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CIRROSE E PANCREATITE 1. Cirrose A cirrose representa um estágio tardio de fibrose hepática progressiva caracterizada pela distorção da arquitetura hepática e a formação de nódulos regenerativos. Geralmente é considerado irreversível em seus estágios avançados, tendo como tratamento curativo o transplante de fígado. Em estágios iniciais, os tratamentos específicos direcionados à causa subjacente da doença hepática podem melhorar ou até mesmo reverter a cirrose (GOLDBERG; CHOPRA, 2019). Existem inúmeras causas de doença hepática que podem resultar em cirrose, tanto por causar inflamação hepática crônica quanto colestase. As etiologias comuns de cirrose incluem: hepatite viral crônica (B e C); hepatite alcoólica; hemocromatose; hepatite gordurosa não alcoólica; causas menos comuns incluem: hepatite autoimune; cirrose biliar primária e secundária; colangite esclerosante primária; medicamentosa (por exemplo, Metotrexato, Isoniazida), entre outros (GOLDBERG; CHOPRA, 2020). A cirrose pode se manifestar por sintomas inespecíficos como anorexia, perda de peso, fraqueza, fadiga ou sinais e sintomas de descompensação hepática – icterícia, prurido, sinais de sangramento gastrointestinal superior, distensão abdominal por ascite, confusão devido a encefalopatia hepática. Em mulheres, a anovulação crônica é comum, podendo apresentar amenorréia ou irregularidade menstrual pois apresentam anormalidades hormonais gonadotróficos (GOLDBERG; CHOPRA, 2020). Os achados do exame físico podem incluir icterícia, telangiectasia, ginecomastia, ascite, hepatomegalia, esplenomegalia, eritema palmar, baqueteamento digital e asterixia. Aos exames laboratoriais é esperado BT, FA e GGT elevados, TGO e TGP podem estar anormais a depender do estágio da doença, tempo de protrombina prolongado/INR elevado, hiponatremia, hipoalbuminemia e trombocitopenia. Cabe ressaltar (GOLDBERG; CHOPRA, 2020): ● TGO > TGP geralmente quando hepatite alcóolica. A maioria das hepatites crônicas tem uma proporção TGO/TGP menor que 1. Conforme a doença progride a proporção pode ser alterada. ● FA se elevada 2-3 vezes o limite superior, sugere doença hepática colestática. ● Albumina cai conforme a cirrose se agrava, da mesma forma, o tempo de protrombina e INR se eleva, ambos são utilizados para classificar a gravidade da cirrose. https://www.uptodate.com/contents/methotrexate-drug-information?search=cirrose&topicRef=1253&source=see_link https://www.uptodate.com/contents/isoniazid-drug-information?search=cirrose&topicRef=1253&source=see_link As principais complicações são provocadas pela hipertensão portal, sendo elas: hemorragia de varizes, ascite, peritonite bacteriana espontânea (PBE), encefalopatia hepática, síndrome hepatorenal, síndrome hepatopulmonar, cardiomiopatia cirrótica, entre outros. Uma vez que essas complicações se desenvolvam, os pacientes são considerados cirróticos descompensados e devem ser considerados para transplante. Os fatores de risco para descompensação incluem sangramento, infecção, consumo de álcool, medicamentos, obesidade, desidratação e constipação (GOLDBERG; CHOPRA, 2019). Ao exame físico, pacientes com hipertensão portal podem apresentar “sopro de Cruveilhier-Baumgarten” que resulta de conexões colaterais entre o sistema porta e o remanescente da veia umbilical; é melhor auscultado quando o estetoscópio é colocado sobre o epigástrio e é aumentado à manobra de Valsalva, e diminuído pela aplicação de pressão na pele em mesogástrio (GOLDBERG; CHOPRA, 2019). � A ascite é o acúmulo de líquido na cavidade peritoneal e é a complicação mais comum da cirrose. É tipicamente tratada com uma combinação de diuréticos e restrição de sódio, alguns pacientes necessitam de paracenteses terapêuticas repetidas. Entre os pacientes com ascite refratária ou PBE, o uso de betabloqueadores não seletivos pode estar associado ao aumento da mortalidade. A PBE quase sempre é observada em estágios terminais e manifesta-se por febre, dor abdominal e alteração do estado mental; alguns pacientes são assintomáticos e apresentam apenas anormalidades laboratoriais leves. O diagnóstico é estabelecido por uma cultura bacteriana positiva e/ou uma contagem absoluta de leucócitos PMN elevada do líquido ascítico (≥ 250 células/mm3). Sem o tratamento precoce com antibióticos, a mortalidade é alta. � As hemorragias de varizes manifestam-se por hematêmese ou melena, que pode ser tratada com ligadura elástica endoscópica das varizes. As altas taxas de mortalidade variam de 15 a 20% em 30 dias após o primeiro episódio. A encefalopatia hepática descreve o espectro de anormalidades neuropsiquiátricas potencialmente reversíveis. Perturbações no padrão de sono diurno (insônia e hipersonia) é uma característica inicial comum que geralmente precede os sinais neurológicos, quando mais avançados incluem a presença de asterixis, reflexos tendinosos profundos hiperativos e, menos comumente, postura transitória de descerebrados. O tratamento indicado é de suporte as condições predisponentes, como infecções ou sangramento TGI. O tratamento objetiva retardar ou reverter a progressão da doença, prevenir insultos sobrepostos, identificar medicamentos que requerem ajustes de dose ou que devem ser proscritos, gerenciar sintomas e anormalidades laboratoriais, além de prevenir, identificar e tratar as complicações e determinar a adequação e o momento ideal para o transplante de fígado se elegíveis (GOLDBERG; CHOPRA, 2020). Algumas doenças hepáticas crônicas respondem ao tratamento mesmo quando a doença hepática progrediu para cirrose. Assim, devem ser instituídas terapias específicas dirigidas contra a causa subjacente da cirrose. Por exemplo, pacientes com hepatite C e fibrose avançada ou cirrose que alcançam uma resposta virologica sustentada (RVS) com tratamento antiviral têm um risco menor de mortalidade relacionada ao fígado em comparação com pacientes que não atingem uma RVS. A abstinência alcoólica melhora substancialmente a sobrevivência; o tratamento bem-sucedido da hepatite viral crônica pode melhorar os resultados em longo prazo e pode afetar a fibrose (GOLDBERG; CHOPRA, 2020). Os betabloqueadores não seletivos têm sido estudados quanto a um possível papel na prevenção da progressão da doença em pacientes com cirrose compensada, mas a implicação para a prática clínica é incerta. A vacinação contra as hepatites A e B para aqueles que ainda não estão imunes pode ajudar a prevenir agressões sobrepostas ao fígado. Outras vacinações, como a vacinação anual contra influenza, também são recomendadas (GOLDBERG; CHOPRA, 2020). O prognóstico é altamente variável, pois é influenciado por uma série de fatores, incluindo etiologia, gravidade, presença de complicações e comorbidades. Uma vez que a descompensação ocorre, as taxas de mortalidade são altas. Pacientes com cirrose que não desenvolveram complicações maiores são classificados como tendo cirrose compensada e a sobrevida média passa a ser acima de 12 anos. Escalas como a de MELD e Child-Pugh auxiliam a determinar a risco de operações e prognóstico de pacientes descompensados se não passarem por transplante (GOLDBERG; CHOPRA, 2019). Tabela 1 – Critérios de Child-Pugh CRITERIOS PONTOS 1 2 3 Encefalopatia Ausente Grau I e II Grau III e IV Ascite Ausente Pequena Volumosa INR 2,3 Bilirrubina total (mg/dL) 3 Albumina (g/dL) >3,5 2,8-3,5com doença hepática no ambiente de não transplante. A pontuação varia de 6 (menor gravidade) a 40 (maior gravidade) (GOLDBERG; CHOPRA, 2020). Figura 1 – Prognóstico pela escala de MELD O encaminhamento a um hepatologista é recomendado se o paciente desenvolver cirrose descompensada ou complicações maiores da cirrose. Pacientes com pontuação MELD ≥10 devem ser encaminhados a um centro de transplante de fígado para avaliação. Além disso, o encaminhamento a um hepatologista deve ser considerado se o paciente precisar de tratamento para a causa subjacente da cirrose (por exemplo, hepatite C, hepatite autoimune) ou se o clínico que trata o paciente gostaria da ajuda de um hepatologista no manejo geral do paciente (GOLDBERG; CHOPRA, 2020). 2. Pancreatite Crônica Pancreatite crônica (PC) é uma síndrome que envolve inflamação, fibrose e perda de células acinares e das ilhotas. A PC pode resultar de episódios de pancreatite aguda (PA) de qualquer causa e embora a PA possa ser considerada um evento, a PC é um processo contínuo de resposta patológica à lesão pancreática (FORSMARK; FREEDMAN; LEWIS, 2020). Dessa forma, as pancreatites, aguda e crônica, podem ser mais bem vistas como duas partes do mesmo espectro da doença, em vez de duas condições completamente separadas (FORSMARK; FREEDMAN, 2020). A síndrome da PC resulta da exposição a fatores de risco, genéticos e ambientais – álcool, tabagismo, hipertrigliceridemia, DM II, autoimune... e é caracterizada por desarranjos na função pancreática e alterações estruturais no pâncreas visíveis em exames de imagem ou estudos endoscópicos (FORSMARK; FREEDMAN; LEWIS, 2020). No entanto, muitas das características clínicas demoram para se manifestar e podem estar ausentes nos estágios iniciais da pancreatite crônica (FORSMARK; FREEDMAN, 2020). Comumente o paciente refere dor abdominal, geralmente epigástrica e frequentemente irradia para as costas; pode piorar em decúbito dorsal e os pacientes podem apresentar exacerbação pós-prandial. A dor é mais comum em pessoas com PC devido ao uso de álcool ou tabaco e em pessoas com pancreatite idiopática que ocorre em uma idade jovem. Náusea, vômito e anorexia são comumente associados à dor (FORSMARK; FREEDMAN, 2020). O padrão da dor abdominal varia entre os pacientes, podendo ser dor constante de gravidade variável com exacerbações periódicas, dor intensa e contínua ou com surtos e remissões. Uma mudança no padrão de dor ou piora súbita deve levar à pesquisa de complicações, como um pseudocisto, obstrução duodenal ou biliar ou carcinoma pancreático secundário. É importante ressaltar que a intensidade da dor não se correlaciona com a gravidade do dano pancreático (FORSMARK; FREEDMAN, 2020). Pacientes com esteatorreia podem não ter diarreia aquosa ou frequente, este sintoma geralmente está associado a doença de longa duração (> 5 a 10 anos), mas também pode ser observada com lesões que obstruem o ducto pancreático e impedem que as enzimas atinjam o duodeno, e após episódios graves de PA que destroem quantidades significativas de células acinares (FORSMARK; FREEDMAN; LEWIS, 2020). Pode ocorrer perda de peso, especialmente se a dor também limitar a alimentação. A perda de peso, especialmente a sarcopenia, está associada ao aumento do risco de mortalidade (FORSMARK; FREEDMAN, 2020). Laboratorialmente espera-se(FORSMARK; FREEDMAN, 2020): ● Amilase e lipase com níveis séricos baixos, ao contrário do esperado na PA (> 3 vezes o limite superior) ● BT e FA elevados sugerem compressão da porção intrapancreática do ducto biliar por edema ou fibrose ● Deficiências de vitaminas lipossolúveis, em especial vitamina D Naqueles com PC devido à hipertrigliceridemia, os níveis séricos de triglicerídeos estão elevados, e embora níveis acima de 1000 mcg/mL sejam normalmente necessários para produzir o primeiro episódio de PA nesses pacientes, as recidivas podem ocorrer com níveis tão baixos quanto 500 mcg/mL. Em pacientes com pancreatite autoimune tipo 1 (PIA), podem ser observadas elevações nos níveis séricos de imunoglobulina G4 (IgG4), e essas elevações fazem parte dos critérios diagnósticos. Além disso, outros marcadores autoimunes podem ocasionalmente estar elevados – FR, FAN e AML (FORSMARK; FREEDMAN, 2020). Achados incidentais em exames de imagem como a presença de calcificações pancreáticas difusas, aumento da ecogenicidade podem sugerir PC. A imagem transversal com tomografia computadorizada (TC) de alta qualidade usando tecnologia de multidetectores e um protocolo pancreático ou a imagem por ressonância magnética (MRI) com colangiopancreatografia por ressonância magnética (MRCP) são os melhores testes diagnósticos iniciais para pancreatite crônica. Em pacientes com suspeita de PC, mas imagem transversal duvidosa, deve-se realizar teste de função pancreática direta com secretina e se disponível, ou ultrassom endoscópico. No entanto, nenhum dos testes deve ser usado como único critério diagnóstico. Para o diagnóstico de pancreatite crônica com base em características de EUS (FORSMARK; FREEDMAN, 2020): ● Anormalidades parenquimatosas: focos hiperecoicos, fios hiperecóicos, contorno lobular, cistos ● Anormalidades ductais: dilatação do duto principal, irregularidade do duto, margens hiperecoicas, ramos laterais visíveis, pedras Outras condições que podem mimetizar a PC incluem doenças que causam obstrução do duto pancreático, por exemplo, adenocarcinoma do duto pancreático, neoplasias mucinosas papilares intraductais e neoplasias císticas (FORSMARK; FREEDMAN; LEWIS, 2020). No geral, o gerenciamento da PC se dá com controle da dor, cessando fatores desencadeantes ou agravantes como tabagismo e etilismo. O paciente deve realizar https://www.uptodate.com/contents/secretin-drug-information?search=pancreatite+cr%C3%B4nica&topicRef=5649&source=see_link pequenas refeições com baixo teor de gordura e manter-se hidratado. Os suplementos de enzimas pancreáticas para suprimir a secreção exócrina pancreática aliviam a dor em alguns pacientes, essa terapia se justifica pela supressão do feedback no duodeno que regulam a liberação de CCK, entretanto são necessários mais estudos para consolidação da prática. A analgesia com amitriptilina e nortriptilina podem reduzir a dor diária de doenças neuropáticas, o uso de opioides crônicos podem ser necessários em pacientes com dor significativa persistente (FREEDMAN, 2018). Embora faltem estudos randomizados, vários relatórios sugeriram que a terapia endoscópica destinada a descomprimir um ducto pancreático obstruído pode estar associada ao alívio da dor em alguns pacientes. Litotripsia extracorpórea por ondas de choque pode ser necessária tendo em visto que 22-60% dos pacientes apresentam cálculos no ducto pancreático (FREEDMAN, 2018). A cirurgia geralmente tem sido considerada para pacientes que falham na terapia medicamentosa ou como terapia de primeira linha se houver suspeita de câncer pancreático. Até 15% dos pacientes em séries cirúrgicas tinham câncer de pâncreas não reconhecido no momento do procedimento, o que reforça a necessidade de um diagnóstico firme antes da cirurgia. Embora o papel da cirurgia na pancreatite crônica seja geralmente aceito, há poucos ensaios clínicos controlados para demonstrar seu benefício (FREEDMAN, 2018). Referências FORSMARK, C., FREEDMAN, S., LEWIS, M. Etiologia e patogênese da pancreatite crônica em adultos. UpToDate. Março de 2020. Disponível em: . Acesso em 28 Jan. 2021. FREEDMAN, S. FORSMARK, C. Pancreatite crônica: manifestações clínicas e diagnóstico em adultos. UpToDate. Junho de 2020. Disponível em: . Acesso em: 28 Jan. 2021. FREEDMAN, S. Tratamento da pancreatite crônica. UpToDate. Dezembro de 2018. Disponível em: . Acesso em: 28 Jan2. 2021. GOLDBERG, E. CHOPRA, S. Cirrose emadultos: etiologias, manifestações clínicas e diagnóstico. UpToDate. Agosto de 2020. Disponível em: . Acesso em: 24 Jan. 2021. GOLDBERG, E. CHOPRA, S. Cirrose em adultos: visão geral das complicações, tratamento geral e prognóstico. UpToDate. Novembro de 2019. Disponível em: . Acesso em: 23 Jan. 2021.