbá e Ali Babá.
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que hoje também integra a chamada cultura ocidental:
em matemática (desenvolvimento da aritmética, da
álgebra e da trigonometria, além do que os gregos já
conheciam, e a adoção dos algarismos hindus, depois
denominados arábicos); em química (foram os primeiros
a descrever os processos de filtração, destilação e su-
blimação, como também a descobrir várias substâncias
como o álcool, o ácido sulfúrico, o salitre e o alume); na
medicina (estudaram o diagnóstico do sarampo e da
varíola, bem como doenças cuja contaminação provém
da água e do solo); e na astronomia (conheciam o uso
da bússola, inventada pelos chineses, além do uso do
sextante e do astrolábio para a navegação, orientando-
-se pelas estrelas, e ainda participaram da construção de
observatórios astronômicos).
A produção de conhecimento entre os árabes estava
ligada às Casas do Saber (Bayt al-hikma), com estrutura
semelhante à das universidades ocidentais, destacando-
-se as das cidades de Bagdá, Cairo, Damasco, Isfahan e
Córdoba (Al-Andalus), onde se estudava medicina, teo-
logia, direito, matemática e filosofia.
Entre os intelectuais árabes, destacam-se o médico
Ibn Sina (Avicena, 980-1037), que vivera na Pérsia e cujos
estudos sobre a anatomia humana (princípio de medicina)
foram referência no Ocidente até o século XVII; o filósofo
Ibn Rushd (Averróes, 1126-1198), nascido no Al-Andalus,
que foi um dos grandes estudiosos de Aristóteles, res-
ponsável pela tradução e introdução de vários textos no
Ocidente, fator importante para o chamado renascimento
cultural dos séculos XV e XVI, demonstrando que a cul-
tura greco-romana não foi preservada exclusivamente
pela Igreja Católica Romana e Ortodoxa, mas outros
componentes colaboraram para seu reflorescimento na
Europa ocidental – nesse caso, os árabes tiveram um
papel significativo.
Na literatura, encontramos o ciclo de histórias co-
nhecido como As mil e uma noites, cuja origem está na
tradição popular e oral, depois registrada em árabe, entre
os séculos X e XII, sendo posteriormente copiadas em di-
ferentes manuscritos, espalhados entre o norte da África
e o Oriente próximo, e ainda traduzidas para as línguas
ocidentais no século XVIII, embora sem a preocupação
de manter as características originais, gerando uma va-
riante de texto que não corresponde aos textos árabes
mais antigos. Essa “adaptação” se deveu ao pensamento
“moralizador” europeu, interessado em falar sobre a cul-
tura oriental, mas despida de seus “vícios”; além disso,
acrescentaram-se personagens antes inexistentes como
Aladim, o marujo Simbá e Ali Babá.
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O médico, filósofo e matemático Ibn Sina, conhecido no
Ocidente por Avicena.
Avicena
Abu Ali al-Husayn ibn Abd Allah ibn Sina, geralmente
abreviado para Ibn Sina, latinizado como Avicena (Afshana),
nascido em cerca de 980, no atual Uzbequistão, e morto
em Hamadan, Irã, em junho de 1037, foi um polímata per-
sa, provavelmente o filósofo mais importante na tradição
islâmica e o filósofo mais influente da era pré-moderna.
Destacou-se, entre outras áreas, no campo da medicina,
e seu principal trabalho, o Cânone da Medicina (al-Qanun
fi’l-Tibb), continuou a ser utilizado como manual de me-
dicina nas universidades da Europa e no mundo islâmico
até o início do período moderno. Como filósofo, sua
principal obra é A cura (al-Shifa’), que teve um impacto
decisivo sobre a escolástica europeia, especialmente
sobre Tomás de Aquino.
De sua vida pessoal, o perfil que chegou até nós é que
Avicena era um jovem muito precoce e, com 10 anos de
idade, já havia memorizado o Alcorão. Aos 16, já dominava
várias ciências, como física, matemática, lógica e meta-
física. Logo, começou o estudo e a prática da medicina,
e, antes de completar 21 anos de idade, escreveu seu
famoso texto Cânone.
Avicena serviu sucessivamente a vários soberanos
persas como médico e conselheiro, viajando com eles
de um lugar ao outro e,apesar de conhecido pelo seu
perfil sociável, dedicou um bom tempo aos trabalhos
literários, dos quais são exemplos concretos os cerca de
cem volumes que escreveu. Destacam-se ainda entre os
seus trabalhos os extensos comentários sobre a obra de
Aristóteles e A libertação (al-Najat).
A filosofia de Avicena é uma tentativa de construir um
sistema coerente e abrangente que esteja de acordo com
as exigências religiosas da cultura muçulmana. Como
tal, ele pode ser considerado o primeiro grande filósofo
islâmico. Seu trabalho é frequentemente visto como parte
das tradições aristotélica e neoplatônica.
Um princípio favorito de Avicena, que é citado não
só por Averróes, mas também pelos escolásticos, e
especialmente por santo Alberto Magno (1193-1280),
era “intellectus in formis agit universalitatem”, ou seja,
a universalidade das nossas ideias é o resultado da
atividade da própria mente. Este é um princípio a ser
entendido no sentido realista, não no nominalista. Para
Avicena, o significado é que, embora existam diferenças
e semelhanças entre as coisas independentemente da
mente, a constituição formal de coisas no campo da
individualidade, universalidade genérica, universalidade
específica, e assim por diante, é trabalho da mente.
Outras importantes contribuições suas são encontradas
nas áreas das ciências naturais, teoria musical e matemá-
tica. A influência de Avicena na Europa medieval começou
por meio das traduções de suas obras realizadas primeiro
na Espanha. Sua metafísica tornou-se base para discussões
sobre a filosofia islâmica e teologia filosófica.
Neste detalhe do afresco "Escola de Atenas", Rafael Sanzio
reconheceu a importância de Averróes (usando turbante
branco) ao apresentá-lo entre os grandes sábios.
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Averróes
Abu al-Walid Muhammad ibn Ahmad ibn Muhammad
ibn Rushd, cujo nome latinizado ficou conhecido no
Ocidente como Averróes, aprendeu jurisprudência e
teologia com o pai e estudou quase todas as ciências
e a filosofia do seu tempo, tendo escrito obras sobre
medicina, física, astronomia, jurisprudência muçulmana,
filosofia e teologia.
A partir de 1169 (pouco se sabe sobre a sua vida antes
desse período), Averróes foi agraciado pelos príncipes da
dinastia muçulmana Almóada reinante no norte da África
e na Espanha. Em 1169 foi nomeado juiz em Sevilha, em
1171 em Córdoba. Banido em 1195, por causa de suas
atitudes filosóficas, foi restaurado três anos depois, pouco
antes de sua morte.
A originalidade de Averróes consistiu em fundir em
um só conceito uma física materialista e um raciona-
lismo baseado no “espírito da humanidade”, presente
no indivíduo mas ao mesmo tempo a ele transcenden-
te. Negando a imortalidade da alma, foi o precursor
dos filósofos heréticos do islamismo e do cristianis-
mo, e sua influência estendeu-se até a Renascença.
Os comentários de Averróes sobre Aristóteles em Sharh
("Grande comentário") e Telkhis (“Resumo”), traduzidos
para o latim na primeira metade do século XIII, tornaram
conhecido o pensamento desse filósofo grego, o que
influiu no pensamento de Tomás de Aquino, produzindo
verdadeira revolução na filosofia cristã, até então baseada
no platonismo.
A irrupção do Aristóteles arabizado nas universidades
europeias impunha um trabalho de exegese e de assimi-
lação, pois não era possível nem aceitá-lo tal qual nem
ignorar sua presença. A essa tarefa se consagraram Al-
berto Magno e, principalmente, Tomás de Aquino, que leu
e comentou as obras de Aristóteles em traduções latinas
feitas diretamente do grego. Contestando ao averroísmo,
Tomás de Aquino opera a conciliação, a síntese definitiva
do pensamento aristotélico e da revelação cristã.
A teologia de Averróes influiu em autores místicos do
século seguinte, como Amalrico de Bena (1150-1204), que
ensinava que tudo é Deus e que Deus está encarnado tan-
to em Cristo quanto no crente, não podendo este pecar,
pensamento que lhe valeu a condenação e proibição de
seus ensinamentos. Almarico teve seu corpo exumado e
queimado, junto a um grupo de seus discípulos em 1209,
na cidade de Paris. Em 1215, a doutrina de Almarico foi
formalmente condenada no IV Concílio de Latrão.
A influência filosófica de Averróes foi muito mais forte;
é sensível em vários movimentos heterodoxos, até Pietro
Pomponazzi, professor na Universidade de Pádua até 1512
e da Universidade de Bolonha até sua morte em 1525.
Além de traduzir e comentar as obras de Aristóteles,
Averróes é autor de uma refutação de Algazel (1058-1111)
intitulada “Destruição da destruição” e de várias obras
sobre filosofia, lógica, física, medicina e astronomia.
Resumo da ópera
Nesta aula trabalhamos com dois segmentos da filosofia
medieval: o pensamento cristão (Santo Agostinho e São
Tomás) e o pensamento islâmico (Avicena e Averróes).
Além dos conceitos trabalhados respectivamente pelos
quatro pensadores, é importante observar a conexão de
suas ideias com a tradição e o pensamento da Antigui-
dade, caracterizando uma releitura de pensadores como
Platão e Aristóteles e, assim, deixamos de lado a retró-
grada visão de que o período medieval foi uma época de
atraso e ignorância ou, ainda, que a cultura greco-romana
tenha desaparecido.
EXERCÍCIOS
1. (UFU)
Na medida em que o Cristianismo se consolidava, a partir do século II, vários pensadores, convertidos à nova fé e,
aproveitando-se de elementos da filosofia greco-romana que eles conheciam bem, começaram a elaborar textos sobre a
fé e a revelação cristãs, tentando uma síntese com elementos da filosofia grega ou utilizando-se de técnicas e conceitos
da filosofia grega para melhor expor as verdades reveladas do Cristianismo. Esses pensadores ficaram conhecidos como
os Padres da Igreja, dos quais o mais importante a escrever na língua latina foi Santo Agostinho.
COTRIM, Gilberto.
Fundamentos de Filosofia: ser, saber e fazer. São Paulo: Saraiva, 1996, p. 128. Adaptado.
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Esse primeiro período da filosofia medieval, que durou do século II ao século X, ficou conhecido como
a) Escolástica.
b) Neoplatonismo.
c) Antiguidade tardia.
d) Patrística.
2. (Enem)
Ora, em todas as coisas ordenadas a algum fim, é preciso haver algum dirigente, pelo qual se atinja diretamente o
devido fim. Com efeito, um navio, que se move para diversos lados pelo impulso dos ventos contrários, não chegaria ao
fim de destino, se por indústria do piloto não fosse dirigido ao porto; ora, tem o homem um fim, para o qual se ordenam
toda a sua vida e ação.
Acontece, porém, agirem os homens de modos diversos em vista do fim, o que a própria diversidade dos esforços e
ações humanas comprova. Portanto, precisa o homem de um dirigente para o fim.
AQUINO, Tomás de.
Do reino ou do governo dos homens: ao rei do Chipre. Escritos políticos de São Tomás de Aquino.
Petrópolis: Vozes, 1995. Adaptado.
No trecho citado, Tomás de Aquino justifica a monarquia como o regime de governo capaz de
a) refrear os movimentos religiosos contestatórios.
b) promover a atuação da sociedade civil na vida política.
c) unir a sociedade tendo em vista a realização do bem comum.
d) reformar a religião por meio do retorno à tradição helenística.
e) dissociar a relação política entre os poderes temporal e espiritual.
3. (UFF) Na Idade Média, se considerava que o ser humano podia alcançar a verdade por meio da fé e também por
meio da razão. Ao mesmo tempo, o poder religioso (Igreja) e o poder secular (Estado) mantinham relacionamento
político tenso e difícil. O filósofo Tomás de Aquino desenvolveu uma concepção destinada a conciliar FÉ e RAZÃO,
bem como IGREJA e ESTADO.
De acordo com as ideias desse filósofo,
a) o Estado deve subordinar-se à Igreja.
b) a Igreja e o Estado são mutuamente incompatíveis.
c) a Igreja e o Estado devem fundir-se numa só entidade.
d) a Igreja e o Estado são, em certa medida, conciliáveis.e) a Igreja deve subordinar-se ao Estado.
ESTUDO ORIENTADO
Caro(a) aluno(a),
Analisar a organização da filosofia medieval é também observar como a tradição cristã releu e repensou a Antiguidade,
dando-lhe uma roupagem que se relacionava com sua crença e, assim, a compreensão do papel da Igreja enquanto insti-
tuição religiosa e centro de produção de conhecimento torna-se imprescindível para a compreensão do contexto histórico
e reflexivo no mundo cristão e também, de acordo com suas características, o mesmo ocorre no mundo muçulmano.
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Os exercícios escolhidos mostram como os conceitos referentes à filosofia medieval vêm sendo cobrados nos exames
e aí se observa a importância da leitura, reflexão e interpretação dos textos e sua relação com seu período de produção.
Na seção Navegar, destacamos o filme O nome da Rosa que traz o pano de fundo dos debates teológicos e intelectuais
daquele contexto, além de fazer um recorte bastante rico sobre a mentalidade, cultura e sociedade medieval.
Bons estudos!
EXERCÍCIO
1. (Uncisal) A filosofia de Santo Agostinho é essencialmente uma fusão das concepções cristãs com o pensamento
platônico. Subordinando a razão à fé, Agostinho de Hipona afirma existirem verdades superiores e inferiores, sendo
as primeiras compreendidas a partir da ação de Deus. Como se chama a teoria agostiniana que afirma ser a ação
de Deus que leva o homem a atingir as verdades superiores?
a) Teoria da Predestinação.
b) Teoria da Providência.
c) Teoria Dualista.
d) Teoria da Emanação.
e) Teoria da Iluminação.
2. (UFF) A grande contribuição de Tomás de Aquino para a vida intelectual foi a de valorizar a inteligência humana e
sua capacidade de alcançar a verdade por meio da razão natural, inclusive a respeito de certas questões da religião.
Discorrendo sobre a “possibilidade de descobrir a verdade divina”, ele diz que há duas modalidades de verdade
acerca de Deus. A primeira refere-se a verdades da revelação que a razão humana não consegue alcançar, por
exemplo, entender como é possível Deus ser uno e trino. A segunda modalidade é composta de verdades que a
razão pode atingir, por exemplo, que Deus existe.
A partir dessa citação, indique a afirmativa que melhor expressa o pensamento de Tomás de Aquino:
a) A fé é o único meio do ser humano chegar à verdade.
b) O ser humano só alcança o conhecimento graças à revelação da verdade que Deus lhe concede.
c) Mesmo limitada, a razão humana é capaz de alcançar certas verdades por seus meios naturais.
d) A Filosofia é capaz de alcançar todas as verdades acerca de Deus.
e) Deus é um ser absolutamente misterioso e o ser humano nada pode conhecer d’Ele.
3. (UEM) Sobre a relação entre filosofia, Igreja e Estado na Idade Média, assinale o que for correto.
01) Na Idade Média, os mosteiros representam uma importante fonte do saber. Nesses locais, a cultura greco-latina
manteve-se preservada, graças à atividade dos copistas e à conservação dos manuscritos dos autores clássicos.
02) Na Alta Idade Média, a Igreja começou a libertar-se da dominação política do Império Carolíngio e iniciou-se um
período de supremacia do poder espiritual sobre o poder político.
04) Boécio (séc. VI) propõe a reabertura aos temas clássicos através de uma corrente espiritual e gnóstica denomi-
nada “nova sofística”, apresentada em sua obra máxima, a Suma teológica.
08) Por ser um período de obscuridade, a filosofia medieval não se dedicou aos grandes temas da filosofia, como
a questão do conhecimento, o papel da linguagem e a teleologia da práxis humana, que aparecem depois, com a
modernidade.
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16) O relacionamento entre a Igreja e o Estado co-
meçou no fim do Império Romano, quando o cris-
tianismo foi transformado em religião oficial do
Estado. Enquanto o paganismo perdia sua posição
de religião oficial, o cristianismo era protegido pelo
Império, o que permitiu sua difusão.
4. (CESP/UnB)
O pensamento de São Tomás de Aquino teve imensa
influência em sua época, estendendo-se mesmo até o
período contemporâneo, quando é representado pelo
neotomismo. São Tomás foi, de fato, um pensador de
grande criatividade e originalidade que desenvolveu
uma filosofia própria em um sentido fortemente sis-
temático, tratando praticamente de todas as grandes
questões da filosofia e da teologia de sua época, bem
como tomando Aristóteles – e não mais o platonismo
e o agostinianismo, como até então se fazia – como
ponto de partida para a elaboração de seu sistema.
São Tomás mostra, então, que a filosofia de Aristóteles
é perfeitamente compatível com o cristianismo, abrindo,
assim, uma nova alternativa para o desenvolvimento
da filosofia cristã.
MARCONDES, Danilo.
Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a
Wittgenstein. 4. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
p. 126.
Considerando o trecho anterior, redija um texto dis-
sertativo acerca da filosofia de Tomás de Aquino,
abordando, necessariamente, os seguintes aspectos:
a) questão tomista.
b) tratados que foram seguidos e menção ao filósofo
grego que mais influenciou essa filosofia.
RODA DE LEITURA
Texto I
[...]
VII. II. 3. Era-me bastante, Senhor, contra aqueles
enganados enganadores e palradores mudos, porque
através deles não soava a tua palavra, era-me, pois, bas-
tante aquilo que já há muito tempo, ainda em Cartago,
Nebrídio costumava propor, e todos os que o tínhamos
ouvido ficámos impressionados: “Que te poderia fazer
aquela espécie de gente das trevas que os Maniqueus
costumam opor como massa adversa, se tu com ela não
tivesses querido lutar?”. Ora, se respondessem que te
poderia causar alguma coisa de mal, tu serias violável e
corruptível. Se, ao invés, dissessem que em nada essas
coisas te poderiam prejudicar, não haveria causa para
lutar, e lutar de tal modo que uma certa parte de ti e um
teu membro ou a geração da tua própria substância se
misturaria com os poderes adversos e com as naturezas
criadas por ti, e se corromperia e mudaria para pior, na
proporção em que da felicidade se transformasse em
miséria, e carecesse de auxílio com que pudesse ser
libertada e purificada; e que esta parte era a alma, em
socorro da qual veio a tua palavra, livre, para ela que
era servil, pura, para ela manchada, íntegra, para ela
corrupta, mas também ela própria corruptível, porque
formada de uma só e mesma substância. E deste modo,
se os Maniqueus dissessem que tu, o que quer que tu
sejas, isto é, que a tua substância, pela qual tu és, é
incorruptível, tudo isso seria falso e execrável; se, pelo
contrário, dissessem que é corruptível, isso mesmo
também seria falso e abominável, desde a primeira
palavra. Portanto, bastava-me só isto contra aqueles
que, de todo o modo, era preciso expulsar como um
peso de dentro do peito, porque, sentindo e dizendo
estas coisas acerca de ti, não tinham por onde esca-
par, senão com um horrível sacrilégio do coração e
da língua. [O livre arbítrio, causa do pecado] VII. III. 4.
Mas, também ainda, embora dissesse e acreditasse
firmemente que és incontaminável e inalterável e
sob nenhum aspecto mutável, tu, nosso Deus, Deus
verdadeiro, que criaste não só as nossas almas, mas
também os nossos corpos, e não apenas as nossas
almas e os nossos corpos, mas também todos nós e
todas as coisas, não tinha por explicada e esclarecida
a causa do mal. Fosse ela qual fosse, porém, via que
era preciso procurá-la de modo a que, graças a ela,
não fosse obrigado a acreditar que é mutável o Deus
imutável, ou que eu próprio me convertesse naquilo
01 + 02 + 16 = 19
São Tomás proporcionou a aproximação entre a fé e a razão, sendo a segunda uma
justificativa da primeira e, nesse sentido, a compreensão de Deus estaria na plenitude da
fé e a racionalidade seria uma ferramenta que daria uma dimensão parcial do Universo
criado por Deus, apenas atingido na sua plenitude pela fé.
A releitura cristã de Aristóteles tornou-se umde seus principais referenciais para a elabo-
ração da Suma teológica. Dentro do pensamento tomista, a sistematização das análises
e o desenvolvimento das bases do pensamento escolástico (exposição de uma tese,
argumentação, contra-argumentação, réplica, tréplica), desse modo, tais procedimentos
fundamentaram tanto o pensar quanto o escrever na produção intelectual medieval,
conferindo uma identidade marcante dentro das universidades quanto à produção do
conhecimento que ficou conhecido como Escolástica.
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que eu procurava. E assim, procurava-a em segurança
e certo de que não era verdade o que diziam aqueles
que eu evitava com toda a minha alma, porque os via,
procurando donde provinha o mal, cheios de maldade
(Eclesiastes 9:3; Romanos 1:29), em virtude da qual
eram de opinião que é mais a tua substância que está
sujeita a sofrer o mal, do que a deles a fazê-lo. 5. E
esforçava-me por compreender o que ouvia: que o livre
arbítrio da vontade é a causa de praticarmos o mal e
o teu reto juízo (Salmo 118:137) a de o sofrermos, mas
não conseguia compreender essa causa com clareza.
E assim, tentando arrancar do abismo o olhar do meu
espírito, afundava-me de novo, e muitas vezes tentava e
me afundava uma e outra vez. Na verdade, elevava-me
para a tua luz o facto tanto de saber que tinha uma von-
tade como o de saber que vivia. Por isso, quando queria
ou não queria alguma coisa, tinha absoluta certeza de
que quem queria ou não queria não era outro senão
eu. E via, cada vez mais, que aí estava a causa do meu
pecado. E aquilo que fazia contra vontade via que era
mais padecer do que fazer, e julgava que isso não era
culpa, mas castigo, pelo qual, como eu logo confessava,
considerando-te justo, era castigado não injustamente.
Mas de novo dizia: “Quem me fez? Porventura não foi
o meu Deus, que é não apenas bom, mas o próprio
bem? Donde me vem então o querer o mal e o não
querer o bem? Será para haver um motivo para que
eu seja castigado justamente? Quem colocou isto
em mim, e plantou em mim este viveiro de amargura
(Hebreus 12:15), embora todo eu tenha sido feito por
um Deus tão doce? Se o autor é o diabo, donde veio o
mesmo diabo? Mas se também ele, por uma vontade
perversa, de anjo bom se tornou diabo, donde lhe veio,
também a ele, a má vontade pela qual se tornaria diabo,
quando o anjo, na sua totalidade, tinha sido criado por
um criador sumamente bom?”. De novo me deixava
abater e sufocar com estes pensamentos, mas não
me deixava arrastar até àquele inferno do erro, onde
ninguém te confessa (Salmo 6:6), quando se julga que
és tu a padecer o mal, e não o homem que o pratica.
Agostinho de Hipona.
A Cidade de Deus.
Texto II
Existem muitas maneiras de descobrir a verdade.
Como diz muito bem o Filósofo (Aristóteles), citado
por Boécio, “é próprio do homem culto exigir, em cada
assunto, o rigor que comporta a natureza da matéria"
(Sobre a Ética, livro III, capitulo IV). Consequentemente,
cumpre-nos começar por mostrar de que maneira se
pode descobrir a verdade proposta.
As verdades que professamos acerca de Deus re-
vestem uma dupla modalidade. Com efeito, existem a
respeito de Deus verdades que ultrapassam totalmente
as capacidades da razão humana. Uma delas é, por
exemplo, que Deus é trino e uno. Ao contrário, existem
verdades que podem ser atingidas pela razão: por
exemplo, que Deus existe, que há um só Deus etc. Estas
últimas verdades, os próprios filósofos as provaram
por via demonstrativa, guiados que eram pelo lume
da razão natural.
Que existe em Deus um domínio ininteligível, o qual
ultrapassa totalmente as capacidades da razão huma-
na, é evidente. O princípio de todo conhecimento que
a inteligência pode conseguir acerca de uma coisa é
o conhecimento da substância desta coisa, visto que,
segundo o ensinamento do Filósofo, o princípio de
demonstração é “aquilo que uma coisa é” (livro II dos
Analíticos Segundos, III, 9). Por conseguinte, a maneira
pela qual a substância da coisa é apreendida pela
inteligência comandará necessariamente a maneira
pela qual se conhecerá tudo quanto diz respeito a esta
coisa. Se, portanto, a inteligência humana apreende a
substância de uma determinada coisa, por exemplo, da
pedra ou do triângulo, nada do que está dentro do do-
mínio inteligível desta coisa ultrapassará a capacidade
da razão humana.
Tal não é o nosso caso com referência a Deus. A
inteligência humana é incapaz, pelas suas próprias
forças, de apreender a substância ou a essência íntima
de Deus. Com efeito, o nosso conhecimento intelectual,
conforme o modo próprio da vida presente, tem seu
ponto de partida nos sentidos corporais, de tal modo
que tudo o que não cai sob o domínio dos sentidos não
pode ser apreendido pela inteligência humana, a não
ser na medida em que os objetos sensíveis (acessíveis
aos sentidos) permitem deduzir a existência de tais
coisas. Ora, os objetos sensíveis não podem conduzir a
nossa inteligência a enxergar neles aquilo que constitui
a substância ou essência divina, pois se verifica uma
diferença de nível entre os efeitos e o poder da coisa.
E, todavia, os objetos sensíveis conduzem a nossa
inteligência a um certo conhecimento de Deus, até ao
ponto de conhecermos que Ele existe, e mesmo até
conhecermos tudo o que se deve atribuir ao primeiro
princípio. Por conseguinte, existem em Deus verdades
inteligíveis, as quais são acessíveis à razão humana:
em contrapartida, outras há que superam totalmente
as forças da razão humana.
Tomás de Aquino.
Súmula contra os gentios.
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aula 5 FILOSOFIA
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depois com manuscritos que registraram as peripécias
de Sherazade para enganar o sultão, contando-lhe as
mais incríveis histórias.
ÁGORA
Atividade: Discussão sobre as relações entre a Fé e
a Razão
Objetivos: A partir da proposição de São Tomás:
– identificar os elementos que caracterizam a fé e
a razão;
– apontar a construção lógica estabelecida no tomis-
mo que aproxima ambas;
– contrapor a visão tomista com a visão secularizada
da contemporaneidade.
NAVEGAR
Filmes
O nome da Rosa
Direção: Jean-Jacques An-
naud, 1986, 131 min.
Inspirado no romance de
suspense de Umberto Eco,
o filme tem sua trama am-
bientada no século XIV, em
um mosteiro beneditino
localizado nos Alpes italia-
nos, que se torna palco de
uma série de misteriosos
assassinatos. O frade franciscano William de Baskerville
precisa desvendá-los antes da realização de um Concílio
que procurava pôr fim às disputas entre franciscanos e
dominicanos. Aborda ainda a relação dos monges com o
conhecimento e a visão distinta entre os religiosos sobre
o conflito entre a fé e a razão.
Livros
HOURANI, Albert. Uma his-
tória dos povos árabes. 2. ed.
São Paulo: Companhia das
Letras, 2001.
Grande síntese histórica que
abrange o período pré-islâmi-
co, a organização do Islã e
sua expansão até o século
XX, enfocando aspectos po-
líticos, religiosos e socioeco-
nômicos do mundo árabe e
de seus participantes.
Livro das mil e uma noites.
Trad. Mamede Mustafá Jarou-
che. São Paulo: Globo, 2005.
Traduzida diretamente do
árabe, essa obra, em quatro
volumes, busca recuperar
as histórias originais de As
mil e uma noites, uma das
principais referências da cultura árabe, que foi repassada
de geração a geração, primeiro como narrativas orais e
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FILOSOFIA aula 5
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Daqui nasce uma questão: é melhor ser amado ou temido? Na minha opinião, conviria ser ambas as
coisas. Dada, porém, a dificuldade de preencher alguém esse duplo requisito, o mais vantajoso é ser temido.
O Príncipe, de Nicolau Maquiavel.
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aula 7 FILOSOFIA
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Assim cumpre ser raposa para conhecer as armadi-
lhas e leão para amedrontar os lobos. Quem se contenta
de ser leão demonstra não conhecer o assunto.
O Príncipe, de NicolauMaquiavel.
Filosofia no Renascimento
A releitura da cultura greco-
-romana
O conceito de Renascimento vem da palavra italiana
rinascita, pois se acreditava que o período anterior, a Ida-
de Média, fora uma “espessa e longa noite gótica” imersa
nas trevas e desprovida de cultura. Para os homens desse
período, a “verdadeira” cultura encontrava-se na Antigui-
dade, a qual foi banida e em seu lugar a Igreja estabeleceu
o teocentrismo. O saber, portanto, encontrava-se nas
artes e nos escritos clássicos.
Por isso os artistas e intelectuais buscavam uma con-
cepção de cultura diferente da medieval e que tinha suas
raízes no mundo greco-romano. A proposta central era
afastar-se do teocentrismo, buscando o antropocentris-
mo, ou seja, o homem como medida de todas as coisas.
Apesar dessa repulsa à Idade Média, é importante
perceber que as transformações sofridas durante o Re-
nascimento foram resultado de um processo de continui-
dade que perpassou o medievo e atingiu seu esplendor
no momento seguinte, logo não podemos considerar a
Renascença como uma ruptura total, mas sim um longo
processo de experimentação e aprimoramento.
Cabe também a ressalva de que o Renascimento não
foi a “recuperação integral” da Antiguidade, mas a sua
releitura, sujeita aos valores e modismos do período entre
os séculos XIV e XVI.
FILOSOFIA – AULA 6
Tendo, portanto, necessidade de proceder como animal,
deve um príncipe adotar a índole ao mesmo tempo do
leão e da raposa; porque o leão não sabe fugir das
armadilhas e a raposa não sabe defender-se dos lobos.
O Príncipe, de Nicolau Maquiavel.PA
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A partir da reabertura do Mediterrâneo ao longo das
Cruzadas (séculos XI-XIII), a Europa viveu uma intensa
transformação das relações sociais e do modo de vida,
pois as cidades voltaram a crescer e se tornaram o
centro das atividades comerciais mediante a atuação
dos burgueses. A burguesia era um grupo oriundo da
classe trabalhadora que não possuía legitimidade como
a nobreza ou o clero.
A prosperidade italiana era relacionada com o mono-
pólio do comércio de especiarias com o Oriente, no qual
se destacavam as cidades de Gênova, Veneza, Florença
e Pisa. Essas cidades controlavam a venda de especiarias
dentro da Europa e também a sua compra com os árabes
e turcos no Mediterrâneo.
O Renascimento tem como berço a península Itálica
devido a um conjunto de fatores que favoreceu sua for-
mação. Em primeiro lugar, ao fato de ter sido o centro do
Império Romano e guardar milhares de ruínas e resquícios
da cultura greco-romana, como templos, estátuas e pré-
dios públicos, o que lhe proporcionava uma convivência
muito próxima com seu “glorioso passado”.
Em segundo lugar, ao enriquecimento proveniente do
comércio mediterrâneo, que permitiu aos burgueses o
investimento nas artes, sendo denominados mecenas,
com o objetivo de legitimar sua posição na sociedade e
buscar uma visão de mundo que se relacionasse com seu
modo de vida, rompendo com a visão de mundo medieval,
na qual eram simples trabalhadores inferiorizados pela
nobreza e pelo clero. O mecenato, no entanto, não ficou
restrito aos burgueses, pois nobres, papas e príncipes
também o fizeram.
Outro fator importante foi a sobrevivência de muitos
textos clássicos através da sua conservação em biblio-
tecas de mosteiros e abadias. Esses textos foram copia-
dos e traduzidos por monges copistas e provinham do
intercâmbio entre sábios bizantinos (vindos do Império
Bizantino atacado pelos turcos) e também da ação dos
árabes na tradução e divulgação de vários textos.
FILOSOFIA aula 6
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A sobrevivência dos elementos da cultura clássica pode ser relacionada com sua redescoberta a partir do interesse
dos intelectuais pelos studia humanitatis (estudos humanos que incluíam filosofia, poesia, história, matemática, elo-
quência e o perfeito domínio do latim e do grego), pois não se buscou a mera repetição dos modelos antigos, mas sua
reinterpretação à luz de sua época e dessa maneira constituiu-se o humanismo.
Transformações culturais e científicas
Uma importante transformação ocorrida no contexto do Renascimento foi a invenção da imprensa de tipos móveis
pelo alemão Johan Gutenberg, que em 1450, na sua oficina em Mongúcia, começou a imprimir a Bíblia. Antes da im-
prensa, os livros eram reproduzidos por cópia manual, feita nos mosteiros e abadias pelos monges copistas, que se
responsabilizavam por copiar o texto e produzir também as imagens que o acompanhavam, as iluminuras.
A divulgação e a ampliação do uso da imprensa tiveram um grande impacto na sociedade ocidental, favorecendo a
divulgação do conhecimento em uma escala muito maior que antes, bem como tornando o livro mais acessível, muito
embora ainda não houvesse uma democratização do conhecimento e da cultura, algo que talvez estejamos vivenciando
agora em nossa época, guardadas as devidas proporções, porque o analfabetismo e a educação de qualidade ainda são
temas de amplas e sérias discussões.
Durante a Idade Média, um dos principais temas defendidos pela Igreja era o geocentrismo, teoria pautada no pen-
samento de Cláudio Ptolomeu (aproximadamente 100-170), o qual concebia a Terra como estática, tendo o Sol e os
planetas girando ao seu redor.
O pensamento geocêntrico começou a ser questionado pelo astrônomo Nicolau Copérnico (1473-1543), ao publicar,
um pouco antes de morrer, o tratado De Revolutionibus Orbium Celestium, defendendo o heliocentrismo (a Terra e os
planetas giram em torno do Sol, que é estático).
A teoria heliocêntrica foi levada adiante por Galileu Galilei (1564-1642), físico e matemático nascido em Pisa, respon-
sável pelo aprimoramento do telescópio em 1609 e também pelo furor causado quando desafiou a Igreja ao defender
intensamente os estudos de Copérnico. Em razão de suas ideias, acabou acusado de “inimigo da fé” e foi duas vezes
processado pela Inquisição. Apesar de não ter sido condenado à morte, recebeu um castigo de maior crueldade para
quem vive daquilo que estuda e ensina: foi obrigado a retratar-se publicamente, renegando suas pesquisas e acabou
seus dias em prisão domiciliar.
Os estudos de Galileu foram importantes para os trabalhos de Johannes Kepler (1571-1630), que analisou o movimento
dos planetas, elaborando a teoria das órbitas elípticas, vigente até os dias de hoje. Os estudos de Galileu também cola-
boraram para o aprofundamento do assunto com os trabalhos de Isaac Newton (1642-1727), físico inglês que consolidou
a posição de seus antecessores e publicou trabalhos sobre a chamada Lei de Gravitação Universal, conhecida por nós
hoje como leis de Newton, as quais não só explicam uma série de eventos físicos que vivenciamos, como também
acabaram por confirmar o heliocentrismo.
A partir de pensamento de Copérnico, Galileu apresentou a visão heliocêntrica com uma certeza, questionando o saber da
Igreja.
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aula 6 FILOSOFIA
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Somente em 1992, a Igreja Católica, então chefiada
pelo papa João Paulo II, perdoou Galileu, reconhecendo
o valor de suas pesquisas e a gravidade do erro que a
instituição cometeu com o estudioso pisano.
Na Medicina, destacou-se André Vesálio (1514-1564), na
área da anatomia, ao publicar o tratado Sobre a estrutura
do corpo humano, trabalho realizado pela experiência na
dissecação de cadáveres; Miguel de Servet (1511-1553),
médico espanhol responsável pela descoberta da circu-
lação do sangue ou circulação pulmonar pelas artérias;
e William Harvey (1578-1657), que estudou Medicina em
Pádua, onde Vesálio foi professor e deixou um grande
número de discípulos. Harvey aprimorou as pesquisas
de Servet sobre o sistema circulatório e publicou, em
1628, o tratado Estudos anatômicos dos movimentos
do coração e do sangue dos animais, considerado uma
das mais importantes obras de sua época, tendo apenas
omitido a existência dos vasos capilares, pois ainda não
tinha sido inventadoo microscópio. A descoberta dos
capilares ficou por conta dos trabalhos do médico italiano
Marcelo Malpighi (1628-1694), já que o microscópio foi
inventado na Holanda em 1657.
Humanistas: o homem
como a medida de todas
as coisas
A transição da Idade Média para a Idade Moderna re-
presentou não só a constituição de uma nova visão de
mundo por parte da sociedade europeia, mas também
a contestação do pensamento e mentalidade medievais
ainda dominante.
Apesar dos esforços doutrinários, a distância entre
a ortodoxia defendida pelo papa e os demais clérigos
nem sempre atingia toda a população, que muitas vezes
acabava por moldar ou reformular suas crenças de uma
maneira muito particular, dentro do que podemos enten-
der como cultura popular.
O questionamento da Igreja foi fruto de um processo
de transformação pelo qual a Europa ocidental passava,
especialmente pelo fortalecimento da burguesia e de
sua importância dentro da nova dinâmica econômica
europeia, pois o mundo agrícola foi dando espaço ao
mundo urbano: o crescimento do comércio implicava
a transformação de vários setores da sociedade com
a expansão das cidades, das trocas comerciais em
larga escala e, em razão disso, necessitava-se de uma
mentalidade mais adequada àquele momento, pois o
catolicismo proibia o lucro e a usura, defendia o “justo
preço” das corporações de ofício, dificultando, portanto,
a consolidação da burguesia.
Outro movimento que teve uma contribuição significa-
tiva foi a mudança de paradigma que ocorreu durante os
séculos XV e XVI, período conhecido como Renascimento,
especialmente pela invenção da imprensa e a conse-
quente circulação mais rápida do conhecimento entre
os meios intelectuais, bem como o acesso ao livro, além
do desenvolvimento daquilo que entendemos por meto-
dologia científica, processo calcado no levantamento de
hipóteses e análise de dados, seguido pela elaboração
de teorias que não eram apresentadas como verdades
absolutas (dogmas), mas sim como possibilidades para
o esclarecimento do tema estudado.
Alguns dos setores da Cristandade começaram a per-
ceber que a Igreja Católica estava apresentando uma
conduta muito diferente dos princípios que defendia, o
que implicava o desgaste de sua imagem e também seu
enfraquecimento. Entre os principais críticos podemos
citar a figura de Erasmo de Roterdã (1466-1536), um
pensador católico que em sua obra de 1508, o Elogio
da loucura, aponta os principais problemas da Igreja de
sua época:
[...] as armas dos papas não consistem todas naque-
las doces bênçãos de que fala São Paulo e das quais
são eles tão zelosos. Consistem elas em interdições,
suspensões, excomunhões e naquele terribilíssimo
castigo pelo qual um beatíssimo padre pode mandar à
vontade qualquer alma para o inferno. Os nossos San-
tíssimos Pais de Cristo e os seus vigários gerais nunca
empregam com maior zelo esse espantoso castigo do
que no caso daqueles que, à instigação do demônio,
tentam diminuir ou danificar o Patrimônio de São Pedro.
Dizia este bom apóstolo a seu Mestre: “Deixamos tudo
para seguir-te”. Compreendeis que grande sacrifício fez
o pobre pescador! Foi a fortuna o que ele conseguiu em
virtude desta renúncia; é por isso que Sua Santidade
glorificada possui terras, cidades, domínios e recebe
impostos e taxas. E é sobretudo para defender e con-
servar essa rica aquisição que os pontífices romanos
costumam condenar as almas. É verdade que nem ao
menos poupam os corpos, e inflamados pelo zelo de
Jesus Cristo, desfraldam a bandeira de Marte e, sem
piedade, empregam o ferro e o fogo para sustentar
suas razões.”
FILOSOFIA aula 6
32 POLISABER
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-2 Erasmo de Roterdã, acima, e, em seguida, Thomas Morus
representam a erudição renascentista no norte da Europa.
As críticas recaíam sobre a Igreja em virtude do dis-
tanciamento entre o alto clero e seus fiéis, pois o luxo e
ostentação da corte papal e de seus dignitários contras-
tava com a pobreza e privações da grande maioria de
seus fiéis. Além da vida luxuosa, práticas como a simonia
(venda de relíquias e cargos religiosos) e a venda de in-
dulgências (absolvição de pecados em troca de dinheiro,
terras etc.) faziam parte do cotidiano do alto clero. Erasmo
de Roterdã costumava dizer que “se todos os pedaços
da cruz de Cristo, existentes na Europa, fossem reunidos
hoje, nós construiríamos um navio!”.
Dessa forma, a crise moral que a Igreja Católica Romana
atravessava foi o combustível para inflamar as discussões
que reprovavam a conduta de grande parte do alto clero
e, ao mesmo tempo, o caminho para tentar construir ou
reconstruir a vida espiritual defendida na essência da
doutrina cristã, fato que não excluiu a ruptura (aqueles
que reclamaram foram rotulados como “protestantes”
e daí temos a origem dessa denominação para as novas
igrejas do século XVI), muitas vezes ocasionada pelo
próprio clero católico que se recusava em admitir seus
erros, como bem retrata a máxima papal: “Roma locuta,
causa finita”, isto é, “Roma disse, questão encerrada”.
Com a morte de Henrique VII em 1509, o trono foi
ocupado por seu filho, Henrique VIII, que se casou no
mesmo ano com Catarina de Aragão, princesa espanhola
que lhe dera apenas uma filha (Maria Tudor), e que estava
prometida em casamento ao príncipe espanhol Felipe de
Habsburgo, herdeiro da Coroa espanhola.
Temendo que, após sua morte, os espanhóis se apo-
derassem da Inglaterra, Henrique VIII desejava o divórcio
para casar-se novamente, ideia que se manifestou já
em 1527, mas não se concretizou efetivamente em um
primeiro momento, especialmente pela pressão exercida
pelo papa.
Entre aqueles que defendiam a manutenção das boas
relações com Roma, estava Thomas Morus, humanista
que escreveu A utopia (publicada em 1516) e exercia
a função de conselheiro do rei, posicionando-se contra
a possibilidade de uma cisão religiosa e temendo uma
onda de guerras na Inglaterra que poderia destruir o reino.
Um dos pontos principais de A utopia é a preocupação
com o bem comum ao qual se submete o bem individual.
Para tanto, os utopianos preferem a divisão dos bens en-
tre todos, pois acreditam que isso garantiria a abundância
para todos e não a concentração de riquezas nas mãos
de um grupo pequeno:
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aula 6 FILOSOFIA
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É minha convicção firme que uma distribuição
segundo critérios de equidade ou uma planificação
justa das coisas humanas não é possível sem eliminar
totalmente a propriedade privada. Enquanto ela
subsistir, estou convencido de que há de continuar
sempre a haver, entre grandíssima parte da humanidade
e entre a melhor parte dela, o fardo angustiante e
inelutável da pobreza e da miséria. (Morus, 2006, p. 47)
Por meio da divisão do trabalho, todos trabalhariam
apenas o necessário para garantir o bem geral, pois, do
mesmo modo que ninguém trabalharia para outra pessoa,
ninguém poderia se esquivar da sua responsabilidade. Até
os viajantes deveriam trabalhar antes de serem alimen-
tados. Em caso de haver produção além da necessidade
de consumo, as horas de trabalho seriam reduzidas. A
esse respeito, diz Morus:
Se todos trabalhassem, a carga horária diminui para
todos. Havendo seis horas apenas para trabalhar, [...]
esse tempo é suficiente para produzir bens abundan-
tes que bastem para as necessidades e que cheguem
não apenas para remediar, mas até sobrem. (Morus,
2006, p. 57)
O papa Clemente VII negou o pedido de anulação do
casamento de Henrique VIII, evitando a represália dos
Habsburgo, já que Carlos V era sobrinho de Catarina e
ambicionava não só preservar o poder que exercia pela
Europa, mas também queria que a Inglaterra se colocasse
sob sua órbita.
Henrique VIII decretou o Ato de Supremacia em
1534, a partir do qual se tornava o líder e protetor da
Igrejana Inglaterra, liberando-se da autoridade papal e
confiscando-lhe as terras que possuía na Inglaterra, as
quais passaram ao controle da Igreja Anglicana, a nova
instituição fundada por Henrique VIII. A situação não foi
bem aceita por muitos, entre eles, Thomas Morus, que
abandonou o cargo de conselheiro real e se recusou a ju-
rar lealdade ao novo líder espiritual do reino, fato que lhe
valeu a acusação de traição, prisão e execução em 1535.
O exercício do poder
Maquiavel
Nicolau Maquiavel (1469-1527) foi um político e escritor
florentino que serviu o governo Médici em Florença, atuan-
do como emissário e diplomata em diferentes governos da
península Itálica. Entre seus escritos, destaca-se O Príncipe
(escrito em 1513 e publicado em 1532), um texto que
remete à antiga tradição do Speculum Princeps (Espelho
do príncipe, em latim), um manual de governo cujo texto
tinha por objetivo mostrar como um governante deveria
exercer o poder.
Na concepção de Maquiavel, o governante deveria
preservá-lo a todo custo, pois acima do bem e do mal
estavam as razões de Estado:
[...] Nasce daí esta questão debatida: se será melhor
ser amado que temido ou vice-versa. Responderá que
se desejaria ser uma e outra coisa; mas como é difícil
reunir ao mesmo tempo as qualidades que dão aqueles
resultados, é muito mais seguro ser temido que amado,
quando se tenha que falhar numa das duas. É que os
homens geralmente são ingratos, volúveis, simulado-
res, covardes e ambiciosos de dinheiro, e, enquanto
lhes fizerem bem, todos estão contigo, oferecem-te
sangue, bens, vida, filhos, como disse acima, desde
que a necessidade esteja longe de ti. Mas, quando ela
se avizinha, voltam-se para outra parte. E o príncipe, se
confiou plenamente em palavras e não tomou outras
precauções, está arruinado. Pois as amizades conquis-
tadas por interesse, e não por grandeza e nobreza de
caráter, são compradas, mas não se pode contar com
elas no momento necessário. E os homens hesitam
menos em ofender aos que se fazem amar do que
aos que se fazem temer, porque o amor é mantido
por um vínculo de obrigação, o qual devido a serem os
homens pérfidos é rompido sempre que lhes aprouver,
ao passo que o temor que se infunde é alimentado
pelo receio de castigo, que é um sentimento que não
se abandona nunca. Deve portanto o príncipe fazer-se
temer de maneira que, se não se fizer amado, pelo
menos evite o ódio, pois é fácil ser ao mesmo tempo
temido e não odiado, o que sucederá uma vez que se
abstenha de se apoderar dos bens e das mulheres de
seus cidadãos e dos seus súditos, e, mesmo sendo
obrigado a derramar o sangue de alguém, só poderá
fazê-lo quando houver uma justificativa convincente
e causa manifesta. Deve, sobretudo, abster-se de se
aproveitar dos bens dos outros, porque os homens
esquecem mais depressa a morte do pai do que a perda
de seu patrimônio. Além disso, não faltam ocasiões para
pilhar o que é dos outros, e aquele que começa a viver
de rapinagem, sempre as encontra, o que não sucede
quanto às ocasiões de derramar sangue.
Maquiavel, 1978, p. 70.
FILOSOFIA aula 6
34 POLISABER
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Hobbes
Com a finalidade de cuidar da própria conservação e de
ter uma vida mais satisfeita, o Estado é então instituído. O
pacto pelo qual se dá a instituição do Estado consiste na
submissão de cada um a um representante, para o qual
será transmitido o direito ao uso da força para proteção
dos representados. Daí aparece a ideia do soberano
representante em Hobbes:
O Estado, de acordo com Hobbes é instituído quan-
do uma multidão de homens concorda e pactua que
qualquer homem ou assembleia de homens a quem
seja atribuído pela maioria o direito de representá-los
(ou seja, de ser seu representante), todos sem exceção,
tanto os que votaram a favor como contra ele, deverão
autorizar todos os seus atos (do homem ou assembleia
de homens), tal como se fossem seus próprios atos e
decisões, a fim de viverem em paz uns com os outros
e serem protegidos do restante dos homens. (Gomes,
2006, p. 14)
O contrato social descrito no Leviatã se encontra dire-
tamente ligado à ideia de representação. A essência do
Estado está na pessoa do representante, que é o sobe-
rano. Quando há voluntariamente esse acordo entre os
indivíduos de se submeterem a um homem, ou a uma
assembleia de homens, dá-se a instituição do Estado. É a
partir desse consentimento geral, motivado e preservado
pela busca de segurança (por medo da morte), que deri-
vam os direitos dos soberanos. A autoridade concedida ao
representante contém em si o maior poder do Estado. O
poder do representante não encontra poder maior que o
que lhe foi concedido, nem mesmo na união daqueles que
lhe concederam. Assim é possível em Hobbes o uso da
expressão "soberano representante", pois ele tudo pode.
Por tudo o que vimos até aqui podemos entender
como a filosofia política é o estudo do “corpo social”
e o "poder soberano" em Hobbes existe para impedir
as consequências do estado de natureza (impedir que
os homens se destruam uns aos outros), permitindo,
com isso, a coexistência entre os homens. Para delegar
esse poder a um soberano é preciso que os indivíduos
cedam uma parte de seus direitos e o transfiram a um
soberano por meio de um contrato ou pacto social pelo
qual se institui e se organiza a sociedade civil e se evita a
“guerra de todos contra todos”. Por meio desse pacto os
indivíduos elegem um representante de seus interesses
dotado de "poder absoluto".
Esse contrato se torna necessário porque o homem
também deseja sobreviver. Esse desejo de sobrevivên-
cia também é uma lei natural e é em nome dela que os
homens estabelecem esse contrato, cujo poder deve ser
exercido por um soberano que pode ser uma assembleia
ou parlamento, ou um rei.
Hobbes dá preferência à monarquia absolutista basea-
do no princípio de que o poder, para ser eficaz, deve ser
exercido de forma absoluta, e não baseado nas teorias
tradicionais do direito divino dos reis. Esse poder absoluto
é o resultado da transferência dos direitos dos indivíduos
ao soberano por meio do pacto social, mas esse poder
absoluto só pode ser considerado legítimo enquanto
assegura a paz civil e não para a realização da vontade
pessoal do soberano.
Resumo da ópera
Nesta aula trabalhamos com os pensadores do Re-
nascimento (Erasmo, Morus, Maquiavel e Hobbes) e res-
saltamos como ponto central a mudança de paradigma
(modelo) que a Europa ocidental passou a viver: a Igreja e
o clero perderam não só o monopólio do conhecimento,
mas também deixaram de ser a única fonte de explicação
para todas as coisas, já que o questionamento, observa-
ção, investigação e análise dos dados ali coletados for-
maram um caminho (método) para levantar hipóteses e
teorias sobre a explicação dos fenômenos que envolvem
o homem e o universo.
Ao tirar o foco da exclusiva orientação divina (teocen-
trismo) e apontá-lo em direção ao homem (antropocen-
trismo), o Renascimento abriu caminho para a construção
do mundo que chamamos de moderno e criou um espaço
de tensão aos segmentos dominantes, obrigando-os a
reagir com força para não perderem ainda mais espaço.
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aula 6 FILOSOFIA
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EXERCÍCIOS
1. (Enem)
Nasce daqui uma questão: se vale mais ser amado
que temido ou temido que amado. Responde-se que
ambas as coisas seriam de desejar; mas porque é
difícil juntá-las, é muito mais seguro ser temido que
amado, quando haja de faltar uma das duas. Porque
dos homens se pode dizer, duma maneira geral, que
são ingratos, volúveis, simuladores, covardes e ávidos
de lucro, e enquanto lhes fazes bem são inteiramente
teus, oferecem-te o sangue, os bens, a vida e os filhos,
quando, como acima disse, o perigo está longe; mas
quando ele chega, revoltam-se.
MAQUIAVEL, N.
O príncipe. Rio de Janeiro: Bertrand, 1991.
A partir da análise histórica do comportamento hu-
mano em suas relações sociais e políticas, Maquia-
vel define ohomem como um ser
a) munido de virtude, com disposição nata a praticar o
bem a si e aos outros.
b) possuidor de fortuna, valendo-se de riquezas para
alcançar êxito na política.
c) guiado por interesses, de modo que suas ações são
imprevisíveis e inconstantes.
d) naturalmente racional, vivendo em um estado pré-
-social e portando seus direitos naturais.
e) sociável por natureza, mantendo relações pacíficas
com seus pares.
2. (Enem)
A natureza fez os homens tão iguais, quanto às fa-
culdades do corpo e do espírito, que, embora por vezes
se encontre um homem manifestamente mais forte de
corpo, ou de espírito mais vivo do que outro, mesmo
assim, quando se considera tudo isto em conjunto, a
diferença entre um e outro homem não é suficiente-
mente considerável para que um deles possa com base
nela reclamar algum benefício a que outro não possa
igualmente aspirar.
HOBBES, T.
Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
Para Hobbes, antes da constituição da sociedade
civil, quando dois homens desejavam o mesmo
objeto, eles
a) entravam em conflito.
b) recorriam aos clérigos.
c) consultavam os anciãos.
d) apelavam aos governantes.
e) exerciam a solidariedade.
3. (UEL)
Justiça e Estado apresentam-se como elementos
indissociáveis na filosofia política hobbesiana. Ao
romper com a concepção de justiça defendida pela
tradição aristotélico-escolástica. Hobbes propõe uma
nova moralidade relacionada ao poder político e sua
constituição jurídica. O Estado surge pelo pacto para
possibilitar a justiça e, na conformidade com a lei, se
sustenta por meio dela. No Leviatã (caps. XIV-XV), a
justiça hobbesiana fundamenta-se, em última instância,
na lei natural concernente à autoconservação, da qual
deriva a segunda lei que impõe a cada um a renúncia
de seu direito a todas as coisas, para garantir a paz
e a defesa de si mesmo. Desta, por sua vez, implica
a terceira lei natural: que os homens cumpram os
pactos que celebrarem. Segundo Hobbes, “onde não
há poder comum não há lei, e onde não há lei não há
injustiça. Na guerra, a força e a fraude são as duas
virtudes cardeais”.
HOBBES, T.
Leviatã. Trad. J. Monteiro e M. B. N. da Silva. São Paulo:
Nova Cultural, 1997.
(Coleção Os Pensadores, cap. XIII.)
Com base no texto e nos conhecimentos sobre o
pensamento de Hobbes, é correto afirmar:
a) A humanidade é capaz, sem que haja um poder
coercitivo que a mantenha submissa, de consentir na
observância da justiça e das outras leis de natureza
a partir do pacto constitutivo do Estado.
b) A justiça tem sua origem na celebração de pactos
de confiança mútua, pelos quais os cidadãos, ao
renunciarem sua liberdade em prol de todos, remo-
vem o medo de quando se encontravam na condição
natural de guerra.
FILOSOFIA aula 6
36 POLISABER
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-2
c) A justiça é definida como observância das leis naturais e, portanto, a injustiça consiste na submissão ao poder
coercitivo que obriga igualmente os homens ao cumprimento dos seus pactos.
d) As noções de justiça e de injustiça, como as de bem e de mal, têm lugar a partir do momento em que os homens
vivem sob um poder soberano capaz de evitar uma condição de guerra generalizada de todos.
e) A justiça torna-se vital para a manutenção do Estado na medida em que as leis que a efetivam sejam criadas, por
direito natural, pelos súditos com o objetivo de assegurar solidariamente a paz e a segurança de todos.
ESTUDO ORIENTADO
Caro(a) aluno(a),
Ao estudar o pensamento renascentista, é importante não só a compreensão de uma mudança de paradigma (teo-
centrismo substituído pelo antropocentrismo), mas também a forma como as premissas da metodologia e pensamento
científico estavam se estruturando, possibilitando a abertura de importante caminho para se consolidar como forma de
estudo e produção de conhecimento.
Nos exames, o período renascentista, bem como sua produção cultural e intelectual, são bastante solicitados, sendo
exigido do candidato o conhecimento sobre os conceitos e a mentalidade daquele contexto. A principal ferramenta é
a leitura e interpretação de textos
Na seção Passear, há uma sugestão de visita ao Masp para vivenciar em imagens o que seria essa nova “visão de
mundo” que se abre a partir do século XVI.
Bons estudos!
EXERCÍCIOS
1. (Enem)
Acompanhando a intenção da burguesia renascentista de ampliar seu domínio sobre a natureza e sobre o espaço
geográfico, através da pesquisa científica e da invenção tecnológica, os cientistas também iriam se atirar nessa aventura,
tentando conquistar a forma, o movimento, o espaço, a luz, a cor e mesmo a expressão e o sentimento.
SEVCENKO, N.
O Renascimento. Campinas: Unicamp, 1984.
O texto apresenta um espírito de época que afetou também a produção artística, marcada pela constante relação
entre
a) fé e misticismo.
b) ciência e arte.
c) cultura e comércio.
d) política e economia.
e) astronomia e religião.
POLISABER 37
aula 6 FILOSOFIA
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-2
2. (UFF) De acordo com o filósofo inglês Thomas Ho-
bbes (1588-1679), em seu estado natural, os seres
humanos são livres, competem e lutam entre si.
Mas como têm em geral a mesma força, o confli-
to se perpetua através das gerações, criando um
ambiente de tensão e medo permanentes. Para
Hobbes, criar uma sociedade submetida à lei e na
qual os seres humanos vivam em paz e deixem de
guerrear entre si, pressupõe que todos os homens
renunciem a sua liberdade original e deleguem a
um só deles (o soberano) o poder completo e in-
questionável.
Assinale a modalidade de governo que desempe-
nhou importante papel na Filosofia Política Moder-
na e que é associada à teoria política de Hobbes.
a) Sistema republicano
b) Despotismo esclarecido
c) Monarquia censitária
d) Sistema parlamentar
e) Monarquia absoluta
3. (Enem)
A filosofia encontra-se escrita neste grande livro que
continuamente se abre perante nossos olhos (isto é, o
universo), que não se pode compreender antes de en-
tender a língua e conhecer os caracteres com os quais
está escrito. Ele está escrito em língua matemática, os
caracteres são triângulos, cujos meios é impossível en-
tender humanamente as palavras; sem eles, vagamos
perdidos dentro de um obscuro labirinto.
GALILEI, G.
O ensaiador. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural,
1978.
No contexto da Revolução Científica do século XVII,
assumir a posição de Galileu significava defender a
a) continuidade do vínculo entre ciência e fé dominante
na Idade Média.
b) necessidade de o estudo linguístico ser acompanhado
do exame matemático.
c) oposição da nova física quantitativa aos pressupostos
da filosofia escolástica.
d) importância da independência da investigação cien-
tífica pretendida pela Igreja.
e) inadequação da matemática para elaborar uma ex-
plicação racional da natureza.
4. (Unesp)
Texto I
Sócrates – Ao atingir os cinquenta anos, os que tive-
rem se distinguido em tudo e de toda maneira, no seu
agir e nas ciências, deverão ser levados até o limite e
forçados a elevar a parte luminosa da sua alma ao Ser
que ilumina todas as coisas. Então, quando tiverem
vislumbrado o bem em si mesmo, usá-lo-ão como um
modelo para organizar a cidade, os particulares e a sua
própria pessoa, pelo resto da sua vida. Passarão a maior
parte do seu tempo estudando a filosofia e, quando
chegar sua vez, suportarão trabalhar nas tarefas de
administração e governo, por amor à cidade, pois que
verão nisso um dever indispensável. Assim, depois de
terem formado sem cessar homens que lhes sejam
semelhantes, para lhes deixar a guarda da cidade, irão
habitar as ilhas dos bem-aventurados.
Glauco – São mesmo belíssimos, Sócrates, os gover-
nantes que modelaste como um escultor!
Platão.
A República, 2000. Adaptado.
Texto II
Origina-se aí a questão a ser discutida: se é preferível
ao príncipe ser amado ou temido. Responder-se-á que
se preferiria uma e outra coisa; porém, como é difícil
unir, a um só tempo, as qualidades que promovem
aqueles resultados,pessoa, sendo que o filho deste casal está pró-
ximo e houve a conversa dos pais. Algum tempo depois,
o parente que era o “assunto da conversa” chega para
visitar o casal e a criança, buscando interagir com este
visitante, diz: “Minha mãe e meu pai falaram que você é
muito chato!”. Situação constrangedora e complicada,
pois, no conjunto das relações sociais do mundo adulto,
esse típico e espontâneo comentário feito pela criança é
inadequado. Devemos falar tudo o que pensamos sobre
as outras pessoas e o mundo? Como fica a defesa da
verdade como valor em meio às conveniências da vida
social? Então, no convívio social são aceitas as “mentiras
sociais”, que genericamente chamamos de “desculpas”,
e daí podemos “moldar” a realidade, de acordo com a
necessidade, abrindo um espectro variado de atitudes
que vêm ter a dissimulação como algo comum e não
necessariamente são um desvio de caráter.
Portanto, para o filósofo, a verdade se constitui como um
valor que o aproximará da sophia, a sabedoria (sapientia,
em latim). Um filósofo pode ser um sábio, mas nem todo
sábio é um filósofo. A sabedoria é oriunda tanto da expe-
riência prática da vida quanto do conhecimento formal,
adquirido com mestres por meio da dedicação aos estudos.
E daí, novamente, pensando no senso comum, esbarra-
mos naquelas colocações: “A minha filosofia de vida é ...”
ou “A empresa que eu trabalho tem como filosofia ...”.
Portanto numa visão simplória, filosofia pode ser qual-
quer conjunto de ideias ou pensamentos, dito ou escrito
por qualquer pessoa, sem levar em conta a trajetória do
processo de produção de conhecimento, a reflexão e o
uso de uma metodologia sistematizada para a produção
daquele saber, que na Filosofia é estudado por um campo
chamado de "epistemologia".
Desse modo, a produção de conhecimento (gnósis,
em grego) provém da fundamentação teórica, resultado
da reflexão, e, nesse caso, a palavra "teoria" (do grego
theoria, "contemplação") está relacionada à uma ação
intelectual pura, articulada pela metodologia e pelos
princípios, para entender um determinado fenômeno,
portanto, alheia às condições da emoção, mas orientadas
pelos referenciais da razão (logos, em grego), os ditames
do pensamento que oferecem um direcionamento para as
ações, e daí teremos a palavra "lógica", que constituiu um
importante campo de estudo do conhecimento filosófico.
FILOSOFIA aula zero
6 POLISABER
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-1
Resumo da ópera4
Nesta aula, apresentamos, em linhas gerais, o que é a Filosofia, seu objeto de estudo e origens, além dos principais
conceitos que trabalharemos ao longo das aulas. Destacamos que estudar Filosofia não nos fará filósofos, mas os
conceitos, a teoria e a metodologia aprendidos nos permitirão uma abordagem sobre diferentes campos do conheci-
mento humano, buscando responder como se deram e se dão, as relações da humanidade com o universo e como o
ser humano se vê e se posiciona perante diferentes tipos de situações na vida coletiva, usando sua racionalidade para
explicar o mundo. Não sabemos se encontraremos todas as respostas, mas temos como um grande desafio percorrer
esse caminho em busca de uma série de possibilidades de entender como os diferentes autores e suas obras levaram
à humanidade às suas atuais conquistas.
ESTUDO ORIENTADO
Caro(a) aluno(a),
Nesta aula de “Introdução à Filosofia”, temos o objetivo de apresentar as principais características desta disciplina,
uma síntese de sua origem e história, para, em seguida, trabalhar com os primeiros conceitos. Nos exercícios a seguir,
a perspectiva é analisar a relação entre o discurso filosófico e os diferentes tipos de discursos (científicos, mitológicos
e outros) que se colocam como contraposição ou afirmação ao saber filosófico.
Lembre-se: questionar o objeto de estudo é algo imprescindível para a compreensão do pensamento filosófico, e
esse processo será trabalhado por meio da resolução de exercícios e da análise de fragmentos de autores referentes
ao período ou tema estudados.
Boa leitura e reflexão!
EXERCÍCIOS
1. (UEM)
Para referir-se à palavra e à linguagem, os gregos possuíam duas palavras: mythos e lógos. Diferentemente do mythos,
lógos é uma síntese de três ideias: fala/palavra, pensamento/ideia e realidade/ser. Lógos é a palavra racional em que se
exprime o pensamento que conhece o real. É discurso (ou seja, argumento e prova), pensamento (ou seja, raciocínio e
demonstração) e realidade (ou seja, as coisas e os nexos e as ligações universais e necessárias entre os seres). [...] Essa
dupla dimensão da linguagem (como mythos e lógos) explica por que, na sociedade ocidental, podemos comunicar-nos
e interpretar o mundo sempre em dois registros contrários e opostos: o da palavra solene, mágica, religiosa, artística e o
da palavra leiga, científica, técnica, puramente racional e conceitual.
CHAUÍ, M.
Convite à filosofia.
São Paulo: Ática, 2011. p. 187-188.
4. Hoje muito comum, essa expressão – “resumo da ópera” – remete à ideia de um apanhado geral sobre determinado assunto, mas sua origem é antiga. Ela vem do italiano sommàrio
dell’Opera, termo usado no século XVII para se referir a uma breve apresentação de uma obra de arte (escultura, pintura, construção etc.), pois inicialmente opera significava “obra” ou
“ação”. Ainda no século XVII, o canto lírico passou a ser chamado de “ópera”; no teatro, os espectadores recebiam um pequeno livro (libretto) para acompanhar as árias (composições
musicais que fazem parte da ópera), além de uma sinopse do enredo da peça. Daí a relação entre a função primeira da expressão e o uso que lhe damos hoje.
POLISABER 7
aula zero FILOSOFIA
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A partir do texto, assinale a(s) alternativa(s)
correta(s).
01) O mythos é uma linguagem que comunica saberes
e conhecimentos.
02) As coisas próprias do domínio religioso são inefá-
veis, ou seja, não podem ser pronunciadas e ditas
pela linguagem humana.
04) O mythos não possui o mesmo poder de convenci-
mento e de persuasão que o lógos.
08) O lógos é, ao mesmo tempo, o exercício da razão e
sua enunciação para os seres humanos.
16) O lógos é muito mais do que a palavra, é a expressão
das qualidades essenciais do ser, a possibilidade de
conhecer as coisas nos seus fundamentos primeiros.
2. (UPE-2013)
A filosofia, no que tem de realidade, concentra-se na
vida humana e deve ser referida sempre a esta para
ser plenamente compreendida, pois somente nela e
em função dela adquire seu ser efetivo.
VITA, Luís Washington.
Introdução à filosofia.
São Paulo: Melhoramentos, 1964. p. 20.
Sobre esse aspecto do conhecimento filosófico, é
correto afirmar que:
a) a consciência filosófica impossibilita o distanciamen-
to para avaliar os fundamentos dos atos humanos e
dos fins aos quais eles se destinam.
b) um dos pontos fundamentais da filosofia é o desejo
de conhecer as raízes da realidade, investigando-lhe
o sentido, o valor e a finalidade.
c) a filosofia é o estudo parcial de tudo aquilo que é
objeto do conhecimento particular.
d) o conhecimento filosófico é trabalho intelectual,
de caráter assistemático, pois se contenta com as
respostas para as questões colocadas.
e) a filosofia é a consciência intuitiva sensível que bus-
ca a compreensão da realidade por meio de certos
princípios estabelecidos pela razão.
3. (Unesp)
O hormônio testosterona está ligado ao egoísmo, se-
gundo uma pesquisa inglesa. Em testes feitos por cien-
tistas da University College of London, na Grã-Bretanha,
mulheres que tomaram doses do hormônio masculino
mostraram comportamento egocêntrico quando tinham
de lidar com problemas em pares. Quando os pesqui-
sadores ministraram placebo às voluntárias antes dos
testes, elas cooperaram entre si. O estudo ajuda a ex-
plicar como os hormônios moldam o comportamento
humano.
Testosterona pode induzir comportamento egoísta.
Veja, 1 fev. 2012.
O pressuposto fundamental assumido pela pesqui-
sa citada para explicar o comportamento humano
podeé muito mais seguro ser temido
do que amado, quando se veja obrigado a falhar numa
das duas. Os homens costumam ser ingratos, volúveis,
covardes e ambiciosos de dinheiro; enquanto lhes
proporcionas benefícios, todos estão contigo. Todavia,
quando a necessidade se aproxima, voltam-se para
outra parte. Os homens relutam menos em ofender aos
que se fazem amar do que aos que se fazem temer,
pois o amor se mantém por um vínculo de obrigação,
o qual, mercê da perfídia humana, rompe-se sempre
que for conveniente, enquanto o medo que se incute
é alimentado pelo temor do castigo, sentimento que
nunca se abandona.
Maquiavel.
O Príncipe, 2000. Adaptado.
FILOSOFIA aula 6
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Considerando os conceitos filosóficos de “idealis-
mo”, “metafísica” e “ética”, explique as diferenças
entre as concepções de política formuladas por Pla-
tão e por Maquiavel.
RODA DE LEITURA
Texto I
A renúncia da liberdade em favor da ordem
Thomas Hobbes (1588-1679), pensador inglês que
presenciou todo processo de tensão política na Grã-
-Bretanha, assistindo a ascensão, queda e restauração
dos Stuart (1603-49/1660-89). No turbilhão da Revolução
Puritana (1642-49), durante a ascensão do ditador re-
publicano Oliver Cromwell (1649-1659), Hobbes ainda
escreveu O Leviatã, em 1651, obra que defende o esta-
belecimento de um contrato social entre os súditos e o
Estado, pois os primeiros abrem mão de sua liberdade
em troca da segurança oferecida pelo segundo.
[...] O único caminho para erigir semelhante poder
comum, capaz de defendê-los contra a invasão dos
estrangeiros e contra as injúrias alheias, assegurando-
-lhes de tal modo que por sua própria atividade e pelos
frutos da terra poderão nutrir-se a si mesmos e viver
satisfeitos, é conferir todo o seu poder a um homem
ou a uma assembleia de homens, todos os quais, por
pluralidade de votos, possam reduzir suas vontades a
uma vontade. Isto equivale a dizer: eleger um homem
ou uma assembleia de homens que representem sua
personalidade; e que cada um considere como próprio
e se reconheça a si mesmo como autor de qualquer
coisa que faça ou promova aquele que representa a
sua pessoa, naquelas coisas que concernem à paz e
à segurança comuns; que, além disso, submetam suas
vontades cada um à vontade daquele, e seus juízos
a seu juízo. [...] O titular desta pessoa se denomina
soberano, e se diz que tem poder soberano; cada um
dos que o rodeiam é seu súdito (Hobbes, 1978, p. 105).
Texto II
O Absolutismo de direito divino
Jacques Bossuet (1627-1704), cardeal-orador da corte
de Luís XIV de Bourbon, autor de A Política Inspirada nas
Sagradas Escrituras e propõe que o rei é o “escolhido”
de Deus na Terra, com poder incontestável e que só
deve justificativas ao próprio Criador.
[...] Três razões fazem ver que este governo é o me-
lhor. A primeira é que é o mais natural e se perpetua por
si próprio [...]. A segunda razão [...] é que esse governo
é o que interessa mais na conservação do Estado e dos
poderes que o constituem: o príncipe, que trabalha para
o seu Estado, trabalha para os seus filhos, e o amor
que tem pelo seu reino, confundido com o que tem
pela sua família, torna-se natural [...]. A terceira razão
tira-se das dignidades das casas reais [...] A inveja, que
se tem naturalmente daqueles que estão acima de nós,
torna-se aqui em amor e respeito; os próprios grandes
obedecem sem repugnância a uma família que sempre
viram como superior e à qual se não conhece outra
que a possa igualar [...]. O trono real não é um trono
de um homem, mas o trono do próprio Deus [...]. O rei
vê de mais longe e de mais alto; deve acreditar-se que
ele vê melhor, e deve obedecer-lhe sem murmurar,
pois o murmúrio é uma disposição para a sedição [...]
(Bossuet, 1964, p. 80)
NAVEGAR
Livros
SEVCENKO, Nicolau. O Renas-
cimento. São Paulo: Atual, 1994.
(Coleção Discutindo a História.)
Um texto muito claro e preciso
que fornece uma abordagem
ampla sobre o Renascimento,
vendo-o não só como um conjun-
to de transformações culturais,
mas também como um processo
de mudança que atingiu as ques-
tões socioeconômicas e políticas, relacionando-as com
a mentalidade do período entre os séculos XIV e XVI.
RE
PR
O
D
U
Ç
Ã
O
Platão entende a existência de um mundo das ideias (mundo inteligível) que se distingue
do mundo em que vivemos (mundo sensível), o qual seria apenas a projeção das sombras
do primeiro, que estaria além do nosso alcance matérico. Portanto, numa dimensão meta-
física, atingível pelo uso da razão, acima das questões mundanas e dos jogos de poder, e
seu acesso pelos filósofos garantiria o exercício do governo pensando-se no bem comum
acima de tudo, de onde Platão concebe a ideia do “filósofo-rei”.
Maquiavel, por sua vez, abre mão dos elevados valores éticos (o bem, a justiça, a ho-
nestidade), porque condiciona a ação humana em prol do alcance e controle do poder
a qualquer preço e custo, propondo o exercício da política numa perspectiva amoral e
acima dos valores religiosos, portanto, a defesa das razões de Estado está em primeiro
lugar e o governante deve usar de todos os recursos (violência, injustiça, desonestidade)
para se sustentar no poder.
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aula 6 FILOSOFIA
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RE
PR
O
D
U
Ç
Ã
O
BURKE, Peter. O Renasci-
mento italiano. São Paulo: Nova
Alexandria, 1994.
Professor da Universidade de
Cambridge na Inglaterra e espe-
cialista nas pesquisas ligadas à
História da Cultura, Peter Burke
nos oferece uma análise muito
fina e precisa do processo de
transformação da cultura euro-
peia na passagem dos séculos XV e XVI.
PASSEAR
No Masp (Museu de Arte de São Paulo), situado na
Avenida Paulista, no 1578, encontramos um espaço pri-
vilegiado para vivenciar cultura e arte na capital paulista.
Seu acervo foi constituído principalmente pela ação de
Assis Chateaubriand e Pietro Maria Bardi (crítico de arte
e diretor do museu), e abriga um grande número de pin-
turas renascentistas e de outros períodos, tornando-o
uma referência em toda a América Latina.
Sua localização na avenida mais famosa da cidade, em
um prédio projetado pela arquiteta Lina Bo Bardi e inaugu-
rado em 1968, tornou o Masp um ponto de encontro, seja
para conhecer o acervo do museu, seja para frequentar a
feira de antiguidades que ocorre no vão do prédio (todo
domingo) ou para reivindicar questões centrais na vida
política brasileira, sendo então polo de convergência para
passeatas e manifestações.
ÁGORA
Atividade: Debate sobre o exercício do poder.
Objetivos:
– analisar as características de organização do Es-
tado;
– caracterizar as visões de Maquiavel, Hobbes e
Bossuet sobre o Estado;
– contrapor a visão contratualista (Hobbes) e divina
(Bossuet) com a crítica de Erasmo e Morus.
FILOSOFIA aula 6
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S E N H A
“Penso, logo existo.”
Discurso sobre o método, de René Descartes.
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aula 6 FILOSOFIA
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Racionalismo e Empirismo
(Descartes e Locke)
A Revolução Científica
O século XVII representa, na história do homem, a cul-
minação de um processo em que se subverteu a imagem
que ele tinha de si próprio e do mundo. A emergência
da nova classe dos burgueses determina a produção
de uma nova realidade cultural, a ciência física, que se
exprime matematicamente. A atividade filosófica, a partir
daí, reinicia um novo trajeto: ela se desdobra como uma
reflexão cujo pano de fundo é a existência dessa ciência.
A revolução científica determinou a quebra do modelo
de inteligibilidade apresentado pelo aristotelismo, o que
provocou, nos novos pensadores, o receio de enganar-se
novamente. A procura da maneira de evitar o erro faz
surgir a principal característica do pensamento moderno:
a questão do método. Essa preocupação centraliza as
reflexões não apenas no conhecimento do ser (meta-
física), mas, sobretudo, no problema do conhecimento
(teoria do conhecimento ou epistemologia). Podemos
dizer queaté então a filosofia tem uma atitude realista,
no sentido de não colocar em questão a existência do
objeto, a realidade do mundo. A Idade Moderna inverte
o polo de atenção, centralizando no sujeito a questão do
conhecimento. Se o pensamento que o sujeito tem do ob-
jeto concorda com o objeto, dá-se o conhecimento. Mas
qual é o critério para se ter certeza de que o pensamento
concorda com o objeto? Isto é, um dos problemas que
a teoria do conhecimento terá que propor e solucionar
é aquele de saber quais são os critérios, as maneiras, os
métodos de que se pode valer o homem para ver se um
conhecimento é ou não verdadeiro.
As soluções apresentadas a essas questões vão originar
duas correntes: o racionalismo e o empirismo.
Racionalismo
Corrente filosófica que enfatiza o papel da razão como
fundamento do modo de conhecer a realidade. Nessa
perspectiva, a razão vai possibilitar a apreensão e a jus-
tificação do conhecimento sem o recurso da experiência
sensorial interferindo no processo do conhecimento. A
razão é, assim, a única fonte de qualquer conhecimento,
e é ainda capaz de, sozinha, chegar à verdade absoluta
das coisas.
René Descartes
René Descartes nasceu na França, de família nobre.
Aos 8 anos, órfão de mãe, foi enviado para o colégio dos
jesuítas de La Flèche, onde se revelou um aluno brilhan-
te. Terminou o secundário em 1612, contente com seus
mestres, mas descontente consigo mesmo, pois não
havia descoberto a Verdade que tanto procurava nos
livros. Decidiu procurá-la no mundo, assim passou a viajar
muito. Alistou-se nas tropas holandesas de Maurício de
Nassau em 1618 e sob a influência de Isaac Beeckmann,
entrou em contato com a física copernicana. Em seguida,
alistou-se nas tropas da Baviera durante a Guerra dos
Trinta Anos (1618-48). Para receber a herança da mãe,
retornou a Paris, onde frequentou os meios intelectuais
e, aconselhado pelo cardeal Pierre de Bérulle, dedicou-se
ao estudo da filosofia, com o objetivo de conciliar a nova
ciência com as verdades do cristianismo. A fim de evitar
problemas com a Inquisição, foi para a Holanda em 1629,
onde estudou matemática e física.
Escreveu muitos livros e cartas, entre eles destacaram-
-se: O discurso do método, As meditações metafísicas, Os
princípios de filosofia, O tratado do homem e o tratado
do mando. Convidado pela rainha Cristina, vai passar
uns tempos em Estocolmo, onde morreu de pneumonia
um ano depois.
FILOSOFIA – AULA 7
É necessário que ao menos uma vez na vida você
duvide, tanto quanto possível, de todas as coisas.
Discurso sobre o método, de René Descartes.FR
A
N
S
H
A
LS
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U
SÉ
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D
U
L
O
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E,
P
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RI
S
FILOSOFIA aula 7
42 POLISABER
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-2
Toda a obra de Descartes mostra que o conhecimento
requer, para ser válido, um fundamento metafísico. Ele
partiu da dúvida metódica: se eu duvido de tudo o que
me vem pelos sentidos, e se duvido até mesmo das
verdades matemáticas, não posso duvidar de que tenho
consciência de duvidar, portanto, de que existo enquanto
tenho essa consciência. O “cogito” é, pois, a descoberta
do espírito por si mesmo, que se percebe que existe como
sujeito: eis a primeira verdade descoberta para o funda-
mento da metafísica e cuja evidência fornece o critério
da ideia verdadeira. Assim, a metafísica é fundadora de
todo saber verdadeiro.
Empirismo
É a doutrina ou teoria do conhecimento, segundo
a qual todo conhecimento humano deriva, direta ou
indiretamente, da experiência sensível externa ou interna.
Frequentemente, fala-se do “empírico” como daquilo que
se refere à experiência, às sensações e às percepções,
relativamente aos encadeamentos da razão. O empirismo,
sobretudo de Locke e de Hume, demonstra que não há
outra fonte do conhecimento senão a experiência e a
sensação. As ideias só nascem de um enfraquecimento
da sensação, e não podem ser inatas. Daí o empirismo
rejeitar todas as especulações como vãs e impossíveis de
circunscrever. Seu grande argumento: “Nada se encontra
no espírito que não tenha, antes, estado nos sentidos”. “A
não ser o próprio espírito”, responde Leibniz. Kant tenta
resolver o debate: todos os nossos conhecimentos, diz ele,
provêm da experiência, mas segundo quadros e formas a
priori que são próprios de nosso espírito. Com isso, tenta
evitar o perigo do dogmatismo e do empirismo.
Segundo Locke, o conhecimento é oriundo da experiência.
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John Locke (1632-1704)
John Locke nasceu perto de Bristol, Inglaterra. Estudou
medicina e foi secretário político de vários homens de
Estado. Fez várias viagens ao exterior. Até os 38 anos,
não manifestou nenhuma vocação filosófica. Foi somente
em 1670-71 que seu pensamento tomou um novo rumo:
surgiu-lhe a ideia de sua grande obra: Ensaio sobre o en-
tendimento humano em 1690. No mesmo ano, escreveu
o Ensaio sobre a tolerância. Em 1693, publicou A razoa-
bilidade do Cristianismo. Sua obra foi uma reação contra
Descartes e sua doutrina das ideias inatas. Ao descrever a
formação de nossas ideias, Locke mostrou que todas elas
têm por fonte a experiência. Ele defendeu o empirismo
contra o racionalismo cartesiano.
O essencial de sua doutrina é sua teoria do conheci-
mento:
a) todo conhecimento humano tem sua origem na
sensação: “nada há na inteligência que, antes, não tenha
estado nos sentidos”; não há ideias inatas no espírito;
b) a partir dos dados da experiência, o entendimento
vai produzir novas ideias por abstração;
c) se o entendimento humano é passivo na origem, pois
é tributário dos sentidos, tem um papel ativo, pois pode
combinar as ideias simples e formar ideias complexas.
Assim, seu empirismo leva-o a conferir à probabilidade
um papel essencial no conhecimento. Quanto à política,
parte da seguinte ideia: “Os homens são todos, por na-
tureza, livres, iguais e independentes, e ninguém pode
ser despossuído de seus bens nem submetido ao poder
político sem seu consentimento”.
Segundo Hume, a Ciência consegue atingir as certezas morais.
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aula 7 FILOSOFIA
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David Hume (1711-1776)
O filósofo e historiador escocês David Hume nasceu em
Edimburgo. Estudou filosofia e se interessou pelas letras.
Abandonou o curso de Direito e dedicou-se ao comércio,
passando três anos na França (1734-1737). Retornou à
Inglaterra, tornou-se secretário do general Saint Clair e
o acompanhou a Viena e Turim. Em 1744, candidatou-se
a uma cadeira de filosofia em Edimburgo, foi acusado de
ateísmo e não nomeado. Posteriormente, candidatou-se
à cadeira de lógica em Glasgow, para substituir Adam
Smith, e fracassou novamente. Conseguiu ser nomeado
bibliotecário da faculdade de direito, onde se dedicou
a uma grande atividade literária. Em 1763, retornou à
França como secretário da embaixada, onde conheceu
Rousseau. Voltou à Inglaterra e tornou-se subsecretário
de Estado (1767-1768). No ano seguinte (1769), regressou
então a Edimburgo, onde permaneceu até sua morte. A
filosofia de David Hume caracteriza-se como um feno-
menismo que procede ao mesmo tempo do empirismo
de Locke e do idealismo de Berkeley: também é conhe-
cida por ser um ceticismo, na medida em que reduz os
princípios racionais a ligações de ideias fortificadas pelo
hábito e o eu a uma coleção de estados de consciência.
Suas obras principais são: O tratado sobre a natureza hu-
mana (1739), Ensaios morais, políticos e literários (1741),
Investigação sobre o entendimento humano (1748), Dis-
cursos políticos (1752), História da Inglaterra durante os
reinados de James I e Carlos I (1754) e Diálogos sobre a
religião natural (1779), póstuma. Abordam os seguintes
temas fundamentais:
a) não é possível nenhuma teoria geral da realidade: o
homem não pode criar ideias, pois está inteiramente
submetido aos sentidos; todos os nossos conheci-
mentos vêm dos sentidos;
b)a ciência só consegue atingir certezas morais: suas
verdades são da ordem da probabilidade;
c) não há causalidade objetiva, pois nem sempre as
mesmas causas produzem os mesmos efeitos;
d) convém que substituamos toda certeza pela proba-
bilidade. Eis seu ceticismo, a condição da tolerância
e da coexistência pacífica entre os homens. Trata-se
de um ceticismo teórico, não válido na vida prática.
Para Leibniz, "Nada se encontra no espírito que não
tenha, antes, estado nos sentidos".
Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716)
A filosofia de Leibniz pode ser vista como um con-
junto de princípios da organização que estabelece
relação de liberdade entre vários elementos do mun-
do. Para Leibniz a razão é possibilidade de estabe-
lecer relações entre esses elementos, uma relação
lógica que é organizada por meio da matemática.
Leibniz escreveu diversos ensaios, mas não expôs de
modo organizado e sistemático seu pensamento filosó-
fico, mesmo assim podemos dizer que ele acreditava na
existência no mundo de uma ordem necessária, livre e
que se organizava de forma espontânea. Essa ordem se
desenvolvia segundo o melhor modo possível dentro das
várias possibilidades.
A criação do mundo tal como o encontramos seguiu
uma ordem geral e uma regularidade. Entre as diversas
possibilidades de organização do mundo, Deus escolheu
a melhor de todas, a que mais se assemelhava à Sua per-
feição e a mais simples de todas. Em outras palavras, o
mundo que temos e no qual vivemos é o melhor mundo
possível.
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O mundo existente era uma possibilidade e se realizou
seguindo uma regra que não é necessária mas que foi
aceita de forma livre pelos elementos que configuraram
o mundo tal como ele é. As possibilidades de organi-
zação do mundo são infinitas, mas Deus escolheu, de
forma livre, entre elas a melhor possibilidade, e fez isso
usando a razão.
Dizer que o mundo tem uma ordem não é o mesmo que
dizer que o mundo é necessário ou dizer que o mundo
necessita de uma determinada ordem. A necessidade faz
parte do mundo da lógica, da razão, e não do mundo real.
Assim, Leibniz diferencia a verdade de razão da verdade
de fato, as primeiras são imprescindíveis, não obedecem
a realidade, se repetem indefinidamente, não trazem nada
de novo e são inatas.
As verdades de fato não têm em si a sua razão de ser e di-
zem respeito ao mundo real, elas são a realização de um dos
inúmeros mundos possíveis. O contrário de uma verdade
de fato também pode existir. A ordem da existência das
verdades de fato deve ter um princípio, e esse princípio é
o que de modo geral a filosofia de Leibniz tenta encontrar.
Leibniz se pergunta por que existe esse mundo em vez
de nada? Esse mundo não tem em si uma razão de ser e
de existir e como não tem em si uma razão de ser, essa
razão deve estar fora desse mundo. Para ele a razão de
ser do mundo está em Deus. E se nos perguntarmos por
que esse mundo é assim, a resposta é que é assim porque
é o melhor mundo possível e por isso Deus escolheu ser
de tal forma.
Outro aspecto inovador em Leibniz é a sua teoria da
natureza. Inicialmente ele acreditava que “a natureza
não dá saltos”, ou seja, para que algo na natureza passe
a ser outra coisa ela tem que passar por todos os graus
intermediários que existem entre o que ela é e o que ela
vai ser, por exemplo, para uma criança se tornar adulta ela
tem que passar por todas as fases intermediárias. Mais
tarde em seus escritos ele formula o conceito de força,
ou de ação motora, que é a capacidade de algo produzir
determinados efeitos, por exemplo, os nossos músculos
têm a capacidade de movimentar os membros, de movi-
mentar outros objetos e portanto de gerar efeitos sobre
os membros e os objetos.
Mas a força é mais do que o simples movimento, a força
é algo colocado na natureza por Deus e não é somente uma
capacidade das coisas naturais, mas um esforço de um
movimento ou de um efeito que pode acontecer se não for
interrompido por uma força maior. A essência das substân-
cias é o agir. A força é, assim, a essência do mundo natural.
As mônadas
Os princípios do conhecimento formulados por Leibniz
levaram-no a uma concepção do mundo oposta à car-
tesiana. Enquanto Descartes formula uma concepção
geométrica e mecânica dos corpos, Leibniz constrói uma
concepção dinâmica. Nesse sentido, explica os seres não
como máquinas que se movem, mas como forças vivas:
“Os corpos materiais, por sua resistência e impenetrabili-
dade, revelam-se não como extensão, mas como forças;
por outro lado, a experiência indica que o que se conserva
num ciclo de movimento não é – como pensava Descar-
tes – a quantidade do movimento, mas a quantidade de
força viva”. A partir da noção de matéria como essencial-
mente atividade, Leibniz chega à ideia de que o universo
é composto de unidades de força, as mônadas, noção
fundamental de sua metafísica. Essa noção, contudo,
não se esgota na adição do atributo força ao conceito da
matéria, formulado por Descartes. Leibniz chega também
à noção de mônada mediante a experiência interior que
cada indivíduo tem de si mesmo e que o revela como uma
substância ao mesmo tempo una e indivisível.
Mônadas são substâncias simples, diferentes entre si,
sem extensão, indivisíveis e eternas. Somente Deus pode
criar ou destruir as mônadas. Cada mônada vê o mundo
de seu ponto de vista e elas não se comunicam entre si.
Qualquer mudança na mônada tem de ser o resultado de
um processo interno, pois nada externo pode interferir nela.
Deus é também uma mônada, mas Ele percebe o mundo
de todos os pontos de vista possíveis enquanto as outras
mônadas percebem e representam o mundo somente
do seu ponto de vista. Deus é a mônada das mônadas.
Mônadas com memória compõem a alma dos animais e
as mônadas que têm razão formam o espírito humano.
Nas mônadas superiores da alma humana os enten-
dimentos confusos indicam a nossa imperfeição e as
dependências que temos da matéria. Nossa perfeição,
por outro lado, está na força, na liberdade e nos nossos
pensamentos diversos.
Nosso corpo e o corpo dos animais são uma reunião de
mônadas que somente se mantêm agregadas por causa
de nossa alma que é a mônada dominante; as mônadas
do corpo e as mônadas da alma seguem leis indepen-
dentes; as do corpo seguem leis mecânicas e as da alma,
as leis dos propósitos que pretendem alcançar. Corpo e
alma vivem em harmonia graças a uma perfeita ordem
estabelecida por Deus quando criou ambos.
As mônadas são isoladas, mas estão ligadas por serem
uma a representação da outra. São como as diferentes re-
presentações que podemos ter do mundo, e todas juntas
formam a representação do universo que se manifesta
na mônada máxima que é Deus.
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aula 7 FILOSOFIA
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Resumo da ópera
Estudamos nesta aula que durante o século XVII observou-se o fortalecimento do poder real e da Igreja Católica, por
meio da Contrarreforma em todo mundo católico (valendo-se da Inquisição e da Companhia de Jesus). Formou-se o
ambiente ideal para o surgimento do Barroco, a síntese cultural de um período marcado pela luta entre a fé e a razão.
Foi nesse momento que as bases do racionalismo foram lançadas por meio dos estudos teóricos de filosofia, ciências
matemáticas e pensamento político, os quais contestavam ou condenavam a ordem absolutista e a concepção de mundo
católica. Destacaram-se como principais teóricos desse período René Descartes, John Locke e Leibniz.
EXERCÍCIOS
1. (Unesp)
A modernidade não pertence a cultura nenhuma, mas surge sempre CONTRA uma cultura particular, como uma fenda,
uma fissura no tecido desta. Assim, na Europa, a modernidade não surge como um desenvolvimento da cultura cristã, mas
como uma crítica a esta, feita por indivíduos como Copérnico, Montaigne, Bruno, Descartes, indivíduos que, na medida
em que a criticavam, já dela se separavam, já dela se desenraizavam.A crítica faz parte da razão que, não pertencendo
a cultura particular nenhuma, está em princípio disponível a todos os seres humanos e culturas. Entendida desse modo,
a modernidade não consiste numa etapa da história da Europa ou do mundo, mas numa postura crítica ante a cultura,
postura que é capaz de surgir em diferentes momentos e regiões do mundo, como na Atenas de Péricles, na Índia do
imperador Ashoka ou no Brasil de hoje.
CÍCERO, ANTONIO.
Resenha sobre o livro O Roubo da História.
Folha de S.Paulo, 1 nov. 2008. Adaptado.
Com a leitura do texto, a modernidade pode ser entendida como
a) uma tendência filosófica especificamente europeia e ocidental de crítica cultural e religiosa.
b) uma tendência oposta a diversas formas de desenvolvimento da autonomia individual.
c) um conjunto de princípios morais absolutos, dotados de fundamentação teológica e cristã.
d) um movimento amplo de propagação da crítica racional a diversas formas de preconceito.
e) um movimento filosófico desconectado dos princípios racionais do iluminismo europeu.
2. (UFU)
Para bem compreender o poder político e derivá-lo de sua origem, devemos considerar em que estado todos os homens
se acham naturalmente, sendo este um estado de perfeita liberdade para ordenar-lhes as ações e regular-lhes as posses
e as pessoas conforme acharem conveniente, dentro dos limites da lei de natureza, sem pedir permissão ou depender
da vontade de qualquer outro homem.
LOCKE, John.
Segundo Tratado sobre o Governo.
São Paulo: Abril Cultural, 1978.
A partir da leitura do texto acima e de acordo com o pensamento político do autor, assinale a alternativa correta.
a) Segundo Locke, o estado de natureza se confunde com o estado de servidão.
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b) Para Locke, o direito dos homens a todas as coisas independe da conveniência de cada um.
c) Segundo Locke, a origem do poder político depende do estado de natureza.
d) Segundo Locke, a existência de permissão para agir é compatível com o estado de natureza.
3. (Enem)
Todo o poder criativo da mente se reduz a nada mais do que a faculdade de compor, transpor, aumentar ou diminuir
os materiais que nos fornecem os sentidos e a experiência. Quando pensamos em uma montanha de ouro, não faze-
mos mais do que juntar duas ideias consistentes, ouro e montanha, que já conhecíamos. Podemos conceber um cavalo
virtuoso, porque somos capazes de conceber a virtude a partir de nossos próprios um cavalo, animal que nos é familiar.
HUME, D.
Investigação sobre o entendimento humano.
São Paulo: Abril Cultural, 1995.
Hume estabelece um vínculo entre pensamento e impressão ao considerar que
a) os conteúdos das ideias no intelecto têm origem na sensação.
b) o espírito é capaz de classificar os dados da percepção sensível.
c) as ideias fracas resultam de experiências sensoriais determinadas pelo acaso.
d) os sentimentos ordenam como os pensamentos devem ser processados na memória.
e) as ideias têm como fonte específica o sentimento cujos dados são colhidos na empiria.
ESTUDO ORIENTADO
Caro(a) aluno(a),
O pensamento de Descartes (1596-1650) tinha por tese que o conhecimento era somente oriundo da razão e sua
extensão era finita, entendendo a concepção do universo como algo mecânico e mensurável. Descartes teve como
uma de suas principais obras o livro O discurso sobre o método, e entendia que o conhecimento se formava a partir
da dúvida sistemática, buscando atingir um axioma (verdade inquestionável que dispensa provação) e assim chegou
à celebre frase “Penso, logo existo”.
O liberalismo político teve como seu propulsor o pensamento do teórico e filósofo inglês John Locke (1632-1704),
que defendia os chamados direitos naturais: propriedade privada, liberdade e resistência às tiranias, tendo por base
um governo regido pela Constituição, um instrumento de controle entre o governo e seus subordinados. Para Locke, o
conhecimento era construído a partir da percepção sensorial, valorizando, portanto, o empirismo (a experimentação é
a prática mais importante).
Assita ao filme Descartes, sugerido na seção Navegar. Dirigido por Roberto Rosselini, propõe uma leitura muito so-
fisticada sobre a vida e a época de Descartes, apontando os elementos principais de sua filosofia com muita atenção
e seriedade.
Bons estudos!
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EXERCÍCIOS
1. (Unesp) “Penso, logo existo” significa que
a) Minha alma pensa.
b) Meu corpo pensa.
c) Minha alma sente.
d) Meu corpo sente.
e) Meu corpo existe.
2. (UFSJ) Ao investigar as origens das ideias, diver-
sos filósofos fizeram interferências importantes no
pensamento filosófico da humanidade. Dentre eles,
destaca-se o pensamento de John Locke. Assinale a
alternativa que expressa as origens das ideias para
John Locke.
a) “Não há dúvida de que todo o nosso conhecimento
começa com a experiência […] mas embora todo o
nosso conhecimento comece com a experiência,
nem por isso todo ele pode ser atribuído a esta, mas
à imaginação e à ideia.”
b) “O que sou eu? Uma substância que pensa. O que é
uma substância que pensa? É uma coisa que duvida,
que concebe, que afirma, que nega, que quer, que
não quer, que imagina e que sente, uma ideia em
movimento.
c) “Quando analisamos nossos pensamentos ou ideias,
por mais complexos e sublimes que sejam, sempre
descobrimos que se resolvem em ideias simples que
são cópias de uma sensação ou sentimento anterior,
calcado nas paixões.”
d) “Afirmo que essas duas, a saber, as coisas materiais
externas, como objeto da sensação, e as operações
de nossas próprias mentes, como objeto da reflexão,
são, a meu ver, os únicos dados originais dos quais
as ideias derivam.”
3. (Enem)
Texto I
Experimentei algumas vezes que os sentidos eram
enganosos, e é de prudência nunca se fiar inteiramente
em quem já nos enganou uma vez.
DESCARTES, R.
Meditações Metafísicas.
São Paulo: Abril Cultural, 1979.
Texto II
Sempre que alimentarmos alguma suspeita de que
uma ideia esteja sendo empregada sem nenhum signi-
ficado, precisaremos apenas indagar: de que impressão
deriva esta suposta ideia? E se for impossível atribuir-
-lhe qualquer impressão sensorial, isso servirá para
confirmar nossa suspeita.
HUME, D.
Uma investigação sobre o entendimento.
São Paulo: Unesp, 2004. Adaptado.
Nos textos, ambos os autores se posicionam sobre
a natureza do conhecimento humano. A compara-
ção dos excertos permite assumir que Descartes e
Hume
a) defendem os sentidos como critério originário para
considerar um conhecimento legítimo.
b) entendem que é desnecessário suspeitar do signi-
ficado de uma ideia na reflexão filosófica e crítica.
c) são legítimos representantes do criticismo quanto à
gênese do conhecimento.
d) concordam que conhecimento humano é impossível
em relação às ideias e aos sentidos.
e) atribuem diferentes lugares ao papel dos sentidos no
processo de obtenção do conhecimento.
4. (Unesp)
Texto I
– Pode-se deduzir, da influência dos órgãos, uma
relação entre o desenvolvimento dos órgãos cerebrais
e o desenvolvimento das capacidades morais e inte-
lectuais?
– Não confundais o efeito com a causa. O Espírito
tem sempre as capacidades que lhe são próprias; ora,
não são os órgãos que produzem as capacidades, mas
as capacidades que conduzem ao desenvolvimento
dos órgãos.
O Espírito, se encarnado, traz certas predisposições,
admitindo-se, para cada uma, um órgão correspondente
no cérebro, o desenvolvimento desses órgãos será um
efeito e não uma causa. Se as capacidades se originas-
sem nesses órgãos, o homem seria uma máquina sem
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livre-arbítrio e sem responsabilidade dos seus atos.
Seria preciso admitir que os maiores gênios, sábios,
poetas, artistas, não são gênios senão porque o acaso
lhes deu órgãos especiais.
KARDEC, Allan.
O livro dos espíritos [texto originalmente publicado
em 1848], 2011. Adaptado.
Texto II
Lobo temporal é o nome da regiãodo córtex cerebral
onde são processados os sinais sonoros. “Deduzo que
a habilidade de produzir música também deve estar
lá”, afirma o neurologista alemão Helmut Steinmetz, um
dos pesquisadores da Universidade Henrich Heine, de
Düsseldorf, Alemanha, responsáveis pela descoberta de
que os músicos têm o lobo temporal esquerdo maior
que o dos outros indivíduos. Steinmetz e seu parceiro
Gottfried Schlaug compararam, em exames de resso-
nância magnética, o cérebro de trinta músicos com os
de outros trinta indivíduos. Em todos, o lobo temporal
esquerdo é um pouco maior que o direito, mas essa di-
ferença chega a ser duas vezes maior entre os músicos.
JOBIM, Nelson.
Um dom de gênio. Superinteressante, maio de 2000.
Considerando o conceito filosófico de “inatismo”,
explique as diferenças entre os dois textos, no que
se refere à origem das capacidades mentais.
RODA DE LEITURA
Texto I
Inexiste no mundo coisa mais bem distribuída que
o bom senso, visto que cada indivíduo acredita ser
tão bem provido dele que mesmo os mais difíceis de
satisfazer em qualquer outro aspecto não costumam
desejar possuí-lo mais do que já possuem. E é impro-
vável que todos se enganem a esse respeito; mas isso
é antes uma prova de que o poder de julgar de forma
correta e discernir entre o verdadeiro e o falso, que é
justamente o que é denominado bom senso ou razão,
é igual em todos os homens; e, assim sendo, de que a
diversidade de nossas opiniões não se origina do fato
de serem alguns mais racionais que outros, mas ape-
nas de dirigirmos nossos pensamentos por caminhos
diferentes e não considerarmos as mesmas coisas. Pois
é insuficiente ter o espírito bom, o mais importante é
aplicá-lo bem. As maiores almas são capazes dos
maiores vícios, como também das maiores virtudes, e
os que só andam muito devagar podem avançar bem
mais, se continuarem sempre pelo caminho reto, do
que aqueles que correm e dele se afastam.
Quanto a mim, nunca supus que meu espírito fosse
em nada mais perfeito do que os dos outros; com
frequência desejei ter o pensamento tão rápido, ou
a imaginação tão clara e diferente, ou a memória tão
abrangente ou tão pronta, quanto alguns outros. E
desconheço quaisquer outras qualidades, afora as
que servem para o aperfeiçoamento do espírito; pois,
quanto à razão ou ao senso, posto que é a única coisa
que nos torna homens e nos diferencia dos animais,
acredito que existe totalmente em cada um, acompa-
nhando nisso a opinião geral dos filósofos, que afirmam
não existir mais nem menos senão entre os acidentes,
e não entre as formas ou naturezas dos indivíduos de
uma mesma espécie.
Mas não recearei dizer que julgo ter tido muita felici-
dade de me haver encontrado, a partir da juventude, em
determinados caminhos, que me levaram a considera-
ções e máximas, das quais formei um método, pelo qual
me parece que eu consiga aumentar de forma gradativa
meu conhecimento, e de elevá-lo, pouco a pouco, ao
mais alto nível, a que a mediocridade de meu espírito e
a breve duração de minha vida lhe permitam alcançar.
Pois já colhi dele tais frutos que, apesar de no juízo que
faço de mim próprio eu procure inclinar-me mais para
o lado da desconfiança do que para o da presunção,
e que, observando com um olhar de filósofo as varia-
das ações e empreendimentos de todos os homens,
não exista quase nenhum que não me pareça fútil e
inútil, não deixo de lograr extraordinária satisfação do
progresso que creio já ter feito na procura da verdade
e de conceber tais esperanças para o futuro que, se
entre as ocupações dos homens puramente homens
existe alguma que seja solidamente boa e importante,
atrevo-me a acreditar que é aquela que escolhi.
Contudo, pode ocorrer que me engane, e talvez não
seja mais do que um pouco de cobre e vidro o que eu
A proposição de Allan Kardec implica uma visão dualista, na qual o homem é constituído
de matéria e espírito e o corpo seria um repositório da alma, que segundo Kardec seria o
espírito encarnado, dotado de uma bagagem espiritual oriunda de outras vidas, a qual seria
responsável pelas habilidades e conhecimentos daquele indivíduo, fato que se aproxima
do inatismo proposto no pensamento de Platão e de Descartes, porque a produção e o
porte do conhecimento estariam ligados à razão.
Já no texto de Jobim, existe uma perspectiva determinista, destacando-se o diferencial
daqueles que ele chama de “gênios” a partir da posse de um cérebro especial, dado pelo
acaso e daí a relação com o pensamento empirista que entende que a inteligência é oriun-
da de uma tábula rasa, do zero e não de reminiscências passadas como propõe Kardec.
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tomo por ouro e diamantes. Sei como estamos sujeitos
a nos enganar no que nos diz respeito, e como também
nos devem ser suspeitos os juízos de nossos amigos,
quando são a nosso favor. Mas apreciaria muito mostrar,
neste discurso, quais os caminhos que segui, e repre-
sentar nele a minha vida como num quadro, para que
cada um possa julgá-la e que, informado pelo comen-
tário geral das opiniões emitidas a respeito dela, seja
este uma nova forma de me instruir, que acrescentarei
àquelas de que tenho o hábito de me utilizar.
René Descartes.
Discurso sobre o método.
Texto II
1. Para o homem, a escravidão é um estado tão vil, tão
miserável e tão diretamente contrário ao temperamento
generoso e à coragem de nossa nação, que é difícil
imaginar como um inglês, e menos ainda um cavalheiro,
poderia advogar em seu favor. Na verdade, como qual-
quer outro tratado que tentaria convencer os homens,
sem exceção, de que eles são escravos e devem sê-lo,
eu teria considerado o Patriarca de Sir Robert Filmer
uma nova exibição pretensiosa, comparável ao elogio
de Nero, ao invés de um discurso sério, concebidocomo
tal, se a gravidade do título e da introdução, a imagem
apresentada no cabeçalho do livro e os aplausos que
o têm acompanhado não me obrigassem a acreditar
na sinceridade do autor e também do editor. Então o
tomei nas mãos com todas as esperanças que atraem
um tratado cuja aparição provocou tanto alarido, e o
li de um só fôlego com toda a seriedade que lhe era
devida; mas confesso que, neste livro que devia forjar
as correntes de toda a humanidade, eu me surpreendi
muito ao não encontrar senão uma corda de areia,
útil, talvez, àqueles cuja arte e ofício consistem em
levantar nuvens de poeira para cegar o povo e fazê-lo
extraviar-se mais facilmente, mas frágil demais para
arrastar na servidão aqueles que mantêm seus grandes
olhos abertos e bastante bom senso para pensar que
as correntes são pouco convenientes, ainda que se
cuidasse de limá-las e poli-las.
2. Se alguns pensam que eu exagero quando falo de
forma tão livre de um homem que é o grande campeão
do poder absoluto e ídolo daqueles que o adoram, eu
lhes suplico, apenas uma vez, que não recusem esta
pequena concessão a um indivíduo que, mesmo após
ter lido o livro de Sir Robert e assim como a lei o au-
toriza, não pode se impedir de considerar a si mesmo
um homem livre; pois eu sei que isso não é uma falta, a
menos que se encontre alguém mais informado que eu
sobre os rumos do destino e que tem alguma revelação
da próxima notícia: há tanto tempo adormecido, desde
que foi publicado este tratado consagrou-se a perseguir
toda a liberdade pela força de seus argumentos e, de
agora em diante, este modelo acanhado proposto por
nosso autor servirá de Decálogo e de critério perfeito da
política para todas as épocas futuras. Seu sistema tem
pouco espaço. Reduz-se a isto: “Todo governo é uma
monarquia absoluta”; e eis sobre o que ele se baseia:
“Nenhum homem nasce livre”.
3. Desde que surgiu no mundo uma geração pronta
a lisonjear os príncipes formulando a opinião de que
estes são investidos de um direito divino de exercer o
poder absoluto, sem levar em conta leis destinadas a
reger a instituição de seu cargo e o exercício de seu
governo, ou condições para que eles iniciemsuas fun-
ções, ou ainda o compromisso de respeitá-las, fosse
este ratificado por juramentos ou promessas da maior
solenidade, estas pessoas negaram à humanidade seu
direito à liberdade natural: assim fazendo, não somente
expuseram todos os indivíduos à pior miséria da tirania
e da opressão, tanto quanto puderam, mas ainda os
títulos dos príncipes tornaram-se duvidosos e seus
tronos abalados (pois, segundo esta doutrina, todos
os príncipes, com uma única exceção, também eles
nascem escravos, e, em virtude de um direito divino, são
herdeiros legítimos de Adão), como se eles quisessem
entrar em uma guerra contra todo o governo e inverter
as próprias bases da sociedade humana.
John Locke.
Segundo tratado sobre o Governo.
NAVEGAR
Filmes
Descartes
Direção: Roberto Rosselini,
1974, 150 min.
A cinebiografia de Descartes
teve como base as referências
presentes no Discurso sobre o
método, pautando o roteiro pela
linha de pensamento cartesiana
entrecruzada com os eventos
de sua vida, apesar de Rosselini
não ter o objetivo de fazer uma
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adaptação do texto filosófico para o cinema, porém
fornece autenticidade ao contexto da representação do
pensador.
Livros
STRATHERN, Paul. 90 minu-
tos com Descartes. Rio de Ja-
neiro: Editora Jorge Zahar, 1998.
Apresentação do pensamen-
to cartesiano, seus principais
conceitos e uma síntese de
suas obras de maior destaque,
apontando, assim, as principais
referências para o entendimen-
to do racionalismo.
STRATHERN, Paul. 90 minu-
tos com Locke. Rio de Janeiro:
Editora Jorge Zahar, 1998.
Organização de uma síntese
sobre o pensamento de John
Locke, sua obra, apontando os
principais temas e conceitos
dentro do pensamento empi-
rista.
ÁGORA
Atividade: Discussão sobre a visão racionalista e em-
pirista.
Objetivos:
– caracterizar cada corrente de pensamento;
– usar na argumentação os respectivos conceitos e
refletir sobre o conhecimento;
– explorar a tese da “tábula rasa”.
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Voltaire.
Carta ao rei Frederico II da Prússia, 6 de abril de 1767.
S E N H A
“A dúvida não é uma condição agradável,
mas a certeza é absurda.”
FILOSOFIA gabarito
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Aula 4
Estudo orientado
1. 01 + 02 + 04 + 16 = 23
2.
Sêneca foi tutor do imperador Nero e buscava
nessa condição oferecer ao jovem príncipe, poste-
riormente imperador, exemplos de valores morais
que pudessem consolidar seu caráter, pensando no
comportamento deste enquanto imperador. A busca
das virtudes para a condução da vida é uma preocu-
pação presente na tradição estoica, à qual Sêneca
está relacionado e, a partir da qual, conduzia seus
estudos e ensinamentos.
Sêneca também se destacou como um grande ora-
dor; seus discursos ficaram famosos não só em sua
época, mas constituíram as bases dos estudos de
retórica no mundo latino, desde o período imperial
até nossos dias.
Aula 5
Estudo orientado
1. e
2. c
3. 01 + 02 + 16 = 19
4.
a) São Tomás proporcionou a aproximação entre a
fé e a razão, sendo a segunda uma justificativa da
primeira e, nesse sentido, a compreensão de Deus
estaria na plenitude da fé e a racionalidade seria
uma ferramenta que daria uma dimensão parcial do
universo criado por Deus, apenas atingido na sua
plenitude pela fé.
b) A releitura cristã de Aristóteles tornou-se um de
seus principais referenciais para a elaboração da
Suma teológica. Dentro do pensamento tomista, a
sistematização das análises e o desenvolvimento
das bases do pensamento escolástico (exposição
de uma tese, argumentação, contra-argumentação,
réplica, tréplica), desse modo, tais procedimentos
fundamentaram tanto o pensar quanto o escrever
na produção intelectual medieval, conferindo uma
identidade marcante dentro das universidades quan-
to à produção do conhecimento que ficou conhecido
como Escolástica.
Aula 6
Estudo orientado
1. b
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3. c
4. Platão entende a existência de um mundo das
ideias (mundo inteligível) que se distingue do mun-
do em que vivemos (mundo sensível), o qual seria
apenas a projeção das sombras do primeiro, que
estaria além do nosso alcance matérico. Portanto,
numa dimensão metafísica, atingível pelo uso da
razão, acima das questões mundanas e dos jogos
de poder, e seu acesso pelos filósofos garantiria o
exercício do governo pensando-se no bem comum
acima de tudo, de onde Platão concebe a ideia do
“filósofo-rei”.
Maquiavel, por sua vez, abre mão dos elevados valo-
res éticos (o bem, a justiça, a honestidade), porque
condiciona a ação humana em prol do alcance e
controle do poder a qualquer preço e custo, propon-
do o exercício da política numa perspectiva amoral
e acima dos valores religiosos, portanto, a defesa
das razões de Estado está em primeiro lugar e o go-
vernante deve usar de todos os recursos (violência,
injustiça, desonestidade) para se sustentar no poder.
Aula 7
Estudo orientado
1. a
2. d
GABARITO – FILOSOFIA
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gabarito FILOSOFIA
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3. e
4. A proposição de Allan Kardec implica uma visão
dualista, na qual o homem é constituído de matéria
e espírito e o corpo seria um repositório da alma,
que, segundo Kardec, seria o espírito encarnado,
dotado de uma bagagem espiritual oriunda de ou-
tras vidas, a qual seria responsável pelas habilida-
des e conhecimentos daquele indivíduo, fato que se
aproxima do inatismo proposto no pensamento de
Platão e de Descartes, porque a produção e o porte
do conhecimento estariam ligados à razão.
Já no texto de Jobim, existe uma perspectiva deter-
minista, destacando-se o diferencial daqueles que ele
chama de “gênios” a partir da posse de um cérebro
especial, dado pelo acaso e daí a relação com o
pensamento empirista que entende que a inteligên-
cia é oriunda de uma tábula rasa, do zero e não de
reminiscências passadas como propõe Kardec.
Referências
AGOSTINHO. Confissões. Livro IX, 10. São Paulo: Nova
Cultural, 1999.
BOSSUET, Jacques. A política inspirada nas Sagradas
Escrituras. Paris: Éd. Chatelet, Collection d’Histoire, 1964,
vol. IX.
GAZOLLA, R. O ofício do filósofo estoico: o duplo re-
gistro do discurso da Stoa. São Paulo: Loyola, 1999, p. 41.
GILSON, Étienne. Introduction a la philosophie chré-
tienne. Paris: Éd. J. Vrin, 1960, p. 125.
GOMES, Fernanda da Silva. Dissertação de Mestrado.
Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade
Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2006.
HOBBES, Thomas. O Leviatã. São Paulo: Editora Abril,
1978. (Coleção Os Pensadores)
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. cap. XVII. São Paulo:
Abril, 1978. (Coleção Os Pensadores)
MARCO AURÉLIO. Meditações. Tradução Jaime Bruna.
São Paulo: Editora Cultrix, 1964.
MORUS, Thomas. A utopia. São Paulo: L&PM, 2006.
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Iluminismo: Voltaire e
Rousseau
As luzes da razão
As transformações ocorridas na Europa desde o fim
da Idade Média motivaram o aparecimento de novas
estruturas sociais e políticas como o fortalecimento do
capitalismo comercial e a nova configuração do pen-
samento burguês. Os elementos dessa nova forma de
pensar começaram a surgir no contexto do Renascimento
e da Reforma, tornando-se vinculados ao liberalismo
(político e econômico). Esse processo desenvolveu-se
ao longo do século XVII, e resultou, no século XVIII, no
que se denominou Ilustração ou Iluminismo, cujas ideias
eram antiabsolutistas, antimercantilistas e anticlericais.
Durante o século XVII observou-se o fortalecimento do
poder real e da Igreja Católica, que, durante o período
conhecido como Contrarreforma, restaurou a Inquisição
e apoiou a Companhia de Jesus, formando o ambiente
ideal para o surgimento do Barroco, a síntese cultural de
um período marcado pela luta entre a fé e a razão.
Foi nesse momentoque as bases do racionalismo fo-
ram lançadas pelos estudos teóricos de filosofia, ciências
matemáticas e pensamento político, os quais se opunham
à ordem absolutista e à concepção de mundo católica.
Destacaram-se como principais teóricos desse período
René Descartes, Isaac Newton e John Locke.
O Iluminismo, ou filosofia das luzes, fundamentava-se
na ideia de que todos os fenômenos, incluindo a política
e a economia, poderiam ser explicados racionalmente.
Pregava a limitação ou supressão dos poderes do rei,
baseando-se na razão e na lógica em contraposição à
visão divina do mundo.
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FILOSOFIA – AULA 8
A dúvida não é uma condição agradável, mas a certeza
é absurda!
Dicionário Filosófico, de Voltaire.TH
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Apesar de pertencer à nobreza, o barão de Montes-
quieu (1688-1675) era um profundo admirador e defensor
dos ideais iluministas, identificados com o pensamento
burguês. Em seu livro O Espírito das Leis, que demorou 30
anos para ficar pronto, Montesquieu propôs a divisão do
Estado em três poderes distintos e independentes: Exe-
cutivo, Legislativo e Judiciário. Assim, esperava eliminar
a base centralizadora do absolutismo, pois afirmava que
“qualquer pessoa que tivesse o poder tenderia a abusar
dele”. Era favorável ao voto censitário, pois não via com
bons olhos a participação popular no processo eleitoral.
O mais importante veículo de difusão das ideias ilumi-
nistas foi a Enciclopédia, obra em 35 volumes, organizada
por Denis Diderot (1713-1784) e Jean D’Alembert (1717-
83) e que contou com a colaboração de cerca de 300
filósofos. Seu maior propósito era reunir em uma obra
todo o conhecimento do período, mas foi impossível
dissociar a obra do pensamento iluminista, racionalista,
liberal e burguês dos responsáveis pelos verbetes. Apesar
das perseguições, que chegaram a levar Diderot à cadeia,
e das constantes interrupções do projeto, a Enciclopé-
dia foi considerada, à época, a grande divulgadora do
Iluminismo.
Da mesma forma que o absolutismo cerceava a partici-
pação burguesa no controle do Estado, o mercantilismo
e suas práticas de monopólio e protecionismo eram um
grande obstáculo para a consolidação do poder burguês.
A proposta principal era o fim das estruturas de corpo-
rações de ofício existentes, fim dos monopólios e das
taxas de origem feudal cobradas por muitos nobres pro-
vincianos, a não intervenção do Estado na economia e a
liberdade de ação e investimento por parte da burguesia.
Nesse contexto, surgiu a doutrina da fisiocracia, em que
a natureza era a fonte central da riqueza e, portanto, os
esforços para a prosperidade deveriam ser dedicados à
agricultura. Um dos representantes desse pensamento
POLISABER 3
aula 8 FILOSOFIA
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foi o fisiocrata François Quesnay (1694-1774), autor do
Tableau Economique (Quadro Econômico) em 1758.
O liberalismo econômico teve como um de seus prin-
cipais pensadores o inglês Adam Smith (1723-1790),
defensor da não intervenção estatal (Estado mínimo,
mercado máximo), pois o mercado seria regido por leis
próprias: Laissez faire, laissez passer, le monde va delui
même! (Deixa fazer, deixa passar, que o mundo anda por
si mesmo!). Sua principal obra foi o livro A riqueza das
nações, publicado em 1776.
Outro nome relevante do liberalismo econômico foi
Thomas Malthus (1766-1834) que publicou o Ensaio sobre
o princípio da população em 1798, no qual previa fome
em larga escala e uma grave crise, resultantes do fato
de a população aumentar em progressão geométrica
enquanto a produção de alimentos crescia em progressão
aritmética. Ainda segundo o malthusianismo, os grandes
morticínios que costumavam provocar reduções da po-
pulação (guerras e epidemias) seriam meros paliativos
para um problema tão grave. Malthus, no entanto, não
contava com os avanços tecnológicos para solucionar
esse problema.
Outro liberal de grande influência foi o economista
inglês David Ricardo (1772-1823), autor de Princípios de
economia política e tributação, de 1817, em que defendeu
ideias inspiradas em Adam Smith e Thomas Malthus. Ao
analisar o problema da produção alimentar versus cres-
cimento populacional, David Ricardo acreditava que os
salários tinham uma tendência a manter-se no mínimo
necessário para a sobrevivência do trabalhador e sua
família, o que foi chamado de “lei férrea dos salários”.
Quanto à produção de riqueza e sua relação com a renda,
Ricardo afirmava que o volume da produção das terras
determinava o preço dos alimentos, além de defender
que a dinâmica do comércio internacional deveria ser
ditada pela livre concorrência, diminuindo a importância
da especialização de uma determinada região num dado
tipo de produção.
A lógica da exploração do trabalho operário foi analisa-
da por Nassau William Senior (1790-1864), professor de
economia na Universidade de Oxford, defensor ativo da
não redução da jornada de trabalho, fato que eliminaria
o lucro líquido das empresas, provocando falências,
desemprego e perda de riqueza. Sua tese era de que o
lucro vinha justamente da última hora da jornada e, en-
tre o século XVIII e XIX, o turno de trabalho era de pelo
menos 12 horas diárias.
Voltaire
Voltaire – exemplo do despotismo esclarecido.
François Marie Arouet (1694-1778) nasceu em Paris
numa família de origem burguesa, mas de condições
modestas, sendo o caçula de três filhos. Estudou Direito
na Universidade de Paris, demonstrando mais talento
na escrita do que na prática jurídica. Passou a escrever
textos satíricos contra a igreja, a nobreza e a Coroa fran-
cesa e acabou sendo exilado para a Inglaterra. Durante
o exílio, tomou conhecimento do pensamento de John
Locke, principalmente sobre sua contestação da doutrina
das ideias inatas.
Nesse contexto, Voltaire aprofundou seu questionamen-
to das instituições como a Igreja e a Coroa, e passou tam-
bém a investigar as formas de pensar. Como os empiristas,
Voltaire valorizava a experiência concreta e defendia que
esta conduziria à ruptura dos paradigmas vigentes: a es-
tabilidade e tradição estabelecidos sobre o conhecimento
pelo clero. Para Voltaire, não nascíamos com conceitos e
ideias prontos em nossa cabeça. Era essencial duvidar!
Ao refutar a “certeza”, Voltaire colocou no horizonte
a situação que, de alguma forma ou maneira, teorias e
ideias foram revistas, exceto algumas proposições mate-
máticas e lógicas, portanto, um saber, um conhecimento
não era algo imutável, de um “fato concreto” aos olhos de
Voltaire tornava-se uma hipótese de trabalho, mas sem
afirmar também que não existiam verdades absolutas e
que também seria imprescindível a organização de uma
sistemática, de um método científico para articular o
pensamento e evitar uma infinidade de dúvidas.
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Voltaire estendeu esse exercício de questionar e cri-
ticar o conhecimento para as circunstâncias políticas e
sociais de seu tempo. Suas reflexões encontraram eco no
Iluminismo e foram motor para as convulsões posteriores
da Revolução Francesa em 1789.
Ele tornou-se o mais representativo personagem do
Iluminismo francês e o inspirador de uma nova forma
de política: o despotismo esclarecido. Sua principal arma
nos ataques dirigidos à nobreza e à burocracia real era a
sátira. Além disso, mostrava-se um anticlerical mordaz.
Achava que a Igreja Católica era a responsável pela manu-
tenção do absolutismo (chamado após a Revolução Fran-
cesa de Antigo Regime) e, portanto, tal instituição deveria
acabar. Mas Voltaire era a favor do regime monárquico,
desde que este se mostrasse sensível aos interesses da
burguesia. Trocou correspondência com alguns monarcas
que aprenderam a admirar sua obra, e chegou a viver na
corte de Frederico II, da Prússia (1740-1786).
Propunha a substituição da Igrejapelo deísmo, que seria
um culto a um ser supremo que se encontra na natureza,
assim como o próprio homem. Considerava a Igreja des-
necessária, pois, se homem e Deus estão na natureza, não
há necessidade de alguém para intermediar sua relação.
Difundiu as ideias de outros iluministas e defendeu
que somente países politicamente evoluídos (como a
França) deveriam ter governos liberais, e que povos mais
atrasados (como as colônias) deveriam ser submetidos a
um governo absoluto.
Rousseau
Rousseau: o direito à revolução.
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) escreveu sobre
diferentes temas (política, linguística, educação, filoso-
fia). Ele propunha que todos os homens nascem livres
e iguais e, nisso, não era muito diferente dos demais
iluministas. Em seu texto Discurso sobre a origem e os
fundamentos da desigualdade entre os homens, defen-
dia a tese do “bom selvagem” e o resgate do convívio
com a natureza, uma vez que, em essência, o homem
no “estado de natureza” era fundamentalmente bom.
Rousseau foi um dos poucos pensadores contrários à
propriedade privada, que, para ele, era a fonte de todos
os males da humanidade, pois, a partir do momento em
que a propriedade privada se estabeleceu, a sociedade
se corrompeu e criou mecanismos para protegê-la, ge-
rando injustiças que, gradativamente, favoreceram os
proprietários em detrimento do resto da sociedade. Daí
decorre a visão de que “o homem nasce livre, mas, por
toda parte, encontra-se acorrentado.”
Em seu livro O contrato social, apresentou a proposta
de um Estado que deveria proteger os mais pobres dos
mais ricos e reclamou o direito ao voto universal, sendo
por isso considerado o pai da democracia representativa.
A relação contratual, segundo Rousseau, estaria cons-
tituída a partir do contexto em que a “vontade geral” da
sociedade confere ao governo autoridade e legitimidade
para governá-la. Todos passam a ser protegidos pelas leis
e os governados obedecem às normas estabelecidas. No
entanto, se o governo se torna uma tirania, violentando
a sociedade, ele perde sua legitimidade. O contrato é
quebrado e a sociedade pode destituí-lo e constituir um
novo governo que atenda às suas necessidades. Essa
noção de liberdade está relacionada a agir de acordo
com a vontade do coletivo, abrindo mão dos interesses
particulares em prol do bem comum.
Portanto, Rousseau fala no “direito de revolução”, o qual
se manifestaria anos mais tarde, na Queda da Bastilha em
1789, quando a população de Paris “arrancou simbolica-
mente” com as próprias mãos o poder absoluto de Luís XVI.
Rousseau, apesar de considerar a aparição da pro-
priedade privada um mal, a reconhecia como inevitável.
Propunha, então, a limitação da propriedade: “Para
melhorar o estado social, é preciso que todos tenham
o suficiente e que ninguém tenha demasiado”, desse
modo, as palavras lema da Revolução Francesa (liberdade,
igualdade e fraternidade) se conectavam com intensidade
ao pensamento de Rousseau e ecoaram pela Europa ou
mesmo além, como no caso da Guerra de Independência
dos EUA (1776-1783).
Posteriormente, as influências do pensamento de
Rousseau, especialmente a concepção de igualdade e o
questionamento da propriedade privada, se dilataram no
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movimento socialista no século XIX que construiu a crítica ao capitalismo dominado pela burguesia. As ideias de ruptura
com a ordem vigente ganharam fôlego, abrindo novas perspectivas sobre a discussão do controle dos meios de produ-
ção, da geração de riqueza e da acumulação de capital que a burguesia vinha conduzindo, já que esta última tomara o
lugar da nobreza no controle do poder político e econômico depois da Revolução Francesa, deixando as camadas mais
pobres, apesar de toda a movimentação revolucionária, no mesmo lugar: exploradas e empobrecidas.
A educação segundo Rousseau
Rousseau publicou Emílio, ou da Educação, uma obra filosófica sobre a educação. O autor partiu do pressuposto de
que a criança nascia naturalmente boa e que a sociedade é quem a corrompia, tornando-a um adulto mau.
No século XVIII, a criança não era entendida como a concebemos hoje. Eram “pequenos adultos” e deveriam ser
castigados quando necessário.
Para Rousseau, a infância deveria ser entendida em sua complexidade, ou seja, por suas próprias características. O pro-
cesso educativo deveria ser capaz de separar a criança do adulto, porque, ao se valorizar o processo educativo, contempla-
-se um melhor propósito para a sociedade, cabendo uma educação adequada e distinta para o homem e para mulher.
Na obra, ele fala da educação de Emílio e Sofia, em que o primeiro deve ser criado para ser forte e rico, recebendo
instrução científica. Educado dessa forma, Emílio será um cidadão capaz de assumir e aceitar as exigências impostas pela
sociedade sem que se sinta oprimido. Sofia deve ser criada fora dos preceitos da razão, pois as mulheres nasceram para
serem submissas ao marido, direcionadas ao casamento e à maternidade, não apresentando possibilidades de aprender
conceitos científicos. Não há uma perspectiva que busque a emancipação feminina ou a igualdade entre os gêneros.1
O foco da obra é sobre como educar uma criança. Deve-se dar ênfase à educação desde o nascimento. Rousseau
afirma que tudo o que não se tem quando se nasce (juízo, força, assistência) e do que se necessita quando adulto é
dado pela educação e que apenas esta pode modificar o homem.
Emílio manifesta ainda forte crítica à educação tradicional, pois esta era muito racionalizada, técnica e impositiva. Inicia-
-se então, com base na visão rousseauniana, uma pedagogia voltada e centrada na criança, não mais reconhecendo-a
como adulto, mas sim na essência da infância, na felicidade e na liberdade da criança.
“Juramento dos Horácios”, Jacques-Louis David, c. 1784, Museu do Louvre, Paris.
1 PILETTI, Cláudio; PILETTI, Nelson. História da educação. 7. ed. São Paulo: Ática, 1997. p. 94.
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O Neoclassicismo e as Luzes
Foi na França do século XVIII que o pensamento liberal, fermentado ao longo do século XVII, encontrou um campo
fértil. A Casa de Bourbon comandava um dos mais rígidos regimes absolutistas da história como consequência da
crise do governo francês (gastos com guerras, luxo da Corte, censuras, perseguições religiosas etc.) e do interesse
da burguesia francesa em romper com as limitações do mercantilismo, além de uma série de elementos de origem
feudal que sobreviveram no interior do absolutismo francês.
O pensamento iluminista congregava uma série de ideias distintas, as quais geralmente apresentavam um núcleo
comum: eram contrárias ao absolutismo, à Igreja e sua influência e ao mercantilismo.
Um dos principais canais de manifestação do Iluminismo foi a concepção da Enciclopédia, um imenso conjunto
de artigos reunidos como uma compilação de todos os conhecimentos científicos do período sob a organização de
Denis Diderot (1713-1784) e Jean Le Rond D’Alembert (1717-1783).
O Iluminismo se manifestou, além da Enciclopédia, por intermédio dos filósofos e pensadores franceses que pro-
punham formas alternativas de poder e de governo, cujo conteúdo favorecia os interesses burgueses.
A valorização do racionalismo implicou o retorno à estética greco-romana, ou seja, ao equilíbrio (Aurea mediocritas,
em latim, “mediocridade dourada”, mas aqui mediocridade tem seu valor original, significa meio-termo, ponto médio),
à sobriedade (Inutilia truncat, em latim, significa “cortar o inútil”), à perfeição formal, à representação perfeita da
natureza e aos temas mitológicos. Tal fato permitiu construir um padrão cultural sofisticado para a burguesia, que
cada vez mais se elitizava e ansiava pela participação do poder político na Europa (com exceção da Inglaterra, cuja
burguesia fizera seu levante em 1689 e já se encontrava no podercom o sucesso da Revolução Gloriosa).
Os valores dessa elite emergente que pretendia derrubar a velha aristocracia eram ambíguos, pois o desejo pelo
poder político representava a busca pela legitimação de sua condição e, ao mesmo tempo, implicava tornarem-se
os novos aristocratas.
Nessas circunstâncias, o padrão de cultura aceito pela sociedade passava pelo crivo dos institutos oficiais, como
as Academias de Belas Artes, o que originou o academicismo.
A pintura teve uma forte influência da ideia de beleza aristotélica, impregnada de racionalismo, com a perfeita defi-
nição do traço e dos contornos, a harmonia da composição e das cores. Valendo-se dessas técnicas, alguns pintores
destacaram-se, como Jacques-Louis David (1748-1825), pintor oficial da Revolução Francesa e da Corte napoleônica,
e Jean-Auguste Dominique Ingres (1780-1867).
Assim como a pintura, o padrão arquitetônico também recuperou a estética greco-romana, que fora muito evidente
no Renascimento e retornou ao centro das discussões artísticas com a utilização intensa das colunas (dóricas, jônicas,
coríntias e compósitas), de átrios (fachadas triangulares dos templos), arcadas e estatuário inspirados no ideal de
beleza da Antiguidade Clássica.
Resumo da ópera
Nesta aula, analisamos o pensamento filosófico do Século das Luzes, como ficou conhecido o século XVIII, que teve
suas raízes no racionalismo debatido no século XVII e este, por sua vez, estava conectado ao pensamento renascentista.
Entre os autores do século XVIII, destacamos Jean-Jacques Rousseau (1712-1778): seu pensamento estava mais vincu-
lado às camadas populares, ao contrário de outros iluministas, criticando não só a valorização da propriedade privada,
mas também a exacerbada importância da razão. Uma de suas principais obras foi Do contrato social, cujo conteúdo
defendia uma relação contratual entre governo e governados (o poder é do povo e entregue por este ao governo) em
prol do bem comum, e quando essa relação fosse rompida pela tirania, era justo o direito de revolta. Rousseau tinha
uma visão naturalista, entendendo a Natureza como bem primordial, e os homens seriam todos bons em sua essência,
mas eram corrompidos pela sociedade.
Na concepção de uma defesa intensa do racionalismo, encontramos François Marie Arouet, conhecido pelo pseudônimo
de Voltaire (1694-1778), cujo estilo sarcástico e sagaz lhe proporcionou alguns problemas, como a censura da Coroa e
o exílio por dois anos na Inglaterra, período em que escreveu Cartas inglesas. Voltaire era favorável à monarquia, mas
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não ao absolutismo. Estava alinhado ao pensamento da alta burguesia, defendendo a liberdade de expressão e fazendo
violentos ataques à Igreja. Voltaire não nutria nenhum apreço pelos homens do povo, pois os considerava inferiores em
sua ignorância. Por outro lado, teve muito contato com monarcas absolutistas, como Frederico II da Prússia e Catarina II
da Rússia (1762-96), influenciando-os no seu modo de pensar, pois estes promoveram várias reformas em seus reinos,
num processo conhecido como despotismo esclarecido.
EXERCÍCIOS
1. (Unicamp)
O homem nasce livre, e por toda a parte encontra-se a ferros. O que se crê senhor dos demais não deixa de ser mais
escravo do que eles. [...] A ordem social, porém, é um direito sagrado que serve de base a todos os outros. [...] Haverá
sempre uma grande diferença entre subjugar uma multidão e reger uma sociedade. Sejam homens isolados, quantos
possam ser submetidos sucessivamente a um só, e não verei nisso senão um senhor e escravos, de modo algum con-
siderando-os um povo e seu chefe. Trata-se, caso se queira, de uma agregação, mas não de uma associação; nela não
existe bem público, nem corpo político.
ROUSSEAU, Jean-Jacques.
Do contrato social.
São Paulo: Abril, 1973. p. 28, 36.
No trecho apresentado, o autor
a) argumenta que um corpo político existe quando os homens encontram-se associados em estado de igualdade política.
b) reconhece os direitos sagrados como base para os direitos políticos e sociais.
c) defende a necessidade de os homens se unirem em agregações, em busca de seus direitos políticos.
d) denuncia a prática da escravidão nas Américas, que obrigava multidões de homens a se submeterem a um único
senhor.
2. (UFU) De acordo com Rousseau,
“A passagem do estado de natureza para o estado civil determina no homem uma mudança muito notável, substituindo
na sua conduta o instinto pela justiça e dando às suas ações a moralidade que antes lhes faltava.”
ROUSSEAU, Jean-Jacques.
Do contrato social.
São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. 36.
Coleção Os Pensadores.
Sobre a passagem do estado de natureza para o estado civil, é correto afirmar que:
a) o homem mantém a liberdade natural e o direito irrestrito, e ainda ganha uma moralidade muito particular guiada
pelo seu puro apetite.
b) o homem perde a liberdade natural e o direito à propriedade, mas adquire a obrigação de seguir sua própria vontade.
c) o homem perde a liberdade natural e o direito ilimitado, mas ganha a liberdade civil e a propriedade de tudo o que
possui.
d) o homem mantém a liberdade natural e o direito ilimitado, mas abdica da liberdade civil em favor da liberdade moral.
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ESTUDO ORIENTADO
Caro(a) aluno(a),
Na compreensão do pensamento iluminista, apresentamos nesta aula o pensamento de Rousseau e Voltaire, sendo
perceptível a divergência de posição entre ambos, porque o primeiro teve uma posicionamento mais ligado à baixa
burguesia, enquanto o segundo era ligado à alta burguesia e aristocracia e, assim, podemos entender que o Iluminismo
não foi uma expressão uniforme de pensar, mas, sim, um grande conjunto de intelectuais que tinham diferentes olhares
sobre os problemas da sociedade em que viveram.
Os exercícios escolhidos trabalham com a leitura, interpretação e análise dos textos e dos conceitos de Rousseau
e de Voltaire, comparando-os também com outros autores, desse modo, buscam avaliar o conhecimento preciso dos
conceitos e obra dos pensadores.
Na Roda de leitura, selecionamos fragmentos de Rousseau e Voltaire que mostram sua análise sobre temas distin-
tos (a monarquia parlamentar descrita por Voltaire e a relação contratual da sociedade por Rousseau) que permitem
ampliar o entendimento sobre a argumentação dos autores e de seus principais conceitos, sendo assim, uma forma de
se apropriar desses conhecimentos para a elaboração das respostas dissertativas.
Bons estudos!
EXERCÍCIOS
1. (PUC-PR) De acordo com o Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade, de Jean-Jacques Rousseau
(1712-1778), é correto afirmar que
a) No estado de natureza – fundamento do direito político – o homem natural era um ser livre, porém, sem direitos iguais.
b) No estado de natureza – fundamento do direito político – o homem natural era um ser de direitos iguais, porém
não era livre.
c) No estado de natureza os direitos fundamentais do homem eram: igualdade, liberdade e propriedade.
d) No estado de natureza já existe o direito de propriedade.
e) No estado de natureza os direitos fundamentais do homem eram: igualdade e liberdade.
2. (Unicamp)
O homem nasce livre, e por toda a parte encontra-se a ferros. O que se crê senhor dos demais não deixa de ser mais
escravo do que eles. [...] A ordem social, porém, é um direito sagrado que serve de base a todos os outros. [...] Haverá
sempre uma grande diferença entre subjugar uma multidão e reger uma sociedade. Sejam homens isolados, quantos
possam ser submetidos sucessivamente a um só, e não verei nisso senão um senhor e escravos, de modo algum con-
siderando-os um povo e seu chefe. Trata-se, caso se queira, de uma agregação, mas não de uma associação; nela não
existe bem público, nem corpo político.
ROUSSEAU, Jean-Jacques.
Do contrato social.
São Paulo: Abril, 1973. p. 28, 36.
Sobre Do contrato social, publicado em 1762, e seu autor, é correto afirmar que:
a) Rousseau,um dos grandes autores do Iluminismo, defende a necessidade de o Estado francês substituir os impostos
por contratos comerciais com os cidadãos.
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b) A obra inspirou os ideais da Revolução Francesa, ao
explicar o nascimento da sociedade pelo contrato
social e pregar a soberania do povo.
c) Rousseau defendia a necessidade de o homem voltar
a seu estado natural, para assim garantir a sobrevi-
vência da sociedade.
d) O livro, inspirado pelos acontecimentos da Indepen-
dência Americana, chegou a ser proibido e queimado
em solo francês.
3. (UFPR) A respeito do Iluminismo, movimento filosó-
fico que se difundiu pela Europa ao longo do século
XVIII, considere as seguintes afirmativas:
I. Muitos filósofos franceses, entre eles Montesquieu,
Voltaire e Diderot, foram leitores, admiradores e divul-
gadores da filosofia política produzida pelos ingleses,
como John Locke com sua crítica ao absolutismo.
II. Quanto à organização do Estado, os filósofos ilumi-
nistas não eram contra a monarquia, mas contra as
ideias de que o poder monárquico fora constituído
pelo direito divino e de que ele não poderia ser sub-
metido a nenhum freio.
III. A descoberta da perspectiva e a valorização de te-
mas religiosos marcaram as expressões artísticas
durante o Iluminismo.
IV. Em Portugal, o pensamento iluminista recebeu
grande impulso das descobertas marítimas.
Assinale a alternativa correta:
a) Somente a afirmativa I é verdadeira.
b) Somente as afirmativas I e II são verdadeiras.
c) Somente as afirmativas I, II e IV são verdadeiras.
d) Somente as afirmativas III e IV são verdadeiras.
e) Somente as afirmativas II, III e IV são verdadeiras.
4. (Unesp)
Texto I
Não se pode matar sempre. Faz-se a paz com o
vizinho até que se acredite estar bastante forte para re-
começar. Os que sabem escrever redigem tratados de
paz. Os chefes de cada povo, para melhor enganar seus
inimigos, testemunham pelos deuses que eles próprios
criaram. Inventam-se os juramentos. Um promete por
Samonocodão, outro, em nome de Júpiter, viver sempre
em harmonia, e na primeira ocasião degolam em nome
de Júpiter e de Samonocodão.
VOLTAIRE.
Dicionário Filosófico, 1984.
Adaptado.
Texto II
Realizou-se, na tarde deste domingo, 08 de junho, nos
Jardins Vaticanos, o encontro de oração pela paz entre
o Papa Francisco e os presidentes de Israel e Palestina,
respectivamente, Shimon Peres e Mahmoud Abbas. Eis
um trecho da oração pela paz feita pelo Papa Francisco:
“Senhor Deus de Paz, escutai a nossa súplica! Tornai-
-nos disponíveis para ouvir o grito dos nossos cidadãos
que nos pedem para transformar as nossas armas em
instrumentos de paz, os nossos medos em confiança e
as nossas tensões em perdão.” O Presidente da Pales-
tina, Mahmoud Abbas, proferiu as seguintes palavras:
“Reconciliação e paz, Ó Senhor, são as nossas metas.
Deus, em seu Livro Sagrado, disse aos fiéis: ‘Fazei a paz
entre vós!’ Nós estamos aqui, Senhor, orientados em
direção à paz. Tornai firmes os nossos passos e coroa
com o sucesso os nossos esforços e nossas iniciativas”.
O Presidente de Israel, Shimon Peres, disse: “O nosso
Livro dos Livros nos impõe o caminho da paz, nos pede
que trabalhemos por sua realização. Diz o Livro dos
Provérbios: Suas vias são vias de graça, e todas as suas
sendas são paz. Assim devem ser as nossas vias. Vias
de graça e de paz. Nós todos somos iguais diante do
Senhor. Nós todos fazemos parte da família humana”.
PAPA FRANCISCO.
Para fazer a paz é preciso coragem.
Disponível em: pt.radiovaticana.va.
Acesso em: 08 jun. 2014.
Considerando a relação entre política e religião, in-
dique e comente duas diferenças entre os textos
apresentados.
5. (Unesp) Entre a população brasileira, 39% acham
que a desigualdade social alimenta a criminalidade,
mas 58% acreditam que a maldade das pessoas é a
sua principal causa. Esse contraste entre posições
liberais e conservadoras é uma marca da socieda-
de brasileira, de acordo com pesquisa nacional feita
pelo Datafolha. Foram realizadas 2 588 entrevistas
em 160 municípios. Inspirado por uma metodologia
adotada por institutos de pesquisa estrangeiros, o
Ao se pensar na relação entre política e religião, Voltaire mostra o quão volúveis podem
ser as ações humanas ao usarem o argumento religioso, que poderia ser justificativa para
a paz ou para a guerra, destacando o fato de Voltaire apontar a religião e suas práticas
como construções humanas e não um dado de evidente comprovação.
As falas do papa Francisco, de Mahmoud Abbas e Shimon Peres partem da crença na
existência de uma força sobrenatural (Deus) e buscavam naquele contexto unir suas
preces num discurso pacifista, demonstrando a comunhão de pensamentos entre o
cristianismo, islamismo e judaísmo.
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Datafolha submeteu os entrevistados a uma bateria
de perguntas sobre assuntos polêmicos para verifi-
car a inclinação das pessoas por valores liberais e
conservadores.
Tendência conservadora é forte no país.
Folha de S. Paulo, 25 dez. 2012.
Adaptado.
Relacione a diferença entre as opiniões de liberais
e conservadores sobre as causas da violência às
concepções de natureza humana no pensamento
de Jean-Jacques Rousseau [1712-1778] e Thomas
Hobbes [1588-1679].
RODA DE LEITURA
Texto I
Suponhamos os homens chegando àquele ponto em
que os obstáculos prejudiciais à sua conservação no
estado de natureza sobrepujam, pela sua resistência,
as forças de que cada indivíduo dispõe para manter-se
nesse estado. Então, esse estado primitivo já não pode
subsistir, e o gênero humano, se não mudasse de modo
de vida, pereceria. Ora, como os homens não podem
engendrar novas forças, mas somente unir e orientar as
já existentes, não tem eles outro meio de conservar-se
senão formando, por agregação, um conjunto de forças,
que possa sobrepujar a resistência, impelindo-as para
um só móvel, levando-as a operar em concerto.
[...] “Encontrar uma forma de associação que defenda
e proteja a pessoa e os bens de cada associado com
toda a força comum, e pela qual cada um, unindo-se a
todos, só obedece contudo a si mesmo, permanecendo
assim tão livre quanto antes”.
As cláusulas desse contrato são de tal modo determi-
nadas pela natureza do ato, que a menor modificação
as tornaria vãs e de nenhum efeito, de modo que, em-
bora talvez jamais enunciadas de maneira formal, são
as mesmas em toda a parte, e tacitamente mantidas
e reconhecidas em todos os lugares, até quando,
violando-se o pacto social, cada um volta a seus primei-
ros direitos e retoma sua liberdade natural, perdendo
a liberdade convencional pela qual renunciara àquela.
ROUSSEAU, Jean-Jacques.
Do contrato social.
São Paulo: Abril, 1978. p. 32.
Coleção Os Pensadores.
Texto II
Eis uma diferença mais essencial entre Roma e a
Inglaterra, vantajosa para esta última: em Roma, o fruto
das guerras civis foi a escravidão; na Inglaterra, a liber-
dade. A nação inglesa é a única na Terra que chegou a
regulamentar o poder dos reis resistindo-lhes, e que de
esforço em esforço chegou, enfim, a estabelecer um
governo sábio, onde o príncipe, todo-poderoso para
fazer o bem, tem as mãos atadas para fazer o mal;
onde os senhores são grandes sem insolência e sem
vassalos, e o povo participa do governo sem confusão.
A Câmara dos Lordes e a Câmara dos Comuns são
os árbitros da nação. O rei, o superárbitro. Faltou essa
balança aos romanos: em Roma, os grandes e o povo
estavam sempre divididos, sem um poder interme-
diário que o pusesse de acordo. O Senado de Roma,
cheio de um orgulho injusto e punível, nada querendo
dividir com os plebeus, só conhecia um segredo para
afastá-los do governo: ocupá-los sempre nas guerras
estrangeiras. Encarava o povo como a uma besta feroz
que deveria ser atiçada contra os vizinhos, com medo
que devorasse seus senhores. Assim, o maior defeito
do governo dos romanos tornou-os conquistadores.
Por serem infelizesser identificado com:
a) as diferenças sociais de gênero.
b) o determinismo biológico.
c) os fatores de natureza histórica.
d) os determinismos materiais da sociedade.
e) a autonomia ética do indivíduo.
RODA DE LEITURA
Texto I
A Filosofia é um ramo do conhecimento que pode ser
caracterizado de três modos: seja pelos conteúdos ou
temas tratados, seja pela função que exerce na cultura,
seja pela forma como trata tais temas. Com relação aos
conteúdos, contemporaneamente, a Filosofia trata de
conceitos tais como bem, beleza, justiça, verdade. Mas,
nem sempre a Filosofia tratou de temas selecionados,
como os indicados acima. No começo, na Grécia, a Filo-
sofia tratava de todos os temas, já que até o séc. XIX não
havia uma separação entre ciência e filosofia. Assim, na
Grécia, a Filosofia incorporava todo o saber. No entanto,
a Filosofia inaugurou um modo novo de tratamento dos
temas a que passa a se dedicar, determinando uma mu-
dança na forma de conhecimento do mundo até então
vigente. Isso pode ser verificado a partir de uma análise
da assim considerada primeira proposição filosófica.
Se dermos crédito a Nietzsche, a primeira proposição filo-
sófica foi aquela enunciada por Tales, a saber, que a água é
o princípio de todas as coisas (Aristóteles. Metafísica, I, 3).
Cabe perguntar o que haveria de filosófico na propo-
sição de Tales. Muitos ensaiaram uma resposta a esta
questão. Hegel, por exemplo, afirma: “com ela a Filosofia
começa, porque através dela chega à consciência de
São corretas 01 + 08 + 16 = 25
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que o um é a essência, o verdadeiro, o único que é em
si e para si. Começa aqui um distanciar-se daquilo que
é a nossa percepção sensível”. Segundo Hegel, o filosó-
fico aqui é o encontro do universal, a água, ou seja, um
único como verdadeiro. Nietzsche, por sua vez, afirma:
“a filosofia grega parece começar com uma ideia absur-
da, com a proposição: a água é a origem e a matiz de
todas as coisas. Será mesmo necessário deter-nos nela
e levá-la a sério? Sim, e por três razões: em primeiro
lugar, porque essa proposição enuncia algo sobre a
origem das coisas; em segundo lugar, porque o faz
sem imagem e fabulação; e, enfim, em terceiro lugar,
porque nela, embora apenas em estado de crisália [sic],
está contido o pensamento: ‘Tudo é um’. A razão citada
em primeiro lugar deixa Tales ainda em comunidade
com os religiosos e supersticiosos, a segunda o tira
dessa sociedade e no-lo mostra como investigador da
natureza, mas, em virtude da terceira, Tales se torna o
primeiro filósofo grego”.
DUTRA, Delamar José Volpato.
O que é Filosofia, professor? E para que serve?
Disponível em: fil.cfh.ufsc.br/files/2013/04/
Delamar-Volpato-Dutra-O-que-%C3%A9-filosofia-e-
para-que-serve.pdf. Acesso em: 8 jan. 2016.
Texto II
MOYERS: Penso que isso em parte explica o sucesso
de Guerra nas estrelas. Não foi apenas a qualidade da
produção que fez dele um filme tão atraente, é, também,
que ele chegou num momento em que as pessoas
tinham necessidade de ver, em imagens assimiláveis,
o embate entre o bem e o mal. Todos precisavam que o
idealismo lhes fosse lembrado, todos queriam ver uma
história baseada em desprendimento, não em egoísmo.
CAMPBELL: O fato de o poder do mal não estar
identificado com nenhuma nação específica, nesta
terra, significa que você tem aí um poder abstrato, que
representa um princípio, não uma situação histórica
específica. A história do filme tem a ver com uma
operação de princípios, não com esta nação contra
aquela. As máscaras de monstros, usadas pelos atores
de Guerra nas estrelas, representam a verdadeira força
monstruosa, no mundo moderno. Quando a máscara
de Darth Vader é retirada, você vê um rosto informe, de
alguém que não se desenvolveu como indivíduo huma-
no. O que se vê é uma espécie de fase indiferenciada,
estranha e digna de pena.
MOYERS: Qual é o significado disso?
CAMPBELL: Darth Vader não desenvolveu a própria
humanidade. É um robô. É um burocrata, vive não nos
seus próprios termos, mas nos termos de um sistema
imposto. Este é o perigo que hoje enfrentamos, como
ameaça às nossas vidas. O sistema vai conseguir
achatá-lo e negar a sua própria humanidade, ou você
conseguirá utilizar-se dele para atingir propósitos hu-
manos? Como se relacionar com o sistema de modo
a não o ficar servindo compulsivamente? Não adianta
tentar mudá-lo em função das suas concepções ou
das minhas. O momento histórico subjacente a ele é
grandioso demais para que algo realmente significativo
resulte desse tipo de ação. O que é preciso é aprender a
viver no tempo que nos coube viver, como verdadeiros
seres humanos. Isso é o que vale, e pode ser feito.
MOYERS: Como?
CAMPBELL: Mantendo-se fiel aos seus próprios
ideais, como Luke Skywalker, rejeitando as exigências
impessoais com que o sistema o pressiona.
MOYERS: Quando levei meus dois filhos para ver
Guerra nas estrelas, eles reagiram com entusiasmo,
como toda a plateia, quando, no clímax da última luta, a
voz de Obi-Wan Kenobi diz a Skywalker: “Desligue o seu
computador, desligue a máquina e seja você mesmo, siga
seus sentimentos, confie em seus sentimentos”. Ao fazê-
-lo, é bem-sucedido, e a plateia prorrompe em aplausos.
CAMPBELL, Joseph.
O poder do mito.
São Paulo: Palas Athena, 1990. p.158-159.
NAVEGAR
Livros
JAPIASSU, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário
básico de filosofia. Rio de janeiro: Jorge Zahar, 1991.
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importância da atitude filosófica do questionamento,
como podemos lidar com esse paradoxo: acesso am-
plo à informação numa escala nunca antes vista e, ao
mesmo tempo, a manutenção de posições que reiteram
preconceito, intolerância e ignorância nos mais variados
assuntos?
Atividade
Selecione uma matéria sobre um tema ligado à defesa
dos direitos humanos em um site de notícias e com base
nos comentários feitos pelos internautas, aponte as con-
trovérsias ali presentes, buscando tanto as posições mais
coerentes quanto aquelas mais estranhas.
Objetivos
– Identificar os valores presentes ou ausentes nas
argumentações;
– Buscar, na estrutura do comentário, a coerência ou
incoerência da argumentação;
– Identificar a presença ou ausência do senso comum.
PRADO JR., Caio. O que é Filosofia? São Paulo: Brasi-
liense, 2008, v. 37, (Coleção Primeiros Passos).
GAARDER, Jostein. O mundo
de Sofia. São Paulo: Companhia
das Letras, 2012.
O mundo de Sofia é um livro es-
crito por Jostein Gaarder em 1999
e adaptado pela tevê norueguesa
em 2000 em oito episódios. Nesta
adaptação, assim como o livro,
observamos o percurso de Sofia,
uma jovem de 14 anos, pela his-
tória da Filosofia e suas diferentes questões, trazidas ao
seu cotidiano pelos bilhetes deixados por um misterioso
Alberto Knox e também por cartas trocadas com seu
pai, estabelecendo assim uma narrativa que se constrói
pelos diálogos, tal qual Platão em seus textos filosóficos.
A dinâmica do enredo busca uma imersão visual na-
quilo que seria uma introdução ao pensamento filosófico,
não substituindo o contato com os textos originais, porém
auxilia na apresentação dos principais conceitos sobre
a Filosofia da Antiguidade ao mundo contemporâneo.
ÁGORA
O momento atual é apresentado como a “era da infor-
mação” em virtude da quantidade e rapidez da circulação
de dados de que hoje dispomos. No entanto, observamos,
de um lado, a dificuldade de lidar com tanta informação
ou mesmo de como separar as melhores fontes, como
construir uma opinião e, por outro lado, vemos o cres-
cimento de posturas que se valem da intolerância, da
violência e da irracionalidade para defender seus pre-
tensos “valores”.
Tomando a proposição de Platão, o filósofo como o
“contemplador da verdade”, e colocando em pauta a
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S E N H A
Ubi dubium ibi libertas, provérbio latinona pátria, tornaram-se senhores do
mundo, até que suas divisões os escravizaram.
VOLTAIRE.
Cartas inglesas. Carta n. 8.
São Paulo: Abril, 1978. p. 13.
Coleção Os Pensadores.
NAVEGAR
A segunda metade do século XVIII foi dotada de vários
compositores que podem exemplificar o contexto do
famoso Século das Luzes, como Joseph Haydn (1732-
-1809) e Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791). Foram
Segundo Hobbes, o estado de natureza seria marcado pela violência e pelo conflito.
Para que a humanidade sobrevivesse, foi estabelecido um “contrato social”, tirando a
liberdade dos cidadãos e colocando-os sob o controle do Estado, que passou a deter
o monopólio da violência. Assim sendo, pode-se relacionar o pensamento conservador
citado no texto com o pensamento de Hobbes, apontando uma maldade intrínseca (nas
palavras de Hobbes “O homem é o lobo do próprio homem”).
Rousseau, por sua vez, argumenta no campo oposto, entendendo que o homem na
sua essência é bom, (e daí o conceito do “bom selvagem”, que mais tarde foi resgatado
pelo Romantismo no Brasil), mas pode ser corrompido pela sociedade, o que remete ao
pensamento liberal ao relacionar a violência com a desigualdade social.
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contemporâneos, se conheceram pessoalmente e torna-
ram-se amigos. Ambos tiveram sua produção ligada ao
chamado classicismo (equilíbrio, leveza e simplicidade)
e daí a origem do termo música clássica (o termo mais
abrangente é música erudita, pois acomoda os compo-
sitores de diferentes épocas).
No caso de Haydn são 107 sinfonias e 83 concertos
que enfocaram as mais variadas temáticas, tendo ainda
composto oratórios como A Criação, sonatas e operetas.
Já a obra de Mozart chega ao número de 600 peças de
vários gêneros (oratórios, concertos, sinfonias, sonatas,
óperas), sendo algumas delas, de certa forma, parte de
nosso imaginário coletivo, pois foram usadas inúmeras
vezes em filmes, propagandas e desenhos animados.
Filmes
Ligações perigosas. Dire-
ção: Stephen Frears, 1988.
119 min.
Inspirado no romance de
Choderlos de Laclos, publica-
do em 1782, o filme recupera
o ambiente da aristocracia
francesa às vésperas da Re-
volução de 1789, com toda a
sutileza do ambiente sofisti-
cado dos castelos e teatros, a
vida ociosa de um casal de antigos amantes que se di-
vertiam com as intrigas e conquistas que conseguia
obter no seio da Corte francesa. Uma lição memorável
sobre a vida cortesã e seus dilemas para a manutenção
da reputação e honra, acompanhados daquilo que se
entendia por boa cultura, havendo um destaque especial
para a produção musical.
Amadeus. Direção: Milos
Forman, 1984. 188 min.
O filme procura resgatar a
“aura do gênio” e sua curta
mas intensa carreira entre as
melhores salas de concerto
e a realeza europeia, que,
longe de uma cinebiografia
sisuda, mostra a criatividade
e energia do jovem compo-
sitor que aos 5 anos de idade já seduzia as plateias e
depois se tornou uma referência para a produção musical
de todas as épocas.
PESQUISAR E LER
GRESPAN, Jorge. Revolu-
ção Francesa e Iluminismo.
São Paulo: Contexto, 2003.
O autor rejeita, por exemplo,
a ideia de que o Iluminismo
se limitou a uma elaboração
teórica, ao passo que a Re-
volução teria sido apenas a
sua consequência prática.
Considera o chamado “Espí-
rito das Luzes” já como uma
reflexão sobre um processo revolucionário, no caso,
o ocorrido na Inglaterra no século XVII. Derruba mal-
-entendidos arraigados, sem eliminar a pluralidade de
interpretações possíveis a um dos capítulos fundamentais
da história da humanidade. Nesse livro, pensamento e
ação não são vistos de forma estanque. Do mesmo modo,
trata a Revolução Francesa como representante não só da
concretização daqueles ideais filosóficos, mas também
uma etapa de toda a construção teórica sobre o Iluminismo.
STRATHERN, Paul. Rous-
seau em 90 minutos. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
Jean-Jacques Rousseau
foi um pensador que es-
creveu sobre diferentes
temas (educação, linguísti-
ca, política). Mesmo sendo
contemporâneo de grandes
pensadores, como Kant e
Hume, sua obra teve um
alcance popular bem maior que a de ambos. Autor de
livros ao mesmo tempo profundamente inspiradores e
contraditórios, em que o sentimento muitas vezes vence
o argumento intelectual, Rousseau foi o primeiro a des-
locar os temas da liberdade e da irracionalidade para um
domínio menos intelectualizado.
ÁGORA
O direito consiste na liberdade de fazer ou de omitir,
ao passo que a lei determina ou obriga uma dessas
coisas. De modo que a lei e o direito se distinguem
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tanto como a obrigação e a liberdade, as quais são
incompatíveis quando se referem à mesma matéria.
E dado que a condição do homem é uma condição de
guerra de todos contra todos, sendo neste caso cada
um governado por sua própria razão, e não havendo
nada, de que possa lançar mão, que não possa servir-
-lhe de ajuda para a preservação de sua vida contra
seus inimigos, segue-se daqui que tal numa condição
todo homem tem direito a todas as coisas, incluindo
os corpos dos outros.
HOBBES, Thomas.
Leviatã.
São Paulo: Abril, 1979. p. 78.
os homens nesse estado [de natureza], não tendo entre
si nenhuma espécie de relação moral, nem deveres
conhecidos, não poderiam ser bons nem maus, e não
tinham vícios nem virtudes [...].
ROUSSEAU, Jean-Jacques.
Discurso sobre a origem e os fundamentos da
desigualdade entre os homens.
São Paulo: Abril, 1979. p. 168.
Não conhecemos a priori coisas senão aquelas nas quais nós mesmos nos aplicamos a fundo.
Imannuel Kant, Crítica da razão pura.
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aula 9 FILOSOFIA
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Iluminismo: Kant
Immanuel Kant
Um dos filósofos que mais profundamente influen-
ciaram a formação da filosofia contemporânea, Kant
nasceu em Konigsberg, na Prússia Oriental, que antes
integrava o Império Alemão e atualmente é o enclave
de Kaliningrado, fronteiriço entre e a Polônia e a Lituânia,
mas controlado pela Rússia, onde passou toda a sua vida,
tendo chegado a reitor da Universidade de Konigsberg,
da qual foi estudante e professor. O pensamento de Kant
é tradicionalmente dividido em duas fases: a pré-crítica
(1755-1780) e a crítica (1781 em diante), que se inicia com
a publicação da Crítica da razão pura, sua obra capital. Na
fase pré-crítica o pensamento kantiano está totalmente
inserido na tradição do sistema metafísico de Leibniz e
Wolff, então dominante nos meios acadêmicos alemães.
Sua principal obra nesse período é a dissertação de 1770,
com a qual tornou-se catedrático da universidade, e que,
embora elaborada dentro do quadro conceituai da me-
tafísica tradicional, prenuncia alguns dos temas centrais
da fase crítica, como a questão dos limites da razão e
da solução dos problemas metafísicos. A fase crítica
se inicia, nas palavras do próprio Kant, por influência
de suas leituras dos empiristas ingleses, sobretudo de
Hume. Sobre essa influência, afirmou nos Prolegómenos:
“um lume despertou-me de meu sono dogmático”. As
objeções céticas de Hume ao racionalismo dogmático
e à metafísica especulativa levaram Kant a questionar e
reconsiderar essa tradição, ao mesmo tempo procurando
defender a possibilidade da ciência e da moral, contra o
ceticismo arrasador de Hume.
Crítica da razão pura
Kant apresentou, em 1781, a partir da Crítica da razão
pura, a proposição de pensar a filosofia em dois cam-
pos amplos: os racionalistas e os empiristas, sendo os
primeiros defensores da tese de que algumas verdades
metafísicas são alcançadas simplesmente por meio da
reflexão racional sem referência sensorial, enquanto os
segundos defendem que todo o conhecimento depende
da análise da experiência sensorial. Porém, isso possi-
bilita que alguns postulem um “eu” e outros venham a
negá-lo; unssustentam a noção de substância material e
outros a rejeitam. Assim sendo, a razão leva racionalistas
e empiristas a contradições metafísicas, situação bem
distinta ocorreu com estes nos campos não filosóficos,
como a matemática, por exemplo, que tem um caráter
racionalista e não precisa da experiência sensorial; já
as ciências naturais, apesar de seu envolvimento com a
racionalidade, dependem de dados empíricos que estão
relacionados à experiência sensorial.
Muito bem, desse complexo embate, Kant colocou a
seguinte questão: por que o empirismo e o racionalismo
falharam tanto na metafísica se os instrumentos que
empregaram são plenamente adequados aos estudos
em outros campos de reflexão?
Kant afirma que nem o racionalismo nem o empiris-
mo estão à altura da tarefa de resgatar a metafísica da
confusão e, o que é pior, o espectro do ceticismo paira
sobre tudo. O que na verdade se exige é que a razão se
faça objeto da sua própria indagação para que se possa
determinar seu alcance e limites. Uma investigação crí-
tica da própria razão deve se tornar um tanto delicada,
portanto, não se preocupe demais se o que se seguir for
às vezes muito confuso. Semblantes cerrados e suspiros
profundos são uma resposta normal quando alguém
se aproxima de Kant. Talvez o melhor ponto de partida
para se buscar no sentido de como se desenvolve a sua
FILOSOFIA – AULA 9
O princípio do imperativo categórico age de tal forma
que a norma de tua ação possa ser tomada como lei
universal.
Crítica da razão prática, de Immanuel Kant.C
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investigação tenha duas distinções. A primeira entre as
proposições analíticas e sintéticas. Proposições analíticas
são verdades definicionais. Numa definição precisa, uma
proposição é analítica se seu predicado está contido
dentro do conceito do sujeito. Por exemplo, a proposição
“todos os solteiros são homens adultos não casados” é
analítica, pois o conceito “solteiro” contém dentro de si as
ideias de “não casado”, “adulto” e “homem”. Dado o que
significam os conceitos, essas verdades são necessárias.
Outras proposições, entretanto, introduzem informações
que não estão contidas dentro do conceito do sujeito. São
proposições sintéticas, porque o sujeito e o predicado se
unem para formar (sintetizar) uma verdade informativa.
Um exemplo seria a proposição “todos os meninos jogam
futebol”, na qual está claro que jogar futebol não é parte
do conceito “menino”. Está claro que essas verdades não
são necessárias – para sua verdade depende de como é
o mundo. Kant trabalha com mais uma distinção, desta
vez sobre a forma como as proposições são conhecidas.
Existem preposições a priori e a posteriori, derivadas das
expressões latinas que significam “antes de” e “depois
de”, respectivamente. Não precisamos ter nenhuma
experiência particular para saber a verdade de uma
proposição a priori. Sabe-se que a priori independente-
mente da experiência. Verdades a priori são verdades
necessárias como “2 + 2 = 4” ou “triângulos têm três
lados”. O conhecimento da verdade de uma proposição
a posteriori depende efetivamente da experiência. Não
se sabe que a grama é verde a menos que já se tinha
visto grama. A terminologia empregada que talvez seja
um tanto árida, mas as próprias ideias não são muito
complexas. Basicamente, parece que temos quatro tipos
de proposições:
a) analítica a posteriori
b) sintética a posteriori
c) analítica a priori
d) sintética a priori
É bastante claro que as proposições analíticas a priori
e as proposições sintéticas a posteriori não apresentam
problemas. Os racionalistas se interessam por proposi-
ções analíticas a priori e os empiristas pelas proposições
sintéticas a posteriori. São as duas outras possibilidades
que são estranhas. A ideia de uma proposição analítica a
posteriori não faz muito sentido – por que você precisa
da experiência para conhecer alguma coisa que é ver-
dadeira por definição? Isso deixa apenas o julgamento
sintéticos a priori, o ponto em que as coisas se tornam
muito estranhas e infelizmente muito complexas.
A “revolução copernicana” de
Kant
Tal qual Nicolau Copérnico na Astronomia, que apresen-
tou o heliocentrismo como uma hipótese alternativa ao
geocentrismo, Immanuel Kant promoveu uma resposta ao
problema dos racionalistas e empiristas, estabelecendo
que todos os filósofos até aquele contexto pareciam estar
atuando como os astrônomos geocêntricos, porque es-
tavam buscando um centro que não era verdadeiro. Mas
qual seria esse engano? O erro estava em considerar o
conhecimento tendo como ponto de partida a realidade.
No caso dos racionalistas como Descartes que definia
“coisa pensante” ou “substância pensante”; no caso dos
empiristas a realidade inicial é exterior, o mundo ou a
natureza. Ora, Kant defende que o ponto de partida da
filosofia não pode ser a realidade (seja interna ou externa)
e sim o estudo da própria faculdade de conhecer ou o
estudo da razão.
De fato, os filósofos anteriores, em lugar de, antes
de tudo, estudar o que é a própria razão e indagar que
ela pode ou não pode conhecer, o que é a experiência
e que ela pode ou não pode conhecer, em vez, enfim,
de procurar saber o que é conhecer, o que é pensar e
o que é verdade, preferiram começar dizendo o que é
a realidade (a natureza do espírito humano), afirmando
que ela é racional e que por isso pode ser inteiramente
conhecida pelas ideias da razão.
Colocaram uma realidade ou os objetos do conhe-
cimento no centro e fizeram uma razão ou sujeito do
conhecimento girar em torno dela. Façamos assim uma
“revolução de copernicana” em filosofia escreveu Kant
em sua Crítica da razão pura: “até agora julgava ser que
o nosso conhecimento devia ser regulado pelos obje-
tos, mas agora devemos admitir que os objetos devem
regular-se pelo nosso conhecimento”.
Segundo Kant, Copérnico não completou sua expli-
cação, a qual foi completada e corrigida por Kepler e
Newton, que mostraram que ele (Copérnico) julgava
ser uma boa hipótese e realmente era. Dela surgiu a
necessária explicação astronômica, assim, ao modo de
Copérnico, segue Kant, pois demonstrou também, de ma-
neira universal e necessária, que os objetos se adaptam
ao conhecimento e não o conhecimento aos objetos, ou
seja, comecemos colocando no centro a própria razão:
“Não é a razão a luz natural? Não é ela o sol que ilumina
todas as coisas em torno do qual tudo gira? Comece-
mos, portanto, pelo natural no centro do conhecimento,
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aula 9 FILOSOFIA
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comecemos, então, pela razão porque por meio do seu estudo compreenderíamos o que são sujeito do conhecimento
e o objeto do conhecimento” e isso está na Crítica da razão pura.
A proposição da “crítica” de Kant aponta que não serão examinados os conhecimentos que a razão alcança, e sim as
condições nas quais o conhecimento racional é possível. E a palavra “pura”? Porque se trata de analisar a razão antes
e sem as inferências oferecidas pela experiência. Ele escreve também que não é a crítica de “livros e dos sistemas
filosóficos”, mas da própria faculdade da razão, em geral, considerada em todos os conhecimentos
De fato, nossos conhecimentos começam com a experiência, porém não é verdade que todos eles provêm dela.
Como o estudo se refere às condições necessárias universais de todo conhecimento possível antes da experiência e
sem os dados da experiência, esse estudo não é empírico, então é a priori e não a posteriori. Kant o apresenta como
transcendental, que deve ser entendido como todo conhecimento que em geral se ocupa menos dos objetos e mais de
nosso modo de conhecer, na medida em que este deve ser a priori.
Diz o texto: “Um missionário medieval contou-me que havia encontrado o ponto onde o céu e a Terra se tocam...”. Esta
imagem representa o questionamento da realidade. Será que a compreenderemos? Temos que investigá-la e não aceitar
aquilo que está posto. É o quesustenta Kant.
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Idealismo (do latim tardio idealis)1
Em um sentido geral, “idealismo” significa dedicação, engajamento, compromisso com um ideal, sem preocupação prá-
tica necessariamente, ou sem visar sua concretização imediata. Por exemplo, o idealismo de fulano. O termo “idealismo”
engloba, na história da filosofia, diferentes correntes de pensamento que têm em comum a interpretação da realidade
do mundo exterior ou material em termos do mundo interior, subjetivo ou espiritual. Do ponto de vista da problemática
do conhecimento, o idealismo implica a redução do objeto do conhecimento ao sujeito conhecedor; e no sentido onto-
lógico, equivale à redução da matéria ao pensamento ou ao espírito.
1. A teoria das ideias, de Platão, é, por vezes, impropriamente chamada de idealismo. Na verdade, deve ser conside-
rada um “realismo das ideias”, já que para Platão as ideias constituem uma realidade autônoma – o mundo inteligível
– existente por si mesma, independentemente de nosso conhecimento ou pensamento.
2. Idealismo imaterialista. Segundo Berkeley, a realidade do mundo dos objetos materiais está apenas na existência
destes como ideias, seja na mente de Deus. seja na do homem, criado por Deus. Este é o sentido de seu famoso
pensamento: Esse est percipi (Ser é ser percebido). Ver imaterialismo.
3. Idealismo transcendental. Doutrina kantiana, também conhecida como idealismo crítico, que considera os ob-
jetos de nossa experiência, enquanto dados no espaço e no tempo, como fenômenos, isto é, aparências, devendo
distinguir-se da “coisa em si“ – a realidade enquanto tal – que é para nós incognoscível. O objeto é algo, portanto, que
só existe em uma relação de conhecimento. “Chamo de idealismo transcendental de todos os fenômenos a doutrina
segundo a qual nós os consideramos sem exceção como simples representações, e não como "coisas em si” (Kant).
4. Idealismo alemão pós-kantiano. É o desenvolvimento da doutrina kantiana, sobretudo por Fichte e Schelling,
que no entanto deram a essa doutrina uma interpretação mais subjetiva e menos crítica, prescindindo da noção de
“coisa em si“ e considerando o real como constituído pela consciência.
5. Idealismo absoluto. Termo empregado por Hegel para caracterizar sua metafísica, segundo a qual o real é a
ideia, entendida contudo não em um sentido subjetivo, mas absoluto. Opõe-se, portanto, aos vários tipos de idealis-
mo subjetivista, acima indicados (2-4), e constitui-se em uma forma de monismo. Ver espiritualismo; racionalismo;
psicologismo. Oposto a materialismo, realismo.
6. Na tradição filosófica, o idealismo se opõe fundamentalmente ao materialismo, na medida em que, para ele, o
Universo se reduz, seja a dois princípios heterogêneos, a matéria e o pensamento, seja a um único princípio, o pen-
samento. Nesse caso, os objetos materiais são apenas representações de nosso espírito, ou seja, o ser das coisas
nada mais é do que a ideia que o espírito delas possui. Opõe-se ainda, nesse sentido, a empirismo e a realismo.
7. Contemporaneamente, sob influência da crítica marxista, o termo “idealismo” designa uma concepção generosa
ou ambiciosa, irrealizável ou utópica. Especialmente na moral, frequentemente significa uma ignorância das condições
concretas do agir humano.
Resumo da ópera
Nessa aula, apresentamos o pensamento de Immanuel Kant e sua importância dentro da reflexão filosófica, tendo
como referenciais seus estudos que avançaram no campo da metafísica e epistemologia, dos quais optamos em dar
atenção à Crítica da razão pura, de 1781. Observamos sua extrema importância para o debate anterior entre racionalistas
e empiristas, contribuindo Kant para algo que ficou conhecido como a “revolução copernicana” da filosofia e daí uma
dinâmica de estudos se desdobraram, influenciando outros pensadores de língua alemã (Fichte, Schelling e Hegel) na
continuidade ou mesmo Marx na ruptura, bem como outros intelectuais de outros países, garantindo a Kant um espaço
prioritário na história da Filosofia.
1 JAPIASSU, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991. p. 98.
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EXERCÍCIOS
1. (Enem)
Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade
de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade
se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo
sem a direção de outrem. Tem coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento. A
preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma tão grande parte dos homens, depois que a natureza de há muito
os libertou de uma condição estranha, continua, no entanto, de bom grado menores durante toda a vida.
KANT, Immanuel.
Resposta à pergunta: o que é esclarecimento?
Petrópolis: Vozes, 1985. Adaptado.
Kant destaca no texto o conceito de Esclarecimento, fundamental para a compreensão do contexto filosófico da
Modernidade. Esclarecimento, no sentido empregado por Kant, representa
a) a reivindicação de autonomia da capacidade racional como expressão da maioridade.
b) o exercício da racionalidade como pressuposto menor diante das verdades eternas.
c) a imposição de verdades matemáticas, com caráter objetivo, de forma heterônoma.
d) a compreensão de verdades religiosas que libertam o homem da falta de entendimento.
e) a emancipação da subjetividade humana de ideologias produzidas pela própria razão.
2. (Enem)
Até hoje admitia-se que nosso conhecimento se devia regular pelos objetos; porém, todas as tentativas para descobrir,
mediante conceitos, algo que ampliasse nosso conhecimento, malogravam-se com esse pressuposto. Tentemos, pois,
uma vez, experimentar se não se resolverão melhor as tarefas da metafísica, admitindo que os objetos se deveriam
regular pelo nosso conhecimento.
KANT, Immanuel.
Crítica da razão pura.
Lisboa: Calouste-Gulbenkian, 1994. Adaptado.
O trecho em questão é uma referência ao que ficou conhecido como revolução copernicana na filosofia. Nele,
confrontam-se duas posições filosóficas que
a) assumem pontos de vista opostos acerca da natureza do conhecimento.
b) defendem que o conhecimento é impossível, restando-nos somente o ceticismo.
c) revelam a relação de interdependência entre os dados da experiência e a reflexão filosófica.
d) apostam, no que diz respeito às tarefas da filosofia, na primazia das ideias em relação aos objetos.
e) refutam-se mutuamente quanto à natureza do nosso conhecimento e são ambas recusadas por Kant.
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ESTUDO ORIENTADO
EXERCÍCIOS
1. (Unesp)
Preguiça e covardia são as causas que explicam por que uma grande parte dos seres humanos, mesmo muito após a
natureza tê-los declarado livres da orientação alheia, ainda permanecem, com gosto, e por toda a vida, na condição de
menoridade. É tão confortável ser menor! Tenho à disposição um livro que entende por mim, um pastor que tem cons-
ciência por mim, um médico que prescreve uma dieta etc.: então não preciso me esforçar. A maioria da humanidade vê
como muito perigoso, além de bastante difícil, o passo a ser dado rumo à maioridade, uma vez que tutores já tomaram
para si de bom grado a sua supervisão. Após terem previamente embrutecido e cuidadosamente protegido seu gado,
para que estas pacatas criaturas não ousem dar qualquer passo fora dos trilhos nos quais devem andar, os tutores lhes
mostram o perigo que as ameaça caso queiram andar por conta própria. Tal perigo, porém, não é assim tão grande, pois,
após algumas quedas, aprenderiam finalmente a andar; basta, entretanto, o perigo de um tombo para intimidá-las e
aterrorizá-las por completo para que não façam novas tentativas.
KANT, Immanuel.
apud Danilo Marcondes.
Textos básicosde ética – de Platão a Foucault, 2009.
Adaptado.
O texto refere-se à resposta dada pelo filósofo Kant à pergunta “O que é o Iluminismo?”. Explique o significado da
oposição por ele estabelecida entre “menoridade” e “autonomia intelectual”.
RODA DE LEITURA
Texto I
I — Da Distinção Entre o Conhecimento Puro e o Empírico Não se pode duvidar de que todos os nossos conhecimentos
começam com a experiência, porque, com efeito, como haveria de exercitar-se a faculdade de se conhecer, se não fosse
pelos objetos que, excitando os nossos sentidos, de uma parte, produzem por si mesmos representações, e de outra
parte, impulsionam a nossa inteligência a compará-los entre si, a reuni-los ou separá-los, e deste modo à elaboração da
matéria informe das impressões sensíveis para esse conhecimento das coisas que se denomina experiência? No tempo,
pois, nenhum conhecimento precede a experiência, todos começam por ela. Mas se é verdade que os conhecimentos
derivam da experiência, alguns há, no entanto, que não têm essa origem exclusiva, pois poderemos admitir que o nosso
conhecimento empírico seja um composto daquilo que recebemos das impressões e daquilo que a nossa faculdade cog-
noscitiva lhe adiciona (estimulada somente pelas impressões dos sentidos); aditamento que propriamente não distinguimos
A menoridade citada no texto faz uma relação com a mentalidade e visão de mundo anteriores ao Iluminismo, quando as crenças dominavam a construção dos costumes e saberes,
sempre colocando o homem numa condição de fragilidade (inferior, pecador). Na medida em que o pensamento científico se consolidou pelo domínio e uso da razão, ocorreu a autonomia
do desenvolvimento da inteligência, numa postura mais ousada e afirmativa do homem sobre a vida e o mundo.
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senão mediante uma longa prática que nos habilite a
separar esses dois elementos. Surge desse modo uma
questão que não se pode resolver à primeira vista: será
possível um conhecimento independente da experiên-
cia e das impressões dos sentidos? Tais conhecimentos
são denominados a priori, e distintos dos empíricos,
cuja origem é a posteriori, isto é, da experiência. Aquela
expressão, no entanto, não abrange todo o significado
da questão proposta, porquanto há conhecimentos
que derivam indiretamente da experiência, isto é, de
uma regra geral obtida pela experiência, e que no
entanto não podem ser tachados de conhecimentos
a priori. Assim, se alguém escava os alicerces de uma
casa, a priori poderá esperar que ela desabe, sem
precisar observar a experiência da sua queda, pois,
praticamente, já sabe que todo corpo abandonado no
ar sem sustentação cai ao impulso da gravidade. Assim
esse conhecimento é nitidamente empírico. Conside-
raremos, portanto, conhecimento a priori, todo aquele
que seja adquirido independentemente de qualquer
experiência. A ele se opõem os opostos aos empíricos,
isto é, àqueles que só o são a posteriori, quer dizer, por
meio da experiência. Entenderemos, pois, daqui por
diante, por conhecimento a priori, todos aqueles que
são absolutamente independentes da experiência; eles
são opostos aos empíricos, isto é, àqueles que só são
possíveis mediante a experiência. Os conhecimentos
a priori ainda podem dividir-se em puros e impuros.
Denomina-se conhecimento a priori puro ao que carece
completamente de qualquer empirismo. Assim, p. ex.,
“toda mudança tem uma causa”, é um princípio a priori,
mas impuro, porque o conceito de mudança só pode
formar-se extraído da experiência.
KANT, Immanuel.
Crítica da razão pura, 1781.
Disponível em: dominiopublico.gov.br/download/
texto/cv000016.pdf.
Acesso em: 15 fev. 2016.
Texto II
Definição
Princípios práticos são proposições que encerram
uma determinação universal da vontade, subordinando-
-se a essa determinação diversas regras práticas.
São subjetivos, ou máximas, quando a condição é
considerada pelo sujeito como verdadeira só para a sua
vontade; são, por outro lado, objetivos ou leis práticas
quando a condição é conhecida como objetiva, isto é,
válida para a vontade de todo ser natural.
Escólio
Admitindo-se que a razão pura possa encerrar em si
um fundamento prático, suficiente para a determinação
da vontade, então há leis práticas, mas se não se admite
o mesmo, então todos os princípios práticos serão meras
máximas. Em uma vontade patologicamente afetada por
um ser natural pode observar-se um conflito das máxi-
mas diante das leis práticas conhecidas pelo mesmo.
Exemplifiquemos: alguém pode adotar o axioma de
não suportar qualquer ofensa sem vingá-la, compre-
endendo todavia que isso não constitui nenhuma lei
prática, mas apenas a sua máxima e que, de modo
inverso, como regra para a vontade de todo ser racional,
idêntica máxima não pode concordar em si mesma. No
conhecimento da natureza, os princípios do que ocorre
(por exemplo, o princípio da igualdade da ação e da
reação na comunicação do movimento) são ao mesmo
tempo leis da natureza, pois o uso da oração está ali
determinado teoricamente e pela natureza do objeto.
No conhecimento prático, isto é, aquele que só tem
que tratar dos fundamentos da determinação da von-
tade, os princípios que alguém formula em si mesmo
nem por isso constituem leis a que inevitavelmente se
veja submetido, porque a razão na prática se ocupa do
sujeito, ou seja da faculdade de desejar, segundo cuja
constituição especial pode a regra referir-se por formas
bem diversas. A regra prática é sempre um produto da
razão, porque prescreve a ação, qual meio para o efeito,
considerado como intenção.
Essa regra, porém, para um ser no qual a razão não
é o fundamento único da determinação da vontade
é um imperativo, isto é, uma regra designada por
um “deve ser” (ein Sollen) que exprime a compulsão
(Nötigung) objetiva da ação e significa que se a razão
determinasse totalmente a vontade, a ação ocorreria
indefectivelmente segundo essa regra. Desse modo,
os imperativos valem objetivamente, sendo em tudo
distintos das máximas, não obstante estas constituírem
princípios subjetivos. Determinam aqueles, porém, ou
as condições da causalidade do ser racional como cau-
sa eficiente, só em consideração do efeito e suficiência
para o mesmo, ou, então, determinam só a vontade, seja
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ou não ela suficiente para o efeito. Os primeiros seriam
imperativos hipotéticos e encerrariam meros preceitos
da habilidade; os segundos, de forma inversa, seriam
categóricos, constituindo, somente eles, leis práticas.
Assim, pois, são as máximas, em verdade, princípios,
mas não imperativos. Os próprios imperativos, contudo,
quando condicionados, isto é, quando não determinam
a vontade exclusivamente como vontade, mas somen-
te em vista de um efeito apetecido, ou seja, quando
são imperativos hipotéticos, constituem, portanto,
preceitos práticos, mas não leis. Devem estas últimas
determinar suficientemente a vontade, mesmo antes
que eu indague se tenho a faculdade necessária para
um efeito apetecido ou o que devo fazer para produzir
esse efeito; devem, portanto, ser categóricas, pois do
contrário não são leis, faltando-lhes a necessidade
que, se tem de ser prática, urge ser independente de
condições patológicas e, por isso mesmo, casualmente
ligadas à vontade. Dizei a alguém, por exemplo, que
deve trabalhar e poupar na juventude para não sofrer a
miséria na velhice; trata-se isto de um preceito prático
da vontade, exato e importante ao mesmo tempo.
Vê-se porém logo, nesse caso, que a vontade é
referente a alguma outra coisa que se supõe desejar,
devendo esse desejo ser confiado ao próprio agente,
pois talvez preveja ele alguma outra fonte de auxílio,
além da fortuna por ele próprio adquirida, ou não espera
chegar a ser velho, ou pensa que uma vez chegado ao
caso de miséria, poderá satisfazer-secom pouco.
A razão, da qual unicamente pode sair toda a regra
que deva conter necessidade, inclui imediatamente
também a necessidade nesse seu preceito (pois sem
esta não seria imperativo); mas esta necessidade só
está condicionada subjetivamente e não cabe supô-la
em todos os objetos em grau idêntico. Contudo, para
a sua lei se exige que só necessite supor-se ela a si
mesma, porque a regra é objetiva e universalmente
verdadeira só quando vale sem as condições subjetivas,
contingentes, que distinguem um ser natural de outro.
Pois bem; dizei a alguém que nunca deve fazer promes-
sas falsas: tal regra só se refere à sua vontade, sejam
ou não as intenções que o homem pode ter, realizáveis
por essa vontade; o mero querer é o que deve ser de-
terminado completamente a priori por aquela regra. Se,
todavia, acharmos essa regra praticamente exata, então
é uma lei, porque se trata de um imperativo categórico.
Dessa forma, porém, só à vontade se referem as leis
práticas, sem ter em conta o que for efetuado pela
causalidade da vontade, podendo-se fazer abstração
dessa causalidade (como pertencente ao mundo dos
sentidos) para obter puras essas leis práticas.
KANT, Immanuel.
Crítica da razão prática. Trad. Afonso Bertagnoli. São
Paulo: Brasil Editora, 1959.
Disponível em: institutoelo.org.br/site/files/publications/
bb907f18d02eb6febb5d17e176bb287c.pdf.
Acesso em: 15 fev. 2016.
NAVEGAR
Filme
Laranja mecânica. Direção:
Stanley Kubrick, 1971, 136 min.
Inspirado no romance futu-
rista de Anthony Burgess (A
Clockwork Orange, em inglês),
escrito em 1962, o enredo se
articula a partir das ações de
uma gangue de delinquentes
liderada por Alex DeLarge, que
em suas ações buscavam a
satisfação de seus desejos e
impulsos imediatos.
A conexão com o pensamento kantiano é que Alex
observa os impulsos, que são exteriores a ele, e, assim,
os padrões morais são postos de lado.
PESQUISAR E LER
STRATHERN, Paul. Kant
em 90 minutos. Rio de Janei-
ro: Jorge Zahar, 1999.
Análise da obra e pensa-
mento de Kant, abordando
os principais conceitos den-
tro de sua ampla produção
intelectual, a qual trouxe im-
portantes contribuições para
os campos da epistemologia,
ética, direito e matemática.
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Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência.
Marx e Engels, A Ideologia alemã.
S E N H A
LEITE, Flamarion Tavares.
10 lições sobre Kant. Petrópo-
lis: Vozes, 2007.
Apresenta os conceitos
básicos para a introdução
aos textos de Kant, buscando
familiarizar o leitor com o ar-
cabouço filosófico necessário
para a análise da epistemolo-
gia, da ética e do conceito de
liberdade.
ÁGORA
Atividade: discussão sobre o comportamento juvenil
no Brasil contemporâneo.
A partir da análise do filme Laranja mecânica, dirigido
por Stanley Kubrick, procure comparar, no contexto do
filme e de nossa época, elementos que:
a) caracterizem uma aproximação com o discurso do
filme.
b) caracterizem o distanciamento entre o enredo do
filme e a atualidade.
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Hegel, Marx e Nietzsche
O século das ciências
O ponto de partida da periodização da Revolução
Industrial é a Inglaterra da década de 1780. Segundo o
historiador inglês Eric Hobsbawm, “qualquer que tenha
sido a razão do avanço britânico, ele não se deveu à su-
perioridade tecnológica e científica. Nas ciências naturais,
os franceses estavam seguramente à frente dos ingleses,
vantagem que a Revolução Francesa veio acentuar de for-
ma marcante, pelo menos na Matemática e na Física, pois
ela incentivou as ciências na França, enquanto a reação
suspeitava delas na Inglaterra. Até mesmo nas ciências
sociais os britânicos ainda estavam muito longe daquela
superioridade que fez – e em grande parte ainda faz – da
economia um assunto eminentemente anglo-saxão; mas
a Revolução Industrial colocou-os em um inquestionável
primeiro lugar”.1
Dessa forma, podemos chamar Primeira Revolução
Industrial o período entre aproximadamente 1780 e 1850,
marcado pelas máquinas feitas em ferro e que usavam
a energia a vapor, oriunda da queima do carvão mineral
que aquecia as caldeiras de água, produzindo o vapor
necessário à movimentação de engrenagens que tinham
inúmeras funções, nas mais diferentes áreas.
A principal transformação ocorrida na indústria foi a
invenção da máquina a vapor por James Watt (1736-1819),
em 1769, ensejando a ampliação da produção, antes de-
pendente da força física humana. Além disso, surgiram
em fins do século XVIII os teares mecânicos como o de
Edmund Cartwright (1743-1823), de 1785, fato que explica
a concentração de máquinas no setor têxtil.
1 HOBSBAWM, Eric. A era das revoluções: 1789-1848. São Paulo: Paz e Terra, 2003. p. 52.
A tecnologia à base de vapor foi também usada em
meios de transporte, e tanto o barco a vapor do esta-
dunidense Robert Fulton, de 1807, quanto a locomotiva
a vapor de George Stephenson (1781-1848), de 1825,
causaram mudanças decisivas nos transportes e favore-
ceram a intensificação do processo de industrialização.
Desse período, destaca-se também a invenção do te-
légrafo pelo estadunidense Samuel Morse (1791-1872),
que possibilitou a comunicação rápida a longa distância:
um emissor passava uma mensagem codificada em pul-
sos magnéticos, que eram transmitidos por fios (cabos
telegráficos); na unidade de recepção, uma máquina
marcava num papel a sequência de sinais recebidos – e
chamado código Morse –, que seriam decodificados e a
mensagem lida, e o mesmo sistema podia ser adaptado
para a comunicação com sinais luminosos (o acender e
apagar de uma lanterna). A primeira linha telegráfica foi
instalada em 1844, ligando Washington a Baltimore, na
costa leste dos Estados Unidos.
Os conhecimentos sobre eletricidade e eletromag-
netismo resultaram das pesquisas do físico e químico
britânico Michael Faraday (1791-1867), que concebeu a
teoria da indução eletromagnética e as leis da eletrólise,
indispensáveis para o entendimento das relações entre
energia química e elétrica.
Inicialmente restrita à Inglaterra, a Revolução Indus-
trial, na primeira metade do século XIX, espalhou-se
pela Europa continental, atingindo a Bélgica e a França.
Esse dinamismo se acentuou ao longo do XIX, com a
ampliação das áreas industriais e a concorrência entre
as potências europeias.
Esse processo levou à chamada Segunda Revolução
Industrial, consequência das mudanças iniciadas em
fins do século XVIII, com as máquinas a vapor movidas a
carvão. Não só quanto aos processos de produção, mas
também quanto à dinâmica do sistema capitalista, na
segunda fase da Revolução Industrial (de 1850 a 1950),
FILOSOFIA – AULA 10
O pensamento, o conceito de direito fez-se de repente
valer e o velho edifício de iniquidade não lhe pode resis-
tir [...]. Desde que o sol está no firmamento [...] não se
tinha visto o homem [...] basear-se numa ideia e cons-
truir segundo ela a realidade.
A Filosofia do Direito, de Georg Hegel.H
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aumentaram as áreas industriais e se intensificou a busca
de fontes de matérias-primas e mercados consumidores.
Em virtude do aumento da produção, a estrutura do
sistema capitalista cresceu e se sofisticou, principalmente
depois da ideia da produção em série – padronizada e
em larga escala – e, também no final do século XIX, com
o surgimento da linha de montagem, criada por Henry
Ford, nos EUA.
Nesse contexto, Nikolaus Otto desenvolveu o motor a
explosão (combustão interna), e Rudolf Diesel (1858-1913)
o aperfeiçoou, com a introdução do petróleo, concor-
rendo para a criação do automóvel e de outros veículos
como o caminhão, o trator, o ônibus e, posteriormente, o
avião, inventado pelo brasileiro Alberto Santos Dumont.
Seu primeirovoo foi documentado em 23 de outubro de
1906, no aparelho chamado 14-Bis, na cidade de Paris.
Apesar disso, os irmãos estadunidenses Orville e Wilbur
Wright afirmaram ter realizado um voo com o aparelho
Flyer I em 17 de dezembro de 1903, informação apenas
registrada num diário e sem a presença de testemunhas.
Na chamada Segunda Revolução Industrial, incrementa-
ram-se sobretudo as comunicações. Em 1877, o escocês
Alexander Graham Bell (1847-1922) inventa o telefone e
desenvolve um cilindro de cera em que se podia registrar
sons, criando as condições para a invenção do gramofone,
pelo alemão Emil Berliner, em 1887. A partir da teoria
sobre ondas publicada pelo inglês James Clerk Maxwell
(1831-1879) em 1873 e dos estudos do físico alemão
Heinrich Hertz (1857-1894), o italiano Guglielmo Marconi
(1874-1937) concebe um aparelho radiofônico – o rádio.
Em 1926, o escocês John Logie Baird (1888-1946) cria a
televisão e, em 1949, surge a base tecnológica para a
transmissão a longa distância, tornando-a mais acessível
e dando origem a uma nova concepção de comunicação
de massa que substituiu o rádio, senhor absoluto entre
as décadas de 1920 e 1950.
Além das transformações tecnológicas, no campo po-
lítico e econômico, o neocolonialismo foi vital para que
as potências industriais pudessem ampliar sua cadeia
produtiva. Portanto, a busca de matérias-primas e de
mercados implicou um processo de conquista e domi-
nação e daí a concepção de um neocolonialismo, o qual
teve a necessidade de construir uma argumentação que
buscava sustentar suas ações e, nesse caso, os versos
de Rudyard Kipling (1865-1935), poeta inglês nascido na
Índia britânica, são esclarecedores:
Aceitai o fardo do homem branco,
Enviai os melhores de vossos filhos,
Condenai vossos filhos ao exílio,
Para que sejam os servidores de seus cativos.
A ideia de Kipling é que o homem branco teria um
“fardo”, uma dura e difícil missão a cumprir, a qual seria a
transmissão da civilização europeia aos primitivos povos
que a desconheciam, portanto, quando o poeta fala em
“Condenai vossos filhos ao exílio,/ Para que sejam os
servidores de seus cativos”, está implícita a ideia de que o
melhor da juventude ocidental deveria assumir os postos
de controle e comando nas remotas colônias, cumprindo
a tarefa da missão civilizatória e por isso ser “servidores”
e não “dominadores”, apesar de o terem sido, afinal a
“transmissão do conhecimento superior europeu” foi um
desdobramento da dominação política, econômica, militar
e cultural que as potências capitalistas desenvolveram.
A visão de uma posição de superioridade pode ser en-
tendida como um discurso de autoafirmação que, entre
outras fontes, teria se desdobrado da leitura equivocada
da teoria evolucionista apresentada por Charles Darwin
em seu livro Teoria geral da evolução das espécies,
publicado em 1859. Darwin apresenta a competição
existente entre as espécies animais e nesta se manifes-
taria o processo denominado de “seleção natural”, no
qual as espécies mais bem adaptadas sobrevivem e as
menos adaptadas perecem, sendo a evolução, portanto,
o resultado desse processo.
Alguns intelectuais e cientistas acabaram por aplicar
a concepção de “mais e menos evoluído” para a espécie
humana, concebendo assim uma explicação para as
diferenças gritantes que distanciavam os povos tidos
como “primitivos” e os chamados “evoluídos”. Nasceu,
assim, o darwinismo social, uma visão que potencializou
o pensamento racista.
Tendo vivido num tempo de grandes avanços científi-
cos, o filósofo inglês Herbert Spencer (1820-1903) foi o
principal representante do evolucionismo nas ciências hu-
manas. Ele intuiu a existência de regras evolucionistas na
natureza antes de seu compatriota, o naturalista Charles
Darwin (1809-1882), formular a revolucionária teoria da
evolução das espécies. É ele o autor da expressão “sobre-
vivência do mais apto”, muitas vezes atribuída a Darwin.
O filósofo aplicou à sociologia ideias que retirou das
ciências naturais, criando um sistema de pensamento
muito influente a seu tempo. Suas conclusões o levaram
a defender a primazia do indivíduo perante a sociedade e
o Estado, e a natureza como fonte da verdade, incluindo
a verdade moral, daí o conceito chamado de darwinismo
social.
O campo das ciências médicas também se influenciou
pelo discurso do darwinismo social e surgiu o conceito
de “raças” humanas (branca, amarela, negra e verme-
lha) cujas diferenças poderiam ser estabelecidas pela
FILOSOFIA aula 10
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Antropometria, técnica de medição de partes do corpo
humano que nos fins do século XIX e primeira metade
do século XX seria usada como ferramenta para a sus-
tentação do racismo, especialmente entre os nazistas.
O século XIX foi o momento da consolidação da indepen-
dência de várias disciplinas que compunham a formação
humanista e, naquele contexto, passaram a ser ensinadas
dentro de cursos específicos, os quais se desdobraram em
ferramentas para a afirmação do discurso imperialista e
da melhor compreensão das áreas e povos dominados:
História, Geografia, Arqueologia e Antropologia.
Foi nesse “caldo de cultura” que fervilharam as ideias
responsáveis pela base do pensamento nazista, fruto de
uma mera adaptação aos delírios de Hitler que releu a
ideologia racista vigente na virada do século XIX para o XX.
Georg Friedrich Hegel
Hegel: a dialética idealista.
De que fala Georg Hegel (1770-1831) no texto em epí-
grafe? Relembra a Revolução Francesa (1789), evento
notável que ocorreu quando ele tinha 19 anos. Na Prússia,
acompanhou apaixonadamente os acontecimentos que
marcaram um ponto de ruptura da história: a derrocada
do mundo feudal e o fortalecimento da ordem burgue-
sa. É essa a contradição dialética cuja resolução Hegel
aponta como sendo a tarefa da Razão. Sendo alemão,
Hegel continuará vivendo essa contradição, na medida
em que a Prússia e os Estados alemães se achavam, de
certa forma, ainda mergulhados em tradições e costumes
oriundos da ordem feudal, mesmo que politicamente
divididos em diversos Estados não unificados.
Segundo Roger Garaudy, marxista francês: “O método
que elaborou para tentar vencer as dilacerações e as
contradições do seu tempo – a dialética idealista – só
pode ser compreendido a partir da experiência viva e do
drama vivido que suscitaram nele a exigência filosófica”.2
A dialética idealista
A filosofia de Hegel é uma filosofia do devir (do movi-
mento, do “vir a ser”). Para compreender a realidade em
constante processo, Hegel abandona a lógica tradicional,
aristotélica, que considera inadequada para a explicação
do movimento. Estabelece os princípios de uma nova
lógica: a dialética. Segundo a dialética, todas as coisas
e ideias morrem. Como diz Goethe: “Tudo o que existe
merece desaparecer”. Mas essa força destruidora é
também a força motriz do processo histórico.
O movimento da dialética se faz em três etapas: tese,
antítese e síntese. A antítese é a negação da tese, e a sín-
tese é a superação da contradição entre tese e antítese.
Da abordagem dialética resulta um novo conceito de
história. O presente é retomado como resultado de longo
e dramático processo; a história não é a simples acu-
mulação e justaposição de fatos acontecidos no tempo,
mas é resultado de verdadeiro engendramento, de um
processo cujo motor interno é a contradição dialética.
Ao explicar o movimento gerador da realidade, Hegel
desenvolve a dialética idealista: no sistema hegeliano, a
racionalidade não é mais um modelo a se aplicar, “mas
é o próprio tecido do real e do pensamento”. O mundo
é a manifestação da Ideia, “o real é racional e o racional
é real”. “A história universal nada mais é do que a mani-
festação da Razão”.
No movimento dialético, a Razão passa por diversos
graus, desde a natureza inorgânica até as formas mais
complexas da vida social. Entre estas, Hegel se refere
ao Espírito objetivo, ou seja, o espíritoexterior do ho-
mem enquanto expressão da vontade coletiva por meio
da moral, do direito, da política: o Espírito objetivo se
realiza naquilo que se chama mundo da cultura e assim,
para Hegel, o Estado é uma das mais altas sínteses do
Espírito objetivo.
2 GARAUDY, R. O pensamento de Hegel. São Paulo: L&PM, 1983. p. 8.
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A concepção de Estado
As teorias sobre o Estado foram desenvolvidas por He-
gel na obra Filosofia do direito, na qual critica a tradição
naturalista típica dos filósofos contratualistas. Estes, ao
elaborarem a hipótese do homem em estado de natureza,
desenvolveram a concepção de que a sociedade é com-
posta por indivíduos isolados que se reúnem motivados
por um pacto, a fim de formar artificialmente o Estado e
garantir a liberdade individual e a propriedade privada.
Ao contrário das teorias contratualistas, a concepção
hegeliana nega a anterioridade dos indivíduos, pois é o
Estado que fundamenta a sociedade. Não é o indivíduo
que escolhe o Estado, mas sim é por ele constituído. Ou
seja, não existe o homem em estado de natureza, pois o
homem é sempre um indivíduo social. O Estado sinteti-
za, numa realidade coletiva, a totalidade dos interesses
contraditórios entre os indivíduos. Assim como a família
é a síntese dos interesses contraditórios entre seus
membros, e a sociedade civil a síntese que supera as
divergências entre as diversas famílias, o Estado repre-
senta a unidade final, a síntese mais perfeita que supera
a contradição existente entre o privado e o público.
No movimento dialético, as esferas da família e da
sociedade civil não devem ser entendidas como formas
anteriores ou exteriores ao Estado, pois na verdade só
existem e se desenvolvem no Estado. Quando Hegel
usa a expressão sociedade civil, lhe dá um sentido novo,
correspondente à esfera intermediária entre a família e o
Estado. A sociedade civil é o lugar das atividades econômi-
cas, e, portanto, onde prevalecem os interesses privados,
sempre antagônicos entre si. Por isso mesmo é o lugar
das diferenças sociais e conflituosas entre ricos e pobres
e da rivalidade dos profissionais entre si. Para superar as
contradições que põem em perigo a coletividade, é preciso
reconhecer a soberania do Estado. Nele, cada um tem a
clara consciência de agir em busca do bem coletivo, sendo,
assim, por excelência, a esfera dos interesses públicos e
universais. A importância do Estado na filosofia política de
Hegel levou a interpretações diversas, inclusive a de que
ele teria sido o teórico do absolutismo prussiano, o que,
em última análise, justificaria o Estado totalitário do século
XX. Vários filósofos se insurgiram contra essa simplificação
deformadora do seu pensamento, desde o próprio Karl
Marx até os contemporâneos à ascensão dos fascismos
como Eric Weil (1904-1977).
Pelo menos até o momento histórico vivido por Hegel, a
monarquia constitucional representava para ele a melhor
forma de governo, a que melhor corresponde ao “espírito
do tempo”. Com ela não se corre o risco de pôr o indivíduo
em primeiro plano, já que o domínio do monarca não é
autônomo e independente, mas regido pelas leis e pelo
bem do Estado. Isso seria possível pelo fato de a monar-
quia constitucional opor-se ao despotismo, não sendo,
portanto, o governo de um só, e os poderes do Estado se
encontrarem divididos e exercidos por diversos órgãos.
A influência da filosofia hegeliana
Hegel exerceu grande influência no desenvolvimento
do pensamento político posterior, e seus seguidores
dividiram-se em dois grupos opostos, denominados
esquerda e direita hegeliana. Essa cisão foi provocada
por uma querela de origem religiosa incitada por David F.
Strauss, teólogo e autor de Vida de Jesus, na interpretação
do pensamento de Hegel.
Os da direita são os discípulos conservadores e mantêm
a filosofia idealista do mestre; na política, defendem o
estado prussiano e, na religião, seguem o luteranismo. Os
da esquerda transformam a filosofia idealista em mate-
rialista; na política, defendem a anarquia ou um regime
socialista e, na religião, são ateus ou anticristãos. Entre
estes estão Feuerbach e, posteriormente, Marx e Engels,
os quais, ao realizarem a inversão do idealismo hegeliano,
assentam as bases do materialismo dialético: “A dialética
de Hegel foi colocada com a cabeça para cima ou, dizendo
melhor, ela que se tinha apoiado exclusivamente sobre
sua cabeça, foi de novo reposta sobre seus pés“.
Outra divergência se encontra na concepção de Marx,
para quem o Estado não representa a síntese que supe-
raria os interesses contraditórios da sociedade civil, mas
estaria a serviço da classe dominante.
Hegelianismo3
Nome genérico atribuído ao destino póstumo da Filoso-
fia de Hegel, que formou um grande número de discípulos
que logo se dividiram em dois grupos: os hegelianos de
direita e os hegelianos de esquerda. Assim, o impacto
do sistema hegeliano sobre a Filosofia foi inegável. Esse
sistema, que se esforça por reunir o espírito e a nature-
za, o universal e o particular, o ideal e o real, foi tomado
como referência, tanto por pensadores conservadores
(de direita) quanto por revolucionários (de esquerda),
tanto por crentes quanto por ateus. Os hegelianos de
direita se tornaram os campeões do liberalismo. Quanto
aos hegelianos de esquerda, apoiando-se na teoria da
religião e da sociedade, converteram-se em defensores
ardorosos da transformação revolucionária da sociedade.
Entre estes últimos, Feuerbach e Marx foram os mais
ilustres. Lenin dizia: “Para se compreender Marx, é preciso
ter compreendido Hegel”.
3 JAPIASSU, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de Filosofia. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1991. p. 90.
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Historicismo4
1. Método filosófico que tenta explicar sistematicamen-
te pela história, isto é, pelas circunstâncias da evolução
das ideias e dos costumes ou pelas transformações
das estruturas econômicas, todos os acontecimentos
relevantes do direito, da moral, da religião e de todas as
formas de progresso da consciência.
2. De modo especial, teoria segundo a qual o direito,
como produto de uma criação coletiva, evolui com a
comunidade que o criou, só podendo ser compreendido
numa perspectiva histórica.
Sob sua aparência liberal, essa teoria é bastante rea-
cionária, pois faz do direito a estrutura inconsciente de
uma comunidade sacralizada por seu próprio passado.
3. Convém distinguir entre historicismo filosófico e histo-
ricismo epistemológico ou metodológico. O primeiro faz da
história o fundamento de uma concepção geral do mundo
ou, então, considera que todos os fenômenos sociais e
humanos só são inteligíveis mediante o recurso da cate-
goria “história” (frequentemente fundada numa oposição
radical entre natureza e história). O segundo recusa toda e
qualquer concepção do mundo, vendo na história apenas
uma das condições de inteligibilidade do real.
Karl Marx
Marx: a dialética materialista.
4 Ibidem. p. 94.
Karl Marx (1818-1883) foi um filósofo alemão, nascido
em Trier de uma família judia convertida ao protestantis-
mo. Sua obra teve grande impacto em sua época e na for-
mação do pensamento social e político contemporâneo.
Estudou Direito nas Universidades de Bonn e de Berlim,
doutorando-se pela Universidade de Jena (1841), com
uma tese sobre a filosofia da natureza de Demócrito e de
Epicuro. Ligou-se aos “jovens hegelianos de esquerda”,
escrevendo em jornais socialistas. Depois de um intenso
período de militância política, marcado pela fundação da
“liga” dos comunistas (1847) e pela redação, com Engels,
do Manifesto do Partido Comunista (1848), exilou-se na
Inglaterra (1849), onde viveu até a sua morte, desenvol-
vendo suas pesquisas e escrevendo grande parte de sua
obra na biblioteca do Museu Britânico, em Londres.
Sua obra não se restringe ao campo da filosofiaapenas,
mas abrange ainda sobretudo os campos da história, da
ciência política e da economia. O pensamento de Marx
desenvolve-se a partir do contato com a obra dos econo-
mistas ingleses como Adam Smith e David Ricardo, e da
ruptura com o pensamento hegeliano e com a tradição
idealista da filosofia alemã. E então que surge o materia-
lismo histórico, segundo o qual as relações sociais são
determinadas pela satisfação das necessidades da vida
humana, não sendo apenas uma forma, dentre outras,
da atividade humana, mas a condição fundamental de
toda a história.
Logo, a economia política, que estuda a natureza dessas
relações de produção, deve ser a base de todo estudo
sobre o homem, sua vida social e sua expressão cultu-
ral. Grande parte das obras de Marx foram escritas em
colaboração com Engels, sendo por vezes difícil separar
as ideias de um e as de outro. Apesar de ter elaborado
um grande número de obras teóricas nos mais diversos
campos da filosofia e das ciências sociais, Marx nunca
abandonou a militância política, nem a convicção de que
a tarefa de uma filosofia, que se queira verdadeiramente
crítica, deve ser a transformação da realidade. Escreveu
também um grande número de artigos para jornais, meio
como ganhou a vida em Londres. Nesses textos, analisou
os eventos históricos e políticos de sua época como as
comunas de Paris. Suas principais obras são: A crítica da
filosofia do Direito de Hegel (1843, publicada postuma-
mente); A sagrada família (1845), em colaboração com
Engels; A ideologia alemã (1845-1846), em colaboração
com Engels, também publicada postumamente; A miséria
da filosofia: resposta à filosofia da miséria de Proudhon
(1847); A luta de classes na França (1850); 0 18 Brumário
de Luís Bonaparte (1852); Crítica da economia política
(1859) e 0 capital, 3 vols. (1867-1895), tendo Engels cola-
borado na edição desta última.
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Marxismo
Termo que designa tanto o pensamento de Karl Marx
e de seu principal colaborador, Friedrich Engels, como
também as diferentes correntes que se desenvolveram
a partir do pensamento de Marx, levando a se distinguir,
por vezes, entre o marxismo (relativo a esses desenvol-
vimentos) e o pensamento marxiano (do próprio Marx). A
obra de Marx estende-se em múltiplas direções, incluindo
não só a filosofia, como a economia, a ciência política,
a história etc.; e sua imensa influência se encontra em
todas essas áreas. O marxismo é, por vezes, também
conhecido como materialismo histórico, materialismo
dialético e socialismo científico (termo empregado por
Engels). O pensamento filosófico de Marx desenvolve-se
a partir de uma crítica da filosofia hegeliana e da tradição
racionalista. Considera que essa tradição, por manter suas
análises no plano das ideias, do espírito, da consciência
humana, não chegava a ser suficientemente crítica por
não atingir a verdadeira origem dessas ideias – a qual
estaria na base material da sociedade, na sua estrutura
econômica e nas relações de produção que esta mantém.
Isso equivaleria, segundo Marx, a “colocar o homem de
Hegel de cabeça para baixo”. Seria, portanto, necessário
analisar o capitalismo – modo de produção da socie-
dade contemporânea para Marx – a fim de revelar sua
natureza de dominação e exploração do proletariado, e
desmascará-la. O pensamento de Marx, entretanto, não
se restringe a uma análise teórica, mas busca formular os
princípios de uma prática política voltada para a revolução
que destruiria a sociedade capitalista para construir o
socialismo, a sociedade sem classes, chegando ao fim
do Estado. “Os filósofos sempre se preocuparam em
interpretar a realidade, é preciso agora transformá-la.”
O marxismo se desenvolveu em várias correntes que
podemos subdividir em políticas e teóricas, embora nem
sempre a fronteira entre ambas seja muito nítida. Entre
as correntes políticas temos, por exemplo, o marxismo-
-leninismo, ou simplesmente leninismo, também cha-
mado de marxismo ortodoxo, ou materialismo dialético,
que se tornou a doutrina oficial na União Soviética, após
a revolução de 1917; o trotskismo, de Leon Trotsky,
que defendeu contra o leninismo a teoria da revolução
permanente: o maoísmo, doutrina desenvolvida por
Mao Tsé-Tung, que chegou ao poder na China após a
revolução de 1947. Entre as correntes teóricas, podemos
destacar os seguintes pensadores e escolas: o alemão
Karl Kautsky (1854-1938), um dos principais seguidores
de Marx, defensor de um marxismo revolucionário, contra
tendências revisionistas como a de Eduard Bernstein;
o húngaro Georg Lukács (1885-1971), que propõe uma
interpretação de Marx valorizando suas raízes hegelianas;
o alemão Karl Korsch (1889-1961), que enfatiza a base
filosófica da teoria social e política de Marx; o austro-
-marxismo de, entre outros, Max Adler (1873-1937), que
incorpora elementos kantianos à sua interpretação de
Marx; o alemão Ernst Bloch (1885-1977), que insere o
marxismo na tradição do idealismo alemão; o italiano
Antônio Gramsci (1891-1937), fundador do Partido Comu-
nista Italiano e que desenvolve uma filosofia da práxis; o
francês Louis Althusser (1918-1990), que faz uma leitura
de Marx em uma perspectiva estruturalista; o marxismo
de Sartre; o marxismo da Escola de Frankfurt de Theodor
Adorno (1903-1969), Max Horkheimer (1895-1973), Walter
Benjamin (1892-1940) e posteriormente Herbert Marcuse
(1898-1979) e Jürgen Habermas (1929), que se volta para
a análise da sociedade industrial, do capitalismo avança-
do e de sua produção cultural. Muitas dessas correntes
encontram-se inclusive em conflito, cada uma buscando
ser mais fiel ao pensamento autêntico de Marx; porém
umas enfatizam seu aspecto econômico e político, outras
a análise histórica, outras ainda o caráter filosófico: umas
destacam a influência de Hegel, outras a doutrina revolu-
cionária. Um dos aspectos mais polêmicos da interpreta-
ção do pensamento de Marx diz respeito à sua atualidade,
ou seja, à validade da análise marxista, voltada para a
realidade do surgimento do capitalismo no século XIX,
com sua aplicação agora à sociedade contemporânea
e ao capitalismo avançado, que possui características
não previstas por Marx. Por esse motivo, várias dessas
correntes se denominam “neomarxistas”, na medida em
que constituem tentativas de desenvolvimento e adap-
tação do pensamento de Marx a essa nova realidade.
A mais-valia
Conceito fundamental utilizado por Marx para sublinhar
a exploração imposta ao proletariado pelo proprietário
dos meios de produção: a força de trabalho dos operários
é o único valor de uso capaz de multiplicar o valor. Ao
vender sua força de trabalho ao empregador, em troca de
um salário, ela se torna um valor da troca como qualquer
outra mercadoria: “o valor da força de trabalho é deter-
minado pela quantidade de trabalho necessária à sua
produção”. Todavia, o empregador prolonga ao máximo
a duração do trabalho do operário. Esse sobretrabalho
cria um sobreproduto, uma mais-valia que não é paga ao
trabalhador, que lhe é subtraída e marca a sua exploração.
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Quando a mais-valia é aumentada pela introdução de
máquinas mais aperfeiçoadas, por um controle maior da
produção individual ou por uma aceleração do ritmo de
trabalho, falamos de mais-valia relativa. E o único modo,
segundo a teoria marxista, de se acabar com a mais-valia,
é substituir a propriedade privada pela propriedade co-
letiva dos meios de produção.
Materialismo histórico
A ideia principal é que as transformações sociais são
decorrentes das forças econômicas; portanto, a economia
formava a base da sociedade (a infraestrutura), e esta
interagia sobre os demais elementos (política, religião,
cultura etc.), constituindo a superestrutura. A somatória
desses eventos constituía o que foi chamado por Marx
de modo de produção: “Na produção capitalista, o tra-
balhador é não proprietáriodas condições de produção;
[não é] nem [proprietário] do campo que lavra, nem do
instrumento que trabalha. A essa alienação das condições
de produção corresponde aqui, entretanto, uma mudança
real no próprio modo de produção. O instrumento se
transforma em máquina; o trabalhador trabalha em ofi-
cina etc. O próprio modo de produção não mais permite
essa dispersão dos instrumentos de produção ligada à
pequena propriedade, tão pouco à dispersão dos próprios
trabalhadores. Na produção capitalista, a usura não pode
mais separar as condições de produção do trabalhador
e o produtor, porque estes já se encontram separados”.
Friedrich Nietzsche
Pintura de Edvard Munch, c., 1906.
O pensamento de Nietzsche (1844-1900) se orienta no
sentido de recuperar as forças inconscientes, vitais, ins-
tintivas subjugadas pela razão durante séculos. Para tanto,
critica Sócrates por ter encaminhado pela primeira vez a
reflexão moral em direção ao controle racional das pai-
xões. Segundo Nietzsche, nasce aí o homem desconfiado
de seus instintos, tendo essa tendência culminado com o
cristianismo, que acelerou a “domesticação” do homem.
Em diversas obras, como Sobre a genealogia da moral, Para
além do bem e do mal e Crepúsculo dos ídolos, em estilo
apaixonado e mordaz, Nietzsche faz a análise histórica da
moral e denuncia a incompatibilidade entre esta e a vida.
Em outras palavras, o homem, sob o domínio da moral,
se enfraquece, tornando-se doentio e culpado. Nietzsche
relembra a Grécia homérica, do tempo das epopeias e
das tragédias, considerando-a como o momento em que
predominam os verdadeiros valores aristocráticos, quando
a virtude reside na força e na potência, sendo atributo do
guerreiro belo e bom, amado dos deuses. Nessa pers-
pectiva, o inimigo não é mau: “Em Homero, tanto o grego
quanto o troiano são bons. Não passa por mau aquele que
nos inflige algum dano, mas aquele que é desprezível”. Ao
fazer a crítica da moral tradicional, Nietzsche preconiza
a “transvaloração de todos os valores”. Denuncia a falsa
moral, “decadente”, “de rebanho”, “de escravos”, cujos
valores seriam a bondade, a humildade, a piedade e o
amor ao próximo. Contrapõe a ela a moral “de senhores”,
uma moral positiva que visa à conservação da vida e dos
seus instintos fundamentais.
A moral de senhores é positiva, porque baseada no
sim à vida, e se configura sob o signo da plenitude, do
acréscimo. Por isso se funda na capacidade de criação,
de invenção, cujo resultado é a alegria, consequência da
afirmação da potência. O homem que consegue superar-
-se é o Super-homem (Ubermensch, expressão alemã
que significa “além do homem”, “sobre-humano”, “que
transpõe os limites do humano”). À moral aristocrática,
moral de senhores, que é sadia e voltada para os instintos
da vida, Nietzsche contrapõe o pensamento socrático-
-platônico (que provoca a ruptura entre o trágico e o
racional) e a tradição da religião judaico-cristã. A moral
que deriva daí é a moral de escravos, moral decadente
porque baseada na tentativa de subjugação dos instintos
pela razão. O homem-fera, animal de rapina, é transfor-
mado em animal doméstico ou cordeiro. A moral plebeia
estabelece um sistema de juízos que considera o bem
e o mal valores metafísicos transcendentes, isto é, in-
dependentes da situação concreta vivida pelo homem.
A moral de escravos nega os valores vitais e resulta na
passividade, na procura da paz e do repouso. O homem
se torna enfraquecido e diminuído em sua potência.
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aula 10 FILOSOFIA
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A alegria é transformada em ódio à vida, o ódio dos
impotentes. A conduta humana, orientada pelo ideal as-
cético, torna-se marcada pelo ressentimento e pela má
consciência. O ressentimento nasce da fraqueza e é no-
civo ao fraco. O homem ressentido, incapaz de esquecer,
é como o dispéptico: fica “envenenado” pela sua inveja
e impotência de vingança. Ao contrário, o homem nobre
sabe “digerir” suas experiências, e esquecer é uma das
condições de manter-se saudável. A má consciência ou
sentimento de culpa é o ressentimento voltado contra
si mesmo, daí fazendo nascer a noção de pecado, que
inibe a ação. O ideal ascético nega a alegria da vida e
coloca a mortificação como meio para alcançar a outra
vida num mundo superior, do além. Assim, as práticas
de altruísmo destroem o amor de si, domesticando os
instintos e produzindo gerações de fracos.
Ao pensarmos nessa concepção de ascese, Nietzsche
revisita os estoicos apontando o conceito de amor fati,
literalmente “amor do destino”, portanto, relacionando a
uma ideia de fatalidade, desse modo, aponta o ensejo, a
busca daquilo que virá e, assim, a dimensão do futuro tem
um espaço bastante caro no pensamento nietzschiano.
É por isso que contra o enfraquecimento do homem,
contra a transformação de fortes em fracos – tema
constante da reflexão nietzschiana – é necessário
assumir uma perspectiva além de bem e mal, isto é,
“além da moral”. Mas, por outro lado, para além de
bem e mal não significa para além de bom e mau. A
dimensão das forças, dos instintos, da vontade de po-
tência, permanece fundamental. “O que é bom? Tudo
que intensifica no homem o sentimento de potência, a
vontade de potência, a própria potência. O que é mau?
Tudo que provém da fraqueza.
MACHADO, R.
Nietzsche e a verdade.
São Paulo: Paz e Terra, 1999. p. 68.
Moral (lat. moralis, de mor-, mos: costume) –
definições5
1. Em um sentido amplo, sinônimo de ética como teoria
dos valores que regem a ação ou conduta humana, ten-
do um caráter normativo ou prescritivo. Em um sentido
mais estrito, a moral diz respeito aos costumes, valores
e normas de conduta específicos de uma sociedade ou
cultura, enquanto a ética considera a ação humana do
5 JAPIASSU, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de Filosofia. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1991. p. 134.
seu ponto de vista valorativo e normativo, em um sentido
mais genérico e abstrato.
2. Pode-se distinguir entre uma moral do bem, que visa
estabelecer o que é o bem para o homem – a sua felicidade,
realização, prazer etc., e como se pode atingi-lo –, e uma
moral do dever, que representa a lei moral como um im-
perativo categórico, necessária, objetiva e universalmente
válida: “O dever é uma necessidade de se realizar uma
ação por respeito à lei” (Kant).
Segundo Kant, a moral é a esfera da razão prática que
responde à pergunta: “O que devemos fazer?
Apolíneo/apolinismo6
Termos criados por Nietzsche e derivados de Apolo, que
ele opõe a Dioniso. Segundo Nietzsche, Apolo é o deus
da medida e da harmonia, enquanto Dioniso é o deus da
embriaguez, da inspiração e do entusiasmo. “Apolíneo“,
diz Nietzsche, significa “contemplativo, que é fonte de
harmonia e beleza”, enquanto “dionisíaco“ significa “de
exaltação trágica e patética da vida”. A palavra apolinis-
mo designa a contemplação extasiada de um mundo de
imaginação e de sonho, do mundo da bela aparência que
nos liberta do devir; por sua vez, o dionisismo concebe
ativamente o devir, sente-o objetivamente como a “vo-
lúpia curiosa do criador” (Nietzsche).
Dionisíaco7
Termo utilizado por Nietzsche, derivado do nome do
deus Dioniso, deus da embriaguez, da inspiração e do
entusiasmo, para designar a vontade de potência, cujo
enfraquecimento podemos encontrar na massa do reba-
nho: ela é a pulsão fundamental da vida. Contra a moral
do pecado, precisamos querer viver, declara Nietzsche,
pois é o “instinto” que representa o poder criador da
vida. Ao combater a transcendência, defende a ideia de
que o homem deve ser ultrapassado num esforço de
criação pessoal. Donde a necessidade de uma transmu-
tação dos valores: o bem encontra-se na exaltação do
sentimento de poder: o mal, em tudo que o contraria.
Oposto a apolíneo.
Resumo da ópera
Nesta aula, trabalhamos com três autores que influen-
ciaram as discussões filosóficas e políticas do século XIX
em diante: Hegel e Marx desenvolveramseu pensamento
a partir da dialética, mas de modos distintos. Enquanto
6 Idem, Ibidem. p. 16.
7 Idem, Ibidem. p. 55.
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Hegel entendia que a síntese estava no espírito, Marx entendia que ela estava na matéria, originando o materialismo
dialético. Quanto à concepção de História que ambos desenvolveram também era diferente, porque Hegel pensava
numa “progressão histórica” como se fosse um resultado da “revelação do espírito” e Marx pensava como a quebra da
opressão por meio da derrubada da burguesia.
A linha de pensamento de Nietzsche se articulou numa posição diferente da de Hegel e Marx pelo fato de se afastar
do idealismo kantiano, negando uma finalidade à História, apresentando uma visão de que o homem passava por uma
crise, daí a ruptura com os valores a sua volta e o desapego, direcionando-o para o “nada” e, assim, temos o nihilismo
e o consequente questionamento da fé, resultando na expressão: “Deus está morto”.
EXERCÍCIOS
1. (UEM)
A filosofia de Hegel constitui, assim, exemplo de um grandioso e radical investimento especulativo, qualificado como
ideia de liberdade. Ao mesmo tempo em que tem a pretensão de analisar a liberdade segundo um modo conceitual (lógico-
-ontológico), quer, também, compreendê-la como uma forma histórica de sua manifestação. Ou, dito de outro modo, sem
abandonar o seu caráter autorreferencial (subjetivo), o filósofo pretende efetivá-la na sua necessária forma institucional
(objetiva). […] Se a liberdade subjetiva não alcançar essa dimensão e se circunscrever no âmbito dos interesses e desejos
particulares dos indivíduos nas suas relações privadas, o próprio princípio da liberdade se vê ameaçado.
MARÇAL, J. (org.)
Antologia de textos filosóficos.
Curitiba: SEED-PR, 2009. p. 309.
Com base na citação anterior, assinale as alternativas corretas;
01) O livre-arbítrio constitui uma ameaça para a realização da liberdade.
02) A liberdade deve ser pensada em dois planos distintos: o primeiro, autorreferencial ou subjetivo, e o segundo,
institucional ou objetivo.
04) A efetividade do Estado e das instituições sociais constitui um obstáculo para os desejos particulares dos indi-
víduos.
08) O exercício da liberdade é característico de um processo historicamente definido.
16) A liberdade é uma síntese da religião com o autoconhecimento.
2. (Enem)
Na produção social que os homens realizam, eles entram em determinadas relações indispensáveis e independentes de
sua vontade; tais relações de produção correspondem a um estágio definido de desenvolvimento das suas forças materiais
de produção. A totalidade dessas relações constitui a estrutura econômica da sociedade – fundamento real, sobre o qual
se erguem as superestruturas política e jurídica, e ao qual correspondem determinadas formas de consciência social.
MARX, K.
Prefácio à Crítica da economia política.
In: MARX, K.; ENGELS, F.
Textos 3.
São Paulo: Edições Sociais, 1977. Adaptado.
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Para o autor, a relação entre economia e política estabelecida no sistema capitalista faz com que
a) o proletariado seja contemplado pelo processo de mais-valia.
b) o trabalho se constitua como o fundamento real da produção material.
c) a consolidação das forças produtivas seja compatível com o progresso humano.
d) a autonomia da sociedade civil seja proporcional ao desenvolvimento econômico.
e) a burguesia revolucione o processo social de formação da consciência de classe.
3. (Enem)
A filosofia grega parece começar com uma ideia absurda, com a proposição: a água é a origem e a matriz de todas
as coisas. Será mesmo necessário deter-nos nela? Sim, e por três razões: em primeiro lugar, porque essa proposição
enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque o faz sem imagem e fabulação; e enfim, em terceiro
lugar, porque nela, embora apenas em estado de crisálida, está contido o pensamento: Tudo é um.
NIETZSCHE, F.
Crítica moderna.
São Paulo: Nova Cultural, 1999.
Coleção Os pré-socráticos.
O que, de acordo com Nietzsche, caracteriza o surgimento da filosofia entre os gregos?
a) O impulso para transformar, mediante justificativas, os elementos sensíveis em verdades racionais.
b) O desejo de explicar, usando metáforas, a origem dos seres e das coisas.
c) A necessidade de buscar, de forma racional, a causa primeira das coisas existentes.
d) A ambição de expor, de maneira metódica, as diferenças entre as coisas.
e) A tentativa de justificar, a partir de elementos empíricos, o que existe no real.
ESTUDO ORIENTADO
Caro(a) aluno(a),
Ao estudarmos Hegel, Marx e Nietzsche precisamos observar, tanto nos fragmentos de textos selecionados na Roda
de Leitura quanto naqueles que formam os enunciados dos exercícios, quais são os conceitos presentes e quais são
as características que marcam o pensamento dos autores.
Os exercícios escolhidos mostram como os conceitos referentes à filosofia do século XIX vêm sendo cobrados nos
exames e aí se observa a importância da leitura, reflexão e interpretação dos textos e sua relação com seu período de
produção.
Os filmes indicados no Navegar têm a perspectiva de apresentar uma rica crítica à sociedade que conhecemos, tanto
no âmbito coletivo (Germinal e A classe operária vai ao paraíso) quanto no âmbito das reflexões sobre as crises pessoais
(Quando Nietzsche chorou) e, assim, amarramos as principais discussões desenvolvidas neste capítulo.
Bons estudos!
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EXERCÍCIOS
1. (UFU) A respeito do conceito de dialética, Hegel faz a seguinte afirmação:
O interesse particular da paixão é, portanto, inseparável da participação do universal, pois é também da atividade do
particular e de sua negação que resulta o universal.
HEGEL, G. W. F.
Filosofia da História. 2. ed.
Tradução de Maria Rodrigues e Hans Harden.
Brasília: Editora da UnB, 1998. p. 35.
Com base no pensamento de Hegel, assinale a alternativa correta.
a) O particular é irracional, por isso é a negação do universal, portanto, a História não é guiada pela Razão, mas se deixa
conduzir pelo acaso cego dos acontecimentos que se sucedem sem nenhuma relação entre eles.
b) O universal é a somatória dos particulares, de modo que a História é tão só o acumulado ou o agregado das partes
isoladas, e assim elas estão articuladas tal como engrenagens de uma grande máquina.
c) O particular da paixão é a ação dos indivíduos, sempre em oposição à finalidade da História, isto é, do universal da
Razão que governa o mundo, mas esta depende da ação dos indivíduos, sem os quais ela não se manifesta.
d) O universal é a vontade divina que por intermédio da sua ação providente preserva os homens de todos os perigos,
evitando que se desgastem com suas paixões, assim, o humano é preservado desde o seu surgimento na Terra.
2. (UFSJ) Na filosofia de Friedrich Nietzsche, é fundamental entender a crítica que ele faz à metafísica. Nesse sentido,
é CORRETO afirmar que essa crítica
a) tem o sentido, na tradição filosófica, de contentamento, plenitude.
b) é a inauguração de uma nova forma de pensar sem metafísica através do método genealógico.
c) é o discernimento proposto por Nietzsche para levar à supressão da tendência que o homem tem à individualidade
radical.
d) pressupõe que nenhum homem, de posse de sua razão, tem como conceber uma metafísica qualquer, que não
tenha recebido a chancela da observação.
e) a metafísica é válida, pois trata de Deus e da liberdade humana.
3. (Unesp)
Texto I
Com o desenvolvimento industrial, o proletariado não cresce unicamente em número; concentra-se em massas cada
vez maiores, fortalece-se e toma consciência disso. A partir daí os trabalhadores começam a formar sindicatos contra
os burgueses, atuando em conjunto na defesa dos salários. De todas as classes que hoje se defrontam com a burguesia,
apenas o proletariado é uma classe verdadeiramente revolucionária. Todos os movimentos históricos precedentesque significa “Onde há dúvida, há liberdade”.
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FILOSOFIA – AULAS 1 E 2
Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo.
SócratesD
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Pré-socráticos e Sócrates
Periodização da Filosofia grega
Apesar das controvérsias existentes entre seus atuais estudiosos, a Filosofia grega pode ser dividida em quatro perí-
odos que englobam grande parte da história da Hélade entre os séculos VII a.C. e VI d.C.:
– Período pré-socrático ou cosmológico (do fim do século VII ao fim do século V a.C.), cujo principal objeto de
estudo foi a origem da Natureza (physis) e suas diferentes transformações.
– Período socrático ou antropológico (fim do século V e todo o século IV a.C.), quando a Filosofia investigava
questões humanas como a ética, a política e as técnicas. Nesse período, há duas referências, em campos opostos:
os sofistas e Sócrates.
– Período sistemático (fim do século IV ao fim do século III a.C.), no qual Aristóteles conseguiu sistematizar as di-
ferentes concepções ligadas ao conhecimento acumulado até então e agregou ainda um elemento novo, a lógica.
– Período helenístico ou greco-romano (fim do século III a.C. até o século VI d.C.), quando houve assimilação da
Hélade pelo império de Alexandre e sua posterior anexação aos domínios romanos, no século II a.C.
Abdera
Tasos
Estagira
Eleia
Atenas
Creta
Quios
Mileto
Clazômenas
Esmirna
Éfeso
Laodiceia
Pérgamo
Cízico
Demócrito (470-?)
Aristóteles (384-322)
Parmênides (515-?)
Zenão (490-?)
Sócrates (470-399)
Platão (430-349)
Samos
Pitágoras (570-500)
Heráclito (580-540)
Tales (640-562)
Anaximandro (580-520)
A
VI
TS
FILOSOFIA aulas 1 e 2
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A busca da origem do Kosmos
As cosmogonias são, de certa forma, narrativas sobre
as origens do mundo. Em geral, elas estão presentes
nos mitos, isto quando não são a sua essência. Falam
de união sexual entre deuses, que geram o mundo, ou
da união sexual entre deuses e humanos, que costu-
mam criar situações complexas e dar o enredo a uma
história que explica divisões, guerras, ciúmes, paixões,
disputas sobre a justiça etc. Já as cosmologias estão
mais para o campo do pensamento filosófico do que
para o pensamento mitológico. Para vários autores da
história da Filosofia, elas são a origem do pensamento
filosófico, e outros, mais propensos a verem continuidade
do que rupturas na história do pensamento, tendem a
vê-las como o início do pensamento científico. As cos-
mologias são teorias a respeito da natureza do mundo.
As cosmogonias são genealogias, diferentemente das
cosmologias, que são o conhecimento a respeito de
elementos primordiais, mas naturais. O pensamento
cosmológico remete à physis, a palavra grega que tem
a ver com o que é eterno e de onde tudo surge, nasce,
brota. Trata-se de um elemento imperecível, que gera
todos os outros elementos naturais, que são perecíveis.
“A origem das coisas”
Entender a Natureza a partir de uma investigação
racional tratou de gradativamente se estabelecer
um novo percurso para a compreensão do que nos
cerca, sem querer levar em conta, as manifestações
sobrenaturais, seja dos deuses, seja dos astros ou
espíritos, cabendo uma nova forma de se posicionar
sobre os fenômenos naturais e as ações humanas.
– A compreensão do Kosmos: o Universo;
– O estudo da physis: a natureza.
– Tales: o fundamental é a água.
– Anaximandro: o kosmos é submetido ao Apeiron.
– Anaxímenes: o fundamental é o ar.
– Pitágoras: o número é o regente das formas e ideias.
– Heráclito: o fundamental é o fogo.
– Parmênides: o Uno. “Não posso falar do que não é”.
Os filósofos pré-socráticos
Este termo que designa, na história da Filosofia, os
pensadores gregos que viveram entre o século VII e os
meados do século IV a.C. Sócrates nasceu em 470 e mor-
reu em 399 a.C. (todas as datas, antes de Cristo, são, na
sua maioria, estimativas). Nem todos, portanto, viveram
antes de Sócrates.
São também denominados fisiólogos por se ocuparem
com o conhecimento do mundo natural (physis), a com-
preensão da Natureza. Tales de Mileto (640-548 a.C.) é
considerado, já por Aristóteles, como o “primeiro filósofo”,
devido à sua busca de um primeiro princípio natural que
explicasse a origem de todas as coisas. Tales é tido como
fundador da escola jônica, que inclui seu discípulo Anaxi-
mandro. As principais escolas filosóficas pré-socráticas,
além da escola jônica, são: a escola atomista, incluindo
Leucipo (450-420 a.C.) e Demócrito (460-370 a.C.); a escola
pitagórica, fundada por Pitágoras de Samos (século VI a.C.);
a escola eleata, de Xenófanes (século VI a.C.), bem como de
Parmênides (510 a.C.) e seu discípulo Zenão; e a escola mo-
bilista, de Heráclito (480 a.C.). Com Sócrates e os sofistas, a
Filosofia grega toma novo rumo, sendo que a preocupação
cosmológica deixa de ser predominante, dando lugar a uma
preocupação maior com a experiência humana, o domínio
dos valores e o problema do conhecimento.
Muitos desses pensadores foram, antes de tudo,
cosmólogos. E vários deles trabalharam em um sentido
reducionista, isto é, tentaram encontrar uma substân-
cia única, força exclusiva, ou princípio básico capaz de
ser apresentado como o elemento efetivamente real
e primordial do cosmos. A Filosofia dos pré-socráticos
(filósofos da natureza) voltava o seu pensamento para a
origem (racional) do mundo, do cosmos. Ou seja, estes
filósofos dedicavam-se às investigações cosmológicas,
buscando a arché (o princípio fundamental de todas as
coisas). De seus escritos, quase tudo se perdeu, restando
apenas poucos fragmentos.
Tales de Mileto (624-546 a.C.) – É considerado “o pai
da Filosofia grega”. Para ele, a água seria o elemento
primordial (a arché) de tudo o que existe. Atribui-se a
Tales a demonstração do primeiro teorema de geometria
(embora o estudo sistemático desta ciência tenha real-
mente começado na escola de Pitágoras, no séc. VI a.C.).
Anaximandro de Mileto (610-546 a.C.) – O princípio
gerador de todas as coisas, segundo Anaximandro, seria
o apeiron (em grego, significa "ilimitado", "indetermina-
do" "que não tem limite", "infinito"). A ordem do mundo
teria surgido do caos em virtude deste princípio. Assim, o
apeiron seria o princípio original de todos os seres, tanto
de seu aparecimento quanto de sua dissolução.
Anaxímenes de Mileto (585-528 a.C.) – Segundo esse
pensador, o elemento gerador de tudo é o ar. Por meio
da rarefação e da condensação, o ar forma tudo o que
existe. “Da mesma maneira que a nossa alma, que é ar,
nos mantém vivos, também o sopro e o ar mantém o
mundo inteiro”.
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aulas 1 e 2 FILOSOFIA
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Pitágoras de Samos (570-495 a.C.) – Enquanto os seus
antecessores e contemporâneos buscavam a origem de
todas as coisas em elementos (água, ar e fogo), Pitágoras
entendia que o Universo seria derivado de relações ma-
temáticas; portanto, a estrutura das formas e do cosmos
estaria nos números, assumindo a matemática como um
“molde” para a elaboração do pensamento filosófico e,
nisso, as ideias seriam regidas pelos números.
Heráclito de Éfeso (536-475 a.C.) – É conhecido como
o filósofo do devir, da mudança. De acordo com Heráclito,
o logos ("razão", "inteligência", "discurso", "pensamen-
to") governa todas as coisas, e está associado ao fogo,
gerador do processo cósmico. Tudo está em incessante
transformação: “panta rei” ("tudo flui" em grego). As
coisas estão, pois, em constante movimento, nada per-
manece o mesmo (“não nos banhamos duas vezes no
mesmo rio”). Todavia, não se deve deduzir dessa afir-
mação que Heráclito defendeu uma teoria da mudança
contínua desregrada. Ao contrário, ele entendia que havia
uma lógica – o lógos – governando tal mudança contínua.
Parmênides de Eleia (515-445 a.C.) – Para Parmênides,
o ser é uno, imóvel, eterno, imutável. Desse modo, o devir,
a mudança, seria ilusão e simples aparência; o movimentoforam
movimentos minoritários, ou em proveito de minorias. O movimento proletário é o movimento consciente e independente,
da imensa maioria, em proveito da imensa maioria. Proletários de todos os países, uni-vos!
MARX, K; ENGELS, F.
Manifesto comunista, 1982.
Adaptado.
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aula 10 FILOSOFIA
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Texto II
Só pelo fato de pertencer a uma multidão, o homem
desce vários graus na escala da civilização. Isolado
seria talvez um indivíduo culto; em multidão é um ser
instintivo, por consequência, um bárbaro. Possui a
espontaneidade, a violência, a ferocidade e também
o entusiasmo e o heroísmo dos seres primitivos e a
eles se assemelha ainda pela facilidade com que se
deixa impressionar pelas palavras e pelas imagens e
se deixa arrastar a atos contrários aos seus interesses
mais elementares. O indivíduo em multidão é um grão
de areia no meio de outros grãos que o vento arrasta
a seu bel-prazer.
LE BON, Gustave.
Psicologia das multidões, 1980.
Descreva duas diferenças entre os dois textos,
quanto às suas concepções sobre o papel das mul-
tidões na história.
4. (Unesp) Leia os textos.
Texto I
Ora, a propriedade privada atual, a propriedade bur-
guesa, é a última e mais perfeita expressão do modo de
produção e de apropriação baseado nos antagonismos
de classes, na exploração de uns pelos outros. Neste
sentido, os comunistas podem resumir sua teoria nesta
fórmula única: a abolição da propriedade privada. [...] A
ação comum do proletariado, pelo menos nos países
civilizados, é uma das primeiras condições para sua
emancipação. Suprimi a exploração do homem pelo
homem e tereis suprimido a exploração de uma nação
por outra. Quando os antagonismos de classes, no in-
terior das nações, tiverem desaparecido, desaparecerá
a hostilidade entre as próprias nações.
MARX, K; ENGELS, F.
Manifesto comunista, 1848.
Texto II
Os comunistas acreditam ter descoberto o caminho
para nos livrar de nossos males. Segundo eles, o ho-
mem é inteiramente bom e bem disposto para com
seu próximo, mas a instituição da propriedade privada
corrompeu-lhe a natureza. [...] Se a propriedade privada
fosse abolida, possuída em comum toda a riqueza e
permitida a todos a partilha de sua fruição, a má von-
tade e a hostilidade desapareceriam entre os homens.
[...] Mas sou capaz de reconhecer que as premissas
psicológicas em que o sistema se baseia são uma ilusão
insustentável. [...] A agressividade não foi criada pela
propriedade. [...] Certamente [...] existirá uma objeção
muito óbvia a ser feita: a de que a natureza, por dotar os
indivíduos com atributos físicos e capacidades mentais
extremamente desiguais, introduziu injustiças contra as
quais não há remédio.
FREUD, Sigmund.
Mal-estar na civilização, 1930.
Adaptado.
Qual a diferença que os dois textos estabelecem so-
bre a relação entre a propriedade privada e as ten-
dências de hostilidade e agressividade entre os ho-
mens e as nações? Explicite, também, a diferença
entre os métodos ou pontos de vista empregados
pelos autores dos textos para analisar a realidade.
RODA DE LEITURA
Texto I
A razão como base da história
O único pensamento que a filosofia traz para o trata-
mento da história é o conceito simples de Razão, que
é a lei do mundo e, portanto, na história do mundo as
coisas aconteceram racionalmente. Essa convicção e
percepção é uma pressuposição da história como tal; na
A primeira diferença está na perspectiva dos autores, porque Marx pensa no proletariado
como um “coletivo” que soma a massa de explorado, e esta seria capaz de se unir e se
articular para romper a opressão e assumir o controle da sociedade, enquanto Le Bon
vê a multidão como algo negativo e perigoso, situação que impossibilita a organização e
o benefício do indivíduo, o qual se dissolveria no coletivo.
A segunda diferença entre os textos encontra-se na natureza do estudo, porque Marx
tem um olhar histórico e sociológico ao pensar a humanidade, enquanto Le Bon faz o
caminho oposto, buscando olhar o “eu” para compreender melhor o coletivo a partir das
ferramentas teóricas da Psicologia.
Na visão de Marx, a propriedade privada seria o ponto de tensão marcante ao longo da
história. De acordo com ele, se a propriedade privada fosse abolida, as tensões e desi-
gualdades desapareceriam, uma vez que a coletivização traria o equilíbrio à humanidade.
Freud, por sua vez, entende que as tensões e os conflitos derivam de elementos ligados
à individualidade e à personalidade, que o ser humano traz desde seu nascimento.
Sendo assim, tais situações não seriam resolvidas apenas com a distribuição igualitária
de bens e riqueza.
Quanto à metodologia, Marx faz uma análise do homem pelo coletivo (a sociedade, o
proletariado) e se ocupa de entender os fenômenos sociais e políticos, enquanto Freud
faz o caminho contrário, analisando o ser humano por sua personalidade, buscando nas
profundezas do “eu” explicações para os diferentes comportamentos que a humanidade
seria dotada, diagnosticando novas doenças e distúrbios e, assim, abrindo um novo
campo de estudos: a Psicanálise.
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própria filosofia, a pressuposição não existe. A filosofia
demonstrou através de sua reflexão especulativa que a
Razão – esta palavra poderá ser aceita aqui sem maior
exame da sua relação com Deus – é ao mesmo tempo
substância e poder infinito, que ela é em si o material
infinito de toda vida natural e espiritual e também é a
forma infinita, a realização de si como conteúdo. Ela
é substância, ou seja, é através dela e nela que toda
a realidade tem o seu ser e a sua subsistência. Ela é
poder infinito, pois a Razão não é tão impotente para
produzir apenas o ideal, a intenção, permanecendo em
uma existência fora da realidade – sabe-se lá onde –
como algo característico nas cabeças de umas poucas
pessoas. Ela é o conteúdo infinito de toda a essência e
verdade, pois não exige, como o faz a atividade finita, a
condição de materiais externos, de meios fornecidos de
onde extrair-se o alimento e os objetos de sua atividade;
ela supre seu próprio alimento e sua própria referência.
E ela é forma infinita, pois apenas em sua imagem e
por ordem sua os fenômenos surgem e começam a
viver. É a sua própria base de existência e meta final
absoluta e realiza esta meta a partir da potencialidade
para a realidade, da fonte interior para a aparência
exterior, não apenas no universal natural, mas também
no espiritual, na história do mundo. Que esta Ideia ou
Razão seja o Verdadeiro Poder Eterno e Absoluto e
que apenas ela e nada mais, sua glória e majestade,
manifeste-se no mundo – como já dissemos, isto já foi
provado em filosofia e aqui está sendo pressuposto
como demonstrado.
Aqueles dentre os senhores que não tenham ainda
conhecido a filosofia talvez já tenham sido convidados
a participar destas lições sobre a história do mundo
com a crença na Razão, com um desejo, uma sede
por sua compreensão. É realmente esse desejo pela
compreensão racional, pelo conhecimento, e não
simplesmente por uma acumulação de fatos diversos,
que deveriam ser pressupostos como aspiração sub-
jetiva no estudo das ciências. Pois, mesmo que não
se estivesse abordando a história do mundo com a
reflexão e o conhecimento da Razão, pelo menos se
deveria ter a fé invencível e firme de que há Razão na
história, acreditando que o mundo da inteligência e da
vontade consciente não está abandonado ao simples
acaso, mas deve manifestar-se à luz da Ideia racional.
Mas na verdade não tenho de exigir esta fé por anteci-
pação. O que eu disse aqui provisoriamente e repetirei
mais tarde deve ser tomado como visão resumida de
conjunto, mesmo em nosso ramo da ciência. Não é
uma pressuposição de estudo, é um resultado que
por acaso conheço porque eu já conheço o conjunto.
Portanto, apenas o estudo da história do mundo em si
pode mostrar que ela continuou racionalmente, que ela
representa a trajetóriaé, assim, engano dos nossos sentidos. “O ser é, o não ser
não é”, ou seja: o ser imutável, eterno, permanente das
coisas, é o único que existe, enquanto o não ser, que seria
a mudança, não existe.
Demócrito de Abdera (460-371 a.C.) – Demócrito
entendia que tudo no Universo seria composto de mi-
núsculas partículas indivisíveis e imutáveis, daí o termo
"átomo" (a partícula negativa “a” e a palavra “tomos”,
"que não pode ser partido", em grego). Tais partículas se
moveriam livremente, uma vez que, entre elas, só haveria
o vazio, podendo se deslocar e colidir, formando novas
composições. Sua teoria foi denominada "atomismo" e
buscou propor uma explicação distintas das cosmogonias
que falavam das ações dos deuses no Universo, propon-
do, portanto, uma visão de caráter mecanicista para a
ordenação do homem, do mundo e de tudo que existe.
Sócrates
A vida de Sócrates nos é contada por Xenofonte (em
suas Memorabilia) e por Platão, que faz dele o personagem
central de seus diálogos, sobretudo Apologia de Sócrates
e Fédon. Ele nasceu em Atenas. Sua mãe era parteira;
seu pai, escultor. Recebeu uma educação tradicional:
aprendizagem da leitura e da escrita a partir da obra de
Homero. Conhecedor das doutrinas filosóficas anteriores e
contemporâneas (Parmênides, Zenão, Heráclito), participou
do movimento de renovação da cultura empreendido pelos
sofistas, mas se revelou um inimigo destes.
Consolidador da Filosofia, nada deixou escrito. Par-
ticipou ativamente da vida da cidade, dominada pela
desordem intelectual e social, submetida à demagogia
dos que sabiam falar bem. Convidado a fazer parte do
Conselho dos 500, manifestou sua liberdade de espírito
combatendo as medidas que julgava injustas. Permane-
ceu independente em relação às lutas travadas entre os
partidários da democracia e da aristocracia.
Acreditando obedecer a uma voz interior, realizou uma
tarefa de educador público e gratuito. Colocou os homens
em face da seguinte evidência oculta: as opiniões não
são verdades, pois não resistem ao diálogo crítico. São
contraditórias. Acreditamos saber, mas precisamos des-
cobrir que não sabemos. A verdade, escondida em cada
um de nós, só é visível aos olhos da razão.
Acusado de introduzir novos deuses em Atenas e de
corromper a juventude, foi condenado pela cidade. Irritou
seus juízes com sua mordaz ironia. Morreu tomando
cicuta. É conhecido seu famoso método, sua arte de
interrogar, sua “maiêutica”, que consiste em forçar o
interlocutor a desenvolver seu pensamento sobre uma
questão que ele pensa conhecer, para conduzi-lo, de
consequência em consequência, a contradizer-se, e,
portanto, a confessar que nada sabe.
No Teeteto, Platão mostra Sócrates definindo sua tarefa
filosófica por analogia à de uma parteira (profissão de sua
mãe), sendo que, em vez de dar à luz crianças, o filósofo
“dá à luz ideias” (maieutiké: "arte do parto", em grego).
O filósofo deveria, portanto, segundo Sócrates, provocar
nos indivíduos o desenvolvimento de seu pensamento de
modo que estes viessem a superar sua própria ignorância,
descobrindo, por si próprios, com o auxílio do “parteiro”,
a verdade que trazem em si.
Enquanto método filosófico, praticado por Sócrates,
a maiêutica consiste em um procedimento dialético no
qual o filósofo, partindo das opiniões que seu interlocutor
tem sobre algo, procura fazê-lo cair em contradição ao
defender seu ponto de vista, vindo, assim, a reconhecer
sua ignorância acerca daquilo que julgava saber. Ao re-
conhecermos nossa ignorância, descobrimos, pela razão,
a verdade que temos em nós.
As etapas do saber são:
I) ignorar sua ignorância;
II) conhecer sua ignorância;
III) ignorar seu saber;
IV) conhecer seu saber.
FILOSOFIA aulas 1 e 2
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Sua famosa expressão “conhece-te a ti mesmo” não
é uma investigação psicológica, mas um método de se
adquirir a ciência dos valores que o homem traz em si. “O
homem mais justo de seu tempo”, nos dizeres de Platão,
foi condenado à morte sob a acusação de impiedade e
de corrupção da juventude.
O período socrático ou antropológico (fim do século V
e todo o século IV a.C.) se refere a quando a Filosofia
investigava questões humanas como a ética, a política
e as técnicas. Nesse período, há duas referências, em
campos opostos: os sofistas e Sócrates. Os primeiros
refutavam os ensinamentos dos filósofos cosmológicos,
dizendo que eram imprecisos e inúteis à pólis e se apre-
sentavam como mestres na oratória, cujo domínio faria
dos jovens bons cidadãos.
Sócrates dizia que sua sabedoria era limitada à sua
própria ignorância. Segundo ele, a verdade, escondida
em cada um de nós, só é visível aos olhos da razão (daí
a célebre frase “Só sei que nada sei!”). Ele acreditava
que os erros são consequência da ignorância humana.
Nunca proclamou ser sábio. A intenção de Sócrates era
levar as pessoas a conhecerem seus desconhecimentos
(“Conhece-te a ti mesmo.”). Por meio da problematiza-
ção de conceitos conhecidos, daquilo que se conhece,
percebe-se os dogmas e preconceitos existentes.
O que é o bem? O que é a justiça? São exemplos de
algumas perguntas feitas por ele. Com habilidade de ra-
ciocínio, procurava evidenciar as contradições afirmadas,
os novos problemas que surgiam a cada resposta. Seu
objetivo inicial era demolir, nos discípulos, o orgulho, a
ignorância e a presunção do saber. A ironia socrática
tinha um caráter purificador na medida em que levava
os discípulos a confessarem suas próprias contradições
e ignorâncias, onde antes só julgavam possuir certezas
e clarividências. Libertos do orgulho e da pretensão de
que tudo sabiam, os discípulos podiam iniciar o caminho
da reconstrução das próprias ideias.
Sócrates, por sua vez, se valia do questionamento
constante e, assim, conseguia mostrar a seu interlocutor
que este nada sabia, ponto de partida para a busca de um
raciocínio preciso; isso o indispôs com os sofistas, a quem
ele acusava de corromper a juventude. Ironicamente, foi
justamente sob essa acusação, somada ao desrespeito
aos deuses, que Sócrates foi julgado pela Assembleia e
condenado à morte por ingestão de cicuta. Sócrates não
deixou nada escrito, mas seus discípulos – dentre eles,
Platão – se responsabilizaram por registrar uma parte de
seus ensinamentos na Apologia de Sócrates.
“Sócrates no leito de morte”
Jacques-Louis David, 1787.
Os sofistas
Na Grécia clássica, os sofistas foram os mestres da
retórica e da oratória, professores itinerantes que ensi-
navam sua arte aos cidadãos interessados em dominar
melhor a técnica do discurso, instrumento político fun-
damental para os debates e discussões públicas, já que
na pólis grega as decisões políticas eram tomadas nas
assembleias. Contemporâneos de Sócrates, Platão e
Aristóteles, foram combatidos por esses filósofos, que
condenavam o relativismo dos sofistas e sua defesa da
ideia de que a verdade é resultado da persuasão e do
consenso entre os homens. A metafísica se constitui
assim, nesse momento, em grande parte em oposição
à sofística. Devido a isso e ao triunfo da metafísica na
tradição filosófica, ficou-nos uma imagem negativa dos
sofistas como “produtores do falso” (segundo Platão,
em O sofista), manipuladores de opiniões, criadores
de ilusões. Estudos mais recentes, entretanto, buscam
revalorizar de forma mais isenta o pensamento dos
sofistas, mostrando que seu relativismo baseava-se em
uma doutrina da natureza humana e de sua relação com
o real, bem como indicando a importância da contribui-
ção dos sofistas para os estudos de gramática, retórica
e oratória, para o conhecimento da língua grega e para
o desenvolvimento de teorias do discurso. Não se pode
falar, contudo, de uma doutrina única, comum a todos os
sofistas, mas apenas em certos pontos de contato entre
várias concepções bastante heterogêneas.
Entre os principais sofistas destacaram-se Górgias,
Protágoras e Hípias de Elida. Das principaisobras dos
sofistas só chegaram até nós fragmentos, muitas vezes
citados por seus adversários, como Platão.
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aulas 1 e 2 FILOSOFIA
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Resumo da ópera
Nesta aula trabalhamos com os primeiros filósofos e suas ideias, tendo em vista uma categoria estabelecida: o papel
de Sócrates e seu pensamento. Aqueles que antecederam Sócrates, buscando explicações sobre a natureza e seus
fenômenos foram chamados a posteriori de “pré-socráticos” e aqueles que buscavam manipular o conhecimento e seu
discurso, denominados de “sofistas”.
Sócrates trouxe a proposição de uma método de pensamento (maiêutica) e uma forma de argumentar (dialética)
que foi se estruturando gradativamente por meio de de seus discípulos, destacando-se Platão, responsável não só
por compilar suas ideias, mas também por abrir outros campos de conhecimento que fundamentaram o pensamento
filosófico posterior.
EXERCÍCIOS
1. (Enem)
Texto I
Anaxímenes de Mileto disse que o ar é o elemento originário de tudo o que existe, existiu e existirá, e que outras coisas
provêm de sua descendência. Quando o ar se dilata, transforma-se em fogo, ao passo que os ventos são ar condensado.
As nuvens formam-se a partir do ar por feltragem e, ainda mais condensadas, transformam-se em água. A água, quando
mais condensada, transforma-se em terra e, quando condensada ao máximo possível, transforma-se em pedras.
BURNET, J.
A aurora da filosofia grega.
Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2006. Adaptado.
Texto II
Basílio Magno, filósofo medieval, escreveu: “Deus, como criador de todas as coisas, está no princípio do mundo e dos
tempos. Quão parcas de conteúdo se nos apresentam, em face desta concepção, as especulações contraditórias dos
filósofos, para os quais o mundo se origina, ou de algum dos quatro elementos, como ensinam os Jônios, ou dos átomos,
como julga Demócrito. Na verdade, dão impressão de quererem ancorar o mundo numa teia de aranha”.
GILSON, E.; BOEHNER, P.
História da filosofia cristã.
São Paulo: Vozes, 1991. Adaptado.
Filósofos dos diversos tempos históricos desenvolveram teses para explicar a origem do universo, a partir de uma
explicação racional. As teses de Anaxímenes, filósofo grego antigo, e de Basílio, filósofo medieval, têm em comum
na sua fundamentação teorias que:
a) eram baseadas nas ciências da natureza.
b) refutavam as teorias de filósofos da religião.
c) tinham origem nos mitos das civilizações antigas.
d) postulavam um princípio originário para o mundo.
e) defendiam que Deus é o princípio de todas as coisas.
2. (UFU) Sobre o pensamento de Heráclito de Éfeso, marque a alternativa incorreta.
a) Segundo Heráclito, a realidade do Ser é a imobilidade, uma vez que a luta entre os opostos neutraliza qualquer
possibilidade de movimento.
b) Heráclito concebe o mundo como um eterno devir, isto é, em estado de perene movimento. Nesse sentido, a imo-
bilidade apresenta-se como uma ilusão.
c) Para Heráclito, a guerra (pólemos) é o princípio regulador da harmonia do mundo.
d) Segundo Heráclito, o um é múltiplo, e o múltiplo é um.
FILOSOFIA aulas 1 e 2
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ESTUDO ORIENTADO
Caro(a) aluno(a),
Nesta aula "Pré-Socráticos e Sócrates", temos o objetivo de apresentar as principais características desse primeiro
momento de produção de conhecimento filosófico, observando-se as diferenças entre os pré-socráticos (que buscavam
entender a natureza e seus fenômenos) e Sócrates (que buscava entender o conhecimento e o uso da razão).
Nos exercícios selecionados, propomos a fixação dos conceitos discutidos trabalhando as habilidades de leitura e
interpretação de textos, cujos autores podem ser os filósofos do período estudado ou especialistas contemporâneos
que buscam apresentar as principais ideias dos pensadores.
Na Roda de leitura, os textos de Platão apresentados na forma de diálogos, mostram um exemplo do pensamento
socrático, do qual é possível apontar sua metodologia (maiêutica) e sua forma de argumentação (dialética).
Bons estudos!
EXERCÍCIOS
1. (Unicamp) A sabedoria de Sócrates, filósofo ateniense que viveu no século V a.C., encontra o seu ponto de par-
tida na afirmação “sei que nada sei”, registrada na obra Apologia de Sócrates. A frase foi uma resposta aos que
afirmavam que ele era o mais sábio dos homens. Após interrogar artesãos, políticos e poetas, Sócrates chegou à
conclusão de que ele se diferenciava dos demais por reconhecer a sua própria ignorância. O “sei que nada sei” é
um ponto de partida para a Filosofia, pois:
a) aquele que se reconhece como ignorante torna-se mais sábio por querer adquirir conhecimentos.
b) é um exercício de humildade diante da cultura dos sábios do passado, uma vez que a função da Filosofia era repro-
duzir os ensinamentos dos filósofos gregos.
c) a dúvida é uma condição para o aprendizado e a Filosofia é o saber que estabelece verdades dogmáticas a partir
de métodos rigorosos.
d) é uma forma de declarar ignorância e permanecer distante dos problemas concretos, preocupando-se apenas com
causas abstratas.
2. (UFU) Leia o trecho abaixo, que se encontra na Apologia de Sócrates, de Platão, e traz algumas das concepções
filosóficas defendidas pelo seu mestre.
Com efeito, senhores, temer a morte é o mesmo que se supor sábio quem não o é, porque é supor que sabe o que não
sabe. Ninguém sabe o que é a morte, nem se, porventura, será para o homem o maior dos bens; todos a temem, como
se soubessem ser ela o maior dos males. A ignorância mais condenável não é essa de supor saber o que não se sabe?
PLATÃO.
A apologia de Sócrates, 29 a-b,
In. HADOT, P. O que é a filosofia antiga? São Paulo: Loyola, 1999. p. 61.
Com base no trecho anterior e na filosofia de Sócrates, assinale a alternativa incorreta.
a) Sócrates prefere a morte a ter que renunciar à sua missão, qual seja: buscar, por meio da filosofia, a verdade, para
além da mera aparência do saber.
b) Sócrates leva o seu interlocutor a examinar-se, fazendo-o tomar consciência das contradições que traz consigo.
c) Para Sócrates, pior do que a morte é admitir aos outros que nada se sabe. Deve-se evitar a ignorância a todo custo,
ainda que defendendo uma opinião não devidamente examinada.
d) Para Sócrates, o verdadeiro sábio é aquele que, colocado diante da própria ignorância, admite que nada sabe. Admitir
o não saber, quando não se sabe, define o sábio, segundo a concepção socrática.
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aulas 1 e 2 FILOSOFIA
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3. (Unesp)
O pensamento mítico consiste em uma forma pela
qual um povo explica aspectos essenciais da realidade
em que vive: a origem do mundo, o funcionamento
da natureza e as origens desse povo, bem como seus
valores básicos. As lendas e narrativas míticas não são
produto de um autor ou autores, mas parte da tradição
cultural e folclórica de um povo. Sua origem cronológica
é indeterminada e sua forma de transmissão é basica-
mente oral. O mito é, portanto, essencialmente fruto
de uma tradição cultural e não da elaboração de um
determinado indivíduo. O mito não se justifica, não se
fundamenta, portanto, nem se presta ao questionamen-
to, à crítica ou à correção. Um dos elementos centrais
do pensamento mítico e de sua forma de explicar a
realidade é o apelo ao sobrenatural, ao mistério, ao
sagrado, à magia. As causas dos fenômenos naturais
são explicadas por uma realidade exterior ao mundo
humano e natural, superior, misteriosa, divina, a qual
só os sacerdotes, os magos, os iniciados, são capazes
de interpretar, ainda que apenas parcialmente.
MARCONDES, Danilo.
Iniciação à história da filosofia.
Rio de. Janeiro: Jorge Zahar, 2001. Adaptado.
A partir do texto, explique como o pensamento filo-
sófico característico da Grécia clássica diferenciou-se
do pensamento mítico.
RODA DE LEITURA
Texto I
Prossigamos, pois, e vejamos, de início, qual é a
acusação, de onde nasce a calúnia contra mim, ba-
seado no qualMeleto me moveu este processo. Ora
bem, que diziam os caluniadores ao caluniar-me? É
necessário ler a ata da acusação jurada por esses tais
acusadores: - Sócrates comete crime e perde a sua
obra, investigando as coisas terrenas e as celestes, e
tornando mais forte a razão mais débil, e ensinando isso
aos outros. - Tal é, mais ou menos, a acusação: e isso
Segundo o autor, o pensamento filosófico diferencia-se do mitológico pelo fato de propor
uma explicação natural aos fenômenos naturais, valendo-se da observação e análise de
determinados eventos, podendo ser aprendido por qualquer pessoa que se interesse por
isso, enquanto a mitologia se baseia na crença sem reflexão de determinada narrativa,
que de geração em geração foi sendo reproduzida, e aponta para a intervenção de forças
sobrenaturais entre os homens e o mundo. No entanto, sua compreensão não é possível
sem a atuação de um sacerdote ou mago, que é capaz de interpretar e entender seu
funcionamento e mesmo aqueles que são “iniciados” nos conhecimentos de tais mistérios,
teriam uma percepção parcial e os leigos estariam totalmente fora da sua compreensão.
já vistes, vós mesmos, na comédia de Aristófanes, na
qual aparece, aqui e ali, um Sócrates que diz caminhar
pelos ares e exibe muitas outras tolices, das quais não
entendo nem muito, nem pouco.
E não digo isso por desprezar tal ciência, se é que há
sapiência nela, mas o fato é, cidadãos atenienses, que,
de maneira alguma, me ocupo de semelhantes coisas.
E apresento testemunhas: vós mesmos, e, peço-vos,
informei reciprocamente, mutuamente vos interrogueis,
quantos de vós me ouviram discursar algum dia; e
muitos dentre vós são desses.
Perguntai-vos uns aos outros se qualquer de vós
jamais me ouviu orar, muito ou pouco, em torno de
tais assuntos, e então reconhecereis que tais são, do
mesmo modo, as outras mentiras que dizem de mim.
PLATÃO.
Apologia a Sócrates.
Tradução de Maria Lacerda de Souza.
Disponível em: dominiopublico.gov.br/download/
texto/cv000065.pdf. Acesso em: 20 nov. 2015.
Texto II
SÓCRATES: Mas, voltando ao início da discussão,
como é que poderíamos definir o conhecimento? Não
vamos desistir da investigação, presumo eu.
TEETETO: De modo nenhum, a não ser que tu mesmo
desistas.
SÓCRATES: Diz-me, então, qual a melhor definição
que poderíamos dar de conhecimento, para não en-
trarmos em contradição conosco mesmos.
TEETETO: É exatamente a que já procuramos dar,
Sócrates. Da minha parte, não vejo outra.
SÓCRATES: Qual é ela?
TEETETO: Que a opinião verdadeira é conhecimento.
A opinião verdadeira, parece, é infalível e que tudo o
que dela resulta é belo e bom.
SÓCRATES: Não há como experimentar para ver, Tee-
teto, diz o chefe de fila na passagem do rio. Aqui dá-se o
mesmo: o que temos a fazer é avançar na investigação.
Talvez venhamos a esbarrar em alguma coisa que nos
revele o que procuramos. Se pararmos por aqui, é que
não descobriremos nada.
TEETETO: Tens razão. Vamos em frente e examine-
mos!
SÓCRATES: O problema não exige um estudo pro-
longado, pois existe toda uma profissão que mostra
bem como a opinião verdadeira não é conhecimento.
FILOSOFIA aulas 1 e 2
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TEETETO: Como é possível? Que profissão é essa?
SÓCRATES: A desses modelos de sabedoria a que se
dá o nome de oradores e advogados. Tais indivíduos,
com a sua arte, produzem a convicção, não ensinando,
mas sugerindo as opiniões que lhes aprazem. Ou jul-
gas tu que há mestres tão habilidosos que, no pouco
tempo concedido pela clepsidra, sejam capazes de
ensinar devidamente a verdade acerca de um roubo
ou de qualquer outro crime, a ouvintes que não foram
testemunhas do fato?
TEETETO: Não creio, de forma nenhuma. Eles não
fazem senão persuadi-los.
SÓCRATES: Mas, para ti, persuadir alguém não será
levá-lo a ter uma opinião?
TEETETO: Sem dúvida.
SÓCRATES: Então, quando há juízes que se acham jus-
tamente persuadidos de fatos que só uma testemunha
ocular, e mais ninguém, pode saber, não é verdade que,
ao julgarem esses fatos por ouvir dizer, depois de terem
formado deles uma opinião verdadeira, pronunciam
um juízo desprovido de conhecimento, embora tendo
uma convicção justa, se deram uma sentença correta?
TEETETO: Com certeza.
SÓCRATES: Mas, meu amigo, se a opinião verdadeira
dos juízes e o conhecimento fossem a mesma coisa,
nunca o melhor dos juízes teria uma opinião correta
sem conhecimento. A verdade, porém, é que se trata
de duas coisas diferentes.
TEETETO: Eu mesmo já ouvi alguém fazer essa dis-
tinção, Sócrates; tinha-me esquecido dela, mas voltei a
lembrar-me. Dizia essa pessoa que a opinião verdadeira
acompanhada de razão é conhecimento, e que, des-
provida de razão, a opinião está fora do conhecimento
e que as coisas que não são possíveis explicar são
incognoscíveis (é a expressão que empregava) e as que
são possíveis explicar são cognoscíveis.
SÓCRATES: Estás a falar bem. Mas como distinguia
ele o cognoscível do que não é? Diz-se lá, para ver se o
que ouviste está de acordo com o que eu também ouvi.
TEETETO: Não sei se vou ser capaz de lembrar-me.
Se, no entanto, ouvir outra pessoa dizê-lo, penso que
consigo acompanhar.
PLATÃO.
Teeteto.
Disponível em: fflch.usp.br/df/opessoa/HCTex-Platao-
Conhecimento.pdf.
Acesso em: 21 nov. 2015.
NAVEGAR
Filme
Sócrates
Direção: Roberto Rosselini.
Espanha/Itália/França, 1971.
Depois que os atenienses
caíram sobre o governo da
Tirania dos Trinta, a vida
dos cidadãos não era mais
segura. O filósofo Sócra-
tes, entretanto, continua
a sua pregação filosófica,
aglomerando mais e mais
jovens discípulos. Entre eles
está Platão, que anotou os
discursos de seu mestre, sem saber sobre o conflito e
o que aparentemente parecia tão real para ser consi-
derado um princípio. A juventude de Atenas gostava de
Sócrates, embora os conservadores, como o comediante
Aristófanes, o ridicularizassem, acreditando que ele era
um dos sofistas.
Livros
MACIEL JR., Auterives. Os
pré-socráticos: A invenção
da Razão. 2 ed. São Paulo:
Odysseus, 2003.
Esta obra, escrita pelo filó-
sofo Auterives Maciel Junior,
professor da Universidade Fe-
deral do Rio de Janeiro (UFRJ),
aborda as principais ideias dos
pensadores da Grécia antiga,
entre 600 e 400 a.C., que ex-
pressaram essencialmente a
mesma convicção: a de que a razão era o caminho para
compreendermos o universo e seus mistérios. Focalizan-
do o aspecto racionalista de suas especulações, o autor
mostra por que os pré-socráticos podem justificadamente
ser considerados protocientistas.
RE
PR
O
D
U
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O
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aulas 1 e 2 FILOSOFIA
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NAVEGAR
Filme
Sócrates
Direção: Roberto Rosselini.
Espanha/Itália/França, 1971.
Depois que os atenienses
caíram sobre o governo da
Tirania dos Trinta, a vida
dos cidadãos não era mais
segura. O filósofo Sócra-
tes, entretanto, continua
a sua pregação filosófica,
aglomerando mais e mais
jovens discípulos. Entre eles
está Platão, que anotou os
discursos de seu mestre, sem saber sobre o conflito e
o que aparentemente parecia tão real para ser consi-
derado um princípio. A juventude de Atenas gostava de
Sócrates, embora os conservadores, como o comediante
Aristófanes, o ridicularizassem, acreditando que ele era
um dos sofistas.
Livros
MACIEL JR., Auterives. Os
pré-socráticos: A invenção
da Razão. 2 ed. São Paulo:
Odysseus, 2003.
Esta obra, escrita pelo filó-
sofo Auterives Maciel Junior,
professor da Universidade Fe-
deral do Rio de Janeiro (UFRJ),
aborda as principais ideias dos
pensadores da Grécia antiga,
entre 600 e 400 a.C., que ex-
pressaram essencialmente a
mesma convicção: a de que a razão era o caminho para
compreendermos o universo e seus mistérios. Focalizan-
do o aspecto racionalista de suas especulações, o autor
mostra por que os pré-socráticos podem justificadamente
ser considerados protocientistas.
RE
PR
O
D
U
Ç
Ã
O
STRATHERN, Paul. Sócra-
tes em 90minutos. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
Apenas um século depois
do seu início, a filosofia entrou
na sua época áurea com o
aparecimento de Sócrates,
que passou tanto tempo da
sua vida a falar de filosofia
nas ruas de Atenas que nun-
ca conseguiu deixar nada
escrito. O seu método de
interrogatório agressivo, conhecido como dialética, foi o
predecessor da lógica; usou-o para ultrapassar as tolices
dos seus adversários e chegar à verdade. Acreditava que,
em vez de questionarmos o mundo, devíamos questionar-
-nos a nós próprios. Sócrates colocou a filosofia na base
da razão. Via o mundo como sendo apenas acessível ao
nosso pensamento, não aos nossos sentidos.
ÁGORA
A condenação de Sócrates foi um ato de força da
Assembleia de Atenas, naquele contexto sob o controle
espartano, decorrente da vitória de Esparta sobre Atenas
na Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.). Sócrates fora
acusado dos crimes de impiedade e corrupção da juven-
tude e, por fim, fora condenado a morrer ingerindo cicuta.
Atividade
Reproduzir o julgamento de Sócrates. Dividir os alunos
em dois grupos (um grupo representa Sócrates, e outro
grupo, sua acusação) e retomar os crimes imputados a
Sócrates, desenvolvendo a argumentação (de acusação
e defesa).
Objetivos
Trabalhar a organização de uma linha de argumentação,
expondo argumentos e contra-argumentação, levando
em conta o contexto histórico e filosófico da época de
Sócrates.
RE
PR
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FILOSOFIA aulas 1 e 2
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S E N H A
O que faz alcançar a verdade das coisas que são conhecidas e dá àquele que conhece sua capacidade
[...] é a ideia do bem.
A República, de Platão.
POLISABER 21
aula 3 FILOSOFIA
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FILOSOFIA – AULA 3
O exercício próprio dos filósofos não é precisamente
libertar a alma e afastá-la do corpo?
Fédon, de Platão.M
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SE
U
D
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V
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Platão e Aristóteles
Período socrático ou
antropológico: Platão
Filósofo grego, discípulo de Sócrates, Platão deixou
Atenas depois da condenação e morte de seu mestre
(399 a.C.). Peregrinou 12 anos. Conheceu, entre outros,
os pitagóricos. Retornou a Atenas em 387 a.C. , com 40
anos, procurando reabilitar Sócrates, de quem guardava
a memória e o ensinamento. Retomou a teoria de seu
mestre sobre a “ideia”, e deu-lhe um sentido novo: a
ideia é mais do que um conhecimento verdadeiro, ela é
o ser mesmo, a realidade verdadeira, absoluta e eterna,
existindo fora e além de nós, cujos objetos visíveis são
apenas reflexos.
Platão parte do pressuposto de que existem dois
mundos. O primeiro é constituído por ideias eternas, e
o segundo é constituído por cópias das ideias (coisas
sensíveis).
Mundo sensível – realidade material, constituída pelos
objetos da percepção sensorial; mundo da experiência.
Especialmente em Platão, o mundo sensível opõe-se ao
mundo inteligível, do qual é cópia.
Mundo inteligível – mundo das ideias ou formas, em
Platão entendido como tendo uma realidade autônoma,
tanto em relação ao mundo sensível, do qual constitui
o modelo perfeito, quanto ao pensamento humano, que,
no entanto, o atinge pela dialética.
Com base neste pressuposto, afirmou que os sentidos
estão permanentemente a nos enganar. A verdadeira
realidade não nos é dada pelos sentidos, mas só pode
ser intuída através da razão, e está no mundo das ideias.
Em resumo, para Platão, a realidade se dividia em duas
partes. A primeira parte é o mundo dos sentidos, do qual
não podemos ter senão um conhecimento aproximado
ou imperfeito, já que, para tanto, fazemos uso de nossos
cinco (aproximados e imperfeitos) sentidos. Neste mundo
dos sentidos, tudo “flui” e, consequentemente, nada é
perene. Nada é no mundo dos sentidos; nele, as coisas
simplesmente surgem e desaparecem. A outra parte é
o mundo das ideias, do qual podemos chegar a ter um
conhecimento seguro, se, para isso, fizermos uso de
nossa razão. Este mundo das ideias não pode, portanto,
ser conhecido por meio dos sentidos.
Mundo das ideias Mundo material
Imaterial Aparência
Eterno Sombra
Imutável Crença
Conhecimento Opinião
Verdade Ilusão
A alegoria da caverna
No livro VII da República, Platão narra uma história que
se tornou célebre com o nome de "mito" ou "alegoria da
caverna". Seu objetivo é fazer compreender a diferença
entre o conhecimento grosseiro, que vem de nossos sen-
tidos e de nossas opiniões, e o conhecimento verdadeiro,
ou seja, aquele que sabe apreender, sob a aparência das
coisas, a ideia das coisas.
Platão define, a partir de uma metáfora, que a realidade
seria constituída de dois espaços: um composto pelas
coisas sensíveis e outro pelas ideias. Portanto, para ele,
a maioria da humanidade viveria na infeliz condição da
ignorância, ou seja, viveria no mundo ilusório das coisas
sensíveis, as quais são mutáveis, não são universais e
nem necessárias e, por isso, não são objetos de conhe-
cimento. Já o mundo das ideias, percebido pela razão,
está acima do sensível (dominado pela subjetividade),
FILOSOFIA aula 3
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que só existe na medida em que participa do primeiro,
sendo apenas sombra dele. Aristóteles posteriormente
criticou Platão dizendo que ele não havia questionado o
que é "participar".
Platão faz uma analogia entre aptidão para ver e aptidão
para conhecer, exercício da visão e exercício da razão, e
entre faculdade da visão e faculdade da razão. Pode-se
afirmar que, durante a descrição do mito, as fases pelas
quais a visão do sujeito passa são as fases pelas quais
passa a razão.
A primeira etapa é chegar à opinião (doxa), ilustra-
da pela saída da caverna até as imagens exteriores,
tentando superar a inércia da ignorância (agnosis). O
sujeito é ofuscado pela luz da fogueira, sendo esta (a
luz) a representação da verdade, a qual lhe causa dor
aos olhos, que representam o órgão do conhecimento.
Neste primeiro momento, o homem não consegue ver
muito bem, porém insiste e observa, investigando todos
os objetos e suas formas originais que eram projetadas
como sombras na caverna.
Então, alcançou o conhecimento (episteme). A busca
pelas ideias gerais, unas e imutáveis é ilustrada pela saída
até a luz do sol, que simboliza o bem (alegoria do sol) que
está no topo da hierarquia das ideias universais das quais
também fazem parte o belo e a justiça.
Este percurso é apresentado noutra metáfora: primeiro
o homem olha para a sombra dos objetos; em seguida,
para a imagem deles refletida na água; por fim, para os
próprios. Observa-se a passagem da ignorância para a
opinião e depois para o conhecimento. O homem tornou-
-se capaz de contemplar o que há no céu e o próprio
céu à noite representando a contemplação das ideias
imutáveis. Finalmente, ele torna-se apto a olhar para o
sol e o seu brilho de dia ilustrando o descobrimento da
ideia do bem.
Platão questiona: o que ocorreria ao homem se ele
descesse novamente à caverna e tentasse contar o que
havia descoberto? Sua vista demoraria a se acostumar
às trevas novamente. Poderia ser ridicularizado, hostili-
zado e até morto pelos demais. Esta descida à caverna
representa o dever do filósofo para com o Estado de
compartilhar com os outros cidadãos o conhecimento a
que chegou com o apoio deste Estado. Por mais que seja
dolorosa esta atitude, para o homem sábio, de conviver
com os demiurgos, o Estado deve preocupar-se com a
felicidade de toda a cidade e não apenas de uma parte
dela. Por isso o filósofo teria a função de orientador e
educador nessa cidade, além da função de governante
(o filósofo-rei).
E por que a função de governante? Justamente por
ele ter sido o único a ter contemplado o belo, o bem e
o justo. E, por ter o conhecimento do que é a justiça,
governaria melhor a cidade. Sendo indiferente ao poder,
não estaria disputando contra rivais e não governaria por
interesses próprios, ao agir de acordo com o justo. Assim,
Platão concebeu a idealização de um estado sustentado
no