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A Inteligência Artificial como espelho da solidão na era
digital: uma análise do filme “A.I.” sob a lente de Bauman
Luísa Carolina Silva¹, Magda de Nazaré Cassiano¹, Jennifer Caroline de Sousa²,
Laise Vieira Gonçalves², Antonio Fernandes Nascimento Junior²
1Pós-graduandas do Programa de Pós-Graduação em Educação Cientifica e Ambiental/
Instituto de Ciências Naturais (ICN) – Universidade Federal de Lavras (UFLA) - Caixa
Postal 3037 CEP 37203-202 – Lavras, MG – Brasil
2Docentes do Departamento de Biologia/DBI – Universidade Federal de Lavras (UFLA)
Caixa Postal 3037 CEP 37203-202 – Lavras, MG – Brasil
{luisasilva@ufla.br,magda.cassiano1@estudante
.ufla.br;jennifer.sousa@ufla.br,laiseribeiro@
ufla.br,antoniojunior@ufla.br}
Abstract: This work aims to identify, through the film A.I. Artificial
Intelligence, how advanced technologies seem capable of satisfying emotional
needs, but have the potential to create new forms of loneliness and instability
in human relationships. The work addresses the scientific limitations of
artificial intelligences based on Bauman's theory of liquid modernity,
analyzing how the relationships between humans and robots depicted in the
film portray the search for identity and belonging in a context of growing
uncertainty and social mutability.
Keywords: Artificial Intelligence, Liquid Modernity, Loneliness.
Resumo. Este trabalho propõe-se a identificar por meio do filme AI:
Inteligência Artificial como as tecnologias avançadas aparentam ser capazes
de satisfazer necessidades emocionais, mas possuem o potencial de criar novas
formas de solidão e instabilidade nas relações humanas. O trabalho aborda os
limites científicos das inteligências artificiais a partir da teoria da modernidade
líquida de Bauman, analisando como as relações entre humanos e robôs
mostradas no filme retratam a busca por identidade e pertencimento em um
contexto de crescente incerteza e mutabilidade social.
Palavras-chave: Inteligência Artificial, Modernidade Líquida, Solidão.
1. Introdução
A busca por conexão e pertencimento é uma característica fundamental da experiência
humana, hoje mediada pela tecnologia digital, que molda a construção da identidade e a
definição do propósito da vida, contribuindo para a criação de uma realidade imediatista
e individual (Valderramas, 2020). Desde tempos imemoriais, os seres humanos
procuram conexões humanas que ofereçam significado e segurança, mas, com o avanço
tecnológico, essas necessidades passam a ser projetadas em sistemas artificiais que
prometem simular essas conexões.
O filme AI: Inteligência Artificial, dirigido por Steven Spielberg, aborda a
interseção entre o desejo humano por conexão e a capacidade tecnológica de simular
humanidade. A sociedade contemporânea, com sua dependência de tecnologias da
informação e comunicação, determina novos padrões de produção e relacionamento,
trazendo também novos desafios e complexidades (Martini; Beuron, 2023). A obra
questiona os limites da ciência e da tecnologia na tentativa da recriação da consciência
humana, sugerindo que essas inovações podem, paradoxalmente, gerar solidão e
alienação. A criação de David vai além do pragmatismo científico, mostrando uma
tentativa de suprir carências emocionais, motivada pelo consumismo capitalista (Baião;
Correia; Ferrari, 2014), expondo também os dilemas científicos envolvidos na criação
de tecnologias que tentam substituir ou complementar as relações humanas.
A tentativa de replicar a complexidade humana pode intensificar a insegurança e
a individualização nas relações, fenômeno que se apresenta agora como um destino, não
mais uma escolha (Bauman, 2001). Na modernidade líquida, as relações são efêmeras e
descartáveis, e a interação com máquinas que simulam emoções pode aprofundar essa
característica em vez de atenuá-la. O estudo, portanto, propõe uma reflexão crítica sobre
as implicações sociais da interação entre humanos e máquinas, explorando os limites da
ciência e as relações do filme à luz da teoria de Bauman, destacando as tensões entre o
humano e o artificial em uma era de rápidas transformações tecnológicas.
2. Descrição do filme
AI: Inteligência Artificial (2001) é um filme de ficção científica e drama dirigido por
Steven Spielberg, baseado em uma história de Brian Aldiss e iniciado por Stanley
Kubrick. O filme possui uma atmosfera futurista e emocional, com uso de efeitos
visuais avançados e trilha sonora que intensifica as emoções da narrativa. É ambientado
em um futuro distópico, onde a humanidade coexiste com robôs dotados de inteligência
artificial avançada.
A trama gira em torno de David, um robô-criança criado para amar
incondicionalmente seus "pais". Ele é adotado por uma família cujo filho biológico,
Marty, está em estado criogênico. Quando Marty retorna, David é visto como uma
ameaça e é abandonado por sua "mãe", Monica. Desolado, David embarca em uma
busca pela Fada Azul, inspirado pela história de Pinóquio, acreditando que, caso se
torne um menino de verdade, sua mãe o amará novamente. David enfrenta um mundo
hostil, onde as relações entre humanos e robôs são complexas e carregadas de tensão.
Figuras curiosas ilustram a forma como se dá a relação entre robôs e humanos.
Ao chegar a uma cidade submersa, onde passa dois milênios rezando para a Fada
Azul, finalmente David é descoberto por uma civilização robótica avançada que realiza
seu desejo de reencontrar Monica por um dia, recriando-a a partir de seu DNA. Durante
esse tempo, Monica se dedica completamente a David, mas, ao final, ele deve
confrontar a perda dela mais uma vez, deixando o desfecho aberto à interpretação.
3. Metodologia
Este estudo se utiliza da análise de conteúdo (Bardin, 2002) como metodologia para
investigar a manifestação de características específicas no filme 'A.I.: Inteligência
Artificial'. Ao cruzar a obra com o pensamento de Bauman, busca-se propor a
construção de diálogos possíveis considerando o conteúdo cinematográfico e a teoria
sobre a modernidade líquida.
Como uma metodologia utilizada na compreensão dos significados
exteriorizados, serão estabelecidos eixos de análise que permitirão identificar e
interpretar os elementos do filme que se conectam com os conceitos de Bauman.
4. Resultados e discussão
Com base nas análises realizadas, foram construídos eixos. A seguir, serão apresentados
os nomes desses eixos, acompanhados pelo processo de discussão.
4.1 Mercantilização das relações e descarte
A partir da criação de David, percebe-se o impulso em construir relações descartáveis.
David é programado para se encaixar em uma idealização do filho perfeito: não adoece,
não desobedece, não possui necessidades físicas e biológicas que demandem esforço
dos pais, e que, na ocasião de contrariedade, pode ser descartado como uma mercadoria.
Além disso, não há a exigência da reciprocidade desse amor, já que o amor de David
não é dependente de contrapartida (Sales, 2017).
Por meio da relação entre David e Marty, o filho biológico de Monica, também é
possível identificar as complexidades das relações humanas, especialmente na infância.
A ingenuidade de David contrasta com a crueldade infantil e a visão utilitarista de
Marty, que o vê como um brinquedo a ser manipulado e explorado. Essa visão
abandona a profundidade da experiência e promove uma fixação nas mercadorias, pois
o sistema em que vivemos incentiva uma existência vivida apenas na superficialidade
(Sales, 2017). Percebe-se a mercantilização da vida através do diálogo entre David e
Marty:
MARTY: Vamos competir pra ver qual de nós ele (urso Ted) vê primeiro.
(Ambos chamam Ted)
MONICA: Eles estão te torturando, Ted?
(Ted vai embora com Monica)
MARTY: Ele costumava ser um super-brinquedo. Mas agora já está velho e
burro.Quer ele?
DAVID: Quero sim.
MARTY: Acho que agora você é o novo super-brinquedo. Que coisas legais
faz? Você pode fazer coisas especiais, tipo andar no teto ou na parede? Anti-
gravitacionais, tipo voar ou flutuar?
DAVID: Você pode?
MARTY: Não posso por que sou real. Pode quebrar isto?
(Marty mostra outro brinquedo)
DAVID: É melhor não.
MARTY: Estas coisas sempre ficam melhores quebradas, é sério.
(SPIELBERG, 2001, 30:31)
A transformação de pessoas em mercadorias, como ocorre com David, que é
visto como um "super-brinquedo", reflete a lógica do mercado que valoriza a aparência,
a novidade e a performance acima de tudo. Essa lógica se infiltra nas relações
interpessoais, tornando-as cada vez mais fragilizadas e instáveis. Segundo Bauman
(2001), os relacionamentos e parcerias passaram a ser encarados como itens de
consumo, avaliados com os mesmos critérios que qualquer outro produto. Trata-se de
obter satisfação imediata com algo pronto para uso; se o prazer não corresponder às
expectativas ou se a novidade começar a perder o brilho, não há motivo para
permanecer com aquilo que se tornou obsoleto ou insatisfatório, sendo mais atraente
buscar por algo novo e melhorado.
A superficialidade e a descartabilidade das relações, como as vivenciadas por
David e Marty, são sintomas de uma sociedade que valoriza o ter mais do que o ser, e
que busca a felicidade em bens materiais e experiências fugazes.
4.2 Solidão e Busca por Conexão:
A solidão é um tema central em "A.I.". David, apesar de ser um robô, parece
experimentar uma profunda sensação de solidão e um anseio por conexão. Sua busca
por amor e aceitação o leva a uma jornada repleta de obstáculos. O filme reflete a
experiência de muitas pessoas na sociedade contemporânea, que, mesmo cercadas por
outras pessoas, se sentem solitárias e isoladas. A fragilidade dos laços sociais e a
superficialidade das relações contribuem para esse sentimento de solidão.
Na modernidade líquida, os laços humanos são frágeis e facilmente desfeitos,
refletindo a necessidade de adaptação a um mundo em constante mudança. A
expectativa de relacionamentos efêmeros se torna uma profecia auto-realizável, pois a
crença na transitoriedade leva as pessoas a desistirem facilmente dos laços diante de
dificuldades, além de que nenhuma das novas conexões criadas para substituir vínculos
ausentes ou obsoletos possuem garantia de permanência (Bauman, 2003).
Na relação entre David e sua “mãe”, Mônica, é possível observar como essa
dinâmica se enquadra no conceito de "amor líquido" de Bauman (2003), onde os
relacionamentos são temporários e frágeis. Mônica tenta preencher um vazio emocional
por meio de um objeto tecnológico, no entanto, ao primeiro sinal de que essa conexão
não é mais conveniente ou necessária, o laço é desfeito. Assim como o consumo, que é
temporário e perde seu valor quando o desejo é satisfeito, o indivíduo também se
transforma em algo transitório e efêmero (Mocellim, 2007). Essa ação exemplifica a
fragilidade dos laços contemporâneos, onde a continuidade de um relacionamento é
baseada na utilidade e conveniência imediatas, e não em um compromisso duradouro.
4.3 Identidade e Pertencimento
A identidade é outro tema central em "A.I.". David, por ser um robô, questiona
constantemente sua própria identidade e seu lugar no mundo. A busca por um sentido de
pertencimento o leva a uma jornada em busca de sua "mãe" e de um lugar onde seja
aceito. O filme levanta questionamentos sobre a natureza da identidade e sobre a
possibilidade de construir uma identidade autêntica em um mundo cada vez mais
artificial. Segundo Bauman (2001), mesmo quando parecemos encontrar nossa
identidade, esta acaba “saindo de moda” antes mesmo que a descubramos.
Dada a natureza multifacetada da consciência, que integra aspectos biológicos,
psicológicos, sociais e históricos derivados de um complexo processo de humanização,
questiona-se se a tecnologia poderá evoluir ao ponto de criar uma inteligência artificial
capaz de abarcar todas essas dimensões na formação de um novo ser. Além disso, surge
a dúvida sobre a capacidade da ciência em lidar com as mudanças decorrentes de tais
criações, que poderiam alterar profundamente a estrutura social. As tecnologias digitais
emergentes exercem uma influência significativa sobre a vida social, atuando como
ferramentas de integração no âmbito das relações interpessoais. Isso gera novas
tendências e afeta, de maneira direta e indireta, os processos comportamentais, que
podem se tornar patológicos (Azevedo et al., 2016)
Na sociedade atual, onde não é mais possível desvencilhar a interação entre
humanos e máquinas (Valderramas, 2020), a figura de David torna-se uma metáfora
para a própria condição humana na era da tecnologia: seres conectados por redes que,
embora possibilitem interações rápidas e eficazes, muitas vezes falham em proporcionar
um sentido genuíno de pertencimento e continuidade.
Outra relação do filme que permite a observação de questionamentos que dizem
respeito a identidade é aquela entre Joe e David.
JOE: Eles nos odeiam, sabia? Os humanos. E nada os deterá.
DAVID: Mamãe não me odeia. Porque eu sou especial e único. Porque nunca
houve ninguém como eu antes, nunca! Mamãe ama o Marty porque ele é real
e, quando eu for real, mamãe vai ler pra mim e me fazer dormir, e cantar pra
mim, e ouvir o que eu digo. E ela vai me abraçar e me dizer todo dia,
centenas de vezes ao dia que me ama!
JOE: Ela ama o que você faz por ela. Assim como minhas clientes amam o
que faço por elas. Porém, ela não te ama, David. Ela não pode te amar. Você
não é de carne e osso, você não é um cachorro, não é um gato, nem um
canário. Você foi desenhado e foi construído como o resto de nós. Só está
sozinho agora porque eles se cansaram de você. Ou trocaram por um modelo
mais novo, ou não gostaram de alguma coisa que disse ou quebrou. Eles nos
fizeram muito espertos, muito rápidos, e em grande número. Estamos
sofrendo pelos erros que cometeram e quando chegar o fim só o que vai
sobrar somos nós. É por isso que eles nos odeiam. É por isso que você deve
ficar aqui. Comigo.
DAVID: Adeus, Joe. (SPIELBERG, 2001, 01:31:33)
A figura de Joe, como um robô programado para satisfazer necessidades
humanas, parece antecipar e explorar temas como a transitoriedade das relações, a
obsolescência na era da produção em massa e a busca por identidade e pertencimento
em um mundo cada vez mais líquido e individualista.
5. Considerações finais
A jornada de David em busca de amor e aceitação, retratada em "A.I.: Inteligência
Artificial", demonstra parte da complexidade das relações humanas na era da
modernidade líquida. A obra de Spielberg, ao explorar a interação entre humanos e
robôs, permite a reflexão sobre o impacto do uso da tecnologia de forma exacerbada na
construção de nossas identidades e na forma como estabelecemos vínculos.
A busca por conexões autênticas, em um mundo mediado por tecnologias
digitais cada vez mais avançadas, torna-se um desafio crescente. A fragilidade das
relações, a obsolescência programada e a cultura do descarte, características marcantes
da modernidade líquida, são projetadas nas interações entre humanos e máquinas. A
figura de David, um robô programado para amar, revela a ambivalência da tecnologia:
ao mesmo tempo em que promete suprir necessidades afetivas, ela pode agravar a
solidão e a alienação.
A teoria de Zygmunt Bauman se torna uma lente poderosa quando utilizada para
analisar essa realidade. Ao conceituar a modernidade líquida como uma época marcada
pela fluidez, pela incerteza e pela fragilidade dos laços sociais, o autor nos fornece
ferramentas para compreender os motivos pelos quais as relações humanas se tornaram
tão complexase desafiadoras. A busca por identidade e pertencimento, que antes era
ancorada em instituições e comunidades estáveis, agora se torna uma jornada individual
e muitas vezes solitária.
A partir da análise do filme, podemos concluir que a inteligência artificial, ao
tentar simular emoções e comportamentos humanos, levanta questões profundas sobre a
natureza da consciência e a impossibilidade de replicá-la, a ética da criação de vida
artificial e o futuro das relações humanas. A fronteira entre o humano e o artificial
torna-se cada vez mais tênue, dificultando a compreensão do que significa ser humano
em um mundo cada vez mais tecnológico.
Agradecimentos
Os autores agradecem o apoio financeiro das agências CAPES, CNPq e FAPEMIG.
6. Referências
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