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Animalidades ZOOLITERATURA E OS LIMITES DO HUMANO Maria Esther Maciel instante© 2023 by Editora Instante 2023 by Maria Esther Maciel mediante acordo com MTS Agência Nota da autora Direção Editorial: Silvio Testa Coordenação Editorial: Carla Fortino Revisão: Andressa Veronesi e Fabiana Medina Capa e projeto gráfico: Fabiana Yoshikawa Imagens: Brigantine Designs e Graphic Goods Diagramação: Estúdio Dito e Feito Edição: 2023 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Este volume desdobra livro Literatura e animalidade, de (Angélica CRB-8/7057) 2016, inserindo-se num movimento de pesquisa e escrita ini- ciado com 0 pequeno livro animal escrito: um olhar sobre a Maciel, Maria Esther Animalidades zooliteratura e limites do humano zooliteratura contemporânea, de 2008. Maria Esther Maciel. 1. ed. São Paulo Editora Aqui, a partir de reflexões sobre a questão dos animais Instante, 2023. no pensamento ocidental, detenho-me nas subjetividades não ISBN 978-65-87342-42-9 humanas no âmbito da filosofia, da etologia ramo da zoolo- 1. Literatura História e 2. Animais da literatura gia voltado para pesquisas sobre comportamento animal e da literatura, entre outras áreas do conhecimento, com incur- CDD B869.9 23-1792 CDU 82-09 sões em narrativas e poemas que priorizam ponto de vista animal, seja na forma de um "eu" poético, seja na apresentação para catálogo sistemático: dos bichos como protagonistas e/ou narradores, em interação 1. Literatura História e paradoxal com os humanos. A noção de "zoo(auto)biografia" emergiu dessa abordagem, possibilitando-me uma entrada Direitos de edição em língua portuguesa exclusivos para Brasil adquiridos por Editora Instante Ltda. mais efetiva na esfera ficcional de obras que se apresentam como histórias de vida ou relatos memorialísticos de animais. Texto fixado conforme Acordo Ortográfico da Lingua Uma parte dedicada aos cães ocupa um espaço privile- Portuguesa de 1990, em vigor no Brasil a partir de 2009. giado no conjunto, à qual se somam outras sobre diferentes www.editorainstante.com.br espécies e indivíduos não humanos, como bois, aves, bara- facebook.com/editorainstante instagram.com/editorainstante tas e ursos. Já a última se concentra na literatura brasileira moderna e contemporânea, com ênfase nas poéticas e polí- Animalidades: zooliteratura e os limites do humano é uma ticas da natureza do século XXI. publicação da Editora Instante. FSC A título de epílogo, incluo uma das minhas últimas en- MISTO Este livro foi composto com as fontes Arnhem e trevistas sobre a temática do livro, a qual contribuiu para Papel Ernestine Pro e impresso sobre papel Pólen Natural partir de avanço de alguns pontos que atravessam e não deixa de em Edições Loyola. FSC* C008008 funcionar como uma conclusão aberta e dialógica das ques- tões apresentadas ao longo desta obra. 5Prólogo. A esfera "zoo" Animais: que termo confuso! que gafanhoto e lobo têm em comum além do fato de não serem humanos? Quem é mais parecido: 0 lobo e gafanhoto, ou lobo e eu? J.M. Coetzee, Contos morais Além do mais, quem entre Homem e animal é verdadeiramente uma besta? Vasta questão! Alain Mabanckou, Memórias de porco-espinho Zoografias A palavra "animal" teve um percurso tortuoso ao longo dos tempos, em diferentes línguas, contextos e culturas. Vários sentidos denotativos e conotativos foram a ela atri- buídos, seja por vias científicas, filosóficas, políticas e re- ligiosas, seja sob os influxos das superstições, dos precon- ceitos e da imaginação. Se, em certos momentos da história do pensamento ocidental, "animal" não excluiu humano, como na Anti- guidade clássica, quando a palavra anima foi usada para designar princípio da vida de todo ser animado, humano ou não,¹ em outros, sua carga semântica foi se formando pela exclusão dos humanos e em contraponto a eles, que se concretizou de maneira contundente após triunfo do Ver tratado De de Aristóteles 13racionalismo cientificista no mundo moderno, quando a ci- 27-8), visto que modo como os animais foram tratados são entre homem/animal e humanidade/animalidade se tor- acabou por prefigurar as maneiras como os próprios huma- nou dominante no pensamento ocidental. nos seriam. Essa cisão estabelecida a partir do final do século Tal marginalização radical dos bichos é abordada por XVII com a filosofia de René Descartes e consolidada ao Berger em várias situações físicas e culturais com ên- longo do século XVIII provocou não apenas rebaixa- fase nos zoológicos, que aparecem não apenas no referido mento dos seres não humanos à última categoria na hie- ensaio, como também no texto teatro dos grandes pri- rarquia dos viventes, como também a transformação do matas", de 1990, em que o escritor descreve o da Basileia próprio termo "animal" num antônimo de "humano". Fun- como "um estranho teatro" e apresenta público de todas damentada a partir do que o filósofo francês considerava a as idades que frequenta. Para tanto, mistura memória fa- faculdade suprema da existência, a razão (e, por extensão, miliar, considerações etológicas sobre as habilidades, per- a consciência), tal visão mecanicista tornou animal um cepções e emoções em orangotangos, gorilas e chimpanzés, estranho a nós, um outro sem alma, incapaz de pensar e, além de recuperar Darwin sob uma nova perspectiva² e bus- consequentemente, reduzido a um mecanismo. car na poesia os recursos para falar da origem da vida. Como escreveu Benedito Nunes um dos primeiros Hoje, poderíamos acrescentar, essa marginalização pensadores brasileiros a tratar desse tema em animal atingiu dimensões impensáveis, com a excessiva mercan- e primitivo: os outros de nossa cultura", Descartes efetuou tilização da vida e as práticas cada vez mais sofisticadas de "depois da demonização cristã do animal, o primeiro corte "produção" animal em cativeiros, fazendas e granjas indus- moderno entre este e homem" (Nunes, 2011, p. 14), visto triais do mundo contemporâneo, além do tráfico de animais que, para filósofo francês, o animal (no singular genérico) silvestres e da destruição de inúmeras espécies ocasionada era um mero corpo sem alma, um simples autômato, pela devastação descontrolada das florestas, entre outras vel de todos os tipos de exploração e violência. práticas nefastas, que tem comprometido a sobrevivência escritor, pensador e artista britânico John Berger já da própria humanidade, que corre risco de se tornar tam- havia discorrido sobre isso no ensaio "Por que olhar para os bém uma espécie em extinção. animais", de 1977, ao mostrar como essa ruptura "interna- No que tange especificamente à conversão, ao longo lizou dentro do homem dualismo implícito na relação dos dos tempos, do próprio termo "animal" num antônimo de humanos com os animais" (Berger, 2021, 26), abrindo, nos "humano", uma visita aos dicionários de língua portugue- primeiros estágios da modernidade industrial, terreno para sa permite-nos identificar elementos explícitos dessa mar- o uso indiscriminado dos animais como máquinas ou como ginalização apontada por Berger, que se dá a ver espe- objetos de exposição pública em locais de confinamento. cialmente nos sentidos conotativos (a maioria, pejorativos) Acrescenta ainda que, com avanço capitalista, depois que o depositados sobre a palavra. Não bastasse se referir a qual- modelo de Descartes foi finalmente ultrapassado, eles passa- quer outro animal que não homem, ela ainda se presta ram a ser convertidos em matéria bruta para a fabricação de a qualificar e desqualificar atributos ou comportamentos alimentos processados como mercadorias manufaturadas, o humanos. que estava em sintonia com próprio "processo que isolou o pensamento darwinista segundo "uma resposta criativa aterrorizante homem em unidades de produção e consumo" (Berger, 2021, que assim se (Berger, 2021, p. 14 15As metáforas oriundas do termo e seus derivados são oposição ao ser humano". Adjetivos como "sensual", "lasci- muitas e variadas, numa evidência de que, no discurso domi- vo", "material", "físico" aparecem no verbete como sentidos nante sobre animal, a metáfora não possui necessariamen- figurados, enquanto verbo transitivo e pronominal "ani- te um valor estético, mas é um juízo de valor.³ Como um sig- malizar" é definido como "rebaixar(-se) a um nível próprio de no multifacetado, contaminado por valores socioculturais, animal irracional; tornar(-se) animalesco; embrutecer(-se)". "animal" acabou por se tornar também, para além de sua Percebe-se, em todas essas obras de referência, que biológica, um "objeto cultural" repleto de co- a definição de animal tende a não incorporar homem e, notações no mundo ocidental. quando se relaciona ao universo humano, faz com propó- No dicionário Houaiss, por exemplo, depois do signifi- sitos depreciativos. Nesse sentido, assume seu papel cons- cado extraído da zoologia, segundo qual "animal" é a "de- titutivo de uma concepção negativa e antropocêntrica do signação comum aos organismos do reino Animalia, hete- mundo zoo. Trata-se, aí, de uma negatividade que se justifi- rotróficos, multicelulares e com capacidade de locomoção", ca não apenas pela marginalização dos seres não humanos são arrolados outros, atrelados à ideia de irracionalidade, na hierarquia dos viventes, como também pela demarcação a exemplo de ao irracional, que tem as qualidades dos chamados "próprios do homem", ou seja, faculdades, dos A esses se somam ainda os figurativos, habilidades e qualidades consideradas exclusivas da espé- como "irracional em sua voluptuosidade; lascivo" e "pessoa cie humana e negadas aos demais seres vivos: pensamento, estúpida, grosseira, cruel". linguagem, sentimentos, habilidades cognitivas e artísticas, Já no Aurélio, a primeira definição não exclui a sensibi- cultura, enfim, capacidade de ter saberes e um ponto de vis- lidade como um atributo do animal "ser vivo organizado, ta próprio sobre mundo. dotado de sensibilidade e movimento (em oposição às plan- Jacques Derrida deteve-se nesses "próprios do homem" tas)" à qual se seguem a definição zoológica e as variações em animal que logo sou (A seguir) e nos seminários de La pejorativas do termo. No subitem "animal racional", consta bête et le souverain [A besta e soberano], ao mostrar como a que a expressão designa "qualquer dos animais superiores, construção do conceito de animal se sustentou na subtração à exceção do homem, qualquer dos brutos". Quanto à pala- do que, segundo pensamento humanista logocêntrico, se- vra "animalidade", ela aparece como "caráter ou condição do riam propriedades exclusivas dos humanos. que é animal", enquanto o verbo "animalizar", como "tornar 0 termo "animal" também é discutido pelo filósofo bruto; embrutecer, bestializar". franco-argelino, que, em 0 animal que logo sou, questiona a Vale ainda mencionar Dicionário de Lingua Portuguesa sua utilização nos discursos racionalistas, alegando ser esse da Editora Porto, que reforça a antinomia humano/não huma- um uso que confina todos os bichos num vocábulo genérico no ao incluir, entre outros, estes significados para "animal": "1. e homogeneizante, convertido em conceito: (Biologia) ser vivo eucariótico, pluricelular, macroconsumidor e heterotrófico por ingestão, dotado de sensibilidade, capa- Neste conceito que serve para qualquer coisa, no vasto campo cidade de locomoção e de resposta a estímulos. 2. Organis- do animal, no singular genérico, no estrito fechamento deste mo vivo com essas características e destituído de razão, por artigo definido ("O Animal" e não "animais") seriam encerra- dos, como em uma floresta virgem, um parque zoológico, um 3 Armelle le Bras-Chopard, Le des philosophes, 2000, 21. território de caça ou de pesca, um viveiro ou um abatedouro, 16 17um espaço de domesticação, todos os viventes que homem desumana ou ignorante. Serve ainda para qualificar alguém não reconheceria como seus semelhantes, seus próximos ou presunçoso ("metido a besta") ou indicar perplexidade dian- seus irmãos. (Derrida, 2002, p. 64-5) te de algo ("estar besta"). Da palavra advêm várias outras, como bestialidade, bestial, bestagem, besteira e bestice, Antes dessas considerações, ele já havia lançado a sua excla- bem como as expressões "besta-fera" e "besta humana". mação animal, que palavra!", à qual acrescentou ser esse Já nas línguas francesa e inglesa, "besta" (bête e beast) termo uma designação instituída pelos homens, convictos é associada também ao que, em português e espanhol, de- de que têm direito e a autoridade de nomearem outro vi- signamos de "bicho". Uma associação que amplia escopo vente da maneira como acham mais conveniente. do vocábulo e torna mais complexo. No caso da palavra Animot é o neologismo que Derrida cria no idioma fran- "bicho", vale pontuar que ela possui peculiaridades interes- cês para fazer frente a esse aprisionamento verbal e concei- santes, dada sua carga também afetiva e positiva em certos tual do vocábulo/conceito "animal", valendo-se não apenas usos para designar um animal não humano. Aliás, um dos da associação sonora entre mot e maux, como também dos sentidos para ela registrados é "qualquer animal, com ex- sentidos deflagrados por esse jogo linguístico. Ou seja, na ceção do humano", e, quando usada para este, pode ter co- palavra (mot) é possível ouvir plural da palavra animal notações diferentes e por vezes contraditórias: (maux), vide vocábulo francês animaux. Com isso, ele mos- fisicamente feio ou ridículo", exímio no que faz tra como a linguagem afeta o nosso acesso à complexidade ou sabe" e "indivíduo decidido, desassombrado, cheio de da ordem não humana, não sem admitir que o neologis- vitalidade", para não mencionar seu emprego como gíria mo também não passa de um artifício forjado pela razão, para "amigo, Sua origem está no latim vulgar ou uma "quimera" no sentido tanto de um híbrido, uma masculino de combinação heteróclita e incongruente de criaturas diver- Nos seminários de La bête et le souverain, publicados sas, quanto de uma invenção fantasiosa. em dois volumes, em 2008 e 2010 respectivamente, Derri- Sob esse prisma, animot apresenta-se como uma cons- da lida com a noção de "besta" atento às dimensões ético- trução verbal capaz de provocar várias reflexões que ultra- -políticas que a atravessam e, num movimento que poderia passam terreno da linguagem e abrem-se a questões de ser definido como à pas de loup, vai entrelaçando a história ordem ética e política. da soberania política com a do tratamento dispensado pe- A palavra "animal" também é comumente atrelada a los humanos à vida dita animal em todos os seus registros: "besta", como se vê nos verbetes dos dicionários, que re- "caça e domesticação, história política dos parques e jardins monta sobretudo à tradição judaico-cristã. Isso, se conside- zoológicos, adestramento, exploração industrial e experi- rarmos que, além de ser um sinônimo de "burro" e poder mental do vivente animal, figuras de 'bestialidade', 'bestice' ser usada regionalmente, no Norte e no Nordeste brasilei- etc." (Derrida, 2008, p. 13). ros, para designar a fêmea do cavalo, ela carrega toda uma Ao sondar o substantivo e adjetivo bête na língua fran- carga simbólica relacionada à esfera do mal, associando-se, cesa, ele chama a atenção para fato de que apenas a menção como substantivo, tanto a um monstro não humano quanto à palavra não é suficiente, já que se faz necessário um início a um humano monstruoso, movidos pelos instintos e pela de discurso, ou uma frase, para definir se o termo é um subs- violência. Como adjetivo, caracteriza uma pessoa grosseira, tantivo ou um adjetivo. Enquanto qualificativo, entretanto, 18 19termo deixa de se referir ao animal e é usado como atri- se tivesse havido menos animais torturados; menos vagões buto humano, quando não para qualificar um evento, uma lacrados levando para a morte as vítimas de uma ditadura coisa, algo que escapa às categorias de seres vivos. Daí que qualquer, se não tivéssemos nos acostumados com os fur- bestice e bestialidade, longe de serem a essência da besta, gões em que os animais agonizam sem alimentação e sem se afirmam como atributos do humano. Como diz autor, água a caminho dos matadouros; menos caça humana teria "se o próprio do homem é propriamente humano, o pró- sido abatida a tiros se gosto e hábito de matar não fosse prio da besta não é certamente nem 'propriamente bes- apanágio dos caçadores. (Yourcenar, 1985, p. 143) ta' da bestialidade nem 'propriamente besta' da bestice" (Derrida, 2008, p. 194). Afinal, antropocentrismo logocêntrico só vem tornar Os desdobramentos dessa incursão linguística são mui- cada vez mais manifesta e cruel a progressiva conversão tos ao longo dos seminários derridianos, e abordá-los aqui do discurso dominante sobre os animais em discurso do- demandaria um desvio destas breves considerações sobre a minador, deflagrando práticas de violência contra esses e palavra enquanto um dos correlatos de "animal", antes de outros viventes. entramos no campo da literatura, foco principal deste livro. Assim, do vocábulo ao conceito e desses às práticas De qualquer forma, não há como não considerar esses efetivas de marginalização, exclusão, exploração e cruelda- apontamentos de Derrida no trato da palavra e do conceito de que permeiam as relações entre animais humanos e não "besta", que está na base dos chamados bestiários surgidos humanos, todo um imaginário também foi construído, na Idade Média, que foram fundamentais para a carga sim- com diferentes nuances, ao longo dos tempos. bólica e alegórica que, desde então, atravessaria enfoque dos animais na literatura ocidental. Pode-se dizer que as maneiras de definir, conceituar e Um de palavras descrever os animais estão contaminadas por valores de or- dem ética, política, religiosa ou estética, incidindo também Sabe-se que os animais sempre frequentaram 0 imaginário nas definições, conceitos e descrições que os homens fazem cultural da humanidade, sob diferentes configurações poé- de sua própria espécie, além de reforçarem a hierarquia dos ticas, artísticas e religiosas, evidenciando a nossa intrínseca seres vivos estabelecida desde Antigo Testamento e a cisão (e milenar) relação com os viventes que compartilham co- moderna entre homem e animal. nosco a experiência do mundo. Como se isso não bastasse, elas ainda contribuem para No Ocidente, toda uma tradição zoo, feita de seres reais e que certos grupos de humanos, associados pejorativamente fantásticos, pode ser traçada nas artes e na literatura desde os a animais, também sejam marginalizados e explorados pelo tempos mais remotos, sob 0 influxo direto de mitos, crenças poder soberano. É que resume Marguerite Yourcenar neste e saberes populares de origens variadas. Sobretudo a partir contundente fragmento de seu ensaio "Para onde vai a alma das fábulas de Esopo e dos compêndios zoológicos do mundo dos animais?": antigo, como A história dos animais, de Aristóteles escrita na última parte da vida do autor, entre 335 e 322 a.C. a pre- Lembremo-nos, pois é necessário estarmos sempre nos sença dos animais foi ostensiva nas letras greco-latinas do chamando a atenção, que haveria menos crianças mártires mundo clássico, adquirindo, inclusive, dimensões de ordem 20 21ética e até mesmo etológica, como atestam os trabalhos pre- modelos para toda uma linhagem zooliterária pautada ora cursores de Plutarco e Porfírio. no antropomorfismo, ora na teratologia. Isso, para não Obras poético-ficcionais a exemplo de asno de mencionarmos os desdobramentos morais e religiosos que ouro (também conhecido como Metamorfoses), escrito por nela incidiram. Apuleio, no século II d.C., e As metamorfoses (ano 8 d.C.), de Inúmeras imagens e descrições proliferaram a partir Ovídio, entre outras também vieram se somar posterior- desses modelos, as quais reforçaram os diversos e contro- mente a esse repertório, junto com os volumes enciclopé- versos sentidos conotativos da palavra "animal". Mas, di- dicos sobre a natureza que compõem a monumental His- ferentemente dos conceitos homogeneizantes do pensa- tória natural (23/24-79 d.C.) de Plínio, Velho, em que aos mento filosófico-político, elas são carregadas das distintas animais de diferentes espécies é dada uma especial e de- particularidades simbólicas pertinentes a cada uma das es- talhada atenção. Nesse caso, numa mistura de observação pécies animais evocadas ou representadas. Ou seja, facul- direta, pesquisa erudita, superstições e fantasia, com tons dades e características atribuídas a determinados bichos líricos e filosóficos em muitas passagens. Como bem ob- são ressaltadas nesses textos e convertidas, por um proces- servou Italo Calvino no ensaio "O céu, homem, elefan- so de transposição, em vícios e virtudes de seres humanos, te", "a ciência de Plínio oscila entre a intenção de reconhe- sempre com propósitos moralistas e/ou religiosos. cer uma ordem na natureza e o registro do extraordinário No que diz respeito às fábulas, consta que o gênero e do único: e segundo aspecto acaba sempre vencendo" surgiu no Oriente, tendo ido da Índia à China e à Pérsia, até (Calvino, 1993, p. 46). chegar à Grécia provavelmente por volta do século VI a.C., Na Idade Média, além dos tratados enciclopédicos que quando Esopo uma figura lendária, com poucas infor- se voltaram para a sondagem do reino animal, a exemplo mações históricas reinventou-o. A partir de então, tomou das Etimologias (século VII) de São Isidoro de Sevilha, sur- diferentes feições e finalidades, entre elas, a de divertir e giram também os bestiários, que proliferaram sobretudo a de aconselhar. Com histórias protagonizadas por animais partir do século XII, na Europa. Posteriormente, foi a vez das e tom sentencioso, tendente ora ao proverbial, ora ao satíri- enciclopédias da natureza do período renascentista e dos re- co, atravessou os séculos e contagiou outras culturas. latos sobre a fauna e a flora do chamado "Novo Mundo" fei- La Fontaine, no prefácio que compôs para a primei- tos pelos viajantes europeus do século XVI, além de outros ra edição de suas Fábulas, de 1668, afirmou que elas não trabalhos enciclopédicos que antecederam a já referida são apenas morais, mas dão, além disso, outros conheci- onda cientificista que atravessou a era moderna. mentos, já que as diferentes características dos animais de Pelo menos até advento do darwinismo, que marcou acordo com sua espécie são nelas expostas e transpostas uma virada radical na abordagem dos viventes não huma- aos homens, podendo ser consideradas um conjunto de tra- nos e nossos vínculos com eles, deflagrando também novas ços em que os humanos se veem retratados: formas de suas figurações na literatura, pode-se dizer que predominou na literatura uma cadeia de símbolos, alego- Quando os animais estão em cena sozinhos, relacionan- rias e metáforas animais, quase sempre a serviço dos va- do-se entre si ou mesmo relacionando-se com uma figura hu- lores humanos. As fábulas, de um lado, e os bestiários me- mana as histórias tendem a explorar os traços convencio- dievais, de outro, firmaram-se, de modos diferentes, como nais de alguns, como poder do leão, a esperteza da raposa, 22 23a voracidade do lobo, caráter traiçoeiro da cobra, a fragili- século V. Nele, encontra-se toda uma reconstituição alegórica dade dos cordeiros e ovelhas, que permite uma associação do mundo à luz dos preceitos cristãos, com descrições de imediata com tipos animais feitas a partir de referências bíblicas, mescladas aos saberes acumulados pelos naturalistas do mundo antigo. A isso se soma uma inevitável antropomorfização dos ani- Foi a partir do século XII que os chamados bestiários se mais, geralmente providos de linguagem verbal e inseridos afirmaram como obras com variados num campo de ações, hábitos e interrelações próprio da vida matizes e funções em cada país onde afloraram. Aos poucos, social dos humanos, sob a égide dos valores e preconceitos gênero abriu espaço a outros elementos que não os que com- que a sustentam. Nesse sentido, a fábula apresenta um traço puseram a modalidade religiosa, que possibilitou surgi- dúplice: ao mesmo tempo que mantém a aproximação entre mento dos bestiários satíricos e eróticos. Contaminou, ainda, animais e homens, põe aqueles a serviço desses e retira-lhes diferentes práticas culturais do tempo, como a escultura, a a autonomia enquanto viventes. pintura, a tapeçaria, vestuário e a decoração de utensílios. Se esse caráter contraditório das narrativas fabulares, Tal expansão contribuiu para pluralizar mais ainda concei- por um lado, reforça a supremacia da dimensão humana em to de bestiário, à medida que este deixou de se circunscrever relação às demais, possibilita, por outro, certa conexão entre aos livros ilustrados, pseudocientíficos e de caráter edifican- os viventes, que acaba por colocar a fábula, após a ruptura te, para abranger novas expressões artísticas. promovida pelo antropocentrismo moderno, na contramão Se, mais adiante, os bestiários tiveram grande rele- dessa separação radical entre humanos e não humanos. Sob vância enquanto provedores de referências para a tradição essa perspectiva, próprio antropomorfismo deixa de ser um enciclopédica renascentista, eles não deixaram também de recurso tão pernicioso quanto muitos estudiosos da questão contaminar os registros dos viajantes europeus ao território acreditam ser. Mesmo que ele endosse antropocentrismo, latino-americano, os quais apresentaram ricas e prodigio- pela maneira como os bichos são usados para a formulação sas descrições da fauna do chamado Novo Mundo. Vieram à de sentenças edificantes para a humanidade, antropomor- tona, nesse contexto, relatos zoológicos como os de Pero Vaz fismo, nesse caso, funciona como um recurso capaz de figu- de Caminha, Gandavo, Gabriel Soares de Sousa, os jesuítas, rá-los como seres inteligentes, sensíveis e dotados de saberes os viajantes alemães (como Ulrico Schmidl e Hans Staden), sobre a vida e mundo. É esse paradoxo que define.⁵ espanhol Cabeza de Vaca e francês André Thevet, que se No que se refere aos bestiários manuscritos ilustra- dedicaram a descrever papagaios, cobras, tatus, gambás, tu- dos, repletos de descrições de animais reais e fabulosos, com canos, iguanas, macacos, entre outros animais encontrados uma explícita carga religiosa e moral vale lembrar que eles na fauna do continente, complementando seus relatos com surgiram a partir de um livro de autoria incerta, surgido pro- detalhes muitas vezes fantásticos. Uma deliciosa compilação vavelmente no século II, na Alexandria, sob título Physio- desses relatos, aliás, pode ser encontrada no livro Zoologia logus, que se tornou bastante popular na Europa a partir do fantástica do Brasil (1934), de Afonso d'Escragnolle Taunay, também autor de Monstros e monstrengos do Brasil (1937), de- dicado ao mesmo tema. Em ambas, historiador catarinen- 4 "Apresentação Fábulas de Im Esopo, Fábulas, 2020, p. 5 Lucile Desblache tratou dessas e outras contradições da fábula enquanto modalidade se não só faz uma recolha exaustiva da variedade zoológica Cf. "As vozes dos bichos fabulares: animais em contos e 2011, do país, tal como esta foi registrada por alguns dos cronistas 24 25europeus, como ainda investiga as interações desses relatos interações com eles. A presença dos animais na literatura e com a mitologia clássica, os bestiários medievais e as lendas nas artes ganha, assim, insuspeitados contornos e uma no- indígenas latino-americanas tável complexidade. Tomados como animais-animais, que Deflagradas, portanto, pela profusão das zoocoleções sentem, sofrem, possuem habilidades próprias e autocons- antigas, medievais e renascentistas, muitas outras sugiram ciência, eles passam a povoar imaginário da literatura e e se desdobraram ao longo dos séculos seguintes, sob distin- das artes a partir do final do século XIX, sob uma perspecti- tas nuances, em países e culturas do mundo ocidental. Mas va mais ética e não circunscrita aos recursos da metáfora, da período que marcou a grande virada na maneira de lidar alegoria, do antropomorfismo e da metamorfose. com mundo zoológico e, consequentemente, propiciou Tais mudanças, todavia, não significaram um descar- novas abordagens literárias e estéticas dos animais foi, sem te total dos elementos fantásticos, simbólicos e alegóricos dúvida, século XIX, como já foi dito aqui, com o advento para que uma visão realista do mundo se impusesse no da modernidade e avanço das ciências da vida, em especial horizonte moderno da criação. Os exercícios da imaginação evolucionismo de Charles Darwin, que veio evidenciar as fabulosa continuaram a existir na modernidade, só que rein- origens animais do humano. ventados à luz de outras referências, como fez Franz Kafka Darwin, aliás, foi fundamental para que a condição de um dos autores responsáveis por esse outro enfoque, que sujeitos fosse atribuída aos animais, por nesses reconhecer reconfigurou, de maneira surpreendente, as ideias de antro- faculdades até então e mesmo ainda hoje consideradas pomorfismo e metamorfose. exclusivas dos humanos, como inteligência, memória, senso Não bastasse isso, houve ainda uma retomada positiva da de humor, atenção, imaginação, emoções complexas, asso- noção de animalidade nas obras de diversos autores, bem como ciação de ideias e até mesmo autoconsciência, como se pode uma investigação criativa dos limites e liames entre humano atestar em suas obras tardias, The Descent of Man [A descen- e não humano. que possibilitou que as reflexões sobre essa dência do homem], de 1871, e A expressão das emoções no ho- literatura também se ampliassem e adquirissem uma nova fei- e nos animais, de 1872. ção, suscitando, inclusive, a emergência de novos conceitos, de Além de ter relativizado a oposição entre instinto e ra- caráter híbrido, como os de "zooliteratura" e "zoopoética". zão, por considerar que um alto grau de inteligência é com- primeiro designaria conjunto de práticas literárias patível com instintos complexos, Darwin assegurou, em The ou obras (de um autor, de um país, de uma época) que prio- Descent of Man, que "não existe nenhuma diferença funda- rizam enfoque de animais a partir de diversos recursos mental entre homem e os mamíferos superiores quanto às ficcionais e estratégias narrativas. Sua abrangência adviria suas faculdades mentais" (Darwin, 2004, 88). E não apenas da amplitude da própria palavra "literatura", só que afetada os mamíferos, já que, para ele, outros animais poderiam ser pelo prefixo "zoo". Daí ser possível falar tanto de "zooliteratu- considerados superiores, como aves e insetos, uma vez que ra ocidental", ou "zooliteratura brasileira", quanto de "zooli- a "superioridade" adviria exatamente das qualidades acima teratura do século XX", a "zooliteratura de Clarice Lispector" arroladas, as quais se manifestariam em diferentes graus de ou a "zooliteratura termo poderia, sob acordo com a espécie e com os indivíduos que a integram. esse prisma, ser concebido como alternativa a "bestiário", Essa "virada" contagiará, inevitavelmente, a produção largamente usado no decorrer dos séculos e que tenho prefe- simbólica em torno dos viventes não humanos e de nossas rido empregar apenas no sentido estrito de coleção/catálogo 26 27de animais reais e fantásticos, ou seja, enquanto gênero lite- científicas, numa retomada radical das experiências literá- rário-iconográfico oriundo da cultura medieval.⁶ rias realizadas por Darwin, de maneira precursora, na escri- Já o termo "zoopoética" tem sido utilizado para nomear ta científica. É caso de Eloquência da sardinha histórias tanto o estudo teórico de obras literárias e artísticas sobre ani- incríveis do mundo submarino, do naturalista francês Bill mais, quanto a produção poética específica de um autor volta- François, todo voltado para os habitantes das águas oceâni- da para esse universo animalista. Ou seja, o substantivo "poé- cas e seus saberes sobre a vida, e de que diriam os animais?, tica" com todos os seus sentidos acumulados se mantém, da etóloga e filósofa belga Vinciane Despret, que se apresen- mas moldado e particularizado pelos efeitos do prefixo. ta como um divertido abecedário que burla as normas taxo- É possível dizer que ambos "zooliteratura" e "zoo- nômicas e incorpora procedimentos fabulares para descre- poética" permitem-nos uma compreensão dos animais, ver peculiaridades comportamentais de diferentes bichos, da animalidade e das interações humano/não humano tam- com ênfase na inteligência desses viventes. bém pela via dos sentidos e da imaginação. Graças às expe- Despret, inclusive, radicaliza ainda mais esses riências ficcionais e poéticas dos escritores, atravessamos cios em Autobiografia de um polvo, livro marcado por uma as fronteiras entre as espécies e acedemos à outra mar- configuração híbrida, composta de ciência, ficção científi- gem, a dos animais não humanos, num encontro também ca e filosofia, com traços que remetem também, de certa com a animalidade que está dentro de nós. Ademais, vê-se forma, ao universo ficcional do conto "Tlön, Uqbar e Orbis que esses espaços de reflexão, hoje, não deixam de se am- Tertius", de Jorge Luis Borges. A autora se vale de nomen- pliar a partir de influxos de áreas afins, como a ecocrítica, claturas inventadas pela escritora estadunidense Ursula K. que expande a questão animal ao articulá-la às poéticas e Le Guin, como "therolinguística", para criar um mundo am- narrativas da natureza, em sintonia com os estudos sobre bientado no futuro, no qual os avanços da etologia e dos es- meio ambiente. tudos linguísticos já evidenciariam a capacidade de viventes Dessa maneira, a literatura afirma não apenas seu não humanos produzirem escritos literários "e outras for- potencial de provocar atos internos em nós, leitores, como mas expressivas, que transbordam as categorias literárias também nos ensina a lidar, por rotas criativas, com as alte- humanas (e remetem então a outro campo de especializa- ridades radicais e os saberes que se inscrevem nos variados ção, ligado às ciências cosmofônicas e paralinguísticas)" espaços do mundo "zoo", além de se abrir à complexidade (Despret, 2022, p. 10). múltipla do mundo natural. biólogo italiano Alessandro Boffa também merece destaque nessa constelação com Você é um animal, Viskovitz!, por parodiar a linguagem técnica dos tratados de ciências Contágios recíprocos biológicas para compor uma série bem-humorada de vinte pequenos contos, sempre protagonizados por um animal Percebe-se, por outro lado, que a própria biologia, em suas di- chamado Viskovitz, que assume e adquire a forma de dife- ferentes ramificações, tem se valido, nos últimos anos, de re- rentes espécies, que vão do micróbio ao porco. autor em- cursos poético-narrativos em livros resultantes de pesquisas baralha ironicamente as espécies animais e reconfigura os saberes científicos através da fabulação, do humor e da re- 6 Acrescente-se que, mesmo nesse sentido de coleção, outros termos sido utilizados, como "animalário" e "bichário". flexão imaginativa. 28 29Já num registro bastante diferente, por se tratar de um Todos esses livros, e outros aqui não contemplados, relato pessoal, vale ainda mencionar livro Escute as feras, da vêm mostrar, por vias oblíquas, não apenas quanto a litera- antropóloga francesa Nastassja Martin, centrado numa expe- tura (em seus diversos gêneros) possui um papel importante riência traumática vivenciada pela autora nas montanhas de para surgimento de outros tipos de conhecimento sobre a Kamtchátka em 2015, quando investigava as sociedades dos vida ao redor, mas também como a própria natureza é pró- caçadores, pescadores e pastores de renas na Sibéria Orien- diga em espécies e indivíduos não humanos de grande com- tal. De modo pungente, poético e reflexivo a um só tempo, plexidade, que podem surpreender a nossa própria experiên- ela registra inesperado encontro/embate com um urso que cia e imaginação. muda de vez a sua vida, deixando em seu corpo e no da fera Se a literatura não tem que dar, necessariamente, res- uma inscrição/cicatriz profunda e radical. postas às questões do mundo, ela pode, por certo, provocar urso arranca uma parte do rosto e três dentes da an- novas indagações e nos mostrar que não existem respostas tropóloga, além de lhe quebrar zigomático direito, definitivas para que está em constante movimento e nos causando-lhe muitos ferimentos. Ela, com um instrumento sobressalta a cada instante no mundo vivo. cortante usado em atividades de alpinismo, reage e ataca a fera, que, também ferida, abandona a presa e foge. Trata-se de uma luta provocada pelo que a escritora portuguesa Ma- ria Gabriela Llansol chamaria de "um encontro inesperado do diverso". Mulher e fera olham-se e, nessa troca de olha- res, rasuram as fronteiras que as separam enquanto espé- cies. São duas animalidades em confronto, do qual resultam duas subjetividades atravessadas pelo contágio recíproco e por novas formas de existência para ambos os viventes. Em cada corpo, uma inscrição. No entanto, nessa travessia dos limites entre humano e não humano existe um ponto que não pode ser ultrapassa- do, já que no "encontro do diverso" as diferenças não desapa- recem, as individualidades intrínsecas se mantêm, a distância se sustenta na proximidade. Sempre há um limite no próprio traspassamento. Daí ser necessário que Matthew Calarco chamou, em seu livro Thinking Through Animals através dos animais], de uma ética da diferença no trato das alteridades não humanas, visto que os outros viventes são eti- camente diferentes de nós e irredutíveis às nossas formas de compreensão, aos nossos projetos e interesses. Isso, apesar de vários deles possuírem faculdades e habilidades que mui- tas vezes se confundem com as nossas (Calarco, 2015, p. 39). 30 31

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