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O Paradigma Ético-Estético-Político e a processual produção da Clínica da Diferença: conceitos para deslocamentos possíveis 
Marília Aparecida Muylaert
(...) a busca de modelos científicos tem paralisado, em grande parte, a experimentação no campo da clínica. Não pensamos a prática clínica como técnica sustentada por um corpo teórico do qual esta seria "aplicação". Não se trata também de propor uma nova técnica terapêutica que viesse resolver os problemas das demais técnicas. 
Trata-se de problematizar a prática clínica, de propor estratégias... singulares, que digam respeito aos problemas também singulares que esta nos propõe. 
Cristina Rauter, 2003
Quando a Psicologia e Coletivo encontram-se num mesmo movimento, a Clínica Política vai maquinando estratégias de ação: tomadas sempre de um Coletivo – e, portanto, multiplicidade, variação, duração, partículas de singularidades – fazendo história, produzindo saberes singulares, tecnologias de viver.
Assim, inevitável ficar sensível aos modos como a procura aos Serviços de Psicologia acontece e que se expressa cotidianamente, propondo as mais legítimas questões, muitas, desconhecidas para nós, o próprio atravessamento de sentidos que desestabelecem os modos instituídos, a vida criando seus modos. No cotidiano, aprendemos a cada relação, respostas provisórias que não legitimam o uso de modelos, mas a experimentação de práticas. Aprendemos modos de produção híbridos, que ganham complexidade à medida que nos co-implicamos no processo: multiplicidade de perspectivas, variações no campo intensivo, visibilidade das fissuras valorativas que determinam os regimes de sensibilidade que lhes dão sustentação. 
Tomar, enfim, em análise, os funcionamentos e seus efeitos, experimentar ao invés de conjeturar, ocupar-se dos maquinismos que insistem na produção de outros modos de existência, esquecer-se de si e de sua história e encontrar-se na criação (Benevides e Passos, 2004).
Os indicadores que buscamos visam criar modos de intervir nos regimes de sensibilidade dos corpos. Estes reagem as maneiras de sentir, criar, afetar e ser afetado pelo mundo. São mutáveis e variáveis, singulares a cada corpo, sensíveis ao tempo. A construção destes regimes depende dos fluxos valorativos que atravessam os corpos, dos modos de subjetivação a que são sensíveis. A expressão de cada atravessamento, em cada corpo, também é única e irrepetível. Então, quando perguntamos como Nietzsche sobre o valor dos valores (1987), apontamos a problematização dos regimes de sensibilidade aos quais um corpo está em atravessamento. A cada vez que perguntamos a importância de algum valor, é sobre estes regimes que estamos intervindo, problematizando eticamente seus valores, o custo de sua existência singular naquele corpo.
Podemos então, nos deslocar de um paradigma numérico de eficiência, para colocar-se à disposição dos encontros convidativos em devir; desfocar as problemáticas do indivíduo, para a construção de problematizações, coletivas, atentos aos movimentos das singularidades que o compõem instituindo, ao mesmo tempo, suas questões e projetos de ação; disponibilizar a complexificação dos acontecimentos como vital no acolhimento das diferenças, indicativo de sua efetuação. Nada ao Encontro Clínico é indiferente, sendo esta sua qualidade e potência de afetação. 
Assim, uma das tarefas impostas por estas práticas, é ir definindo em processo as ferramentas teóricas que podem dar sustentação aos fazeres interventivos que portam o crivo clínico-político. Os conceitos que podem ser dispositivos para estas práticas são da ordem da bricolagem, processuais, que podem funcionar em partes. Um conceito não é um universal, mas um conjunto de singularidades em que cada uma se prolonga até a vizinhança de uma outra (Deleuze, 1990, p.183), o que efetiva a construção da transdisciplinaridade. Isto significa poder tomar das teorias conjuntos parciais que funcionem neste campo, usando para este corte um rigor de natureza diversa do paradigma científico. Este, em sua busca moral pela verdade e pela comprovação numérica, desconsidera o que pode sustentar no campo dos modos autopoiéticos as singularidades em partículas caóticas, que não podem ser captadas pela metodologia derivada deste aporte. É, então, uma decisão política do pesquisador-interventor, deparar-se com o desafio sempre renovado de descrever, singularmente e a cada vez, os modos e fazeres que definem seu campo de atuação e os efeitos que emanam destes modos. Trata-se de um constante processo de criação de tecnologias que não são passíveis de replicação, posto ser referidas a um campo singular, de temporalizações irrepetíveis e que tomam o caótico como germe, um campo cuja ordem escapa a qualquer lógica que se pretenda desimplicada destas relações. É deste difícil e não dado rigor e precisão que tratamos. Devemos em primeiro lugar situar a ciência como uma entre três formas de pensamento, sendo as outras duas a filosofia e a arte. (Prado Jr. 1992).
Os conceitos intercessores
(...) os intercessores não podem ser pensados fora da relação de interferência que se produz entre domínios... Compreende-se, portanto, que o intercessor é uma noção funcionalista cujo sentido não pode ser apreendido senão no interior de uma certa operação - operação de encontro, contágio, cruzamento que desestabiliza e faz diferir. (...) Assim se apresenta a clínica, para nós. (Passos, 2000).
Através do paradigma ético-estético-político, trabalhamos com o conceito de Clínica como Clinamem e os efeitos desta condição sobre o campo clínico. Aqui, Clinamen siginifica desvio, onde se desvia para a diferença (Legrand, 1983, p.291).
Deste modo, as problematizações incidem sobre a relação e redimensionam também outros conceitos, como o de corpo. Este redimensionamento tem efeitos também nos modos de captar e descrever - com rigor e precisão – os movimentos destes conceitos no campo problematizado. Assim, a Cartografia tomada como método, efetiva a possibilidade da construção de diagramas dos fluxos de sentidos, práticas e valores, capturas e devires em abertura no campo pesquisado. Múltiplas entradas e saídas, concomitantes e simultâneas, podem ser desenhadas entre as fronteiras insunuadas que a pesquisa genealógica – através do método cartográfico - fornece. 
Corpo
Para Maturana e Varela, o corpo é um sistema aberto funcionando em rede, onde nenhuma força ou princípio que não esteja no universo físico é invocada. A noção de finalidade de um sistema não é uma característica da sua organização, mas sim do domínio do seu funcionamento, ou seja, ela remete à descrição de uma máquina a um domínio mais vasto que o sistema ele mesmo (Ramos, 2010). Ao pensar em sistema, imediatamente pensamos em algo cujas partes de alguma forma estão vinculadas, tocam-se, implicam-se mutuamente, relacionam-se de algum modo. A noção de sistema, portanto, serve para descrever unidades; unidades como singularidades autônomas ou quase-autônomas. (Rodrigues, 2008) os organismos vivos constituíam-se em sistemas autopoiéticos
. Apropriar-se desta concepção de corpo para os modos de subjetivação, implica afastar os pares dicotômicos de tradição platônica homem/mundo, corpo/mente, consciente/inconsciente. Desta perspectiva, chamamos para a materialidade do corpo os movimentos dos fluxos de sentido que o constituem, singularmente, a cada vez. A própria concepção de autopoise favorece este pensamento que passa a considerar as manifestações do corpo como legítimas e suficientes para sua constituição, não estando a subjetividade em outro lugar ou entidade que seja separada dele. Um sistema autopoiético porta uma folga, um desarranjo, uma disfuncionalidade que atinge toda regularidade, toda estabilidade momentânea. Se é possível falar em representação simbólica é somente no sentido de uma correspondência histórica, de um domínio consensual que emerge da rede autopoiética subjacente, que guarda a abertura para a produção de novas formas de cognição. (Kastrup, 2010)
Então, ao conectarmos a noção de corpode Maturana e Varela a de Espinosa que postula que o corpo é as relações que está (Espinosa, 1989), formamos um complexo conceitual que mostra-se potente analisador do corpo, dos modos de subjetivação. Assim, conforme os jogos das forças em um território – sua ambiência – são investidos modos de existencialização que fazem vingar formas e jeitos correlatos a ele, que o vigoram, que têm pleno trânsito, que estabelecem estreita relação de potência entre estes agenciamentos: são essenciais à sua existência e manutenção. Mas é somente com o aumento da capacidade de afetar e ser afetado do corpo e do pensamento que nos tornamos capazes de ultrapassar os limites estreitos impostos pelos valores de época e nos tornamos criadores de novos ambientes de intensificação do desejo e aumento da liberdade (Fuganti, 2006, p. 1).
Do mesmo modo, embora haja dominância nas relações de forças, elas não são monolíticas, mas feixes. Apresenta variações de graus de potência, de aceleração, ritmo, fluência, funcionando em freqüências diversas à hegemônica. Estes funcionamentos têm efeitos nos territórios, pois agenciam as forças em outras configurações. Têm outras regras, as que o próprio agenciamento impõe, as que ele precisa pra existir. É um funcionamento intensivo, cuja potência está localizada na proximidade entre afetações e agenciamentos, em sua efetividade, expressividade, conectividade. ...mas cada estado de afecção determina uma passagem para um 'mais' ou para um 'menos'... A afecção, pois, não só é o efeito instantâneo de um corpo sobre o meu, mas tem também um efeito sobre minha própria duração, prazer ou dor, alegria ou tristeza. São passagens, devires, ascensões e quedas, variações contínuas de potência que vão de um estado a outro: serão chamados afectos, para falar com propriedade, e não mais afecções. (Deleuze, 1997, p.157) 
Vemos, portanto, que estas transduções conceituais provocam um deslocamento nas perspectivas de análise que podem efetivar-se a partir delas. Um acréscimo de fatores complexos que têm como efeito a evitação da simplificação em leis gerais. O paradigma Ético-Estético-Político vem corroborar esta complexificação.
Paradigma Ético-Estético-Político 
O sujeito, em suas dimensões política, estética e ética, caracteriza-se 
como expressão da potência da vida para resistir às formas de dominação.
(BARROS&PASSOS, 2001)
Através destas distinções intensivas neste campo temos a Ética, a Estética e a Política, acoplados como paradigma. Fundidos por Guattari (1990) numa atualização conceitual contemporânea, o paradigma ético-estético-político coloca-se a serviço das problematizações que os modos de subjetivação instauram na atualidade, nos agenciamentos Clínicos inclusive. Há a produção de um campo - que se forma através da conexão deste paradigma com as práticas Clínicas - que nos posiciona transversalmente às multiplicidades que compõem este espesso conjunto de forças, que indicam inúmeras formas de existir e devir. Para tanto, sua explicitação em cada vetor que o compõe é mister para sua compreensão e funcionamento.
Ética
Para Espinosa, o bom e o mau não são valores em si, nem correspondem a qualidades que existiriam nas próprias coisas. Bom é, simplesmente, tudo quanto aumente a força (...); mau, tudo quanto a diminua. (...) não desejamos algo porque é bom, mas é bom porque o desejamos: Ninguém pode desejar ser feliz, agir bem e bem viver que não deseje ao mesmo tempo ser, agir e viver, isto é, existir em ato. Não se pode conceber nenhuma virtude anterior ao esforço de se conservar (Teixeira, 2004). Em sua Ética, virtude não tem o sentido moral de adequação a um modelo, mas o sentido originalmente dado em seu étimo latino de uma "força interna", de "robustez, vigor" (virtus deriva de vis, "força, poder, influência") (Teixeira, 2004).
A Ética (...) uma potência ativa que emerge no corpo, para administrar a própria vida de dentro
 (...) é um saber das práticas ou das condutas que está colada à potência (...). Ela é uma dimensão individual que se instala entre a profundidade
 das misturas corpóreas e a superfície dos acontecimentos incorporais e que governa e administra os afetos através dos encontros com outros corpos. Um encontro, portanto, pode ser bom ou mau segundo nos fortaleça ou enfraqueça (Fuganti, 1990, p.53).
Há aqui um diferencial a ser pontuado entre almejar o Bem e avaliar uma experiência do corpo como Boa. A diferença entre ética e moral é que a moral prescreve o que se deve crer, pensar, fazer, sob um modelo ideal e perfeito do Bem; a ética diversamente, convida a agir e a pensar segundo o que um copo pode, de acordo com a potência da natureza que o atravessa (Fuganti, 1990, p.51).
Bom ou Mau nascem como efeito do encontro e não à priori da experiência. Não há aqui uma regra que prometa afastar a ameaça do não-ser, a vontade de abolição, posto que é presente. É o investimento em certo saber que, presentificado, pode dar consistência as formas que vão habitando imperceptivelmente o campo social, efeitos das lutas territoriais das forças em embate nos corpos.
A Vida enquanto um bem fruído, não almeja a sua conservação a qualquer custo. O oxigênio da existência é a potência de aspirar a modos de existencialização que possam servir de passagem aos afetos tocados nos encontros. Ela comporta o risco e o engano; o erro não se opõe à vida, pois não há um valor que se opõe a outro que deva ser extirpado. Aqui o devir em sua multiplicidade, pode ser acolhido e as diferenças podem existir. Importa que o movimento aconteça. Os matizes e nuances são ferramentas da diferenciação.
A vida talhada a partir da experiência da matéria - o que vale dizer do corpo no mundo, como anteriormente explicitado pela conexão dos conceitos de corpo em Espinosa e Maturana & Varela - tem a multiplicidade como seu elemento: esta multiplicidade com que o devir atravessa os planos e é jogo de forças. O corpo, matéria deste combate, produz, a cada vez, as expressões das batalhas travadas; bem como, as configurações resultantes, efeitos destes encontros.
É a Vida para qual dizemos sim e, o que dela verte, são as possibilidades de formas de existencialização que ela pode tomar, em seu processo de expansão: o que importa à Vida não é reservar-se, mas expandir-se, desdobra-se em múltiplas formas, comportar a potência das forças que atravessam o corpo. Portanto, o sim é decisório. É a evidência da passagem de forças em determinado encontro onde, neste jogo, uma tendência mostra-se mais forte. Não há escolha, posto que o afeto agenciado não tem como negar-se ao agenciamento. Pode dizer não (e, somente neste sentido há escolha), recusando passagem, fechando sua porosidade, interrompendo o movimento. Entretanto a afetação, só é recusável em seu movimento, sendo o afetar-se do acontecimento, inegável. 
Aliás, é por ter sido afetado diferencialmente, quando a alteridade passou a habitar seus interstícios, que um campo fecha e se enrijece ao movimento, exatamente por não suportar o movimento em sua desestabilização de modos e sentidos. Entretanto, (..) só isto é que permite recuperar a dimensão Ética. Só a partir do reconhecimento da alteridade que a Ética é possível. (Guattari, 1993, p.30).
É através das posições assumidas pelos corpos que a Ética das existências se dá ao conhecimento. Porque é a vivência ética que produz saber, produz conhecimento. Enquanto (...) artificialidades radicais, tem efeitos, cria mundos (Benevides, 1991). Ético, então, é o rigor com os agenciamentos que compõem um campo; é o rigor com a expressão do singular e inusitado; é o compromisso com as forças que atravessam o campo, compondo os agenciamentos e multiplicando sentidos. É a valoração dos saberes nascidos das relações. Só será Ético neste compromisso, se for estético e político no mesmo movimento.
Estética
(...) é o imperativo ético, mas que implica também uma espécie de estetização da existência, (...) criar-se a si mesmo [em] cada ação particular (...) mas não de qualquer maneira, mas segundo a linha de um estilo (...) artístico(...):
 Fazer da sua própria vida uma obra de arte. 
Giacoia, 1994. 
É que a Estética está posicionada segundo a Ética e a Política, num agenciamento que adensa sua perspectiva intensiva na criação. Assim, é às cercanias do inusitado e singular que ela se inscreve. É, também, ao arrebatador e multiplicador de sentidos, que se refere. É a Arte, naquilo que provoca de desestabilizador dos modos, naquilo que transborda as molduras... Onde e quando o exterior invade o corpo (...) Mas, a partir de que momento se torna belo o que está no, quadro? A partir do momento em que se sabe e se sente o movimento que a linha que é enquadrada vem de outro lugar, que ela não começa nos limites do quadro. Ela começou acima, ou ao lado do quadro, e a linha atravessa o quadro (...) longe de ser a delimitação da superfície pictórica, o quadro é quase ao contrário, é o estabelecimento de uma relação imediata com o exterior (...) (Deleuze, 1985, p.61).
O exterior é o coletivo (político), o devir; mas, ao mesmo tempo, o exterior de uma determinada figura da subjetividade, o exterior de um afeto, suas adjacências, suas pequenas fissuras que permitem a sua comunicação com aquilo que não é: com o inumano, com o transhumano, com seu avesso e sua afirmação. A iminente potencialidade de devir, ancorada na iminência do desmanchar-se; linha, fluxo, desterritorialização. O entorno, mas também o intorno (Guattari, 1993, p.15).
Trafegar neste limiar, nas fronteiras, na borda, num indeciso e impreciso fio vital, faz dos modos, agentes estéticos do devir. É o mesmo interstício com a Arte que faz dos conceitos obras vivas, cortes precisos que transbordam o circuito filosófico, selecionando outras misturas, variadas composições. Transbordamento é o modo pelo qual o intenso atravessa este registro, uma manifestação inequívoca do jogo das forças galgando patamares de expressão, sua expansão fazendo um extra-limite. Os limites são expressões da potência das forças, que querem se expandir até a extinção do que podem: este é seu limite. O transbordar, é da ordem dos acontecimentos: não há previsibilidade ou antecipação, não há como saber o que se movimentou à sua passagem, senão pelos rastros de sua trajetória. A regra aqui é a integridade, o rigor para com as linhas que o compõem.
Se Estética é transbordamento, é a vida na ordem do acontecimento que transborda. Linhas que atualizam vetores virtuais de devir intenso... (...) a criação de um campo, (...) criação que encarna as marcas (...) como na obra de arte (Rolnik, 1993, p.245). Heterogenia, pluralidade, criação que agrega os mais diversos materiais, (...) inexatos, mas rigorosos (...) (Baremblitt, 1998, p.45). Neste trajeto não há uma linearidade, uma forma que recrie aquelas em que se possa reconhecer atributos homogêneos e do senso comum... Ou seja, do belo que se faz quando matérias são seduzidas num agenciamento que faz funcionar outros corpos, instaurando o movimento, numa irremediável e arrebatadora coreografia experimental.
A Arte aqui, é... (...) Arte dos caminhos (...) não para assinalar-lhes a origem, mas para fazer de seu deslocamento algo visível (...) ela mesma é uma viagem (Deleuze, 1997, p. 76/77). Esculpir nas vidas modos belos e ímpares, esculturas de gelo que derreterão com o calor do dia; mas, ninguém que foi tocado pelo seu vigor, deixará de notar que um certo frio passou a habitar o verão com uma linha de leveza...
Assim, a função Estética vai enunciar como algo maquina num determinado agenciamento e só nele, daí advindo seu valor: que tipo de vida propicia este dispositivo às vidas ali implicadas? Quais as diferenças que eclodem à sua passagem? Quais os dispositivos agenciados/ maquinados por este transbordamento?
Estranha Estética que pode existir a despeito do Belo. Potente Estética esta, que dá visibilidade àquilo que é único, ímpar singular, despropositado, desmedido... onde quer que possa ser produzido: Estética da existência!
O paradigma estético refere-se à composição de materiais os mais diversos que, no jogo das forças, são agenciados em função das linhas de fuga que atravessam determinado plano. Como se refere à heterogênese, não busca os inteiros, o inabalável, o aprazível senão enquanto atravessamento. É a Estética que investe o corpo de potência para o acolhimento da alteridade. São as parcialidades, o inacabado, o indefinido, os efeitos gerados nos corpos à sua passagem que são investidos: (...) a essência da criatividade estética reside na instauração de focos parciais de subjetivação (Guattari, 1993, p.29). 
A Estética é a própria possibilidade de criação e recriação, o acolhimento daquilo em nós que difere, modos que insistem e afirmam-se à despeito das regras e configurações, (...) pois todo devir é um bloco de coexistência (Deleuze e Guattari, 1997, p.89): uma coexistência com a alteridade que manifesta-se, exatamente, pela possibilidade (...) de entrar em relação (Legrand, 1983, p.291). A Arte (...) é feita de trajetos e devires, por isto faz mapas extensivos e intensivos. (...) E como os trajetos não são reais, assim como os devires não são imaginários, na sua reunião existe algo de único que só pertence à arte (Deleuze, 1997, p.79).
Político
O caráter político do paradigma refere-se ao que poderíamos chamar de ‘políticas de viver’, onde somos sensíveis às Macropoliticas e Micropoliticas. As Macropoliticas são os territórios visíveis, aquilo que pode ser assinalado inequivocamente no mapa: os partidos políticos, o Estado, as Leis, as classes sociais, os corpos. Ele opera o visível, é o plano das totalizações, dos sujeitos, recortando unidades. A Micropolítica opera intensidades, opera com as alteridades nos campos de força (...) (Rolnik, 2004). Transversalizam corpos e figuras identitárias, são os fluxos que podem constituir formas e matérias. Mas, são exatamente as partículas caóticas, o inapreensível senão por seus efeitos, as afecções antes de sua expressão. São os fluxos de sentido que atravessam o corpo, como sistema, funcionando em rede com outros sistemas e em constante afecção pelo mundo. 
Cada corpo, exatamente por esta capacidade, também é afeto pelos mecanismos de poder, o tempo todo, em escala que se pretende incomensurável no Capitalismo Mundial Integrado. A cada momento, estamos expostos aos modelos de referência impostos pelos mecanismos do poder ao quais respondemos por sua adesão ou por opor resistência a eles. Os mecanismos de controle da sociedade são amplamente analisados pro Foucault que propõe os conceitos de biopoder e biopolítica, onde encontramos vetores de análise e resistência na contemporaneidade aos modos de serialização dos corpos. Eis, então, que o tema da vida assume uma posição de destaque, pois o paradoxo no contemporâneo parece que se realiza agora colocando a vida ao mesmo tempo como ponto de incidência do exercício do poder e ponto de resistência (BENEVIDES&PASSOS, 2001).
O modo como um acontecimento é vivido evidencia quais forças estão colocadas e são concorrentes num campo de subjetivação, onde ocorre o jogo das forças pela expansão e dominação: a luta por expansão encontra resistências impostas por outros centros de forças em expansão (Mosé, 1996, p.235). Daí que, a avaliação da experiência que atravessa os corpos, decorre do diagrama de forças - provisório, último, o mais atual -, dos domínios que foram arregimentados por tais e quais tendências atualmente. Podemos ter acesso à dimensão histórica e coletiva que nos constitui. Os corpos são, provisoriamente, a expressão da ambiência onde estão posicionados: ético-estético e politicamente. O si não é um agente da criação, mas é sempre efeito dela, emergindo de um plano de produção coletivo, anônimo, impessoal (BENEVIDES&PASSOS, 2001).
No vetor político, evidencia-se o confronto entre os modos de subjetivação singulares e os modos preconizados pelas correntes da normatização das práticas e corpos, em tempos onde (...) as instituições se volatilizaram perdendo suas fronteiras e mantendo entre si uma relação de modulação num continuum regulador(BENEVIDES&PASSOS, 2001).
Criar estilísticas da existência que abram jurisprudências para modos de existir que resistam aos mecanismos reguladores, propondo a criação de coletivos, um Espaço Comum a ser produzido, onde as regras para a convivência são estabelecidas a partir das relações. Assim, visa favorecer o estabelecimento de outras redes. 
Rede contra rede. Acreditamos que não há como escaparmos das redes e por isso a estratégia é a de constituirmos outras redes: redes quentes, i.e., redes não comprometidas com a exploração capitalista nem com o terror, mas sintonizadas com a vida, redes autopoiéticas. Redes públicas que envolvem a dimensão coletiva da existência e que estão comprometidas em processos de produção de subjetividades não dominadas pelo pânico, pela dívida, pela depressão. Este é o compromisso clínico-político que nos anima. (PASSOS&BARROS, 2000)
Nesta condição, passamos a trabalhar a concepção de homem-mundo que este pensamento impõe e as relações e buscas que o homem pode então empreender. Ainda como efeito deste processo, despatologizar o cotidiano, onde outros modos e formas possam habitar e existir, com a força da própria condição de existência e a partir dos valores que sustenta nesta trajetória. Abrimos, assim, possibilidades de abertura aos processos de individuação. O que nos interessa são modos de subjetivação e, neste sentido, importa-nos poder traçar as circunstâncias em que eles se compuseram, que forças se atravessam e que efeitos estão se dando. No lugar do indivíduo, individuações. No lugar do sujeito, subjetivação. Como nos conceitos, não se trata de modo algum de reunir, unificar, mas de construir redes por ressonâncias, deixar nascer mil caminhos que nos levariam a muitos lugares (...) (Passos&Barros, 2005).
Cartografia como método
Objeto e método se estabelecendo num só e mesmo movimento: um outro paradigma – também de Ciência – produzindo outras tecnologias de vida. Implicamos-nos com o outro no acompanhar dos múltiplos movimentos do corpo e suas possibilidades de conexão, percebendo as forças organizadoras da sensibilidade e privilegiando as conexões criativas que no próprio encontro se produzem.
Cartografar como espaço/dispositivo, (...) não implica em sistematizar, tampouco em organizar, e tampouco em atitude neutra por parte do sujeito-cartógrafo. Na cartografia, percorre-se os espaços de ruptura e de propagação. Procura-se desaprender os códigos, embaralhá-los mesmo, aguçar as sensações, abrir o corpo, para torná-lo passagem das vozes/imagens do mundo ainda não conhecido e experimentado (FONSECA e KIRST, 2004).
A Cartografia acompanha os movimentos, os corpos, as singularidades e se faz no mesmo movimento, com o desmanchamento de certos mundos – perda de sentido – e a formação de outros: mundos que se criam para expressar afetos contemporâneos (MARQUES e CZERMAK, 2008). Neste processo, a cartografia produz deslocamentos dos modos de viver-sentir-estar no mundo através da complexificação destes modos. Agregando elementos antes insensíveis, invisíveis, indizíveis ao campo vivencial, a cartografia dá visibilidade a potências até então capturadas em conjunções problemáticas. Por isso, nenhum material é indiferente à cartografia, pois se refere às expressões possíveis, aos poderes implicados nos processos, a própria posição e perspectiva adotada para a análise e descrição, fatorando uma posição também política ao pesquisador. Inseparabilidade entre conhecer e fazer, entre pesquisar e intervir: toda pesquisa é intervenção... (PASSOS&BARROS, 2009, p. 17).
A Cartografia como método, implica a intervenção na pesquisa, desalojando qualquer expectativa de neutralidade no pesquisador e no campo que se pretende cartografar. Constituídos ao mesmo tempo, traduz as transformações ocorridas por todo o trajeto, desenhando as transfigurações e movimentos em todos os envolvidos. É, portanto, um modo complexo, de implicação do pesquisador e, ao mesmo tempo, constituindo-se como interventivo. Sem dúvida, um deslocamento dos paradigmas que a ciência tomada com neutra pretende propor. 
Tecendo outros possíveis
Nestes fazeres conjuntos, são constituídos outros fazeres no acolhimento dos modos de subjetivação que aparecem como processuais e parciais. Sendo esta Clínica um modo de exercer esta processualidade, o que são construídos nesta prática são artefatos tecnológicos de combate aos modos hegemônicos de produção da Subjetividade, alicerçados em sentidos endurecidos e conservadores, que visam o controle das populações e disciplina dos corpos, compósito dos mecanismos do biopoder.
Então, os pressupostos teóricos são agenciados para tecerem a consistência vivida nesta Clínica, transbordando as análises teóricas e se construindo em sua vivência cotidiana. Investe-se o conhecimento nascido das relações como sendo aquele que efetua transformações expressas de modo Ético-Estético-Políticas. Implicamos nossas ações em modos de existencialização, em estilísticas da existência que apontem para a diversidade e pluralidade do mundo, investindo no registro político, ou seja, do mundo em que se quer viver, abrindo jurisprudência para inúmeros modos de subjetivação que habitam os interstícios do campo relacional. Fazendo deste pulsar uma pluralidade sempre em movimento, vamos criando intimidade com a provisoriedade das formas que o multiverso das forças vai articulando em sua passagem. 
Por se balizar no paradigma ético-estético-político, toma os valores da vida como plurais e afirmativos, buscando modos singulares de efetuar movimentos que constituam esta afirmação, expressando a multiplicidade, provisoriedade e de cada corpo, no mundo – a criação de um espaço comum onde a diferença possa ser vivida, tendo lugar como diferença, abrindo precedentes aos fluxos singulares no coletivo ao diferenciar.
Dessa forma, um dos modos de investir na Clínica Política compõe uma prática onde é recuperado o Espaço Público (Polis) como legítimo para discussão dos projetos humanos e questões mundanas (PNHAH, 2000). Age, assim como vetor de humanização das práticas de saúde, uma vez que os modos de subjetivação abrem campos problemáticos onde as estratégias clínicas não se limitam a meses letivos, a abertura de vagas e a propostas de projetos, mas acolhe os modos e meios acionados junto a dispositivos analisadores, respeitando o ‘outro’ como um ser singular e digno, que é uma condição sine qua non do processo de humanização. 
A relação terapêutica forma uma rede que se estende aos lugares de expressão social dos indivíduos/coletivos atendidos, fazendo cortes, atravessamentos, limiares, conexões sem fim. Não há o interesse pela privatização dos afetos ou pelo atendimento do “caso”, mas sim a experimentação dos grupos que habitam as relações.
O outro é parceiro nas formas, contornos e movimentos. Considerá-lo enquanto tal é 
(...) estabelecer laços (ligações feitas com capricho); admitir e suportar a impotência de não ter respostas; lutar para não estabelecer regras à priori; insistir em composições que potencializam a vida; duros passos cambaleantes e movediços no traçado de trilhas provisórias (MUYLAERT, 2000, p.27).
Estas posições, que são ético-estético-políticas, têm como efeito o cuidado, que não precisa ser mais colocado como um objetivo a ser alcançado ou como uma meta institucional a ser perseguida. Ele surge quando nossas práticas são expressões das pretensões vitais dos corpos, que ensejam criações ímpares para o viver. 
6. Bibliografia Atualizada e Vídeos:
BARROS, R. D. B. - Sobre a oposição indivíduo/grupo: contribuições de Foucault - PUC/SP 
 - 1991.
BAREMBLITT, G. T. (org.). Introdução à Esquizoanálise. Belo Horizonte, Biblioteca do 
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Cadernos Humaniza SUS – Formação - 
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� Onde entendemos autopoise como caracterizada (...) pela incessante produção de si mesmos e pelo contínuo engendramento de suas fronteiras, tal movimento não pode ser concebido dissociado de uma contrapartida, a sobrevivência do organismo (...) sobrevivência (espaço). A autopoiese é aí sempre apreendida, atualizada, encarnada num sistema vivo concreto e dotado de estabilidade (Kastrup, 2010).
� Saliento que dentro e profundidade aqui, não pressupõe uma verdade interior ou essencial - o que seria o mesmo que se passa com a Moral. Dentro, enquanto a partir de, ou seja, partindo do que é afetado naquele corpo. A profundidade é a própria dobra, uma volta sobre si mesmo, um domínio de si, enquanto uma autonomia conquistada. (Fuganti, 1990, p.53), algo de próprio à um modo e que atribui efeitos aos corpos com os quais se relaciona.
� Ver nota anterior.

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