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GERENCIAM ENTO e controle da poluição da água e do solo 50669 Código Logístico 2017 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo Amilcar Marcel de Souza Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br Capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: Shutterstock/ILeysen/file404 © 2016 – IESDE Brasil S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais. CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ S713g Souza, Amilcar Marcel de Gerenciamento e controle de poluição da água e do solo / Amilcar Marcel de Souza. - 1. ed. - Curitiba, PR : IESDE BRASIL S/A, 2016. 180 p. : il. ; ISBN 978-85-387-6214-0 1. Meio ambiente. 2. Água - Poluição. 3. Recursos hídricos. I. Título. 16-34093 CDD: 363.7 CDU: 628.19 Apresentação Este material tem o objetivo de instrumentalizar o aluno para o tema Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo, que é muito impor- tante para seu curso e para sua formação acadêmica. A qualidade das águas e dos solos para o desenvolvimento e qualidade de vida dos huma- nos é uma questão extremamente importante. Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), constitui um dos principais assuntos de saúde pública, seja visto que a humanidade necessita da água para seu consumo e do solo para a produção de alimentos. Para a melhor gestão desses recursos naturais, as instituições pú- blicas e privadas vêm desenvolvendo estratégias de gestão ambiental e tecnologias de controle e redução da poluição da água e solo. Uma dessas estratégias, por exemplo, é a definição de ordenamentos jurídicos restriti- vos associados aos procedimentos técnicos, como é o caso dos parâmetros de qualidade da água estipulados pela Anvisa. A disciplina Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo é muito importante nesse contexto, pois ela abordará os parâmetros físicos, químicos e biológicos, que são fundamentais para indicar a qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura e reduzindo possíveis impactos ambientais. Também terá como foco as tecnologias para recuperação da qualidade de águas contaminadas ou poluídas e as tecnologias voltadas à conservação do recurso. Integrando esses conteúdos, serão abordados o funcionamento e as organizações de comitês de bacias hidrográficas atuantes no Brasil, bem como a outorga de direito e cobrança pelo uso da água. O aluno terá a oportunidade de se aprofundar na gestão e no ma- nejo de recursos hídricos em áreas urbanas, uso do solo urbano e nos impactos causados ao ambiente. Por fim, serão abordados os aspectos da ocupação do espaço rural e suas implicações no uso e na conservação dos recursos naturais. Os conteúdos foram selecionados com muito cuidado e escritos com linguagem simples para dar mais autonomia aos seus estudos. Sobre o autor Amilcar Marcel de Souza Presidente e fundador do Instituto Pró-Terra, é Mestre em Recursos Florestais pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP) e Graduado em Engenharia Florestal pela mesma instituição. Tem atuado em projetos de extensão rural por diversos estados brasileiros que visam à conservação ambiental e resgate cultural de vivências de ruralidade. 6 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo SumárioSumário 1 Parâmetros físicos, químicos e biológicos 9 1.1 Parâmetros físicos da água e do solo 10 1.2 Parâmetros químicos da água e do solo 12 1.3 Parâmetros biológicos da água e do solo 15 2 Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura 23 2.1 Indicadores previstos na legislação para o abastecimento de água doméstica 24 2.2 Indicadores previstos na legislação para a agricultura 37 2.3 Órgãos competentes e oficiais previstos na legislação para análise de indicadores 41 3 Reduzindo possíveis impactos ambientais 49 3.1 Técnicas e métodos de redução de impactos ambientais em recurso hídrico 50 3.2 Técnicas e métodos de redução de impactos ambientais no solo 54 3.3 Educação ambiental e redução de impactos ambientais 55 4 Tecnologias para recuperação da qualidade de águas contaminadas ou poluídas 65 4.1 Metodologias de tratamentos físicos 66 4.2 Metodologias de tratamentos químicos 69 4.3 Metodologias de tratamentos biológicos 72 5 Tecnologias voltadas à conservação do recurso 79 5.1 Tecnologias para conservação da água 80 5.2 Tecnologias para conservação do solo 83 5.3 Educação ambiental e conservação 85 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 7 SumárioSumário 6 Funcionamento e organizações de comitês de bacias hidrográficas 95 6.1 O que é um comitê de bacias hidrográficas 96 6.2 Legislação e órgão regulador 99 6.3 Gestão participativa e aplicabilidade da democracia 103 7 Outorga de direito e cobrança pelo uso da água 113 7.1 Legislação pertinente 114 7.2 Objetos de outorga 117 7.3 Procedimentos técnicos e administrativos 120 8 Gestão e manejo de recursos hídricos em áreas urbanas 129 8.1 Plano de macrodrenagem urbana 130 8.2 Segurança hídrica para abastecimento público 132 8.3 Metodologias de educação ambiental voltada à gestão e ao manejo de recursos hídricos em áreas urbanas 137 9 Uso do solo urbano e impactos causados no ambiente 147 9.1 Impermeabilização 148 9.2 Poluição difusa 150 9.3 Ocupação de áreas de risco 153 10 Aspectos da ocupação do espaço rural e suas implicações no uso e na conservação dos recursos naturais 163 10.1 Fragmentação da paisagem 164 10.2 Modelos de produção agropecuária e seus impactos nos recursos naturais 167 10.3 Percepção, conhecimento e educação sobre os valores ambientais no espaço rural 172 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 9 1 Parâmetros físicos, químicos e biológicos A qualidade das águas e dos solos para o desenvolvimento e a qualidade de vida dos humanos é uma questão extremamente importante. Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), constitui um dos principais assuntos de saúde pública, seja visto que a humanidade necessita de água para seu consumo e do solo para a produ- ção de alimentos. Nesta aula serão apresentados os parâmetros de análise de qualidade da água e do solo no Brasil, dando enfoque aos parâmetros físicos, químicos e biológicos. Parâmetros físicos, químicos e biológicos1 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo10 1.1 Parâmetros físicos da água e do solo 1.1.1 Água Segundo a Organização das Nações Unidas ONU (2010), estima-se que aproximadamen- te 1 bilhão de pessoas necessitam de acesso ao abastecimento de água que seja suficiente para suprir suas necessidades básicas, definido como uma fonte que possa fornecer 20 litros por pessoa por dia a uma distância não superior a mil metros. Essas fontes incluem ligações do- mésticas, fontes públicas, fossos, poços e nascentes protegidos e coleta de águas pluviais. A Declaração da ONU Água para o Dia Mundial da Água em 2010 apontou as seguintes diretrizes: A água potável limpa, segura e adequada é vital para a sobrevivência de todos os organismos vivos e para o funcionamento dos ecossistemas, comunidades e economias. Mas a qualidade da água em todo o mundo é cada vez mais ameaçada à medida que as populações humanas crescem, atividades agrí- colas e industriais se expandem e as mudanças climáticas ameaçam alterar o ciclo hidrológico global. […] A cada dia, milhões de toneladas de esgoto tratado inadequadamente e resíduos agrícolas e industriais são despejados nas águas de todo o mundo. […] Todos os anos, morrem mais pessoas das consequências de água contaminada do que de todas as formas de violência, incluindo a guerra. […] A contaminação da água enfraquece ou destrói os ecossistemasManganês (Mn), Molibdênio (Mo), Zinco (Zn), Cobalto (Co), Silício (Si) e outros elementos que a pesquisa científica vier a definir, expressos nas suas formas elementares; XV – aditivo: qualquer substância adicionada intencionalmente ao produto para melhorar sua ação, aplicabilidade, função, durabilidade, estabilidade e detecção ou para facilitar o processo de produção; XVI – fritas: produtos químicos fabricados a partir de óxidos e silicatos, tratados a alta temperatura até a sua fusão, formando um composto óxido de silicatado, contendo um ou mais micronutrientes; XVII – estabelecimento – pessoa física ou jurídica registrada ou cadastrada no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, cujas atividades consis- tem na produção, na importação, na exportação ou no comércio de produtos abrangidos por este Regulamento, ou que prestam serviços de armazenamento, de acondicionamento e de análises laboratoriais relacionados a esses produtos ou, ainda, que gerem materiais secundários ou forneçam minérios concentrados para a fabricação de produtos; XVIII – transporte – ato de deslocar, em todo território nacional, fertilizantes, cor- retivos, inoculantes, biofertilizantes, remineralizadores e substratos para plantas e suas matérias-primas; XIX – armazenamento – ato de armazenar, estocar ou guardar os fertilizantes, corretivos, inoculantes, biofertilizantes, remineralizadores e substratos para plantas e suas matérias-primas; XX – embalagem – invólucro, recipiente ou qualquer forma de acondicionamen- to, destinado a empacotar, envasar, proteger ou identificar os fertilizantes, cor- retivos, inoculantes, biofertilizantes, remineralizadores e substratos para plantas XXI – tolerância: os desvios admissíveis entre o resultado analítico encontrado em relação às garantias registradas ou declaradas; Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura2 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo40 XXII – varredura: toda sobra de fertilizantes, sem padrão definido, resultante da limpeza de equipamento de produção, instalações ou movimentação de produ- tos, quando do seu carregamento ou ensaque; XXIII – embaraço: todo ato praticado com o objetivo de dificultar a ação da ins- peção e fiscalização; XXIV – impedimento: todo ato praticado que impossibilite a ação da inspeção e fiscalização; XXV – veículo: excipiente líquido utilizado na elaboração de fertilizante fluido. XXVI – fraude, adulteração ou falsificação – ato praticado para obtenção de van- tagem ilícita, com potencial de causar prejuízo a terceiros, por alteração, supres- são ou contrafação de produtos, matérias-primas, rótulos, processos, documen- tos ou informações; XXVII – rótulo – toda inscrição, legenda, imagem ou matéria descritiva ou gráfica que esteja escrita, impressa, estampada, gravada, gravada em relevo ou litogra- fada ou colocada sobre a embalagem de fertilizantes, corretivos agrícolas, inocu- lantes ou biofertilizantes; XXVIII – garantia – indicação da quantidade percentual em peso de cada elemen- to químico, de seu óxido correspondente, ou de qualquer outro componente do produto, incluídos, quando for o caso, o teor total, o teor solúvel ou ambos os teores de cada componente e a especificação da natureza física; XXIX – quantidade declarada ou teor garantido – quantidade de produto adicio- nado ou o teor de um elemento químico, nutriente, de seu óxido, ou de qualquer outro componente do produto que deverá ser nitidamente impresso no rótulo, na etiqueta de identificação ou em documento relativo ao produto XXX – análise de fiscalização – análise efetuada rotineiramente sobre os produtos e matérias-primas abrangidos por este Regulamento, para verificar a ocorrência de desvio quanto a conformidade, qualidade, segurança e eficácia dos produtos ou matérias-primas; XXXI – análise pericial ou de contraprova – análise efetuada na outra unidade de amostra em poder do órgão de fiscalização, quando requerida pelo interessado, em razão de discordância do resultado da análise de fiscalização; XXXII – segregação – separação e acomodação seletiva das partículas constituin- tes de um produto, motivado por sua movimentação e trepidação; XXXIII – amostra de fiscalização – porção representativa de um lote ou partida de fertilizante, inoculante, corretivo, biofertilizante, remineralizador e substrato para plantas suficientemente homogênea e corretamente identificada, retirada por fiscal federal agropecuário ou sob sua supervisão ou aprovação e obtida por método definido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento; XXXIV – amostragem – ato ou processo de obtenção de porção de produto, para constituir amostra representativa de lote ou partida definidos; Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 2 41 XXXV – remineralizador – material de origem mineral que tenha sofrido ape- nas redução e classificação de tamanho de partícula por processos mecânicos e que, aplicado ao solo, altere os seus índices de fertilidade, por meio da adição de macronutrientes e micronutrientes para as plantas, e promova a melhoria de propriedades físicas, físico-químicas ou da atividade biológica do solo; e XXXVI – substrato para plantas – produto usado como meio de crescimento de plantas. 2.3 Órgãos competentes e oficiais previstos na legislação para análise de indicadores 2.3.1 Água para abastecimento humano De acordo com a Portaria do Ministério da Saúde 2.914, de 12 de dezembro de 2011, to- das as esferas da federação têm competências e responsabilidades no que tange à verificação de indicadores de análise de qualidade de água. Em seu artigo 6°, são definidas as competências atribuídas à União e que serão exercidas pelo Ministério da Saúde e entidades a ele vinculadas, que estão apresentadas no quadro 13. Quadro 13 – Relação de órgãos vinculados ao Ministério da Saúde. Órgãos vinculados ao ministério da saúde Sigla Secretaria de Vigilância em Saúde SVS/MS Secretaria Especial de Saúde Indígena Sesai/MS Fundação Nacional de Saúde Funasa Agência Nacional de Vigilância Sanitária Anvisa Fonte: Elaborado pelo autor. A Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS/MS) apresenta as seguintes competências estabelecidas pela supracitada portaria: I – promover e acompanhar a vigilância da qualidade da água para consumo humano, em articulação com as Secretarias de Saúde dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios e respectivos responsáveis pelo controle da qualidade da água; II – estabelecer ações especificadas no Programa Nacional de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (VIGIAGUA); III – estabelecer as ações próprias dos laboratórios de saúde pública, especifica- das na Seção V desta Portaria; IV – estabelecer diretrizes da vigilância da qualidade da água para consumo humano a serem implementadas pelos Estados, Distrito Federal e Municípios, respeitados os princípios do SUS; Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura2 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo42 V – estabelecer prioridades, objetivos, metas e indicadores de vigilância da qualidade da água para consumo humano a serem pactuados na Comissão Intergestores Tripartite; e VI – executar ações de vigilância da qualidade da água para consumo humano, de forma complementar à atuação dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Em atenção especial aos povos indígenas brasileiros foi criada em 2010 a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai/MS), que tem como competência executar, diretamente ou mediante parcerias, incluída a contratação de prestadores de serviços, as ações de vi- gilância e controle da qualidade da água para consumo humano nos sistemase soluções alternativas de abastecimento de água das aldeias indígenas. Compete à Fundação Nacional de Saúde (Funasa) apoiar as ações de controle da quali- dade da água para consumo humano proveniente de sistema ou solução alternativa de abas- tecimento de água para consumo humano, em seu âmbito de atuação, conforme os critérios e parâmetros estabelecidos na supracitada portaria. Em Portaria interna da Funasa, 190/2014, fixa-se a orientação ao Apoio ao Controle da Qualidade da Água (ACQA) como um conjunto de ações exercidas pelas Unidades Regionais de Controle da Qualidade da Água (URCQA), instaladas nas superintendências da Funasa junto aos Estados, podendo ser traduzidas como a análise laboratorial, visita e orientação técnica, capacitação, suporte técnico, orientação acerca das alternativas e tecnologias apro- priadas ao tratamento e à análise de água para consumo humano, inclusive em áreas de interesse do Governo Federal, como as comunidades quilombolas, reservas extrativistas, assentamentos rurais e populações ribeirinhas. Por fim, na esfera federal, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tem como competência exercer a vigilância da qualidade da água nas áreas de portos, aeropor- tos e passagens de fronteiras terrestres, conforme os critérios e parâmetros estabelecidos na portaria do Ministério da Saúde supracitada, bem como diretrizes específicas pertinentes. Já no âmbito da esfera estadual, são as Secretarias de Saúde dos Estados que têm as competências para a análise de indicadores de qualidade de água. Conforme a Portaria do Ministério da Saúde 2.914/2011, as seguintes atribuições são de sua competência: I – promover e acompanhar a vigilância da qualidade da água, em articulação com os Municípios e com os responsáveis pelo controle da qualidade da água; II – desenvolver as ações especificadas no VIGIAGUA, consideradas as peculia- ridades regionais e locais; III – desenvolver as ações inerentes aos laboratórios de saúde pública, especifica- das na Seção V desta Portaria; IV – implementar as diretrizes de vigilância da qualidade da água para consumo humano definidas no âmbito nacional; V – estabelecer as prioridades, objetivos, metas e indicadores de vigilância da qualidade da água para consumo humano a serem pactuados na Comissão Intergestores Bipartite; Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 2 43 VI – encaminhar aos responsáveis pelo abastecimento de água quaisquer infor- mações referentes a investigações de surto relacionado à qualidade da água para consumo humano; VII – realizar, em parceria com os Municípios em situações de surto de doença diarréica aguda ou outro agravo de transmissão fecal-oral, procedimentos de análise de água: VIII – executar as ações de vigilância da qualidade da água para consumo hu- mano, de forma complementar à atuação dos Municípios, nos termos da regula- mentação do SUS. Na esfera municipal compete às Secretarias de Saúde dos Municípios a aplicação da Portaria do Ministério da Saúde 2.914/2011. I – exercer a vigilância da qualidade da água em sua área de competência, em articulação com os responsáveis pelo controle da qualidade da água para consumo humano; II – executar ações estabelecidas no VIGIAGUA, consideradas as peculiaridades regionais e locais, nos termos da legislação do SUS; III – inspecionar o controle da qualidade da água produzida e distribuída e as práticas operacionais adotadas no sistema ou solução alternativa coletiva de abastecimento de água, notificando seus respectivos responsáveis para sanar a(s) irregularidade(s) identificada(s); IV – manter articulação com as entidades de regulação quando detectadas falhas relativas à qualidade dos serviços de abastecimento de água, a fim de que sejam adotadas as providências concernentes a sua área de competência; V – garantir informações à população sobre a qualidade da água para consumo humano e os riscos à saúde associados, de acordo com mecanismos e os instru- mentos disciplinados no Decreto nº 5.440, de 4 de maio de 2005; VI – encaminhar ao responsável pelo sistema ou solução alternativa coletiva de abastecimento de água para consumo humano informações sobre surtos e agra- vos à saúde relacionados à qualidade da água para consumo humano; VII – estabelecer mecanismos de comunicação e informação com os responsáveis pelo sistema ou solução alternativa coletiva de abastecimento de água sobre os resultados das ações de controle realizadas; VIII – executar as diretrizes de vigilância da qualidade da água para consumo humano definidas no âmbito nacional e estadual; IX – realizar, em parceria com os Estados, nas situações de surto de doença diar- réica aguda ou outro agravo de transmissão fecal oral. X – cadastrar e autorizar o fornecimento de água tratada, por meio de solução alternativa coletiva, mediante avaliação e aprovação dos documentos exigidos no art. 14 desta Portaria. Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura2 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo44 Nova portaria de potabilidade de água – Busca de consenso para viabilizar a melhoria de água potável distribuída no Brasil (DAE, 2012) Em dezembro de 2011, o Ministério da Saúde publicou a portaria n. 2914, que dispõe sobre os procedimentos de controle e de vigilância da quali- dade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade. Esta nova portaria é a quinta versão da norma brasileira de qualidade da água para consumo que, desde 1977, vem passando por revisões periódicas, com vistas à sua atualização e à incorporação de novos conhecimentos, em especial fruto dos avanços científicos conquistados em termos de tra- tamento, controle e vigilância da qualidade da água e de avaliação de risco à saúde. Essas revisões acomodam, também, possibilidades técnicas e institucionais próprias de cada momento de revisão da norma. E, a cada revisão nota-se a preocupação do Ministério da Saúde e do setor do sane- amento em inovar e aprimorar tanto o processo participativo de revisão como as exigências a serem apresentadas. Esta última publicação é resultado de um amplo processo de discussão para revisão da Portaria MS n. 518/2004, realizado no período de 2009 a 2011, sob a coordenação do Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador, da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde. O processo de revisão foi desenvolvido por um grupo de tra- balho composto por representantes do setor da saúde, de instituições de ensino e pesquisa, das associações das empresas de abastecimento de 2.3.2 Água para o uso na agricultura Os órgãos competentes e oficiais previstos na legislação para análise de indicadores do uso da água na agricultura podem ser nas esferas federal, estadual e municipal dependendo da área de abrangência da análise. Cada ente da federação define seus órgãos competentes, mas de forma geral são incum- bidos dessa tarefa os órgãos de agricultura e meio ambiente que devem seguir os parâme- tros das qualidades das águas que são regidos pela Resolução 357 do Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama, de 17 de março de 2005. Ampliando seus conhecimentos Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 2 45 água e dos órgãos de meio e recursos hídricos. Essa ampla discussão com todos os setores envolvidos, aliás, parece ter sido o ponto alto desta nova Portaria. Rafael Bastos, Professor Dr. do Departamento de Engenharia Civil da Universidade de Viçosa, foi responsável pela coordenação dos trabalhos de revisão do padrão de potabilidade. Segundo ele, um dos aspectos mais importantes desta Portaria foi o fato de ela ser resultadoconsensuado de ampla discussão, envolvendo setores diversos da socie- dade, em torno da proteção da saúde humana. “Naturalmente, em se tra- tando de uma norma de uso obrigatório em todo o território nacional, heterogêneo por natureza, sempre haverá críticas, às vezes considerando a norma excessivamente permissiva, em outras desnecessariamente exi- gente ou rigorosa”. Do ponto de vista do padrão de potabilidade, o professor explica que a atualização foi resultado de cuidadosa revisão, baseada em critérios de avaliação de risco. Assim, se determinada substância química fazia parte do padrão de potabilidade e não faz mais, é porque o conhecimento atual não aponta tal substância como de toxicidade preocupante e, ou de que a exposição via consumo de água não é das mais relevantes. Raciocínio semelhante justifica eventual flexibilização de valor máximo permitido para a determinada substância, e raciocínio inverso justifica a inclusão de novas substâncias no padrão de potabilidade ou maior rigor no estabele- cimento de valor máximo permitido na água. Os valores máximos permitidos de cada substância na água foram defi- nidos com base na abordagem de avaliação quantitativa de risco quí- mico, que permite estimar a concentração limite que, em tese, poderia ser ingerida continuamente ao longo de toda a vida sem risco considerável à saúde. Estimativa esta feita com largas margens de segurança. No caso o padrão microbiológico de potabilidade, a referência utili- zada é a metodologia de avaliação quantitativa de risco microbiológico, que orientou a definição do padrão de turbidez da água filtrada, como indicador da remoção de protozoários, e dos parâmetros de controle da desinfecção, indicadores da inativação de bactérias, vírus e protozoários. “Obviamente, o que se busca é a minimização de riscos, tomando como referência o que se tem de mais atual em termos de abordagem científica, as mesmas utilizadas pela Organização Mundial da Saúde”, explica o pro- fessor Rafael Bastos. Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura2 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo46 Concretamente, o padrão de substâncias químicas que representam risco à saúde e o padrão organolético da Portaria 518/2004, em conjunto, regu- lamentavam 74 substâncias/características da água, e esse número foi ele- vado para 87 na Portaria 2914/2011. Livre Docente na área de Toxicologia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Gisele Umbuzeiro se diz orgulhosa por viver em um país com regras para a potabilidade. “É muito bom ver que a água tem grande importância para todos os envolvidos. O processo de regula- mentação da água reflete o amadurecimento de um país e sua capacidade científica, tecnológica, econômica e social”. Apesar de achar que a Portaria tenha evoluído muito, Gisela Umbuzeiro lamenta o fato de os interferentes endócrinos não terem sido considerados. “Infelizmente, o Brasil perdeu uma grande possibilidade de avançar na questão. Não acho que devemos ter padrões ainda, mas poderíamos ter tomado algumas medidas como a recomendação de um monitoramento da água bruta para esses compostos – já que temos informações suficientes para medi-los – para trabalhar no preventivo, especialmente para águas subterrâneas, pois nesse recurso, quando se detecta a contaminação, fica difícil conter a fonte. Isso sim seria uma ação interessante”. E ela conclui: “Antes nossos problemas fossem somente os interferentes endócrinos. Existem milhares de substâncias tóxicas presentes na água de beber que não regulamentamos, não sabe- mos sua concentração, mas que bebemos sem saber. Com a evolução da química, essas informações aparecerão cada vez mais e teremos de repen- sar a forma de enfrentar esse problema, usando técnicas de prevenção”. Além do próprio processo de discussão e transparência que permitiu a todos uma visão mais abrangente sobre o assunto, muitos foram os pon- tos positivos levantados pelos especialistas entrevistados nessa matéria. Em seus 53 artigos, a Portaria 2914 coloca para o país muitas outras importantes medidas como: a necessidade da estruturação e habilitação de laboratórios, nos mais diversos níveis do governo e também na área privada; exige a informação sobre a qualidade de produtos químicos utili- zados em tratamento de água para consumo humano e a comprovação do baixo risco a saúde; proíbe a existência de Solução Alternativa Coletiva, onde houver rede de distribuição e de misturas com a água da rede; prevê competências específicas para a União, os Estados e Municípios; amplia a necessidade de capacitação e atualização técnica aos profissionais que atuam no fornecimento e controle de qualidade da água, dentre outros. Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 2 47 Atividades 1. O Ministério da Saúde publicou no Diário Oficial da União, Seção 1, do dia 14 de dezembro, a Portaria 2.914, de 12 de dezembro de 2011, a qual dispõe sobre os proce- dimentos de controle e de vigilância da qualidade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade. Verifique por meio de uma análise de água feita em sua cidade, condomínio predial, clube etc., se atende às determinações estabelecidas por lei. Se for o caso, identifique os parâmetros em discordância e faça um comunicado técnico para os responsáveis sobre a necessidade de adequações. 2. Da mesma forma da atividade 1, acrescentando uma análise da Resolução 357 do Con- selho Nacional do Meio Ambiente (Conama), de 17 de março de 2005, verifique os padrões dos parâmetros de agrotóxicos com a análise de água como objeto de estudo. 3. Faça uma pesquisa em sua cidade ou estado e identifique, listando em uma tabela, as principais informações sobre os órgãos competentes oficiais previstos na legislação para análise de indicadores de qualidade de água que atuam em sua localidade. Referências BRASIL. Casa Civil. Decreto n. 8.384, de 29 de dezembro de 2014. Dispõe sobre a inspeção e fiscali- zação da produção e do comércio de fertilizantes, corretivos, inoculantes ou biofertilizantes destina- dos à agricultura. Disponível em: . Acesso em: abr. 2016. ______. Ministério do Meio Ambiente. Resolução n. 357 do Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama, de 17 de março de 2005. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. ______. Ministério da Saúde. Portaria do Ministério da Saúde n. 2.914, de 12 de dezembro de 2011. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. DAE. Nova portaria de potabilidade de água – Busca de consenso para viabilizar a melhoria de água potável distribuída no Brasil. Revista DAE/SABESP, n. 189, mai-ago 2012. Disponível em: . Acesso em: mar. 2017. Resolução 1. Com a análise dos indicadores será possível identificar os parâmetros que estão de acordo com os padrões da legislação, fazendo com que você tome contato com esse tipo de informação. Se houver alguma discordância nos parâmetros, você terá a oportunidade de elaborar um comunicado técnico exercitanto suas habilidades para os responsáveis pela água em análise. Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura2 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo48 2. Com a análise dos indicadores será possível identificar os parâmetros que estão de acordo com os padrões da legislação fazendo com que você tome contato com esse tipo de informação. Se houver alguma discordância nos parâmetros, você terá a oportunidade de elaborar um comunicado técnico exercitanto suas habilidades paraos responsáveis pela água em análise. 3. Deverá ser feita a relação com as principais informações, como nome do órgão, suas atri- buições, qual vínculo governamental, endereço etc. Você também poderá divulgar com o auxílio e a conferência de seu professor essas informações e a prévia autorização do órgão para a sua comunidade visando divulgar e socializar essa importante informação. Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 49 3 Reduzindo possíveis impactos ambientais Os impactos ambientais que são advindos das atividades humanas pela sua forma desenvolvimentista têm causado significativos danos aos recursos naturais e compro- metido a sua capacidade de resiliência. Como resultados, temas como crise hídrica, mudanças climáticas, desertificação, poluição dos oceanos, redução da produtividade agrícola etc., têm feito parte da pauta tanto dos governos como sociedade civil em geral. Ao mesmo tempo, nos últimos 60 anos, muitas técnicas e métodos vêm sendo desenvolvidos para amenizar esses impactos ambientais, com o objetivo de amenizar ou mesmo reverter a degradação ambiental. Nesta aula serão apresentadas técnicas de redução de impactos ambientais nos recursos hídricos e nos solos, bem como alguns conceitos de educação ambiental que são utilizados para a redução desses impactos. Reduzindo possíveis impactos ambientais3 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo50 3.1 Técnicas e métodos de redução de impactos ambientais em recurso hídrico De acordo com o impacto ambiental que é gerado no recurso hídrico, toma-se a decisão de utilizar determinadas técnicas e métodos de redução de impactos. Levando em considera- ção que, conforme orientado pela Agência Nacional das Águas – ANA (2016), o conceito de bacia hidrográfica deve ser levado em consideração para a definição de ações de gestão am- biental e manejo dos recursos hídricos. Neste capítulo daremos enfoque ao manejo de bacias hidrográficas e suas principais ações de gestão ambiental, como a recuperação de áreas degra- dadas, a recuperação de matas ciliares e o tratamento e a interceptação de efluentes líquidos. 3.1.1 Manejo de bacias hidrográficas A bacia hidrográfica é a unidade de planejamento dos recursos hídricos, sobre ela in- cidem planos e normas estabelecidos em diferentes escalas: Federal, Estadual e Municipal. A Lei Federal 9.433/97 instituiu o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos, que elegeu a bacia hidrográfica como unidade territorial de atuação das políticas de recursos hídricos, planejamento e gerenciamento. Assim, a água passou a ser considera- da um bem de domínio público, recurso natural limitado e dotado de valor econômico, que tem uso prioritário para consumo humano e dessedentação de animais em caso de escassez. Sua gestão deve proporcionar o uso múltiplo, ser descentralizada e participativa. A aplicação do conceito de bacia hidrográfica ou fluvial é extremamente relevante para a redução de impactos ambientais nos recursos hídricos. Nesse contexto, a bacia hidrográ- fica é o conjunto de terras drenadas por um rio e seus afluentes. Seu contorno é limitado pelas partes mais altas do relevo, chamadas de divisores de água. As águas das chuvas ou escoam superficialmente formando os riachos e rios, ou infiltram no solo para a formação de nascentes e do lençol freático. Em condições naturais, as cabeceiras são formadas por riachos que brotam em terrenos de maior declividade. À medida que as águas desses riachos des- cem, juntam-se com as águas de outros riachos. Esses pequenos rios continuam seus trajetos recebendo água de outros tributários, formando rios cada vez maiores até desembocar nos oceanos (BARRELA et al., 2001). É desejável que a quantidade de água produzida pelas nascentes e escoada pelos rios tenha distribuição adequada no tempo, ou seja, a variação da vazão deve situar-se conforme de determinados limites ao longo do ano. A bacia não deve funcionar como um recipiente impermeável, escoando em curto espaço de tempo toda a água recebida durante uma pre- cipitação pluvial. Ao contrário, ela deve absorver grande parte dessa água através do solo, armazená-la em seu lençol subterrâneo e cedê-la, aos poucos, aos cursos de água pelas nas- centes (CALHEIROS, 2004). A conservação da água por meio do manejo adequado da terra e a necessidade da uti- lização das bacias hidrográficas como unidades para o planejamento e o controle do uso da terra, para a consecução do desenvolvimento sustentável de forma integrada com a Reduzindo possíveis impactos ambientais Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 3 51 conservação dos ecossistemas naturais e dos recursos hídricos, são recomendadas desde a década de 1980 (IUCN, 1984). 3.1.2 Recuperação de microbacias hidrográficas degradadas A microbacia hidrográfica é uma área drenada por um rio e seus afluentes e delimitada por seus divisores de águas (linhas que unem os pontos de maior altitude e que definem divisores entre uma bacia e outra). É a unidade básica de planejamento para a compatibilização da preservação dos recursos naturais e da produção agropecuária, mais ainda quando o fator principal da análise é a água. As microbacias hidrográficas apresentam características ecológicas, geomorfológicas e sociais integradoras, o que possibilita uma abordagem sistêmica e participativa envolvendo estudos interdisciplinares para o estabelecimento de formas de desenvolvimento sustentá- vel inerentes ao local ou região onde serão implementadas. Essa visão integrada, por parte dos planejadores, assim como dos produtores rurais, evidencia a lógica da interligação biofísica entre as ações desenvolvidas na microbacia e as reações do sistema. Por exemplo, alterações feitas por um agricultor nas práticas de manejo em determinadas áreas da microbacia podem acarretar melhoria ou comprometimento da qualidade da água. Na microbacia, a água representa o componente unificador de integração no manejo devido à sua estreita relação com os outros recursos ambientais especialmente com a floresta ciliar (LIMA, 2006). Dessa forma, somente o planejamento e a execução de ações de restauração das matas ciliares considerando a microbacia como área de intervenção e não propriedades rurais in- dividualmente proporcionam resultados efetivos e abrangentes para a conservação do solo, da biodiversidade e consequentemente para a preservação dos recursos hídricos. E tudo isso conduz a melhor qualidade de vida para as comunidades rurais e urbanas. 3.1.3 Recuperação de matas ciliares em microbacias hidrográficas Ao se destruir a natureza, destrói-se a própria base da produção agrícola, que são os recursos naturais: o solo, a água e a biodiversidade. Fica claro que é importante manter a visão holística, integradora, sistêmica que os pro- jetos em escala de microbacias proporcionam para estabelecer a busca da preservação da natureza e do desenvolvimento sustentável. Em uma microbacia as funções ecológicas e hidrológicas das matas ciliares são: • contribuem para o armazenamento de água na microbacia, diminuindo o risco de falta de água na estação seca do ano; • colaboram para a manutenção da qualidade da água dos rios da microbacia. Reduzindo possíveis impactos ambientais3 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo52 As matas ciliares funcionam como filtros, retendo sedimentos e poluentes das áreas agríco- las e urbanas adjacentes, pois os sedimentos e poluentes transportados por meio do escoamento superficial (enxurrada) são depositados na vegetação localizada nas margens dos rios. De acor- do com dados experimentais, as florestas ciliares removem 80-90% dos sedimentos oriundos de processos erosivos das áreas agrícolas da microbacia (NAIMAN et al., 1997). Elas promovem também uma diminuição significativa da concentração de herbicidas nos cursos de água. Além dessa ação física de filtragem de sedimentos e nutrientes, as matas ciliares podem exercer uma filtragem biológica, pormeio da captação, pelas raízes da floresta ou pelos mi- cro-organismos do solo, de nutrientes liberados dos ecossistemas terrestres que chegam aos rios por meio de seu transporte em solução no escoamento subsuperficial (efeito tampão): 77 e 10 kg a –1 ano –1 de N e P respectivamente, retidos pela vegetação (NAIMAN et al., 1997); redução em 38% da concentração de nitrogênio que chegaria ao curso de água, em 94% o fosfato e em 42% o fósforo dissolvido (EMMETT et al., 1994). Essa ação de proteção dos recursos hídricos das matas ciliares não ocorre quando a con- taminação se origina de fontes pontuais, como lançamento de esgoto não tratado nos rios e córregos de muitos municípios brasileiros. Em uma paisagem, a presença de vegetação nativa formando corredores ecológicos ao longo dos rios permite que haja circulação de animais e o transporte de sementes entre pontos muitas vezes distantes. As matas ciliares podem interligar a maioria dos fragmentos florestais ainda existentes. Ao se estabelecerem corredores que interliguem as áreas isola- das, pode-se facilitar o trânsito de animais e sementes, favorecendo o crescimento das popu- lações da fauna e da flora, a reprodução e consequentemente a perpetuação dessas espécies (INSTITUTO PRÓ-TERRA, 2014). A recuperação de matas ciliares é uma recomendação técnica para a redução de im- pactos ambientais nos recursos hídricos pelos principais motivos: • Criação de micro-hábitats favoráveis para alguns organismos aquáticos, resultante da queda de galhos, troncos e folhas das árvores da floresta ciliar. • Abastecimento do rio com materiais orgânicos, frutos e folhas, que servem de ali- mento aos peixes e insetos. • Favorecimento do equilíbrio térmico da água do rio, devido ao sombreamento do canal do rio pelas copas das árvores. • Estabilização da morfologia dos leitos dos rios: os barrancos dos rios sem vegeta- ção são 30 vezes mais susceptíveis à erosão do que os vegetados. • Proteção e manutenção da biodiversidade (animais e plantas). É importante res- saltar que nas matas ciliares ocorrem espécies vegetais típicas dessas áreas. Por exemplo, algumas espécies de árvores são exclusivas das áreas encharcadas das Florestas Paludosas. Consequentemente, os pássaros que se alimentam de seus frutos, os insetos que polinizam suas flores provavelmente também podem ser típicos desse hábitat. Entretanto, em uma microbacia hidrográfica a presença da vegetação ciliar não é, por si só, garantia de proteção dos recursos hídricos. Outras medidas integradas devem ser Reduzindo possíveis impactos ambientais Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 3 53 consideradas para que não ocorra uma sobrecarga à mata ciliar e assim a consequente de- gradação deste importante ecossistema. 3.1.4 Tratamento e interceptação de resíduos sólidos e líquidos No Brasil, 49% do esgoto produzido é coletado pela rede e somente 10% do esgoto total é tratado. O resultado é que as regiões metropolitanas e grandes cidades concentram grandes volumes de esgoto coletado que é despejado sem tratamento nos rios e mares que servem de corpos receptores. Como consequência disso, a poluição das águas que cercam nossas maiores áreas urbanas é bastante elevada, dificultando e encarecendo, cada vez mais, a própria captação de água para o abastecimento. Como principal técnica para a redução desse impacto ambiental nos recursos hídricos temos a implantação de estação de tratamento de esgotos, que tem por objetivo a remoção dos principais poluentes presentes nas águas residuárias, retornando-as ao corpo de água sem alteração de sua qualidade. As águas residuárias de uma cidade compõem-se dos esgotos sanitários e industriais que, em caso de geração de efluentes muito tóxicos, devem ser tratados em unidades das próprias indústrias. O parâmetro mais utilizado para definir um esgoto sanitário ou industrial é a demanda bioquímica por oxigênio (DBO). Pode ser aplicada na medição da carga orgânica imposta a uma estação de tratamento de esgotos e na avaliação da eficiência das estações – quanto maior a DBO, maior a poluição orgânica. A escolha do sistema de tratamento é função das condições estabelecidas para a qua- lidade da água dos corpos receptores. Além disso, qualquer projeto de sistema deve estar baseado no conhecimento de diversas variáveis do esgoto a ser tratado, tais como a vazão, o pH, a temperatura, o DBO etc. A composição do esgoto é bastante variável, apresentando maior teor de impurezas durante o dia e menor durante a noite. A matéria orgânica, especialmente as fezes humanas, confere ao esgoto sanitário suas principais características, mutáveis com o decorrer do tem- po, pois sofre diversas alterações até sua completa mineralização ou estabilização. Os corpos de água podem se recuperar da poluição ou depurar-se pela ação da própria na- tureza. O efluente geralmente pode ser lançado sem tratamento em um curso de água, desde que a descarga poluidora não ultrapasse cerca de quarenta avos da vazão: um rio com 120 L/s de va- zão pode receber, grosso modo, a descarga de 3 L/s de esgoto bruto, sem maiores consequências. A maioria dos mananciais de abastecimento público de água recebe diariamente quan- tidades elevadas de efluentes e, por normalmente serem pequenos córregos com baixas va- zões especialmente na estação seca do ano, têm baixa resiliência, ou seja, não conseguem recuperar e equilibrar por si só suas características físicas, químicas e biológicas, havendo portanto a necessidade do seu tratamento artificial. A determinação da escolha da metodologia do tratamento dependerá das condições mínimas estabelecidas para a qualidade da água dos mananciais receptores, a sua função Reduzindo possíveis impactos ambientais3 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo54 de utilização, como para abastecimento humano, irrigação ou no uso industrial. Em qual- quer projeto é fundamental o estudo das características da qualidade da água a ser tratada e também da qualidade do efluente que será lançado no corpo hídrico, pois é obrigatório o atendimento de ordenamentos jurídicos que traçam os critérios e diretrizes. Os principais aspectos a serem estudados são vazão, pH e temperatura, demanda bioquímica de oxigênio (DBO), demanda química de oxigênio (DQO), toxicidade e teor de sólidos em suspensão ou sólidos suspensos totais (SST). Após definida a metodologia de tratamento, é importante diagnosticar e quantificar os seguintes indicadores: – eficiência na remoção da demanda biológica de oxigênio – DBO; – eficiência na remoção de coliformes; – disponibilidade de área para sua instalação; – custos operacionais visando a análise de viabilidade; – quantidade de lodo gerado e determinação de seu destino final. 3.2 Técnicas e métodos de redução de impactos ambientais no solo Qualquer atividade agrícola que emprega recursos naturais, como água e solo, e usa in- sumos e defensivos químicos, como fertilizantes e praguicidas, provoca inúmeros impactos ambientais no solo. Contudo, é possível reduzir quaisquer impactos, ao fazer planejamento, ocupação criteriosa do solo agrícola e emprego de técnicas de conservação para cada cultura agrícola e região. De maneira geral, os principais impactos ambientais gerados por atividades agrícolas e industriais nos solos são: • redução da biodiversidade, causada pelo desmatamento e pela implantação de monocultura; • contaminação das águas superficiais e subterrâneas e do solo, devido ao excesso de adubos químicos, corretivos minerais, herbicidas e defensivos agrícolas, previs- to na Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) 420/2009, que dispõe sobre critérios e valores orientadores sobre a qualidade do solo; • compactação do solo, devido ao tráfego de máquinas pesadas durante o plantio, tratos culturais e colheita; • assoreamento de corpos de água, devido à erosão do solo em áreas de reforma; • emissão de fuligem e gases de efeito estufa, na queima de palha, ao ar livre,duran- te o período de colheita; • danos à flora e à fauna, causados por incêndios descontrolados; • consumo intenso de óleo diesel nas etapas de plantio, colheita e transporte. Reduzindo possíveis impactos ambientais Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 3 55 No quadro a seguir seguem informações das principais técnicas e métodos de redução de impacto ambiental no solo. Quadro 1 – Principais técnicas e métodos de redução de impacto ambiental no solo. Impacto ambiental Técnica/método redução de impacto Desmatamento – Promover o manejo florestal certificado pelo Ibama. Implantação de monoculturas – Planejar e diversificar a paisagem com a produção de mais de um gênero agrícola e a adequação ambiental da proprie- dade agrícola, com os cumprimentos das leis ambientais. Uso indevido de agrotóxicos – Verificar legislação vigente orientadora sobre o uso de agrotóxicos e fazer aplicações se real- mente há necessidade e de forma adequada. – Se possível mudar o sistema de produção com o uso de tecnologias e metodologias agroecológicas como perma- cultura, sistemas agroflorestais, agricultura orgânica, etc. Compactação dos solos – Definir e planejar rotas de acesso a áreas agrí- colas com a finalidade de reduzir a impacta- ção do solo pelo uso de máquinas agrícolas. – Utilizar a prática de rotação de culturas agrí- colas com espécies de leguminosas que tem com uma de suas funções descompactar os solos. Erosão e voçoro- cas dos solos – A conservação do solo por meio de curvas de nível, terraços e plantio em nível são as melho- res técnicas para evitar erosões e voçorocas. Incêndios descontrolados e queimas controladas – O uso do fogo na agricultura é milenar, no entanto causa intenso impacto na microbiologia do solo, ma- tando todos os organismos que são fundamentais para os ciclos biogeoquímicos e ciclagem de nutrientes. Contaminação com óleos e combustíveis de máquinas agrícolas – Fazer sempre a manutenção das máqui- nas agrícolas com a finalidade de evitar vaza- mentos de óleos e combustíveis no campo. Fonte: Elaborado pelo autor. 3.3 Educação ambiental e redução de impactos ambientais Desde a metade do século XX, a humanidade vive um impasse entre a preservação ambiental versus desenvolvimento econômico. Segundo Sánchez (2006), essa discussão se estende por três aspectos principais: o ecológico, que visa gerar o menor impacto possível; o Reduzindo possíveis impactos ambientais3 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo56 econômico, que visa atender à demanda de consumo; e o ético, que visa ao equilíbrio entre o ecológico e econômico. A questão ambiental é uma entre tantas que marcam este começo de século XXI nas re- flexões sobre os caminhos da humanidade. A educação ambiental surge como uma forma de encarar o comportamento e o papel do ser humano na busca de parâmetros que propiciem a sustentabilidade da vida no planeta Terra. Conforme as reflexões vão se aprofundando, percebe-se seu poder interdisciplinar de questionamentos e de contribuição para o delinea- mento de cenários alternativos para o futuro (BRASIL, 1998:30). Os rumos do desenvolvimento sustentável e das práticas cotidianas promovem discus- sões a respeito de uma nova ética global, afirmando que os atores principais dessa realidade são os próprios indivíduos que compõem a sociedade e precisam articular ações no campo político, cultural, social, ambiental e econômico, ampliando os laços de sociabilidade e de- mocratização da vida. Segundo o professor Ab’Saber (1991), “a educação ambiental é uma das coisas mais sérias que geralmente têm sido apresentada em nosso meio”. É um apelo à seriedade do conhecimen- to e uma busca de propostas corretas de aplicação de ciências. Uma ”coisa” que se identifica com o processo. Um processo que envolve um vigoroso esforço de recuperação de realidades, nada simples. Uma ação, entre missionária e utópica, destinada a reformular comportamentos humanos e recriar valores perdidos ou jamais alcançados. Um esforço permanente na reflexão sobre o destino da humanidade face à harmonia das condições naturais e o futuro do planeta “vivente”, por excelência. Um processo de educação pode garantir um compromisso com o futuro e influenciar de maneira significativa a redução de impactos ambientais. Na Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental, organizada pela Unesco, realizada na cidade de Tbilisi, em outubro de 1977, foi declarado que a educação ambiental deve abranger pessoas de todas as idades e de todos os níveis sociais, no âmbito do ensino formal ou não (EDUCAÇÃO AMBIENTAL, 1997). Todos os meios de comunicação têm a res- ponsabilidade de cooperar por meio de seus recursos a serviço dessa missão educativa. Nessa mesma Conferência, declarou-se que a educação ambiental deve constituir-se de um ensino geral permanente, reagindo às mudanças que se produzem num mundo em rápida evolução. Tem o papel de tornar possível a compreensão sobre os principais problemas do mundo atual, contribuindo para a formação de indivíduos capazes de realizar ações cotidia- nas que visem à melhoria da qualidade de vida e à proteção do meio. “Afirma-se ainda que ela deve ser direcionada a um processo ativo no sentido de resolver os problemas dentro de um contexto de realidades específicas, estimulando a iniciativa, o senso de responsabilidade e o esforço para construir um futuro melhor” (EDUCAÇÃO AMBIENTAL, 1997, p. 18-19). A educação ambiental pode promover o aprendizado e emprego de novas tecnologias, o aumento da produtividade, a redução dos impactos ambientais e do conhecimento, a uti- lização de novas oportunidades e a tomada de decisões acertadas. Ela deflagra percepções globais ou locais de fatores econômicos, tecnológicos, históricos, culturais e processos natu- rais ou artificiais que causam e sugerem ações para saná-lo; ajuda a compreender, apreciar, Reduzindo possíveis impactos ambientais Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 3 57 saber lidar e manter os sistemas ambientais na sua totalidade, proporcionando uma har- monia nas relações entre a comunidade humana e o meio em que vivemos, integrando-se à sustentabilidade global (VIEZZER; OVALLES, 1995:120-130). Segundo Sato (2002), a educação ambiental para uma sustentabilidade equitativa é um processo de aprendizagem permanente, baseado no respeito a todas as formas de vida. Tal educação afirma valores e ações que contribuem para a transformação humana e social e para a preservação da natureza, reduzindo impactos ambientais que são produzidos pela forma de vida que se prega atualmente. A educação ambiental estimula a formação de socie- dades socialmente justas e ecologicamente equilibradas que conservam entre si as relações de interdependência e diversidade. A educação ambiental deve gerar com urgência mudan- ças na qualidade de vida e maior consciência na conduta pessoal, assim como harmonia entre os seres humanos e destes com outras formas de vida. Um marco da educação ambiental no Brasil foi o sancionamento da Lei Federal 9.795, de 27 de abril de 1999, que dispõe sobre a educação ambiental e institui a Política Nacional de educação ambiental. Em seus artigos 1°, 2°, 4° e 5° corrobora com as ideias e os conceitos de que a educação ambiental contribui para a redução de impactos ambientais. Art. 1° Entendem-se por educação ambiental os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade. Art. 2.° A educação ambiental é um componente essencial e permanente da edu- cação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não-formal. No artigo 4o são apresentados os princípios básicos da educação ambiental: I – o enfoque humanista,holístico, democrático e participativo; II – a concepção do meio ambiente em sua totalidade, considerando a interde- pendência entre o meio natural, o socioeconômico e o cultural, sob o enfoque da sustentabilidade; III – o pluralismo de ideias e concepções pedagógicas, na perspectiva da inter, multi e transdisciplinaridade; IV – a vinculação entre a ética, a educação, o trabalho e as práticas sociais; V – a garantia de continuidade e permanência do processo educativo; VI – a permanente avaliação crítica do processo educativo; VII – a abordagem articulada das questões ambientais locais, regionais, nacio- nais e globais; VIII – o reconhecimento e o respeito à pluralidade e à diversidade individual e cultural. Reduzindo possíveis impactos ambientais3 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo58 No artigo 5o são apresentados os objetivos fundamentais da educação ambiental: I – o desenvolvimento de uma compreensão integrada do meio ambiente em suas múltiplas e complexas relações, envolvendo aspectos ecológicos, psicológi- cos, legais, políticos, sociais, econômicos, científicos, culturais e éticos; II – a garantia de democratização das informações ambientais; III – o estímulo e o fortalecimento de uma consciência crítica sobre a problemá- tica ambiental e social; IV – o incentivo à participação individual e coletiva, permanente e responsável, na preservação do equilíbrio do meio ambiente, entendendo-se a defesa da qua- lidade ambiental como um valor inseparável do exercício da cidadania; V – o estímulo à cooperação entre as diversas regiões do País, em níveis micro e macrorregionais, com vistas à construção de uma sociedade ambientalmente equilibrada, fundada nos princípios da liberdade, igualdade, solidariedade, de- mocracia, justiça social, responsabilidade e sustentabilidade; VI – o fomento e o fortalecimento da integração com a ciência e a tecnologia; VII – o fortalecimento da cidadania, autodeterminação dos povos e solidarieda- de como fundamentos para o futuro da humanidade. Portanto, a educação ambiental pode ser uma estratégia para enfrentar a necessidade de compatibilizar desenvolvimento econômico e preservação/conservação de ecossistemas, bem como reduzir os impactos ambientais que são gerados pela forma desenvolvimentista adotada. A educação não é o único, mas certamente é um dos meios de atuação pelos quais nos realizamos como seres em sociedade, ao exercitarmos nossa capacidade de definirmos conjuntamente os melhores caminhos para a sustentabilidade da vida; e ao favorecermos a produção de novos conhecimentos que nos permitam refletir criticamente sobre o que fazemos no cotidiano. Logo, a educação é entendida como processo unidirecional de uns para outros ou ex- clusivamente pessoal, sem o outro, ocorrendo quando estabelecemos meios de superação da dominação e exclusão, tanto em relação a nossos grupos sociais quanto em relação aos demais seres vivos e à natureza como totalidade (DUARTE, 2002). Ampliando seus conhecimentos Cidades sustentáveis reduzem impactos ambientais (PORTAL BRASIL, 2014) Conhecidas por adotarem práticas que aliam a qualidade de vida da popu- lação, o desenvolvimento econômico e a preservação do meio ambiente, as chamadas cidades sustentáveis reduzem os impactos ambientais Reduzindo possíveis impactos ambientais Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 3 59 relacionados ao consumo de matéria e energia e à geração de resíduos sólidos, líquidos e gasosos. Embora não exista uma cidade que seja 100% sustentável, várias delas já praticam ações sustentáveis em diversas áreas. Planejamento ambiental urbano O planejamento ambiental urbano é importante não só para a nossa qua- lidade de vida, mas principalmente para o futuro das próximas gerações. A partir da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em 1992, na cidade do Rio de Janeiro, conhe- cida como ECO 92 ou Rio 92, ficou estabelecido que os Estados devem adotar instrumentos econômicos como iniciativa de proteção à integri- dade do sistema ambiental global. Atualmente, é realizado o pagamento por serviços ambientais urbanos que atuariam na remuneração pela produção de impactos positivos ou minimização de impactos negativos ambientalmente. Entre eles, podem- -se citar: manutenção de áreas verdes urbanas; melhoria na rede de transporte coletivo; disposição correta e reciclagem de resíduos sólidos urbanos; e tratamento de esgoto sanitário. A Secretaria de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente (MMA) oferece o curso de Capacitação em Sustentabilidade Ambiental Urbana, na modalidade de Ensino e Aprendizado a Distância (EAD), com o objetivo de preparar servidores públicos municipais em relação à política e gestão ambientais urbanas. Construções Sustentáveis O Conselho Internacional da Construção (CIB) aponta a indústria da construção como o setor de atividades humanas que mais consome recur- sos naturais e utiliza energia de forma intensiva, gerando consideráveis impactos negativos ao meio ambiente. Buscando mudar esse cenário, surge o conceito de construção sustentável. Em síntese, ele envolve a redução e otimização do consumo de materiais e energia, a redução dos resíduos gerados, a preservação do ambiente natu- ral e a melhoria da qualidade do ambiente construído. Reduzindo possíveis impactos ambientais3 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo60 O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e a Agência Nacional de Águas (ANA) realizaram em outubro passado o seminário “Construções Sustentáveis – Materiais e Técnicas”. O objetivo era divulgar e valorizar práticas construtivas que equilibrem o que é socialmente desejável, economicamente viável e ecologicamente sustentável nas Unidades de Conservação (UCs). Saiba mais sobre o Seminário No ICMBio há a preocupação de que as obras possam servir de referên- cia para a sociedade. “Nosso exemplo é muito importante. A preocupa- ção com a sustentabilidade tem de estar presente desde a concepção dos projetos, que precisam contemplar tecnologias inovadoras, uso racional da água, eficiência energética, gestão adequada de resíduos e redução do desperdício”, explica o coordenador geral de Uso Público e Negócios do ICMBio (CGEUP/ICMBio), Fábio de Jesus. Qualidade do ar A poluição atmosférica traz prejuízos à qualidade de vida das pessoas, e consequentemente ao estado, tendo em vista os gastos que são realizados com recursos hospitalares por causa de doenças respiratórias. Além disso, a poluição de ar pode afetar ainda qualidade dos materiais (cor- rosão), do solo e das águas (chuvas ácidas), além de afetar a visibilidade. Em uma cidade sustentável é necessário que seja estabelecida uma gestão da qualidade do ar. Os processos industriais e de geração de energia, os veículos automotores e as queimadas são as atividades humanas que mais causam a introdução de substâncias poluentes na atmosfera. Portanto, é fundamental imple- mentar ações de prevenção, combate e redução das emissões de poluentes e dos efeitos da degradação do ambiente atmosférico. Áreas Verdes Urbanas As áreas verdes urbanas contribuem para o bem-estar da sociedade e para a conservação da natureza. Essas áreas possibilitam a valorização da pai- sagem e do patrimônio natural. Reduzindo possíveis impactos ambientais Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 3 61 Exercem funções sociais e educativas relacionadas com a oferta de cam- pos esportivos, áreas de lazer e recreação, oportunidades de encontro, contato com os elementos da natureza e educação ambiental (voltada para a sua conservação). Os Parques urbanos desempenham a função ecológica, estética e de lazer, no entanto, com uma extensão maior que as praças e jardins públicos. Resíduos Sólidos Resíduos sólidos são os tipos de lixos produzidos pelo homem, como gar- rafas, sacos plásticos, embalagens, baterias, pilhase até restos de comida. Além de causarem a poluição visual e mal cheiro, esses resíduos poluem a água, o solo e colocam os animais em risco, já que eles podem se ferir em mate- riais cortantes ou mesmo ingerir os materiais descartados de forma indevida. A aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS, marcou o início de uma forte articulação institucional envolvendo União, Estados e Municípios, o setor produtivo e a sociedade na busca de soluções para os problemas na gestão de resíduos sólidos que comprometem a qualidade de vida da população. É preciso buscar soluções para o problema em relação a esse tipo de mate- rial. Se manejados adequadamente, os resíduos sólidos adquirem valor comercial e podem ser utilizados em forma de novas matérias-primas ou novos insumos. A implantação de um Plano de Gestão trará reflexos positivos no âmbito social, ambiental e econômico: proporciona a abertura de novos merca- dos, gera trabalho, emprego e renda, conduz à inclusão social e diminui os impactos ambientais provocados pela disposição inadequada dos resíduos. Boas Práticas Na capital federal, Brasília (DF), o incentivo de uso bicicleta e a ampliação das ciclovias contribuem para redução dos poluentes emitidos por auto- móveis, além de trazer maior mobilidade, menos poluição e congestiona- mento e melhor qualidade de vida. Outra cidade brasileira que é referência em práticas sustentáveis é João Pessoa (PB). A prefeitura da capital promoveu, nos dois últimos anos, a preservação de áreas verdes, a arborização urbana e a recuperação de Reduzindo possíveis impactos ambientais3 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo62 áreas degradadas, utilizando as mudas de árvores nativas produzidas no Viveiro Municipal. Em Santana do Parnaíba (SP), organização formada por ex-catadores de materiais recicláveis, a Avemare, criou o Programa Lixo da Gente – Reciclando Cidadania, que promove a coleta seletiva por meio de cons- cientização da população sobre a importância da reciclagem para a pre- servação ambiental, assim como a inclusão e o desenvolvimento social. Atividades 1. Pesquise junto aos órgãos competentes de sua cidade e região, como prefeituras, ór- gãos estaduais e federais bem como comitês sobre as bacias hidrográficas da região e organize essas informações em um documento técnico, contendo uma tabela com as informações como nome da bacia hidrográfica, área geográfica, características de uso e ocupação do solo, áreas degradadas, biomas ocorrentes, aquíferos presentes, qualidade e quantidade das águas. Some essas informações a mapas, se houver e se estiverem disponíveis. 2. Assim como na atividade 1, organize um banco de dados dos principais impactos ambientais no solo, correlacione-os e verifique se as técnicas e os métodos para redu- zir tais impactos são aplicados em sua região. 3. Com as informações do banco de dados gerados nas atividades 1 e 2, verifique se ocorre alguma ação de Educação Ambiental para reduzir os impactos ambientais. Caso não ocorra com os conceitos apresentados, liste ações e projetos que poderiam reduzir os impactos ambientais diagnosticados. Referências AB’ SABER, N. Conceituando educação ambiental. Rio de Janeiro: Museu de Astronomia e Ciências Afins-CNPq, 1991. BARRELA, W.; PETRERE JR, M.; SMITH, W. S.; MONTAG. L. F. A. As relações entre as matas ciliares, os rios e os peixes. In: RODRIGUES, R. R.; LEITÃO FILHO, H.F. Matas Ciliares: conservação e recu- peração. São Paulo: Edusp. p. 1187-207, 2001 . BRASIL. Agência Nacioonal das Águas - ANA. Sobre a ANA. Disponível em: . Acesso em: 14 mar. 2017. ______. Lei n. 9.433, de 8 de janeiro de 1997. Institui a Politica Nacional de Recursos Hídricos. Disponível em: . Acesso em: 14 mar. 2017. Reduzindo possíveis impactos ambientais Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 3 63 ______. Ministério do Meio Ambiente. Resolução n. 420, de 28 de dezembro de 2009. Dispõe sobre crité- rios e valores orientadores de qualidade do solo quanto à presença de substâncias química. Disponível em: . Acesso em: 14 mar. 2017. ______. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: terceiro e quarto ci- clos: apresentação dos temas transversais. Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998. 436 p. Disponível em . Acesso em: mar. 2017. CALHEIROS, Rinaldo. O. et al. Preservação e recuperação das nascentes. Piracicaba: Comitê das Bacias Hidrográficas dos Rios PCJ - CTRN, 2004. 40 p. il. Disponível em: . Acesso em: 14 mar. 2017. DUARTE, Rodrigo. Adorno/Horkheimer e a dialética do esclarecimento. 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São Carlos: Rima Editora, 2006, p. 77-87. NAIMAN, R.J.; DÉCAMPS, H. The ecology of interfaces: riparian zones. Annual Review Ecological System, v.28, p.621–658, 1997. SÁNCHEZ, Luis Enrique. Avaliação de impacto ambiental: conceitos e métodos. 2°edição revisada. São Paulo: Oficina de textos, 2013. SATO, Michele. Educação ambiental. São Carlos: Ed RIMA, 2002, 88p. VIEZZER, M.; OVALLES, O. Manual latino-americano de educação ambiental. São Paulo: Editora Gaia, 1995. Resolução 1. Você deverá ter feito um banco de dados correlacionando as informações com os mapas. Assim, será possível analisar os principais recursos hídricos de sua região e verificar seus principais impactos ambientais, como urbanização, crise hídrica, con- taminação de mananciais de abastecimento público etc. Reduzindo possíveis impactos ambientais3 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo64 2. Após ter elaborado o banco de dados com os principais impactos ambientais e as técnicas e os métodos de redução, você poderá verificar os métodos e as técnicas utilizados em suas região, organizando-os em uma listagem. 3. Após analisar o banco de dados, você pode acrescentar uma coluna relacionando as ações de educação ambiental desenvolvidas para a redução dos impactos. Caso não ocorra nenhuma ação, em uma nova coluna você poderá sugerir projetos e ações de educação. Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 65 4 Tecnologias para recuperação da qualidade de águas contaminadas ou poluídas De maneira geral, a definição de tratamento de água está associada a uma sequên- cia de operações que conjuntamente consistem em melhorar suas características orga- nolépticas, físicas, químicas e bacteriológicas, a fim de que se torne adequada ao con- sumo humano. Nem toda água requer tratamento para abastecimento público, isto porque depende da sua qualidade em comparação aos padrões de consumo e também da aceitação dos usuários. Normalmente as águas de superfície presentes nos rios enas represas são as que mais necessitam de tratamento, porque se apresentam com qualidades físicas e bacteriológicas impróprias pela sua exposição contínua à contami- nação por poluentes. Nesta aula daremos destaque às principais tecnologias para a recuperação da qua- lidade das águas contaminadas e poluídas, focando as metodologias de tratamentos físicos, químicos e biológicos. Tecnologias para recuperação da qualidade de águas contaminadas ou poluídas4 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo66 4.1 Metodologias de tratamentos físicos O tratamento físico da água é considerado preliminar, tendo como procedimento con- vencional as detecções de turbidez, cor e pH. A turbidez ou turvação da água é ocasionada pela presença de argilas, matéria orgânica e micro-organismos mono e policelulares oriun- dos de processos naturais e antrópicos. A cor se deve à presença de tanino, oriundo dos vegetais e, em geral, varia de incolor até o castanho intenso. A etapa seguinte consiste em dosar as operações de floculação, decantação e filtração tendo como base os resultados dos parâmetros de turbidez, cor e pH. 4.1.1 Grades e crivos As águas que chegam até as estações de tratamento de água (ETA), provenientes de rios e represas, têm inúmeras impurezas para sua qualidade como resíduos sólidos (garrafas, plásticos, lixo em geral). A primeira filtragem então se dá pelo impedimento da entrada de suspensões grosseiras na ETA por grades e crivos que são barreiras físicas de ferro locadas na entrada de água para a estação. Essas estruturas devem sempre estar em manutenção, pois a quantidade de resíduos indesejáveis é bastante volumosa. Figura 1 – Detalhe ilustrativo de grade de contenção. Fonte: OLIVEIRA, 2014. Adaptado. Portanto, nessa etapa ocorre a remoção de sólidos grosseiros, em que o material de dimensões maiores do que o espaçamento entre as barras é retido. Há grades grossas, cujos espaços podem variar de 5,0 a 10,0 cm, grades médias com espaços entre 2,0 a 4,0 cm e gra- des finas com espaços entre 1,0 e 2,0 cm. As principais finalidades do gradeamento são: • proteção dos dispositivos de transporte dos efluentes (bombas e tubulações); • proteção das unidades de tratamento subsequentes; • proteção dos corpos receptores. Tecnologias para recuperação da qualidade de águas contaminadas ou poluídas Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 4 67 4.1.2 Desarenação A desarenação tem como objetivo remover a areia que é muito presente nos corpos de água naturais por sedimentação. Esse mecanismo ocorre separando a areia, que tem grãos com maiores dimensões e densidade e que vão por gravidade para o fundo do tanque, da matéria orgânica, que tem sedimentação bem mais lenta permanecendo em suspensão, se- guindo para as unidades seguintes do tratamento de água. • Sedimentação simples: como a água tem grande poder de dissolver e de carrear substâncias, esse poder aumenta ou diminui com a velocidade da água em mo- vimento. Quanto menor a velocidade de escoamento da água, menor seu poder de carreamento e assim as substâncias mais grosseiras sedimentáveis e partículas mais pesadas tendem a se depositar no fundo do canal. O material sólido ao se depositar arrasta consigo micro-organismos presentes na água, melhorando sua qualidade. Artificialmente obtém-se a sedimentação, fazendo passar ou detendo a água em reservatórios, reduzindo sua velocidade de escoamento. Quando a água for captada em pequenas fontes superficiais, deve-se ter uma caixa de areia antes da tomada. A função dessa caixa é decantar a areia, protegendo a tubulação, as bombas etc. contra o desgaste excessivo que seria promovido por efeitos abra- sivos. O próprio manancial de captação pode funcionar naturalmente como um grande reservatório de sedimentação simples, como no caso de barragens que, no tempo de chuvas, apresentam-se com um grau de turbidez bem superior ao registrado durante a estiagem. A sedimentação simples, desde a simples caixa de areia até um tanque de decantação, como processo preliminar, é muito utilizada nos casos de emprego de filtros lentos. Figura 2 – Ilustração de processo simples de sedimentação. Água bruta Próximas fases do tratamento Aeração Decantação Processo de filtragem Fonte: Elaborada pelo autor. As finalidades básicas da remoção de areia são: • evitar abrasão nos equipamentos e tubulações; • eliminar ou reduzir a possibilidade de obstrução em tubulações, tanques, orifí- cios, sifões; • facilitar o transporte do líquido, principalmente a transferência de lodo, em suas diversas fases. Tecnologias para recuperação da qualidade de águas contaminadas ou poluídas4 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo68 4.1.3 Aeração A oxidação da matéria orgânica presente na água bruta que chega à ETA tem gases dis- solvidos, gerando odor e sabor à água. Nesse caso, é necessária a ativação dos processos ae- róbicos de oxidação nos quais se emprega a introdução de ar no meio aquoso oxigenando o líquido. Esse procedimento é denominado de aeração, é mais rápido e produz gases inodoros. No caso de águas retiradas de poços, fontes ou de pontos profundos de grandes repre- sas, estas podem conter ferro e outros elementos dissolvidos, ou ainda ter perdido o oxigê- nio em contato com as camadas que atravessaram e em consequência ter, por exemplo, um gosto desagradável. Assim, embora não seja prejudicial à saúde do consumidor, torna-se necessário arejá-las para melhorar sua condição de potabilidade. Em águas superficiais, a aeração é também usada para a melhoria da qualidade bio- lógica da água e como parte preliminar de tratamentos mais completos. Para as pequenas instalações, a aeração pode ser feita na entrada do próprio reservatório de água, bastando que este seja bem ventilado e que essa entrada seja em queda livre. 4.1.4 Métodos de aeração Nos aeradores mais simples, a água sai de uma fonte no topo, que pode ser constituída por um conjunto de bandejas, sobrepostas, espaçadas e fixadas na vertical por um eixo, ou um tabuleiro de vigas arrumadas em camadas transversais às vizinhas. A água cai atraves- sando os degraus sucessivamente sobre um efeito de cascata, o que permite a entrada de ar oxigenado em seu meio, até ser recolhida na parte inferior da estrutura. As bandejas ou tabuleiros ainda podem conter cascalho ou pedra britada. Figura 3 – Ilustração de aeração da água para o seu tratamento. Fonte: ymgerman/Shutterstock. Tecnologias para recuperação da qualidade de águas contaminadas ou poluídas Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 4 69 4.2 Metodologias de tratamentos químicos A etapa do tratamento de água na ETA em que se inserem componentes químicos con- siste em dosar as operações de floculação, decantação e filtração tendo como base os resul- tados dos parâmetros de turbidez, cor e pH. Nessa etapa procedem-se a equalização e neutralização da carga do efluente com um tanque de equalização e adição de produtos químicos. Seguidamente, ocorre a separação de partículas líquidas ou sólidas por meio de processos de floculação e sedimentação, utilizan- do floculadores e decantador (sedimentador) primário. Como na ETA a água chega de forma bruta, em geral o primeiro produto químico colo- cado na água é o coagulante, assim chamado em virtude de sua função. No Brasil comumen- te emprega-se o sulfato de alumínio líquido ou liquefeito com água. A função do sulfato de alumínio é justamente agregar as partículas coloidais, aquele material que está dissolvido na água, ou seja, a sujeira, iniciando um processo chamado de coagulação-floculação. 4.2.1 Floculação Na floculação, em seguida, ocorre um fenômeno complexo, que consiste essencialmente em agregar em conjuntos maiores, chamados flocos, as partículas coloidais que não são ca- pazes de se sedimentarem espontaneamente. Para isto, na floculação, a água é submetida à agitação mecânica para possibilitar que os flocos se agreguem com os sólidos em suspensão,permitindo assim uma decantação mais rápida. Essa agregação, que diminui a cor e a turbi- dez da água, é provocada pela atração de hidróxidos, provenientes dos sulfatos de alumínio e ferro II, por íons cloreto e sulfatos existentes na água. Não há uma regra geral para prever o melhor floculante. O que se faz normalmente é averiguar, por meio de ensaios de laboratório, se determinado floculante satisfaz às exigên- cias previstas. O floculante mais largamente empregado é o sulfato de alumínio, de aplica- ção restrita à faixa de pH situada entre 5,5 e 8,0. Quando o pH da água não se encontra nessa faixa, costuma-se adicionar cal ou aluminato de sódio, a fim de elevar o pH, permitindo a formação dos flóculos de hidróxido de alumínio. O aluminato de sódio, empregado junta- mente com o sulfato de alumínio, tem faixa de aplicação restrita a pHs elevados, em que se salienta, em certos casos, a remoção do íon magnésio. Removidas a cor e a turbidez pelas operações de floculação, decantação e filtração, faz- -se uma cloração. Nessa operação, o cloro tem função bactericida e clarificante, podendo ser utilizado sob várias formas: cloro gasoso, hipoclorito de cálcio (35 a 70% de cloro), hipoclo- rito de sódio (10% de cloro) e monóxido de dicloro ou anidrido hipocloroso. 4.2.2 Coagulação A coagulação geralmente realizada por sais de alumínio e de ferro resulta de dois fe- nômenos essencialmente químicos. Consiste nas reações do coagulante com a água e na Tecnologias para recuperação da qualidade de águas contaminadas ou poluídas4 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo70 formação de espécies hidrolisadas com carga positiva, que depende da concentração do metal e pH final da mistura. O fenômeno físico que ocorre é o transporte das espécies hidro- lisadas para que haja contato entre as impurezas presentes na água. A coagulação depende fundamentalmente das características da água e das impurezas presentes, conhecidas por meio de parâmetros como pH, alcalinidade, cor, turbidez, tempe- ratura, condutividade elétrica, tamanho e distribuição do tamanho das partículas em estado coloidal e em suspensão. Figura 4 – Ilustração de processo de coagulação. Coagulante adicionado Impurezas Coagulantes formam precipitados Coagulantes e impure- zas se precipitam Fonte: NaturalTec (2016). Segundo Fogaça (2016), é necessário acrescentar à água coagulantes químicos para o seu tratamento, e comumente no Brasil é utilizado o sulfato de alumínio (Al2(SO4)3) pela sua eficiência no custo/benefício. No entanto, existem outros elementos químicos que tam- bém podem ser utilizados com essa mesma função, como os sais de ferro ou mesmo os polímeros orgânicos. Esses coagulantes têm como características serem insolúveis na água e gerar íons positivos (cátions) que atraem as impurezas carregadas negativamente nas águas. A representação química desse processo utilizando o sulfato de alumínio gera os se- guintes íons na água: Al2(SO4)3 → 2 Al3+ + 3 SO42– Uma menor parte dos cátions Al3+ neutraliza as cargas negativas das impurezas pre- sentes na água, e a maior parte deles interage com os íons hidroxila (OH–) da água, forman- do o hidróxido de alumínio: Al2(SO4)3 + 6 H2O → 2 Al(OH)3 +6 H+ + 3 SO42– Esse hidróxido de alumínio é um coloide carregado positivamente que neutraliza as im- purezas coloidais carregadas negativamente que estiverem na água. O excesso de H+ torna o meio ácido e pode impedir a formação do hidróxido de alumínio. Por isso, com o coagulante é adicionado à água também algum composto que aumente o pH (a alcalinidade) do meio, tais como as bases hidróxido de cálcio (Ca(OH)2) e hidróxido de sódio (NaOH), ou um sal de caráter básico, como o carbonato de sódio (Na2CO3), conhecido como barrilha. Como resultado final desse processo, as partículas poluidoras desestabilizam-se e so- frem uma aglutinação, o que facilita a sua deposição ou aglomeração em flóculos que po- dem ser mais facilmente removidos do processo de tratamento de água. Tecnologias para recuperação da qualidade de águas contaminadas ou poluídas Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 4 71 4.2.3 Benefícios da coagulação O processo de coagulação também é muito comumente empregado em operações de tratamento de água em indústrias como curtumes, indústria têxtil e indústria de celulose e papel nas quais se emprega o processo físico-químico para retirar poluentes inorgânicos, materiais insolúveis, metais pesados, material orgânico não biodegradável, sólidos em sus- pensão e cor. Para o tratamento da água para consumo humano a coagulação é responsável por tratar poluentes como o fósforo orgânico solúvel, nitrogênio, matéria orgânica (DBO), DQO, bactéria e vírus, sólidos em suspensão, sólidos coloidais e soluções que contribuam para turbidez. Figura 5 – Ilustração da purificação da água pelo processo de coagulação. Fonte: Konstantin Chagin/Shutterstock. 4.2.4 Fluoretação A fluoretação é realizada visando proporcionar uma medida segura e econômica de au- xiliar na prevenção da cárie infantil. Nas ETAs e nos poços artesianos é utilizado o flúor sob a forma de ácido fluossilícico. As dosagens de cloro e flúor utilizados para o tratamento da água seguem as normas convencionais dos padrões de potabilidade definidos pela Portaria do Ministério da Saúde 2.914/2011. Segundo a Fundação Nacional da Saúde (2012), a fluoretação da água para consumo humano deve ser uma medida preventiva com o objetivo da redução da cárie dental entre 50% e 65% em populações sob exposição contínua desde o nascimento, por um período de aproximadamente dez anos de ingestão da dose ótima. Os compostos de flúor comumente utilizados são: fluoreto de cálcio ou fluorita (CaF2); fluossilicato de sódio (Na2SiF6); fluoreto de sódio (NaF); ácido fluossilícico (H2SiF6). 4.2.5 Cloração A desinfecção é uma das etapas mais importantes no tratamento de uma água potável, visto que permite a eliminação de micro-organismos nocivos à saúde, que podem transmitir Tecnologias para recuperação da qualidade de águas contaminadas ou poluídas4 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo72 as mais variadas doenças. A cloração/desinfecção é realizada utilizando-se de algum produ- to à base de cloro. De acordo com a Fundação Nacional da Saúde (2014), os principais produtos da família do cloro disponíveis no mercado para realizar a desinfecção da água são: • cloro gasoso; • cal clorada; • hipoclorito de sódio; • hipoclorito de cálcio. A concentração de aplicação do cloro deve seguir os teores permitidos para consumo humano, conforme estabelecido no Anexo VII da portaria de potabilidade (Portaria 2.914, de 12 de dezembro de 2011, do Ministério da Saúde). 4.3 Metodologias de tratamentos biológicos O tratamento biológico que é utilizado no tratamento da água para consumo humano tem como objetivo degradar a matéria orgânica dos efluentes, por meio de ação de agentes biológicos, como bactérias e protozoários, e pode ocorrer na forma aeróbia, com utilização de oxigênio, e anaeróbia, sem a presença de oxigênio. O tratamento biológico é a forma mais eficiente de remoção da matéria orgânica dos esgotos, pois o próprio esgoto contém grande variedade de bactérias e protozoários para compor as culturas microbiais mistas que processam os poluentes orgânicos. O uso desse processo requer o controle da vazão, a recirculação dos micro-organismos decantados, o fornecimento de oxigênio e outros fatores. Os fatores que mais afetam o crescimento das culturas são a temperatura, a disponibilidade de nutrientes, o fornecimento de oxigênio, o pH, a presença de elementos tóxicos e a insolação. Havendo oxigênio livre (dissolvido), são as bactérias aeróbias que promovem a decomposição. Na ausência do oxigênio, a decom- posição se dá pela ação das bactérias anaeróbias. A decomposição aeróbia diferencia-se da anaeróbia pelo seu tempo de processamento e pelos produtos resultantes. Em condições naturais, a decomposição aeróbianaturais que sustentam a saúde humana, a produção alimentar e a biodiversidade. […] A maioria da água doce poluída acaba nos oceanos, prejudicando áreas costeiras e a pesca. […] A água é um bem natural de alto valor agregado e de interesse difuso com ordenamento jurídico bem extenso no Brasil, como na esfera federal pelo Decreto 24.643/34, que estipulou o Código de Águas; a Lei 9.433/97, conhecida como Lei das Águas, e a Lei 9.984/2000, que criou a Agência Nacional de Águas, sem olvidar da Carta Magna Federal de 1981, esses são os diplomas legais sobre a temática. Os diferentes processos físicos aquáticos podem ser influenciados pela poluição am- biental por meio do aporte de substâncias nos mananciais e têm origem em várias fontes, como efluentes domésticos e industriais e escoamentos superficial urbano e agrícola. Cada uma dessas fontes apresenta características próprias quanto aos poluentes que transportam, como: contaminantes orgânicos, nutrientes (que podem causar eutrofização dos ambientes lóticos e lênticos) e bactérias. Mesmo separando os poluentes em grupos, a diversidade das indústrias existentes au- menta, ainda mais, a variabilidade dos contaminantes aportados nos corpos de água, tor- nando-se praticamente impossível a determinação sistemática de todos os poluentes que possam estar presentes nas águas superficiais, em tempo relativamente curto. Parâmetros físicos, químicos e biológicos Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 1 11 Existem parâmetros de qualidade de água, levando em conta os poluentes mais repre- sentativos que são: físicos, químicos, microbiológicos e bioensaios ecotoxicológicos. Nesta aula daremos enfoque aos parâmetros físicos que também são indicadores de qualidade das águas. No Brasil, a resolução Conama 357, de 17 de março de 2005, dispõe sobre a classificação dos corpos de água e diretrizes ambientais para o seu enquadramento, bem como estabelece as condições e os padrões de lançamento de efluentes, além de dar outras providências e ser utilizada para o monitoramento e fiscalização ambiental. A seguir, apresentamos os principais parâmetros físicos da água. • Turbidez: A turbidez da água é determinada por diversos materiais em suspensão, de tama- nho e natureza variados, tais como areia, matéria orgânica e inorgânica, compostos corados solúveis, plâncton e outros organismos microscópicos (BRASIL, 2006). • Cor: A cor da água é proveniente da matéria orgânica como, por exemplo, substâncias hú- micas, taninos e também por metais como o ferro e o manganês e resíduos industriais forte- mente coloridos (BRASIL, 2006). • Temperatura: A variação da temperatura tem incidência sobre distintos parâmetros físicos e químicos que, por sua vez, podem afetar a qualidade das águas de irrigação. Os fatores que se deve ter em conta são oriundos dos sistemas de irrigação, das condições de cultivo e da variação de temperatura diária e das estações (ALMEIDA, 2010). • Condutividade elétrica: A condutividade específica de uma água é a amplitude dela para transmitir uma corrente elétrica. Para medir a condutividade, faz-se uso de uma ponte de wheatstone (condutivímetro digital com sonda de temperatura) e uma cédula de condutivi- dade apropriada (ALMEIDA, 2010). 1.1.2 Solo De acordo com Gomes (2016), a qualidade do solo é tão importante quanto as qualida- des do ar e da água no estudo de indicadores da qualidade global dos ambientes e ecossis- temas. A qualidade do solo está ligada diretamente aos efeitos na saúde e na produtividade de determinado ecossistema e nos ambientes a ele relacionados. Gomes (2016) ainda aponta que a melhor eficiência e indicadores que sejam apropria- dos para avaliar a qualidade do solo dependem da conjuntura e análise dos componentes múltiplos que determinam a sua capacidade em desempenhar suas funções, como a produ- tividade e o equilíbrio ambiental. Neste capítulo daremos foco aos parâmetros físicos que são comumente analisados e que estão relacionados ao arranjamento das partículas e do espaço poroso do solo, incluin- do densidade, porosidade, estabilidade de agregados, textura, encrostamento superficial, compactação, condutividade hidráulica e capacidade de armazenagem de água disponível. O solo é composto fisicamente por estruturas complexas e variáveis resultantes da inte- ração e mistura não homogênea dos seus componentes. É formado por um conjunto de três Parâmetros físicos, químicos e biológicos1 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo12 frações, sendo a física que são os sólidos, os líquidos que é a solução do solo e os gases que são compostos pelo ar presente nos poros do solo (LIER, 2015). Os principais parâmetros físicos do solo são: • Textura: é um termo empregado para designar a proporção relativa das frações argila, silte ou areia no solo. Estes se diferenciam entre si pelo tamanho de suas partículas (granulometria). • Densidade global: relaciona a massa do solo seco por unidade de volume. A densidade global é variável, manifestando a influência da compactação, estrutura, adensamentos e textura. • Porosidade: representa a porção do solo em volume, não ocupada por sólidos. • Estabilidade de agregados: a agregação resulta das forças de aproximação e cimentação de partículas orgânicas e minerais no solo. A união de agregados menores formam os macroa- gregados (> 0,25 mm) do solo. Nos solos tropicais a cimentação é resultante principalmente da matéria orgânica e da ação e do metabolismo de organismos vivos sobre essa matéria orgânica gerando substâncias agregantes. Também tem papel relevante a secreção de com- postos orgânicos pelas raízes e a presença de elementos químicos minerais como cálcio, magnésio, entre outros (HERNANI, 2016). • Encrostamento: é o processo de desagregação do solo pela água da chuva reduzindo os poros que absorvem a água. Desse modo, com menos poros para absorver água, há uma diminuição da velocidade de infiltração de água no solo, estando esta mais sujeita a correr na superfície do solo em um processo denominado escoamento superficial. Esse processo é chamado de erosão por salpico, e a redução da infiltração em virtude da obstrução de poros da superfície do solo é conhecida como selamento superficial devido à formação de crostas superficiais. • Compactação: processo de aumento da densidade do solo no qual ocorre aumento de sua resistência, redução da porosidade, redução da permeabilidade, redução da disponibilidade de nutrientes e água. 1.2 Parâmetros químicos da água e do solo 1.2.1 Água No Brasil, os parâmetros químicos da água no que compete a sua qualidade para o consumo humano são determinados pelo Ministério da Saúde pela Portaria MS 2.914, de 12 de dezembro 2011. Essa portaria traz algumas definições que são importantes na análise de parâmetros de qualidade química de água. I – água para consumo humano: água potável destinada à ingestão, preparação e produção de alimentos e à higiene pessoal, independentemente da sua origem; II – água potável: água que atenda ao padrão de potabilidade estabelecido nesta Portaria e que não ofereça riscos à saúde; Parâmetros físicos, químicos e biológicos Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 1 13 III – padrão de potabilidade: conjunto de valores permitidos como parâmetro da qualidade da água para consumo humano, conforme definido nesta Portaria; IV – padrão organoléptico: conjunto de parâmetros caracterizados por provocar estímulos sensoriais que afetam a aceitação para consumo humano, mas que não necessariamente implicam risco à saúde; V – água tratada: água submetida a processos físicos, químicos ou combinação destes, visando atender ao padrão de potabilidade. Os indicadores de qualidade química que são analisados como referência para a qualidade de água são potencial hidrogeniônico (pH), alcalinidade, dureza, cloretos, ferro, manganês, ni- trogênio, fósforo, fluoretos, oxigênio dissolvido (OD), matéria orgânica (demanda bioquímica de oxigênio:necessita três vezes menos tempo que a anaeróbia e dela resultam gás carbônico, água, nitratos e sulfatos, substâncias inofensivas e úteis à vida vegetal. O resultado da decomposição anaeróbia é a geração de gases como o sulfídrico, metano, nitrogênio, amoníaco e outros que geralmente são gases malcheirosos (COSTA, 2008). A decomposição do esgoto é um processo que demanda vários dias, iniciando-se com uma contagem elevada de demanda biológica de oxigênio, que vai decrescendo e atinge seu valor mínimo ao completar-se a estabilização. A determinação da demanda biológica de oxigênio é importante para indicar o teor de matéria orgânica biodegradável e definir o grau de poluição que o esgoto pode causar ou a quantidade de oxigênio necessária para submeter o esgoto a um tratamento aeróbio. Tecnologias para recuperação da qualidade de águas contaminadas ou poluídas Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 4 73 4.3.1 Processo anaeróbio De uma forma simplificada, o processo anaeróbio ocorre em quatro etapas. Na primei- ra etapa, a matéria orgânica complexa é transformada em compostos mais simples como ácidos graxos, aminoácidos e açúcares, pela ação dos micro-organismos hidrolíticos. Na segunda etapa, as bactérias acidogênicas transformam os ácidos e açúcares em compostos mais simples como ácidos graxos de cadeia curta, ácido acético, H2 e CO2. Na terceira etapa, esses produtos são transformados principalmente em ácido acético, H2 e CO2, pela ação das bactérias acetogênicas. Por fim, na última etapa, os micro-organismos metanogênicos transformam esses substratos em CH4 e CO2. A digestão anaeróbia é um processo fermentativo que tem como finalidade a remoção de matéria orgânica, a formação de biogás e a produção de biofertilizantes mais ricos em nutrientes, portanto é uma alternativa atraente para alguns casos de esgoto industrial e es- goto sanitário. Uma das dificuldades encontradas inicialmente era o desconhecimento dos fatores que influenciavam a digestão anaeróbia. A dificuldade atual a ser superada na aplicação da digestão anaeróbia para a estabili- zação de águas residuárias é alcançar a alta retenção da biomassa ativa no reator anaeróbio, usando-se meios simples e baratos. Como um método de tratamento de águas residuárias, a digestão anaeróbia oferece um número de vantagens significantes sobre os sistemas de tratamentos aeróbios convencionais disponíveis atualmente. Vantagens • baixa produção de lodo biológico; • dispensa energia para aeração; • há produção de metano; • há pequena necessidade de nutrientes; • o lodo pode ser preservado ativo durante meses sem alimentação; • o processo pode trabalhar com altas e baixas taxas orgânicas. Desvantagens • nem sempre atende à legislação; • a partida dos reatores pode ser lenta devido às bactérias metanogênicas; • falta de tradição em sua aplicação. 4.3.2 Tipos de biodigestores anaeróbios Biodigestores convencionais: são reatores anaeróbios que normalmente recebem o lodo de decantadores primários e secundários. São sistemas destinados ao tratamento da fase sólida, com as finalidades de eliminação de maus odores e transformação do material em um lodo menos instável e com menor teor de umidade, de destruir ou reduzir a níveis pre- viamente estabelecidos os micro-organismos patogênicos, estabilizar total ou parcialmente as substâncias instáveis e a matéria orgânica presente nos lodos frescos, reduzir o volume Tecnologias para recuperação da qualidade de águas contaminadas ou poluídas4 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo74 de lodo por meio de fenômenos de liquefação, gaseificação e adensamento e permitir o uso do lodo, quando este estiver estabilizado convenientemente, como fonte de húmus ou con- dicionador de solo para fins agrícolas. Fossas sépticas: são unidades de escoamento horizontal e contínua, que realizam a se- paração de sólidos, decompondo-os anaerobiamente. A fossa séptica não é um simples de- cantador e digestor, mas é uma unidade que realiza simultaneamente várias funções, como decantação e digestão de sólidos em suspensão, que formará o lodo que se acumulará na parte inferior, ocorrerá a flotação e uma retenção de materiais mais leves e flotáveis como óleos e graxas que formarão uma escuma na parte superior. Os micro-organismos existentes serão anaeróbios e ocorrerá a digestão do lodo com produção de gases. Tanques Imhoff: têm as finalidades idênticas às unidades de tratamento primário, ou seja, decantação ou digestão de sólidos. Funcionam como se fossem unidades separadas. Apresentam grandes vantagens em relação às fossas sépticas devido à ausência de partí- culas de lodo no efluente, a não ser em operações anormais. O efluente líquido apresenta geralmente eficiência variando com as seguinte reduções: sólidos suspensos (50-70%), remo- ção de DBO (30-50%). Têm como principais problemas uma grande quantidade de sólidos flutuantes e acumulação de espuma. Reator de contato anaeróbio: tem semelhanças com lodos ativados, só que os micro-or- ganismos são anaeróbios, há mistura, aquecimento e tanque de equalização, seu tempo de detenção é de 24 horas, com reciclo o tempo de detenção hidráulico é menor que o tempo de retenção celular e tem alta qualidade depuradora. Filtro anaeróbio: tem como principais características seu fluxo ser ascendente, não ter mistura, pode haver aquecimento, tempo de detenção hidráulico costuma ser próximo de 24 horas. Reator Anaeróbio de Manta de Lodo (UASB): é uma unidade de fluxo ascendente que possibilita o transporte das águas residuárias por meio de uma região que apresenta elevada concentração de micro-organismos anaeróbios. O reator deve ter seu afluente criteriosamente distribuído junto ao fundo, de maneira que ocorra o contato adequado entre os micro-organis- mos e o substrato. O reator oferece condições para que grande quantidade de lodo biológico fique retida no interior em decorrência das características hidráulicas do escoamento e tam- bém da natureza desse material que apresenta boas características de sedimentação, tendo como consequência os fatores físicos e bioquímicos que estimulam a floculação e a granulação. 4.3.3 Processo aeróbio No tratamento biológico aeróbio, os micro-organismos, mediante processos oxidativos, degradam as substâncias orgânicas, que são assimiladas como “alimento” e fonte de ener- gia. Dentre os processos aeróbios, o processo de lodo ativado é um dos mais aplicados e também de maior eficiência. O termo lodo ativado designa a massa microbiana floculenta que se forma quando esgotos e outros efluentes biodegradáveis são submetidos à aeração (COSTA, 2008). Tecnologias para recuperação da qualidade de águas contaminadas ou poluídas Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 4 75 No tanque de aeração, ocorrem as reações que conduzem a metabolização dos com- postos biotransformáveis. É essencial que se tenha boa mistura e aeração. No decantador secundário, ocorre a separação do lodo, que é a biomassa proveniente do tanque de aeração. 4.3.4 Fatores que influenciam o tratamento biológico por lodos ativados Segundo Costa (2008), os fatores que influenciam o tratamento biológico por lodos ati- vados são: • pH – O valor do pH deverá estar entre 6,0-8,0. Para valores entre 3,0-5,0, have- rá formação de fungos e má sedimentação de lodo. Já no caso de valores entre 8,0-10,0, a transparência da água será comprometida, com lodo de aparência amarelo-marrom. • Temperatura – A temperatura adequada para o tratamento varia entre 20° e 30°C. • Oxigênio Dissolvido (OD) – Controlar entre 1 e 4 ppm. • Nutrientes – Para que o tratamento de efluentes seja eficiente, como regra geral a relação mássica entre os nutrientes deve obedecer à relação: DBO(C) : N : P : = 100 : 5 : 1 Ou seja, para cada 100 g de matéria orgânica (DBO) presente no efluente, são necessá- rios 5 g de nitrogênio (N) e 1 g de fósforo (P). A falta de nutrientes N/P ocasionará a formação de flocosdispersos e crescimento de bactérias filamentosas, o que prejudicará a eficiência do tratamento do efluente. Assim, a adição de nutrientes (produtos à base P e/ou N) pode ser necessária para garantir a perfor- mance do processo de tratamento biológico. Ampliando seus conhecimentos Poluição das águas urbanas (AG SOLVE, 2010) Esgotos domésticos e efluentes industriais são considerados os principais contaminantes das águas superficiais, especial- mente em áreas urbanas. Tecnologias contribuem no moni- toramento e avaliação dos elementos químicos na água Há milhões de anos a água do planeta sofre constantes transformações, se renova e é reutilizada. Uma das principais transformações que a água sofreu no último século é a crescente contaminação, problema que afeta especialmente zonas litorâneas e grandes cidades. Entre os principais Tecnologias para recuperação da qualidade de águas contaminadas ou poluídas4 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo76 fatores que colaboram para a poluição da água estão: lançamento de esgo- tos domésticos e efluentes industriais nos corpos hídricos, urbanização desenfreada, atividades agrícolas e de mineração, poluentes presentes na atmosfera carregados pela chuva, mudanças climáticas, entre outros fato- res que colocam em risco a existência de água para consumo na Terra. O artigo 3º da Declaração Universal pelos Direitos da Água recomenda: “Os recursos naturais de transformação da água em água potável são lentos, frágeis e muito limitados. Assim sendo, a água deve ser manipu- lada com racionalidade, precaução e parcimônia”, porém, a preservação dos recursos hídricos no planeta está comprometida. Segundo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado no último dia 12 de março, durante o 6º Fórum Mundial da Água, 80% das águas residu- ais não são recolhidas ou tratadas e são depositadas com outras massas de água ou infiltradas no subsolo, resultando em problemas de saúde à população, além de danos ao meio ambiente. No Brasil os rios mais poluídos se encontram em áreas urbanas. Segundo Ney Maranhão, superintendente de Planejamento de Recursos Hídricos da Agência Nacional de Águas (ANA), “de acordo com o Censo 2010 (IBGE, 2010), a população urbana do País é de cerca de 161 milhões de pessoas, correspondente a 84,4% da população total. Este alto nível de urbanização causa um impacto significativo nos rios que atravessam as cidades, pois somente 42,6% dos esgotos domésticos são coletados e ape- nas 30,5% recebe algum tratamento (Atlas Brasil, 2010)”. Recuperar a qualidade das águas urbanas é possível? De acordo com Nelson Menegon, Gerente da Divisão de Águas e Solos da Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental (CETESB), a melhor ação quanto à recuperação da qualidade das águas ainda é a de prevenção e o cuidado para que poluentes não sejam lançados no ambiente sem o tratamento adequado. “Existe uma série de tecnologias disponíveis para tratar a água a ser lançada num corpo hídrico. A tecnologia adequada para o tratamento deve ser selecionada e dimensionada com base no tipo de contaminação do efluente líquido e o nível de tratamento que se quer atingir. Por outro lado, a recuperação de um rio ou lago já contaminado é muito dispendiosa e demorada”, afirma Menegon. Através da tecnologia, é possível monitorar a qualidade da água, medindo os parâmetros e os elementos químicos presentes, como nitrato, amô- nia, fósforo, nitrogênio, etc – explica Mauro Banderali, especialista em Tecnologias para recuperação da qualidade de águas contaminadas ou poluídas Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 4 77 instrumentação ambiental. “Por meio deles, é possível avaliar qual trata- mento deve ser aplicado para que a água tenha a potabilidade necessária para preservar a saúde da população.” Atividades 1. Faça uma visita a uma estação de tratamento de água e pesquise/verifique com o técnico responsável as metodologias utilizadas para o tratamento físico e con- fronte as informações com as metodologias apresentadas neste capítulo. 2. Faça uma visita a uma estação de tratamento de água e pesquise/verifique com o téc- nico responsável as metodologias utilizadas para o tratamento químico e confronte as informações com as metodologias apresentadas neste capitulo. 3. Faça uma visita a uma estação de tratamento de água e pesquise/verifique com o téc- nico responsável as metodologias utilizadas para o tratamento biológico e confronte as informações com as metodologias apresentadas neste capítulo. Referências AG SOLVE. Poluição das águas urbanas. Set. 2012. Disponível em: . Acesso em: mar. 2017. ÁVILLA. Fabiano. Ciência de foguetes para o tratamento da água, 2010. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. BRASIL. Decreto n. 76.872, de 22 de dezembro de 1975. Regulamenta a Lei n. 6.050, de 24 de maio de 1974, que dispõe sobre a fluoretação da água em sistemas públicos de abastecimento. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 23 dez. 1975ª. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria do Ministério da Saúde n. 2.914, de 12 de dezembro de 2011. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. COSTA. Andréia Fernanda de Santana. Aplicação de tratamento biológicos e físico-químicos em efluentes de lavanderia e tinturaria industriais do município de Toritama/PE. Dissertação de mes- trado do programa de pós-graduação em desenvolvimento de Processos Ambientais da Universidade Católica de Pernambuco, 2008. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. FOGAÇA, Jennifer Rocha Vargas. Coagulação e Floculação. Brasil Escola. Disponível em: . Acesso em: 28 mar. 2016. FUNDAÇÃO NACIONAL DA SAÚDE – FUNASA. Manual de cloração de água em pequenas comu- nidades. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. Tecnologias para recuperação da qualidade de águas contaminadas ou poluídas4 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo78 FUNDAÇÃO NACIONAL DA SAÚDE – FUNASA. Manual de fluoretação da água para consumo humano, 2012. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. NATURALTEC. Tratamento de água e meio ambiente. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. OLIVEIRA, Robson Alves. Noções básicas sobre tratamento de efluentes. Departamento de Engenharia Ambiental. Fundação Universidade Federal de Rondônia. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. Resolução 1. Após ter feito a visita, você deverá descrever e organizar as informações na forma de texto, tabelas, fotos e esquemas relacionando as metodologias utilizadas para o tratamento físico da água e confrontando as informações com as metodologias apre- sentadas neste capítulo. 2. Após ter feito a visita, você deverá descrever e organizar as informações na forma de texto, tabelas, fotos e esquemas relacionando as metodologias utilizadas para o tratamento químico da água e confrontando as informações com as metodologias apresentadas neste capítulo. 3. Após ter feito a visita, você deverá descrever e organizar as informações na forma de texto, tabelas, fotos e esquemas relacionando as metodologias utilizadas para o tratamento biológico da água e confrontando as informações com as metodologias apresentadas neste capítulo. Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 79 5 Tecnologias voltadasà conservação do recurso A busca por tecnologias de recuperação e conservação da natureza surge em diver- sas regiões do planeta, e importantes avanços na recuperação dos recursos naturais têm sido apresentados. O Brasil tem tido posição de vanguarda em algumas áreas como a conservação de águas para o consumo humano e dos solos na produção agrícola, mesmo enfrentando tantos problemas de adesões de novas tecnologias pelas comunidades. Nesta aula daremos destaque às principais tecnologias para a conservação das águas, dos solos e alguns princípios adotados na Educação Ambiental para a conser- vação desses recursos naturais. Tecnologias voltadas à conservação do recurso5 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo80 5.1 Tecnologias para conservação da água A intensificação das atividades econômicas e a crescente urbanização acarretam o au- mento da demanda por recursos hídricos, tanto em quantidade como em qualidade, favo- recendo, assim, a deterioração dos mananciais de abastecimento de água. Os resultados desse cenário incluem problemas no abastecimento e escassez hídrica, sendo fundamental, portanto, a sensibilização da sociedade acerca da importância desse recurso natural e de seu uso racional. Nesse contexto, a busca por sistemas alternativos de gestão de água que con- tribuam com a sua conservação se mostra como uma solução para o cenário atual de estresse hídrico, em que a demanda de água supera a sua oferta em várias regiões do planeta. De acordo com Silva (2011, p. 6) a conservação de água pode ser compreendida como práticas, técnicas e tecno- logias que aperfeiçoam a eficiência do uso da água, podendo ainda ser definida como qualquer ação que: – reduz a quantidade de água extraída das fontes de suprimento; – reduz o consumo de água; – reduz o desperdício de água; – reduz as perdas de água; – aumenta a eficiência do uso da água; – aumenta a reciclagem e o reuso da água; – evita a poluição da água 5.1.1 Produção de água As ações voltadas para o uso racional e manejo dos recursos naturais, principalmente da água, do solo e da biodiversidade, visam a promover a sustentabilidade, seja ela local ou de grande abrangência geográfica, aumentando a segurança na oferta de alimentos, água para o consumo e sistemas produtivos e melhorando os níveis de emprego e renda tanto no meio rural como urbano. A adoção das microbacias hidrográficas para o planejamento, o monitoramento e a ava- liação do uso dos recursos naturais é o primeiro passo para projetos de conservação da água e do solo. O segundo passo é a organização e conscientização da comunidade como estraté- gia para promover a melhoria da qualidade de vida pelo uso de tecnologias adequadas sob o ponto de vista ambiental, econômico e social. As microbacias são unidades geográficas naturais, em que fatores ambientais, econô- micos e sociais se encontram assemelhados ou em condições homogêneas e, por isso, mais apropriadas para o estabelecimento de um plano unificado para o controle das interferên- cias das atividades humanas nos recursos naturais (LIMA, 2006). Para Balbinoti (2008) citando Silveira (1997), é necessário no estudo dos recursos hídri- cos o conhecimento do ciclo hidrológico da água, de seus componentes e das relações entre Tecnologias voltadas à conservação do recurso Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 5 81 eles. O ciclo hidrológico é o fenômeno global de circulação fechada da água entre a superfí- cie terrestre e a atmosfera, impulsionado fundamentalmente pela energia solar associada à gravidade e à rotação terrestre. Dessa forma, todos os acontecimentos no caminho da água devem ser observados e manejados de forma que melhorem o seu aproveitamento para as necessidades humanas. O manejo das bacias hidrográficas é umas das tecnologias mais avançadas na conser- vação da água. Dentre suas práticas e técnicas estão a conservação do solo, o planejamento e a conservação de estradas rurais, os programas de macrodrenagens em áreas urbanas e a recuperação de matas ciliares. • Conservação do solo: a conservação do solo nas bacias hidrográficas é caracteri- zada por intervenções físicas com a finalidade de conduzir e reduzir a velocidade das águas da chuva e fomentar que ela se infiltre no solo para alimentar os lençóis freáticos e aquíferos. Basicamente são as formações de curvas de nível e terracea- mentos nos cultivares agrícolas (GOMES, 2006). • Planejamento e conservação de estradas rurais: as estradas rurais tradicionalmen- te foram construídas sem planejamento e somente com o princípio da estrutura fundiária e das facilidades do terreno. Como consequências, elas se transformam em dias de chuvas em canais de escoamento de água gerando sérios processos erosivos degradando os próprios cultivares agrícolas, bem como assoreando as nascentes, os rios e os riachos. Portanto, a condução e redução da velocidade da água da chuva são novamente adotadas nessa técnica que tem como práticas o desnivelamento (retiram-se os cursos da estrada de barrancos e trincheiras) e a condução topográfica da água para as curvas de nível situadas nas áreas agricul- táveis (FATTORI, 2007). • Programas de macrodrenagens em áreas urbanas: os projetos de drenagem urbana têm como filosofia o escoamento da água precipitada o mais rápido possível para fora da área projetada. Para alterar essa tendência, as técnicas adotas no controle de enchentes consideram o seguinte: o aumento de vazão devido à urbanização não deve ser transferido para jusante; a bacia hidrográfica deve ser o domínio físico de avaliação dos impactos resultantes de novos empreendimentos; o hori- zonte de avaliação deve contemplar futuras ocupações urbanas; as áreas ribeiri- nhas somente poderão ser ocupadas dentro de um zoneamento que contemple as condições de enchentes; as medidas de controle devem ser preferencialmente não estruturais (PARANÁ, 2002). • Recuperação de matas ciliares: as matas ciliares funcionam como filtros, retendo sedimentos e poluentes das áreas agrícolas e urbanas adjacentes, pois os sedimen- tos e poluentes transportados por meio do escoamento superficial (enxurrada) são depositados na vegetação localizada nas margens dos rios, protegendo e conser- vando de forma efetiva a água. Na recuperação das matas ciliares, é necessário sa- ber, primeiramente, como eram essas matas, no local, antes de serem desmatadas ou degradadas. É importante nas ações de manejo garantir a volta dos processos Tecnologias voltadas à conservação do recurso5 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo82 ecológicos e das interações que fazem as florestas se estruturarem, se autoperpe- tuarem e cumprirem suas funções. Esses processos ecológicos são, por exemplo, a floração, a produção de frutos, a germinação de sementes e o desenvolvimento de plântulas no solo da floresta. É muito importante também a interação da mata com os animais (pássaros, morcegos, roedores, insetos, etc.) que garantem a poliniza- ção das flores, a dispersão de sementes. Portanto, é preciso conhecer que tipo de floresta nativa existia na área antes de ser degradada para saber quais espécies são adaptadas às condições de clima, solo e umidade do local (SOUZA, 2014). • Redução do consumo e reuso: a disponibilidade hídrica para o setor de sanea- mento tem se agravado por conta da deterioração da qualidade da água bruta dos mananciais, localizados nas regiões mais próximas dos centros urbanos consumi- dores. Com o desenvolvimento econômico das regiões metropolitanas e a conse- quente exploração dos recursos ambientais, a disponibilidade hídrica, em termos de quantidade e qualidade, dos rios, dos reservatórios, dos poços e dos demais mananciais, diminui ao longo do tempo. O desmatamento e a ocupação desor- denada nas regiões periurbanas afetam suas características hidrológicas, aumen- tando o escoamento superficial e diminuindo a infiltração da água no solo, com o consequente aumento das enchentes e a diminuição dasrecargas dos aquíferos. Por conta desses aspectos há o aumento da poluição da água dos mananciais mais próximos das cidades, o que onera, ainda mais, o seu tratamento nas ETAs das companhias de abastecimento urbano. Nesse contexto, inúmeras tecnologias de redução do consumo e reuso da água vêm sendo desenvolvidas em grandes obras como hospitais, prédios públicos e indústrias ou mesmo em residências ou pequenos empreendimentos. Assim sendo, uma das tecnologias que vamos dar destaque neste capítulo é a implanta- ção de um programa de conservação e reuso da água (PCRA). A implantação de um PCRA significa avaliar de forma sistêmica o uso da água, ou seja, otimizar o consumo de água, com a consequente redução do volume de efluentes gerados, e utilizar as fontes alternativas de água disponíveis, considerando os diferentes níveis de qualidade necessários, de acordo com um sistema de gestão apropriado. Sob a óptica do meio ambiente, implantar um programa de conservação e reuso de água contribui para a preservação dos recursos hídricos, favorecendo o “desenvolvimento sus- tentável”. Na questão social, provoca um aumento da disponibilidade hídrica à população por meio da redução das captações de água dos mananciais. E, ainda, no aspecto econômico, reduz os custos com insumos. O uso da água varia entre os diversos tipos de indústrias e atividades consumidoras, o que significa que o detalhamento do PCRA deve ser diferenciado caso a caso. Um PCRA se inicia com a implantação de ações para a otimização do consumo de água, em busca do menor consumo possível para a realização das mesmas atividades, garantindo- -se a qualidade da água fornecida e o bom desempenho dessas atividades. No quadro 1, é possível verificar as ações necessárias para a sistematização de um PCRA. Tecnologias voltadas à conservação do recurso Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 5 83 Quadro 1 – Ações necessárias para a sistematização e implantação de um PCRA. Etapas Principais atividades Produtos Avaliação técni- ca preliminar – Análise documental – Levantamento de campo Plano de setorização do consumo de água * Avaliação da de- manda de água – Análise de perdas físicas – Análise de desperdício – Identificação dos diferentes níveis de qualidade de água – Análise de perdas físicas – Análise de desperdício – Identificação dos diferentes níveis de qualidade de água Avaliação da oferta de água – Concessionárias – Captação direta – Águas pluviais – Reuso de efluentes – Águas subterrâneas Plano de aplicação de fon- tes alternativas de água Estudo de via- bilidade técnica e econômica – Montagem da ma- triz de soluções – Análise técnica e econômica Cenário ótimo Detalhamento técnico – Especificações técnicas – Detalhes técnicos Projeto executivo Sistema de gestão – Plano de monitoramento de consumo de água – Plano de capacitação dos gestores e usuários – Rotinas de manutenção – Procedimentos específicos Sistema de gestão da água Fonte: Elaborado pelo autor. 5.2 Tecnologias para conservação do solo O solo é um elemento essencial para a produção de alimentos e para a manutenção da vida no planeta. Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), o solo abriga 25% da biodiversidade do planeta. As diversas formas de vida que habitam o seu interior, assim como a matéria orgânica depositada sob a sua superfície, estão entre os principais indicadores de fertilidade, influenciando diretamente nos níveis de qualidade desse recurso. Tecnologias voltadas à conservação do recurso5 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo84 Existem muitas maneiras de conservar o solo, mas é importante que o agricultor conhe- ça as características do solo de sua propriedade para adotar técnicas adequadas de conserva- ção. Realizar uma boa análise da área que deseja utilizar na atividade produtiva é o primeiro passo. Entre as tecnologias para a agricultura destacam-se o manejo conservacionista do solo, o sistema de plantio direto, os sistemas agroflorestais (SAFs) e a integração lavoura- -pecuária-floresta (iLPF). Esses sistemas funcionam como alternativas ao uso do fogo na agricultura e possibilitam a rotação de culturas, com o plantio sucessivo em uma mesma área, potencializando a produção e promovendo o uso racional da terra. 5.2.1 Manejo conservacionista do solo O manejo do solo consiste num conjunto de operações realizadas com objetivos de pro- piciar condições favoráveis à semeadura, ao desenvolvimento e à produção das plantas cul- tivadas, por tempo ilimitado. Para que esses objetivos sejam atingidos, é imprescindível a adoção de diversas práticas, dando-se prioridade, por exemplo, ao uso do sistema plantio direto que envolve, simultaneamente, todas as boas práticas conservacionistas. • Sistema de plantio direto: é uma técnica de cultivo conservacionista em que o plan- tio é efetuado sem as etapas do preparo convencional da aração e da gradagem. Nessa técnica, é necessário manter o solo sempre coberto por plantas em desenvol- vimento e por resíduos vegetais. Essa cobertura tem por finalidade proteger o solo do impacto direto das gotas de chuva, do escorrimento superficial e das erosões hídrica e eólica. O plantio direto pode ser considerado como uma modalidade do cultivo mínimo, visto que o preparo do solo limita-se ao sulco de semeadura, pro- cedendo-se à semeadura, à adubação e, eventualmente, à aplicação de herbicidas em uma única operação. O conceito plantio direto envolve o plantio de espécies arbóreas perenes e semiperenes e ainda hortaliças propagadas por mudas, mas no que diz respeito ao cultivo de culturas de grãos, semeadura direta e plantio dire- to apresentam o mesmo significado. Portanto, a expressão semeadura direta deve ser entendida como o ato de depositar no solo sementes ou partes de plantas na ausência de mobilizações intensas de solo, tradicionalmente promovidas por ara- ções, escarificações e gradagens. • Sistemas agroflorestais (SAFs): são reconhecidamente modelos de exploração de solos que mais se aproximam ecologicamente da floresta natural e, por isso, con- siderados como importante alternativa de uso sustentado do ecossistema tropical úmido. Têm origem indígena que combinam, de maneira simultânea ou em se- quência, a produção de cultivos agrícolas com plantações de árvores frutíferas ou florestais e/ou animais, utilizando a mesma unidade de terra e aplicando técnicas de manejo que são compatíveis com as práticas e os conhecimentos culturais da população local. Essa tecnologia ameniza limitações do terreno, minimiza riscos de degradação inerentes à atividade agrícola e otimiza a produtividade a ser obti- da. Há diminuição na perda de fertilidade do solo e no ataque de pragas. A utiliza- ção de árvores é fundamental para a recuperação das funções ecológicas, uma vez Tecnologias voltadas à conservação do recurso Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 5 85 que possibilita o restabelecimento de boa parte das relações entre as plantas e os animais. Os componentes arbóreos são inseridos como estratégia para o combate da erosão e o aporte de matéria orgânica, restaurando a fertilidade do solo. Na fase inicial de recuperação, deve ser feito o plantio de árvores de rápido crescimento, para acelerar a disponibilidade e de biomassa, o que promoverá a ciclagem de nu- trientes e permitirá o plantio de espécies mais exigentes. Há melhoria na estrutura e na atividade da fauna do solo e maior disponibilidade de nutrientes. • Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF): a ILPF tem como grande objetivo a mudança do sistema de uso da terra, fundamentando-se na integração dos com- ponentes do sistema produtivo, visando atingir patamares cada vez mais elevados de qualidade do produto, qualidade ambiental e competitividade. A ILPF se apre- senta como uma estratégia para maximizar efeitos desejáveis no ambiente, aliando o aumento da produtividade com a conservação de recursos naturais no processo de intensificaçãode uso das áreas já desmatadas no Brasil. A ILPF apresenta especificidades, mas de maneira geral é a integração do sistema de pro- dução agrícola e pecuário em rotação, consórcio ou sucessão na mesma área e associado ao componente florestal com espécies de uso comercial (FUNDAÇÃO BANCO DO BRASIL, 2016). A implantação da ILPF em uma propriedade possibilita a recuperação de áreas degrada- das. Ao mesmo tempo, com a intensificação do uso da terra aumenta os efeitos complemen- tares entre as diferentes espécies cultivadas, bem como entre elas e a criação de animais. Essa combinação proporciona benefícios simultâneos para as atividades e, de forma sustentável, uma maior produção por área. 5.3 Educação ambiental e conservação Quando se aborda o campo da educação ambiental, pode-se dar conta de que apesar de sua preocupação comum com o meio ambiente e do reconhecimento do papel central da educação, inúmeros valores éticos, morais, culturais e sociais também fazem parte do marco conceitual, uma vez que o eixo central de qualquer ação educativa no campo socioambiental é a conscientização. Como os problemas socioambientais são complexos, garantir a existência de um am- biente saudável para todos os seres humanos e outras formas de vida implica uma conscien- tização que vá realmente abranger todos. Essa maturidade só pode ter ressonância por meio de um processo de educação ambiental que envolva ciência e ética e uma renovada filosofia de vida. Segundo Sato (2002), educação ambiental para uma sustentabilidade equitativa é um processo de aprendizado permanente, baseado no respeito a todas as formas de vida. Tal educação afirma valores e ações que contribuem para a transformação humana e social e para a preservação da natureza. Ela estimula a formação de sociedades socialmente justas e ecologicamente equilibradas que conservem entre si a interdependência e diversidade. Tecnologias voltadas à conservação do recurso5 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo86 Para o educador Paulo Freire (1980), a conscientização é o ato de responder aos desafios que lhe apresentam seu contexto de vida, o ser humano se cria, se realiza como sujeito, por- que essa resposta exige dele reflexão, crítica, invenção, eleição, decisão, organização e ação. Todos esses movimentos pelas quais se cria a pessoa e que fazem dela um ser não somente adaptado à realidade e aos outros, mas integrado. Freire ainda complementa que se entende por conscientização o descobrimento de si mesmo interrogando-se e buscando respostas aos seus desejos e observações. No campo da conservação dos recursos naturais como a água e o solo, por exemplo, a educação ambiental é fundamental para proporcionar reflexões e fomentar a conscientiza- ção, uma vez que tais recursos são bens difusos e de interesses coletivos. Sabendo e enten- dendo da diversidade social e cultural de uma região ou de um país é importante escolher a melhor estratégia para aplicar em processos de educação ambiental com a finalidade de não ser somente uma intervenção educativa superficial e que não promova a conscientização e a conservação dos recursos naturais de maneira efetiva. Diante das diversidades, as formas da educação ambiental se apresentam em correntes que focam assuntos de interesse de determinada comunidade ou projeto. Em uma mesma corrente podem se incorporar uma pluralidade e uma diversidade de proposições e em uma mesma proposição pode corresponder a dois ou três correntes diferentes, segundo o ângulo sob o qual é analisada. Cada corrente apresenta um conjunto de características específicas que as distingue de outras, no entanto as correntes não são excludentes em todos os planos. As correntes de educação ambiental são as que veremos a seguir: Naturalista • Meio ambiente: natureza. • Finalidade: reconstruir um laço com a natureza. • Enfoques: sensorial, experimental, afetivo, cognitivo e artístico. • Estratégias: imersão/interpretação/jogos sensoriais/atividades de descobrimento. Conservacionista • Meio ambiente: natureza-recurso. • Finalidade: adotar comportamentos de conservação. Desenvolver habilidades para a gestão ambiental e o ecocivismo. • Enfoques: cognitivo, pragmático. • Estratégias: guia de código de comportamentos/Auditoria ambiental/Projetos de gestão e/ou conservação. Resolutiva • Meio ambiente: conjunto de problemas. • Finalidade: desenvolver habilidades de resolução de problemas – do diagnóstico à ação. Modificação de comportamentos. • Enfoques: pragmático, cognitivo. Tecnologias voltadas à conservação do recurso Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 5 87 • Estratégias: estudo de casos – análises de situações-problema/Experiência de reso- lução de problemas associada a um projeto. Sistêmica • Meio ambiente: sistema (ecosociosistema). • Finalidade: desenvolver o pensamento sistêmico – análises e sínteses por meio de uma visão global. Compreender as realidades ambientais em vista a uma tomada de decisões ótimas. • Enfoques: cognitivo. • Estratégias: estudo de casos – análises de sistemas ambientais. Científica • Meio ambiente: objeto de estudos. • Finalidade: adquirir conhecimentos em ciências ambientais. Desenvolver habili- dades relativas à experiência científica. • Enfoques: experimental e cognitivo. • Estratégias: estudo de fenômenos/observação/demonstração/experimentação/ati- vidade de investigação hipotético-dedutiva. Humanista • Meio ambiente: meio de vida (dimensão humana do meio ambiente). • Finalidade: conhecer seu meio de vida e se conhecer melhor em relação a ele. Desenvolver um sentimento de pertença. • Enfoques: sensorial, afetivo, experiencial, cognitivo, criativo/estético. • Estratégias: estudo do meio/itinerário ambiental/leitura da paisagem. Moral/Ética • Meio ambiente: objeto de valores. • Finalidade: dar prova de ecocivismo. Desenvolver um sistema ético. Construir um sistema de valores. • Enfoques: afetivo, cognitivo e moral. • Estratégias: análises de valores/clarificação de valores/crítica de valores sociais. Holística • Meio ambiente: Holos. Todo o Ser. • Finalidade: desenvolver as múltiplas dimensões de seu ser em interação com o conjunto de dimensões do ambiente. Desenvolver um conhecimento “orgânico” do mundo e um atuar participativo em e com o ambiente. • Enfoques: holístico, orgânico, intuitivo e criativo. • Estratégias: exploração livre/visualização/oficinas de criação/integração de estra- tégias complementares. Tecnologias voltadas à conservação do recurso5 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo88 Biorregionalista • Meio ambiente: lugar de pertença, projeto comunitário. • Finalidade: desenvolver competências em ecodesenvolvimento comunitário, local ou regional. • Enfoques: pragmático, experiencial, afetivo, cognitivo e criativo. • Estratégias: exploração do meio/projeto comunitário/criação de ecoempresas. Práxica • Meio ambiente: crisol de ação/reflexão. • Finalidade: aprender na ação, pela ação e para melhorar a ação. • Enfoques: práxico (integrar a reflexão e a ação, as quais se alimentam mutuamente). • Estratégias: pesquisa-ação. Crítica • Meio ambiente: objeto de transformação, lugar de emancipação. • Finalidade: desconstruir as realidades socioambientais para transformar o que causa problemas. • Enfoques: práxico, reflexivo e dialógico. • Estratégias: análises de discurso/estudo de casos/debate/pesquisa-ação. Feminista • Meio ambiente: objeto de solicitude. • Finalidade: integrar os valores feministas na relação com o meio. • Enfoques: intuitivo, simbólico, afetivo, espiritual e criativo/estético. • Estratégias: estudo de casos/imersão/oficina de criação/atividade de intercâmbio de ideias, de comunicação. Etnográfica • Meio ambiente: território/lugar de identidade/natureza-cultura. • Finalidade: reconhecer o laço entre natureza e cultura. Clarificar sua própria cos- mologia. Valorizar a dimensão cultural de sua relação com o meio. • Enfoques: intuitivo, experiencial,afetivo, simbólico, espiritual e criativo/estético. • Estratégias: contos, narrações, lenda/estudo de casos/acompanhamento/imersão. Da ecoeducação • Meio ambiente: esfera de interação essencial para a formação pessoal. Crisol de identidade. • Finalidade: experimentar o meio para se experimentar e se formar em e pelo meio. Construir sua relação com o mundo, com os seres outros que humanos. • Enfoques: sensorial, experiencial, afetivo, simbólico e criativo. • Estratégias: relato de vida/imersão/jogos/exploração/introspecção/alternância subjetiva-objetiva. Tecnologias voltadas à conservação do recurso Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 5 89 Da sustentabilidade • Meio ambiente: recursos para desenvolvimento econômico. Recursos compartidos. • Finalidade: promover um desenvolvimento econômico respeitoso com os aspectos sociais e ambientais. • Enfoques: pragmático e cognitivo. • Estratégias: estudo de casos/experiência de resoluções de problemas/projeto de desenvolvimento sustentável/sustentabilidade. Ampliando seus conhecimentos A educação como instrumento para a concretização do desenvolvimento sustentável (TOALDO, MEYNE, 2013) A educação é que forma o ser humano, a sociedade e aí justamente reside à necessidade de educar para se atingir um nível satisfatório de democracia. Parece claro que uma sociedade composta por pessoas de grau de esco- laridade elevado é mais participativa. No Brasil, tradicionalmente, se tem percebido por parte de alguns governos, que a educação e a formação da consciência de cidadania e democracia nunca foram uma prioridade, justamente para tentar garantir uma perpetuação no poder, através das “massas de manobra”. Por outro lado, isso também não é uma criação moderna, na antiguidade já se falava em pão e circo para o povo. Embora não se possa atrelar a participação ao grau de escolaridade da população, percebe-se que a educação popularizada tem trazido significativos avan- ços na autonomia, liberdade e consciência das decisões. A preocupação com a educação ambiental não é de hoje, em 1972 a Declaração de Estocolmo, em seu princípio 19º, assim determina que seja essencial um trabalho de educação em matéria ambiental, tanto para as gerações mais jovens como para as mais adultas, que tenha em conta os menos favorecidos, com a finalidade de possibilitar a formação de uma opinião pública esclarecida e uma conduta responsável por parte dos indi- víduos, das empresas e comunidade, na proteção e melhoria do ambiente e sua dimensão humana global. Nesta perspectiva a educação ambiental tem fundamental papel, consubs- tanciando-se em uma necessidade do mundo moderno, existindo cada vez mais o desafio, enquanto prática dialógica, no sentido de serem criadas Tecnologias voltadas à conservação do recurso5 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo90 condições para a participação dos diferentes segmentos sociais, tanto na formulação de políticas para o meio ambiente, quanto do meio natural, social e cultural. A prática educativa deve partir de uma premissa de que a sociedade é um lugar em constantes conflitos e confrontos, não existindo harmonia, nas esferas políticas, econômicas, das relações sociais, e dos valores, possibilitando que diferentes segmentos da sociedade, possam ter condições de intervirem no processo de gestão ambiental. Objetivando a formação da personalidade em relação a um meio ambiente ecologicamente equilibrado é preciso que seja inserido a partir das séries iniciais e subsequentes e que seja um trabalho permanente com essas pes- soas para que se torne contínuo, como acrescenta Geraldo Ferreira Lanfredi. “A educação ambiental objetiva a formação da personalidade despertando a consciência ecológica em crianças e jovens, alem de adulto, para valo- rizar e preservar a natureza, porquanto, de acordo com princípios comu- mente aceito, para que se possa prevenir de maneira adequada, necessário é conscientizar e educar. A educação ambiental é um dos mecanismos pri- vilegiados para a preservação e conservação da natureza, ensino que há de ser obrigatório desde a pré-escola, passando pelas escolas de 1.° e 2.º grau, especialmente na zona rural, prosseguindo nos cursos superiores”. Promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscien- tização pública para a preservação do meio ambiente é o que está redigido no artigo 225, inciso VI da nossa Constituição. A educação, que é o alicerce do Estado Democrático de Direito, é um direito público subjetivo do cidadão, por intermédio do qual ele assume a plenitude de sua dignidade e resgata a cidadania, figurando no rol dos direitos humanos, reconhecidos pela comunidade internacional. É a forma, ainda, de atingir diversas finalidades, como saúde pública. É um processo em que se busca despertar a preocupação individual e coletiva para a questão ambiental, garantindo o acesso à informação em lingua- gem adequada, contribuindo para o desenvolvimento de uma consciência crítica e estimulando o enfrentamento das questões ambientais e sociais. Desenvolve-se num contexto de complexidade, procurando trabalhar não apenas a mudança cultural, mas também a transformação social, assu- mindo a crise ambiental como uma questão ética e política. Tecnologias voltadas à conservação do recurso Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 5 91 Nessa mesma linha de raciocínio Ivanaldo Soares da Silva Junior enfatiza que: “A educação ambiental deve se constituir em uma ação educativa perma- nente por intermédio da qual a comunidade têm a tomada de consciência de sua realidade global, do tipo de relações que os homens estabelecem entre si e com a natureza, dos problemas derivados e de ditas relações e suas causas profundas. Este processo deve ser desenvolvido por meio de práticas que possibilitem comportamentos direcionados a transforma- ção superadora da realidade atual, nas searas sociais e naturais, através do desenvolvimento do educando das habilidades e atitudes necessárias para dita transformação.” A Constituição Federal em seu artigo 225 diz que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essen- cial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. Entretanto não é o que se vê nos dias atuais em que os noticiários dão conta da devastação do meio ambiente, como os desmatamentos, poluição dos rios e do ar ocasionado pelo crescimento econômico desordenado. As medidas preventivas, como seu próprio nome indica, devem se ante- cipar e impedir ou minorar a ocorrência dos fatores de degradação. Duas razões principais tornam preferencial a aplicação dessas medidas. A pri- meira é por sua implantação depender de custos financeiros menores e, portanto, pressionar menos os caixas públicos e privados na disputa de recursos que são sempre escassos para atender ao conjunto das deman- das da sociedade. A segunda razão é que as medidas preventivas serão mais eficazes se tomadas antes da ocorrência de degradação ambiental e de consequentes outros custos de natureza econômica e social nem sem- pre traduzíveis em valores monetários, mas nem por isso destituídos de importância. Em contrapartida, sua aplicação depende de a sociedade estar suficientemente organizada para planejar e gerenciar os processos socioeconômicos e assegurar o principal objetivo dessas medidas, que é a distribuição das atividades humanas no espaço e no tempo (planejamento territorial e de uso do solo) de maneira compatível com padrões desejá- veis de qualidade ambiental. Nesse sentido, João Marcos Adede y Castro ressalta que: “O crescimento ou desenvolvimento não pode ser causa de destruição do meio ambiente, e deve buscar sempre formas de produção e consumo que Tecnologias voltadas à conservação do recurso5 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo92anule ou reduzas ao máximo a possibilidade de poluição ou modificação negativa da casa onde vivemos.” Sendo assim, a forma correta de se ter um crescimento econômico sem destruir o meio ambiente é através do desenvolvimento sustentável ecolo- gicamente, que proporciona ainda uma qualidade de vida sadia. Atividades 1. Faça uma saída de campo, em área de zona rural que estiver mais próxima, e analise se na paisagem estão ocorrendo práticas de conservação da água, como a presença de matas ciliares, curvas de nível e se as estradas rurais estão bem conservadas sem erosões, voçorocas etc. 2. Na mesma saída de campo da atividade 1, verifique se na paisagem em análise ocor- rem práticas de conservação do solo como o plantio direto, sistemas agroflorestais, curvas de nível, Integração lavoura-pecurária-floresta. 3. Escolha uma ou mais correntes de Educação Ambiental apresentadas neste capítulo e organize uma ação de Educação Ambiental para sua turma da universidade ou em seu bairro, focando a conservação da água ou solo. Dica: defina o perfil socioambiental e cul- tural do público beneficiário para facilitar a escolha da corrente de Educação Ambiental. Referências FATTORI, Bernardo José. Manual para manutenção de estradas com revestimento primário. Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Escola de Engenharia. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. FREIRE, Paulo. Conscientização. São Paulo, Moraes, 1980, p. 15. FUNDAÇÃO BANCO DO BRASIL. Integração lavoura-pecuária floresta – tecnologia social que gera trabalho e renda, 2016. Disponível em: . Acesso em: abr. 2016. GOMES, Luciano Nardini. Modelagem numérica da superfície como instrumento de avaliação de curvas de nível na preservação de manancial de água. Dissertação apresentada à Faculdade de Ciências Agronômicas da UNESP – Campus de Botucatu, para a obtenção do título de mestre em Agronomia – Área de Concentração em Irrigação e Drenagem. Universidade estadual paulista Julio de Mesquita Filho Faculdade de Ciências Agronômicas Campus de Botucatu. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. Tecnologias voltadas à conservação do recurso Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 5 93 GONÇALVES, Ricardo Franci (coordenador). Conservação de água e energia em sistemas prediais e públicos de abastecimento de água. Rio de Janeiro: ABES, 2009. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. GOVERNO DO ESTADO DO PARANÁ. Secretaria de Estado de Recursos Hídricos. Plano diretor de drenagem para a bacia do Rio Iguaçú na Região Metropolitana de Curitiba, 2002. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. LIMA, W. P.; ZAKIA, M. J. B. O papel do ecossistema ripário. In: As florestas plantadas e a água. Implementando o conceito da microbacia hidrográfica como unidade de planejamento (W.P. Lima & M.B.J. Zakia, orgs). Rima Editora, São Carlos, p. 77-87, 2006. SILVA, Danilo José P. Programa de conservação e reuso de água. Universidade Federal de Viçosa – Departamento de tecnologia de alimentos ciência e tecnologia de alimentos. Série sistema de gestão ambiental Viçosa/MG. 2011. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. SATO, Michele. Educação ambiental. São Carlos, RIMA, 2002. 88 p. SOUZA, Amilcar Marcel. Guia de identificação das florestas da bacia hidrográfica Tietê-Jacaré. Instituto Pró-Terra, 2014. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. TOALDO, Adriane Medianeira; MEYNE, Lucas Saccol. A educação ambiental como instrumento para a concretização do desenvolvimento sustentável. I Congresso Internacional de Direito Ambiental e Ecologia Política – UFSM, 2013. Revista Eletrônica do Curso de Direito. Disponível em: . Acesso em: 31 mar. 2017. Resolução 1. Você deverá verificar se há ações de conservação da água na paisagem analisada e sistematizar as informações em tabelas e fotos. Pode-se comunicar o órgão ambiental que atua na área para apresentar suas observações caso ocorra alguma eventualida- de ou crime ambiental. 2. Você deverá verificar se há ações de conservação do solo na paisagem analisada e sistematizar as informações em tabelas e fotos e tecer comentários sobre a eficiência das práticas observadas. 3. Você deverá escolher uma ou mais correntes de educação ambiental e fazer interven- ções buscando a conscientização para a conservação do solo e da água do público beneficiário que escolher. Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 95 6 Funcionamento e organizações de comitês de bacias hidrográficas No Brasil, a luta pela conquista de espaços para aumentar a participação social é sem dúvida um dos aspectos mais desafiadores para a análise sobre os alcances da democracia. Tendo como base a Lei 9.433, de 8 de janeiro de 1997, que institui a Política Nacional de Recursos Hídricos e o Sistema Nacional de Recursos Hídricos, a gestão das águas se tornou um marco na descentralização e fomento da participação da socie- dade em tomadas de decisões de relevância e abrangências regionais, estaduais e até nacionais. Neste capítulo, será dado enfoque a uma das principais ferramentas de participação e democratização em gestão de recursos naturais que são os Comitês de Bacias Hidrográficas, a legislação e os órgãos reguladores e os aspectos da gestão par- ticipativa e aplicabilidade da democracia. Funcionamento e organizações de comitês de bacias hidrográficas6 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo96 6.1 O que é um comitê de bacias hidrográficas Os comitês de gerenciamento de bacia hidrográfica são organismos colegiados instituí- dos pelo Poder Público, com base na Lei 9.433, de 8 de janeiro de 1997, que institui a Política Nacional de Recursos Hídricos e o Sistema Nacional de Recursos Hídricos, com atribuições específicas no gerenciamento dos usos e da conservação da água e dos corpos hídricos, ten- do como base de planejamento e gestão a bacia hidrográfica. Os comitês de bacias hidrográficas brasileiros têm como referência e modelo experiên- cias estrangeiras, particularmente a da França. No Brasil, a partir do marco constitucional, todas as águas são públicas, de domínio federal ou estadual. Os primeiros comitês de bacias de rios estaduais surgiram no Rio Grande do Sul, em 1988 (Comitê da Bacia do Rio dos Sinos) e 1989 (Comitê Gravataí) e da experiência desses dois somados aos de vários instituí- dos por diversos estados nos anos de 1990 foi formulada a referida lei federal. A criação dos comitês de bacias hidrográficas está pautada na preocupação das comuni- dades e de grandes usuários da água com a crescente escassez provocada por problemas de ordem qualitativa (poluição) e/ou de ordem quantitativas comprovadas técnica e cientifica- mente pela Agência Nacional das Águas, que em seus relatórios anuais apontam que todas as regiões metropolitanas brasileiras passam por crise hídrica. A gestão dos recursos hídricos como uma política pública envolvendo todos os usuá- rios e a população foi um passo necessário para superar o enfoque de atacar apenas os efei- tos localizados da poluição e da demanda crescente. A bacia hidrográfica é a unidade ideal para a aplicação regionalizada dessa política, pois é a unidade natural dos recursos hídricos. O enfoque de planejamento e o uso de instrumentos de gestão como a outorga do direito de usoda água e a cobrança pelo mesmo uso garantem, nos países em que são aplicados, resultados efetivos na recuperação e na conservação dos recursos hídricos e no melhor com- partilhamento dos mesmos. Nesse sentido, os comitês de bacias hidrográficas têm ganhado muita importância nas tomadas de decisões de gestão dos recursos naturais vinculados à água em âmbitos regio- nais, estaduais e federais. As decisões têm caráter deliberativo, com poderes para decidir sobre questões bem definidas na Lei 9.433, de 8 de janeiro de 1997. Além disso, atuam como fóruns de debate sobre questões afins aos usos dos recursos hídricos, sempre entendidos como bens ambientais e, portanto, intrinsecamente vinculados aos demais componentes ambientais, como bens sociais, dada a importância da água e dos cursos de água em todas as manifestações de vida coletiva e como bens econômicos, em função de sua escassez cada vez maior e pelo valor que a água tem no processo produtivo. Segundo a Agência Nacional das Águas (ANA, 2011), o principal objetivo dos comitês de bacia hidrográfica é estabelecer metas, sejam elas qualitativas, sejam quantitativas, de maneira consensual por parte dos membros dos comitês e demais interessados como usuá- rios do setor industrial, agropecuário, elétrico etc. e pela população, que é atingida pela execução dos chamados planos de bacia, nestes incluídos prazos, custos e fontes de recurso. Funcionamento e organizações de comitês de bacias hidrográficas Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 6 97 Dessa forma, o comitê de bacia hidrográfica tem esse poder por ser um ente integrante do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos ordenado juridicamente pela Lei 9.433, de 8 de janeiro de 1997, e tem entre as suas principais atribuições: • promover o debate sobre questões relacionadas a recursos hídricos e articular a atuação das entidades intervenientes; • arbitrar, em primeira instância administrativa, os conflitos relacionados aos recur- sos hídricos; • aprovar o Plano de Recursos Hídricos da Bacia, acompanhar a sua execução e su- gerir as providências necessárias ao cumprimento das metas; • propor aos conselhos de recursos hídricos as acumulações, as derivações, as cap- tações e os lançamentos de pouca expressão, para efeito de isenção da obrigatorie- dade de outorga de direitos de uso; • estabelecer os mecanismos de cobrança pelo uso de recursos hídricos e sugerir os valores a serem cobrados. 6.1.1 Representação nos comitês de bacias hidrográficas A composição de um comitê de bacia hidrográfica deverá refletir os múltiplos interesses com relação às águas de determinada bacia hidrográfica. Eles estão legalmente organizados no formato bipartite, em que são representados por pessoas dos poderes públicos constituí- dos (municípios, estados e União) na implementação das diferentes políticas públicas e das organizações da sociedade civil organizada na defesa dos interesses coletivos e com o olhar dos interesses difusos. O artigo 39 da Lei 9.433, de 8 de janeiro de 1997, diz claramente que os comitês de bacia hidrográfica são compostos por representantes: I – da União; II – dos Estados e do Distrito Federal cujos territórios se situem, ainda que par- cialmente, em suas respectivas áreas de atuação; III – dos Municípios situados, no todo ou em parte, em sua área de atuação; IV – dos usuários das águas de sua área de atuação; V – das entidades civis de recursos hídricos com atuação comprovada na bacia. §1° O número de representantes de cada setor mencionado neste artigo, bem como os critérios para sua indicação, serão estabelecidos nos regimentos dos Comitês, limitada a representação dos poderes executivos da União, Estados, Distrito Federal e Municípios à metade do total de membros. §2° Nos Comitês de Bacia Hidrográfica de bacias de rios fronteiriços e transfron- teiriços de gestão compartilhada, a representação da União deverá incluir um representante do Ministério das Relações Exteriores. §3° Nos Comitês de Bacia Hidrográfica de bacias cujos territórios abranjam ter- ras indígenas devem ser incluídos representantes: Funcionamento e organizações de comitês de bacias hidrográficas6 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo98 I – da Fundação Nacional do Índio – Funai, como parte da representação da União; II – das comunidades indígenas ali residentes ou com interesses na bacia. §4° A participação da União nos Comitês de Bacia Hidrográfica e com área atua- ção restrita a bacias de rios de domínio estadual, dar-se-á na forma estabelecida nos respectivos regimentos. 6.1.2 Estrutura organizacional A estrutura organizacional dos comitês de bacias hidrográficas compõe-se de plenário, diretoria e câmaras técnicas, podendo ser instituídos de acordo com demandas locais, a critério de alguns colegiados, os chamados grupos de trabalho para análise de temas espe- cíficos e que os comitês devem se manifestar a pedido por órgãos ambientais ou ministério público como de licenciamentos ambientais. No quadro a seguir está apresentada a correla- ção da estrutura organizacional com suas funções e atribuições. Quadro 1 – Correlação da estrutura organizacional de um comitê de bacia hidrográfica com suas funções e atribuições. Estrutura organizacional Funções e atribuições Plenário Conjunto dos membros eleitos formalmente a cada dois anos que se reúnem em assembleia-geral, configu- rando a principal instância de tomada de decisões. Diretoria Composta por presidente que de maneira geral é um re- presentante do poder público e um secretário, poden- do contar com outras figuras, como vice-presidente. Câmaras técnicas Criadas pelo plenário, as câmaras técnicas têm por atri- buição desenvolver e aprofundar as discussões sobre temáticas necessárias antes de sua submissão ao plená- rio. Elas são compostas por representantes técnicos e de maneira geral são sobre os temas saneamento, recursos naturais, educação ambiental, políticas públicas etc. Grupos de trabalho Instituídos para realizarem análise ou execução de te- mas específicos para subsidiar alguma decisão cole- giada. Em geral, têm caráter temporário e são extintos quando o objetivo para o qual foram criados tenha sido atingido. É comum o convite à participação de especia- listas experientes e professores de universidades. Secretaria Executiva Estrutura responsável pelo apoio administrativo, técnico, logístico e operacional ao comitê. De forma geral, é atribuída a algum órgão público por ter estruturas mínimas de gestão. Fonte: Adaptado de Agência Nacional das Águas (2011) e experiências do autor na coordenação da Câmara Técnica de Recursos Naturais do CBH-Tietê-Jacaré no Estado de São Paulo. Funcionamento e organizações de comitês de bacias hidrográficas Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 6 99 6.1.3 Comitês de bacias hidrográficas, cidadania e políticas públicas Os comitês de bacia hidrográfica no Brasil têm se tornado um verdadeiro e genuíno espaço de democratização e cidadania. Nos debates é possível ter acesso a informações pú- blicas relevantes, como os relatórios de situação de qualidade e a quantidade de água, e compreender a complexidade dos processos de gestão e especialmente sobre um recurso que há inúmeros conflitos de interesses universos. Nos comitês de bacia hidrográfica não há espaço para políticas partidárias de interesse de um ou outro setor. Os debates são técnicos e principalmente de interesses difusos e do bem-estar da coletividade, tendo os membros a grande responsabilidade de participar de tomadas de decisões que influenciam a vida das comunidades. Dessa forma, a práxis dos comitês de bacias hidrográficas em todo o Brasil tem sido um dos exemplos da grande mudança no contexto das políticas públicas no País onde todos os re- presentantes têm voz e poder de opinião. Pelo link ; da Agência Nacional das Águas (ANA), é possível ter acesso a todos os comitês debacias hidrográficas do Brasil e suas informações específicas, como localização geográfica, instrumento de criação, mapas, relatórios de situação e demais informações. 6.2 Legislação e órgão regulador Os comitês de bacias hidrográficas no Brasil têm seu ordenamento jurídico maior re- gido pela Lei das Águas 9.433, de 8 de janeiro de 1997, que institui a Política Nacional de Recursos Hídricos e cria o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Em seu artigo 1°, a Política Nacional de Recursos Hídricos baseia-se nos seguintes fundamentos: I – a água é um bem de domínio público; II – a água é um recurso natural limitado, dotado de valor econômico; III – em situações de escassez, o uso prioritário dos recursos hídricos é o consu- mo humano e a dessedentação de animais; IV – a gestão dos recursos hídricos deve sempre proporcionar o uso múltiplo das águas; V – a bacia hidrográfica é a unidade territorial para implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e atuação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos; VI – a gestão dos recursos hídricos deve ser descentralizada e contar com a par- ticipação do Poder Público, dos usuários e das comunidades. Funcionamento e organizações de comitês de bacias hidrográficas6 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo100 No artigo. 2°, os objetivos da Política Nacional de Recursos Hídricos foram assim definidos: I – assegurar à atual e às futuras gerações a necessária disponibilidade de água, em padrões de qualidade adequados aos respectivos usos; II – a utilização racional e integrada dos recursos hídricos, incluindo o transporte aquaviário, com vistas ao desenvolvimento sustentável; III – a prevenção e a defesa contra eventos hidrológicos críticos de origem natu- ral ou decorrentes do uso inadequado dos recursos naturais. Para tratar de assuntos específicos como o estabelecimento de diretrizes de formação e funcionamento dos comitês, o Conselho Nacional de Recursos Hídricos emite resoluções de ordenamento jurídico. As resoluções do Conselho Nacional de Recursos Hídricos seguem apresentadas no quadro 2 a seguir. Quadro 2 – Resoluções do Conselho Nacional de Recursos Hídricos sobre comitês de bacias hidrográficas. Resoluções Ordenamento jurídico 05/2000 Estabelece diretrizes para a formação e o funciona- mento de comitês de bacias hidrográficas 17/2001 Estabelece diretrizes para a elaboração dos Planos de Recursos Hídricos de Bacias Hidrográficas 18/2001 Possibilita a prorrogação do mandato de diretoria pro- visória dos comitês de bacias hidrográficas 24/2002 Altera a redação dos artigos 8o e 14 da Resolução n. 5 109/2010 Estabelece procedimentos complementares para a cria- ção e acompanhamento dos comitês de bacia Fonte: Elaborado pelo autor. Como prevê o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos, os estados também são responsáveis pela gestão das águas, tendo atribuições de legislar sobre assuntos específicos de cada estado. No quadro 3, estão apresentados os instrumentos jurídicos de cada estado sobre comi- tês de bacias hidrográficas. Quadro 3 – Instrumentos jurídicos de cada estado sobre comitês de bacias hidrográficas. Estado Instrumento jurídico Alagoas Lei 5.965/1997. Dispõe sobre a Política Estadual de Recursos Hídricos e institui o Sistema Estadual de Gerenciamento Integrado de Recursos Hídricos. Acre Lei 1.500/2003. Institui a Política Estadual de Recursos Hídricos, cria o Sistema Estadual de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Funcionamento e organizações de comitês de bacias hidrográficas Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 6 101 Estado Instrumento jurídico Amazonas Lei 3.167/2007. Reformula as normas disciplinadoras da Política Estadual de Recursos Hídricos e do Sistema Estadual de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Amapá Lei 686/2002. Dispõe sobre a Política de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Bahia Lei 11.612/2009. Dispõe sobre a Política Estadual de Recursos Hídricos, o Sistema Estadual de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Ceará Lei 11.996/1992. Dispõe sobre a Política Estadual de Recursos Hídricos, institui o Sistema Integrado de Gestão de Recursos Hídricos. Distrito Federal Lei 2.725/2001. Institui a Política de Recursos Hídricos do Distrito Federal, cria o Sistema de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Espírito Santo Lei 5.818/1998. Dispõe sobre a Política Estadual de Recursos Hídricos, institui o Sistema Integrado de Gerenciamento e Monitoramento dos Recursos Hídricos. Goiás Lei 13.123/1997. Dispõe sobre a Política Estadual de Recursos Hídricos. Maranhão Lei 8.149/2004. Dispõe sobre a Política Estadual de Recursos Hídricos, institui o Sistema de Gerenciamento Integrado de Recursos Hídricos. Mato Grosso Lei 6.945/1997. Dispõe sobre a Lei de Política Estadual de Recursos Hídricos, institui o Sistema Estadual de Recursos Hídricos. Mato Grosso do Sul Lei 2.406/2002. Institui a Política Estadual de Recursos Hídricos, cria o Sistema Estadual de Gerenciamento dos Recursos Hídricos. Minas Gerais Lei 13.199/1999. Dispõe sobre a Política Estadual de Recursos Hídricos. Pará Lei 6.381/2001. Dispõe sobre a Política Estadual de Recursos Hídricos, institui o Sistema Estadual de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Paraíba Lei 6.308/1996. Institui a Política Estadual de Recursos Hídricos. Paraná Lei 12.726/1999. Institui a Política Estadual de Recursos Hídricos, cria o Sistema Estadual de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Pernambuco Lei 12.984/2005. Dispõe sobre a Política Estadual de Recursos Hídricos e o Sistema Integrado de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Piauí Lei 5.165/2000. Dispõe sobre a Política Estadual de Recursos Hídricos, institui o Sistema Estadual de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Funcionamento e organizações de comitês de bacias hidrográficas6 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo102 Estado Instrumento jurídico Rio de Janeiro Lei 3.239/1999. Institui a Política Estadual de Recursos Hídricos, cria o Sistema Estadual de Gerenciamento de Recursos Hídricos, regulamenta a Constituição Estadual em seu artigo 261, §1º, inciso VII, e dá outras providências. Rio Grande do Norte Lei 6.908/1996. Dispõe sobre a Política Estadual de Recursos Hídricos, institui o Sistema Integrado de Gestão de Recursos Hídricos. Rio Grande do Sul Lei 11.560/2000. Introduz alterações na Lei 10.350/1994, que insti- tuiu o Sistema Estadual de Recursos Hídricos e na Lei 8.850/1989, que criou o Fundo de Investimento em Recursos Hídricos. Rondônia Lei Complementar 255/2002. Institui a Política Estadual de Recursos Hídricos e o Sistema Estadual de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Roraima Lei 547/2006. Dispõe sobre a Política Estadual de Recursos Hídricos. Santa Catarina Lei 9.748/1994. Dispõe sobre a Política Estadual de Recursos Hídricos. São Paulo Lei 9.034/1994. Dispõe sobre o Plano Estadual de Recursos Hídricos. Sergipe Lei 3.870/1997. Dispõe sobre a Política Estadual de Recursos Hídricos, e institui o Sistema Integrado de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Tocantins Lei 1.307, de 22/03/2002. Dispõe sobre a Política Estadual de Recursos Hídricos, e adota outras providências. Fonte: Elaborado pelo autor 6.2.1 Órgão regulador O órgão regulador no nível federal para os comitês de bacias hidrográficas é a Agência Nacional das Águas (ANA), que foi criada a partir da Lei 9.443/97 e tem características institu- cionais e operacionais com autoridade responsável pela emissão de outorgas de direito de uso de recursos hídricos em rios sob domínio da União, ou seja, aqueles que atravessam mais de um estado, os transfronteiriços e os reservatórios construídos com recursos da União. À ANA cabe organizar, traçar diretrizes e disciplinar a implementação, a operacionali- zação, o controle e a avaliação dos instrumentos de gestão criados pela Política Nacional de Recursos Hídricos. Dessa forma, sua atuação de regulação ultrapassa os limitesdas bacias hi- drográficas com rios de domínio da União, pois alcança aspectos institucionais relacionados à regulação dos recursos hídricos no âmbito nacional, como a organização e tomada de medidas técnicas e legais sobre a crise hídrica que está presente em todas as regiões brasileiras. Funcionamento e organizações de comitês de bacias hidrográficas Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 6 103 Uma das atribuições e metas da ANA é o apoio à criação dos comitês de bacias hi- drográficas, compostos por representantes da sociedade civil, dos usuários da água e dos poderes públicos, proporcionando que se cumpra, de forma descentralizada, a regulação dos recursos hídricos de forma eficiente. Como órgão regulador, a ANA tem a competência para definir as condições de operação dos reservatórios, públicos ou privados, para garantir os usos múltiplos dos recursos hídricos, e avaliar a sustentabilidade de obras hídricas com participação de recursos federais. A ANA é uma autarquia sob regime especial, com autonomia administrativa e finan- ceira, vinculada ao Ministério do Meio Ambiente, conduzida por uma diretoria colegiada composta por cinco membros: um diretor-presidente e quatro diretores, todos nomeados pelo Presidente da República, com mandatos não coincidentes de quatro anos. 6.3 Gestão participativa e aplicabilidade da democracia Segundo Miranda (2004), desde os anos de 1930 já havia no Brasil a vontade e a ne- cessidade de se fazer um grande e profunda reforma no sistema de gestão do estado. No entanto, a realidade tem nos mostrado que essas reformas sofrem em sair e são comumente atentadas em suas ideias e princípios, como a ruptura das instituições e o golpe militar nos anos de 1960. A promulgação da Constituição em 1988 deu início à redemocratização do país, com um grande movimento de resgate de valores, direitos individuais, liberdade de expres- são, luta pela igualdade e pelo bem-estar social com desenvolvimento se faz presente até a atualidade. A constituição de formas alternativas de gestão de temas públicos, como a participação em comitês de bacias hidrográficas, simultaneamente com a ampliação do espectro de pro- blemas tratados publicamente, está associada à emergência de novos atores coletivos, como é o caso da sociedade civil organizada que vem desenvolvendo diversas formas de partici- pação nas aberturas democráticas que se têm apresentado no Brasil. No modelo atual da gestão dos recursos hídricos na organização das instituições, a ges- tão participativa pode ser entendida como um instrumento para a viabilização das políticas públicas no que tange à conservação das águas e demais recursos naturais associados. Para Gadoti (2014), a gestão democrática não é só um princípio pedagógico, mas sim um direito e conquista constitucional. O parágrafo único do artigo 1o da Constituição Federal de 1988 estabelece como cláusula pétrea que “todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente”, consagrando uma nova ordem jurídica e política no país com base em dois pilares: • a democracia representativa (indireta); • a democracia participativa (direta), entendendo a participação social e popular como princípio inerente à democracia. Funcionamento e organizações de comitês de bacias hidrográficas6 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo104 A ampliação de canais de representatividade democrática dos setores organizados para atuarem junto aos órgãos públicos em temas de interesse difuso e do bem-estar da coletivi- dade, como conquista dos movimentos organizados da sociedade civil, é parte componen- te do processo de transformação político-institucional. Isso caracteriza a potencialidade de constituição de sujeitos sociais identificados por objetivos comuns para transformar a gestão pública, configurando a construção de uma lógica de gestão com participação social, o que representa uma nova institucionalidade. Assim, conforme reflete Jacobi (2007), a implementação de políticas públicas tendo como base a participação tem relação com as mudanças na matriz sociopolítica dominante e que prevalece e que se baseia em uma lógica verticalizada. A ideia de participação é organizada principalmente no foco dos grupos interessados e não apenas da perspectiva dos interesses globais definidos pelo Estado. Os complexos vínculos entre representação e participação abrem o Estado a um conjunto de organizações sociais, admitindo a tensão política como método decisório, e diluindo, na medida do possí- vel, as práticas autoritárias e patrimonialistas. O principal desafio a se enfrentar é o de construir uma organização societária baseada na articulação da democracia política com a participação social nas tomadas de decisões, representada por uma maior permeabilidade da gestão às demandas dos diversos sujeitos sociais e políticos (JACOBI, 2007). O destaque é na mobilização entre a implantação de práticas descentralizadoras, como é o caso da gestão dos recursos hídricos nos comitês de bacias hidrográficas e uma engenha- ria institucional que concilia participação com heterogeneidade e diversidade, e formas mais eficazes de representatividade. Nesse contexto, Souza (2005) aponta que os envolvidos em uma ação participativa pela melhoria da qualidade de vida da coletividade torna possível uma comunidade solidária que encontra elementos capazes de potencializar ações de democracia em soluções para muitos dos impasses coletivos e individuais de nossa civilização nos campos da alimentação, saúde, educação, segurança pública, meio ambiente, dos relacionamentos humanos e familiares. Qualquer lugar em que se vivam seres humanos pode ser transformado em espaços ético-políticos alternativos por meio da ação local e a práxis da democracia. A ação da gestão participativa tem criado condições para que as pessoas se sintam moti- vadas a trabalhar e a terem uma relação de cumplicidade com propósitos de interesse difuso e melhoria da coletividade, criando condições favoráveis para a aplicação e o fortalecimento da democracia no Brasil (SOUZA, 2005). Essa maneira de atuação da sociedade civil organizada é fundamental para o controle, a fiscalização, o acompanhamento e a implementação das políticas públicas, bem como para o exercício do diálogo e de uma relação mais rotineira e orgânica entre os governos e a so- ciedade civil. Assim, a gestão participativa e a aplicabilidade da democracia têm a ver com autono- mia e participação e nessa perspectiva de governança, no Brasil existem instrumentos de Funcionamento e organizações de comitês de bacias hidrográficas Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 6 105 participação previstos na Constituição, tais como o projeto de lei de iniciativa popular, o referendo e o plebiscito. Além desses instrumentos, a Constituição prevê outros meios de participação, como é o caso dos conselhos comunitários, nos quais representantes da popu- lação podem participar de decisões nos campos da educação, saúde, direitos da criança e do adolescente, meio ambiente e as audiências públicas, nas quais a população deve ser infor- mada e ouvida sobre projetos e iniciativas do Legislativo e do Executivo, ou sobre decisões que este deve tomar. Também está prevista na Constituição a participação dos cidadãos nos conselhos exis- tentes nos níveis federal, estadual e municipal. Os conselhos costumam ter em sua compo- sição representantes de entidades ambientalistas, e de outros segmentos da sociedade civil, tais como representantes dos trabalhadores, do setor produtivo, das universidades, dentre outros. A maioria dos conselhos são consultivos, o que propicia que a sociedade apresente seu ponto vista na formulação de políticas públicas e programas, mas os que têm a atribui- ção de ser deliberativos têm a função de regulamentar leis, o que torna a participação nesses espaços ainda mais importante para os diferentes segmentos com interesse na matéria deDBO e demanda química de oxigênio: DQO) e componentes orgânicos e inorgânicos. De acordo com Moraes (2008), esses indicadores apresentam os seguintes conceitos: • Potencial hidrogeniônico (pH) – pH é a sigla usada para potencial (ou potência) hidrogeniônico porque se refere à concentração de [H+] (ou de H3O+) em uma solu- ção. Assim, o pH serve para nos indicar se uma solução é ácida, neutra ou básica. A escala de pH varia entre 0 e 14 na temperatura de 25°C. Se o valor do pH for igual a 7 (pH da água), o meio da solução (ou do líquido) será neutro. Mas se o pH for menor que 7, será ácido, e se for maior que 7, básico. • Alcalinidade da água – também pode ser identificada em função da concentração de sais alcalinos, como sódio e cálcio. Tais elementos interferem no processo de tratamento da água. A presença de cálcio e magnésio configura a dureza, e esses sais em grandes concentrações provocam incrustações em tubulações, além de au- mentar o consumo de água pelos seres humanos. • Oxigênio dissolvido (OD) – origina-se do ar e da atividade fotossintética de algas e outros vegetais aquáticos e é fundamental à sobrevivência dos organismos aeró- bios. A água com baixos teores de OD indica que recebeu uma carga de matéria orgânica que, para ser decomposta por bactérias aeróbias, necessita consumir o OD presente na água. A demanda bioquímica de oxigênio (DBO) e a demanda química de oxigênio (DQO) indicam o teor de matéria orgânica presente em determinado corpo hídrico. O aumento no teor da matéria orgânica, como o despejo de esgoto sem tratamento nos rios, representa o consumo de oxigênio por micro-organismos. • Demanda bioquímica de oxigênio (DBO): quantidade de oxigênio que seria neces- sário fornecer às bactérias aeróbias, para consumirem a matéria orgânica presente em um líquido (água ou esgoto). A DBO é determinada em laboratório, obser- vando-se o oxigênio consumido em amostras do líquido, durante cinco dias, à temperatura de 20°C. • Demanda química de oxigênio (DQO): quantidade de oxigênio necessária à oxi- dação da matéria orgânica por meio de um agente químico. A DQO também é de- terminada em laboratório, em prazo muito menor ao teste da DBO. Para o mesmo líquido, a DQO é sempre maior que a DBO. Parâmetros físicos, químicos e biológicos1 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo14 1.2.2 Solos No Brasil, os parâmetros químicos da qualidade do solo são orientados pelas Resoluções Conama 420/2009 e 460/2013 (altera o artigo 8° da Conama 420/2009 e acres- centa novo parágrafo). Em seu artigo 3° da Resolução Conama 420/2009, “a proteção do solo deve ser realizada de maneira preventiva, a fim de garantir a manutenção da sua funcionalidade ou, de ma- neira corretiva, visando restaurar sua qualidade ou recuperá-la de forma compatível com os usos previstos”. Parágrafo único. São funções principais do solo: I – servir como meio básico para a sustentação da vida e de habitat para pessoas, animais, plantas e outros organismos vivos; II – manter o ciclo da água e dos nutrientes; III – servir como meio para a produção de alimentos e outros bens primários de consumo; IV – agir como filtro natural, tampão e meio de adsorção, degradação e transfor- mação de substâncias químicas e organismos; V – proteger as águas superficiais e subterrâneas; VI – servir como fonte de informação quanto ao patrimônio natural, histórico e cultural; VII – constituir fonte de recursos minerais; e VIII – servir como meio básico para a ocupação territorial, práticas recreacionais e propiciar outros usos públicos e econômicos. Para Gomes (2006), os estudos dos parâmetros de análise química do solo podem ser aplicados tanto para uso agronômico quanto ambiental. Esses estudos podem ser agrupados em quatro classes: • Indicam os processos do solo ou de comportamento. Ex: pH, carbono orgânico. • Indicam a capacidade do solo de resistir à troca de cátions. Ex.: Tipo de argila (1:1 ou 2:1), CTC, CTA, óxidos de ferro e óxidos de alumínio. • Indicam as necessidades nutricionais das plantas. Ex: N, P, K, Ca, Mg e elementos traços (micronutrientes). • Indicam contaminação ou poluição. Ex.: metais pesados, nitrato, fosfato, agrotóxicos. Os parâmetros de análise química dos solos mais comumente utilizados estão apresen- tados a seguir. É importante ressaltar que pode ter outros indicadores específicos de análise conforme a situação de interesse, como análise de metais pesados advindos de contami- nação de determinada indústria. Nesse caso, os parâmetros serão determinados de forma específica pelo órgão ambiental fiscalizador/controlador. Parâmetros físicos, químicos e biológicos Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 1 15 • Potencial hidrogeniônico (pH): índice de concentração de H+ no solo usado para determinar se um solo é ácido (pH menor que 7), neutro (pH igual a 7) ou básico (pH maior que 7). Esse parâmetro identifica a solubilidade de nutrientes no solo, ou seja, o quanto pode ser absorvido pelos vegetais. Os solos ideais para cultivo devem apresentar pH entre 6,0 e 6,5. Porém, essa faixa pode ser estendida de 5,5 a 6,8. • Carbono orgânico: esse elemento não é um nutriente absorvível pela planta, no entanto ele está ligado à estrutura do solos podendo, na disponibilidade de água, ser um tamponante diante da presença de compostos tóxicos às plantas. • Capacidade de troca de cátions (CTC) efetiva: este parâmetro mede a quantidade total de cátions retidos na superfície das argilas ou coloides minerais e orgânicos existentes no solo, expressa em e.mg/100 g ou cmolc/kg; CTC = Ca2+ + Mg2+ + K+ + H+ + Al3+ + Na+ + NH4+ + ... Se estiver ocorrendo a troca de cátions, é um indicador que os nutrientes estão tendo mobilidade na solução do solo e portanto as plantas estarão absorvendo os nutrientes. • Nitrogênio do solo: o nitrogênio é absorvido pelas plantas nas formas nítrica (NO3–) e amoniacal (NH3–). De forma geral, a grande maioria das espécies de vegetais exi- gem teores elevados de nitrogênio para desenvolverem-se. • Condutividade elétrica e sais solúveis totais: a alta concentração de sais na região das raízes é uma limitação severa, por exemplo, em muitos solos de regiões se- miáridas e áridas, pois eles reduzem a CTC. A salinidade, portanto, constitui fator importante na avaliação da qualidade química e produtividade dos solos. 1.3 Parâmetros biológicos da água e do solo 1.3.1 Água Os parâmetros da qualidade biológica no que tange à potabilidade e que serão foca- dos neste capítulo são as algas e os coliformes. Os indicadores que são analisados determi- nam a potencialidade de um corpo de água ser portador de agentes causadores de doenças. Ressalta-se que a avaliação da qualidade de água também pode ser feita por meio de in- dicadores biológicos dos componentes de um ecossistema aquático, como o fitoplâncton, zooplâncton, bentos, macrófitas, peixes, pois comunidades bióticas refletem impactos ou alterações causadas em seus hábitats (JONSSON, 2000). A detecção dos agentes patogênicos, principalmente bactérias, protozoários e vírus, em uma amostra de água, é extremamente difícil em razão de suas baixas concentrações. Portanto, a determinação da potencialidade de um corpo d’água ser portador de agentes causadores de doenças pode ser feita de forma indireta, por meio dos organismos indicado- res de contaminação fecal do grupo dos coliformes. Parâmetros físicos, químicos e biológicos1 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo16 Os coliformes indicam a presença de micro-organismos patogênicos, provenientes de efluentes sanitários. Os principais constituintes são coliformes totais; coliformes termotolerantes; Escherichia coli; bactérias heterotróficas; protozoários (Giardia e Cryptosporidium) e clorofila “a”. Os coliformes estão presentes em grandes quantidades nas fezes do ser humano e dos animais de sangue quente. A presença de coliformes na água não representa, por si só, um perigo à saúde, mas indica a possívelconservação ambiental. Dessa forma, no contexto nacional, os instrumentos democráticos estão à disposição dos cidadãos para participar de processos de gestão de assuntos públicos. O grande desafio que ainda o Brasil deve superar é o da má ou ausência de uma educação libertadora, que forme pessoas críticas e reflexivas que combatam a dominação das minorias capitalizadas sobre as maiorias. O grande educador brasileiro Paulo Freire argumentou muitas décadas sobre um en- sino baseado no diálogo, na liberdade e no exercício de busca do conhecimento, de forma participativa e transformadora, em uma relação horizontal e de simpatia entre educando e educador, enfatizando a necessidade do processo reflexão e ação, e assim possibilitando o rompimento com o modelo de educação verticalizada (FREIRE, 1980). Ampliando seus conhecimentos Desafios e potencialidades do comitês de bacias hidrográficas (CARDOSO, 2003) A política nacional de recursos hídricos, calcada nos princípios da descen- tralização e da participação, instituiu a bacia hidrográfica como unidade de gestão. Para tanto, foi idealizado o ‘Comitê de Bacia Hidrográfica’, órgão colegiado formado por representantes da sociedade civil e do poder público. Com caráter normativo, deliberativo e jurisdicional, trata-se de um Funcionamento e organizações de comitês de bacias hidrográficas6 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo106 órgão público, mantido por recursos públicos e vinculado organicamente à estrutura administrativa de um estado, do Distrito Federal ou da União. Existem comitês de rios federais que estão vinculados diretamente à Secretaria de Recursos Hídricos (SRH), e os comitês de rios estaduais vin- culados aos órgãos de gestão dos estados. Atualmente, existem comitês de bacias hidrográficas muito pequenas, como a do rio Mosquito, por exem- plo, ao norte de Minas Gerais, que abrange a área de três municípios, até comitês das grandes bacias como as do rio Paraíba do Sul, São Francisco e Doce, que envolvem diversos estados e um grande número de municí- pios. Encontram-se ainda comitês de trechos ou afluentes de um rio que estão dentro do território de um estado. Atualmente existem 93 comitês de bacias estaduais instituídos em todo país, distribuídos em dez estados, além de seis comitês de bacias de rios estaduais. São Paulo é o estado que possui um número maior, com 22 comitês; seguido de Minas Gerais, que possui 17; e Rio Grande do Sul, com 16. O Comitê de Bacia Hidrográfica está composto pelos três setores: repre- sentantes do poder público (União, estados, Distrito Federal e municípios, conforme a abrangência da bacia), usuários das águas e organizações da sociedade civil ligadas a recursos hídricos. O número de representantes de cada ‘setor’ e os critérios para sua indicação são estabelecidos nos regi- mentos internos dos próprios comitês (algumas leis estaduais também explicitam esta composição), limitando a representação dos poderes exe- cutivos à metade do total de membros. Essas organizações desempenham um papel estratégico na política nacio- nal de recursos hídricos. Por um lado, sintetizam os princípios da lei: são os órgãos que materializam a descentralização da gestão, contam com a participação dos três setores da sociedade e têm a bacia hidrográfica como unidade de gestão. Assim, o êxito de seu funcionamento em certa medida significa o êxito da própria política das águas. Sua legitimidade tem sido conferida não apenas pela própria lei e pelas políticas nacional e esta- duais, mas por políticas paralelas que têm sido implementadas tanto no âmbito nacional como no estadual e, em alguns casos, até no municipal. Bacia hidrográfica: um território desprovido de imagem e identidade Embora o conceito de bacia hidrográfica tenha sido apropriado pelas geo- ciências, ganhou um novo estatuto na política de recursos hídricos, pelo fato de esse território ser considerado a unidade de gestão, isto é, como possuidor de um arcabouço institucional próprio para administração e deliberação sobre o uso das águas. Observa-se uma naturalização da bacia Funcionamento e organizações de comitês de bacias hidrográficas Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 6 107 hidrográfica na implementação da política, isto é, considerá-la como algo dado, que simplesmente as pessoas têm que compreender o que é. Existe, no entanto, uma série de fragilidades na incorporação da bacia como uni- dade de gestão. A bacia é um redelineamento territorial que se sobrepõe às divisões polí- tico-administrativas tradicionais entre municípios, estados e países. De antemão, a criação dessa nova unidade territorial de gestão já se aponta como um potencial gerador de conflitos, particularmente em um país como o Brasil onde os municípios são unidades fortes em termos adminis- trativos e políticos, reforçados pela política de descentralização impulsio- nada com a Constituição de 1988. Portanto, em certa medida o comitê vem na contracorrente do fortalecimento do municipalismo, já que cria uma instância supramunicipal. Isso pode tanto gerar um choque de poderes, como o comitê pode ser visto como um espaço político de disputa entre os municípios que dele fazem parte e, portanto, ficar à mercê das práticas políticas clientelistas tradicionais. Além do mais, alianças políticas em torno da água não necessariamente se estruturam a partir dessa organização geográfica. Problemas como escassez de água, seca, contaminação dos rios, construção de barragens, uso abu- sivo da água para fins de irrigação ou industrial, entre outros, facilmente extrapolam os limites da bacia e, consequentemente, a configuração dos atores políticos envolvidos tem outro formato. Por outro lado, as identida- des sociais e as áreas de atuação das instituições seguem lógicas próprias de recorte territorial que, embora muitas vezes englobem vários municípios, dificilmente correspondem aos limites de uma bacia hidrográfica. Não existe qualquer tipo de identidade social que corresponda aos limi- tes da bacia hidrográfica. A diversidade de atores que estão trabalhando na sua gestão possui percepções espaciais calcadas em outras referências territoriais; a referência da bacia terá necessariamente que ser construída e disputada com as unidades e percepções já existentes. No entanto, a maio- ria dos comitês dá pouca importância ao aspecto da construção simbólica da bacia. Um exemplo típico é a divulgação de mapas apenas com os rios ou com informações do tipo ‘qualidade da água’ ou ‘tipos de uso da água’, sem que estejam inseridos os principais referenciais geográficos dos ato- res sociais envolvidos. Existem algumas iniciativas, no entanto, que têm investido esforços no sentido de criar uma imagem da bacia como, por exemplo, a distribuição de material de divulgação e a promoção de even- tos que percorrem a bacia. Entretanto, há uma diferença grande em reco- nhecer a área, e se identificar com ela. Pode-se realizar ações que busquem Funcionamento e organizações de comitês de bacias hidrográficas6 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo108 desenvolver a capacidade da população de reconhecer o que é uma bacia hidrográfica e se ela está localizada em seu território. No entanto, quando a proposta é que essa unidade seja objeto de uma gestão coletiva, é neces- sário que haja um sentido que motive as pessoas e instituições a participar desse processo de gestão. As faces da descentralização na democracia das águas A questão da des- centralização tem se transformado num novo paradigma para as orga- nizações, onde se juntam as ideias de modernidade administrativa e de democratização das tomadas de decisão. Da perspectiva das novas formas de governo e de administração pública, significa a possibilidade de uma maior democratização, e de que o Estado assuma um novo papel, dei- xando às comunidades e ao capital privado a realização de tarefas antes centralizadas por ele mesmo. Nesse sentido, a descentralizaçãoproposta na política nacional de recur- sos hídricos se traduz, do ponto de vista institucional, na criação de instân- cias colegiadas (comitês e conselhos), onde o poder de decisão é dividido com três setores por ela definidos: o poder público, os usuários da água e a sociedade civil, tirando das mãos do estado o monopólio da gestão de um bem público. No entanto, em que medida esses ‘setores’ definidos na lei correspondem à forma como se constroem as alianças e identidades locais ou mesmo como são estruturados os grupos de interesse em torno da questão da água? Existem alguns casos que demonstram que as alian- ças frequentemente se constroem com outras lógicas. Um caso exemplar é o que ocorre no Ceará, onde o manejo da água significa negociar a dimen- são da escassez. Diversos rios intermitentes foram perenizados através de sistemas de açudes que implicam uma complexa engenharia de controle da quantidade de água liberada no rio. As alianças, no caso, se dão entre aqueles que estão no mesmo trecho de um rio de modo a garantir uma vazão equilibrada entre as diferentes regiões. Por outro lado, a interpretação do que é poder público, usuário e socie- dade civil, é extremamente variada, tanto que tem sido até objeto de regulamentação por parte de alguns governos estaduais, como no caso de Minas Gerais. Citamos alguns exemplos que ocorrem frequentemente com comitês de bacias. Uma das principais críticas, provenientes de orga- nizações da sociedade civil, é que empresas públicas de saneamento e de energia elétrica, entram na categoria de usuários, quando geralmente defendem interesses governamentais. A outra se refere a associações e sindicatos, que entrariam inicialmente na categoria de sociedade civil Funcionamento e organizações de comitês de bacias hidrográficas Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 6 109 quando podem representar interesses de grandes usuários. Há ainda o caso dos Conselhos Municipais e Câmaras de Vereadores que, embora pertencendo ao poder público municipal, também podem ser considera- dos sociedade civil. Essas interpretações variam conforme a articulação política dos atores envolvidos e do poder relativo que o comitê desempe- nhe na região. Outro aspecto apontado como uma das vantagens da descentralização é a autonomia financeiro-administrativa dos órgãos descentralizados. No caso dos comitês essa autonomia ainda está longe de ser concretizada e algumas propostas têm claramente apontado no sentido de cercear as possibilidades de que efetivamente aconteça. A autonomia se exprime em poder de decisão sobre a gestão da bacia, o que significa aplicar recursos, os quais ainda são muito escassos. A definição da cobrança é um ponto chave para que o comitê exerça sua autonomia. Por outro lado, políticas governamentais que alocam recursos para determinado tipo de interven- ção, como para saneamento, limitam imensamente as possibilidades do comitê decidir quais são suas prioridades. A ausência de uma personali- dade jurídica própria (lembremos que o comitê é um órgão público), tam- bém cerceia as alternativas de busca de recursos. A autonomia se constrói politicamente e, muitas vezes, com subterfúgios legais, como a criação de instituições paralelas com personalidade jurídica que possam assumir o papel de gestoras de recursos, enquanto não é instituída a cobrança e são criadas as Agências de Água para gerir a cobrança. Alguns artifícios da participação A ideia de participação tem redimensio- nado não só as políticas públicas, mas tem se tornado uma verdadeira pana- ceia nas organizações não governamentais e organismos internacionais, e partidos políticos de esquerda. Os comitês de Bacias, assim como diversas outras instâncias criadas nessa concepção, experimentam uma série de fra- gilidades para a participação de todos os atores que dele fazem parte. Um dos problemas é a criação de Comitês por um mandato político. O ritmo imposto pelas gestões políticas é muito diferente do ritmo das orga- nizações da sociedade civil, particularmente, daquelas representativas de grandes grupos como sindicatos e associações, que frequentemente recla- mam falta de tempo e condições de mobilização de suas bases. Juntar um grupo de entidades, com ou sem legitimidade na comunidade, criar um comitê para realizar determinadas ações e dizer que o processo foi partici- pativo, é uma estratégia bastante fácil de ser realizada e também criticada. Funcionamento e organizações de comitês de bacias hidrográficas6 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo110 Por sua vez, a implementação de uma política, negociada dentro de uma estrutura de governo, não raro sofre influência de determinados grupos que podem vir a resistir duramente à criação de espaços participativos. É interessante o caso da Bahia, em que o governo resiste veementemente em criar comitês, mas apenas associações de usuários onde não estão presen- tes organizações da sociedade civil. Há ainda uma outra estratégia muito comum, que é não negar frontalmente a participação, mas miná-la através de subterfúgios que visam destituir de poder os espaços participativos, tais como colocar uma maioria de participantes da esfera pública, não convocar para reuniões, não ‘convidar’ a participar organizações de opo- sição ou contestatárias, indicar representantes sem poder de tomar deci- são, ou mesmo limitar as competências da instância participativa. No que tange ao discurso de técnicos, é muito frequente que nas audiên- cias públicas para apresentar os Planos Diretores das Bacias, realizados por instituições de pesquisa e empresas de consultoria, aqueles que apre- sentam façam-no de uma forma que simplesmente inviabiliza sequer que se gere algum tipo de discussão, ou mesmo que se levante dúvidas. Além disso, o processo de municipalização levou à criação de tantas instân- cias de participação que, no caso de municípios pequenos, particularmente, acaba esgotando os recursos humanos disponíveis e a possibilidade de repre- sentação das organizações existentes. Isso pode levar ao fortalecimento de determinados atores, por participarem de diversas instâncias colegiadas, ou ao simples esvaziamento do comitê dada a sobrecarga dessas pessoas. Considerações finais Os desafios hoje enfrentados pelos Comitês de Bacias Hidrográficas são tão grandes quanto suas potencialidades. O processo político próprio que vem sendo construído, evidentemente, vem carregado de velhos vícios, entretanto, sua própria dinâmica traz novos ares. Não cabe dúvida que os comitês já estão contribuindo para fortalecer o papel dos diversos atores sociais na discussão e criação de políticas públi- cas que contemplem os interesses de uma camada maior da população. O que seria inadmissível é que reforcem as elites políticas e ampliem as desi- gualdades. Creio que cabe a todos – gestores e acadêmicos – estar atentos para os rumos que venham a tomar. Funcionamento e organizações de comitês de bacias hidrográficas Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 6 111 Atividades 1. Idetifique o comitê de bacia hidrográfica que atua na região em que você mora e verifique sua estrutura organizacional, perfil e tipo de instituições que participam da plenária, dinâmicas de reuniões, perfil e tipos de delibelações, projetos em de- senvolvimento e outras informações que sejam relevantes. Participe de uma reunião plenária que é aberta ao público e analise o perfil da gestão participativa. Por fim, faça um documento informativo para a comunidade em que você mora. 2. Os comitês de bacias hidrográficas no Brasil têm seu ordenamento jurídico maior regido pela Lei das Águas 9.433, de 8 de janeiro de 1997, que institui a Política Na- cional de Recursos Hídricos e cria o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Entre os objetivos dessa legislação é monitorar os usos múltiplos da água. Identifique, junto ao comitê de bacias hidrográficas que atua em sua região, os usos múltiplosda água e suas características, analisando e listando em ordem de impor- tância quanto aos impactos ambientais que são gerados. 3. Na comunidade em que está inserido (universidade, cidade, bairro, região, estado etc.) identifique as formas de gestão participativa e aplicabilidade da democracia e analise se essas formas estão organizadas de forma vertical ou horizontal e se elas proporcionam a criticidade dos participantes. Referências AGENCIA NACIONAL DAS ÁGUAS. O Comitê de bacia hidrográfica prática e procedimento. Cadernos de capacitação em recursos hídricos volume 2, 2011. Disponivel em: . Acesso em: abr. 2017. BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Lei n. 9.433, de 8 de janeiro de 1997. Institui a política nacional de recursos hídricos, cria o sistema nacional de gerenciamento de recursos hídricos. Disponível em . Acesso em: abr. 2017. CARDOSO, Maria Lúcia de Macedo. Desafios e potencialidades dos comitês de bacias hidrográficas. Revista Ciência e cultura. Vol. 55, n. 4. São Paulo out/dez. 2003. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017. FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980. GADOTTI, Moacir. Gestão democrática com participação popular no planejamento e na organização da educação nacional. Conferência Nacional de Educação, 2014 - Ministério da Educação. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017. JACOBI, Pedro Roberto; BARBI, Fabiana. Democracia e participação na gestão dos recursos hídricos no Brasil. Revista Katálysis, vol. 10, n. 2 Florianópolis jul/dez. 2007. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017. Funcionamento e organizações de comitês de bacias hidrográficas6 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo112 MIRANDA, Cristiani Olga. Descentralização e gestão participativa dos recursos hídricos. Dois estudos de caso na bacia do Médio Tietê. Dissertação para a obtenção do titulo de mestre em 2004 no Programa de pós graduação de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017. SOUZA, Amilcar Marcel. Caminhos para uma educação ambiental voltada á conservação dos ma- nanciais de abastecimento público: Um estudo de caso. Dissertação para a obtenção do titulo de mestre em 2004 no programa de pós graduação de Ciências Florestais da Universidade de São Paulo, Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz. 2005. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017. Resolução 1. Você deverá listar as informações e participar de alguma reunião do plenário que são abertas ao público e elaborar um artigo analítico/informativo para a comunidade em formatos digitais ou impressos. 2. Você deverá analisar, por meio de gráficos e marcos teóricos, os tipos de usos múl- tiplos, listando por ordem de importância os impactos ambientais que são gerados. 3. Você poderá elaborar uma matriz com as instituições pesquisadas e relacioná-las com o perfil de gestão participativa que elas desenvolvem e analisá-las se estão fo- mentando a aplicabilidade da democracia. Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 113 7 Outorga de direito e cobrança pelo uso da água A água atualmente é uma das maiores preocupações em todos os setores de diver- sas partes do mundo e tem gerado debates importantes em níveis globais e regionais em diferentes estratos sociais, religiosos e organismos estatais. Diante dessa importân- cia, neste capítulo serão apresentados os aspectos do direito de uso da água, focando a outorga e cobrança pelo uso por meio da legislação pertinente, objetos outorgáveis e seus procedimentos técnicos e administrativos. Outorga de direito e cobrança pelo uso da água7 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo114 7.1 Legislação pertinente A preocupação com a finitude da água advém com o aumento da população mundial, a poluição provocada pelas atividades humanas, o consumo excessivo e o alto grau de desper- dício, apesar de cobrir quase a totalidade da Terra. No entanto, apenas 2,5% de seu volume é de água doce, dos quais 68,9% são geleiras e neves eternas, 29,9% são de águas subterrâneas, 0,9% está na umidade do solo, nos pântanos e nas geadas e apenas 0,3% está em rios e lagos (UOL EDUCAÇÃO, 2007). Com o crescimento da população e o modelo desenvolvimentista adotado, a pressão nos recursos naturais é insustentável, levando à exaustão e até mesmo ao seu esgotamento. Diante disso, os instrumentos jurídicos de ordenamento para bens difusos e coletivos, como é o caso da água, se fazem necessários e no Brasil o instrumento para ordenar o seu uso é a outorga de direito de uso dos recursos hídricos. 7.1.1 Direitos de uso O direito de uso é o instituto jurídico de direito administrativo pelo qual o poder pú- blico, a União, os Estados ou o Distrito Federal atribui ao cidadão nas pessoas física e jurí- dica. O uso da água pelo terceiro impõe a obrigação de que este a destine para sua própria finalidade que, no entanto, pode ser limitada pela administração pública tendo como base conceitos técnicos e jurídicos, porém nunca desvirtuada de seu fim natural. Portanto, a ou- torga não está no direito de disposição, circunscrevendo-se apenas ao simples direito de uso, conforme preconiza o art. 18, da Lei 9.433/97, a água, como um bem de domínio público, deve, como princípio fundamental, ser administrada pelo próprio ente público a quem a Constituição Federal legitimou competência para administrá-la. A outorga é a faculdade de repassar essa administração a terceiros (MEDEIROS, 2010). A União, o Estado ou o Distrito Federal, nas águas que lhes compete administrar, é quem, no exercício do típico poder discricionário, decidirá se essa ou aquela água será objeto de direi- to de uso. Uma vez outorgado o uso, contudo, a administração pública concedente não perde o controle da delegação. Portanto, a água será apenas usada pelo outorgado, mas, se este não cumprir os termos da outorga, não usá-la por três anos consecutivos, houver necessidade premente para aten- der às situações de calamidade, de prevenção ou reversão de degradação ambiental, houver necessidade para atender aos usos prioritários de interesse coletivo ou navegabilidade do corpo de água, a outorga de direito de uso poderá ser suspensa parcial ou totalmente, em definitivo ou por prazo determinado. 7.1.2 Outorga de direito de uso de recursos hídricos A outorga de direito de uso de recursos hídricos é um dos seis instrumentos da Política Nacional de Recursos Hídricos, estabelecidos no inciso III, do art. 5° da Lei Federal 9.433, de Outorga de direito e cobrança pelo uso da água Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 7 115 8 de janeiro de 1997. Esse instrumento tem como objetivo assegurar o controle quantitativo e qualitativo dos usos da água e o efetivo exercício dos direitos de acesso aos recursos hídricos. De acordo com o inciso IV, do art. 4° da Lei Federal 9.984, de 17 de junho de 2000, com- pete à Agência Nacional de Águas (ANA) outorgar, por intermédio de autorização, o direito de uso de recursos hídricos em corpos de água de domínio da União, bem como emitir ou- torga preventiva. Também é competência da ANA a emissão da reserva de disponibilidade hídrica para fins de aproveitamentos hidrelétricos e sua consequente conversão em outorga de direito de uso de recursos hídricos. A outorga de direito de uso ou interferência de recursos hídricos é um ato adminis- trativo, de autorização ou concessão, mediante qual o Poder Público faculta ao outorgado fazer uso da água por determinadotempo, finalidade e condição expressa no respectivo ato (DAAE, 2016). Como mencionado, a Política Nacional de Recursos Hídricos é instrumento jurídico que traz o ordenamento para a outorga de direito de uso de recursos hídricos e baseia-se nos seguintes fundamentos, que orientarão a implementação dos seus instrumentos definidos, entre eles a outorga. I. – a água é um bem de domínio público; II. – a água é um recurso natural limitado, dotado de valor econômico; III. – em situações de escassez, o uso prioritário dos recursos hídricos é o consu- mo humano e a dessedentação de animais; IV. – a gestão dos recursos hídricos deve sempre proporcionar o uso múltiplo das águas; V. – a bacia hidrográfica é a unidade territorial para implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e atuação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos; VI. – a gestão dos recursos hídricos deve ser descentralizada e contar com a parti- cipação do Poder Público, dos usuários e das comunidades. A Lei 9.433/97, na seção III, que trata da outorga de direito de uso de recursos hídricos, estabelece que: Art. 11. O regime de outorga de direitos de uso de recursos hídricos tem como objetivos assegurar o controle quantitativo e qualitativo dos usos da água e o efetivo exercício dos direitos de acesso à água. Art. 12. Estão sujeitos a outorga pelo Poder Público os direitos dos seguintes usos de recursos hídricos: Art. 13. Toda outorga estará condicionada às prioridades de uso estabelecidas nos Planos de Recursos Hídricos e deverá respeitar a classe em que o corpo de água estiver enquadrado e a manutenção de condições adequadas ao transporte aquaviário, quando for o caso. Parágrafo único. A outorga de uso dos recursos hídricos deverá preservar o uso múltiplo destes. Outorga de direito e cobrança pelo uso da água7 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo116 Art. 14. A outorga efetivar-se-á por ato da autoridade competente do Poder Executivo Federal, dos Estados ou do Distrito Federal. §1.º O Poder Executivo Federal poderá delegar aos Estados e ao Distrito Federal competência para conceder outorga de direito de uso de recurso hídrico de do- mínio da União. Art. 15. A outorga de direito de uso de recursos hídricos poderá ser suspensa parcial ou totalmente, em definitivo ou por prazo determinado, nas seguintes circunstâncias: I – não cumprimento pelo outorgado dos termos da outorga; II – ausência de uso por três anos consecutivos; III – necessidade premente de água para atender a situações de calamidade, in- clusive as decorrentes de condições climáticas adversas; IV – necessidade de se prevenir ou reverter grave degradação ambiental; V – necessidade de se atender a usos prioritários, de interesse coletivo, para os quais não se disponha de fontes alternativas; VI – necessidade de serem mantidas as características de navegabilidade do cor- po de água. Art. 16. Toda outorga de direitos de uso de recursos hídricos far-se-á por prazo não excedente a trinta e cinco anos, renovável. Art. 17. (VETADO) Art. 18. A outorga não implica a alienação parcial das águas, que são inaliená- veis, mas o simples direito de seu uso. 7.1.3 Cobrança pelo uso da água Segundo a Agência Nacional das Águas (2016), a cobrança pelo uso de recursos hídricos é um dos instrumentos de gestão da Política Nacional de Recursos Hídricos, instituída pela Lei 9.433/97, e tem como objetivos: i) dar ao usuário uma indicação do real valor da água; ii) incentivar o uso racional da água e iii) obter recursos financeiros para recuperação das bacias hidrográficas do País. É importante ressaltar que essa cobrança não é um imposto, mas uma remuneração pelo uso de um bem público que é difuso e de interesse da coletividade, cujo preço é fixado com base na participação dos usuários da água, da sociedade civil e do poder público no âmbito dos comitês de bacia hidrográfica, a quem a Legislação brasileira estabelece a com- petência de sugerir ao respectivo Conselho de Recursos Hídricos os mecanismos e valores de cobrança a serem adotados na sua área de atuação política-geográfica. Na seção IV da Lei Federal 9.433, de 8 de janeiro de 1997, estão contidas as diretrizes para a cobrança pelo uso de recursos hídricos. Seguem as orientações jurídicas. Outorga de direito e cobrança pelo uso da água Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 7 117 Art. 19. A cobrança pelo uso de recursos hídricos objetiva: I – reconhecer a água como bem econômico e dar ao usuário uma indicação de seu real valor; II – incentivar a racionalização do uso da água; III – obter recursos financeiros para o financiamento dos programas e interven- ções contemplados nos planos de recursos hídricos. Art. 20. Serão cobrados os usos de recursos hídricos sujeitos a outorga, nos ter- mos do art. 12 desta Lei. Parágrafo único. (VETADO) Art. 21. Na fixação dos valores a serem cobrados pelo uso dos recursos hídricos devem ser observados, dentre outros: I – nas derivações, captações e extrações de água, o volume retirado e seu regime de variação; II – nos lançamentos de esgotos e demais resíduos líquidos ou gasosos, o volume lançado e seu regime de variação e as características físico-químicas, biológicas e de toxidade do afluente. Art. 22. Os valores arrecadados com a cobrança pelo uso de recursos hídricos serão aplicados prioritariamente na bacia hidrográfica em que foram gerados e serão utilizados: I – no financiamento de estudos, programas, projetos e obras incluídos nos Planos de Recursos Hídricos; II – no pagamento de despesas de implantação e custeio administrativo dos órgãos e entidades integrantes do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos. §1.º A aplicação nas despesas previstas no inciso II deste artigo é limitada a sete e meio por cento do total arrecadado. §2.º Os valores previstos no caput deste artigo poderão ser aplicados a fundo perdido em projetos e obras que alterem, de modo considerado benéfico à cole- tividade, a qualidade, a quantidade e o regime de vazão de um corpo de água. §3.º (VETADO) Art. 23. (VETADO) 7.2 Objetos de outorga O direito de uso da água advém de uma discussão antiga desde 1934 com o Código das Águas que definia tipos de propriedades da água diferenciando poder público federal, estadual e municipal e também o direito privado. Em 1988, a Constituição Federal definiu o domínio público das águas entre Estado e União. Por fim, a Política Nacional dos Recursos Hídricos, definida pela Lei 9433/1997, traça as diretrizes e define as regras para o uso múl- tiplo da água. Outorga de direito e cobrança pelo uso da água7 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo118 7.2.1 Categorias de outorga Conforme ordena a Lei 9433/1997, ocorrem três categorias de outorga: a outorga pre- ventiva, a outorga de direito de uso e a declaração de reserva de disponibilidade hídrica. • Outorga preventiva: A emissão da outorga preventiva está ordenada juridicamente no artigo 6° da Lei Federal 9.984/2000 e tem como diretriz o ordenamento da reserva da vazão outorgável, permitindo que os interessados façam o planejamento dos em- preendimentos tendo como base os limites estabelecidos para o uso. De acordo com o referido ordenamento jurídico, a outorga preventiva não confere o direito de uso de recursos hídricos, e sim as adequações de volumes a serem solicitadas conforme as vazões dos corpos hídricos, e seu prazo de validade é fixado levando-se em conta a dimensão do empreendimento, limitando-se ao prazo máximo de três anos. A Resolução CNRH 65, de 7 de dezembro de 2006, define a outorga preventiva como manifestação prévia, tornando importante instrumento de articulação dos procedimentos técnicos e administrativos para obtenção da outorga de direito de uso de recursos hídricos que se dá na próxima fase do processo de outorga. • Outorga de direito de uso de recursos hídricos: A outorga de direito de uso de recursos hídricos dá o direito do requerentede uso de recursos hídricos. Ainda nessa fase, a outorga não autoriza a instalação do empreendimento, apenas con- fere o direito de uso dos recursos hídricos. Para a instalação do empreendimento são necessárias outras autorizações, como a licença ambiental emitida pelo órgão ambiental competente na localidade do empreendimento. Conforme prevê a Lei 9.433, de 1997, a outorga de direito de uso de recursos hídricos não tem validade indeterminada, sendo concedida por um prazo limitado, tendo a lei es- tipulado sua validade máxima em 35 anos, ainda que possa haver renovação, suspensão, revogação e até sua transferência para terceiros. • Declaração de reserva de disponibilidade hídrica: O reservatório de grande vo- lume de água tem como característica ser utilizado para a geração de energia elé- trica, o qual está condicionado à obtenção da outorga de direito de uso de recursos hídricos para a exploração do potencial hidrelétrico. A Lei 9.984/2000 em seu arti- go 7° estabelece que os interessados na concessão do uso de potencial de energia hidráulica em corpo de água devem pedir autorização junto à Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e esta deverá promover junto à ANA a prévia obten- ção da declaração de reserva de disponibilidade hídrica (DRDH). No caso de aproveitamentos hidrelétricos, dois bens públicos são objetos de autorização pelo poder público: o uso do potencial de energia hidráulica e o uso da água. Anteriormente à licitação da concessão ou à autorização do uso do potencial de energia hidráulica, a auto- ridade competente do setor elétrico deve obter a declaração de reserva de disponibilidade hídrica (DRDH) junto ao órgão gestor de recursos hídricos. Outorga de direito e cobrança pelo uso da água Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 7 119 Posteriormente, a DRDH é convertida em outorga de direito de uso em nome da entida- de que receber da autoridade competente do setor elétrico a concessão ou autorização para uso do potencial de energia hidráulica. 7.2.2 Usos dos recursos hídricos que dependem da outorga Conforme está disposto na Lei Federal 9.433/1997, dependem de outorga os seguintes usos da água que estão apresentados no quadro 1. Quadro 1 – Usos que dependem da outorga de uso da água. Tipos de usos Características A derivação ou captação de parcela da água existen- te em um corpo de água para consumo final. – Abastecimento público, ou insu- mo de processo produtivo. – A extração de água de aquífero subterrâneo para consumo final ou insumo de processo produtivo. Lançamento em corpo de água de esgotos e demais resíduos líquidos ou gasosos. – Resíduos tratados ou não, com o fim de sua diluição, transporte ou disposição final. Uso de recursos hídricos com fins de aproveitamento dos potenciais hidrelétricos. – Dois bens públicos são objetos de au- torização pelo poder público: • o uso do potencial de energia hidráulica; • o uso da água para consumo. Outros usos que alterem o regime, a quantidade ou a qualidade da água existen- te em um corpo de água. – Irrigação utilizada na agricultura. – Uso industrial. – Uso em estabelecimentos particulares como clu- bes, condomínios, sítios, chácaras e fazendas. – Uso em estabelecimentos de bens pú- blicos como hospitais, creches etc. Fonte: Elaborado pelo autor. 7.2.3 Usos dos recursos hídricos que não dependem da outorga De acordo com o §1° do Art. 12 da Lei 9433/97, regulamentado pelo Art. 6° da Resolução 707/2004 da Agência Nacional das Águas (ANA), não são objeto de outorga de direito de uso de recursos hídricos os usos relacionados no quadro 2, no entanto são obrigados a ser cadas- trados no Cadastro Nacional de Recursos Hídricos pelo link . Outorga de direito e cobrança pelo uso da água7 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo120 Quadro 2 – Usos que não dependem da outorga de uso da água. Tipos de usos Características Serviços de limpeza e con- servação de margens. Dragagem, desde que não alterem o re- gime, a quantidade ou qualidade da água existente no corpo de água. Obras de travessia de corpos de água. Desde que não interfiram na quantidade, qualidade ou regime das águas, cujo cadas- tramento deve ser acompanhado de atestado da Capitania dos Portos quanto aos aspectos de compatibilidade com a navegação. Usos com vazões de captação máxi- mas instantâneas inferiores a 1,0 L/s. Quando não houver deliberação diferente por parte do Conselho Nacional de recursos Hídricos ou um critério diferente expresso no plano da bacia hidrográfica em questão. Fonte: Elaborado pelo autor. 7.3 Procedimentos técnicos e administrativos Os critérios orientadores para a outorga de direito de uso de recursos hídricos estão contidos na Resolução CNRH 16, de 8 de maio de 2001, a qual estabelece critérios para emissão dos atos administrativos pela autoridade outorgante. Conforme estabelece a Resolução CNRH 16/2001, para a emissão das outorgas preven- tivas e de direito de uso deverão ser observadas as prioridades de uso estabelecidas nos Planos de Recursos Hídricos no âmbito do comitê de bacias hidrográficas, a classe em que o corpo de água estiver enquadrado, a preservação dos usos múltiplos previstos, a manu- tenção de condições adequadas ao transporte aquaviário, e demais restrições impostas pela legislação, seja ela estadual ou federal. A análise do pedido de outorga preventiva e de direito de uso de recursos tem suas diretrizes estabelecidas no artigo 5° da Resolução ANA 707, de 21 de dezembro de 2004, em que a Agência Nacional das Águas (ANA) deverá observar o disposto no Plano Nacional de Viação, com a finalidade de manter as características de navegabilidade no corpo hídrico, valendo-se de informações da Capitania dos Portos, quando couber. O modelo de outorga de competência da ANA está definido na Resolução ANA 147, de 4 de maio de 2012. Esse modelo faz referência aos usos de recursos hídricos de domínio da União registrados no Cadastro Nacional de Usuários de Recursos Hídricos (CNARH). Constituem-se, ainda, em modelos de resolução de outorga de direito de uso de recursos hídricos de domínio da União individual simplificada e coletiva simplificada. As determinações e características técnicas dos usos de recursos hídricos objeto das resoluções de outorga estão disponíveis no portal do Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNARH) em e na página eletrônica da ANA . Outorga de direito e cobrança pelo uso da água Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 7 121 O critério técnico, para atender à exigência de casos especiais, orienta que poderão ser emitidas resoluções de outorga que discriminem as características técnicas dos usos de re- cursos hídricos outorgados. Conforme definidas na Resolução 147/2012, as outorgas de di- reito de uso podem ser deferidas por meio de resolução individual ou resolução coletiva. 7.3.1 Outorga de direito de uso – individual A Resolução do CNRH 16/2001 define que “A outorga de direito de uso de recursos hídricos extingue-se, sem qualquer direito de indenização ao usuário, nas seguintes circunstâncias”. I – morte do usuário – pessoa física; II – liquidação judicial ou extrajudicial do usuário – pessoa jurídica;” Nesses casos, a ANA deverá emitir resolução para um mesmo usuário, diversos usos outorgados em corpos de água, no contexto da análise de um mesmo empreendimento. Quando da situação da solicitação de outorga de direito de uso por ministérios, secreta- rias de estado e prefeituras municipais, deve-se observar o estabelecido no Código Civil em que a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios é que têm personalidade jurídica, portanto, são eles que devem receber a outorga. Assim, essas outorgas devem ser emitidas da seguinte forma: • outorgar à União, por intermédio dos Ministérios; • outorgar ao Estado, por intermédio das Secretarias de Estado; • outorgar ao Município, porintermédio das prefeituras municipais. 7.3.2 Outorga de direito de uso – coletiva A Agência Nacional das Águas (ANA) utiliza o termo outorga coletiva para referir-se a um ato da autoridade outorgante, no qual são outorgados diversos usuários e as respecti- vas utilizações dos recursos hídricos em uma mesma resolução. Apesar de ser uma única resolução, a responsabilidade é individualizada, portanto, cada usuário relacionado é indi- vidualmente responsável pelo uso que lhe foi outorgado, cabendo a aplicação de todas as regras técnicas e legais. É comum esse tipo de situação após a realização de uma campanha de regularização de uso em determinada bacia hidrográfica, na qual é publicada uma resolução listando os usuários, os respectivos empreendimentos e os usos de recursos hídricos, bem como a vali- dade das respectivas outorgas preventivas ou de direito de uso de recursos hídricos. Um exemplo bem típico de outorga coletiva pode ser verificado na Resolução ANA 860/2011, que trata de outorgas na bacia do Rio Paraíba do Sul. Em uma mesma Resolução constam diversos usuários outorgados, que responderão individualmente por qualquer uso indevido da outorga e poderão solicitar as respectivas renovações mediante notificação à ANA, com antecedência mínima de 90 dias do término de sua validade. Outorga de direito e cobrança pelo uso da água7 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo122 Nesse caso, conforme informa a ANA na referida resolução, será possível o desmembra- mento da outorga coletiva em diversas novas resoluções individuais, quando das respectivas renovações ou solicitações de alteração ou transferência. A segunda situação é aquela em que, após a definição de um marco regulatório ou alo- cação negociada de água, é publicada uma resolução outorgando diversos usuários, estando todos comprometidos com uma vazão máxima a ser utilizada. O exemplo desse tipo de outorga coletiva aconteceu no entorno dos reservatórios de Estreito e Cova da Mandioca, na bacia do Rio Verde Pequeno, entre os estados de Minas Gerais e Bahia e está publicado na Resolução ANA 465, de 4 de julho de 2011, que outorgou o direito de uso de água a 77 usuários. Nesse exemplo citado, os usuários têm interesse comum na utilização dos recursos hídricos e, provavelmente, assim permanecerão até o estabelecimento de novo marco regulatório, objeto de nova alocação da água. 7.3.3 Indeferimento do pedido de outorga A Resolução CNRH 16/2000 em seu artigo 19 define que os pedidos de outorga pode- rão ser indeferidos em função do não cumprimento das exigências técnicas ou legais ou do interesse público, mediante decisão devidamente fundamentada, devendo ser publicada na forma de extrato no Diário Oficial. O ato de indeferimento do pedido de outorga representa a não aprovação pela ANA da solicitação de outorga encaminhada pelo interessado. O indeferimento pode também se referir a um pedido de alteração das características outorgadas, como aumento de vazões de captação e de lançamento e alteração das cargas de parâmetros de qualidade outorgáveis. O indeferimento pode ter diversos motivos, como por exemplo, pela baixa precipitação em determinado ano e consequente indisponibilidade hídrica, pela não adequação das va- zões solicitadas aos limites adotados pela ANA em função do porte e das características do empreendimento, ou pela não adequação às normas relacionadas à outorga. 7.3.4 Suspensão e revogação de outorga A Resolução ANA 833, de 5 de dezembro de 2011, define os critérios técnicos e legais para a suspensão parcial ou total de outorga de direito de uso de recursos hídricos. Seguem as principais diretrizes: I – não cumprimento pelo outorgado dos termos da outorga; II – ausência de uso por três anos consecutivos; III – necessidade premente de água para atender a situações de calamidade, in- clusive decorrentes de condições climáticas adversas; IV – necessidade de prevenir ou reverter grave degradação ambiental; V – necessidade de atender a usos prioritários de interesse coletivo para os quais não se disponha de fontes alternativas; Outorga de direito e cobrança pelo uso da água Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 7 123 VI – necessidade de serem mantidas as características de navegabilidade do cor- po de água; VII – conflito com normas posteriores sobre prioridade de usos de recursos hídricos; VIII – indeferimento ou cassação da licença ambiental, se for o caso desta exigência; XIX – não início da implantação do empreendimento objeto da outorga em até dois anos, contados da data de publicação da outorga de direito de uso de recur- sos hídricos; X – não conclusão da implantação do empreendimento projetado em até seis anos, contados da data de publicação da outorga de direito de uso de recursos hídricos; XI – de ser instituído regime de racionamento de uso de recursos hídricos; XII – se o Conselho de Defesa Nacional (CND) vier a estabelecer critérios e con- dições de utilização dos recursos naturais em Faixa de Fronteira, se for o caso; XIII – usuário de recursos hídricos fraudar as medições dos volumes de água utilizados ou declarar valores diferentes dos medidos; XIV – usuário de recursos hídricos obstar ou dificultar a ação fiscalizadora das autoridades competentes no exercício de suas funções. Ampliando seus conhecimentos A cobrança pelo uso da água como mecanismo de sustentabilidade (ROSA; RIBEIRO, 2014) Muitas são as possíveis causas da escassez de água, não se propondo este artigo a esgotá-las ou tratar do tema como enfoque principal. Quando se fala em escassez, importante lembrar que não está sendo questionada a apenas quantidade de água disponível, mas, igualmente a qualidade da água existente. De certo que o desperdício e a poluição são inegáveis causas da escassez da disponibilidade deste recurso, causas essas que poderiam ser minimizadas com políticas de conscientização da população e aplicação de penalidades tais como multas. Contudo, infelizmente a crise da água se deve a outros fatores atrelados dire- tamente ao desrespeito com a natureza e aos recursos ambientais existentes. O desmatamento pode ser indicado como um importante fator que con- tribui para o problema de escassez da disponibilidade da água. Ao se retirar a cobertura vegetal, prejudica-se a infiltração da água no solo que Outorga de direito e cobrança pelo uso da água7 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo124 alimentaria os lençóis freáticos, fonte de nascentes, que alimentam cór- regos e ribeirões que formam os rios. Dessa forma, ao longo do tempo o volume de água nos rios vai se reduzindo. Por outro lado, sem cobertura vegetal, as águas escoam pelo solo, carreando sedimentos, desaguando diretamente nos rios. Assim, as águas que deveriam percorrer seus cami- nhos naturais de infiltração e alimentação da rede hídrica, escoam rapida- mente causando inundações. Sobre esta causa, manifesta-se Viegas que “Em todo esse contexto, o desman- telamento das matas ciliares ao longo dos tempos e nos mais variados locais da terra agrava a crise da água, fazendo desaparecer rios e lagos; tornando desprotegidas as nascentes; escasseando a água dos lençóis subterrâneos, deixando de filtrar e frear a velocidade da água oriunda das chuvas, bem como produtos químicos, como agrotóxicos, que chegam ao leito das lagoas, lagos e rios, banhado, prejudicando a qualidade das águas, etc.” Havendo alteração no ciclo natural da água, decorrente das causas apon- tadas, acaba-se por gerar a crise hoje latente. Se, por muito tempo a crise da água foi vista como apenas a má distribuição do recurso pelo mundo, hoje, as ações antrópicas que promovem o desmatamento e a poluição dos recursos hídricos pelo lançamento de esgotos domésticos e efluentes industriais agravam o problema, tornando essa fonte primordial de vida cada vez mais escassa para os seus diversos usos. Uma das soluções apontadas por especialistas para sanar a crise hídrica, é a elaboraçãode um planejamento de políticas públicas consistentes, que leve em consideração as causas descritas e que de fato utilize de instru- mentos conferidos por lei para garantir a preservação do recurso. A cobrança pelo uso dos recursos hídricos como instrumento de política pública (Lei 9.433/97) Considerada a necessidade de promoção do desenvolvimento de forma equilibrada, com vistas à proteção dos recursos ambientais disponíveis, cabe ao Poder Público definir metas e ações com vistas a resguardar estes bens de uso comum de todos, mediante a elaboração de políticas públicas. Sobre o significado de políticas públicas Granziera manifestou-se: A expressão políticas públicas é normalmente entendida como conjunto de ações decididas e implementadas pelo Estado. O qualificativo públicas advém da concepção de que o Estado tem por finalidade realizar o bem comum, o interesse público. [...] Nesse sentido, o bem comum só pode ser Outorga de direito e cobrança pelo uso da água Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 7 125 entendido como sendo o conjunto dos valores que em determinado período a sociedade – ou a maioria de seus membros aceita e se propõe a realizar. Com bases em tais propósitos, no âmbito de proteção das águas, fora edi- tada a Lei n.º 9.433/97 que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos, regulamentando o art. 21, XIX, da Constituição Federal que confere à União a competência para elaborar e executar planos nacionais e regionais de ordenação do território e de desenvolvimento econômico e social. Retornando à Lei 9.433/97, seu art. 1º traça os fundamentos nos quais se baseia a PNRH implantada. Art. 1.º A Política Nacional de Recursos Hídricos baseia-se nos seguintes fundamentos: I – a água é um bem de domínio público; II – a água é um recurso natural limitado, dotado de valor econômico; III – em situações de escassez, o uso prioritário dos recursos hídricos é o consumo humano e a dessedentação de animais; IV – a gestão dos recursos hídricos deve sempre proporcionar o uso múl- tiplo das águas; V – a bacia hidrográfica é a unidade territorial para implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e atuação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos; VI – a gestão dos recursos hídricos deve ser descentralizada e contar com a participação do Poder Público, dos usuários e das comunidades. Observa-se que o legislador, ao definir a água como um bem público, afasta portanto, a existência de águas particulares, sendo certo que a utilização deste bem deverá se dar de forma consciente dada sua natureza limitada. Um aspecto importante a ser considerado é o valor econômico atribuído à água, sendo um fundamento apontado no inciso II do artigo acima citado. Para uma melhor compreensão desta valoração, Machado assevera que a água “por ser um recurso natural limitado, é passível de ser mensurada dentro dos valores da economia e essa valoração deve levar em conta o preço da conservação, da recuperação e da melhor distribuição desse bem”. Ora, na medida em que há diminuição da disponibilidade da água, é natural que haja a imposição de um custo, o qual vem se elevando ao longo dos tempos. Outorga de direito e cobrança pelo uso da água7 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo126 Atividades 1. A Lei Federal 9.433, de 8 de janeiro de 1997, define os critérios de outorga de direito do uso da água no Brasil, no entanto os estados também têm autonomia e competên- cia para legislar sobre temas específicos ressalvando a lei maior. Pesquise os ordena- mentos jurídicos em seu estado. 2. Além dos usos da água que dependem de outorga definidos pela Lei Federal 9.433/1997, pesquise na legislação estadual verificada na atividade 1 se há particula- ridades em seu estado. 3. A cobrança pelo uso da água está estabelecida na Lei Federal 9.433, de 8 de janeiro de 1997, como instrumento de políticas públicas. Pesquise em seu estado quais ba- cias hidrográficas já estão aplicando esse instrumento e quais ações e projetos estão sendo utilizados com esses recursos. Dica: essas informações podem ser acessadas nas secretarias de recursos hídricos e meio ambiente estaduais e nas secretarias exe- cutivas dos comitês de bacias hidrográficas. Referências AGENCIA NACIONAL DAS ÁGUAS – ANA. Manual de procedimentos técnicos e administrativos de outorga de direito de uso de recursos hídricos da agência nacional de águas. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017. ______. Outorga de direito de uso de recursos hídricos. Vídeo técnico disponível no Youtube. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017. ______. Resolução ANA n. 147, de 04 de maio de 2012. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017. ______. Resolução ANA n. 833, de 05 de dezembro de 2011. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017. ______. Resolução ANA n. 860/2011. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017. ______. Resolução ANA n. 465, de 04 de julho de 2011. Disponível em . Acesso em: abr. 2017. ______. Lei n. 9.433, de 8 de janeiro de 1997. Institui a política nacional de recursos hídricos, cria o sistema nacional de gerenciamento de recursos hídricos. Disponível em: . Acesso em: abr. 2016. ______. Lei n. 9.984, de 17 de julho de 2000. Dispõe sobre a criação da Agência Nacional de Águas - ANA, entidade federal de implementação da política nacional de recursos hídricos e de coordenação do sistema nacional de gerenciamento de recursos hídricos. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017. Outorga de direito e cobrança pelo uso da água Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 7 127 ______. Lei n. 9.433, de 8 de janeiro de 1997. Institui a política nacional de recursos hídricos, cria o sistema nacional de gerenciamento de recursos hídricos. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017. ______. Lei n. 9.984, de 17 de julho de 2000. Dispõe sobre a criação da Agência Nacional de Águas - ANA, entidade federal de implementação da política nacional de recursos hídricos e de coordenação do sistema nacional de gerenciamento de recursos hídricos. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017. MEDEIROS, Nathalie da Nóbrega. Outorga do direito de uso das águas: sustentabilidade e com- petência. Revista Eletrônica Jusbrasil, 2010. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017. ROSA, Bruna Pereira; RIBEIRO, José Cláudio Junqueira. A cobrança pelo uso da água como meca- nismo de sustentabilidade. Revista do Mestrado em Direito. Volume 9 n. 2 p. 59-90, jul-dez, 2014. Disponível em: . Acesso em: . Acesso em: abr. 2017. UOL EDUCAÇÂO. Água potável: Apenas 3% das águas são doces. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017. Resolução 1. Você deverá pesquisar os ordenamentos jurídicos de seu estado e listá-los. 2. Você deverá pesquisar as particularidades dos usos da água que dependem de ou- torga na legislação estadual pesquisada. 3. Você deverá pesquisar e listar os comitês e na mesma tabela relacionar os projetos e asações que estão sendo desenvolvidos. Se houver disponibilidade, poderá visitar esses projetos para uma análise mais crítica. Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 129 8 Gestão e manejo de recursos hídricos em áreas urbanas A gestão de recursos hídricos ganhou força no início dos anos 1990 quando os Princípios de Dublin, na Irlanda, foram acordados na reunião preparatória à Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente em 1992, no Rio de Janeiro. Diz o Princípio 1 que a gestão dos recursos hídricos, para ser efetiva, deve ser integrada e considerar todos os aspectos, físicos, sociais e econômicos. Para que essa integração tenha o foco adequado, sugere-se que a gestão esteja baseada nas bacias hidrográficas como forma de gestão e manejo de recursos hídricos, tanto em áreas rurais como urbanas. Dessa forma, neste capítulo serão apresentados alguns conceitos e práticas de manejo e ges- tão de recursos hídricos, dando destaque para o plano de macrodrenagem urbana, segurança hídrica para abastecimento público e metodologias de educação ambiental voltada à gestão e manejo de recursos hídricos em áreas urbanas. Gestão e manejo de recursos hídricos em áreas urbanas8 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo130 8.1 Plano de macrodrenagem urbana A infraestrutura urbana de modo geral, no Brasil, tem sido projetada de forma desorga- nizada, assim como o próprio planejamento urbano, causando impactos ambientais signifi- cativos, como aumento da frequência de inundações, redução da qualidade e quantidade de águas nas bacias hidrográficas, permeabilização do solo etc. Para Zacharias (2010), isso ocorre porque a maior parte das cidades, ao elaborar seu pla- nejamento ambiental, baseia-se nos modelos habituais de caráter funcionalista, em que áreas urbanas são divididas em macrozonas e/ou zonas, de acordo com suas categorias de usos e atividades, sem sequer incorporar diretrizes que visem à proteção e ao controle ambientais, sobretudo em áreas de fundo de vale das bacias hidrográficas, declividades impróprias, denso fluxo de mananciais, aumento de permeabilidade do solo, probabilidade de erosão, intensificação de poluição, grande potencial para contaminação e formação de ilha de calor, entre outras. Assim sendo, a tendência das cidades brasileiras é de se reformularem nas formas de se planejar em suas múltiplas áreas de gestão. No que tange às inundações, os termos de pla- nejamento de drenagem urbana precisam escoar a água precipitada o mais rápido possível e as áreas ribeirinhas aos corpos de água devem ser preservadas como área de segurança de inundação. Ou seja, em caso de inundações, essas áreas não devem ter ocupações humanas com moradias, e sim com parques públicos, florestas ou outros usos que não coloquem em risco as pessoas. Uma das cidades brasileiras que é pioneira nesse tipo de planejamento é Curitiba e, de acordo a Secretaria de Recursos Hídricos do Estado do Paraná (2002), com esse tipo de ação, para alterar essa tendência é necessário adotar princípios de controle de enchentes que considerem o seguinte: – aumento de vazão devido à urbanização não deve ser transferido para Jusante; – bacia hidrográfica deve ser o domínio físico de avaliação dos impactos resul- tantes de novos empreendimentos; – horizonte de avaliação deve contemplar futuras ocupações urbanas; – as áreas ribeirinhas somente poderão ser ocupadas dentro de um zoneamento que contemple as condições de enchentes; – as medidas de controle devem ser preferencialmente não estruturais. De acordo com professor Tucci (2000), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, de maneira geral, o planejamento urbano, mesmo envolvendo fundamentos interdisciplina- res, na prática, é realizado em uma esfera mais restrita de conhecimento. A planificação da ocupação do espaço urbano no Brasil, por meio do Plano Diretor Urbano, não tem conside- rado aspectos de drenagem urbana e da qualidade de água, que trazem grandes transtornos e custos para a sociedade e para o meio ambiente. Gestão e manejo de recursos hídricos em áreas urbanas Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 8 131 8.1.1 Drenagem urbana Tucci (2008) define drenagem urbana como sendo um conjunto de medidas que têm por objetivo reduzir os riscos que as populações estão sujeitas, diminuir prejuízos causados por inundações e tornar possível o desenvolvimento urbano de forma harmônica, articulada e sustentável. Ressalta, ainda, que as consequências da urbanização que mais interferem na drenagem urbana são modificações do escoamento superficial direto. Barros (2005) diz que o sistema de drenagem tem que ser projetado para dar vazão ao excesso de chuvas e o seu dimensionamento depende da ocorrência do fenômeno natural. Esse autor subdivide o sistema de drenagem em medidas estruturais, correspondentes às obras hidráulicas essenciais para se obter uma boa drenagem do escoamento superficial, e medidas não estruturais, aquelas que correspondem a várias propostas para minimizar os efeitos das chuvas intensas nas áreas urbanas. As principais medidas estruturais são: • Sistema de coleta da água da chuva no lote e lançamento na rede – corresponde à coleta de água no lote e transporte até a rede de drenagem. • Sistema de microdrenagem – é formado por bueiros e bocas de lobo que captam águas superficiais das ruas e vias. Essas ferramentas são instaladas nas sarjetas, em locais adequados para boa drenagem da rua. A coleta é feita por rede de gale- rias que transportam as águas superficiais até serem lançadas em rios ou córregos. Essas galerias apresentam poços de visita para sua manutenção, caixas de ligação para interligá-las e sistema de ventilação. • Sistema de macrodrenagem – é composta por canais e rios que recebem água cole- tada pela microdrenagem. • Reservatórios para controle de cheias – barramentos construídos em rios para se- gurar o excesso de chuva e proteger as áreas a jusante. • Reservatórios urbanos de detenção ou bacias de detenção – pequenos reservató- rios instalados em algumas áreas da cidade para conter o excesso de chuva e pro- teger áreas a jusante. • Drenagem forçada em áreas baixas – constituído por diques, obras e estações de bombeamento em áreas localizadas abaixo do nível de água de cheias dos córregos próximos. • Manutenção do sistema de drenagem – é fundamental que os sistemas de micro e macrodrenagem estejam sempre limpos para evitar possíveis inundações. • Trincheiras de infiltração – elementos de drenagem de controle na fonte que têm a função de armazenar temporariamente a água até que ela infiltre no solo. São com- postas por valetas preenchidas por material granular, como brita e pedra de mão e tem porosidade de 40%. Esse material granular é revestido por filtro geotêxtil que impossibilita a entrada de dispositivos finos. Gestão e manejo de recursos hídricos em áreas urbanas8 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo132 Suas vantagens são: diminui a rede de microdrenagem local, reduz risco de inundação e poluição das águas locais, recarga das águas subterrâneas e apresenta boa adaptação ao ambiente urbano. E como desvantagens podemos citar a dificuldade em se ter informações de seu funcionamento a longo prazo e conseguir critérios de projetos e dimensionamento (GOLDENFUM, 2001). Para Canholi (2005), na formulação do plano diretor de macrodrenagem, devem-se con- siderar os seguintes aspectos: • A drenagem é um fenômeno de abordagem regional e a unidade de gerencia- mento é a bacia hidrográfica, podendo transcender os limites administrativos do município nos princípios de bacia ambiental. • A drenagem é uma questão de alocação de espaços, pois a supressão de várzeas alagáveis implica sua relocação para jusante, e ele deve ser aplicado à perda de áreas por infiltração pela impermeabilização. • A macrodrenagem faz parte da infraestrutura urbana e o seu planejamento deve ser multidisciplinar compatibilizando comoutros planos e projetos dos demais serviços públicos, principalmente, os voltados à gestão das águas urbanas, in- cluindo o abastecimento público e os esgotos sanitários. • Acrescenta que tem de ser sustentável e seu gerenciamento deve garantir a sua sustentabilidade institucional, econômica e ambiental. As soluções devem ser fle- xíveis e prever as eventuais necessidades de modificações futuras. Um abrangente plano de drenagem urbana deve atingir, entre outras atividades, o levantamento das características físicas da bacia de drenagem, notadamente daquelas que influenciam os deflúvios (run-off); a formulação de planos alternativos de controle ou cor- reção de sistemas de drenagem, apontando os respectivos objetivos; a análise da viabilida- de técnica e econômica das alternativas, considerando também os aspectos sociopolíticos e ambientais, e uma metodologia consistente para a seleção da alternativa mais conveniente. Em síntese, o plano diretor deve diagnosticar os problemas existentes ou previsíveis no horizonte de planejamento adotado e determinar, hierarquizar e redimensionar as soluções mais adequadas do ponto de vista técnico, econômico e ambiental. 8.2 Segurança hídrica para abastecimento público A água é um importante elemento que fundamenta as ações do desenvolvimento huma- no. Ter água disponível de forma segura é, portanto, vital para todos os setores sociais e econô- micos, além da saúde coletiva bem como base dos recursos naturais de que o mundo depende. Gestão e manejo de recursos hídricos em áreas urbanas Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 8 133 No entanto, o modelo desenvolvimentista adotado pelo sistema capitalista vem pro- porcionando o crescimento demográfico, o desenvolvimento econômico e o aumento da pressão nos recursos naturais. Aliado a uma gestão deficiente da água, os recursos hídricos estão se exaurindo em diversos locais do Brasil e do mundo gerando uma situação de crise hídrica e desequilibrando as relações sociais e os modos de produção. Segundo a Agência Nacional das Águas (ANA), conforme apresentado no quadro 1, todas as regiões brasileiras necessitam de investimentos em abastecimento público de água, pois se encontram em situação temporária de crises hídricas, tendo a Região Sudeste como a mais comprometida e em especial os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro. Quadro 1 – Síntese por regiões geográficas da situação de abastecimento urbano de água. Região geográfica/ estado Total de municípios estudados Demanda 2015 (m3/s) Mananciais e sistemas Sistema isolado Sistema integrado Manancial superficial/ misto Manancial subterrâneo Centro-Oeste 466 39,3 280 176 8 Nordeste 1.794 136,2 685 573 517 Norte 449 45,1 180 263 5 Sudeste 1.668 274,6 1.023 490 149 Sul 1.188 75,0 487 571 116 Brasil 5.565 570,2 2.655 2.073 795 Região geográfica/ estado Total de municípios estudados Demanda 2015 (m3/s) Avaliação oferta/demanda 2015 Abastecimento satisfatório Requer investimento Ampliação de sistema Novo manancial Centro-Oeste 466 39,3 260 168 38 Nordeste 1.794 136,2 466 1.064 248 Norte 449 45,1 156 265 28 Sudeste 1.668 274,6 932 647 83 Sul 1.188 75,0 692 407 75 Brasil 5.565 570,2 2.506 2.551 472 Gestão e manejo de recursos hídricos em áreas urbanas8 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo134 Região geográfica/ estado Total de municípios estudados Demanda 2015 (m3/s) Soluções propostas e investimentos Demanda 2025 (m3/s) N. de municípios que requerem investimento Investimento total em abastecimento de água (R$ milhões) Centro-Oeste 466 39,3 44,1 206 1.709,63 Nordeste 1.794 136,2 151,5 1.348 9.132,47 Norte 449 45,1 53,9 294 1.953,86 Sudeste 1.668 274,6 298,2 738 7.416,18 Sul 1.188 75,0 82,7 483 2.021,23 Brasil 5.565 570,2 630,4 3.069 22.233,36 Fonte: Atlas do Abastecimento Urbano do Brasil, 2015. Na Declaração Ministerial do 2° Fórum Mundial da Água realizada em 2000 em Haia, na Holanda, foi definido que segurança hídrica “significa garantir que ecossistemas de água doce, costeira e outros relacionados sejam protegidos e melhorados; que o desenvolvimento sustentável e a estabilidade política sejam promovidos; que cada pessoa tenha acesso à água potável suficiente a um custo acessível para levar uma vida saudável e produtiva, e que a população vulnerável seja protegida contra os riscos relacionados à água”. Para a Agência Nacional das Águas, segurança hídrica também é definida como a ca- pacidade da população de garantir o acesso sustentável à quantidade adequada e qualidade aceitável para os meios de subsistência, bem-estar humano e desenvolvimento socioeconô- mico, para assegurar a proteção contra a poluição e os desastres relacionados com a água e para a preservação dos ecossistemas em um clima de paz e estabilidade política. A segurança hídrica considera a garantia da oferta de água para o abastecimento hu- mano e para as atividades produtivas em situações de seca, estiagem ou desequilíbrio entre a oferta e a demanda do recurso. Além disso, o conceito abrange as medidas relacionadas ao enfrentamento de cheias e da gestão necessária para a redução dos riscos associados a eventos críticos (secas e cheias). Nesse contexto, a Lei 9433/1997, que institui a Política Nacional de Recursos Hídricos, cria o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos, que trouxe relevantes avanços na preservação e conservação das águas no Brasil, ordenando, por exemplo, os processos de outorga. No contraponto, temos que a importância das águas ainda não está bem incorporada por importante parcela da população, que continua utilizando da água de formas irresponsáveis, como ocupando áreas de preservação permanente, jogando lixo dire- tamente nos rios ou até mesmo desmatando áreas relevantes para a conservação das águas nas bacias hidrográficas, como áreas de recarga hídrica dos lençóis freáticos e em nascentes. Gestão e manejo de recursos hídricos em áreas urbanas Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 8 135 8.2.1 Origem da crise hídrica De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) (2016), os registros de precipitação apontam que nos últimos 40 anos o Brasil viveu uma alteração no regime de chuvas em todas as regiões brasileiras, resultado dos efeitos das mudanças climáticas. Esse fenômeno natural, associado ao aumento da população urbana e, consequente- mente, à elevação no consumo de água, são fatores que geram a crise hídrica. Ressalva-se que a crise hídrica também pode ser potencializada por diversos fatores, por exemplo, o intenso uso e ocupação do solo tanto nas áreas rurais como urbanas, pela impermeabilização dos solos e consequente redução da recarga hídrica nos lençóis freáticos e também a redução de ecossistemas naturais como florestas e planícies aluviais, que cumprem importante fun- ção para o equilíbrio do ciclo hidrológico. 8.2.2 As florestas e a segurança hídrica As florestas têm papel essencial na conservação e na purificação das águas. É na vege- tação, e também nos solos e nos organismos, que fica retida boa parte da água que vem com as chuvas que infiltram para os lençóis freáticos e aquíferos subterrâneos. Esse ciclo funciona como um grande filtro natural, no qual os poluentes que estejam na água vão sendo filtrados e eliminados pelos ecossistemas. Uma vez quando essa água filtrada pelas florestas chegar novamente aos rios, ou quando retornar à atmosfera em forma de chuva, estará limpa e livre dos poluentes. Esse processo acontece, segundo o Programa Águas e Florestas da Mata Atlântica (2010) da seguinte forma: a água de chuva que se precipita sobre uma floresta segue dois cami- nhos, sendo o primeiro o retorno à atmosfera por evapotranspiração, ou atingindo o solo, por meio da folhagem ou do tronco das árvores. Na floresta, a interceptação da água acima do solo garante a formação de novas massas atmosféricas úmidas, enquanto a precipitação interna, pelospingos de água que atravessam a copa e pelo escoamento pelo tronco, atingem o solo e o seu folhedo. De toda a água que chega ao solo, uma parte tem escoamento superficial, chegando de alguma forma aos cursos de água ou aos reservatórios de superfície. A outra parte sofre armazenamento temporário por infiltração no solo, podendo ser liberada para a atmosfera por meio da evapotranspiração, manter-se como água no solo por mais algum tempo ou percolar como água subterrânea. De qualquer forma, a água armazenada no solo que não for evapotranspirada termina por escoar da floresta paulatinamente, compondo o chamado deflúvio, que alimenta os mananciais hídricos e possibilita os seus usos múltiplos. Um exemplo muito importante da relação da floresta e a conservação das águas e consequente segurança hídrica é o caso da floresta amazônica, que absorve a água da chu- va que vem do oceano, funcionando como uma bomba de sucção que “puxa” a água do Gestão e manejo de recursos hídricos em áreas urbanas8 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo136 Oceano Atlântico para o continente e a mantém na floresta, em um fenômeno chamado popularmente como “rios voadores”. É exatamente essa água, gerenciada pelo ciclo hidrológico da Bacia Amazônica, que acaba sendo distribuída entre a Cordilheira dos Andes e a porção meridional do continente sul-americano. Esse processo carrega a umidade da Bacia Amazônica para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil principalmente nos meses de novembro a março. Pelo link é possível ver detalhes desse fenômeno altamente relevante para a segurança hídrica em grande parte do território brasileiro. 8.2.3 Soluções para a crise hídrica As soluções para a crise hídrica podem se dar de inúmeras formas, como o racionamen- to de água e o aumento de taxas monetárias pelo uso da água. O importante nesse processo é promover ações que resolvam as “raízes” do problema e, em casos extremos de crise, execu- tar ações mesmo que sejam paliativas. No quadro 2, estão apresentadas 8 ações que podem contribuir para a solução ou redução da crise hídrica no Brasil. Quadro 2 – Possíveis soluções estruturais e paliativas para a redução da crise hídrica no Brasil. Ação Situação Formas Resultados Conservação das florestas Estrutural Aplicação da legislação vigente e criação de novos mecanismos de conser- vação e preservação Equilíbrio e sus- tentabilidade da oferta de água para consumo humano Manejo e recupe- ração das bacias hidrográficas Estrutural Aplicação dos planos de bacia e novos regramentos de uso e ocupação do solo Equilíbrio e sus- tentabilidade da oferta de água para consumo humano Reaproveitamento da água da chuva Estrutural Criar e incentivar po- líticas públicas Redução da quanti- dade de água coleta- da nos mananciais Redução do desper- dício dos sistemas de abastecimento Estrutural Aplicação de novas tecnologias e manuten- ção das redes existentes Redução das perdas e consequente maior oferta de água para consumo Mudança de hábitos Estrutural Implantar programas de educação ambiental População conscien- tizada com resulta- dos permanentes Despoluição e prote- ção dos mananciais Estrutural Ampliar os sistemas de tratamento de esgoto Melhoria na qua- lidade de água e consequente maior oferta de água para consumo Gestão e manejo de recursos hídricos em áreas urbanas Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 8 137 Ação Situação Formas Resultados Racionamento Paliativa. Utilizada em tempos de crise Organizar e reduzir a distribuição de água para consumo Efeitos rápidos para o reabasteci- mento e aumento dos níveis de água dos mananciais Descontos e punições Paliativa. Utilizada em tempos de crise Por meio de ordenamen- tos jurídicos, estabelecer regras de descontos monetários para o bom usuário e punições para o péssimo usuário Efeitos rápidos para a mudança de hábitos para a população, no entanto não é de forma permanente Fonte: Elaborado pelo autor. 8.3 Metodologias de educação ambiental voltada à gestão e ao manejo de recursos hídricos em áreas urbanas Entre os problemas socioambientais mais graves da atualidade, a qualidade e quanti- dade dos recursos hídricos talvez seja o tema que mais envolve educadores e gestores em busca de soluções para uma das fontes mais primárias de vida. As águas são um dos princi- pais motivos mobilizadores de programas, políticas, projetos e ações voltadas à reversão ou minimização da sua situação atual de degradação. Nesse sentido, diferentes setores da sociedade começam a se sensibilizar para atuar conjuntamente na reversão de situações que comprometeram ou comprometerão o uso múl- tiplo das águas. Entre as áreas protegidas por lei, as bacias hidrográficas têm sido uma unidade paisagística delimitada que contêm áreas protegidas e que vêm contribuindo para ações de conservação, já que seus limites ultrapassam os interesses das divisões territoriais políticas para abranger as necessidades físicas, biológicas, ecológicas e sociais. 8.3.1 Bacias hidrográficas, participação e territorialidade Bacias hidrográficas são paisagens socioambientais que, assim como outras áreas prote- gidas, são delimitadas legalmente por um recurso natural e que abrangem elementos físicos, biológicos, sociais e toda sua rede complexa de relações. São paisagens em que a gestão, não somente da água, mas de todo o ambiente inserido na bacia hidrográfica, depende do diálo- go, da solução de conflitos e da mediação das diferentes necessidades e interesses do atores socioambientais envolvidos nesse sistema. Para Sammarco (2005), o gerenciamento da bacia hidrográfica é um instrumento que orienta o poder público e a sociedade na utilização e monitoramento dos recursos ambien- tais, econômicos e sociais nos limites da bacia, promovendo o desenvolvimento sustentável. Gestão e manejo de recursos hídricos em áreas urbanas8 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo138 Segundo a autora, atualmente os conflitos entre a disponibilidade e demanda de recursos hí- dricos têm se tornado mais frequente, gerando como consequência o mau uso dos recursos hídricos e práticas insuficientes para gerenciamento da água. Somado a isso, o fato de que o Brasil detém aproximadamente 12% da água do mundo reforça a necessidade da educação ambiental não somente para conservar os corpos hídricos, mas também para saber como melhor utilizar e reutilizar a água como recurso diante dos sintomas de escassez mundial. A água cada vez mais se torna um elemento facilitador nas relações complexas de uma paisagem, no campo de atuação para mudanças e mediações entre diferentes usos e interes- ses. Pode-se dizer que a integração dos diferentes atores para a gestão das águas aumentou nas últimas décadas diante das mudanças históricas no sentido de propriedade, em que a percepção da água como bem comum foi sendo legalmente e culturalmente construído. Preocupado com esse diálogo, o Plano Nacional de Recursos Hídricos (PNRH) incorpo- ra em suas macromatrizes (Programa IV), de maneira transversal, a educação ambiental, o desenvolvimento das capacidades, a difusão de informações, a comunicação e a mobilização social em gestão integrada de recursos hídricos. Portanto, o PNRH procura concordar com a Lei Federal 9.433/97 (Política Nacional de Recursos Hídricos), na qual a educação ambien- tal torna-se fundamental para a gestão democrática das águas, de forma descentralizada e participativa. É importante ressaltar que o Programa IV surgiu como pauta reivindicatória oriunda principalmente da sociedade civil, sendo então acolhido e integrado ao conjunto perma- nente de documentos aprovados pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos. Entre as proposições definidas no Programa IV, algumas são relevantes, por exemplo: • promover o diálogo entre diferentes saberes sobre a água (técnico-científico, polí- tico, biorregional, tradicional) e a decodificaçãopresença de outros organismos causadores de proble- mas. Os principais indicadores de contaminação fecal são as concentrações de coliformes totais e coliformes fecais, expressas em número de organismos por 100 mL de água. Os coliformes são bactérias e estão subdivididas em totais e termotolerantes ou fecais e estão presentes em materiais fecais. A sua presença na água pode indicar a possível presen- ça de seres patogênicos. Quanto maior a concentração desses organismos em um corpo de água, maior o seu grau de poluição e também o seu potencial causador de doenças. Todas as bactérias coliformes são gram-negativas manchadas, de hastes não esporula- das, que estão associadas às fezes de animais de sangue quente e com o solo. As bactérias coliformes fecais reproduzem-se ativamente a 44,5ºC e são capazes de fermentar o açúcar. O uso da bactéria coliforme fecal para indicar poluição sanitária mostra-se mais significativo que o uso da bactéria coliforme “total” porque as bactérias fecais estão restritas ao trato in- testinal de animais de sangue quente. Os coliformes totais são bacilos gram-negativos, aeróbios ou anaeróbios facultativos e não formadores de esporos e estão associados à decomposição de matéria orgânica em geral. Exemplos: Citrobacter, Klebsiella, Enterobacter. Os coliformes termotolerantes ou fecais toleram temperaturas acima de 40°C, reprodu- zem-se nessa temperatura em menos de 24 horas e estão associados às fezes de animais de sangue quente, como Enterobacter e Citrobacter. As algas desempenham um importante papel no ambiente aquático, sendo responsáveis pela produção de grande parte do oxigênio dissolvido do meio. Quando presente em grandes quan- tidades, como resultado do excesso de nutrientes (eutrofização) na água, trazem alguns incon- venientes como sabor e odor; toxidez, turbidez e cor; formação de massas de matéria orgânica que, ao serem decompostas, provocam a redução do oxigênio dissolvido; corrosão; interferência nos processos de tratamento da água, além de apresentarem um aspecto estético desagradável. A determinação da concentração dos coliformes assume importância como parâmetro indicador da possibilidade da existência de micro-organismos patogênicos, responsáveis pela transmissão de doenças de veiculação hídrica, tais como febre tifoide, febre paratifoide, disenteria bacilar e cólera (BRASIL, 2006). De modo geral, nas águas para abastecimento público, o limite tolerável de coliformes fecais estabelecido pela Portaria 2.914, de 12 de dezembro de 2011, do Ministério da Saúde Parâmetros físicos, químicos e biológicos Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 1 17 não deve ultrapassar 4 mil coliformes fecais em 100 ml de água em 80% das amostras colhi- das em qualquer período do ano. 1.3.2 Solo Muito ao contrário do que visualmente se apresenta, o solo é um recurso natural vivo e dinâmico que condiciona e sustenta a produção de alimentos e fibras e regula o balanço global do ecossistema. O solo tem sua qualidade definida como a capacidade de funcionar dentro do ecossistema visando sustentar a produtividade biológica, mantendo a qualidade ambiental e promovendo a saúde e o desenvolvimento das plantas e dos animais, além de ser sustento físico para ambos, podendo ser avaliado pelo uso de indicadores físicos, quími- cos e biológicos (ARAÚJO, 2007). Neste capítulo será dado enfoque para os parâmetros biológicos que estão relacionados a seguir. • Biomassa microbiana do solo: de acordo com Jenkinson e Ladd (1981, citado por ARAÚJO, 2007), a biomassa microbiana do solo é o componente vivo da matéria orgânica do solo, exceto a macrofauna e as raízes dos vegetais. A biomassa micro- biana é responsável por controlar os ciclos biogeoquímicos, como a decomposição e o acúmulo de matéria orgânica, ou transformações envolvendo os nutrientes minerais. Em função dos processos de decomposição e transformação são acumu- ladas consideráveis quantidades de nutrientes que servem como reserva, e que são continuamente assimiladas durante os ciclos de crescimento dos diferentes organismos que compõem o ecossistema. • Respiração do solo: a respiração do solo é caracterizada pela oxidação biológica da matéria orgânica gerando CO2 pelos microrganismos aeróbios. Por esse processo, ela ocupa uma posição chave no ciclo do carbono nos ecossistemas terrestres. O estudo e a identificação da respiração do solo devem ser de forma frequente, seja visto que se quantifica a atividade microbiana no solo, podendo verificar os con- teúdos de matéria orgânica, com a biomassa microbiana e consequentemente a dinâmica da vida ativa do solo. • Fixação biológica do N2: a fixação biológica do nitrogênio é muito conhecida nos meios agronômicos com a utilização por plantas da família das leguminosas para melhorar as condições químicas do solo. Isso é possível, pois essa família botânica tem uma relação de simbiose com uma bactéria do gênero Rhizobium, Bradyrhizobium e Azorhizobium, que convertem o N2 atmosférico em NH3, incorporada em diversas formas de N orgânico para a utilização por plantas. Esse processo ocorre no interior de estruturas específicas, denominadas de nódulos, nos quais as bactérias têm a ca- pacidade de absorver o nitrogênio. Esse processo quebra a tripla ligação do N2 por meio de um complexo enzimático, denominado nitrogenase (ODUM, 2007). Assim sendo, a análise desse processo no solo foi transformada em um parâmetro de aná- lise biológica da qualidade do solo. Parâmetros físicos, químicos e biológicos1 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo18 • Enzimas do solo: as enzimas são mediadoras do catabolismo biológico dos com- ponentes orgânicos e minerais do solo, podendo ser estudada como medida de atividade microbiana, produtividade e efeito de poluentes no solo. A atividade enzimática do solo está relacionada com o aumento da matéria orgânica, com a melhoria das propriedades físicas e com a atividade e biomassa microbiana. Ampliando seus conhecimentos Influência do uso e ocupação do solo na qualidade da água: um método para avaliar a importância da zona ripária (COELHO, 2011) Para o desenvolvimento sustentável da humanidade são necessárias as práticas de exploração dos recursos naturais que aliam princípios de pre- servação e conservação do meio ambiente, atendendo às necessidades do presente sem comprometer a capacidade de atendimento das futu- ras gerações (WORD COMMISSION ON ENVIRONMENTAL AND DEVELOPMENT,1987). Além de considerar os aspectos econômicos e sociais, esse desenvol- vimento deve considerar a mitigação dos impactos ecológicos com os conceitos de biodiversidade e integridade de ecossistemas. Esses efeitos ecológicos envolvem principalmente questões relativas à degradação do solo, às alterações do ciclo hidrológico, às alterações climáticas e à manutenção da biodiversidade. Diferentes princípios, conceitos e práticas têm sido desenvolvidos com vis- tas ao desenvolvimento, que, sendo “economicamente viável, socialmente justo e ecologicamente equilibrado” é chamado de sustentável. Variadas concepções envolvem tão abrangentes conceitos, como o que é “social- mente justo” ou o que vem a ser propriamente um ambiente “ecologica- mente equilibrado”, mas além dessa discussão existe a clara necessidade de se avaliar o impacto exclusivo das atividades humanas no meio ambiente. No caso dos processos hidrológicos, onde interagem os ciclos biogeo- químicos, o fluxo de energia e os dinâmicos fatores bióticos, em muitos casos têm-se considerado a bacia hidrográfica como a unidade ecossistê- mica para estudo e planejamento (LOTSPEICH, 1980), sendo utilizados diferentes indicadores tais como balanço hídrico, extensão e condição da zona ripária, taxas de infiltração e de erosão do solo, diversidade de Parâmetros físicos, químicos e biológicos Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 1 19 invertebrados bentônicos e qualidade da água, para mensurar e avaliar a sustentabilidadee difusão de informações técnicas e sociais; • promover a valorização simbólica da territorialidade hídrica e o sentido de pertencimento; • difundir a percepção do valor socioambiental relevante da água e da sua impor- tância estratégica para o desenvolvimento do país em bases sustentáveis; • desenvolver cartografias de conflitos e vocações das territorialidades hídricas, bem como de atores atuantes nas territorialidades hídricas e plataformas de saberes e cui- dados com a água nas várias escalas (local, regional, nacional, platina, amazônica, sul-americana, internacional). Pode-se observar nas proposições anteriores que as percepções, os diálogos entre di- ferentes saberes, a identidade e a territorialidade, assim como os processos comunicativos e formativos, estão entre as principais estratégias para o fomento da educação ambiental para as águas. Cabe ressaltar que a Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA) (Lei 9.795/09) também estabelece entre seus objetivos estratégicos o “incentivo à participação individual e coletiva, permanente e responsável, na preservação do equilíbrio do meio am- biente, entendendo-se a defesa da qualidade ambiental como um valor inseparável do exer- cício da cidadania”. Gestão e manejo de recursos hídricos em áreas urbanas Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 8 139 Pode-se dizer, portanto, que de forma coerente com a política das águas, a construção de uma cultura de participação, qualificada com o diálogo, mostra-se como um dos eixos da política de educação ambiental e que o desafio de construir metodologias competentes para promover essa participação está ancorada em ambas as políticas nacionais. Percebe-se que cada vez mais são imprescindíveis os processos participativos para a ges- tão integrada da água. No entanto, a participação qualificada não tem sido uma tarefa fácil para os diversos educadores. Para Souza (2015), a participação e o engajamento político da base da sociedade brasileira são desafios históricos, que precisam enfrentar obstáculos de ordem social, e de ordem psicossocial, como a despolitização e o isolacionismo. Para lidar com isso, seriam necessários Programas de Educação Ambiental (PEA) permanentes, con- tinuados e articulados, que configurem estratégias e não a simples soma de ações. Os PEA devem não somente favorecer o acesso da sociedade às informações claras sobre a realidade socioambiental, como precisam ampliar progressivamente sua capacidade de interpretar es- sas informações socioambientais. 8.3.2 Paisagem, educomunicação e pertencimento Nesse sentido, as bacias hidrográficas tornam-se paisagens socioambientais (SAMMARCO, 2005) nas quais a percepção, os saberes e os valores devem ser diagnostica- dos para qualquer processo educador que tenha como objetivo o resgate da territorialidade, identidade e participação de seus atores. É cada vez mais necessário inserir métodos que proporcionem a percepção da paisagem não somente como um diagnóstico dos problemas a serem discutidos, mas também como um instrumento para fomentar a capacidade de in- terpretar essas informações e participar ativamente das soluções propostas. O exercício da percepção da paisagem torna-se importante para resgatar o valor sim- bólico das bacias hidrográficas assim como diagnosticar o ideário dos atores sobre seus ambientes. Por meio da percepção dos espaços vividos que a imaginação acontece, e o ser humano estrutura sua representação cognitiva do ambiente. A avaliação traz a organiza- ção do meio ambiente como o resultado da aplicação de conjuntos de regras que refletem diferentes concepções de qualidade ambiental. Essas práticas de percepção muitas vezes realizadas por meio de técnicas como mapa mental, desenhos, mapeamento socioambiental participativo, entre outros, permitem res- surgir nos discursos e nas representações sociais figuradas os elementos para que a territo- rialidade passe por um processo de pertencimento e cooperação. Nos desenhos metodológicos que têm sido utilizados para a gestão de territórios e dos recursos hídricos, a construção participativa de materiais didáticos tem sido uma técnica inovadora e que deveria ser cada vez mais utilizada, pois unifica procedimentos de diagnós- tico, formação, gestão e avaliação. Esses materiais não somente têm como objetivo e produto a divulgação de informações, mas também podem ser uma ferramenta de educação, eman- cipação, transformação e comunicação ambiental. Pode-se dizer que a comunicação ambiental é a mediação e instrumentalização do em- poderamento e da apropriação da questão ambiental pela sociedade e suas lideranças, sendo Gestão e manejo de recursos hídricos em áreas urbanas8 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo140 a educomunicação um conceito novo que representa a ação comunicativa para a criação de sociedades sustentáveis. O termo educomunicação foi inicialmente compreendido como a prática da leitura crítica dos meios e evoluiu conceitualmente para as ações que compõem o complexo campo da inter-relação entre comunicação e educação. A educomunicação, segundo Sammarco (2005), é o conjunto das práticas voltadas para a formação e o desenvolvimento de ecossistemas comunicativos, por meio da compreensão da ecologia social e sua transdisciplinaridade em espaços educadores. Tais práticas são me- diadas pelos processos e pelas tecnologias da informação, tendo como objetivo a ampliação das formas de expressão dos membros das comunidades e a melhoria do coeficiente comu- nicativo das ações educadoras, tendo como meta o pleno desenvolvimento da cidadania. É necessário explorar cada vez mais a possibilidade do entendimento de que bacias hi- drográficas são paisagens educadoras e socioambientais e não apenas uma delimitação geo- política. A gestão das águas por meio de suas bacias ainda é bastante limitada às discussões de colegiados com técnicos da área na qual a participação ampla da sociedade esbarra nas tecnici- dades conceituais e linguísticas. Portanto, também é cada vez mais necessário que educadores e gestores criem ferramentas e desenhos metodológicos que facilitem os processos participa- tivos no intuito de envolver uma maior diversidade de atores. É com a ampla participação da sociedade que realmente poderão se ver mudanças nesses espaços de convívio. Os processos participativos mediados pela educação ambiental são cada vez mais im- portantes e desafiantes, principalmente no que condiz a gestão integrada dos recursos hídri- cos. Nesse sentido, a educação ambiental crítica e transformadora (PRONEA, 2005) precisa ser cada vez mais inovadora, dinâmica e vivencial para que envolva os múltiplos usuários das águas em processos de transformação social. É necessário envolver os diferentes atores em atividades que resgatem a identidade e o pertencimento deles com suas paisagens, mas mais do que isso que fomentem suas capaci- dades de interpretar as informações que esses territórios oferecem para o entendimento real da gestão compartilhada. Ampliando seus conhecimentos Água urbanas (TUCCI, 2008) As águas urbanas geralmente incluem abastecimento de água e sanea- mento. Nessa perspectiva, saneamento envolve a coleta de tratamento de efluentes domésticos e industriais, não inclui drenagem urbana, gestão dos resíduos sólidos, porque ainda perdura uma visão desatualizada da gestão das águas urbanas da cidade. Águas urbanas envolvem compo- nentes que permitem o desenvolvimento ambiental sustentável e utilizam Gestão e manejo de recursos hídricos em áreas urbanas Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 8 141 os conceitos da Gestão Integrada dos Recursos Hídricos (GIRH), neces- sários para planejamento, implementação e manutenção da infraestru- tura da cidade. Nesse contexto, ficam denominados Gestão Integrada das Águas Urbanas. Neste artigo, analisam-se o desenvolvimento urbano e suas relações com as águas urbanas no Brasil. A gestão dos recursos hídri- cos no Brasil é realizadapor bacias hidrográficas, e o domínio é federal ou estadual. Examinam-se as possibilidades de gestão da água na cidade e na bacia hidrográfica no contexto institucional brasileiro. Gestão das águas urbanas A gestão das ações dentro do ambiente urbano pode ser definida de acordo com a relação de dependência da água através da bacia hidrográ- fica ou da jurisdição administrativa do município, do Estado ou da nação. A tendência da gestão dos recursos hídricos tem sido realizada através da bacia hidrográfica, no entanto a gestão do uso do solo é realizada pelo município ou grupo de municípios numa Região Metropolitana. A ges- tão pode ser realizada de acordo com a definição do espaço geográfico externo e interno à cidade. Os planos das bacias hidrográficas têm sido desenvolvidos para bacias grandes (> 1.000 km²). Nesse cenário, existem várias cidades que interfe- rem umas nas outras, transferindo impactos. O plano da bacia dificilmente poderá envolver todas as medidas em cada cidade, mas deve estabelecer os condicionantes externos às cidades, como a qualidade de seus efluen- tes, as alterações de sua quantidade, que visem à transferência de impactos. O mecanismo, já previsto na legislação, para gestão dos impactos da qua- lidade da água externa às cidades é o enquadramento do rio dentro dos padrões do Conama. No entanto, esses padrões não estabelecem padrões para controle do aumento da vazão por causa da urbanização. A gestão do ambiente interno da cidade trata de ações dentro do municí- pio para atender aos condicionantes externos previstos no Plano de Bacia para evitar os impactos. Esses condicionantes geralmente buscam mini- mizar os impactos da quantidade e melhorar a qualidade da água no con- junto da bacia, além dos condicionantes internos que tratam de evitar os impactos à população da própria cidade. Para esses dois espaços existem gestores, os instrumentos utilizados e as metas da gestão. A construção global dessa estrutura de gestão esbarra em algumas dificuldades: Limitada capacidade dos municípios para desenvolverem a gestão, consi- derando a maioria desses. Gestão e manejo de recursos hídricos em áreas urbanas8 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo142 O sistema de gestão das bacias ainda não é uma realidade consolidada na maioria dos países da América do Sul. Reduzida capacidade de financiamento das ações pelos municípios e o alto nível de endividamento. No primeiro caso, a solução passa pelo apoio estadual e federal mediante escritórios técnicos que apóiem as cidades de menor porte no desenvol- vimento de suas ações de planejamento e implementação. O segundo dependerá da transição e evolução do desenvolvimento da gestão no país. O terceiro dependerá fundamentalmente do desenvolvimento de um pro- grama em nível federal e mesmo estadual, com um fundo de financia- mento para viabilizar as ações. Tendências As metas do milênio propostas pelas Nações Unidas envolvem vários aspectos nos quais a gestão das águas urbanas faz parte. Os principais são: (a) redução da falta de água potável e coleta e tratamento de esgoto em 50% até 2015; (b) redução da pobreza, em que a vulnerabilidade a eventos naturais e antrópicos tem peso muito grande, já que a vulnerabilidade a secas e inundações é um dos principais fatores de pobreza. Para atingir as Metas do Milênio em 2002 em Johanesburgo foi estabelecido que os países deveriam buscar desenvolver Planos de Recursos Hídricos para atingir as várias metas. Esses planos na realidade envolviam desenvolver a gestão dos recursos hídricos nos países. O Brasil evoluiu no processo quanto à Gestão de Recursos Hídricos, pois ao implantar a Lei de Recursos Hídricos deu o primeiro passo instituindo o mecanismo amplo de gestão das águas, criou os instrumentos como outorga, cobrança e enquadramento dos rios (metas de qualidade da água), estabele- cendo as condições de contorno para as cidades quanto à contaminação dos rios. Recentemente concluiu o Plano Nacional de Recursos Hídricos (MMA, 2006) e foi aprovada (janeiro de 2007) uma nova Legislação de Saneamento Ambiental que integra os mecanismos econômicos. Implementou as insti- tuições como a Agência Nacional de Águas e estão em andamento as agên- cias estaduais e os Conselhos e Comitês de bacia. Portanto, o processo está se encaminhando de forma adequada. No entanto, no âmbito das ações no saneamento observa-se o seguinte: a. Atualmente no país existe um universo de várias cidades com servi- ços privatizados (empresas de direito privado é da ordem de 10%), Gestão e manejo de recursos hídricos em áreas urbanas Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 8 143 com serviços públicos municipais e a grande maioria com serviços de empresas públicas estaduais. As empresas estaduais representam aproximadamente 82% da população atendida para abastecimento e 77% da população no esgoto (Ipea, 2002). b. A cobertura de coleta de esgoto é média se forem consideradas as fos- sas, mas baixa cobertura de tratamento de esgoto que compromete o todo, já que contamina os mananciais. c. A vulnerabilidade a eventos pluviais das cidades é alta, o que agrava a situação de pobreza na periferia das cidades. Os maiores prejuízos não são necessariamente materiais, mas sociais. Para que o país possa atingir as metas do milênio e aumentar o abasteci- mento e o atendimento de coleta e tratamento de esgoto reduzindo esse défi- cit em 50% até 2005, seria necessário atuar especialmente sobre o seguinte: Aumentar o abastecimento de água na área rural e da população de baixa renda, buscando atingir os níveis de cobertura total de água segura. O déficit em coleta de esgoto é ainda de 32,9%; portanto, para buscar as metas, representaria reduzir esse déficit para 16,4%. O maior problema, no entanto, se encontra na redução no tratamento de esgoto, cujo déficit se encontra em 81,8%. Dentro da metas do milênio representaria reduzir para 40,9%. Estudo realizado pelo PMSS em 2003-2004 (apud Esbe, 2006) menciona a necessidade de um investimento de R$178 bilhões em vinte anos para atingir a universalização, representando 0,6% do PIB. Tucci (2005a) apre- sentou a necessidade de investimento para um Programa Nacional de águas Pluviais que controlasse os impactos na drenagem e inundação das cidades, e identificou um total de R$21,5 bilhões em 24 anos para solu- ção desses impactos, representando até 0,2% do PIB num ano. Com base nessas estimativas, é possível antever a necessidade de investimentos da ordem de 0,8% do PIB para o saneamento ambiental (sem incluir resí- duos sólidos). Essa quantia representaria a ordem de R$16 bilhões por ano em água, esgoto e drenagem para, no horizonte de aproximadamente vinte anos, existir um processo sustentável de desenvolvimento urbano. Caso esse investimento fosse realizado como previsto em Tucci (2005a), iniciando com as cidades maiores para as menores em termos prioritários, as maiores cargas seriam contidas nos próximos anos. Gestão e manejo de recursos hídricos em áreas urbanas8 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo144 A evolução da cobertura dos serviços nos últimos cinco anos (~1%), no entanto, é inferior ao crescimento habitacional brasileiro (2001-2005), o que tem levado a um aumento do déficit e não necessariamente a uma redução (Esbe, 2006). As principais dificuldades existentes são relacionadas com: a. Aspectos institucionais relacionados com a gestão das companhias, mudança de legislação e falta de eficiência dos serviços na medida em que não existem parâmetros, metas bem definidas de atendimento e eficiência dos serviços. A ineficiência é transferida aos usuários, já que os serviços não possuem competitividade. b. Econômico-financeiro, como o contingenciamento dos recursos e a capa- cidade de endividamento dos municípios e financiamento permanente. Atualmente falta integrar efetivamente as metas da Gestão dos Recursos Hídricos às do Saneamento Ambiental. Apesar de essaintegração estar implicitamente prevista na legislação, na prática não ocorre. O Plano da Bacia Hidrográfica prevê o enquadramento dos rios, e as cidades deveriam atuar no controle dos efluentes urbanos para atingir a meta do enqua- dramento dos rios internos e externos à bacia. No entanto, é necessário que existam planos e que estes enquadrem os rios nos quais as cidades influenciam, seguidos de um plano de ações para atingir as metas. Atividades 1. Faça um diagnóstico na cidade em que você vive sobre os aspectos de drenagem da água urbana. Primeiramente vá até o órgão público ou universidade que é responsável por gerar informações sobre esse assunto, como a defesa civil, e liste os pontos de ala- gamento, enchentes e as áreas de risco. Em seguida, verifique se há um plano de ma- crodrenagem e verifique se as principais medidas estruturais estão sendo executadas. 2. Faça um diagnóstico sobre a situação da demanda hídrica para o abastecimento hu- mano para as capitais brasileiras ordenando por maior deficiência e verifique se exis- te situação de crise hídrica. 3. Faça um diagnóstico sobre os projetos e as ações de educação ambiental em seu estado e em sua cidade. Verifique se há projetos ou ações que têm como objetivo a conservação dos recursos hídricos para o abastecimento humano. Analise também o tipo e a linha de educação ambiental que estão sendo desenvolvidos. Gestão e manejo de recursos hídricos em áreas urbanas Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 8 145 Referências 2° Fórum Mundial da Água, 2000. Declaração ministerial de Haia sobre segurança hídrica no século 21. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017. AGENCIA NACIONAL DAS ÁGUAS – ANA. Atlas do abastecimento urbano do Brasil, 2015. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017. BARROS, Mario Tadeu Leme. Drenagem urbana: bases conceituais e planejamento. In: PHILIPPI JR., A. 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Dissertação apresentada para a obtenção do titulo de mestre em recursos florestal pela Universidade de São Paulo, Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, 2005. Disponível em . Acesso em: abr. 2017. TUCCI, Carlos. Águas urbanas. Revista Estudos Avançados, vol. 22, n. 63 São Paulo: 2008. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017. ______. Coeficiente de escoamento e vazão máxima de bacias urbanas. Revista Brasileira de Recursos Hídricos, Porto Alegre, v. 5, n. 1, p. 61-68, 2000. ZACHARIAS, A. A. A representação gráfica das unidades de paisagem no zoneamento ambiental. São Paulo: Ed. UNESP, 2010. Gestão e manejo de recursos hídricos em áreas urbanas8 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo146 Resolução 1. Você deverá fazer uma lista e correlacionar se as principais medidas estruturais es- tão sendo executadas e se for possível apontá-las aos órgãos responsáveis. Caso não haja um plano de macrodrenagem urbana, você poderá elaborar um documento e encaminhar aos órgãos competentes, como a prefeitura e o Ministério Público, co- brando a elaboração desse plano. Ainda, poderá divulgar nos meios de comunicação a importância desse tipo de instrumento de gestão e manejo dos recursos hídricos para a melhoria da qualidade de vida nas cidades. 2. Você deverá fazer uma lista com as informações sobre o abastecimento de água das capitais brasileiras e correlacionar se existe crise hídrica. 3. Você deverá relacionar os projetos e as ações que ocorrem em seu estado e município e analisar suas linhas de desenvolvimento, por exemplo, se são projetos de Educação Ambiental na corrente conservacionista, crítica etc. Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 147 9 Uso do solo urbano e impactos causados no ambiente Após a Segunda Guerra Mundial, já no fim da década de 40, ocorreu um cresci- mento das áreas metropolitanas e o aumento da industrialização, advindo do renas- cimento das cidades. A partir daí, as áreas impermeabilizadas pelas construções das casas e pelo uso de pavimentação asfáltica e a ocupação de áreas declivosas ou em fundos de vales fluviais, chamadas de áreas de risco, se intensificaram. A partir disso, as populações urbanas começaram a vivenciar sérios impactos causados pela forma de uso do solo nos ambientes. Sendo assim, para discutir esse tema, este capítulo está organizado para apresen- tar o uso do solo urbano e os impactos causados no ambiente dando destaque para a impermeabilização, poluição difusa e ocupação de área de risco. Uso do solo urbano e impactos causados no ambiente9 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo148 9.1 Impermeabilização A impermeabilização pode ser gerada por diversos fatores e ações que ocorrem em uma paisagem de uma bacia hidrográfica, como os modelos de urbanização que usam pavimen- tos impermeáveis, loteamentos sem áreas mínimas permeáveis, uso intensivo de máquinas agrícolas e consequente compactação dos solos. A impermeabilização do solo ocorre quando ele perde a capacidade de absorção da água. Esse processo acontece principalmente nas cidades. Os processos de cimentação, as- faltamento, calçamento de ruas e calçadas e outros, como a própria construção das edifica- ções, formam uma espécie de capa sobre o solo, impedindo que a água fique em contato com este e assim possa ser absorvida. A impermeabilização está ligada diretamente com os princípios de escoamentosuper- ficial da água, apresentados a seguir. 9.1.1 Escoamento superficial O escoamento superficial é o segmento de ciclo hidrológico que estuda o deslocamento das águas na superfície terrestre (MARTINS, 1973). Esse deslocamento ocorre devido à di- ferença de potencial entre dois pontos, ou seja, o desnível do terreno de montante e jusante em uma bacia hidrográfica. Esse estudo considera o movimento da água a partir da menor porção de chuva que, caindo sobre um solo saturado de umidade ou impermeável, escoa pela sua superfície, for- mando sucessivamente as enxurradas ou torrentes, córregos, ribeirões, rios e lagos ou reser- vatórios de acumulação (MARTINS, 1973). O escoamento superficial tem origem nas precipitações e no ciclo hidrológico e, com relação à engenharia, o escoamento superficial é uma das fases mais importantes a ser estudado. Quando falamos de escoamento numa bacia hidrográfica, a impermeabilização influen- cia diretamente no curso de água por meio do aumento significativo do escoamento super- ficial durante os eventos de chuvas mais intensas. E, dependendo do grau de impermeabi- lização da bacia, o volume anual de escoamento superficial pode aumentar de 2 a 16 vezes. Parte da água das chuvas é interceptada pela vegetação e outros obstáculos, de onde se evapora posteriormente. Do volume que atinge a superfície do solo, parte é retida em depressões do terreno, parte se infiltra no solo e o restante escoa pela superfície, logo que a intensidade da precipitação supera a capacidade de infiltração no solo e os espaços nas superfícies retentoras tenham sido preenchidos (MARTINS, 1973). No início do escoamento superficial forma-se uma película laminar que aumenta de espessura, à medida que a precipitação prossegue, até atingir um estado de equilíbrio (MARTINS, 1973). Uso do solo urbano e impactos causados no ambiente Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 9 149 9.1.2 Consequências da impermeabilização Uma das principais consequências da impermeabilização são os problemas advindos das inundações que dependem do grau de ocupação da área pela população e da imper- meabilização e canalização da rede de drenagem. As inundações vêm sendo registradas juntamente com a história do desenvolvimento humano e esses acontecimentos podem se suceder devido ao comportamento natural dos rios ou maximizados por ações antrópicas por meio da urbanização, impermeabilização do solo e a canalização dos rios (PORTAL SÃO FRANCISCO, 2011). Com a precipitação intensa e o solo não tendo capacidade de infiltração, grande parte do volume acaba escoando para o sistema de drenagem, superando sua capacidade natural de escoamento. O volume que não consegue ser drenado ocupa a área inundando-a de acor- do com a topografia dos locais próximos aos rios. Esses acontecimentos ocorrem de forma aleatória segundo os processos climáticos locais e regionais (TUCCI, 2003). Quanto maior a impermeabilização do solo, maior o escoamento através de canais e menor o tempo de concentração, ou seja, o tempo necessário para que toda a bacia contribua em dada seção, acarretando inundações mais frequentes que as que aconteciam quando se tinha uma superfície permeável. O aumento de lugares com enchentes e inundações ocorre devido à grande impermea- bilização do solo, isso porque as vias de circulação são constituídas de asfalto. As casas atualmente não são áreas permeáveis, com baixo índice de área verde urbana, habitações e construções em áreas de várzeas dos rios e o grande desenvolvimento urbano brasileiro também têm agravado problemas socioambientais, impulsionando as maiores frequências de inundações, produções de sedimentos e danificação da qualidade das águas superficiais e subterrâneas (PHILIPPI JR.; MALHEIROS, 2005). Segundo Souza e Romualdo (2009), a impermeabilização e canalização nas cidades au- mentam as vazões máximas, a produção de sedimentos e a qualidade da água chega a ter 80% da carga de esgoto doméstico. Esses mesmos autores explicam que esses impactos têm resultado em um ambiente degradado, prejudicando a qualidade de vida da população que na atual realidade brasileira, sem apoio de políticas públicas que proponham mitigar ou solucionar esses impactos, tem a propensão a um agravamento da situação. A inundação urbana fruto da impermeabilização é um problema cada vez mais assí- duo que resulta em sérios prejuízos ambientais, econômicos e sociais, em que as políticas públicas não conseguem englobar a dimensão da problemática, algumas vezes por falta de investimento público, outras vezes por descuido, o que prejudica mais o quadro. Nessas situações, a população sofre com as consequências desse descaso, com prejuízos e perdas humanas e materiais, paralisação das atividades econômicas nas áreas inundadas, contaminação por doenças de veiculação hídrica como a cólera e a leptospirose, contamina- ção da água pela inundação de depósitos de material tóxico, analisa Tucci (2003). Também para Suleiman (2005) as cidades cada vez mais estão passando por sérios pro- blemas relacionados a inundações e o principal agente causador de uma cheia é a ocupação Uso do solo urbano e impactos causados no ambiente9 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo150 indiscriminada das áreas de várzea. Ele também explica que o desenvolvimento urbano brasileiro produz um aumento na frequência das inundações devido à impermeabilização do solo e canalização dos cursos de água. A urbanização causa um dos principais impactos no ciclo hidrológico, pois altera a drenagem da água devido à impermeabilização do solo, podendo causar enchentes, des- lizamentos e desastres provocados pelo desequilíbrio no escoamento das águas, além de problemas à saúde humana (TUNDISI, 2005). 9.2 Poluição difusa A poluição dos recursos hídricos, sejam eles superficiais ou subterrâneos, não é cau- sada unicamente por efluentes domésticos e industriais não tratados. Nas áreas urbanas, a poluição também é provocada no escoamento superficial em áreas impermeáveis, como nas ruas pavimentadas e construções, levando tudo o que pode ser escoado, desde elementos químicos, como metais pesados, até objetos maiores, como um saco de lixo mal acondicio- nado nas ruas. Com a impermeabilização, a velocidade de escoamento da água é aumentada, gerando maior capacidade de arraste, carregando, portanto, maiores cargas poluidoras. São nas re- des de drenagem urbanas em que são levadas as cargas poluidoras que degradam enorme- mente os corpos de água como os rios, lagos, mar costeiro e estuários. 9.2.1 Fontes geradoras de poluição difusa A poluição difusa tem uma origem de inúmeros componentes presentes na paisagem urbana e rural, sendo muito diversificada, podendo, por exemplo, se originar do desgaste das ruas pavimentadas pelos veículos, lixo acumulado nas ruas e calçadas, atividades de construção civil, resíduos de combustíveis e óleos e graxas deixadas por veículos e produtos tóxicos utilizados na lavagem de veículos e calçadas. O termo difusa é devido à poluição gerada pelo escoamento superficial da água em zo- nas urbanas, quando tem origem de forma esparsa e múltipla de diferentes fontes na área de drenagem de uma bacia hidrográfica. Segundo Maciel (2003), a fonte da poluição difusa é caracterizada por cinco condições: • lançamento da carga poluidora é intermitente e está relacionado à precipitação; • os poluentes são transportados a partir de extensas áreas; • as cargas poluidoras não podem ser monitoradas a partir de seu ponto de origem, mesmo porque não é possível identificar a sua origem; • o controle de poluição difusa, obrigatoriamente, deve incluir ações sobre a área geradora de poluição, em vez de incluir apenas o controle do efluente quando do lançamento; Uso do solo urbano e impactos causados no ambiente Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 9 151 • é difícil o estabelecimento de padrões de qualidade para o lançamento do efluente, uma vez que a cargapoluidora lançada varia de acordo com a intensidade e duração do evento meteorológico, a extensão da área de produção e outros fatores que tornam a correlação vazão x carga poluidora praticamente impossível de ser estabelecida. A origem das cargas de poluição pode ser tanto em zonas urbanas residenciais e comer- ciais, como industriais, não sendo possível correlacionar as fontes geradoras e consequente combate e monitoramento dos poluentes. O que se pode correlacionar é com as diferentes taxas de ocupação: em zonas residenciais que apresentam baixa densidade de ocupação, há uma menor contribuição de volumes gerados no escoamento, assim como zonas industriais podem ser formadas por indústrias leves ou mais poluidoras. A correta identificação das fontes de poluição difusa e sua consequente avaliação dos problemas causados e a escolha das medidas mitigadoras a serem implantadas são dificul- tadas pelo possível efeito conjunto com outras descargas poluidoras, que tendem a mascarar o problema pela irregularidade e imprevisibilidade do processo, pela variação temporal e espacial dos impactos causados e pela dificuldade da coleta de dados. Além disso, as medidas de controle das cargas difusas devem contemplar toda a bacia hidrográfica em que está ocorrendo esse processo e, por serem distribuídas, têm sua eficiên- cia difícil de ser avaliada. Uma das formas mais eficazes é o licenciamento ambiental que em alguns estados e municípios tem legislação própria sobre o tema e obrigam os novos lotea- mentos residenciais ou distritos industriais a fazer o gerenciamento e controle da poluição difusa. Assim, pode considerar-se que é o transporte intermitente de poluentes, cuja origem não é pontual para os recursos hídricos superficiais ou para as águas subterrâneas, podendo tornar a qualidade da água inadequada para a maioria dos usos. No quadro 1, estão relacionadas as principais fontes geradoras de poluição difusa e seus efeitos. Quadro 1 – Relação das principais fontes geradoras de poluição difusa. Origem Fonte Principais composições Resultados Atmosférica - Indústrias - Veículos - Agrotóxicos Enxofre, metais, pestici- das, compostos orgâni- cos, nutrientes, asfalto, cinzas e compostos químicos como óxidos, nitritos e nitratos, clore- tos, fluoretos e silicatos. Chuva ácida. Acúmulo de poluentes nas ruas - Desgaste do pa- vimento asfáltico - Veículos - Lixo mal acondicionado Metais pesados (cád- mio, zinco, chumbo, cromo), pesticidas orga- noclorados e bifelinas policloradas (PCBs). Contaminação das águas e consequen- te inviabilização de seu tratamento. Uso do solo urbano e impactos causados no ambiente9 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo152 Origem Fonte Principais composições Resultados Erosão - Obras de cons- trução civil - Ruas não pavimentadas - Ausência de matas ciliares Sedimentos diversos da construção civil e solo. Assoreamento dos rios, aumentando a vulne- rabilidade de enchen- tes e alagamentos. Alterações na fau- na e flora aquática reduzindo a qua- lidade da água. Hospitalar - Lixo hospitalar mal acondicionado - Deposição/des- tinação irregular por moradores Compostos farmacêu- ticos ativos, disrup- tores endócrinos. - Comprometimento dos mananciais de água para abaste- cimento humano. - Alterações genéticas na fauna aquática. Fonte: Elaborado pelo autor. 9.2.2 Medidas de controle Sabendo dos graves problemas que a poluição difusa causa nos recursos hídricos, inú- meros técnicos e autores têm proposto medidas de controle para a poluição difusa. Entre elas, podem-se destacar algumas sugeridas por Silva (2009). Quadro 2 – Medidas de controle de poluição difusa. Ação Medida Estabelecimento de medidas e programas para a prevenção e controle da poluição. Implementação de planos de gestão de efluentes e resíduos nas atividades urba- nas, industriais, agrícolas e mineiras. Controle do armazenamento e aplica- ção de fertilizantes e agentes de com- bate a pragas em campos agrícolas. Drenagem de águas pluviais e imple- mentação de zonas de infiltração a mon- tante e de zonas de tratamento. Controle e vigilância de pontos onde po- dem ocorrer ligações clandestinas. Recolha e tratamento de es- corrências rodoviárias. Planeamento do uso e da ocupação do solo. Limpeza de arruamentos e zonas pa- vimentadas nas áreas urbanas. Uso do solo urbano e impactos causados no ambiente Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 9 153 Ação Medida Estabelecimento de medidas e programas de intervenção. Estabelecer políticas públicas lo- cais e/ou estaduais/nacionais. Cartografar as zonas mais vulne- ráveis e georreferenciar as poten- ciais origens da poluição difusa. Gerar mapas de interven- ção por regiões ou bairros. Criar programas de educação ambiental. Estabelecer ações de educação ambien- tal de forma crítica e mobilizadora. Fonte: Elaborado pelo autor. 9.3 Ocupação de áreas de risco Áreas de risco são regiões onde é recomendada a não construção de casas ou instala- ções, pois são muito expostas a desastres naturais, como desabamentos e inundações. Essas regiões vêm crescendo constantemente nos últimos 40 anos, principalmente devido à pró- pria ação humana. Em função disso, no Brasil, vêm sendo realizados vários projetos no sen- tido de reestruturação de algumas áreas e da própria concepção de urbanização, além da conscientização da população. As principais áreas de risco são aquelas sob encostas de morros inclinados ou à beira de rios nos chamados vales fluviais, onde a cota de inundação dos rios incide nas várzeas. Em al- guns países como Estados Unidos e Canadá, além de alguns países europeus como Espanha e Portugal, algumas áreas próximas às plantações florestais com alta vulnerabilidade para incêndios em períodos secos são também consideradas áreas de risco. Na prevenção aos desastres naturais, inúmeras medidas podem ser adotadas, que se enquadram em medidas estruturais e medidas não estruturais. As de maior destaque e ên- fase são as medidas estruturais, entretanto, o seu alto custo pode inviabilizá-las, pois são necessárias à execução de obras complexas e que exigem alta tecnologia. Existem vários serviços de assistência à população em casos de emergência, como bom- beiros, polícia militar, exército e até grupos organizados no próprio bairro. A principal ins- tituição responsável pelo monitoramento das áreas de risco é a Defesa Civil, que tem como o principal objetivo organizar o conjunto de ações preventivas, de socorro, assistenciais e recuperativas com o propósito de evitar ou minimizar desastres, procurando, ao mesmo tempo, preservar a moral da população e restabelecer a normalidade do convívio social. O trabalho da Defesa Civil se desenvolve em quatro fases: preventiva, socorro, assisten- cial e recuperativa. Seu sistema está organizado para planejar e promover a defesa permanen- te contra desastres, atuar na eminência e em situações de emergência e prevenir ou minimizar danos, socorrer e assistir populações atingidas e recuperar áreas afetadas por desastres. Os desastres nas áreas de risco são acentuados por desmatamentos, retirada e uso in- tensivo de materiais minerais, alterações da malha hídrica de cursos de água, ocupação de Uso do solo urbano e impactos causados no ambiente9 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo154 várzeas e encostas, queimadas, produção e deposição inadequada de lixo, poluição atmos- férica, aplicação de agrotóxicos, explosão de artefatos, entre outros. Essas ações e forma de intervenções humanas, como a ocupação desordenada do solo, pela pobreza social, pela deseducação e pelos muitos efeitos colaterais do chamado progres- so, somam-se aos fenômenos da natureza como altas precipitações de chuvas, fogo, erodibi- lidade de solos frágeis, neve, terremotos etc. O grande número de acidentes naturais registrados nas últimas décadas e os danos por eles provocados forçaram os organismos internacionais a estimularo estabelecimento de medidas com o objetivo de minimizar as consequências sociais e econômicas causadas por esses eventos, como tufões, ciclones, trombas de água, terremotos, tsunamis, entre outros. Dessa forma, a Organização das Nações Unidas (ONU) debateu e decidiu em Assembleia Geral realizada em 22 de dezembro de 1989, aprovando a Resolução 44/236, que considerou 1990 como início da década internacional para redução dos desastres naturais (DIRDN), cuja principal finalidade foi a de reduzir perdas de vidas, danos e transtornos socioeconômicos nos países em desenvolvimento, provocados por desastres naturais, como escorregamentos, terremotos, erupções vulcânicas, tsunamis, inundações, vendavais, seca e desertificação, in- cêndios, pragas de gafanhotos, além de outras calamidades de origem natural. Os dados da ONU são relevantes sobre esse tema: somente nas duas últimas décadas, segundo estimativas, houve 3 milhões de vítimas e prejuízos econômicos que ultrapassaram 23 bilhões de dólares. As metas principais da década internacional para redução dos desastres naturais são: • otimizar as condições que cada país tem para minorar, com rapidez e eficácia, as consequências dos eventos danosos, dando ênfase à assistência aos países em desenvolvimento, avaliando eventuais danos no caso da ocorrência de desastres naturais, além de criar sistemas de alerta e desenvolver estruturas resistentes a tais desastres; • estabelecer diretrizes e estratégias adequadas à aplicação do corpus técnico-cien- tífico já acumulado sobre o assunto, considerando, no entanto, as características culturais e econômicas de cada nação; • estimular atividades científicas e técnicas tendentes a suprir lacunas críticas do conhecimento e evitar ou reduzir o número de perdas de vida humana e de bens materiais; • difundir informações técnicas sobre medidas de avaliação, prevenção e diminui- ção dos efeitos dos desastres naturais existentes, como aquelas que sejam futura- mente obtidas; • tomar medidas de avaliação, prevenção e diminuição dos efeitos dos desastres na- turais por meio de programas de assistência técnica e transferência de tecnologia, projetos de demonstração e atividades de educação e formação adaptadas ao tipo de desastre e local de sua ocorrência, ao final buscando aferir o alcance e a eficácia de tais iniciativas. Uso do solo urbano e impactos causados no ambiente Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 9 155 9.3.1 Escorregamentos de terras No Brasil, os processos naturais mais comuns são os escorregamentos, as enchentes, as erosões e as secas. Em função da grande ocupação irregular de morros, o escorregamento é aquele que mais gera transtorno e preocupa pelo número de vítimas fatais que tem gerado. Os escorregamentos destacam-se como o tipo de acidente de origem geológica mais co- mum que ocorre, principalmente no período das chuvas, quando muitos eventos dessa na- tureza têm ocorrido, causando acidentes em várias cidades, entre as quais São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Vitória e Recife. O fato se agrava e se torna mais preocupan- te em vista do aumento considerável da ocupação de encostas sem os cuidados necessários. Segundo a Defesa Civil do Estado de São Paulo, são diversas as causas principais do desabamento. Dentre elas, destacam-se as seguintes: • declividade e altura excessiva de cortes – atingindo o solo de alteração e outros fatores condicionantes, a encosta fica suscetível ao desabamento; • execução inadequada de aterros – pode gerar novas vias de condução de água levando à ruptura do aterro e aos escorregamentos; • lançamento e concentração de águas pluviais – pela ineficiência de sistemas de drenagem, ocorrem infiltrações por trincas e fissuras, diminuindo a resistência do solo e provocando a ruptura de solos e aterros; • lançamento de águas servidas – infiltração excessiva de água no solo, agravada no período de chuvas; • vazamento na rede de abastecimento de água – causam saturação de água no solo e redes improvisadas são ainda mais inadequadas; • fossa sanitária; • deposição de lixo; • remoção indiscriminada da cobertura vegetal – diminui a proteção ao impacto e às infiltrações pluviais, e as raízes ajudam a conter o solo. Infelizmente, pelas formas de desenvolvimento urbano que se têm aplicado no Brasil com modelos habitacionais em formas de aglomerados e em áreas de vulnerabilidade a riscos, não há nenhuma perspectiva de que essa situação se modifique a curto prazo, uma vez que de- vido à crescente desigualdade socioeconômica associada ao desemprego, à falta de moradia, à deseducação etc., a ocupação de encostas sem os cuidados necessários tende a aumentar, levando a um consequente aumento do número de acidentes dessa natureza. Com base nessa realidade, medidas paliativas são necessárias como atuação preventiva de iniciativa pública ou privada, propiciando às famílias que moram em áreas de risco con- dições de conviver com os riscos, em segurança. Uso do solo urbano e impactos causados no ambiente9 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo156 O início do período de chuvas aumenta os riscos de inundação, desabamentos de casas e deslizamentos de terra e muitas evidências podem sinalizar a identificação e evitar desas- tres. Como exemplo, podemos citar os postes de luz e energia elétrica, cercas e árvores que começam a inclinar mostrando que o terreno está se movendo, ou mesmo trincas nas pare- des ou no chão e degraus, junto aos barrancos, são outro sinal de alerta. 9.3.2 Formas de prevenção de desastres nas áreas de risco Tendo como base os princípios hidrológicos, pedológicos, físicos e biológicos, a seguir estão apontadas formas de prevenção de desastres em áreas de risco. • Evitar os cortes verticais do talude. • Evitar, nas encostas, a plantação de bananeiras, que é uma planta pesada e de raiz superficial, dando preferência às plantas mais leves e de raízes profundas, como o bambu. • Não jogar lixo nas encostas, nos córregos e nas bocas de lobo. • Construir calhas nos telhados, conservando-os limpos para reduzir a velocidade da água da chuva. • Construir canaletas no chão para direcionar a água e reduzir a sua velocidade. • Manter limpos os ralos, esgotos, galerias, valas etc. • Aterrar buracos que acumulam água. • Reforçar muros e paredes que estejam vulneráveis às enchentes. • Fazer o manejo adequado com a poda ou corte de árvores com risco de queda. • Incentivar a criação de grupos de cooperação entre os moradores em locais de risco. • Não construir moradias às margens de cursos de água, sobre aterros ou próximos de brejos. • Construir a casa sempre em nível mais elevado que o curso de água mais próximo. • Observar se as árvores estão ficando inclinadas, se há trincas novas nas paredes das casas ou no chão e se há movimentação do terreno. • Observar em dias de chuvas fortes se a água da chuva está barrenta e contendo plantas e troncos, pois poderá ser um sinal de inundação. 9.3.3 Órgãos públicos que podem ser chamados O quadro 3 aponta os principais órgãos públicos que devem ser chamados em caso de desastre em áreas de risco. Ressalta-se que os profissionais que fazem parte desses órgãos são qualificados e preparados para lidar com as inúmeras situações ocorrentes em um desastre. Uso do solo urbano e impactos causados no ambiente Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 9 157 Quadro 3 – Principais órgãos públicos a serem acionados em caso de desastre em área de risco. Órgão Função Corpo de Bombeiros Salvamento, proteção e resgate de pessoas e objetos em caso de fato consumado ou de consumação eminente. Defesa Civil Municipal Realizam vistorias preventivas, remoção e alojamento de pessoas em risco, distribuição de alimentos, lonas e barracas. Defesa Civil Estadual Cooperação com as comissões municipais de Defesa Civil. Fonte: Elaborado pelo autor. Outros órgãos, como a Polícia Militar e Civil e as Forças Armadas, podem ser acionadostambém, mas sempre estarão sob a orientação dos órgãos citados no quadro 3. Ampliando seus conhecimentos Sustentabilidade urbana e impactos socioambientais: uma abordagem acerca da ocupação humana desordenada no espaço urbano (ANDRADE, 2013) O termo sustentabilidade apresenta-se como uma incompletude concei- tual, isto é, conceitos que são constantemente reconstruídos. Segundo Nascimento (2012), o conceito de sustentabilidade tem duas origens. A primeira, na biologia, por meio da ecologia. Refere-se à capacidade de recuperação e reprodução dos ecossistemas (resiliência) em face de agressões antrópicas (uso abusivo dos recursos naturais, desfloresta- mento, fogo etc.) ou naturais (terremoto, tsunami, fogo etc.). A segunda, na economia, como adjetivo do desenvolvimento, em face da percepção crescente ao longo do século XX de que o padrão de produção e con- sumo em expansão no mundo, sobretudo no último quarto desse século, não tem possibilidade de perdurar. A ideia de sustentabilidade permeia a racionalidade do uso dos recursos naturais, objetivando satisfazer as necessidades das gerações do presente e do futuro. E no ambiente urbano, a ocupação desordenada requer o des- matamento de extensas áreas de floresta e da poluição, principalmente das águas, ao serem construídas moradias irregulares à beira de igarapés, lagos e demais cursos d’água. Uso do solo urbano e impactos causados no ambiente9 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo158 Nascimento (2012) explica ainda que o termo sustentabilidade surgiu por volta da década de 1950, com a percepção de um risco global ambiental acerca da poluição nuclear. Posteriormente, novas preocupações surgi- ram através do uso de pesticidas e inseticidas químicos, denunciado pela bióloga Rachel Carson. Além da poluição nuclear e do uso de pesticidas e inseticidas químicos, as chuvas ácidas foram a problemática ao final da década de 1960, pois este caracteriza-se pela emissão de gás carbônico das indústrias e veículos. Podemos perceber nesse contexto, que o boom da crise ambiental foi a partir do crescimento demográfico urbano, onde um grande contingente de mão de obra movimentava as indústrias, além do consumo exacerbado pelo automóvel. Inicialmente, as dimensões da sustentabilidade apresentam-se como um “trevo de três folhas”. A primeira diz respeito à equidade social, com o objetivo de erradicar a pobreza e definir o padrão de desigualdade aceitá- vel e que ninguém absorva irracionalmente os recursos naturais, para que todos tenham acesso aos mesmos, visando uma justiça social. A segunda diz respeito à eficiência econômica, trata-se daquilo que alguns denomi- nam como ecoeficiência, que supõe uma contínua inovação tecnológica que nos leve a sair do ciclo fóssil de energia (carvão, petróleo e gás) e a ampliar a desmaterialização da economia. A terceira diz respeito à pre- servação ambiental, através do uso responsável e racional dos recursos naturais, com o intuito de propiciar a resiliência dos ecossistemas. Outros autores (MACHADO, 2005; MACEDO, 2004; LEFF, 2006) abor- dam ainda as dimensões espaciais; demográfica, fundamentada pelo autor Arno Naess, pois o processo migratório do espaço rural para o urbano acarreta em um inchaço populacional e crescimento desordenado, comprometendo o aumento da capacidade carga em áreas verdes, além da geração de grandes problemas sociais, como a violência, prostituição, desemprego entre outros; ética; estética; política; cultural, com o objetivo de questionar os padrões de consumos atuais, baseado no modelo de reprodução ampliado de capital; e a dimensão tecnológica, pois segundo Robert Solow (2000), toma como séria a questão da finitude dos recur- sos naturais, porém, ao contrário dos críticos da economia dominante, considera que o homem é capaz de construir as respostas necessárias a esse desafio sem grandes mudanças sociais, mas tecnológicas. Isto é, as inovações tecnológicas são capazes de reduzir essa grande problemática, tais como exemplos, a adoção de energias renováveis, estação de trata- mento de água, investimentos em transportes públicos híbridos, mapea- mento de áreas de risco em áreas urbanas etc. Leff (2001) destaca que a Uso do solo urbano e impactos causados no ambiente Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 9 159 crise ambiental demonstra a necessidade de revalorização do fato urbano a partir da racionalidade do ambiente; de romper a inércia crescente de urbanização e repensar as funções atribuídas à vida urbana. Moreno (2002) destaca ainda algumas propostas que foram consolidadas e ordenadas em quatro estratégias de sustentabilidade urbana, consideradas como prioritárias para a sustentabilidade das cidades brasileiras, a seguir: Regular o uso e ocupação do solo e o ordenamento do território, contri- buindo para a melhoria das condições de vida da população, mediante promoção da equidade, eficiência e qualidade ambiental; Promover o desenvolvimento institucional e o fortalecimento da capaci- dade de planejamento e gestão democrática da cidade, incorporando no processo a dimensão ambiental urbana e assegurando a efetiva participa- ção da sociedade; Promover mudanças nos padrões de produção e consumo da cidade, reduzindo custos e desperdícios e fomentando o desenvolvimento de tecnologias urbanas sustentáveis; Desenvolver e estimular a aplicação de instrumentos econômicos no gerenciamento dos recursos naturais, visando à sustentabilidade urbana. A sustentabilidade urbana busca reduzir os impactos socioambientais e, consequentemente, melhorar a qualidade de vida da população local, por meio de instrumentos legais e de planejamento. Planejamento, uso e ocupação do solo urbano Com o intenso crescimento urbano e construção de moradias irregulares, surge a necessidade de fiscalização e regulamentação, visto que as cidades são as grandes responsáveis pela degradação ambiental, gerando então os problemas socioambientais. Dentro deste processo, o planejamento é imprescindível para minimizar esses impactos, pois a atividade da ocupa- ção urbana deve obedecer a princípios legais preestabelecidos e seguir a um planejamento territorial urbano de autoria da gestão pública. O planejamento consiste em um processo indispensável à tomada de deci- sões, incluindo a participação da população local na formulação da percep- ção ambiental, permitindo com isso a incorporação da decisão da popu- lação e sua interferência na paisagem urbanizada, a partir da pesquisa de informações e necessidades da população. O planejamento permite que a Uso do solo urbano e impactos causados no ambiente9 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo160 população tome conhecimento dos destinos que os políticos desejam atri- buir à cidade, participação das decisões ou tendo oportunidade de se opor a elas, evitando-se o fato consumado (MARQUES, 2005). É a partir do plane- jamento que o gestor público, juntamente com a sociedade civil organizada chega-se a tomada de decisão que contemplam as necessidades da popula- ção local e a busca pela melhoria da qualidade de vida urbana. De acordo com Moura (2006), A formação do sistema de normas de direito urbanístico, foi umas das exigências da Constituição. Esse corpo norma- tivo deve ser composto pelas normas constitucionais referentes à política urbana estabelecida, lei federal de desenvolvimento urbano, o conjunto de normas sobre a política urbana estabelecidas nas Constituições Estaduais, lei estadual de política urbana e a legislação estadual urbanística, bem como o conjunto de normas municipais referentes à política urbana, dis- postas nas Leis Orgânicas dos Municípios, no Plano Diretor e na legisla- ção municipal urbanística. O planejamento urbano municipal é uma importante ferramenta para que possa reduzir os impactos socioambientais dos terrenos ocupados. Toda esta ferramenta está embasada legalmente no Plano Diretor do Município, que caracteriza-se como um conjuntode diretrizes, objetivos e metas a serem cumpridas em um determinado período de tempo preestabelecido, envolvendo o desenvolvimento socioambiental, uso e ocupação ordenada e planejada do solo urbano, acesso à infraestrutura e serviços públicos bási- cos. Todo esse planejamento deve levar em consideração as consequências das possíveis intervenções antrópicas no ambiente e logo, apresentar alter- nativas ou propostas para reduzir as consequências da ação humana. O solo urbano possui um valor econômico, social e ambiental, pois a espe- culação imobiliária impulsionou o aumento dos valores dos terrenos urba- nos, através do boom das construções civis e facilidades de pagamento das moradias. Os terrenos urbanos são objetos de compra e venda sujei- tos, portanto, às leis que regem o mercado, com a grande desigualdade social muitas vezes os requisitos legais são violados e traz as grandes con- sequências no crescimento das grandes cidades (GONZALES et al., 1991). Como os valores dos terrenos, são, em sua grande maioria muito elevados para as famílias de baixa renda, a alternativa é a ocupação desordenada na beira de igarapés, lagos, rios, dentro de áreas verdes e terrenos baldios etc. Uso do solo urbano e impactos causados no ambiente Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 9 161 Atividades 1. Faça um diagnóstico na cidade em que você vive sobre os aspectos de impermeabili- zação urbana. Primeiramente vá até o órgão público ou universidade que é respon- sável por gerar informações sobre esse assunto, como a Defesa Civil e liste os pontos de alagamento, enchentes e as áreas de risco. Em seguida, verifique se há um plano diretor que traça diretrizes para a resolução desses problemas e verifique observan- do pela cidade se as orientações do plano estão sendo executadas. 2. Faça um diagnóstico andando pela cidade, com a observação de fontes de poluição difusa, caracterizando-as quanto à sua periculosidade e potencial de contaminação do recurso hídrico. 3. Faça um diagnóstico sobre as áreas de risco que ocorram em sua cidade apontando as principais causas geradoras de um eventual desastre. Verifique se há projetos ou ações que têm como objetivo a prevenção ou minimização dos danos. Referências ANDRADE, Francisco Alcicley Vasconcelos. Sustentabilidade urbana e impactos socioambientais: uma abordagem acerca da ocupação humana desordenada no espaço urbano. Contribuciones a las Ciencias Sociales. 2013. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017. MACIEL, Renata Rodrigues. Controle de poluição difusa em drenagem urbana, 2003. Faculdade Anhembi Morumbi. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017. MARTINS, J. A. Hidrologia de superfície. São Paulo: Ed. Edgard Blücher Ltda, 1973. p. 7-35. PHILIPPI JR., Arlindo.; MALHEIROS, Tadeu, Fabricio. Saneamento e saúde pública: integrando ho- mem e ambiente. In: PHILIPPI JR., A. Saneamento, saúde e ambiente: fundamentos para um desen- volvimento sustentável. São Paulo: Coleção Ambiental, 2005. p. 3-31. PORTAL SÃO FRANCISCO. Meio ambiente: inundações. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017. SILVA, André Henrique Carmo Luiz. Controle da poluição difusa de origem pluvial em uma via de tráfego intenso por meio de trincheira de infiltração e vala de detenção. Dissertação apresen- tada ao Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos em 2009. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017. SOUZA, Graziella, Martinez; ROMUALDO, Sanderson Santos. Inundações urbanas: a percepção so- bre a problemática socioambiental pela comunidade do bairro Jardim Natal Juiz de Fora (MG). In: XIII Simpósio Brasileiro de Geografia Física Aplicada, 2009, Viçosa. A geografia física e as dinâmicas de apropriação da natureza, 2009. Uso do solo urbano e impactos causados no ambiente9 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo162 SULEIMAN, Hélio Cesar. Mapeamento preliminar de áreas urbanas de inundação. São Carlos. Dissertação (Mestrado Engenharia Urbana) – Universidade Federal de São Carlos – UFSCar, 2005. Disponível em: . Acesso em: abr. 2017. TUCCI, Carlos. Inundações e drenagem Urbana. In: Carlos E. M. Tucci e Juan Carlos Bertoni. (Org.). Inundações urbanas na América do Sul. Porto Alegre: ABRH GWP, 2003, v. 1, p. 45-150. TUNDISI, José Galicia. Água no século 21: enfrentando a escassez. RIMA/IIE, 2003. 247 p. Resolução 1. Você deverá fazer uma lista e correlacionar as principais consequências da imper- meabilização, como os pontos de alagamentos na cidade, enchentes etc. Caso não haja um plano diretor que envolva as questões de impermeabilização na urbani- zação da cidade, você poderá elaborar um documento e encaminhar aos órgãos competentes, como a prefeitura e o Ministério Público, cobrando a elaboração desse plano. Ainda, poderá divulgar nos meios de comunicação a importância desse tipo de ação estrutural na urbanização e instrumento de gestão e manejo dos recursos hídricos para a melhoria da qualidade de vida nas cidades. 2. Você deverá fazer uma lista com as informações sobre as fontes de poluição difusa observadas em seu diagnóstico e corelacionar se existe potencial de contaminação ao recurso hídrico. 3. Você deverá fazer uma lista e relacionar as principais áreas de risco com suas po- tenciais causas, além de correlacionar se há projetos ou ações para prevenção ou minimização do dano. Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 163 10 Aspectos da ocupação do espaço rural e suas implicações no uso e na conservação dos recursos naturais O espaço rural tem passado por grandes e inúmeras mudanças, decorrentes de crescentes interações com a dinâmica econômica global e principalmente pela mercan- tilização de commodities agrícolas. Isso tem proporcionado para o meio técnico-cientí- fico-informacional gerar novas tecnologias que atendam a essa demanda capitalista. Com consequências imediatas dessa nova forma de se fazer agricultura, os modos de vida do camponês são alterados juntamente com suas funções e seus conteúdos técnicos, gerando profundas alterações socioculturais e crescente pressão aos recursos naturais no espaço rural. Este capítulo está organizado para apresentar os aspectos da ocupação do espaço rural e suas implicações no uso e na conservação dos recursos naturais, dando des- taque para fragmentação da paisagem, modelos de produção agropecuária e seus impactos nos recursos naturais e percepção, conhecimento e educação sobre os valores ambientais no espaço rural. Aspectos da ocupação do espaço rural e suas implicações no uso e na conservação dos recursos naturais10 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo164 10.1 Fragmentação da paisagem Decorrente da teoria da biogeografia de ilhas, a paisagem é percebida como um conjunto de fragmentos de hábitat dispersos numa matriz homogênea e inóspita (HANSKI, 1997). De uma forma mais realista, a matriz é antes de tudo uma área heterogênea, contendo uma va- riedade de unidades de não hábitats, que representam condições mais ou menos favoráveis às espécies do hábitat estudado. As unidades da matriz podem, muitas vezes, ser fonte de perturbação e favorecer o desenvolvimento de espécies generalistas, predadoras e parasitas invasoras que agem principalmente nas bordas dos fragmentos e participam na extinção de espécies desse hábitat. Dessa forma, a matriz inter-hábitat inibe em geral os deslocamentos dos organismos, e essa ação é mais ou menos intensa em função da suapermeabilidade e das capacidades de deslocamento das espécies nas paisagens fragmentadas (RODRIGUES; PRIMACK, 2015). A permeabilidade da matriz como um todo pode ser estimada pela densidade de pontos de ligação e pelo grau de resistência ao movimento de cada uma das unidades da paisagem ou fragmentos de ecossistemas naturais. Os pontos de ligação constituem pe- quenas áreas de hábitat dispersas na matriz e esses pontos podem ter um papel importan- te no movimento de algumas espécies ou na persistência, numa paisagem fragmentada, de espécies que não carecem de grandes espaços para se desenvolverem. Murcia (1995) mostra, por exemplo, que o movimento de espécies de aves frugívoras em pradarias norte-americanas é governado pela presença e pelo arranjo espacial de ele- mentos florestais de áreas relativamente reduzidas, como florestas ripárias ou matas cilia- res, ou mesmo árvores isoladas. Essas aves favorecem ainda a disseminação de espécies lenhosas pela deposição de sementes nos pontos de ligação, propiciando o estabelecimento dessas espécies na matriz. Existe um grande número de espécies que utiliza a matriz para se locomover e promover interações benéficas, como o fluxo gênico. Na regulação da locomoção pela paisagem, os corredores e a matriz da paisagem têm funções complementares. As espécies que não conseguem se deslocar fora das áreas de seu hábitat são favorecidas pela presença de corredores largos. Por outro lado, as espécies que podem se deslocar em outras unidades da paisagem serão mais sensíveis às características da matriz. A permeabilidade da matriz é, dessa forma, mais um parâmetro que influi sobre os deslocamentos das espécies na paisagem e pode, consequentemente, levar à extinção de populações fragmentadas que não se deslocam na paisagem. A noção de diversidade da paisagem envolve vários parâmetros, tornando difícil a in- terpretação de uma medida única de diversidade. Uma melhor compreensão da diversidade deve ser desenvolvida correlacionando estruturas ou processos ecológicos aos componentes mais simples da diversidade, como o tipo, o número, a área e a forma dos fragmentos ou, ainda, a área e o tipo de borda. A fragmentação de hábitats é um dos mais sérios problemas ecológicos da atualidade. Na região tropical, um grande número de espécies está sendo perdido antes mesmo de estas serem conhecidas pela ciência. Visto que os hábitats fragmentados corresponderão à Aspectos da ocupação do espaço rural e suas implicações no uso e na conservação dos recursos naturais Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 10 165 situação padrão no futuro e para algumas regiões brasileiras como o Sudeste, Sul e Centro- Oeste, serão necessárias ações de manejo do ambiente para evitar a erosão da diversidade biológica e dos benefícios inerentes a ela. A constatação de uma crescente perda de diversidade biológica nas últimas décadas, em virtude da fragmentação das paisagens e dos ambientes naturais e substituição de es- pécies nativas tem estimulado a procura de formas de planejamento e manejo dos recursos naturais que possam minimizar esse problema (METZGER, 1997). O manejo efetivo da paisagem e de ecossistemas tropicais para a preservação, conserva- ção e obtenção de recursos florestais e agrícolas deve estar fundamentado em informações biológicas, como estudos em fenologia, biologia floral e reprodutiva das espécies, dinâmica de populações, biologia de sementes, regeneração e genética de populações e adequação da produção agrícola aos solos e clima. Atualmente, há certo consenso de que o manejo dos recursos deve considerar a paisagem como um todo (BUDOWSKI, 1965). É preciso entender a dinâmica das populações existentes nos fragmentos e sua interação com os elementos da paisagem para que as práticas de manejo e conservação sejam as mais eficientes possíveis. Além disso, existe uma carência de dados ecológicos quantitativos nas florestas brasileiras no que diz respeito aos aspectos da dinâmica dessas formações, que envolvem estudos temporais de comunidades, estudos de biologia de populações, dos as- pectos reprodutivos dessas formações e da sustentabilidade dessas áreas. Os poucos remanescentes dos ecossistemas brasileiros distribuídos na ampla paisagem brasileira estão sendo reconhecidos pelos seus serviços ambientais como produção de água, conservação do patrimônio genético e conservação dos solos, além do equilíbrio climático. Os ecossistemas são de grande valor ecológico e taxonômico, funcionando como uma cole- ção viva de espécies representativas da flora local e de sua diversidade genética, bem como banco de informações acerca da estrutura e funcionamento desses tipos de ecossistemas. 10.1.1 Aspectos da fragmentação O processo de substituição da vegetação nativa na paisagem, especialmente da cober- tura florestal, ocasionou a fragmentação dos ecossistemas florestais, condicionando-os a pe- quenas manchas ou fragmentos isolados. Apesar de o processo de fragmentação florestal ser bem antigo no Brasil, os estudos que visam à compreensão do comportamento das espécies, do fluxo gênico, da migração e da extinção são bastante recentes. A fragmentação é basicamente um processo de ruptura na continuidade de hábitats naturais e que muitas vezes ocasiona também ruptura dos fluxos gênicos entre populações presentes nesses hábitats. A destruição de hábitats e consequente fragmentação de popula- ções naturais têm levado muitas espécies a atingir uma limitação evolutiva, decorrente da perda de variabilidade genética, que basicamente reduz a habilidade das populações de se adaptarem a mudanças ambientais. Aspectos da ocupação do espaço rural e suas implicações no uso e na conservação dos recursos naturais10 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo166 A fragmentação ocasiona o isolamento populacional, os efeitos de borda, a colonização de espécies exóticas, a diminuição do fluxo gênico e a reprodução entre indivíduos apa- rentados ou entre menor número de indivíduos. As principais causas da diminuição do tamanho populacional são a deriva genética e a endogamia. A primeira provoca perda de variação genética e a segunda é responsável pela perda de heterozigosidade. Portanto, existe a necessidade imediata de se desenvolver e adaptar técnicas de restau- ração de paisagens que promovam a conservação desses remanescentes. 10.1.2 Consequências da fragmentação da paisagem No quadro 1, estão apresentadas as consequências da fragmentação correlacionadas com seus principais indicadores. Quadro 1 – Consequências da fragmentação da paisagem. Resultado do impacto na(o) Consequência Conectividade dos hábitats Reduz a capacidade de a fauna e a flora transmitirem seus genes pela paisagem, ocasionando endogamia. Corredores ecológicos Idem anterior. Metapopulação Redução das populações de determinadas es- pécies viventes em uma mesma paisagem. Clima Alteração dos padrões climáticos regionais e globais. Recursos hídricos Redução da quantidade e qualidade de água, po- dendo gerar crise hídrica em regiões populosas. Solos Perda de fertilidade e rompimento dos ciclos biogeoquímicos responsáveis pela ciclagem de nutrientes no planeta Terra. Biodiversidade Perda de espécies que necessitam de áreas não fragmentadas para sobreviver. Econômica – Dependência de commodities agríco- las de monocultivos agrícolas. – Dependência de bolsas de valores. Justiça socioambiental – Aumento do desemprego devido à presença de uma paisagem monocultivável e com baixa exploração. – Concentração de renda para minorias. Fonte: Elaborado pelo autor. Aspectos da ocupação do espaço rural e suas implicações no uso e na conservação dos recursos naturais Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 10 167 10.2 Modelos de produção agropecuária e seus impactos nos recursos naturais No Brasil, os conflitos de terras se estendem por séculos, e uma tentativa de minimi- zação dessa situação foi organizar o perfil das propriedadesrurais pelo Estatuto da Terra definido pela Lei 4.504, de 30 de novembro de 1964. Para uma melhor classificação das propriedades, o Estatuto da Terra padronizou os imóveis rurais, denominados de módulos rural e fiscal. Assim, para estabelecer o módulo rural e fiscal são analisados basicamente três aspectos: • localização – se o imóvel rural se encontra próximo de grandes centros e conta com infraestrutura terá uma área menor; • fertilidade e clima – quanto maiores as condições para o cultivo, menor será a área; • tipo de produto cultivado – se uma região produz, por exemplo, mandioca em nível extensivo, a área será maior, agora caso o cultivo seja de morangos com em- prego de alta tecnologia, sua área é inferior. Depois dessa padronização, foram estabelecidas as categorias de propriedades. • minifúndio: são pequenas propriedades rurais responsáveis pela produção de cerca de 70% de todo o alimento consumido no país, com utilização em geral de mão de obra familiar; • latifúndio por dimensão: corresponde a grandes propriedades rurais, com ati- vidade vinculada à agroindústria e seus produtos geralmente são destinados ao mercado externo; • latifúndio por exploração: esse tipo de propriedade tem como característica a im- produtividade, pois o proprietário adquire terras com intuito de desenvolver espe- culação imobiliária, dessa forma não há nenhuma intenção de cultivá-las, produzin- do empregos, impostos e colaborando com o crescimento econômico do país; • empresa rural: propriedade de porte médio e grande que produz matéria-pri- ma (laranja, soja, cana-de-açúcar, leite, carne, entre outros) destinada para as agroindústrias. No contexto mundial, o Brasil segundo a FAO – Órgão das Nações Unidas para a Agricultura (2016) é um dos maiores produtores de alimentos de todo o mundo. Isso se dá pelas suas dimensões continentais em relevos em sua grande maioria suaves ondulados e climas variados e amenos que são favoráveis para a produtividade e diversidade de alimentos. Somado a esse cenário, no Brasil se aplica, pela sua diversidade socioeconômica, fun- diária e ambiental, diferentes modelos de produção agropecuária. Entre esses modelos se destacam a denominada agricultura tradicional e a agricultura moderna. Um terceiro tam- bém tem ganhado espaço e competitividade na última década, que é a agricultura orgânica. Aspectos da ocupação do espaço rural e suas implicações no uso e na conservação dos recursos naturais10 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo168 10.2.1 Agricultura tradicional A agricultura tradicional é característica de pequenos produtores rurais com até quatro módulos rurais, segundo classificação do Ministério da Agricultura, em que são utilizados métodos simples de plantio, sem o uso excessivo de defensivos agrícolas como agrotóxicos e adubos químicos ou mesmo não se enquadram nos pacotes tecnológicos das grandes empre- sas do agronegócio. Por estar sendo praticada em áreas geralmente familiares e pequenas, a produção é realizada em pequena escala e serve de base para a subsistência de famílias. Segundo a Constituição brasileira, materializada na Lei 11.326, de julho de 2006, con- sidera-se agricultor familiar aquele que desenvolve atividades econômicas no meio rural e que atende a alguns requisitos básicos, tais como: não possuir propriedade rural maior que quatro módulos fiscais, que pode variar de 5 a 100 hectares, de acordo com o município, utilizar predominantemente mão de obra da própria família nas atividades econômicas de propriedade e ter a maior parte da renda familiar proveniente das atividades agropecuárias desenvolvidas no estabelecimento rural. A agricultura familiar é extremamente importante para a economia e segurança ali- mentar brasileira, pois segundo o IBGE (2016), estima-se que, atualmente, 70% de todo o alimento consumido internamente no país venha desse tipo de agricultura. Nesse modelo de produção agrícola, também são utilizadas tecnologias como máqui- nas e defensivos agrícolas em seu processo produtivo, o que mesmo em pequena escala gera impactos nos recursos naturais. No quadro 2 são apresentados os principais impactos ambientais na paisagem rural por esse modelo de produção agropecuária. Quadro 2 – Possíveis impactos nos recursos naturais. Ação Tipo de impacto nos recursos naturais Relevância Uso de agrotóxicos – Contaminação dos recursos hídri- cos superficiais e subterrâneos. – Mortalidade de peixes. – Inviabilização de capta- ção de água em mananciais de abastecimento humano. Negativa de baixa a média. Uso de fertilizantes – Eutrofização dos recursos hídricos. – Salinização de solos agrícolas. Negativa de baixa a média. Uso de máquinas agrícolas – Compactação dos solos e consequen- te aumento de erosões e voçorocas. Negativa de baixa a média. Aspectos da ocupação do espaço rural e suas implicações no uso e na conservação dos recursos naturais Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 10 169 Ação Tipo de impacto nos recursos naturais Relevância Uso do solo – Desmatamentos. – Ocupação de áreas de pre- servação permanente. – Aumento de processos erosivos. Negativa de baixa a média. Diversidade de produção – Geralmente média a alta. – Matriz da paisagem diversificada. Positiva de baixa a média. Fonte: Elaborado pelo autor. 10.2.2 Agricultura moderna A agricultura moderna é aquela praticada com o auxílio do pacote tecnológico de gran- des empresas do agronegócio, utilizando uma série de tecnologias com base nos insumos agrícolas, como uso intensivo de adubos químicos e agrotóxicos, levando à produção em grande escala. No Brasil esse modelo é dominante, pois os formatos fundiários se configuraram nos últimos 30 anos de propriedades médias a de grande porte. Até fins dos anos 80, houve um enorme crescimento da área cultivada com produtos agroindustriais de exportação em detri- mento de cultivos voltados ao abastecimento interno, o que tem levado a uma problemática de justiça social no campo, pois esse modelo de produção, que é altamente tecnificado, exclui a mão de obra braçal, que é típica no Brasil, gerando o crescimento do desemprego nesse setor. Outro contraponto importante que deve ser destacado sobre a modernização das técnicas é a valorização e consequente concentração de terras, a plena subordinação da agropecuária ao capital industrial, além da intensificação do êxodo rural e inchaços das periferias urbanas em condições precárias de ressocialização e inclusão nos novos mercados de trabalho. Nos últimos 40 anos nesse contexto, os pequenos agricultores familiares que resistem à vida camponesa estão sendo obrigados a recorrer a empréstimos bancários para se capi- talizar e ter condições de cultivar a terra de acordo com os padrões exigidos e estar dentro da competitividade. Como consequência da instabilidade dos mercados agrícolas associada com as variações climáticas, vem se tornado comum o acúmulo de dívidas que só podem ser pagas com a venda de sua terra, que normalmente pelos contratos de créditos financeiros bancários ficam penhorados no banco. Uma característica bem típica das propriedades rurais que adotam esse modelo se re- fere às dimensões das áreas plantadas. São grandes extensões de terra ocupadas por um único tipo de cultura agrícola caracterizando a paisagem com monoculturas. Essa atividade agrícola é uma herança do Período Colonial e pode ser verificada em diferentes regiões do Brasil, com o objetivo da produção em larga escala e tendo como foco a exportação de espé- cies agrícolas que são commodities e têm alto valor de mercado. Aspectos da ocupação do espaço rural e suas implicações no uso e na conservação dos recursos naturais10 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo170 Nessas propriedades que adotam esse modelo, os impactos ambientais e sociais são relevantes em consequência do uso extensivo de defensivos químicos ou até mesmo semen- tes selecionadas ou geneticamente modificadas, alémdas intervenções antropogênicas em métodos de análise multicriterial (FRANCISCO et al., 2008). Uma zona fundamental para a preservação da qualidade da água e diver- sificação de habitats em uma bacia hidrográfica é o ecossistema ripário que constitui uma interface entre o ambiente terrestre e o aquático. Esse ambiente ribeirinho reflete um complexo de fatores geológicos, climáti- cos, hidrológicos que em interação com os fatores bióticos definem uma heterogeneidade de ambientes (RODRIGUES, 2000). Sob florestas ciliares ocorre uma significativa variação de solos, cujos reflexos aparecem nos diversos tipos de formações florestais (JACOMINE, 2000). As compara- ções florísticas entre remanescentes de formações florestais ciliares mos- tram que essas áreas são muito diversas, mesmo em áreas de grande pro- ximidade espacial, e essa diversidade é dependente também, entre outros fatores, do tamanho da faixa ciliar florestada (METZEGER et al., 1997). Esses autores ressaltam que apenas um grande esforço de preservação pode possibilitar a manutenção dessa biodiversidade, no pouco que resta de florestas ciliares, aliado a uma implementação no conhecimento cientí- fico sobre essas áreas. A água que flui nos cursos não está isolada e hermé- tica à complexa interação com a área ripária. Em realidade, são sistemas abertos e que participam de todos os processos ecológicos que ocorrem nas bacias hidrográficas, historicamente negligenciados no processo de exploração dos recursos naturais (BARRELA et al., 2000). A preservação da faixa ripária, principalmente nos córregos, é de extrema importância pois evita a erosão de solos adjacentes, impedindo ou ate- nuando a sedimentação e assoreamento do leito. O assoreamento pro- voca a perda de habitats aquáticos, o rebaixamento do lençol freático, a diminuição na vazão média e o declínio da biodiversidade do sistema (BERKMAN e RABENI, 1987). A retirada da vegetação das margens dos cursos d’água é prejudicial também porque o material em suspen- são interfere na qualidade da água do corpo receptor (ODUM, 1988). Em escala de pequenas bacias e sub-bacias hidrográficas, a extensão e condi- ção da mata ciliar podem ser utilizadas como indicadores hidrológicos da sustentabilidade das atividades humanas (LIMA e ZÁKIA, 1998), pois a vegetação ripária é responsável por grande parte do regime ambiental do ecossistema aquático (LIKENS, 1985). A delimitação da zona ripária é uma das primeiras etapas para a avaliação desta como um indicador, e, em tese, seus limites estendem-se às mar- gens laterais dos corpos d’água até o alcance máximo da zona saturada Parâmetros físicos, químicos e biológicos1 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo20 do solo, que dada a dinâmica dessa zona, aumenta a dificuldade de seu mapeamento. Diferentes métodos de modelagem e mapeamento das zonas ripárias foram desenvolvidos a partir de fatores topográficos e de condutividade do solo, simulando a resposta hidrológica da bacia a uma determinada chuva em modelos digitais (SIMÕES, 2001), entretanto, na legislação brasileira, a zona ripária é estabelecida, na prática, conforme a largura da lâmina dos corpos d’água, sendo protegida como área de preservação permanente (BRASIL, 1965). O uso dessa área é permitido em casos de utilidade pública, como obras de infraestrutura, ou no caso de interesse social, como no caso da pequena propriedade agrícola aliada às práticas de manejo sustentável (BRASIL, 2000) as quais podem implemen- tar a funcionalidade do sistema, diminuindo a contaminação dos corpos d’água por poluentes antropogênicos (WALLACE, 1997). Mas como avaliar a condição da zona ripária? No caso de toda a bacia, Mancini et al. (2005) avaliaram a condição da bacia de drenagem clas- sificando o uso e cobertura do solo em 4 categorias avaliados com um índice de antropização. Esse índice foi correlacionando com a qualidade biológica da água, avaliada pela diversidade de invertebrados bentôni- cos. O escopo deste trabalho foi desenvolver um método unicriterial de avaliação da zona ripária com enfoque no uso do solo, avaliado com um índice de antropização adaptado e correlacionado com a qualidade físi- co-química da água corrente, considerando-se como zona ripária aquela estritamente estabelecida na legislação brasileira como área de preserva- ção permanente ripária. Atividades 1. Escolha um corpo de água mais próximo e de fácil acesso, colete uma amostra de água e faça uma análise visual. Verifique a turbidez, a cor, o odor e a temperatura. Nessa análise, observe se nessa amostra ocorre algum fenômeno que indique a qua- lidade da água. 2. Faça um ensaio sobre a qualidade do solo. Pegue uma pequena quantidade de dife- rentes tipos de solos presentes em sua localidade (de um campo de futebol, da beira de um rio, da base de uma edificação recém-iniciada etc.) e verifique alguns indica- dores, como fertilidade e compactação. Para isso, escolha uma espécie de vegetal de rápido crescimento, plante-o em recipientes com a mesma quantidade de solo e dis- ponibilize as mesmas condições de irrigação. Verifique o comportamento da planta quanto ao seu crescimento, coloração e absorção de água pelo solo. Parâmetros físicos, químicos e biológicos Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 1 21 3. Faça uma pesquisa sobre a qualidade de água de abastecimento público de seu mu- nicípio. Solicite a análise de água que é feita pela concessionária de captação e trata- mento e verifique se as análises estão de acordo com o limite tolerável de coliformes fecais estabelecido pela Portaria 2.914, de 12 de dezembro de 2011, do Ministério da Saúde, que diz que não deve se ultrapassar 4 mil coliformes fecais em 100 mL de água em 80% das amostras colhidas em qualquer período do ano. Referências ALMEIDA, Otávio Álvares. Qualidade da água de irrigação. Embrapa mandioca e fruticultura, 2010. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. BRASIL. CASA CIVIL. Lei n. 9.433, de 8 de janeiro de 1997. Institui a Política Nacional de Recursos Hídricos, cria o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. ______. CASA CIVIL. Código das Águas. Decreto n. 24.643, de 10 de julho de 1934. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. ______. CASA CIVIL. Lei n. 9.984, de 17 de julho de 2000. Dispõe sobre a criação da Agência Nacional de Águas – ANA. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. ______. Manual prático de análise da água. 2. ed. rev. Brasília. Fundação Nacional de Saúde, 2006. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. ______. Ministério da Saúde. Vigilância e controle da qualidade da água para consumo humano. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde. Brasília, 2006. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. ______. Ministério do Meio Ambiente. Resolução Conama n. 460, de 30 de dezembro de 2013. Altera a Resolução Conama n. 420, de 28 de dezembro de 2009. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. ______. Ministério do Meio Ambiente. Resolução n. 420, de 28 de dezembro de 2009. Dispõe sobre critérios e valores orientadores de qualidade do solo quanto à presença de substâncias químicas e estabelece diretrizes para o gerenciamentode máquinas e métodos modernos de plantio, irrigação e colheita. No quadro 3 são apresentados os principais impactos ambientais na paisagem rural por esse modelo de produção agropecuária. Quadro 3 – Possíveis impactos nos recursos naturais. Ação Tipo de impacto nos recursos naturais Relevância Uso intensivo de agrotóxicos – Contaminação dos recursos hídri- cos superficiais e subterrâneos. – Mortalidade de peixes. – Inviabilização de captação de água em mananciais de abastecimento humano. Negativa de baixa a alta. Uso intensivo de fertilizantes – Eutrofização dos recursos hídricos. – Salinização de solos agrícolas. Negativa de baixa a alta. Uso intensivo de má- quinas agrícolas – Compactação dos solos e consequen- te aumento de erosões e voçorocas. Negativa de baixa a alta. Uso intensivo do solo – Desmatamentos. – Ocupação de áreas de pre- servação permanente. – Aumento de processos erosivos. Negativa de baixa a alta. Diversidade de produção – Geralmente média a alta. – Matriz da paisagem diversificada. Negativa de baixa a alta. Fonte: Elaborado pelo autor. 10.2.3 Agricultura orgânica Como alternativa aos modelos apresentados, vêm crescendo no Brasil os modelos que preconizam a produção agrícola livre de insumos químicos como agrotóxicos e uso intensivo de fertilizantes químicos. Na maioria dos exemplos de unidades produtivas orgânicas têm-se características e similaridades com a agricultura familiar, no entanto, grandes grupos econô- micos já estão fazendo experiências de produtividade e mercado para produtos orgânicos. O Brasil, em função de ter diferentes tipos de solo e condições climáticas, além de ter uma biodiversidade das mais ricas do mundo, somada a uma grande diversidade cultural, apresenta um dos maiores potenciais para o crescimento da produção orgânica. Aspectos da ocupação do espaço rural e suas implicações no uso e na conservação dos recursos naturais Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 10 171 Na agricultura orgânica, os alimentos são cultivados por meio de processos de controle biológico, sem a presença de defensivos químicos agrícolas e também sem estar vinculado aos grandes grupos e indústria do agronegócio. Nesse modelo produtivo, diferentes méto- dos são utilizados para garantir a qualidade e a produtividade, visando, sempre, ao equilí- brio ambiental e ao desenvolvimento social dos produtores. Segundo o Ministério da Agricultura (2016), na agricultura orgânica não é permitido o uso de insumos agrícolas que possam prejudicar ou por em risco a saúde humana e os recursos naturais como água, solo, ar e biodiversidade. Para se considerar agricultura orgânica e se ter o direito do título de certificações agrícolas e ambientais sobre o tema, no sistema produtivo não é permitida a utilização de fertilizantes sintéticos solúveis, agrotóxicos e transgênicos, além de ser necessário respei- tar rigorosamente todas as leis trabalhistas. Para ser considerado orgânico, o produto tem que ser produzido em um ambiente de produção orgânica, onde se utilizam como base do processo produtivo os princípios agroe- cológicos que contemplam o uso responsável do solo, da água, do ar e dos demais recursos naturais, respeitando as relações sociais e culturais. No quadro 4 são apresentados os principais impactos ambientais na paisagem rural por esse modelo de produção agropecuária. Quadro 4 – Possíveis impactos nos recursos naturais. Ação Tipo de impacto nos recursos naturais Relevância Uso intensivo de agrotóxicos – Não se aplica. Positiva de baixa a alta. Uso de fertilizantes – Eutrofização dos re- cursos hídricos. Se o manejo for ina- dequado, a relevância pode ser negativa de baixa a alta. Uso intensivo de má- quinas agrícolas – Não se aplica. Positiva de baixa a alta. Uso intensivo do solo – Desmatamentos. – Ocupação de áreas de pre- servação permanente. – Aumento de processos erosivos. Se o manejo for ina- dequado, a relevância pode ser negativa de baixa a alta. Diversidade de produção – Geralmente média a alta. – Matriz da paisa- gem diversificada. Positivo alta. Fonte: Elaborado pelo autor. Aspectos da ocupação do espaço rural e suas implicações no uso e na conservação dos recursos naturais10 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo172 10.3 Percepção, conhecimento e educação sobre os valores ambientais no espaço rural A percepção, o conhecimento e a educação sobre os valores ambientais no espaço rural são desenvolvidos com base na percepção do ambiente pelo ser humano, que classifica e usa referências para escolher esse ambiente. A mente humana organiza e representa essa realidade percebida por meio de esquemas perceptivos e imagens mentais, com atributos específicos (DEL RIO; OLIVEIRA, 1999) e que servem para avaliar a qualidade dos ambientes. Uma imagem é uma representação interna- lizada do ambiente, com base na experiência e incorporação de ideais. Isto é, a avaliação traz a organização do meio ambiente como o resultado da aplicação de conjuntos de regras que refletem diferentes concepções de qualidade ambiental (SAMMARCO, 2005). Além disso, com base na percepção o ser humano estrutura sua representação cognitiva do ambiente. De acordo com Del Rio e Oliveira (1999), a percepção consiste em trocas funcionais do indivíduo com o meio exterior, as quais têm dois aspectos: cognitivo e o afetivo. Isto é, o pri- meiro ocorre paralelamente, quando o indivíduo conhece o mundo exterior e começa a ter sentimentos em relação a ele e o segundo é a energia do sistema. Para Sammarco (2005), é cada vez mais necessário considerar os costumes cognitivos com o fim de entender a maneira por meio da qual o meio ambiente é conhecido e estruturado pelos indivíduos e pela sociedade. As pessoas, como organismos ativos, adaptativos e procuradores de objetivos ou fins, estruturam o mundo com base em três fatores: o organismo, o meio ambiente e o meio cul- tural, os quais se relacionam para formar representações cognitivas. Segundo Ojeda (1995), existem dois significados diferentes do termo cognição ambiental, um psicológico e outro an- tropológico: o primeiro ressalta o conhecimento do meio ambiente, enquanto o antropoló- gico afirma que os processos cognitivos convertem o mundo em algo significativo. Decifrar e valorizar os costumes cognitivos das paisagens deveria ser uma ferramenta indispensável na gestão pública ou privada de forma participativa ou não das áreas rurais a partir do mo- mento em que identifica não somente os diferentes ideários na busca da qualidade ambien- tal como também os saberes e significados socioambientais específicos das inter-relações evolutivas entre natureza e populações locais camponesas. Nessa dinâmica se insere a questão paisagística, incluindo-se a necessidade de inves- tigar o significado das diversas expressões do verde nas diferentes culturas. O verde existe como objeto dado no mundo e como idealização. Ao se projetar áreas verdes, como nas áreas rurais, navega-se, portanto, na semiótica de significantes e significados, não como elementos isolados, mas como partes de um todo no qual aquele que habita é indissociável do espaço onde exerce sua autopoiésis (MATURANA; VARELLA, 1980). O ser humano sempre criou ao seu redor um ambiente que é uma projeção de suas ideias abstratas. Cada momento histórico tem uma paisagem, reflexo da relação circunstancial Aspectos da ocupação do espaço rural e suas implicações no uso e na conservação dos recursos naturais Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 10 173 entre o ser humano e a natureza e que pode ser vista como a ordenação do ambiente de acordo com a imagem ideal. Além disso, o ser humano, assim como os organismos, impõe ordens espacial, social e temporal diferentes, porém relacionadas entre si, já que têm de coexistir na trama espaço- temporal de um mesmo mundo, e porque todas as ordenações se apoiam nos mesmos pro- cessos de aprendizagem, memória, identidade, localizaçãoambiental de áreas contaminadas por essas substâncias em decorrência de atividades antrópicas. COELHO, R. C. T. P.; BUFFON, I.; GUERRA, T. Influência do uso e ocupação do solo na qualidade da água: um método para avaliar a importância da zona ripária. Ambi-Agua, Taubaté, v. 6, n. 1, p. 104-117, 2011. Disponível em: . Acesso em: 30 mar. 2017. GOMES, Algenor da S. Qualidade do solo: conceito, importância e indicadores da qualidade. Embrapa clima temperado, 2016. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. GOMES, Marco Antônio Ferreira; FILIZOLA, Heloisa Ferreira. Indicadores físicos e químicos de qualidade de solo de interesse agrícola. Embrapa Meio Ambiente Jaguariuna/SP, 2006. Disponível Parâmetros físicos, químicos e biológicos1 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo22 em: . Acesso em: mar. 2016. JONSSON, C. M. Avaliação de toxicidade aguda, crônica e da bioconcentração em organismos aquá- ticos. Palestra proferida no “Curso teórico-prático sobre bioindicadores de qualidade da água – mé- todos químicos e biológicos para estudo da contaminação das águas”. Jaguariúna: Embrapa Meio Ambiente. 2000. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. HERNANI, Luis Carlos. Agregação do solo. Agencia Embrapa de Informação e Tecnologia – AGEITEC. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. LIER, Quirijn de Jong Van. Cálculo de alguns parâmetros físicos do solo. Site de apoio às disciplinas de graduação e pós-graduação. Universidade de São Paulo. Escola superior de agricultura Luiz de Queiroz. Departamento de engenharia de biossistemas. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. MORAES Peterson B. Tratamento físico-químico de efluentes químicos. Centro Superior de Educação Tecnológica – Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, 2008. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. ODUM, Eugene Pleasants; BARRET, Gary W. Fundamentos de ecologia. 6° ed. São Paulo: Thomson Pioneira, 2007. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇOES UNIDAS – ONU. A ONU e a água. Declaração para o Dia Mundial da Água 2010. Disponível em: . Acesso em: mar. 2016. Resolução 1. Com a análise da turbidez, do odor e da temperatura é possível verificar se a água apresenta condições básicas de parâmetros físicos de consumo. Se houver uma amostra turva, por exemplo, este já é um indicador da não potabilidade. E assim por diante, a análise pode ser feita para os outros indicadores. 2. Ao observar o crescimento da planta, será possivel verificar se o solo está compacta- do ou não e também as diferenças de fertilidade entre as amostras e tipos de solos. 3. Com a análise da água em posse, deve-se verificar as quantidades de coliformes fecais presente na água de abastecimento público de sua localidade, e também verifi- car os processos de análise da qualidade de água presentes nos relatórios de análises de potabilidade. Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 23 2 Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura O Brasil tem um sistema de avaliação e controle da qualidade das águas para o consumo humano e para as atividades de produção agrícola. Esse controle se torna importante, pois o crescimento da população tem pressionado os recursos naturais, como a água demandando em maior quantidade e ao mesmo tempo impactando-a pelos seus modos de desenvolvimento. A qualidade de vida e da saúde das pessoas acaba por ser comprometida caso não ocorra controle da qualidade das águas. Nesta aula serão apresentados os parâmetros de análise de qualidade da água, pre- vistos na legislação brasileira para o abastecimento humano e no uso na agricultura. Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura2 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo24 2.1 Indicadores previstos na legislação para o abastecimento de água doméstica O Ministério da Saúde publicou no Diário Oficial da União, Seção 1, do dia 14 de de- zembro, a Portaria 2.914, de 12 de dezembro de 2011, que dispõe sobre os procedimentos de controle e de vigilância da qualidade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade. Essa portaria teve antecedentes na legislação brasileira de potabilidade de água para consumo humano, sendo a Portaria BSB 56, de 14 de março de 1977, a primeira legislação nacional que estabeleceu o padrão de potabilidade brasileira, após assinatura do Decreto Federal 79.367, de 9 de março de 1977. Esse decreto previu a competência do Ministério da Saúde para legislar sobre normas e o padrão de potabilidade da água para consumo huma- no. A Portaria BSB 56/1977 foi revisada em 1990 e resultou na Portaria GM 36/1990, seguida da Portaria MS 1.469, de 29 de dezembro de 2000. Em função do novo ordenamento na es- trutura do Ministério da Saúde com a instituição da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), a Portaria MS 1.469/2000 foi extinta passando a vigorar a Portaria MS 518, de 25 de março de 2004 e que foi substituída pela atual 294/2011. Para o melhor entendimento dos parâmetros previstos na legislação para o abasteci- mento de água doméstica é importante se ater ao que descreve o artigo 5° da Portaria MS 2.914/2011. As principais definições pela referida Portaria são: I – água para consumo humano: água potável destinada à ingestão, preparação e produção de alimentos e à higiene pessoal, independentemente da sua origem; II – água potável: água que atenda ao padrão de potabilidade estabelecido nesta Portaria e que não ofereça riscos à saúde; III – padrão de potabilidade: conjunto de valores permitidos como parâmetro da qualidade da água para consumo humano, conforme definido nesta Portaria; IV – padrão organoléptico: conjunto de parâmetros caracterizados por provocar estímulos sensoriais que afetam a aceitação para consumo humano, mas que não necessariamente implicam risco à saúde; V – água tratada: água submetida a processos físicos, químicos ou combinação destes, visando atender ao padrão de potabilidade; VI – sistema de abastecimento de água para consumo humano: instalação com- posta por um conjunto de obras civis, materiais e equipamentos, desde a zona de captação até as ligações prediais, destinada à produção e ao fornecimento coletivo de água potável, por meio de rede de distribuição; VII – solução alternativa coletiva de abastecimento de água para consumo hu- mano: modalidade de abastecimento coletivo destinada a fornecer água potável, com captação subterrânea ou superficial, com ou sem canalização e sem rede de distribuição; Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 2 25 VIII – solução alternativa individual de abastecimento de água para consumo hu- mano: modalidade de abastecimento de água para consumo humano que atenda a domicílios residenciais com uma única família, incluindo seus agregados familiares; IX – rede de distribuição: parte do sistema de abastecimento formada por tubula- ções e seus acessórios, destinados a distribuir água potável, até as ligações prediais; X – ligações prediais: conjunto de tubulações e peças especiais, situado entre a rede de distribuição de água e o cavalete, este incluído; XI –cavalete: kit formado por tubos e conexões destinados à instalação do hidrô- metro para realização da ligação de água; XII – interrupção: situação na qual o serviço de abastecimento de água é interrom- pido temporariamente, de forma programada ou emergencial, em razão da ne- cessidade de se efetuar reparos, modificações ou melhorias no respectivo sistema; XIII – intermitência: é a interrupção do serviço de abastecimento de água, sis- temática ou não, que se repete ao longo de determinado período, com duração igual ou superior a seis horas em cada ocorrência; XIV – integridade do sistema de distribuição: condição de operação e manuten- ção do sistema de distribuição (reservatório e rede) de água potável em que a qualidade da água produzida pelos processos de tratamento seja preservada até as ligações prediais; XV – controle da qualidade da água para consumo humano: conjunto de ativida- des exercidas regularmente pelo responsável pelo sistema ou por solução alter- nativa coletiva de abastecimento de água, destinado a verificar se a água forne- cida à população é potável, de forma a assegurar a manutenção desta condição; XVI – vigilância da qualidade da água para consumo humano: conjunto de ações adotadas regularmente pela autoridade de saúde pública para verificar o aten- dimento a esta Portaria, considerados os aspectos socioambientais e a realidade local, para avaliar se a água consumida pela população apresenta risco à saúde humana; XVII – garantia da qualidade: procedimento de controle da qualidade para mo- nitorar a validade dos ensaios realizados; XVIII – recoleta: ação de coletar nova amostra de água para consumo humano no ponto de coleta que apresentou alteração em algum parâmetro analítico; e XIX – passagem de fronteira terrestre: local para entrada ou saída internacional de viajantes, bagagens, cargas, contêineres, veículos rodoviários e encomendas postais. O artigo 27 define que a água potável deve estar em conformidade com padrão micro- biológico definido em seus anexos, assim como as demais disposições dessa portaria como turbidez, pH, temperatura, substâncias químicas inorgânicas, substâncias orgânicas, agro- tóxicos e desinfectantes. Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura2 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo26 No quadro 1, estão apresentados os padrões para o parâmetro microbiológico da água para abastecimento humano, no qual se destaca a análise de coliformes totais e em que toda análise deverá ter como referência de potabilidade e segurança para o consumo. Quadro 1 – Padrão microbiológico da água para abastecimento humano. Tipo de água Parâmetro VMP(1) Água para consumo humano Escherichia coli(2) Ausência em 100 mL Água tratada Na saída do tratamento Coliformes totais(3) Ausência em 100 mL No sistema de distribuição (reservatórios e rede) Escherichia coli Ausência em 100 mL Coliformes totais(4) Sistemas ou soluções alternativas coletivas que abastecem menos de 20 mil habitantes Apenas uma amostra, entre as amostras examinadas no mês, poderá apresentar resultado positivo Sistemas ou soluções alternativas coletivas que abastecem a partir de 20 mil habitantes Ausência em 100 mL em 95% das amostras examinadas no mês Notas: (1) Valor máximo permitido. (2) Indicador de contaminação fecal. (3) Indicador de eficiência de tratamento. (4) Indicador de integridade do sistema de distribuição (reservatório e rede). Anexo II: – Padrão de turbidez para água pós-filtração ou pré-desinfecção. Tratamento da água VMP(1) Desinfecção (para águas subterrâneas) 1,0 uT(2) em 95% das amostras Filtração rápida (tratamento completo ou filtração direta) 0,5(3) uT(2) em 95% das amostras Filtração lenta 1,0(3) uT(2) em 95% das amostras Notas: (1) Valor máximo permitido. (2) Unidade de turbidez. (3) Esse valor deve atender ao padrão de turbidez de acordo com o especificado no §2o do art. 30. Fonte: BRASIL, 2011. No quadro 2, estão apresentados os padrões para o parâmetro turbidez da água para abastecimento humano, no qual se destaca a análise de partículas em suspensão e que toda análise deverá ter como referência de potabilidade e segurança para o consumo. Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 2 27 Quadro 2 – Padrão para turbidez da água para abastecimento humano. Filtração rápida (tratamento completo ou filtração direta) Período após a publicação da portaria TurbidezÁgua e do Solo30 C(2) Temperatura = 20°C Valores de pH ≤ 6,0 6,5 7,0 7,5 8,0 8,5 9,0 2,6 3 3 4 5 6 7 8 2,8 3 3 4 5 6 7 8 3,0 2 3 4 4 5 6 77 C(2) Temperatura = 25°C Valores de pH ≤ 6,0 6,5 7,0 7,5 8,0 8,5 9,0 ≤ 0,4 9 12 14 18 21 24 28 0,6 7 8 10 1 15 17 20 0,8 5 6 8 10 11 13 16 1,0 4 5 6 8 9 11 13 1,2 4 5 5 7 8 10 11 1,4 3 4 5 6 7 8 10 1,6 3 4 4 5 6 7 9 1,8 3 3 4 5 6 7 8 2,0 2 3 4 4 5 6 7 2,2 2 3 3 4 5 6 7 2,4 2 3 3 4 4 5 6 2,6 2 2 3 3 4 5 6 2,8 2 2 3 3 4 5 5 3,0 2 2 3 3 4 4 5 C(2) Temperatura = 30°C Valores de pH ≤ 6,0 6,5 7,0 7,5 8,0 8,5 9,0 ≤ 0,4 6 8 10 12 15 17 20 0,6 5 6 7 9 10 12 14 0,8 3 5 6 7 8 10 11 1,0 3 4 5 6 7 8 9 Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 2 31 1,2 3 3 3 5 6 7 8 1,4 2 3 3 4 5 6 7 1,6 2 3 3 4 4 5 6 1,8 2 2 3 3 4 5 6 2,0 2 2 3 3 4 4 5 2,2 2 2 2 3 3 4 5 2,4 2 2 2 3 3 4 4 2,6 1 2 2 3 3 4 4 2,8 1 2 2 2 3 3 4 3,0 1 2 2 3 3 3 4 Notas: (1) Valores intermediários aos constantes na tabela podem ser obtidos por interpolação. (2) C: residual de cloro livre na saída do tanque de contato (mg/L). Fonte: BRASIL, 2011. No quadro 5, estão apresentados os padrões para o parâmetro desinfecção por meio de cloraminação da água para abastecimento humano, no qual se destaca a análise do cloro residual e que toda análise deverá ter como referência de potabilidade e segurança para o consumo. Quadro 5 – Padrão para a desinfecção por meio de cloraminação, de acordo com concentração de cloro residual combinado (cloraminas) e com a temperatura da água, para valores de pH da água entre 6 e 9 em águas para abastecimento humano. C(2) Temperatura (°C) 5 10 15 20 25 30 ≤ 0,4 923 773 623 473 323 173 0,6 615 515 415 315 215 115 0,8 462 387 312 237 162 87 1,0 369 309 249 189 130 69 1,2 308 258 208 158 108 58 1,4 264 221 178 135 92 50 C(2) Temperatura (°C) 5 10 15 20 25 30 1,6 231 193 156 118 81 43 1,8 205 172 139 105 72 39 2,0 185 155 125 95 64 35 Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura2 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo32 2,2 168 141 113 86 59 32 2,4 154 129 104 79 54 29 2,6 142 11 9 96 73 50 27 2,8 132 11 0 89 678 46 25 3,0 123 103 83 63 43 23 Notas: (1) Valores intermediários aos constantes na tabela podem ser obtidos por interpolação. (2) C: residual de cloro combinado na saída do tanque de contato (mg/L). Fonte: BRASIL, 2011. No quadro 6, estão apresentados os padrões para o parâmetro desinfecção com dióxido de cloro da água para abastecimento humano, em que se destaca a concentração de dióxido de clo- ro e que toda a análise deverá ter como referencia de potabilidade e segurança para o consumo. Quadro 6 – Padrão para a desinfecção com dióxido de cloro, de acordo com concentração de dió- xido de cloro e com a temperatura da água, para valores de pH da água entre 6 e 9 em águas para abastecimento humano. C(2) Temperatura (°C) 5 10 15 20 25 30 ≤ 0,4 13 9 8 7 6 6 0,6 9 6 5 6 4 4 0,8 7 5 4 4 3 3 1,0 5 4 3 3 3 2 1,2 4 3 3 3 2 2 1,4 4 3 2 2 2 2 1,6 3 2 2 2 2 1 1,8 3 2 2 2 1 1 2,0 3 2 2 2 1 1 2,2 2 2 2 1 1 1 2,4 2 2 1 1 1 1 2,6 2 2 1 1 1 1 2,8 2 1 1 1 1 1 3,0 2 1 1 1 1 1 Notas: (1) Valores intermediários aos constantes na tabela podem ser obtidos por interpolação. (2) C: residual de cloro combinado na saída do tanque de contato (mg/L). Fonte: BRASIL, 2011. No quadro 7, estão apresentados os padrões para substâncias químicas inorgânicas e orgânicas da água para abastecimento humano em que toda a análise deverá ter como refe- rência de potabilidade e segurança para o consumo. Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 2 33 Quadro 7 – Padrão de potabilidade de água para substâncias químicas inorgânicas e orgânicas que representam risco à saúde. Parâmetro CAS(1) Unidade VMP(2) Inorgânicas Antimônio 7440-36-0 mg/L 0,005 Arsênio 7440-38-2 mg/L 0,01 Bário 7440-39-3 mg/L 0,7 Cádmio 7440-43-9 mg/L 0,005 Chumbo 7439-92-1 mg/L 0,01 Cianeto 57-12-5 mg/L 0,07 Cobre 7440-50-8 mg/L 2 Cromo 7440-47-3 mg/L 0,05 Fluoreto 7782-41-4 mg/L 1,5 Mercúrio 7439-97-6 mg/L 0,001 Níquel 7440-02-0 mg/L 0,07 Nitrato (como N) 14797-55-8 mg/L 10 Nitrito (como N) 14797-65-0 mg/L 1 Selênio 7782-49-2 mg/L 0,01 Urânio 7440-61-1 mg/L 0,03 Orgânicas Acrilamida 79-06-1 μg/L 0,5 Benzeno 71-43-2 μg/L 5 Benzo[a]pireno 50-32-8 μg/L 0,7 Cloreto de vinila 75-01-4 μg/L 2 1,2-dicloroetano 107-06-2 μg/L 10 1,1-dicloroeteno 75-35-4 μg/L 30 1,2-dicloroeteno (cis + trans) 156-59-2 (cis) 156-60-5 (trans) μg/L 50 Diclorometano 75-09-2 μg/L 20 Di(2-etil-hexil)ftalato 117-81-7 μg/L 8 Estireno 100-42-5 μg/L 20 Pentaclorofenol 87-86-5 μg/L 9 Tetracloreto de Carbono 56-23-5 μg/L 4 Tetracloroeteno 127-18-4 μg/L 40 Fonte: BRASIL, 2011. No quadro 8, estão apresentados os padrões para o parâmetro agrotóxicos presentes na água para abastecimento humano, no qual se destaca a análise de elementos químicos prejudiciais à saúde humana e que toda análise deverá ter como referência de potabilidade e segurança para o consumo. Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura2 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo34 Quadro 8 – Padrão de potabilidade de água para agrotóxicos. Parâmetro CAS(1) Unidade VMP(2) Agrotóxicos (continuação) 2,4 D + 2,4,5 T 94-75-7 (2,4 D) 93-76-5 (2,4,5 T) μg/L 30 Alaclor 15972-60-8 μg/L 20 Aldicarbe + Aldicarbesulfona + Aldicarbesulfóxido 116-06-3 (aldicarbe) 1646-88-4 (aldicarbesulfona) μg/L 10 1646-87-3 (aldicarbe sulfóxido) μg/L Aldrin + Dieldrin 309-00-2 (aldrin) 60-57-1 (dieldrin) μg/L 0,03 Atrazina 1912-24-9 μg/L 2 Carbendazim + benomil 10605-21-7 (carbendazim) 17804-35-2 (benomil) μg/L 120 Carbofurano 1563-66-2 μg/L 7 Clordano 5103-74-2 μg/L 0,2 Clorpirifós + clorpirifós-oxon 2921-88-2 (clorpirifós) 5598-15-2 (clorpirifós-oxon) μg/L 30 DDT+DDD+DDE p, p’-DDT (50-29-3) p, p’-DDT (72-54-8) p, p’-DDE (72-55-9) μg/L 1 Diuron 330-54-1 μg/L 90 Endossulfan (α β e sais)(3) 115-29-7; I (959-98-8); II μg/L 20 (33213-65-9); sulfato (1031-07-8) μg/L Endrin 72-20-8 μg/L 0,6 Glifosato + AMPA 1071-83-6 (glifosato) 1066-51-9 (AMPA) μg/L 500 Lindano (gama HCH) (4) 58-89-9 μg/L 2 Mancozebe 8018-01-7 μg/L 180 Metamidofós 10265-92-6 μg/L 12 Metolacloro 51218-45-2 μg/L 10 Molinato 2212-67-1 μg/L 6 Parationa metílica 298-00-0 μg/L 9 Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 2 35 Parâmetro CAS(1) Unidade VMP(2) Agrotóxicos (continuação) Pendimentalina 40487-42-1 μg/L 20 Permetrina 52645-53-1 μg/L 20 Profenofós 41198-08-7 μg/L 60 Simazina 122-34-9 μg/L 2 Tebuconazol 107534-96-3 μg/L 180 Terbufós 13071-79-9 μg/L 1,2 Trifluralina 1582-09-8 μg/L 20 Desinfetantes e produtos secundários da desinfecção(5) Ácidos haloacéticos total (6) mg/L 0,08 Bromato 15541-45-4 mg/L 0,01 Clorito 7758-19-2 mg/L 1 Cloro residual livre 7782-50-5 mg/L 5 Cloraminas total 0599-903 mg/L 4,0 2,4,6 triclorofenol 88-06-2 mg/L 0,2 Tri-halometanos total (7) mg/L 0,1 Notas: (1) CAS é o número de referência de compostos e substâncias químicas adotado pelo Chemical Substract Service. Fonte: BRASIL, 2011. No quadro 9, estão apresentados os padrões para o parâmetro cianotoxinas presentes na água para abastecimento humano e em que toda análise deverá ter como referência de potabilidade e segurança para o consumo. Quadro 9 – Padrão de potabilidade de água de cianotoxinas da água para consumo humano. Cianotoxinas Parâmetro(1) Unidade VMP(2) Microcistinas μg/L 1,0(3) Saxitoxinas μg/L equivalente STX/L 3,0 Notas: (1) Valor máximo permitido. (2)O valor representa o somatório das concentrações de todas as variantes de microcistinas. Fonte: BRASIL, 2011. No quadro 10, estão apresentados os padrões para o parâmetro radioatividade da água para abastecimento humano e em que toda análise deverá ter como referência de potabilida- de e segurança para o consumo. Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura2 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo36 Quadro 10 – Padrão de potabilidade de água de radioatividade da água para consumo humano. Parâmetro(1) Unidade VMP Rádio-226 Bq/L 1 Rádio-228 Bq/L 0,1 Nota: (1) Sob solicitação da Comissão Nacional da Energia Nuclear, outros radionuclídeos devem ser inves- tigados. Fonte: BRASIL, 2011. No quadro 11, estão apresentados os padrões para o parâmetro organoléptico da água para abastecimento humano, no qual se destaca o gosto e odor provocados por determina- dos elementos químicos e em que toda análise deverá ter como referência de potabiidade e segurança para o consumo. Quadro 11 – Padrão organoléptico de potabilidade de água para consumo humano. Parâmetro CAS Unidade VMP(1) Alumínio 7429-90-5 mg/L 0,2 Amônia (como NH3) 7664-41-7 mg/L 1,5 Cloreto 16887-00-6 mg/L 250 Cor aparente(2) uH 15 1,2-diclorobenzeno 95-50-1 mg/L 0,01 1,4-diclorobenzeno 106-46-7 mg/L 0,03 Dureza total mg/L 500 Etilbenzeno 100-41-4 mg/L 0,2 Ferro 7439-89-6 mg/L 0,3 Gosto e odor(3) Intensidade 6 Manganês 7439-96-5 mg/L 0,1 Monoclorobenzeno 108-90-7 mg/L 0,12 Sódio 7440-23-5 mg/L 200 Sólidos dissolvidos totais mg/L 1000 Sulfato 14808-79-8 mg/L 250 Sulfeto de hidrogênio 7783-06-4 mg/L 0,1 Surfactantes (como LAS) mg/L 0,5 Tolueno 108-88-3 mg/L 0,17 Turbidez(4) uT 5 Zinco 7440-66-6 mg/L 5 Xilenos 1330-20-7 mg/L 0,3 Notas: (1) Valor máximo permitido. (2) Unidade Hazen (mgPt-Co/L). (3) Intensidade máxima de percepção para qualquer característica de gosto e odor com exceção do cloro livre, nesse caso por ser uma característica desejável em água tratada. (4) Unidade de turbidez. Fonte: BRASIL, 2011. Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 2 37 No quadro 12, estão apresentados os padrões para o parâmetro cianobactéria presente na água para abastecimento humano, no qual se destaca a análise da quantidade máxima permitida e em que toda análise deverá ter como referência de potabilidade e segurança para o consumo. Quadro 12 – Padrão de frequência de monitoramento de cianobactérias no manancial de abasteci- mento de água. Quando a densidade de cianobactérias (células/mL) for: Frequência 10.000 Semanal Fonte: BRASIL, 2011. 2.2 Indicadores previstos na legislação para a agricultura A agricultura intensiva desenvolvida no Brasil apresenta diferentes impactos ambien- tais na qualidade da água. É necessário, portanto, o monitoramento de diversos indicadores de qualidade e entre eles a avaliação de resíduos de agrotóxicos. 2.2.1 Água Assim, os indicadores de avaliação da qualidade de água previstos na legislação para a agricultura são ordenados juridicamente pela Portaria do Ministério da Saúde 2.914, de 12 de dezembro de 2011, nos quais os principais indicadores estão apresentados no quadro 7 do capítulo anterior e também pela Resolução 357 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), de 17 de março de 2005, que dispõe sobre a classificação dos corpos de água e diretrizes ambientais para o seu enquadramento, bem como estabelece as condições e os padrões de lançamento de efluentes, e dá outras providências. 2.2.2 Solo A qualidade dos solos utilizados na agricultura tem uma legislação que traz como in- dicadores de controle da produção e do comércio de fertilizantes, corretivos, inoculantes e biofertilizantes. O Departamento de Fiscalização de Insumos Agrícolas (DFIA/SDA) do Ministério da Agricultura é o responsável pela fiscalização em nível nacional. O Decreto 8.384, de 29 de dezembro de 2014, que dispõe sobre a inspeção e fiscaliza- ção da produção e do comércio de fertilizantes, corretivos, inoculantes, ou biofertilizantes, remineralizadores e substratos para plantas destinados à agricultura traz as diretrizes de controle de qualidade dos solos no Brasil. Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura2 Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo38 O referido decreto apresenta as seguintes considerações e definições: Art. 2o Para os fins deste Regulamento, considera-se: I – produção: qualquer operação de fabricação ou industrialização e acondicio- namento que modifique a natureza, acabamento, apresentação ou finalidade do produto; II – comércio – atividade de compra, venda, exposição à venda, cessão, emprésti- mo ou permuta de fertilizantes, corretivos agrícolas, inoculantes, biofertilizantes e matérias-primas; III – fertilizante: substância mineral ou orgânica, natural ou sintética, fornecedo- ra de um ou mais nutrientes de plantas, sendo: IV – corretivo – produto de natureza inorgânica, orgânica ou ambas, usado para melhorar as propriedades físicas, químicas e biológicas do solo, isoladas ou cumulativamente, não tendo em conta seu valor como fertilizante, além de não produzir característica prejudicial ao solo e aos vegetais, assim subdividido V – inoculante: produto que contém micro-organismos com atuação favorável ao crescimento de plantas, entendendo-se como: a) suporte: material excipiente e esterilizado, livre de contaminantes segundo os limites estabelecidos, que acompanha os micro-organismos e tem a função de suportar ou nutrir, ou ambas as funções, o crescimento e a sobrevivência destes micro-organismos, facilitando a sua aplicação; e b) pureza do inoculante: ausência de qualquer tipo de micro-organismos que não sejam os especificados; VI – biofertilizante: produto que contém princípio ativo ou agente orgânico, isen- to de substâncias agrotóxicas, capaz de atuar, direta ou indiretamente, sobre o todo ou parte das plantas cultivadas, elevando a sua produtividade, sem ter em conta o seu valor hormonal ou estimulante; VII – matéria-prima – material destinado à obtenção direta de fertilizantes, corre- tivos, inoculantes, biofertilizantes, remineralizadores e substratos para plantas, por processo químico, físico ou biológico; VIII – dose: quantidade de produto aplicado por unidade de área ou quilograma de semente; IX – lote: quantidade definida de produto de mesma especificação e procedência; X – partida – quantidade de produto de mesma especificação constituída por vários lotes; XI – produto – qualquer fertilizante, corretivo, inoculante, biofertilizante, remi- neralizador e substrato para plantas; XII – produto novo: produto sem antecedentes de uso e eficiência agronômica comprovada no País ou cujas especificações técnicas não estejam contempladas nas disposições vigentes; Indicadores da qualidade de águas e solos visando a sua importância no abastecimento de água doméstica e na agricultura Gerenciamento e Controle de Poluição da Água e do Solo 2 39 XIII – carga: material adicionado em mistura de fertilizantes, para o ajuste de for- mulação, que não interfira na ação destes e pelo qual não se ofereçam garantias em nutrientes no produto final; XIV – nutriente: elemento essencial ou benéfico para o crescimento e produção dos vegetais, assim subdividido: a) macronutrientes primários: Nitrogênio (N), Fósforo (P), Potássio (K), ex- pressos nas formas de Nitrogênio (N), Pentóxido de Fósforo (P2O5) e Óxido de Potássio (K2O); b) macronutrientes secundários: Cálcio (Ca), Magnésio (Mg) e Enxofre (S), ex- pressos nas formas de Cálcio (Ca) ou Óxido de Cálcio (CaO), Magnésio (Mg) ou Óxido de Magnésio (MgO) e Enxofre (S); e c) micronutrientes: Boro (B), Cloro (Cl), Cobre (Cu), Ferro (Fe),