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ESCREVER NA UNIVERSIDADE 1 Fundamentos EDITOR: Marcos Marcionilo CONSELHO EDITORIAL: Ana Stahl Zilles [Unisinos] Angela Paiva Dionisio [UFPE] Francisco Eduardo Vieira Carlos Alberto Faraco [UFPR] Egon de Oliveira Rangel [PUC-SP] Carlos Alberto Faraco Henrique Monteagudo [Universidade de Santiago de Compostela] José Ribamar Lopes Batista Jr. [UFPI/CTF/LPT] Kanavillil Rajagopalan [UNICAMP] Marcos Bagno [UnB] Maria Marta Pereira Scherre [UFES] Rachel Gazolla de Andrade [PUC-SP] Roberto Mulinacci [Universidade de Bolonha] Roxane Rojo [UNICAMP] TT Salma Tannus Muchail [PUC-SP] Sírio Possenti [UNICAMP] parábola Stella Maris Bortoni-Ricardo [UnB]e de tudo, é um aperto danado, imagine Tem dia mam eu me dano a andar cidade afora somente pra não escutar queixa por que queixa. Esquecendo as desavenças, vai se indo. Para 0 mês, Mariinha completa quinze anos. Na ausência de festa, faz-se Unidade 4 um bolo. Ela está namorando um rapaz muito direito, que toma conta de carro em rua de rico, embora eu pense que ela ainda não esqueceu Zé Geraldo aí do posto. Júnior arrumou emprego, mas desarrumou em seguida e tá parado no momento. Eu mesma já repeti mais de mil vezes A ESCRITA NA UNIVERSIDADE pra ele largar de ser desleixado e tratar logo de aprender a mexer em computador, pois hoje em dia quem não se entende com dito não arranja nada decente nessa vida. Pelo visto, ele puxou mesmo ao pai, inclusive na leseira. Por falar no desinfeliz do pai dele, já bati a cidade inteira e ainda não encontrei homem, também como é que eu ia adivinhar que Rio de Janeiro era tão grande? Tenho pra mim que ele tava era me enganando o tempo todo com essa conversa de mandar buscar a gente no Natal, ou então não teria escrito 8 0 endereço errado, que essa tal rua que ele falou nem existe, Nena. N a unidade anterior, vimos que os textos escritos não são nem um pouco homogêneos. Eles apresentam diversida- 89 Se eu encontrar triste, ligo a cobrar avisando. Dia de domingo é mais de composicional, temática e estilística, justamente por- barato. Mesmo não encontrando, ligo de todo modo, uma vez que, com que são concretizados em gêneros textuais diferentes. Compare, homem ou sem ele, a vida segue. por exemplo, um bilhete e uma ata de reunião de condomínio; Nena, não se esqueça de aguar minhas plantas nem de dar de comer uma receita médica e um versículo bíblico; um poema e uma à Duquesa. Deus lhe pague em dobro tudo que você fez por mim, por reportagem. Todos são textos escritos, mas configurados de mãe e pelos meninos. modos bem distintos. A sorte ajudando, dia desses eu tiro na raspadinha e mando passagem É verdade que os gêneros escritos são inúmeros numa de leito pra você mais Neto virem conhecer 0 Rio. sociedade complexa como a nossa, atravessada por múltiplas Reze daí que eu rezo de cá. e constantes práticas de escrita. Mas também é verdade que Dê lembranças minhas a todos e aceite todo carinho da sua eterna alguns deles apresentam semelhanças e relações entre si, por fazerem parte de um mesma instância de produção, que abriga amiga, nossas rotinas comunicativas, interacionais. Essas instâncias de Doris produção também são variadas e podem ser denominadas de (FALCÃO, Adriana. 0 dono da garrafa: crônicas. esferas da atividade humana ou domínios discursivos. Há, São Paulo: Salamandra, 2003, 63-65.) assim, o domínio jornalístico, literário, religioso, o jurídico, domínio do cotidiano, domínio acadêmico, entre outros. Será com os gêneros textuais produzidos e consumidos nesta nesse ultimo domínio, acadêmico, que trabalharemos A escrita na universidadeEscrever na Universidade Fundamentos unidade. Trata-se do domínio em que circulam os diferentes tese, projeto de pesquisa, ensaio, ementa e plano de curso são gêneros que fazem parte da sua vida de estudante universitário. alguns exemplos. Você seria capaz de elencar alguns gêneros desse domínio? Todavia, em outras desse colunas, também aparecem menos prototípicos mas também frequentemente gêneros nele produzidos e lidos. por exemplo, na dedicatória 4.1. Os gêneros acadêmicos de um trabalho de conclusão de curso, no post de um blog Inicialmente, vamos pedir para você voltar à unidade 3 e que são registradas as atividades de estágio, na entrevista em indicar quais gêneros lá listados provavelmente fazem parte do a coleta de dados de uma pesquisa, na contracapa e nas orelhas para de um livro indicado para um seminário, na legenda da foto de domínio acadêmico. Considere que um mesmo gênero pode ser um trabalho realizado, nas anotações de aula, no requerimento relacionado a mais de um domínio, que só ratifica a diversi- dade desses construtos sociais e linguísticos. Para facilitar seu para solicitar reposição ou revisão de prova, entre outros tan- tos textos (e, consequentemente, tantos gêneros) que regulam a trabalho, seguem os gêneros mais uma vez, distribuídos naquela escrita acadêmica. mesma escala de formalidade com que trabalhamos: Você, estudante universitário, não pode ignorar as parti- Gêneros Gêneros Gêneros Gêneros cularidades composicionais e os propósitos a que esses gêneros informais semiformais formais ultraformais servem no conjunto de práticas de escrita acadêmica. Os textos Carta pessoal Carta de leitor Resenha Requerimento que habitam a universidade se organizam a partir de certas Diário Sinopse Resumo acadêmico Memorando Crônica Entrevista Carta comercial Abaixo-assinado possibilidades e restrições estruturais, temáticas e estilísticas 91 90 Mensagem de texto Artigo de opinião Carta aberta Ata de reunião que os caracterizam como pertencentes a este ou àquele gênero. Bilhete Biografia Carta de reclamação Lei Post de blog Contracapa de livro Prova Veredicto Demandas e objetivos acadêmicos específicos solicitam gêneros Dedicatória Orelha de livro Notícia específicos, organizados a partir de estruturas e formas tam- Declaração de amor Regra de jogo Reportagem Poema Artigo científico bém específicas. Portanto, você conhecer e saber produzir essa Fábula Verbete Receita médica diversidade de gêneros é essencial ao desenvolvimento de seu Conto Romance Relatório letramento acadêmico, isto é, à sua inserção nas práticas de Receita culinária Fichamento Legenda de foto Versículo bíblico linguagem (não só de escrita, mas também de leitura) próprias Anotações de aula do espaço universitário. É provável que você tenha apontado como próprios do domínio acadêmico os gêneros resenha, resumo, prova, artigo Leitura 1 científico, relatório e fichamento, todos eles apresentados na coluna que abriga exemplos de gêneros formais. Realmente, Você vai ler agora o início de uma entrevista realizada professor esses gêneros são bastante representativos da esfera por duas pesquisadoras brasileiras com o linguista e Estados circulam intensamente nos espaços universitários, moldando as de inglês David Russel, da Universidade de Iowa, nos da escrita práticas de linguagem da comunidade, sobretudo dos alunos e Especialista em escrita profissional e história do ensino de professores. Outros gêneros do registro formal, não exibidos na na educação, entrevistado fala sobre os desafios seguirão listagem, também são bem característicos das práticas de leitura leitura e escrita na universidade. Após a leitura do texto, e escrita dos estudantes universitários. Monografia, dissertação, algumas questões para sua reflexão. escrita na universidadeEscrever na Universidade Fundamentos LETRAMENTO ACADÊMICO: conhecimentos, atender ao objetivo valores da comunicação. etc.; em outras palavras, a escrita pode LEITURA E ESCRITA NA UNIVERSIDADE entrevista com David Russel Você afirma que a escrita acadêmica é distinta Flávia Brocchetto Ramos tes escrever disciplinas. na sua Seria disciplina/área? tarefa de cada docente/área em ensinar diferen- a Vânia Marta Espeiorin Que aspectos diferenciam a leitura e a escrita no ensino Sim, é a responsabilidade que o professor tem de ensinar os médio e no superior? comunicar conhecimento em sua área para sua Se alunos a A escrita na universidade é algo bastante especializado, muito não conseguem comunicar que sabem, não é possível afirmarmos os alunos o que é realmente conhecido e sabido por eles. mais especializado do que na escola secundária. Os alunos devem aprender a usar vocabulários especializados (com frequência, [...] passamos boa parte de uma disciplina introdutória na univer- (Fonte: Conjectura, Flávia B. Ramos et al., V. 14, n. 2, sidade ensinando terminologia e conceitos). No entanto, eles maio/ago. 2009, p. 241-247.) também precisam aprender novos gêneros ou formas, aqueles que sejam apropriados à pesquisa em determinado campo, pelo menos em níveis mais avançados de educação superior. Algo (1) De acordo com Prof. Russel, a especificidade da escrita que liga a escrita à educação secundária e à superior é a avalia- na universidade, quando comparada à escrita na escola ção. Em geral, se usa o escrever para exibir a aprendizagem, a básica, não consiste apenas no incremento de novas termi- última parte do processo de aprendizagem, tanto na educação nologias e conceitos. 92 secundária quanto na superior. Mas essa é apenas uma função e se focarmos nossa atenção na avaliação (notas) isso pode nos (a) Que outro fator de distinção é apontado? 93 afastar das outras funções. (b) Como poderíamos relacioná-lo ao que estamos abor- Quais são as funções da escrita acadêmica na formação dando nesta unidade? universitária? (c) Como você poderia relacioná-lo à sua experiência na A escrita, tanto na educação secundária como na superior, funciona educação básica e superior? principalmente para mostrar a aprendizagem, e professor exerce papel de examinador quando lê. Mas, naturalmente, essa não é (2) Ainda de acordo com Prof. Russel, uma das funções da a única função possível. Uma das metas dos esforços da proposta escrita no contexto pedagógico é a "exibição da aprendiza- de "Writing Across the Curriculum nos EUA e em outros gem" por parte do aluno. Nesse sentido, aluno escreve ao países, é a de fazer com que os alunos escrevam com propósito professor para mostrar que aprendeu conteúdo, ou mesmo de aprender examinando e manipulando ideias, sintetizando, que aprendeu a escrever. Entretanto, os propósitos da escrita analisando, explorando. Às vezes, essa escrita pode ser formal, na universidade podem (e devem) essa dimensão. às vezes, informal, às vezes, avaliada (com nota) e, às vezes, não. Com essas outras funções, o professor pode exercer outros papéis (a) De que maneira? além de examinador, papéis tais como de professor (treinador, (b) Sua experiência como estudante vem lhe possibilitando explicador, crítico encorajador etc.). No final, a escrita pode funcio- se valer da escrita para atingir quais propósitos? nar como um meio de fazer com que os outros mudem de opinião, (3) Os gêneros acadêmicos estão fortemente vinculados às es- Tradução livre: "Práticas de escrita em todas as disciplinas do curso". pecificidades de cada comunidade acadêmica. A depender da área de conhecimento, teses de doutorado, por exemplo, A escrita na universidadeEscrever na Universidade Fundamentos podem se organizar de modos bem distintos, resultando tanto em calhamaços de 400 páginas de texto corrido acadêmica, poucos, genericamente a partir de nossas qualificada experiências como formal cotidianas. e quanto em compilados de artigos que não ultrapassam 100 percebendo que a diversidade das situações demanda vamos páginas. Outro exemplo: marcas gramaticais de impessoa- nós práticas de escrita também que exigem de lidade (Analisa-se neste artigo...; Este artigo analisa...), que competências múltiplas para além da simples obediência costumam garantir distanciamento entre sujeito e registro formal. Então, vamos nos sensibilizando para 0 fato ao de objeto próprio das ciências naturais, não necessariamente que nossa inserção no espaço acadêmico, sujeita a determinadas estão presentes em muitos dos textos das ciências humanas, regras de interação e juízo de valor, só será possível a partir da cujos autores podem perfeitamente escrever em primeira apropriação adequada desse conjunto de gêneros, ou de boa pessoa (Analiso neste artigo...; Nosso artigo analisa...). parte deles. (a) 0 que dissemos acima se relaciona a qual das respostas Entre os gêneros da escrita essenciais ao atendimento das dadas pelo Prof. Russel em sua entrevista? principais demandas de estudo e pesquisa no meio destacam-se estes, distribuídos aqui em ordem alfabética: (b) Você conseguiria dar outros exemplos que poderiam atestar condicionamento de gêneros acadêmicos es- ARTIGO CIENTÍFICO critos a fatores ligados às especificidades de diferentes ENSAIO áreas de conhecimento? Quais? Se preferir, converse FICHAMENTO sobre isso com alguns colegas de outros cursos e áreas. MONOGRAFIA 94 PROJETO DE PESQUISA 0 quadro a seguir sumariza os gêneros acadêmicos escritos 95 RELATÓRIO mencionados até aqui e acrescenta mais alguns: RESENHA RESUMO EXEMPLOS DE GÊNEROS ACADÊMICOS ESCRITOS RESUMO RESENHA ARTIGO CIENTÍFICO ENSAIO Agora, valendo-se de seus conhecimentos prévios, tente pre- RELATÓRIO encher quadro a seguir, em que constam possíveis definições FICHAMENTO POST DE BLOG DEDICATÓRIA ENTREVISTA para cada um desses oito gêneros acadêmicos. Se preferir, essa CONTRACAPA DE LIVRO ORELHA DE LIVRO LEGENDA DE FOTO PROVA atividade pode ser realizada em dupla. ANOTAÇÕES DE AULA PORTFÓLIO REQUERIMENTO MONOGRAFIA DISSERTAÇÃO TESE 1. dispõe e organiza as ideias principais PROJETO DE PESQUISA EMENTA de um texto em tópicos, esquemas e/ou citações, com PLANO DE CURSO BIBLIOGRAFIA SLIDES DE AULA OU SEMINÁRIO possíveis comentários do graduando, servindo como pon- to de partida para desenvolvimento de outros gêneros A lista nem de longe é exaustiva. Além disso, como já dis- acadêmicos. semos, alguns gêneros são mais centrais no meio acadêmico 2. um dos gêneros mais importantes que outros. nas atividades acadêmicas, sumariza conteúdos de outro Normalmente, quando começamos a fazer um curso uni- texto para posterior consulta ou de um trabalho submetido versitário, acreditamos haver certa padronização da escrita a evento ou periódico. A escrita na universidadeEscrever na Universidade Fundamentos e da subjetividade do seu professor, gêneros iguais além de sumariar informações de um 3. outro texto, apresenta comentários e avaliações sobre ele, se configurar de maneiras bem particulares. poderão mapeamento de suas características formais e funcionais um os quais costumam vir fundamentados, explicitamente ou recorrentes vai ajudar você a dar os primeiros passos mais não, em outras obras e autores que tratam do tema. constelação de gêneros que costuma abrigar a escrita acadêmica nessa 4. é uma crítica, mas não a um texto ou durante um curso de graduação. obra específicos, e sim a um dado tema, questão, debate de ordem científica, a partir de um posicionamento formal e mercado editorial brasileiro já conta com algumas boas bem fundamentado, mas sem as exigências de referenciais publicações sobre ensino de gêneros destinadas teóricos explicitados e de evidências empíricas analisadas. estudantes de graduação e pós-graduação de diferentes áreas. a 5. reporta e analisa desenvolvimento Recomendamos aqui os seguintes títulos, todos sob selo da e os resultados de atividades de estágio, pesquisa ou ex- Parábola Editorial (São Paulo): tensão, num determinado período de tempo, geralmente fundamentando a descrição e os comentários em literatura MACHADO, Anna LOUSADA, Eliane; ABREU-TAR- teórica adequada. DELLI, Lília Santos. Resumo, 2004: apresenta atividades prá- 6. normalmente submetido a uma ticas envolvendo os procedimentos para a produção do resumo instituição, é planejamento prévio da pesquisa. Costuma acadêmico. assim ser organizado: introdução, perguntas de pesquisa, MACHADO, Anna Rachel; LOUSADA, Eliane; ABREU-TARDELLI, hipóteses, objetivos geral e específicos, justificativa, síntese Lília Santos. Resenha, 2004: aborda diferentes situações de 96 da literatura teórica, metodologia, resultados esperados e produção de uma resenha e centra-se no plano global de uma 97 cronograma de execução. resenha acadêmica. 7. publicado em periódicos acadêmicos, MACHADO, Anna LOUSADA, é gênero mais usado como meio de produção e divulgação Lília Santos. Planejar gêneros acadêmicos, 2005: propõe um de conhecimentos decorrentes de atividades de pesquisa conjunto de práticas de escrita para domínio da pesquisa e nas universidades. Em geral, compõe-se das seguintes do texto acadêmico de um modo geral. seções: introdução, fundamentação teórica, metodologia, MOTTA-ROTH, Désirée; HENDGES, Graciela Rabuske. Pro- resultados e discussão e considerações finais, além de dução textual na universidade, 2010: reúne informações resumo (em português e em outra língua) e referências relevantes para a redação do resumo e da resenha acadêmicos, bibliográficas. do projeto de pesquisa e do artigo científico. 8. trabalho de conclusão de curso (TCC) BJÖRN, Gustavii. Como escrever e ilustrar um artigo cien- bastante exigido nos cursos superiores, concentra sua tífico, 2017: apresenta uma série de boas reflexões que vão abordagem num determinado tema ou problema, a partir do processo de escrita à publicação de um artigo científico. de embasamento teórico e procedimentos metodológicos adequados. Ao contrário das obras acima, este nosso livro não preten- É verdade que as definições acima são bem genéricas e há de dar conta do ensino de gêneros acadêmicos propriamente diferentes modelos para cada um desses gêneros. A depender da É verdade que estamos tratando de algumas questões área de conhecimento, e até mesmo dos propósitos pedagógi- fundamentais que envolvem a produção escrita de estudantes uma universitários naturalmente, os gêneros acadêmicos são A escrita na universidadeEscrever na Universidade Fundamentos dessas questões. Entretanto, não é nossa intenção abordar a A fim de ilustrarmos um pouco alguns procedimentos organização textual de um projeto de pesquisa ou de um artigo sumarização, primeiramente de convidamos você a ler 0 de científico, por exemplo. Mesmo assim, proporemos a você, nas seguir. É início um capítulo do livro Convite à filosofia, texto de a seções a seguir, duas atividades de escrita bastante comuns no Marilena Chaui, professora da Faculdade de Ciências domínio acadêmico. Vamos a elas! e Letras da Universidade de São Paulo (USP). Em seguida, dimos que estude com atenção e exercite 0 que aparecerá nos pe- tópicos numerados. 4.2. Sumarização: fichamento e resumo Em boa parte dos cursos superiores, um bom desempenho Leitura 2 do estudante requer uma farta dose de leitura de textos aca- AS CIÊNCIAS HUMANAS dêmicos. É provável que você já tenha percebido isso. Também é provável que a essa hora exista uma lista de textos, indicados São possíveis ciências humanas? por seus professores, a serem lidos por você. Embora seja evidente que toda e qualquer ciência é humana, porque Alguns professores costumam exigir dos alunos práticas de resulta da atividade humana de conhecimento, a expressão ciências escrita a partir de sugestões de leitura. As razões, declaradas ou humanas refere-se àquelas ciências que têm próprio ser humano não, para esse tipo de atividade podem ser bem diferentes: vão como objeto. A situação de tais ciências é muito especial. Em primeiro da mera verificação de aprendizagem de um conteúdo à oferta lugar, porque seu objeto é bastante recente: 0 homem como objeto 98 de caminhos didáticos para estudo e compreensão efetiva de científico é uma ideia surgida apenas no século XIX. Até então, tudo 99 algum assunto. quanto se referia ao humano era estudado pela Filosofia. Nesse tipo de processo, os gêneros mais solicitados costu- Em segundo lugar, porque surgiram depois que as ciências mate- mam ser fichamento, resumo e a resenha não necessa- máticas e naturais estavam constituídas e já haviam definido a ideia riamente nesta ordem de preferência. Notemos que os três lidam de cientificidade, de métodos e conhecimentos científicos, de modo com a questão da sumarização de conteúdos. Ser hábil nesse que as ciências humanas foram levadas a imitar e copiar 0 que aque- procedimento, portanto, é fundamental para você. Inclusive, as las ciências haviam estabelecido, tratando o homem como uma coisa informações sumarizadas e organizadas durante sua graduação natural matematizável e experimentável. Em outras palavras, para poderão lhe ser úteis em outros momentos da vida acadêmica, ganhar respeitabilidade científica, as disciplinas conhecidas como sempre recheada de demandas de estudo e produção escrita. ciências humanas procuraram estudar seu objeto empregando Bons fichamentos, por exemplo, nos permitem elaborar a fun- conceitos, métodos e técnicas propostos pelas ciências da Natureza. damentação teórica de um artigo ou de um projeto de pesquisa, Em terceiro lugar, por terem surgido no período em que prevalecia a nos poupando a releitura dos textos-fonte a qual, embora concepção empirista e determinista da ciência, também procuraram e válida, nem sempre é possível (texto inacessível, falta de tempo) tratar o objeto humano usando os modelos hipotético-indutivos neces- ou mesmo essencial ao objetivo. experimentais de estilo empirista, e buscavam leis causais entretanto, sárias universais os fenômenos humanos. Como, dos A prática de sumarizar os textos lidos, portanto, é um não e realizar para uma transposição integral e estudos perfeita dos hábito acadêmico bastante bem-vindo. Tente incorporá-lo a seus estudos. fatos humanos, as ciências e humanas acabaram trabalhando métodos, era possível das técnicas das teorias naturais para os por A escrita na universidadeEscrever na Universidade Fundamentos analogia com as ciências naturais, e seus resultados tornaram-se (1) Retiramos dos dois primeiros parágrafos informações muito contestáveis e pouco científicos. poderiam estar ausentes, sem prejudicar a inteligibilidade que Essa situação levou muitos cientistas e filósofos a duvidar da pos- do conteúdo principal. Para não prejudicar a coesão do sibilidade de ciências que tivessem homem como objeto. Quais to, mexemos um pouco na sua Veja como ficou: tex- as principais objeções feitas à possibilidade das ciências humanas? A expressão ciências humanas refere-se àquelas ciências A ciência lida com fatos observáveis, isto é, com seres e aconteci- têm próprio ser humano como objeto. A situação de tais que mentos que, nas condições especiais de laboratório, são objetos ciências é muito especial. Em primeiro lugar, porque homem de experimentação. Como por exemplo, como objeto científico é uma ideia surgida apenas no século a consciência humana individual, que seria objeto da psicologia? XIX. Em segundo lugar, porque as ciências humanas surgiram Ou uma sociedade, objeto da sociologia? Ou uma época passada, depois que as ciências matemáticas e naturais estavam cons- objeto da história? tituídas e já haviam definido a ideia de A ciência busca as leis objetivas gerais, universais e necessárias dos para ganhar respeitabilidade científica, as ciências humanas fatos. Como estabelecer leis objetivas para que é essencialmente procuraram estudar seu objeto empregando conceitos, méto- subjetivo, como psiquismo humano? Como estabelecer leis uni- dos e técnicas propostos pelas ciências da versais para algo que é particular, como é caso de uma sociedade humana? Como estabelecer leis necessárias para o que acontece (2) Embora bem menor que os dois parágrafos originais, este uma única vez, como é caso do acontecimento histórico? novo trecho continuou informativo e coeso, concorda? Para A ciência opera por análise (decomposição de um fato complexo que isso acontecesse, as eliminações e os acréscimos não 100 em elementos simples) e síntese (recomposição do fato complexo poderiam ser aleatórios. A seguir, riscamos todos os tre- 101 por seleção dos elementos simples, distinguindo os essenciais dos chos eliminados e pusemos entre colchetes os acréscimos. acidentais). Como analisar e sintetizar psiquismo humano, uma Observe-os atentamente: sociedade, um acontecimento histórico? Embora seja evidente que toda e qualquer ciência é A ciência lida com fatos regidos pela necessidade causal ou pelo porque resulta da atividade humana de conhecimento, a princípio do determinismo universal. homem é dotado de razão, expressão ciências humanas refere-se àquelas ciências que vontade e liberdade, é capaz de criar fins e valores, de escolher entre têm próprio ser humano como objeto. A situação de tais várias opções possíveis. Como dar uma explicação científica necessária àquilo que, por essência, é contingente, pois é livre e age por liberdade? ciências é muito especial. Em primeiro lugar, porque seu objeto é bastante recente: homem como objeto científico A ciência lida com fatos objetivos, isto é, com os fenômenos, depois é uma ideia surgida apenas no século XIX. Até então, tudo que foram purificados de todos os elementos subjetivos, de todas as qualidades sensíveis, de todas as opiniões e todos os sentimentos, quanto se referia ao humano era estudado pela Filosofia de todos os dados afetivos e valorativos. Ora, humano é justa- Em segundo lugar, porque [as ciências humanas] surgiram mente subjetivo, 0 sensível, afetivo, valorativo, o opinativo. depois que as ciências matemáticas e naturais estavam Como transformá-lo em objetividade, sem destruir sua principal constituídas e já haviam definido a ideia de cientificidade, característica, a subjetividade? de métodos e conhecimentos científicos, de modo que as [...] ciências humanas foram levadas a imitar e copiar que (Fonte: CHAUI, Marilena, Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2000, p. 345-346.) aquelas ciências haviam estabelecido, tratando homem como uma coisa natural matematizável e A escrita na universidadeEscrever na Universidade Fundamentos Em outras palavras, [Então,] para ganhar respeitabilidade quadro acima. Sintetizando, teríamos seguinte conjunto de trechos elimináveis: científica, as disciplinas conhecidas como ciências huma- nas procuraram estudar seu objeto empregando conceitos, ressalvas e contra-argumentos: métodos e técnicas propostos pelas ciências da informações genéricas; (3) Você pode estar se perguntando: por que justamente essas desenvolvimento e justificativa de ideias; passagens riscadas foram as escolhidas para desaparecerem informações reformuladas, na elaboração do texto resumido? quadro abaixo aponta algumas razões: Outros trechos que normalmente podem ser limados no RAZÕES TRECHOS APAGADOS processo de sumarização são: Embora seja evidente que Espécie de ressalva ou contra-argumento toda e qualquer ciência é em relação à ideia principal do parágrafo: informações triviais ou inferíveis; humana, porque resulta "A expressão ciências humanas refere- da atividade humana de se àquelas ciências que têm o próprio informações redundantes; conhecimento, ser humano como objeto". texto não exemplificações e analogias; vai desenvolver tal ressalva, que pôde, portanto, ser eliminada. digressões. seu objeto é bastante recente: Informação genérica e retomada de modo mais preciso na explicação que a 102 sucede: homem como objeto científico é 103 uma ideia surgida apenas no século XIX". Produção escrita 1 Até então, tudo quanto Espécie de desenvolvimento ou se referia ao humano era justificativa da informação homem Agora a sumarização caberá a você. Continue a atividade que estudado pela Filosofia. como objeto científico é uma ideia surgida iniciamos a partir do texto da professora Marilena Chaui. Siga os apenas no século XIX", não essencial para a sua validade ou entendimento. procedimentos de sumarização estudados. de métodos e conhecimentos Informações reformuladas Após realizados os apagamentos e pequenos ajustes no de modo que posteriormente (como sugere o conectivo texto original, releia o novo texto e veja se ele faz sentido por si as ciências humanas foram "Em outras palavras"), de modo mais levadas a imitar e copiar só, na sua imanência, sem necessariamente termos de recorrer sucinto e não menos inteligível. Optamos, que aquelas ciências haviam então, pelo trecho reformulado: "Para ao texto da professora Chaui para entendê-lo. Se isso aconteceu estabelecido, tratando ganhar respeitabilidade científica, as é porque você fez um bom resumo ou um bom fichamento do homem como uma coisa disciplinas conhecidas como ciências natural matematizável humanas procuraram estudar seu objeto texto. Mostre-o a um colega e esteja aberto a possíveis críticas. Em outras empregando conceitos, métodos e técnicas Reescreva-o, se necessário. palavras, propostos pelas ciências da (4) Geralmente, no processo de sumarização para a escrita IMPORTANTE! de um fichamento, resumo ou resenha, podemos apagar Em se tratando de um texto sumarizado para estudo do há passagens informativas, maiores ou menores, que funcio- assunto ou consultas posteriores, podemos dizer que não pelo nam num texto do mesmo modo como essas dispostas no diferenças entre um resumo e um fichamento, exceto A escrita na universidadeEscrever na Universidade Fundamentos fato de fichamento tender à topicalização e resumo, ao Acontece de que uma a organização composicional do texto corrido. não é dotada estabilidade Vimos isso gênero Um resumo e um fichamento também podem apresentar algum duas últimas unidades. Assim, devido a essa natureza nestas conceito ou citação importante entre aspas, seguido da página mente flexível, as descrições dessas quatro etapas relativa- exata de onde foram retirados. sumarização, crítica e conclusão) de uma resenha acadêmica É realmente importante que novo texto evidencie as pági- não podem ser tomadas como fórmulas fixas para a produção nas de onde foram extraídos os conteúdos. Quanto maior de uma boa resenha, mas sim como possibilidades disponíveis resumo ou fichamento, mais esse intervalo de páginas precisa para aprendiz de resenhista na lida com a ser detalhado, pensando na utilização do material sumarizado execução, a revisão e a reescrita de seu texto. Essas possibilida- na escrita de outros textos no futuro como um artigo, um des podem ser combinadas de diferentes Veja que não projeto ou uma resenha, por exemplo. precisa haver nem mesmo fronteiras definidas entre a e a etapa (sumarização e crítica), ou seja, ao longo de uma resenha 4.3. A resenha acadêmica pode-se resumir e avaliar simultaneamente. Outro texto que costuma ser muito solicitado aos alunos Leitura 3 de graduação é a resenha de um livro, de um filme, ou de outra obra que tenha relação com conteúdo da disciplina. Como já Leia agora trechos de quatro resenhas diferentes. A ideia é estudamos na seção anterior, esse gênero costuma ser denomi- você observar a qual etapa de elaboração da resenha (introdução, 104 nado resenha acadêmica (ou resenha crítica). 105 sumarização, crítica e conclusão) cada parte se refere. Reticên- De modo geral, uma resenha acadêmica pode ser desenvol- cias e colchetes [...] indicando os recortes realizados não vida em quatro etapas. Pensando especificamente na resenha serão informados, para não lhe sugerirem possíveis respostas. de um livro, teríamos seguinte percurso para a organização Vamos aos trechos: do texto: TRECHO A etapa: Introdução São apresentados tema e propósito centrais do livro, informações sobre seus autores e Na parte da obra, intitulada Da (dis)tensão teórica, a autora, pri- seu modo de produção, referências a outras meiramente, recorre às teorias de Lacan para tratar do sujeito da publicações semelhantes, entre outros aspectos Análise do Discurso de linha francesa. Nesse primeiro momento, que o situem contextualmente. a professora afirma ser o sujeito construído pela alteridade, sendo, pela etapa: Sumarização Descreve-se a organização do livro e realiza-se historicidade social e discursiva, que não controla seu dizer, seu resumo, com predomínio do discurso portanto, clivado, cindido, afetado pelo inconsciente. Assim, do sujeito outro. indireto, embora citações literais também sejam válidas. constrói sua identidade, baseando-se no discurso de si e obras Depois, a autora dedica-se à discussão de duas importantes fase da etapa: Crítica Avalia-se a obra positiva ou negativamente, de Pêcheux. Primeiro, retoma a obra inaugural da segunda atualizações considerando aspectos gerais e/ou específicos. AD, A de uma análise automática do discurso: língua, etapa: Conclusão livro é ou não recomendado, são apresentadas e propósito em que conceitos como formação social, como possíveis restrições e indicados seus leitores em discurso perspectivas, são discutidos. Depois, discute noções Discurso: potencial. "ideologia e dominada" ideologia e tratadas na obra A escrita na universidadeEscrever na Universidade Fundamentos 0 livro vem ao mercado brasileiro em um momento muito ou acontecimento, na qual, com mais força, tem-se a hete- rogeneidade como constitutivo do discurso e equívoco marcado por atualmente aquilo que em Oliveira (2007) chama de "a virada como constitutivo da linguagem. Coracini fecha a primeira parte, -linguística" curso e contribui significativamente político- para a "utilidade ou relevância social dos estudos considerando 0 monolinguismo como sonho da Torre de Temos a ilusão de que somos constituídos apenas pela nossa língua (Fonte: RAJAGOPALAN, de K. Resenha de As Políticas J. Calvet. D.E.L.T.A., p. (a maioria, em especial). Entretanto, a heterogeneidade constitui a linguagem e 0 sujeito. Nesse sentido, há um impedimento da delimitação das linguas, os sentidos não são transparentes, pelo TRECHO são deslizantes e, por isso, Coracini (2001, 46) retoma Derrida ao tratar da desconstrução e da impossibilidade da tradução Com 0 objetivo de apresentar à comunidade acadêmica brasileira estudos sobre (e para) a formação inicial e continuada do professor como devolução do mesmo. de língua inglesa, a obra Experiências didáticas no ensino-aprendi- (Fonte: S.O. Celebrando as múltiplas identidades Resenha de A celebração do outro, de M.J. CORACINI. zagem de língua inglesa em contextos diversos apresenta-se como Todas os 19.1, 234-237, jan./abr. 2017.) singular, em qualidade e gênero, para a divulgação de experiências em contextos educacionais diversos vividas por profissionais de norte a sul do Brasil. TRECHO A coletânea foi organizada pelas professoras doutoras Rosinda de Como um livro introdutório, livro é altamente recomendável. Os Castro Guerra Ramos, Silvia Matravolgyi Damião e Solange Teresinha capítulos são redigidos numa linguagem acessível aos iniciantes. Ricardo de Castro, que faleceu durante processo de organização. 107 106 autor ilustra cada caso com ajuda de exemplos concretos colhidos Por essa razão, as professoras Rosinda Ramos e Silvia Damião fazem de países ao redor do mundo. Encontram-se discutidos casos como uma homenagem (mais que merecida!) à memória da professora os da China, Mali, Turquia, Noruega, Tanzânia, Indonésia, Suíça, Solange Castro, que muito contribuiu para a formação de profes- Marrocos, Tunísia, Argélia, entre outros. Salta aos olhos a ausência sores no Brasil. de uma discussão detalhada da Índia um verdadeiro caldeirão livro, formado por nove artigos, com contribuições de pesquisa- de multilinguismo, com 1.652 línguas identificadas, além de 527 dores de diversas universidades brasileiras, se propõe a expandir ainda não classificadas (Mallikarjun, 2004), das quais 22 são hoje e a divulgar trabalhos sobre a formação do professor no Brasil, reconhecidas pela constituição daquele país, graças à mobilização trazendo reflexões pertinentes à Linguística Aplicada. política dos seus respectivos falantes. Também chama a atenção a (Fonte: ARAÚJO, M. de S.; MONTEIRO, M. de F. Resenha de Experiências de R. ausência de qualquer menção à situação linguística nos países como didáticas no ensino-aprendizagem de língua inglesa em contextos diversos, Estados Unidos e que pode dar a impressão errônea Ramos et alii (orgs.). D.E.L.T.A., 32.2, p. 557-563, de que a política linguística é assunto de interesse principalmente para os países do terceiro mundo e alguns outros países (que seriam apenas exceções que comprovariam a regra!). TRECHO D Mas nada do que apontei nos parágrafos anteriores como sendo Por muitas vezes, durante a leitura do Ratio, senti-me provocada pode questões pontuais que deixaram a desejar no tratamento que Calvet pelo autor, em face da dimensão persuasiva subjacente. Não se 0 Ratio dá ao tópico subtrai do mérito do seu livro importante, publicado originalmente em francês em 1996 e traduzido por Isabel de Oliveira Studiorum negar a capacidade um Plano de Estudos de vigorosa magnitude, discursiva de Leonel Franca ao considerar alinhavada Duarte, Jonas Tenfen e Marcos Bagno, com revisão de Telma Pereira. à sua formação jesuítica. A escrita na universidadeEscrever na Universidade Fundamentos Ao longo do texto introdutório, em especial, autor demonstrou Recomenda-se (ou não) livro? Como? 0 papel preponderante da Companhia de Jesus como instituição de vanguarda no processo de ensino tradicional, assegurando a Restrições à obra são apresentadas? Quais? hegemonia da influência religiosa na educação instrucional. São indicados os leitores potenciais? Quais? Quanto ao ordenamento normativo em si mesmo, a segunda parte Há algum elemento imprevisível na conclusão que lhe tenha do livro, incontestavelmente, representa uma alavanca que impul- chamado a atenção? Indique-o(s). siona discussões sobre a história da Educação, mediante seus de- cretos educativos, abrindo pistas até mesmo para mais claramente vislumbrarem-se as estratégias da Igreja Católica no fortalecimento do poder do Papa, dos dogmas, do clero, dos concílios, enfim, da (3) Junte-se com um colega, voltem ao quadro em que são apresentadas as quatro partes da resenha e, a partir delas, própria Igreja, tudo isso ligado à Inquisição. elaborem perguntas análogas a essas da conclusão para Embora autor seja jesuíta, sua obra Método Pedagógico dos Je- as demais etapas: introdução, sumarização e crítica. suítas configura-se como primeiro sistema organizado de ensino católico, uma contribuição de inestimável importância, de mérito (4) Por fim, troquem sua perguntas com outra dupla, que deve- indiscutível no que tange ao estudo dos princípios educacionais rá responder às perguntas recebidas de vocês, e vice-versa. da Companhia de Jesus, responsáveis pelo ensino não só no Brasil, Mãos à obra! mas em várias regiões do mundo, cujas linhas pedagógicas ficaram incorporadas como parâmetro nas mentes dos educadores, não 108 sendo de todo superadas, independente do pensamento laico sobre Produção escrita 2 109 educação e das muitas reformas que se lhe sucederam. (Fonte: NEGRÃO, A. M. M. Resenha de Método Pedagógico dos de L. Chegamos, enfim, a nossa última proposta de produção es- Franca. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 14, p. 154-157, 2000.) crita: uma resenha acadêmica. Provavelmente, neste semestre ou ano letivo, você deve estar envolvido com a leitura de pelo menos um livro em alguma disci- (1) Agora, preencha quadro a seguir, fazendo corresponder plina do seu curso de graduação. Caso não esteja lendo nenhum adequadamente as quatro etapas do gênero resenha aos trechos lidos: livro na íntegra, por certo há alguns indicados nas bibliografias dos planos de curso dos professores. ETAPAS TRECHO (A, OU D) Então, pensamos que você poderá praticar que aprendeu resenha INTRODUÇÃO nesta unidade sobre gêneros acadêmicos escrevendo uma SUMARIZAÇÃO de uma obra importante para seu sucesso em alguma disciplina em andamento no curso. CONCLUSÃO aqui foram todos escritos por professores universitários, não É verdade que os trechos das resenhas que mostramos es- (2) Tente também identificar os movimentos que acontecem no pecialistas da obra resenhada. Sabemos disso, poderá, interior de cada etapa. Por exemplo, no trecho que se refere à conclusão, responda às seguintes perguntas: sim, preocupe. escrever uma boa resenha acadêmica. Os procedimentos se no Mas assunto também sabemos que um estudante A escrita na universidadeEscrever na Universidade Fundamentos que apresentamos aqui vão ajudá-lo nisso. Seguem outras in- formações importantes: especialista na área que leia seu texto e discuta com Após a revisão e reescrita de sua peça a um professor sabe não nasce desse encontro um possível projeto de publicação Quem de sua resenha em um periódico? passo inicial para planejar sua resenha é a leitura atenta da obra, pelo menos duas vezes. Na primeira leitura, você vai ver como livro se organiza, quais Leitura 4 são os principais conteúdos, quais são os percursos argumen- tativos do autor, que há de singular no material, entre outros Nesta última unidade, aprendemos que a universidade pontos relevantes. tem seus gêneros escritos preferidos, os quais circulam entre Na segunda leitura, ative os procedimentos de sumarização, os agentes envolvidos diretamente com as atividades de ensino, selecione possíveis citações, dialogue criticamente com algu- pesquisa e extensão: professores-pesquisadores e estudantes. 0 mas ideias do livro. Comece a esboçar seu texto. artigo científico um desses gêneros é chamado de calei- Pesquise sobre quem escreveu livro e outras obras semelhan- doscópico pelas autoras do texto a seguir. Curioso, não? tes a ele. Essas informações já podem começar a ser colhidas na capa, na contracapa, nas orelhas e na apresentação do próprio Conheça a ideia e, sempre que for produzir um artigo cien- livro a ser resenhado. Lembre-se de que dados desse tipo vão tífico, tenha-a em mente. Boa leitura! compor a introdução de seu texto. Veja que a escrita de uma resenha é uma ótima oportunidade de você contextualizar os 110 ARTIGO CIENTÍFICO: conhecimentos trabalhados nas aulas. UM GÊNERO TEXTUAL CALEIDOSCÓPICO 111 A extensão da resenha varia de acordo com diferentes fato- res, que vão desde as diretrizes dos periódicos em que elas saber científico demanda letramento de mesma natureza, isto são publicadas até as regularidades de cada área do conheci- é, a capacidade de compreender as características da ciência, de mento. Para evitar 0 risco de escrever um texto superficial ou diferenciá-la de outras formas de conhecimento e investigação e de exageradamente descritivo, sugerimos que sua resenha gire empregá-la para formular questões, explicar fenômenos, elaborar em torno de 5 páginas. De todo modo, seu professor também conclusões e adquirir novos conhecimentos pautados em evidên- pode orientá-lo a respeito disso. cias científicas. Esse conceito abrange também a conscientização Cuide da apresentação de sua resenha, Convém digitar texto de como nosso meio material, cultural e intelectual é moldado pela e imprimi-lo em ofício A4. As margens superior e esquerda ciência e pela tecnologia e interesse do sujeito em participar ati- podem ficar em 3 cm, e as margens inferior e direita, em 2 cm. vamente das demandas científicas, como cidadão crítico capaz de Sugerimos que 0 espaçamento entre linhas seja de 1,5 e a fonte entender e posicionar-se acerca do mundo natural e das mudanças utilizada seja Times New Roman, tamanho 12. nele ocorridas. Resenhas não costumam ter Você pode apresentar a Sabemos que, lamentavelmente, muitas disciplinas, particularmente referência bibliográfica da obra, precedendo corpo do texto, as concernentes à Metodologia Científica, centram-se quase que que deve ser corrido, sem a identificação das partes: introdução, exclusivamente na abordagem dos aspectos estruturais dos gêneros revisão, critica e Após texto, você dever se identificar, textuais científicos e na memorização das prescrições da Associação escrevendo um pequeno Capa, folha de rosto, sumário Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que norteia a formatação, ou outro elemento pré-textual não são dentre outros documentos, de trabalhos científicos e, consequen- Mas temente, a elaboração dos manuais de Metodologia A escrita na universidadeEscrever na Universidade Fundamentos esses fragmentos, refletidos no espelho, formam diferentes figu- também somos cientes de que, felizmente, muitos estudos têm ras coloridas, em imagens múltiplas e arranjos simétricos. Assim, sido desenvolvidos no intuito de realizar um trabalho mais amplo. quando olhamos pelo tubo, temos a impressão de que essas várias Tais estudos postulam que atividades de textualização e retextuali- imagens formam uma única figura, bela e colorida, que prende 0 zação permitem aos alunos confrontar diferentes práticas de lingua- olhar e causa admiração nos que se deixam encantar pelo brilho gem construídas, oferecendo-lhes a desse artefato cultural. possibilidade de se apropriarem dessas práticas e de reconstruí-las. No artigo acadêmico, também um artefato cultural, diversas microa- Para sucesso das atividades de leitura e de produção de textos, tanto orais como escritas, a análise esmerada de três fatores pre- ções de linguagem (fragmentos coloridos) são dispostas pelo escri- ponderantes precisam ser suscitadas: as especificidades das práti- tor, de modo específico, para gerar um texto (imagem final). Essas cas de linguagem que serão objetos de aprendizagem, inclusive microações também são comuns a outros gêneros acadêmicos/cien- domínio discursivo a que pertencem; as capacidades de linguagem tíficos, multiplicadas em arranjos plurais, gerando a sobreposição dos aprendizes; e as estratégias de ensino desenvolvidas. Nesse de diferentes gêneros, dentre eles, resumo, a resenha e 0 projeto sentido, a intervenção consciente e planejada do professor é necessária de pesquisa, e revelando a inter-relação das três camadas textuais para que 0 aluno seja inserido nas práticas de linguagem típicas do (organizacional, enunciativa e semântica) que constituem. âmbito científico. Nessa perspectiva, atribuímos às microações de linguagem um Precisamos ter ciência também de que, embora existam modelos papel fundamental na configuração de um gênero caleidoscópico, prototípicos dos mais variados gêneros textuais, cada texto empírico uma vez que a recorrência delas contribuirá na caracterização de produzido é único, possui um estilo próprio e individual, pois reflete um determinado gênero e de suas particularidades no delineamento 112 as semioses que 0 agente produtor pratica em suas condutas ver- da singularidade de cada texto. 113 bais, únicas e irrepetíveis. Na constituição dos gêneros acadêmicos, Fonte: PEREIRA, R. C. M.; BASÍLIO, R.; LEITÃO, P. D.V. Artigo científico como especificamente, do artigo científico, outros estão imbricados, mas gênero caleidoscópico. D.E.L.T.A., Documentação de Estudos em Linguística 0 texto empírico gestado é sempre singular. Teórica e Aplicada (Online), V. 33, 663-695, 2017. (Adaptado) Para explicar que ocorre, em subjacência, na construção desse gênero, usamos a analogia do artigo científico como gênero caleidos- cópico. artigo científico é um gênero textual elaborado através de um processo de textualização, realizado a partir de diferentes atividades de retextualização, e imbricado de diferentes gêneros textuais, tais como resumo, resenha, projeto de pesquisa, entre outros cada um moldado por diferentes microações de lingua- gem que ora convergem, ora divergem -, comportando-se como um caleidoscópio. Também chamado "calidoscópio", esse instrumento óptico é cons- tituído por um pequeno tubo de papelão ou metal, em cujo fundo há fragmentos coloridos que podem ser de diversos tipos (vidros, lantejoulas em diversos formatos, pequenos recortes de papéis coloridos etc.). No seu interior, precisamente nas laterais, são fi- xados pequenos espelhos dispostos em ângulos diferentes (45°, 60° ou 90°). Ao movimentarmos 0 tubo, através da luz exterior,

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