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Lacan e o advento do sujeito
O que é a clínica psicanalítica?
Conteúdo programático
3
01
Eu e o sujeito: os tempos do Édipo
02
O inconsciente estruturado como linguagem
03
Sintoma de Freud a Lacan
Eu, sujeito e os tempos do Édipo
01
1.
3 tempos do Édipo
Criança tenta preencher a falta do cuidador primário
Se identifica como objeto do desejo materno
Bebê = Falo
5
(Couto, 2017)
1º
3 tempos do Édipo
Relação mãe-bebê é rompida
Nome-do-Pai entra em jogo
Mãe deseja Outra coisa
Pai imaginário (aquele que é o falo)
6
(Couto, 2017)
2º
3 tempos do Édipo
Pai simbólico (aquele que tem o falo)
É a Mãe que viabiliza o Pai pelo simbólico, pela palavra
Pai não se presentifica mais na ausência da Mãe, mas sim no discurso dela
Pai não como aquele que é o que a Mãe deseja, mas que pode dar o que ela deseja
Criança se identifica ao pai e se insere na ordem da cultura
7
(Couto, 2017)
3º
“Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar”.
— Clarice Lispector, a Paixão Segundo G.H.
8
Estádio do Espelho
Antes do sujeito emergir, emerge um Eu corporal
Eu (moi – objeto direto/indireto) // Sujeito (Je – sujeito da frase)
Sujeito se constitui no simbólico, eu na imagem
9
(Couto, 2017)
Maria homem | lacan: estádio do espelho
Alienação
Alienação, identificação de si na imagem do Outro
Campo do Outro x campo do ser vivente
“Escolha” entre o campo do sentido e o do ser para se tornar sujeito
“O sujeito é causado pelo desejo do Outro, se aliena nele e assume a posição de objeto do desejo do Outro”
Se aliena para entrar na linguagem
11
(Couto, 2017)
Separação
Embate entre sujeito e Outro do desejo
Sair de lugar de objeto do Outro para adentrar o desejo
Outro agora é faltoso
Nome-do-Pai: aquilo que o Outro deseja para além do bebê
“O que o Outro quer de mim?”
12
(Couto, 2017)
Inconsciente estruturado
como uma linguagem
02.
Significado e significante
14
Significado X Significante: de Saussure a Lacan
Real, imaginário e simbólico
(Dias, 2006)
O inconsciente de Freud
15
Não é algo encoberto, profundo
Multideterminado: não ocorre de maneira arbitrária
Valor da associação livre: a determinação do inconsciente se torna acessível
Possui uma ordem, uma sintaxe
Lacan: o inconsciente é estruturado como uma linguagem
(Garcia-Rosa, 2009)
O inconsciente de Freud
16
Aparece nas lacunas do consciente
Formações do inconsciente: sonhos, atos falhos, chistes, lapsos, sintomas
Fenômenos lacunares produzem descontinuidade no discurso consciente
Sensação de um sujeito oculto ao eu da consciência
(Garcia-Rosa, 2009)
O que nos chama a atenção nesses fenômenos lacunares não é apenas a descontinuidade que eles produzem no discurso consciente, mas sobretudo um sentimento de ultrapassagem que os acompanha (Lacan, 1979b, p. 30). Neles, o sujeito sente-se como que atropelado por um outro sujeito que ele desconhece, mas que se impõe a sua fala produzindo trocas de nomes e esquecimentos cujo sentido lhe escapa.
O inconsciente de Freud
17
“todos os atos e manifestações que noto em mim mesmo e que não sei ligar ao resto de minha vida mental devem ser julgados como se pertencessem a outrem” – Freud
Sujeito do inconsciente
(Garcia-Rosa, 2009)
O inconsciente de Freud
18
Desconhecimento X Ignorância
Exemplo: esquecimento de um nome / metáfora da cadeira de cinema
(Garcia-Rosa, 2009)
O inconsciente e o simbólico
19
Tentativa de substancialização dos sistemas consciente/inconsciente
“O termo “conteúdo do inconsciente” não designa uma relação de conteúdo a continente análogo a quando dizemos que o copo contém água” (p. 174)
Conteúdo inconsciente: está sujeito a uma lógica que não a da consciência
(Garcia-Rosa, 2009)
O inconsciente e o simbólico
20
Inconsciente como uma lei de articulação, não um lugar!
Só há o inconsciente se houver o simbólico
(Garcia-Rosa, 2009)
“O inconsciente está sempre vazio; ou, mais exatamente, ele é tão estranho às imagens quanto o estômago aos alimentos que o atravessam”.
— Lévi-Strauss
21
O inconsciente e o simbólico
22
Cultura é um conjunto de sistemas simbólicos
Não é construído a partir da tradução de um dado externo em símbolo
O social se constitui a partir do simbólico
Simbólico como formador das leis estruturais do inconsciente
(Garcia-Rosa, 2009)
O inconsciente e o simbólico
23
Linguagem permite um afastamento do indivíduo em relação à vivência
O nome é a morte da coisa
(Garcia-Rosa, 2009)
Estrutura do inconsciente
24
Conteúdos do sistema psíquico: representação e afetos (pcs-cs)
Representação de coisa (ics) x Representação de palavras (pcs-cs)
O conteúdo recalcado busca uma representação no sistema pcs-cs
(Garcia-Rosa, 2009)
Características do inconsciente
25
Ideias e desejos opostos podem existir, não se eliminam
Maior ou menor investimento em uma das representações
Processo primário e secundário
Atemporal
Mecanismos básicos: condensação e deslocamento (metáfora e metonímia)
(Garcia-Rosa, 2009)
No processo primário, a energia psíquica tende a se escoar livremente, passando de uma representação para outra e procurando a descarga da maneira mais rápida e direta possível, enquanto, no processo secundário, essa descarga é retardada de maneira a possibilitar um escoamento controlado. Isso faz com que no processo secundário as representações sejam investidas de forma mais estável, enquanto no processo primário há um deslizar contínuo do investimento, de uma representação para outra, o que lhe confere o caráter aparentemente absurdo que se manifesta, por exemplo, nos sonhos
Estruturado como linguagem
26
Cassirer: homem é um animal simbólico
Saussure: signo linguístico — significante/significado
(Garcia-Rosa, 2009)
Estruturado como linguagem
27
Signo: unidade composta, que une significado a um significante
Arbitrariedade: inexistência de uma relação entre o significado e o significante, é imotivado e não mantém laço natural com a realidade 
Linearidade: Seus elementos se apresentam um após o outro
(Garcia-Rosa, 2009) — Saussure
Significado e significante com um caráter indissociável
Estruturado como linguagem
29
Lacan inverte a posição do significado e significante
Autonomia do significante em relação ao significado
(Garcia-Rosa, 2009)
Estruturado como linguagem
31
Para Lacan, o significante não tem por função representar o significado, mas que ele precede e determina o significado
(Garcia-Rosa, 2009)
Significado
32
O significado nada mais é do que outro significante que, junto com o primeiro, retroativamente, produz efeito de sentido
O sentido se dá ao longo da frase, ao longo da palavra
(Dias, 2006)
Metáfora e metonímia
33
Sonho
Não se tem acesso direto, mas pelo discurso
É o discurso do sonho que importa na análise
Distorção no sonho é produzidapela condensação e pelo deslocamento
Condensação = metáfora
Deslocamento = metonímia
(Garcia-Rosa, 2009)
Metáfora e metonímia
34
Condensação: Reação emocional é transferida a outro objeto; uma sobreimposição dos significantes dando origem à metáfora;
Deslocamento: Conteúdos se unem a uma única imagem; pela substituição dos significantes com base na contiguidade, teríamos o equivalente da metonímia
(Garcia-Rosa, 2009)
Metáfora e metonímia
35
Mecanismos responsáveis por uma das mais importantes funções da linguagem: duplo sentido
Metáfora: substituição de significantes que apresentam uma relação de similaridade
Ex: “Lucicleide é uma gata”
Metonímia: substituição de significantes que mantém relação de contiguidade
Ex: “Comprei Maisena para fazer o bolo”
(Garcia-Rosa, 2009)
Emergência do inconsciente
36
Recusa de uma representação pela consciência que torna esta ao inconsciente
Nascimento -> ovo -> perda de sua casca -> “hommelete”
O corpo é demarcado e delimitado a partir da linguagem
Pulsão ilimitada -> pulsão parcial
(Garcia-Rosa, 2009)
Emergência do inconsciente
37
Letra = Representação da Falta
Referida à zona erógena e ao objeto
Letra fixa uma falta, um vazio
(Garcia-Rosa, 2009)
A clivagem originária
38
Perdida uma parte de si mesma, a criança procura objetos exteriores para preencher sua falta
Primeiro objeto: o seio que alimenta
Autoconservação -> pulsão sexual
Paralelo a uma satisfação de uma necessidade (fome/instinto), produz-se um prazer no sugar (pulsão)
(Garcia-Rosa, 2009)
A clivagem originária
39
Perdida uma parte de si mesma, a criança procura objetos exteriores para preencher sua falta
Primeiro objeto: o seio que alimenta
Autoconservação -> pulsão sexual
Paralelo a uma satisfação de uma necessidade (fome/instinto), produz-se um prazer no sugar (pulsão)
(Garcia-Rosa, 2009)
Inconsciente
40
“É nos sonhos, nos lapsos do discurso, nas distorções, nas lacunas e nas repetições do sujeito, assim como em seus sintomas, que temos que ler o traço apagado do significante recalcado, que emerge na linguagem particular que apreende o desejo inconsciente e que abriga inadvertidamente um sentido – o do conflito recalcado – determinando a maneira pela qual o discurso do sujeito se organiza”
(Dias, 2006)
O inconsciente é estruturado como uma linguagem
41
Sintoma de Freud a Lacan
03.
Sintoma freudiano
43
Conflito entre o Eu e as pulsões
Recalque
Libido represada busca satisfação em outro lugar, outras vias de satisfação
Sintoma = satisfação sexual substitutiva
(Dias, 2006)
Sintoma freudiano
44
Compromisso entre as forças repressoras e a libido insatisfeita
Satisfação restrita, que mal se reconhece enquanto tal
Sintoma como expressão do recalcado
(Dias, 2006)
A dimensão simbólica
45
Inconsciente estruturado como linguagem
Pulsão reduzida a uma cadeia de significantes
Fantasia: estruturada pela condição significante, objetos da fantasia como termos substitutos para satisfação desta
(Dias, 2006)
A dimensão simbólica e o desejo
46
Desejo está fora da ordem significante
Ele se torna articulável com a linguagem e com os significantes a partir da demanda
O que é demandado nunca corresponde, de fato, ao que se deseja
Desejo inapreensível, inarticulável
(Dias, 2006)
“Peço-te que me recuses o que te ofereço, pois não é isso”.
— Lacan, seminário 19
47
A dimensão simbólica e o desejo
48
Pode-se, todavia, inferi-lo por meio do significante
Articula-o na demanda
A demanda é a própria cadeia de significantes que se dirige ao Outro, como o lugar dos significantes, o lugar do código
(Dias, 2006)
A dimensão simbólica e o sintoma
49
Sintoma como algo que tem um sentido a ser decifrado
É uma fala dirigida ao Outro
Na demanda endereçada ao Outro circula o desejo, disfarçado na enunciação
(Dias, 2006)
A dimensão simbólica e a análise
50
Processo de deciframento da articulação significante
Se dá no desdobramento e no desenrolar das cadeias de associação de significantes.
A associação livre faz-se pela via do significante, e não do significado.
Para se chegar ao significado, o que importa é o lugar do significante em relação a um outro significante.
(Dias, 2006)
A dimensão simbólica e a análise
51
Tratamento orientado para libertar, pela via significante, a insistência repetitiva do sintoma
(Dias, 2006)
A dimensão do real
52
Objeto perdido com a entrada na linguagem
Objeto perdido = objeto causa de desejo = objeto a
Princípio de prazer: mover sujeito de significante em significante para manter o estado de tensão baixo
(Dias, 2006)
A dimensão do real e além do princípio de prazer
53
Compulsão à repetição da experiência traumática
Pulsão como uma tentativa de restaurar um estado anterior à vida
Inércia inerente à vida inorgânica
(Garcia-Rosa, 2009)
A dimensão do real e além do princípio de prazer
54
Pulsão conservadora — desenvolvimento se dá por fatores externos
Pulsão de vida: evitar que a morte ocorra de uma forma não natural — reguladora para o caminho da morte
(Garcia-Rosa, 2009)
A dimensão do real e além do princípio de prazer
55
No sintoma, há uma satisfação às avessas
Algo resta da palavra — o real — e desse inassimilável há uma satisfação desprazerosa e sintomática
Satisfação ligada à pulsão de morte
(Dias, 2006)
01
Referências
Referências
57
Couto, D. P. do (2017) Freud, Klein, Lacan e a constituição do sujeito. Psicologia em Pesquisa, 11(1), pp. 1-10.
Dias, M. das G. L. V.. (2006). O sintoma: de Freud a Lacan. Psicologia Em Estudo, 11(2), 399–405. https://doi.org/10.1590/S1413-73722006000200019 
Garcia-Rosa, L. A. (2009). Freud e o inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar. — Pulsão de vida e pulsão de morte [p. 132-8] & Capítulo VIII O inconsciente [p. 168-195]
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