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Revisada Atualizada Ampliada Edição 2025.1 Cr imes TRIBUTÁRIOS CRIMES TRIBUTÁRIOS APRESENTAÇÃO................................................................................................................................ 1 1. NOÇÕES INTRODUTÓRIAS ....................................................................................................... 2 2. DISTINÇÃO ENTRE DIREITO TRIBUTÁRIO PENAL E DIREITO PENAL TRIBUTÁRIO ......... 2 3. CRIMES CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA ............................................................................... 3 ARTIGO 1º DA LEI 8.137/90 ................................................................................................. 4 ARTIGO 2º DA LEI 8.137/90 ................................................................................................. 6 ARTIGO 3º DA LEI 8.137/90 ............................................................................................... 10 CRIMES TRIBUTÁRIOS NO CP ........................................................................................ 12 4. CRIMES TRIBUTÁRIOS E PRISÃO CIVIL POR DÍVIDA .......................................................... 13 5. BEM JURÍDICO TUTELADO ..................................................................................................... 13 PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA .................................................................................... 14 6. COMPETÊNCIA CRIMINAL ....................................................................................................... 16 COMPETÊNCIA DE JUSTIÇA ............................................................................................ 16 COMPETÊNCIA TERRITORIAL ......................................................................................... 17 7. FISCALIZAÇÃO TRIBUTÁRIA ................................................................................................... 18 INVIOLABILIDADE DOMICILIAR ....................................................................................... 18 (IN)CONSTITUCIONALIDADE DA TRANSFERÊNCIA DIRETA DE INFORMAÇÕES DAS ENTIDADES BANCÁRIAS AOS ÓRGÃOS DE FISCALIZAÇÃO TRIBUTÁRIA........................... 18 8. SUJEITOS DOS CRIMES DOS ARTIGOS 1º E 2º DA LEI 8.137/90........................................ 23 SUJEITO ATIVO ................................................................................................................. 23 (IM)POSSIBILIDADE DE RESPONSABILIZAÇÃO PENAL DA PESSOA JURÍDICA PELA PRÁTICA DE CRIMES CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA ......................................................... 24 DENÚNCIA GENÉRICA ...................................................................................................... 24 SUJEITO PASSIVO ............................................................................................................ 25 9. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA ................................................................................................. 25 10. CONCURSO DE CRIMES ...................................................................................................... 25 11. EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE EM VIRTUDE DO PAGAMENTO OU DO PARCELAMENTO DO DÉBITO TRIBUTÁRIO ................................................................................. 26 12. DECISÃO FINAL DO PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO DE LANÇAMENTO NOS CRIMES MATERIAIS CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA ............................................................... 30 NATUREZA JURÍDICA ....................................................................................................... 32 OBSERVAÇÕES ................................................................................................................. 34 13. JURISPRUDÊNCIA EM TESES ............................................................................................. 35 CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 1 APRESENTAÇÃO Olá! Inicialmente gostaríamos de agradecer a confiança em nosso material. Esperamos que seja útil na sua preparação, em todas as fases. Quanto mais contato temos com uma mesma fonte de estudo, mais familiarizados ficamos, o que ajuda na memorização e na compreensão da matéria. O Caderno Legislação Penal Especial - Crimes Tributários possui como base as aulas do professor Vinícius Marçal, do Curso G7 Jurídico, complementado com as aulas do Professor Renato Brasileiro, também do G7 Jurídico. Dois livros foram utilizados para complementar nosso CS de Legislação Penal Especial: a) Legislação Criminal para Concursos (Fábio Roque, Nestor Távora e Rosmar Rodrigues Alencar), ano 2017 e b) Legislação Criminal Comentada (Renato Brasileiro), ano 2019, ambos da Editora Juspodivm. Na parte jurisprudencial, utilizamos os informativos do site Dizer o Direito (www.dizerodireito.com.br), os livros: Principais Julgados STF e STJ Comentados, Vade Mecum de Jurisprudência Dizer o Direito, Súmulas do STF e STJ anotadas por assunto (Dizer o Direito). Destacamos: é importante você se manter atualizado com os informativos, reserve um dia da semana para ler no site do Dizer o Direito. Ademais, no Caderno constam os principais artigos da lei, mas, ressaltamos, que é necessária leitura conjunta do seu Vade Mecum, muitas questões são retiradas da legislação. Como você pode perceber, reunimos em um único material diversas fontes (aulas + doutrina + informativos + súmulas + lei seca + questões) tudo para otimizar o seu tempo e garantir que você faça uma boa prova. Por fim, como forma de complementar o seu estudo, não esqueça de fazer questões. É muito importante! As bancas costumam repetir certos temas. Vamos juntos! Bons estudos! Equipe Cadernos Sistematizados. CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 2 CRIMES TRIBUTÁRIOS 1. NOÇÕES INTRODUTÓRIAS O presente estudo abrange não apenas a Lei 8.137/90, como também outras leis extravagantes que também tratam da matéria. Os crimes tributários são, na verdade, uma ajuda que o Direito Penal dá à Execução Fiscal, isso porque o Estado reconhece que as pessoas não pagam tributos de maneira espontânea. A tipificação dos crimes contra a ordem tributária surge para emprestar maior coercibilidade às exigências tributárias. Segundo Hugo de Brito Machado, “o estudo dos crimes contra a ordem tributária ganha maior importância na medida em que aumentam os segmentos do Fisco e do Ministério Público que acreditam ser possível aumentar a arrecadação tributária pela intimidação, e por isso cuidam de tornar efetiva a aplicação das sanções penais”. 2. DISTINÇÃO ENTRE DIREITO TRIBUTÁRIO PENAL E DIREITO PENAL TRIBUTÁRIO Doutrinadores como Gustavo Moreno Polido, Kiyoshi Harada e outros trazem à tona a distinção entre Direito Tributário Penal e Direito Penal Tributário. Quando se fala em Direito Tributário Penal refere-se ao ramo de Direito Tributário que versa sobre aplicação de sanções extrapenais às condutas ilícitas (tanto a título de dolo quanto a título de culpa), sejam elas de caráter administrativo ou tributário. A título de exemplificação, pode-se mencionar o art. 136 do Código Tributário Nacional (CTN): Art. 136. Salvo disposição de lei em contrário, a responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato Atenção: no dispositivo, não há necessidade da comprovação do dolo do agente, o que é praticamente inconcebível no Direito Penal. Por outro lado, o Direito Penal Tributário é ramo do Direito Penal que versa sobre crimes contra a ordem tributária, sendo este o objeto de nosso estudo. Aqui, explorar-se-á a área que cuida das condutas que atentam contra a ordem tributária, todas dolosas. Não há crimes tributários culposos. Segundo Manoel Pedro Pimentel, Direito Penal Tributário é “um ramo autônomo do Direitotitular da competência para exigir o seu cumprimento 9. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA No artigo 1º, incisos I, II, III e IV da Lei 8.137/90, consoante a jurisprudência, estariam os crimes materiais contra a ordem tributária, que se consumam quando houver o lançamento definitivo. Em tese, é possível a tentativa desses crimes. No entanto, a tentativa, por si só, já terá o condão de caracterizar os crimes do artigo 2º da mesma Lei, que são crimes formais (atos preparatórios do artigo 1º). Se os crimes materiais se consumam exclusivamente com o lançamento definitivo, significa que esse lançamento definitivo representa o marco inicial da prescrição. Afinal de contas, a prescrição começa a fluir, em regra, a partir do momento em que o delito é consumado. O termo inicial da prescrição da ação dos crimes materiais previstos no art. 1º da Lei nº 8.137/1990 é a data da consumação do delito, que, conforme a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, corresponde à data da constituição definitiva do crédito tributário. Precedentes. 2. Agravo regimental a que se nega provimento. (STF, 1ª Turma, RHC 122.339 AgR/SP, Rel. Min. Roberto Barroso, j. 04/08/2015). Para Sergio Pinto Martins, crédito tributário é “o direito subjetivo do sujeito ativo de obrigação tributária de exigir do sujeito passivo o pagamento de tributo ou da penalidade pecuniária.” 10. CONCURSO DE CRIMES CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 26 É comum que por meio de uma conduta única ocorra a supressão ou redução de dois ou mais tributos de titularidades diversas (ex.: um tributo da União e um do Estado). Alguns doutrinadores preconizam que, nessas hipóteses, existiriam vários crimes contra a ordem tributária, a depender da quantidade de tributos sonegados. Essa não é, contudo, a orientação adotada pelos Tribunais Superiores. Os Tribunais Superiores advogam que, em se tratando de crimes contra a ordem tributária, deve ser analisada a conduta como um todo, ainda que mais de um tributo seja sonegado. No crime de sonegação fiscal o bem jurídico tutelado não é o patrimônio ou erário de cada pessoa jurídica de direito público titular de competência para instituir e arrecadar tributos – fiscais (entes federativos) ou parafiscais (entidades autárquicas) – mas, sim, a ordem jurídica tributária como um todo. 2. A conduta consistente em praticar qualquer uma ou todas as modalidades descritas nos incisos I a V do art. 1 da Lei nº 8.1347/90 (crime misto alternativo) conduz à consumação de crime de sonegação fiscal quando houver supressão ou redução de tributo, pouco importando se atingidos um ou mais impostos ou contribuições sociais. 3. Não há concurso formal, mas crime único, na hipótese em que o contribuinte, numa única conduta, declara Imposto de Renda de Pessoa Jurídica com a inserção de dados falsos, ainda que tal conduta tenha obstado o lançamento de mais de um tributo ou contribuição. 4. Recurso improvido. (STJ, 6ª Turma, Resp 1.294.687/PE, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, j. 15/10/2013). 11. EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE EM VIRTUDE DO PAGAMENTO OU DO PARCELAMENTO DO DÉBITO TRIBUTÁRIO É cediço que uma gama de leis foi editada para concessão de benefícios aos crimes tributários. Obs.: a partir de agora, aconselha-se atenção especial ao momento oportuno para o pagamento/parcelamento previsto em cada lei. Pondere-se o direito intertemporal, verificando melhoria (ultratividade) ou piora (irretroatividade) das circunstâncias. A regra geral é o arrependimento posterior (causa de diminuição de pena), previsto no artigo 16 do CP: Art. 16 - Nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa, reparado o dano ou restituída a coisa, até o recebimento da denúncia ou da queixa, por ato voluntário do agente, a pena será reduzida de um a dois terços. Sem embargo, para crimes tributários o tratamento é diverso. Observa-se a redação original do artigo 14 do Lei 8.1347/90: Art. 14. Extingue se a punibilidade dos crimes definidos nos arts. 1° a 3° quando o agente promover o pagamento de tributo ou contribuição social, CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 27 inclusive acessórios, antes do recebimento da denúncia. (Revogado pela Lei nº 8.383, de 30.12.1991) A extinção da punibilidade se dava com o pagamento antes do recebimento da denúncia (essa previsão valeu entre os anos de 1990 e 1991). Quatro anos depois, o artigo 34 da Lei 9.249/95 passou a prever que: Art. 34. Extingue-se a punibilidade dos crimes definidos na Lei nº 8.137, de 27 de dezembro de 1990, e na Lei nº 4.729, de 14 de julho de 1965, quando o agente promover o pagamento do tributo ou contribuição social, inclusive acessórios, antes do recebimento da denúncia. À época, a lei falava apenas no pagamento do tributo antes do recebimento da denúncia, o que oportunizou a discussão quanto ao parcelamento (se também teria o condão de excluir a punibilidade). A orientação dominante preconizava que o parcelamento também possibilitava a extinção da punibilidade, visto que é uma forma de pagamento. Nesse sentido é que adveio a Lei 10.684/03, dispondo em seu artigo 9º: Art. 9º É suspensa a pretensão punitiva do Estado, referente aos crimes previstos nos 1º e 2º da Lei nº 8.137, de 27 de dezembro de 1990, e nos arts. 168-A e 337-A do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal, durante o período em que a pessoa jurídica relacionada com o agente dos aludidos crimes estiver incluída no regime de parcelamento. § 1º A prescrição criminal não corre durante o período de suspensão da pretensão punitiva. § 2º Extingue-se a punibilidade dos crimes referidos neste artigo quando a pessoa jurídica relacionada com o agente efetuar o pagamento integral dos débitos oriundos de tributos e contribuições sociais, inclusive acessórios. O dispositivo representou uma revolução concernente à matéria. O parcelamento passou a ser regulamentado de maneira explícita e, segundo a lei, não acarretaria a extinção da punibilidade, mas, sim, suspenderia a pretensão punitiva do Estado. À vista disso, a extinção da punibilidade se daria apenas com o pagamento integral dos débitos. Outrossim, ao contrário do artigo 34 da Lei 9.249/95, o § 2º do artigo 9º não estabeleceu nenhum limite temporal para o pagamento. Por essa razão, entendeu-se que o pagamento poderia ser feito a qualquer momento, leia-se: mesmo após o recebimento da denúncia e, até mesmo, trânsito em julgado da ação. A lei falava, no entanto, que se suspendia a pretensão punitiva do Estado, o que é diferente de pretensão executória. Pretensão punitiva é a pretensão do Estado de submeter o sujeito a um processo para que, ao final, seja condenado. Pretensão executória surge quando há título executivo em mãos. Portanto, para que o pagamento extinguisse a punibilidade era fato que poderia ser feito a qualquer momento, DESDE QUE antes do trânsito em julgado da sentença condenatória. Pois a partir dele, não haveria mais falar em pretensão punitiva, porém, sim, em pretensão executória. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8383.htm#art98 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8383.htm#art98 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8137.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8137.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/1950-1969/L4729.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8137.htm#art1 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8137.htm#art2 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art168a http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art168a http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art337a http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art337a CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 28 Obs. 1: o pagamento e extinção da punibilidade seriam válidos não apenas para crimes tributários, como também para eventuais crimes “meio”.Obs. 2: com a edição do artigo 83, § 1º e § 2º da Lei 9.430/93 (alterados pela Lei 12.382/2011), foi estabelecido um novo regramento em relação a presente matéria (consequência do parcelamento em relação aos crimes tributários). Art. 83, 1o Na hipótese de concessão de parcelamento do crédito tributário, a representação fiscal para fins penais somente será encaminhada ao Ministério Público após a exclusão da pessoa física ou jurídica do parcelamento. § 2º É suspensa a pretensão punitiva do Estado referente aos crimes previstos no caput, durante o período em que a pessoa física ou a pessoa jurídica relacionada com o agente dos aludidos crimes estiver incluída no parcelamento, desde que o pedido de parcelamento tenha sido formalizado antes do recebimento da denúncia criminal. É certo que uma das hipóteses de revogação se dá quando a lei posterior aborda exatamente a mesma matéria de lei anterior. Por esse ângulo, a alteração pela Lei 12.382/2011, tacitamente, ocasionou a revogação do artigo 9º da Lei 10.684/03, principalmente, porque trata de idêntico assunto, mas de maneira diversa. A modificação manteve a previsão de que o parcelamento suspenderá a pretensão punitiva, mas estabeleceu limite temporal para que isso aconteça, qual seja: o recebimento da denúncia, salientando que tal fenômeno é um claríssimo exemplo de novatio legis in pejus. Por tratar-se de novatio legis in pejus, essa alteração somente será válida para os crimes cometidos após a vigência da Lei 12.382/2011. Isto posto, em suma, tem-se que se o crime foi praticado entre 2003 e 2011, será abarcado pelo artigo 9º da Lei 10.684/03. Se o crime foi cometido após a vigência da Lei 12.382/11, o sujeito somente conseguirá a suspensão da pretensão punitiva com o parcelamento, se o fizer até o recebimento da denúncia. Tendo a Lei 12.382/2011 previsto, no artigo seu 6º, que a suspensão da pretensão punitiva estatal ocorre apenas quando há o ingresso no programa de parcelamento antes do recebimento da denúncia, consideram-se revogadas as disposições em sentido contrário, notadamente o artigo 9º da Lei 10.684/2003. 2. Na própria exposição de motivos da Lei 12.382/2011, esclareceu-se que a suspensão da pretensão punitiva estatal fica suspensa “durante o período em que o agente enquadrado nos crimes a que se refere o art. 83 estiver incluído no parcelamento, desde que o requerimento desta transação tenha sido formalizado antes do recebimento da denúncia criminal”. 3. Por conseguinte, revela-se ilegítima a pretensão da defesa, no sentido de que a persecução penal em tela seja suspensa em decorrência do parcelamento dos tributos devidos após o acolhimento da inicial. (STJ, 5ª Turma, HC 278.248/SC, Rel. Min. Jorge Mussi, j. 12/08/2014). Em suma: CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 29 Crimes praticados entre 2003 e 2011 Crimes praticados após a vigência da Lei 12.382/2011 Aplica-se o art. 9º da 10.684/03: Art. 9º É suspensa a pretensão punitiva do Estado, referente aos crimes previstos nos 1º e 2º da Lei nº 8.137, de 27 de dezembro de 1990, e nos arts. 168-A e 337-A do Decreto- Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal, durante o período em que a pessoa jurídica relacionada com o agente dos aludidos crimes estiver incluída no regime de parcelamento. § 1º A prescrição criminal não corre durante o período de suspensão da pretensão punitiva. § 2º Extingue-se a punibilidade dos crimes referidos neste artigo quando a pessoa jurídica relacionada com o agente efetuar o pagamento integral dos débitos oriundos de tributos e contribuições sociais, inclusive acessórios. Art. 83, 1º Na hipótese de concessão de parcelamento do crédito tributário, a representação fiscal para fins penais somente será encaminhada ao Ministério Público após a exclusão da pessoa física ou jurídica do parcelamento. § 2º É suspensa a pretensão punitiva do Estado referente aos crimes previstos no caput, durante o período em que a pessoa física ou a pessoa jurídica relacionada com o agente dos aludidos crimes estiver incluída no parcelamento, desde que o pedido de parcelamento tenha sido formalizado antes do recebimento da denúncia criminal. O parcelamento acarreta a suspensão da pretensão punitiva. O parcelamento acarreta a suspensão da pretensão punitiva. A extinção da punibilidade ocorre com o pagamento integral dos débitos. A extinção da punibilidade ocorre com o pagamento integral dos débitos. Para o pagamento extinguir a punibilidade deveria ser feito antes do trânsito em julgado da sentença condenatória. Para o pagamento extinguir a punibilidade, o pedido e parcelamento deve ser feito antes do recebimento da denúncia. Ressalta-se, por fim, que a garantia do crédito tributário na execução fiscal não possui natureza de pagamento voluntário e, portanto, não configura hipótese de extinção da punibilidade ou de suspensão do processo por crime tributário, in verbis: O fato de a dívida ativa estar garantida por contrato de seguro no bojo de execução fiscal movida contra o contribuinte não descaracteriza a materialidade dos crimes fiscais ou a lesividade da conduta. A constituição definitiva do crédito tributário, pressuposto material do crime fiscal, não é afastada pela mera garantia do débito em execução. STJ. 5ª Turma. AgRg no RHC 173258/PB, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 14/2/2023 (Info 764). CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 30 Como o tema foi cobrado em concurso? (TJ-RS - Juiz - FAURGS - 2022): O pagamento integral do tributo sonegado, inclusive de acessórios, extingue a punibilidade do agente, ainda que efetuado posteriormente ao recebimento da denúncia. Correto. (MPE-RS - Promotor - MPE-RS - 2021): Conforme o entendimento dominante no âmbito do Superior Tribunal de Justiça, o pagamento do tributo devido, para operar a extinção da punibilidade das infrações penais materiais, deve ocorrer até a publicação da sentença penal recorrível. Errado. (MPE-MG - Promotor - FUNDEP - 2021): O pagamento integral do débito tributário, incluindo todos os acessórios, extingue a punibilidade do agente, mesmo se realizado após o oferecimento da denúncia. Correto. 12. DECISÃO FINAL DO PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO DE LANÇAMENTO NOS CRIMES MATERIAIS CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA Há uma relação próxima entre o crime tributário e a existência da obrigação tributária. O referido vínculo dá margem para dúvidas, especialmente, devido à antiga redação do artigo 83 da Lei 9.430/96: Art. 83. A representação fiscal para fins penais relativa aos crimes contra a ordem tributária previstos nos arts. 1º e 2º da Lei 8.137, de 27 de dezembro de 1990, e aos crimes contra a Previdência Social, previstos nos arts. 168 A e 337 A do Decreto Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 Código Penal, será encaminhada ao Ministério Público depois de proferida a decisão final, na esfera administrativa, sobre a exigência fiscal do crédito tributário correspondente. (Redação dada pela Medida Provisória nº 497, de 2010) A controvérsia baseava-se no questionamento se o dispositivo objetivava a criação de uma nova condição de procedibilidade para crimes tributários ou não. Tanto foi a indagação que o aludido artigo foi objetivo de ADI 1.571, em que o STF firmou, pelo menos, três conclusões fundamentais: • O artigo 83 não criou condição de procedibilidade (crimes tributários continuam sendo crimes de Ação Penal Pública Incondicionada); • A representação fiscal a que se refere o dispositivo funciona como verdadeira “notitia criminis” sobre a prática de delitos contra a ordem tributária; • O Ministério Público pode oferecer denúncia, se houver o lançamento, independentemente de representação fiscal. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8137.htm#art1 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8137.htm#art1http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art168a http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art168a http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art337a http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art337a CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 31 Aproveitando o gancho, transcreve-se breve esquema retirado do buscador Dizer o Direito sobre o tema3. Normalmente a prática de crimes tributários é descoberta quando o Fisco está apurando se o contribuinte pagou ou não os tributos devidos. Pensando nisso, o legislador previu que, após ser encerrado o procedimento administrativo- fiscal no âmbito da Receita Federal, se ficar provado que o contribuinte não pagou realmente o tributo, o Auditor-Fiscal tem o dever de encaminhar cópia dos autos ao Ministério Público Federal a fim de que este analise se houve ou não a prática de crime contra a ordem tributária. Esse envio que está previsto no art. 83 da Lei 9.430/96, é chamado de “representação fiscal para fins penais”, sendo uma espécie de notitia criminis. Verifica-se o texto da Lei 9.430/96: Art. 83. A representação fiscal para fins penais relativa aos crimes contra a ordem tributária previstos nos arts. 1º e 2º da Lei nº 8.137, de 27 de dezembro de 1990, e aos crimes contra a Previdência Social, previstos nos arts. 168-A e 337-A do Decreto-Lei 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), será encaminhada ao Ministério Público depois de proferida a decisão final, na esfera administrativa, sobre a exigência fiscal do crédito tributário correspondente. (Redação dada pela Lei 12.350, de 2010) O processo administrativo-fiscal realizado pela Receita é muito importante para que se comprove a ocorrência ou não dos crimes tributários. Sem ele, o Ministério Público dificilmente teria elementos para oferecer denúncia contra os autores dos delitos tributários. Na grande maioria dos casos, o membro do Ministério Público oferece a denúncia pelos crimes contra a ordem tributária utilizando-se das informações enviadas pela Receita Federal na representação fiscal. Nesse sentido, indaga-se: o art. 83 da Lei 9.430/96 refere-se a quais crimes? • Crimes contra a ordem tributária previstos no arts. 1º e 2º da Lei 8.137/90; • Apropriação indébita previdenciária (art. 168-A do CP); • Sonegação previdenciária (art. 337-A do CP). O término do procedimento administrativo-fiscal é indispensável para que o Ministério Público ofereça denúncia contra os agentes pela prática dos crimes acima listados? • Para os crimes tributários materiais: SIM. • Para os crimes tributários formais: NÃO. Nesse sentido: Súmula Vinculante 24: Não se tipifica crime material contra a ordem tributária, previsto no artigo 1º, incisos I a IV, da Lei nº 8.137/90, antes do lançamento definitivo do tributo. 3 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. É constitucional o art. 83 da Lei nº 9.430/96. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 05/04/2024. CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 32 Os crimes acima listados são materiais ou formais? • Art. 1º, incisos I a IV, da Lei 8.137/90: materiais. • Art. 1º, inciso V, da Lei 8.137/90: formal. • Art. 2º da Lei 8.137/90: formal. • Apropriação indébita previdenciária (art. 168-A do CP): material. • Sonegação previdenciária (art. 337-A do CP): material. Sobre a Lei 9.430/96, o STF foi novamente provocado quanto à sua constitucionalidade, esclarecendo que a representação fiscal para fins penais (RFFP) será encaminhada ao Ministério Público após a decisão final na esfera administrativa: A representação fiscal para fins penais relativa aos crimes de apropriação indébita previdenciária e de sonegação de contribuição previdenciária será encaminhada ao ministério público depois de proferida a decisão final, na esfera administrativa, sobre a exigência fiscal do crédito tributário correspondente. STF. Plenário. ADI 4980/DF, Rel. Min. Nunes Marques, julgado em 10/3/2022 (Info 1047). Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-RS - Promotor - MPE-RS - 2021): Nos termos do artigo 83, caput, da Lei nº 9.430/1996 [Art. 83 - A representação fiscal para fins penais relativa aos crimes contra a ordem tributária previstos nos arts. 1º e 2º da Lei nº 8.137, de 27 de dezembro de 1990, e aos crimes contra a Previdência Social, previstos nos arts. 168-A e 337-A do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), será encaminhada ao Ministério Público depois de proferida a decisão final, na esfera administrativa, sobre a exigência fiscal do crédito tributário correspondente], com a redação dada pela Lei nº 12.350/2010, a ação penal, à luz do entendimento dominante no âmbito do Supremo Tribunal Federal, é de iniciativa pública condicionada à representação da autoridade fazendária. Errado. (PF - Delegado - CESPE - 2021): Os crimes contra a ordem tributária, a ordem econômica e as relações de consumo previstos na Lei n.º 8.137/1990 submetem-se à ação penal pública incondicionada. Correto. NATUREZA JURÍDICA Em relação à natureza jurídica da decisão final do procedimento administrativo e postura do MP, surgem várias correntes. • 1ª corrente: a decisão final do procedimento administrativo é questão prejudicial heterogênea não relativa ao estado civil da pessoa (o problema é solucionado pelo que prevê artigo 93 do CPP). CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 33 Art. 93. Se o reconhecimento da existência da infração penal depender de decisão sobre questão diversa da prevista no artigo anterior, da competência do juízo cível, e se neste houver sido proposta ação para resolvê-la, o juiz criminal poderá, desde que essa questão seja de difícil solução e não verse sobre direito cuja prova a lei civil limite, suspender o curso do processo, após a inquirição das testemunhas e realização das outras provas de natureza urgente. Durante anos tal posição foi sustentada por membros do MP, por lhes ser favorável. • 2ª corrente (Luís Flávio Gomes, Cézar Roberto Bitencourt, Gilmar Mendes): a decisão final do procedimento administrativo funciona como verdadeira elementar dos crimes materiais contra a ordem tributária. Aparentemente, esta é a melhor orientação quanto à matéria, porquanto a consumação dos crimes materiais depende da supressão do tributo. Contudo, apesar de parecer acertada, é posicionamento minoritário aos olhos dos Tribunais Superiores. • 3ª corrente (posição majoritária): a decisão final do procedimento administrativo de lançamento é condição objetiva de punibilidade. Isto é, é uma condição imposta pelo legislador para que o fato se torne punível. É considerada “objetiva” porque independe do dolo ou da culpa do agente. Nesse sentido, a Súmula Vinculante 24: Súmula Vinculante 24: Não se tipifica crime material contra a ordem tributária, previsto no art. 1º, incisos I a IV, da Lei nº 8.137/90, antes do lançamento definitivo do tributo. Atenção: a redação da súmula não foi das mais felizes. Ao citar “não se tipifica” o crime, sugere, equivocadamente, que a corrente adotada pelo STF seria a 2ª. Relembre-se que o STF entende que a súmula é aplicável aos fatos ocorridos anteriormente à sua vigência. Neste sentido: A Súmula Vinculante 24 tem aplicação aos fatos ocorridos anteriormente à sua edição. Como a SV 24 representa a mera consolidação da interpretação judicial que já era adotada pelo STF e pelo STJ mesmo antes da sua edição, entende-se que é possível a aplicação do enunciado para fatos ocorridos anteriormente à sua publicação. (...) (STF. 1ª Turma. RHC 122774/RJ, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 19/5/2015) (Info 786). (STJ. 3ª Seção. EREsp 1318662-PR, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em 28/11/2018) (Info 639). Como o tema foi cobrado em concurso?(MPE-RJ - Promotor - VUNESP - 2024): Considerando os crimes tributários, é correto afirmar que a despeito da Súmula Vinculante 24, é possível dar início à persecução penal antes de encerrado o procedimento administrativo, nos casos de embaraço à fiscalização CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 34 tributária ou diante de indícios da prática de outros delitos, de natureza não fiscal. Correto. (PGE-SE - Procurador - CESPE - 2023): Os crimes materiais previstos na citada lei não prescindem da constituição definitiva do crédito tributário para viabilizar a persecução penal, razão por que o encaminhamento da representação fiscal ao Ministério Público somente é possível após o exaurimento do processo administrativo. Correto. OBSERVAÇÕES O lançamento definitivo do tributo só funciona como condição objetiva de punibilidade para os crimes materiais contra a ordem tributária (previstos no artigo 1º, incisos I a IV da Lei 8.134/90). Assim, o crime previsto no artigo 1º, inciso V, da Lei 8.134/90, por exemplo, é crime formal e, por assim ser, independe de lançamento definitivo do tributo. Por fim, se houver crime que não seja contra a ordem tributária (ex.: lavagem de capitais, associação criminosa), a persecução penal ocorrerá normalmente. Como o tema foi cobrado em concurso? (TJ-DFT - Juiz - CESPE - 2023): Não se tipifica crime material contra a ordem tributária antes do lançamento definitivo do tributo. Correto. (PGE-RS - Procurador - FUNDATEC - 2021): Os crimes materiais contra a ordem tributária previstos no artigo 1º, incisos I a V, da Lei nº 8.137/90, só se perfectibilizam com o lançamento definitivo do tributo. Errado. (PGE-RS - Procurador - FUNDATEC - 2021): O pagamento do tributo devido, com seus acessórios, é causa de extinção da punibilidade do crime contra a ordem tributária e, caso efetuado antes do oferecimento da denúncia, impede a punição pelo crime de lavagem de dinheiro de que a sonegação fiscal era infração penal antecedente. Errado. (PC-PR - Delegado - NC-UFPR - 2021): A conduta descrita no art. 1º, I, da Lei nº 8.137/1990 depende da constituição definitiva do tributo para a sua caracterização típica, nos termos da Súmula Vinculante nº 24 do STF. Correto. (PC-PR - Delegado - NC-UFPR - 2021): De acordo com o STJ, com relação aos crimes materiais contra a ordem tributária, o prazo prescricional começa a contar da ação ou omissão típica, sendo irrelevante o momento da constituição do tributo. Errado. (PF - Delegado - CESPE - 2021): A jurisprudência dos tribunais superiores não admite mitigação da Súmula Vinculante n.º 24 do STF. Errado. CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 35 (PF - Delegado - CESPE - 2021): A Súmula Vinculante n.º 24 do STF - que dispõe que não se tipifica crime material contra a ordem tributária, conforme previsto no art. 1.º, incisos I a IV, da Lei n.º 8.137/1990, antes do lançamento definitivo do tributo - não pode ser aplicada a fatos anteriores a sua edição. Errado. (PC-SE - Delegado - CESPE - 2020): É vedado à autoridade policial tipificar como crime contra a ordem tributária a falta de pagamento de determinado tributo não lançado, ainda que o respectivo fato gerador tenha ocorrido. Correto. 13. JURISPRUDÊNCIA EM TESES Neste tópico, colaciona-se as teses aprovadas pela Jurisprudência em Teses do STJ sobre os crimes contra a ordem tributária bem como julgados recentes sobre a matéria. Edição 176 - DOS CRIMES CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA, ECONÔMICA E CONTRA AS RELAÇÕES DE CONSUMO IV 1) É cabível, no crime previsto no art. 1º, I, da Lei n. 8.137/1990, a criminalização da conduta do sócio-gerente que deixou o quadro societário da empresa antes do lançamento definitivo do crédito tributário, mas que efetivamente praticou o fato típico antes da sua saída. 2) A autoria e a participação no crime do art. 1º, I, da Lei 8.137/1990 prescindem de que os agentes integrem o quadro da pessoa jurídica ou o polo passivo do procedimento administrativo-fiscal, ou ainda, que sejam responsáveis pelo cumprimento da obrigação tributária, desde que demonstrado o envolvimento com a prática criminosa (art. 11 da Lei 8.137/1990). 3) Nos crimes societários cometidos no âmbito de aplicação da Lei 8.137/1990, admite-se a denúncia geral, a qual, apesar de não individualizar pormenorizadamente as atuações de cada um dos denunciados, demonstra, ainda que de maneira sutil, um liame entre o agir dos sócios ou administradores e a suposta prática delituosa, o que estabelece a plausibilidade da imputação deduzida e permite o exercício da ampla defesa com todos os recursos a ela inerentes. 4) Não obstante a hipótese de apenas um dos sócios administradores exercer, rotineiramente, a administração financeira empresarial, há possibilidade de os demais serem considerados autores do crime previsto no art. 1º, I, da Lei 8.137/1990, tendo em vista que todos os sócios administradores possuem o dever de evitar o resultado (crime comissivo por omissão), na medida em que aquele não poderia proceder à omissão fraudulenta de recolhimento de tributos e à prestação de informações falsas sem a ciência e o consentimento dos demais. 5) O envio dos dados sigilosos pela Receita Federal à Polícia ou ao Ministério Público, após o esgotamento da via administrativa, com a constituição definitiva de crédito tributário, CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 36 decorre de mera obrigação legal de se comunicar às autoridades competentes a possível prática de ilícito, o que não representa ofensa ao princípio da reserva de jurisdição. 6) Nos crimes previstos no art. 1º, II e III, da Lei 8.137/1990, o oferecimento de denúncias tratando de condutas e fatos distintos, ocorridos sucessivamente, no âmbito de uma mesma empresa sonegadora, não enseja litispendência nem bis in idem. 7) Após o lançamento definitivo do crédito tributário, eventual discussão na esfera cível, via de regra, não obsta o prosseguimento da ação penal que apura a ocorrência de crime contra a ordem tributária, diante da independência das instâncias de responsabilização cível e penal. 8) A omissão de receitas e a omissão do dever de prestar informações verdadeiras acerca da empresa são condutas ínsitas ao tipo penal descrito no art. 1º, I, da Lei 8.137/1990, não se prestando para negativar as circunstâncias do crime. 9) A majorante do grave dano à coletividade, prevista pelo art. 12, I, da Lei 8.137/1990, restringe-se a situações de relevante dano, valendo, analogamente, adotar-se para tributos federais o critério já administrativamente aceito na definição de créditos prioritários. 10) É possível o reconhecimento simultâneo das causas de aumento de pena relativas à continuidade delitiva (art. 71 do CP) e ao grave dano à coletividade (art. 12, I, da Lei 8.137/1990), sem que se configure bis in idem. 11) É possível o deferimento de medida assecuratória contra pessoa jurídica utilizada para fins de ocultação de bens provenientes da prática de crimes previstos na Lei 8.137/1990. 12) Nos crimes do art. 2º, II, da Lei 8.137/1990, é possível a exclusão da culpabilidade por inexigibilidade de conduta diversa se ficar comprovada nos autos a crise financeira da empresa. Edição 174 - DOS CRIMES CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA, ECONÔMICA E CONTRA AS RELAÇÕES DE CONSUMO III 1) A garantia aceita na execução fiscal não possui a natureza jurídica de pagamento do tributo e, portanto, não fulmina a justa causa para a persecução penal dos crimes previstos na Lei 8.137/1990, pois não configura hipótese taxativa de extinção da punibilidade ou de suspensão do processo penal. 2) A existência de recurso administrativo para impugnar auto de infração que noticia emissão de notas fiscais em desacordo com a legislação não obsta o prosseguimento de inquérito policial que investiga a prática de suposto crime descrito no inciso V do art. 1º da Lei8.137/1990 (crime formal), em virtude da independência das instâncias. 3) O crime previsto no art. 2º da Lei 8.137/1990 é de natureza formal e prescinde da constituição definitiva do crédito tributário para sua caracterização. 4) Para a configuração do crime de apropriação indébita tributária (art. 2º, II, da Lei 8.137/1990), basta que o agente deixe de recolher os valores devidos ao fisco de forma CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 37 consciente (dolo genérico), não sendo necessária a comprovação da intenção de causar prejuízo aos cofres públicos (dolo específico). 5) A conduta de não recolher imposto sobre circulação de mercadorias e prestação de serviços - ICMS em operações próprias ou em substituição tributária enquadra-se formalmente no tipo previsto no art. 2º, II, da Lei 8.137/1990 (apropriação indébita tributária), desde que comprovado o dolo de apropriação e a contumácia delitiva. 6) Para a configuração do delito de apropriação indébita tributária (art. 2º, II, da Lei 8.137/1990), o fato de o agente registrar, apurar e declarar, em guia própria ou em livros fiscais, o imposto devido não tem o condão de elidir ou exercer nenhuma influência na prática do delito, pois a clandestinidade não é elementar do tipo. 7) O crime de falsificação de documentos para a liberação das parcelas de financiamento de projetos de desenvolvimento da Amazônia, se realizado unicamente como meio para o crime previsto no art. 2º, IV, da Lei 8.137/1990, é absorvido por ele, ainda que possua pena mais grave. 8) A tipificação do crime de formação de cartel previsto no art. 4º, II, da Lei 8.137/1990 exige a demonstração de que as empresas, por meio de acordos, ajustes ou alianças, objetivam o domínio do mercado. 9) Incide o princípio da insignificância aos crimes tributários federais e de descaminho quando o débito tributário verificado não ultrapassar o limite de R$ 20.000,00 (vinte mil reais), a teor do disposto no art. 20 da Lei 10.522/2002, com as atualizações efetivadas pelas Portarias 75 e 130, ambas do Ministério da Fazenda. 10) Não se estende aos demais entes federados (Estados, Municípios e Distrito Federal) o princípio da insignificância no patamar estabelecido pela União na Lei n. 10.522/2002 previsto para crimes tributários federais, o que somente ocorreria na existência de legislação local específica sobre o tema. Edição 99 - DOS CRIMES CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA, ECONÔMICA E CONTRA AS RELAÇÕES DE CONSUMO II 1) Compete à justiça estadual processar e julgar os crimes contra a ordem econômica previstos na Lei 8.137/1990, salvo se praticados em detrimento do art. 109, IV e VI, da Constituição Federal de 1988. 2) Aplica-se o princípio da consunção ou da absorção quando o delito de falso ou de estelionato (crime-meio) é praticado única e exclusivamente com a finalidade de sonegar tributo (crime-fim). 3) No contexto da chamada “guerra fiscal” entre os estados federados, não se pode imputar a prática de crime contra a ordem tributária ao contribuinte que não se vale de artifícios fraudulentos com o fim de reduzir ou suprimir o pagamento dos tributos e que recolhe o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços - ICMS segundo o princípio da não- cumulatividade. 4) O processo criminal não é a via adequada para a impugnação de eventuais nulidades ocorridas no procedimento administrativo-fiscal. CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 38 5) Eventuais vícios no procedimento administrativo-fiscal, enquanto não reconhecidos na esfera cível, são irrelevantes para o processo penal em que se apura a ocorrência de crime contra a ordem tributária. 6) O pagamento integral do débito tributário, a qualquer tempo, é causa extintiva de punibilidade, nos termos do art. 9º, § 2º, da Lei 10.684/2003. 7) A garantia aceita na execução fiscal não possui natureza jurídica de pagamento da exação, razão pela qual não fulmina a justa causa para a persecução penal. 8) A consumação do crime previsto no parágrafo único do art. 1º da Lei 8.137/1990 ocorre com a simples inobservância à exigência da autoridade fiscal. 9) É indispensável a realização de perícia para a demonstração da materialidade delitiva do crime contra as relações de consumo tipificado no art. 7º, parágrafo único, inciso IX, da Lei 8.137/1990. 10) A malversação dos recursos administrados pela Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia - SUDAM se amolda ao tipo penal previsto no art. 2º, IV, da Lei 8.137/90 e não ao do art. 171, § 3º, do Código Penal. Edição 90 - DOS CRIMES CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA, ECONÔMICA E CONTRA AS RELAÇÕES DE CONSUMO I 1) O expressivo valor do tributo sonegado pode ser considerado fundamento idôneo para amparar a majoração da pena prevista no inciso I do art.12 da Lei 8.137/90. 2) É possível que o magistrado, na sentença, proceda à emendatio libelli, majorando a pena em razão da causa de aumento prevista no art. 12, I, da Lei 8.137/90, quando houver na denúncia expressa indicação do montante do valor sonegado. 3) Nos crimes tributários, o montante do tributo sonegado, quando expressivo, é motivo idôneo para o aumento da pena-base, tendo em vista a valoração negativa das consequências do crime. 4) Os delitos tipificados no art. 1º, I a IV, da Lei 8.137/90 são materiais, dependendo, para a sua consumação, da efetiva ocorrência do resultado. 5) A constituição regular e definitiva do crédito tributário é suficiente à tipificação das condutas previstas no art. 1º, I a IV, da Lei 8.137/90, conforme a SV 24. 6) É possível a aplicação da súmula vinculante 24/STF a fatos ocorridos antes da sua publicação por se tratar de consolidação da interpretação jurisprudencial e não de caso de retroatividade da lei penal mais gravosa. 7) O tipo penal do art. 1º da Lei 8.137/90 prescinde de dolo específico, sendo suficiente a presença do dolo genérico para sua caracterização 8) O prazo prescricional, para os crimes previstos no art. 1º, I a IV, da Lei 8.137/90, inicia- se com a constituição definitiva do crédito tributário. CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 39 9) A constituição regular e definitiva do crédito tributário é suficiente à tipificação das condutas previstas no art. 1º, I a IV, da Lei 8.137/90, de forma que o eventual reconhecimento da prescrição tributária não afeta a persecução penal, diante da independência entre as esferas administrativo-tributária e penal. 10) O delito do art. 1º, inciso V, da Lei 8.137/90 é formal e prescinde do processo administrativo-fiscal para o desencadeamento da persecução penal, não se sujeitando aos termos da súmula vinculante 24 do STF. 11) A competência para processar e para julgar os crimes materiais contra a ordem tributária é do local onde ocorrer a consumação do delito por meio da constituição definitiva do crédito tributário. 12) O parcelamento integral dos débitos tributários decorrentes dos crimes previstos na Lei 8.137/90, em data posterior à sentença condenatória, mas antes do seu trânsito em julgado, suspende a pretensão punitiva estatal até o integral pagamento da dívida (art. 9º da Lei 10.684/03 e art. 68 da Lei 11.941/09). 13) A pendência de ação judicial ou de requerimento administrativo em que se discuta eventual direito de compensação de créditos fiscais com débitos tributários decorrentes da prática de crimes tipificados na Lei 8.137/90 não tem o condão, por si só, de suspender o curso da ação penal, dada a independência das esferas cível, administrativo-tributária e criminal.Penal comum, sujeito, porém, às mesmas regras e princípios vigorantes naquele, e que tem por fim CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 3 proteger a política tributária do Estado, definindo tipos de ilícitos e cominando-lhes a sanção própria do Direito Penal”. DIREITO TRIBUTÁRIO PENAL DIREITO PENAL TRIBUTÁRIO Ramo de Direito Tributário Ramo do Direito Penal Versa sobre a aplicação de sanções extrapenais às condutas ilícitas Versa sobre crimes contra a ordem tributária Punição a título de dolo ou culpa Não há crimes tributários culposos 3. CRIMES CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA Os crimes contra a ordem tributária são divididos da seguinte forma: • Crimes praticados por particulares: artigos 1º e 2º da Lei 8.137/90. • Crimes praticados por funcionários públicos: artigos 3º da Lei 8.137/90. Art. 1° Constitui crime contra a ordem tributária suprimir ou reduzir tributo, ou contribuição social e qualquer acessório, mediante as seguintes condutas: I - omitir informação, ou prestar declaração falsa às autoridades fazendárias; II - fraudar a fiscalização tributária, inserindo elementos inexatos, ou omitindo operação de qualquer natureza, em documento ou livro exigido pela lei fiscal; III - falsificar ou alterar nota fiscal, fatura, duplicata, nota de venda, ou qualquer outro documento relativo à operação tributável; IV - elaborar, distribuir, fornecer, emitir ou utilizar documento que saiba ou deva saber falso ou inexato; V - negar ou deixar de fornecer, quando obrigatório, nota fiscal ou documento equivalente, relativa a venda de mercadoria ou prestação de serviço, efetivamente realizada, ou fornecê-la em desacordo com a legislação. Pena - reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa. Parágrafo único. A falta de atendimento da exigência da autoridade, no prazo de 10 (dez) dias, que poderá ser convertido em horas em razão da maior ou menor complexidade da matéria ou da dificuldade quanto ao atendimento da exigência, caracteriza a infração prevista no inciso V. Art. 2° Constitui crime da mesma natureza: I - fazer declaração falsa ou omitir declaração sobre rendas, bens ou fatos, ou empregar outra fraude, para eximir-se, total ou parcialmente, de pagamento de tributo; II - deixar de recolher, no prazo legal, valor de tributo ou de contribuição social, descontado ou cobrado, na qualidade de sujeito passivo de obrigação e que deveria recolher aos cofres públicos; CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 4 III - exigir, pagar ou receber, para si ou para o contribuinte beneficiário, qualquer percentagem sobre a parcela dedutível ou deduzida de imposto ou de contribuição como incentivo fiscal; IV - deixar de aplicar, ou aplicar em desacordo com o estatuído, incentivo fiscal ou parcelas de imposto liberadas por órgão ou entidade de desenvolvimento; V - utilizar ou divulgar programa de processamento de dados que permita ao sujeito passivo da obrigação tributária possuir informação contábil diversa daquela que é, por lei, fornecida à Fazenda Pública. Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa. Art. 3° Constitui crime funcional contra a ordem tributária, além dos previstos no Decreto-Lei n° 2.848, de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal (Título XI, Capítulo I): I - extraviar livro oficial, processo fiscal ou qualquer documento, de que tenha a guarda em razão da função; sonegá-lo, ou inutilizá-lo, total ou parcialmente, acarretando pagamento indevido ou inexato de tributo ou contribuição social; II - exigir, solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de iniciar seu exercício, mas em razão dela, vantagem indevida; ou aceitar promessa de tal vantagem, para deixar de lançar ou cobrar tributo ou contribuição social, ou cobrá-los parcialmente. Pena - reclusão, de 3 (três) a 8 (oito) anos, e multa. III - patrocinar, direta ou indiretamente, interesse privado perante a administração fazendária, valendo-se da qualidade de funcionário público. Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa. A Lei 8.137/90 ainda prevê crimes contra a ordem econômica e crimes contra as relações de consumo. Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-SC - Promotor - CESPE - 2021): Será aplicada a penalidade de detenção ou multa, conforme a gravidade da conduta, àquele que omitir declaração sobre bens para eximir-se parcialmente de pagamento de tributo. Errado. ARTIGO 1º DA LEI 8.137/90 Art. 1° Constitui crime contra a ordem tributária suprimir ou reduzir tributo, ou contribuição social e qualquer acessório, mediante as seguintes condutas: I - omitir informação, ou prestar declaração falsa às autoridades fazendárias; II - fraudar a fiscalização tributária, inserindo elementos inexatos, ou omitindo operação de qualquer natureza, em documento ou livro exigido pela lei fiscal; III - falsificar ou alterar nota fiscal, fatura, duplicata, nota de venda, ou qualquer outro documento relativo à operação tributável; IV - elaborar, distribuir, fornecer, emitir ou utilizar documento que saiba ou deva saber falso ou inexato; V - negar ou deixar de fornecer, quando obrigatório, nota fiscal ou documento equivalente, relativa a venda de mercadoria ou prestação de http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#titxicapi http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#titxicapi CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 5 serviço, efetivamente realizada, ou fornecê-la em desacordo com a legislação. Pena - reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa. Parágrafo único. A falta de atendimento da exigência da autoridade, no prazo de 10 (dez) dias, que poderá ser convertido em horas em razão da maior ou menor complexidade da matéria ou da dificuldade quanto ao atendimento da exigência, caracteriza a infração prevista no inciso V. O termo “suprimir o tributo” traduz-se na conduta do sujeito que deixa de pagar o valor atribuído ao tributo. Já a expressão “reduzir o tributo” diz respeito ao pagamento inferior do valor correspondente ao tributo. Salienta-se que os crimes do art. 1º pressupõem a supressão ou a redução do tributo, ou seja, são crimes materiais. Em outras palavras, são crimes em que o resultado está inserido no tipo penal. Por exemplo, Antônio cobra R$ 500.000,00 para palestrar em Londres e omite a informação do Estado para não pagar imposto de renda, incorrendo, assim, na conduta prevista no art. 1º, I. Como o tema foi cobrado em concurso? (MP-RJ – Promotor de Justiça – Vunesp – 2024): Considerando os crimes tributários, é correto afirmar que nos termos da Súmula Vinculante 24, o crime descrito no inciso V, do artigo 1º, da Lei no 8.127/90 (negar ou deixar de fornecer nota fiscal) é material, consumando-se somente quando da constituição definitiva do débito tributário e inscrição em dívida ativa. Errado. (MP-RJ – Promotor de Justiça – Vunesp – 2024): Considerando os crimes tributários, é correto afirmar que com exceção do crime previsto no inciso IV, do art. 1º, da Lei no 8.137/90 (elaborar, distribuir, fornecer, emitir ou utilizar documento que saiba ou deva saber falso ou inexato), todos os demais delitos previstos em referida legislação são praticados mediante dolo. Errado. (MP-MT – Promotor – FCC – 2019): Constitui crime contra a ordem tributária suprimir ou reduzir tributo ou contribuição social, não prevendo a Lei n° 8.137/1990, contudo, a tipificação das mesmas condutas quanto aos acessórios. Errado. (PC-SE – Delegado – CEBRASPE – 2018): A respeito de crimes contra a ordem tributária, ações processuais e penas que lhe são correlatas, julgue o próximo item, de acordo com a Lei n.º 8.137/1990 e alterações. A pena privativa de liberdade aplicável ao crime de falsificação de nota fiscal é de seis meses a dois anos, podendo ser convertidaem multa pecuniária. Errado. Em recente decisão, o STJ definiu que a ação fraudulenta, que constitui o Fisco em erro, configura o desvalor da conduta nos crimes tributários do art. 1º da Lei 8.137/1990, o que permite a instauração de inquérito policial sem prévia constituição definitiva do crédito tributário (Inf. 825). A fim de elucidar o entendimento do STJ, o prof. Márcio Cavalcante trouxe um caso hipotético para o estudo: CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 6 Caso hipotético1: uma empresa chamada Carros de Primeira é especializada na venda de veículos de luxo. Ela possui como sócios, João e Regina, que gerenciam as operações. João e Regina, na gestão da empresa, executavam um esquema fraudulento para sonegar impostos na venda dos carros. Eles registrados os veículos em nome de pessoas físicas (“laranjas”) e, ao revendê-los, não pagavam todos os tributos devidos. Além disso, declaravam valores menores do que os realmente praticados nas vendas e não emitiam as notas fiscais. O Delegado instaurou inquérito policial para apurar os crimes previstos no art. 1º, da Lei nº 8.137/90 e nos arts. 299 e 288 do Código Penal (falsidade ideológica e associação criminosa). Os advogados de João e Regina impetraram habeas corpus alegando que a investigação seria ilegal porque o delito do art. 1º, a Lei nº 8.137/90 é crime material e, por essa razão, a tipificação somente poderia ocorrer após o lançamento definitivo do tributo, a teor da Súmula Vinculante nº 24: Não se tipifica crime material contra a ordem tributária, previsto no artigo 1º, incisos I a IV, da Lei nº 8.137/90, antes do lançamento definitivo do tributo. O STJ não concordou com a defesa. Quando realiza-se conduta fraudulenta, que constitui o Fisco em erro, já está configurado o desvalor da conduta dos crimes tributários do art. 1º da Lei nº 8.137/90, já há possibilidade de que se trate de crime de falsidade e já há impossibilidade de fiscalização tributária. Tais aspectos permitem a instauração de inquérito policial sem prévia constituição definitiva do crédito tributário. (...) 3. Quando realiza-se conduta fraudulenta, que constitui o Fisco em erro, já está configurado o desvalor da conduta dos crimes tributários do art. 1º da Lei nº 8.137/90, já há possibilidade de que se trate de crime de falsidade e já há impossibilidade de fiscalização tributária. Tais aspectos permitem a instauração de inquérito policial sem prévia constituição definitiva do crédito tributário. 4. Entendimento em consonância com as exceções apresentadas pelos Tribunais Superiores para a instauração de inquérito policial sem constituição definitiva do crédito tributário. 5. Para aplicação desse entendimento não é necessária a identificação de ato concreto de embaraço à fiscalização tributária que seja diverso das fraudes típicas dos incisos do art. 1º da Lei nº 8.137/90. (...) (AgRg no RHC n. 182.363/GO, relatora Ministra Daniela Teixeira, Quinta Turma, julgado em 10/9/2024, DJe de 17/9/2024.) ARTIGO 2º DA LEI 8.137/90 Art. 2° Constitui crime da mesma natureza: I - fazer declaração falsa ou omitir declaração sobre rendas, bens ou fatos, ou empregar outra fraude, para eximir-se, total ou parcialmente, de pagamento de tributo; 1 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. A ação fraudulenta, que constitui o Fisco em erro, configura o desvalor da conduta nos crimes tributários do art. 1º da Lei 8.137/1990, o que permite a instauração de inquérito policial sem prévia constituição definitiva do crédito tributário. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 29/10/2024 CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 7 II - deixar de recolher, no prazo legal, valor de tributo ou de contribuição social, descontado ou cobrado, na qualidade de sujeito passivo de obrigação e que deveria recolher aos cofres públicos; III - exigir, pagar ou receber, para si ou para o contribuinte beneficiário, qualquer percentagem sobre a parcela dedutível ou deduzida de imposto ou de contribuição como incentivo fiscal; IV - deixar de aplicar, ou aplicar em desacordo com o estatuído, incentivo fiscal ou parcelas de imposto liberadas por órgão ou entidade de desenvolvimento; V - utilizar ou divulgar programa de processamento de dados que permita ao sujeito passivo da obrigação tributária possuir informação contábil diversa daquela que é, por lei, fornecida à Fazenda Pública. Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa. Como o tema foi cobrado em concurso? (PC-PE – Delegado – CEBRASPE – 2024): Constitui mero ilícito administrativo tributário fazer declaração falsa ou omitir declaração sobre rendas, bens ou fatos, ou empregar outra fraude, para eximir-se, total ou parcialmente, de pagamento de tributo. Errado. (MP-SC – Promotor de Justiça – CEBRASPE – 2023): Um contribuinte, por falta de capital de giro e sabendo dos altos juros cobrados por instituições financeiras, adotou a prática de registrar, nos livros contábeis e fiscais, todas as transações comerciais sobre as quais incide o ICMS, declarando ao fisco os referidos tributos como devidos. Entretanto, mesmo já tendo cobrado os valores do consumidor final, não realizou, entre os anos de 2013 a 2015, os recolhimentos na data devida. Considerando essa situação hipotética e as legislações pertinentes, julgue o item subsequente. O contribuinte em questão praticou crime contra a ordem tributária, previsto na Lei n.º 8.137/1990. Correto. O previsto no artigo 2º são os crimes formais praticados por particular. Assim, para a consumação do delito não se exige a produção do resultado. Já a figura do inciso II aproxima-se do art. 168-A do Código Penal (apropriação indébita previdenciária). Tanto que muitos doutrinadores o intitulam de “apropriação indébita tributária”, com natureza de “norma especial”. Assim, tudo o que for aplicado ao artigo 168-A do CP, será também adotado pelo inciso II. Art. 168-A. Deixar de repassar à previdência social as contribuições recolhidas dos contribuintes, no prazo e forma legal ou convencional Pena – reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa. Ressalta-se que no RHC 163.334/SC, julgado em dezembro de 2019, discutiu-se que a conduta do não recolhimento de ICMS próprio se enquadraria ao tipo penal do art. 2º, II, da Lei 8.137/90. Por maioria de votos, o Plenário entendeu que, pelo menos em tese, não há como afastar a tipicidade. No julgamento do RHC 163.334/SC (Rel. Min. Roberto Barroso, j. 11/12/2019), no qual se discutia se a conduta de não recolhimento de ICMS próprio, regularmente escriturado e declarado pelo contribuinte, enquadra-se no tipo penal do art. 2º, II, da Lei n. 8.137/90, concluiu o Plenário do Supremo, CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 8 por maioria, que não haveria como se afastar a tipicidade da referida conduta, pelo menos em tese. No caso concreto, sócios e administradores de uma empresa declararam operações de venda ao Fisco, mas deixaram de recolher o ICMS relativamente a diversos períodos. Para o Relator, Min. Roberto Barroso, três premissas fundamentais seriam fundamentais para o equacionamento da matéria: (i) o Direito Penal deve ser sério, igualitário e moderado; (ii) o pagamento de tributos é dever fundamental de todo cidadão, na medida em que ocorra o fato gerador e ele exiba capacidade contributiva; e (iii) o mero inadimplemento tributário não deve ser tido como fato típico criminal, para que seja reconhecida a tipicidade de determinada conduta impende haver um nível de reprovabilidade especial que justifique o tratamento mais gravoso. Explicitou que o sujeito ativo do crime é o sujeito passivo da obrigação, que, na hipótese do ICMS próprio, é o comerciante. O objeto do delito é o valor do tributo. No caso, a quantia transferida peloconsumidor ao comerciante. O ponto central do dispositivo em apreço é a utilização dos termos “descontado” e “cobrado”. Tributo descontado, não há dúvidas, refere-se aos tributos diretos. Já a expressão “cobrado” abarcaria o contribuinte nos tributos indiretos. Portanto, cobrado significa o tributo que é acrescido ao preço da mercadoria, pago pelo consumidor — contribuinte de fato — ao comerciante, que deve recolhê-lo ao Fisco. O consumidor paga mais caro para que o comerciante recolha o tributo à Fazenda estadual. O ministro salientou que o valor do ICMS cobrado em cada operação não integra o patrimônio do comerciante, que é depositário desse ingresso de caixa. Entendimento coerente com o decidido pelo STF no RE 574.706 (Tema 69 da Repercussão Geral). Oportunidade na qual assentado que o ICMS não integra o patrimônio do sujeito passivo e, consequentemente, não compõe a base de cálculo do PIS e da Cofins. Dessa maneira, a conduta não equivale a mero inadimplemento tributário, e sim à apropriação indébita tributária. A censurabilidade está em tomar para si valor que não lhe pertence. Para caracterizar o tipo penal, a conduta é composta da cobrança do consumidor e do não recolhimento ao Fisco. Ao versar sobre a interpretação teleológica, o ministro observou que são financiados, com a arrecadação de tributos, direitos fundamentais, serviços públicos, consecução de objetivos da República. No país, o ICMS é o tributo mais sonegado e a principal fonte de receita própria dos estados-membros da Federação. Logo, é inequívoco o impacto da falta de recolhimento intencional e reiterado do ICMS sobre o erário. Considerar crime a apropriação indébita tributária produz impacto relevante sobre a arrecadação. Também a livre iniciativa é afetada por essa conduta. Empresas que sistematicamente deixam de recolher o ICMS colocam-se em situação de vantagem competitiva em relação as que se comportam corretamente. No mercado de combustíveis, por exemplo, são capazes de alijar os concorrentes que cumprem suas obrigações. O ministro esclareceu que a oscilação da jurisprudência do STJ afirmando a atipicidade da conduta adversada fez com que diversos contribuintes passassem a declarar os valores devidos, sem recolhê-los. Houve uma “migração” do crime de sonegação para o de apropriação indébita e não é isso que o direito deseja estimular. No tocante às consequências do reconhecimento da tipicidade sobre os níveis de encarceramento no país, aduziu que é virtualmente impossível alguém ser efetivamente preso pelo delito de apropriação indébita tributária. A pena cominada é baixa, portanto, são cabíveis transação penal, suspensão condicional do processo e, em caso de condenação, substituição da pena CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 9 privativa de liberdade por medidas restritivas de direito. Demais disso, é possível a extinção da punibilidade se o sonegador ou quem tenha se apropriado indevidamente do tributo quitar o que devido. Assentada a possibilidade do delito em tese, o relator assinalou que o crime de apropriação indébita tributária não comporta a modalidade culposa. É imprescindível a demonstração do dolo e não será todo devedor de ICMS que cometerá o delito. O inadimplente eventual distingue-se do devedor contumaz, este faz da inadimplência tributária seu modus operandi. O relator consignou que o dolo da apropriação deve ser apurado na instrução criminal, pelo juiz natural da causa, a partir de circunstâncias objetivas e factuais, tais como a inadimplência reiterada, a venda de produtos abaixo do preço de custo, a criação de obstáculos à fiscalização, a utilização de “laranjas”, a falta de tentativa de regularização de situação fiscal, o encerramento irregular de atividades com aberturas de outras empresas. Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-SC - Promotor - CESPE - 2023): Um contribuinte, por falta de capital de giro e sabendo dos altos juros cobrados por instituições financeiras, adotou a prática de registrar, nos livros contábeis e fiscais, todas as transações comerciais sobre as quais incide o ICMS, declarando ao fisco os referidos tributos como devidos. Entretanto, mesmo já tendo cobrado os valores do consumidor final, não realizou, entre os anos de 2013 a 2015, os recolhimentos na data devida. Considerando essa situação hipotética e as legislações pertinentes, julgue o item subsequente. Caso o Ministério Público tome conhecimento da conduta do contribuinte somente em 2023, o prazo para aplicação da sanção penal cabível terá prescrito, de acordo com a legislação pertinente. Correto. (TJ-RS - Juiz - FAURGS - 2022): Segundo o STF, a conduta de deixar de recolher ICMS descontado ou cobrado de terceiro (consumidor final) não constitui crime, se o tributo for devidamente declarado em documentação contábil e fiscal idônea. Errado. Sobre o tipo penal, convém anotar também que o STJ tem entendido que se exige dolo específico: O dolo de não recolher o tributo, de maneira genérica, não é suficiente para preencher o tipo subjetivo do art. 2º, II, da Lei nº 8.137/90. É necessária a presença de uma vontade de apropriação fraudulenta dos valores do Fisco para materializar o elemento subjetivo especial do tipo em comento. Esse ânimo manifesta-se pelo ardil de omitir e/ou alterar os valores devidos e se exclui com a devida declaração da espécie tributária junto aos órgãos de administração fiscal. O não pagamento do tributo por seis meses aleatórios não é circunstância suficiente para demonstrar a contumácia nem o dolo de apropriação. Ou seja, não se identifica, em tais condutas, haver sido a sonegação fiscal o recurso usado pelo empresário para financiar a continuidade da atividade em benefício próprio, em detrimento da arrecadação tributária. STJ. 6ª Turma. HC 569856-SC, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 11/10/2022 (Info 753). CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 10 Para a configuração do delito previsto no art. 2º, II, da Lei nº 8.137/90, deve ser comprovado o dolo específico. Entendimento que segue a posição do STF que exige dolo de apropriação: O contribuinte que deixa de recolher, de forma contumaz e com dolo de apropriação, o ICMS cobrado do adquirente da mercadoria ou serviço incide no tipo penal do art. 2º, II, da Lei nº 8.137/90 (STF. Plenário. RHC 163334, Rel. Roberto Barroso, julgado em 18/12/2019). STJ. 6ª Turma. HC 675289-SC, Rel. Min. Olindo Menezes (Desembargador Convocado do TRF 1ª Região), julgado em 16/11/2021 (Info 718). Verifica-se, porém, que o caso a seguir, o mesmo Tribunal entendeu que é possível se verificar uma presunção relativa a partir da ausência de tentativa de regularização: A denúncia narrou que se deixou de recolher 12 meses de ICMS cobrado dos consumidores e 5 meses de ICMS relativo a operações tributáveis pelo regime de substituição tributária, elementos que podem ser utilizados para caracterizar o dolo de apropriação. Ademais, diante da existência de inúmeros inadimplementos (inscritos em dívida ativa), isso gera a presunção relativa de ausência de tentativa de regularização. Cabe à defesa alegar e demonstrar que foram efetuadas tais tentativas. STJ. 6ª Turma. AgRg no HC 728271-SC, Rel. Min. Antonio Saldanha Palheiro, julgado em 21/06/2022 (Info 742). Como o tema foi cobrado em concurso? (TJ-MG - Juiz - FGV - 2022): Para a configuração do crime disposto no Art. 2º, inciso II, da Lei nº 8.137/1990 (deixar de recolher, no prazo legal, valor de tributo ou de contribuição social, descontado ou cobrado, na qualidade de sujeito passivo de obrigação e que deveria recolher aos cofres públicos), basta que haja dolo genérico, não sendo necessária a comprovação de dolo específico. Errado. ARTIGO 3º DA LEI 8.137/90 Art. 3° Constitui crime funcional contra a ordem tributária, além dos previstos no Decreto-Lei n° 2.848, de 7 dedezembro de 1940 - Código Penal (Título XI, Capítulo I): I - extraviar livro oficial, processo fiscal ou qualquer documento, de que tenha a guarda em razão da função; sonegá-lo, ou inutilizá-lo, total ou parcialmente, acarretando pagamento indevido ou inexato de tributo ou contribuição social; II - exigir, solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de iniciar seu exercício, mas em razão dela, vantagem indevida; ou aceitar promessa de tal vantagem, para deixar de lançar ou cobrar tributo ou contribuição social, ou cobrá-los parcialmente. Pena - reclusão, de 3 (três) a 8 (oito) anos, e multa. III - patrocinar, direta ou indiretamente, interesse privado perante a administração fazendária, valendo-se da qualidade de funcionário público. Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#titxicapi http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#titxicapi CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 11 Como o tema foi cobrado em concurso? (MP-SC – Promotor de Justiça – CONSULPLAN - 2024): Tendo como base as disposições da Lei nº 8.137/1990, julgue o item a seguir. Caso Tício, auditor fiscal da receita federal, patrocine interesse privado perante a administração fazendária, valendo-se da sua qualidade de funcionário público, estará cometendo crime funcional contra a ordem tributária, podendo ser apenado com reclusão, de um a quatro anos, e multa. Correto. Abrange crimes funcionais contra a ordem tributária, além daqueles descritos no Diploma Penal. Atenção: não é qualquer funcionário público que pode praticar esses delitos. Os crimes da Lei 8.137/90 somente podem ser praticados por funcionários públicos fazendários. O inciso II ao descrever “exigir” remete à previsão do crime de concussão do CP. O mesmo acontece com os verbos “solicitar ou receber”, que são elencados no CP em artigo 317 (crime de corrupção passiva). Todavia, a norma do inciso II é especial, eis que é direcionada aos funcionários públicos da área fazendária. Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-SC - Promotor - Instituto Consulplan - 2024): Tendo como base as disposições da Lei nº 8.137/1990, caso Tício, auditor fiscal da receita federal, patrocine interesse privado perante a administração fazendária, valendo-se da sua qualidade de funcionário público, estará cometendo crime funcional contra a ordem tributária, podendo ser apenado com reclusão, de um a quatro anos, e multa. Correto. (MPE-SE - Promotor - CESPE - 2022): O particular que, conjuntamente com um funcionário público, sabendo da condição deste, patrocina diretamente interesse privado perante a administração fazendária pratica crime previsto na Lei n.º 8.137/1990. Correto. (DPE-PA - Defensor - CESPE - 2022): De acordo com a Lei n.º 8.137/1990, o servidor público que, valendo-se de sua qualidade, defender interesse privado perante a administração fazendária cometerá crime funcional contra a ordem tributária, podendo ser punido com a pena de reclusão de um a quatro anos e multa. Correto. (TJ-RS - Juiz - FAURGS - 2022): Empresário emitiu notas subfaturadas com a única finalidade de redução do valor devido a título de ICMS, conduta que perdurou por 7 (sete) meses. Na hipótese, em relação aos crimes de falso (falsidade ideológica) e ao crime contra a ordem tributária, aplicam-se os seguintes institutos consunção e continuidade delitiva. Correto. CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 12 (PGE-AL - Procurador - CESPE - 2021): Nos termos da Lei n.º 8.137/1990 e da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, se determinado comerciante contribuinte de ICMS deixar de recolher o valor desse tributo cobrado do adquirente da mercadoria ou do serviço, tal conduta poderá ser considerada crime, desde que demonstrado o dolo específico de apropriação, bem como a inadimplência sistemática do contribuinte, independentemente da caracterização de fraude. Correto. CRIMES TRIBUTÁRIOS NO CP Nota-se que os crimes contra a ordem tributária não estão apenas abarcados pela Lei 8.137/90, são também verificados nos artigos 168-A, 337-A, 316 § 1º, 334, 318 todos do CP. Art. 168-A. Deixar de repassar à previdência social as contribuições recolhidas dos contribuintes, no prazo e forma legal ou convencional: Pena – reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa. Art. 337-A. Suprimir ou reduzir contribuição social previdenciária e qualquer acessório, mediante as seguintes condutas: I – omitir de folha de pagamento da empresa ou de documento de informações previsto pela legislação previdenciária segurados empregado, empresário, trabalhador avulso ou trabalhador autônomo ou a este equiparado que lhe prestem serviços; II – deixar de lançar mensalmente nos títulos próprios da contabilidade da empresa as quantias descontadas dos segurados ou as devidas pelo empregador ou pelo tomador de serviços; III – omitir, total ou parcialmente, receitas ou lucros auferidos, remunerações pagas ou creditadas e demais fatos geradores de contribuições sociais previdenciárias: Pena – reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa. Art. 316 - Exigir, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida: Pena - reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa. Excesso de exação § 1º - Se o funcionário exige tributo ou contribuição social que sabe ou deveria saber indevido, ou, quando devido, emprega na cobrança meio vexatório ou gravoso, que a lei não autoriza: Pena - reclusão, de 3 (três) a 8 (oito) anos, e multa. Art. 334. Iludir, no todo ou em parte, o pagamento de direito ou imposto devido pela entrada, pela saída ou pelo consumo de mercadoria Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos. Art. 318 - Facilitar, com infração de dever funcional, a prática de contrabando ou descaminho (art. 334): Pena - reclusão, de 3 (três) a 8 (oito) anos, e multa. CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 13 Atenção: é importante que o aluno entenda a sistemática desses crimes, embora seja pouco provável a exigência destes em provas. 4. CRIMES TRIBUTÁRIOS E PRISÃO CIVIL POR DÍVIDA Parcela da doutrina advoga que a criminalização dos delitos tributários seria inconstitucional, porque se trataria de uma verdadeira prisão civil por dívida, flagrantemente incompatível com o artigo 5º, inciso LXVII, da CF/88: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes LXVII - não haverá prisão civil por dívida, salvo a do responsável pelo inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia e a do depositário infiel. Todavia, essa visão não é encampada pelos Tribunais Superiores. A jurisprudência entende que não há qualquer inconstitucionalidade (STF, ARE 999.425, Rel. Ricardo Lewandowski), calcada na opção do legislador em resolver tipificar condutas delituosas. PENAL E CONSTITUCIONAL. CRIMES PREVISTOS NA LEI 8.137/1990. PRISÃO CIVIL POR DÍVIDA. OFENSA AO ART. 5º, LXVII, DA CONSTITUIÇÃO. NÃO OCORRÊNCIA. REPERCUSSÃO GERAL RECONHECIDA. CONFIRMAÇÃO DA JURISPRUDÊNCIA. RECURSO EXTRAORDINÁRIO DESPROVIDO. I - O Tribunal reconheceu a existência de repercussão geral da matéria debatida nos presentes autos, para reafirmar a jurisprudência desta Corte, no sentido de que a os crimes previstos na Lei 8.137/1990 não violam o disposto no art. 5º, LXVII, da Constituição. II - Julgamento de mérito conforme precedentes. III - Recurso extraordinário desprovido. (ARE 999425 RG, Relator(a): RICARDO LEWANDOWSKI, Tribunal Pleno, julgado em 02/03/2017,PROCESSO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL - MÉRITO DJe-050 DIVULG 15-03- 2017 PUBLIC 16-03-2017) 5. BEM JURÍDICO TUTELADO Quanto ao bem jurídico tutelado, existem duas correntes: • 1ª corrente (Patrimonialista): o patrimônio dinâmico da Fazenda Pública/erário público/arrecadação tributária é o bem jurídico tutelado. • 2ª corrente (Funcionalista): defendida por Hugo de Brito Machado, defende que o bem jurídico protegido é a função que o tributo deveria exercer junto à sociedade. Não se CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 14 analisa o dinheiro que deixou de ser arrecadado, mas sim sua destinação. É posição absolutamente minoritária. Os crimes contra a ordem tributária são tratados como verdadeiros crimes patrimoniais (Corrente Patrimonialista). Isso significa dizer que tais crimes admitem a aplicação do Princípio da Insignificância. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA A aplicação do Princípio da Insignificância está condicionada a quatro pressupostos: • Mínima ofensividade da conduta do agente; • Nenhuma periculosidade social da ação; • Reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento; • Inexpressividade da lesão jurídica provocada; Num primeiro momento, o patamar base para aplicação do princípio, em relação aos crimes tributários, era de R$ 100,00 (cem reais), conforme previsão do § 1º do artigo 18 da Lei 10.522/02: Art. 18, § 1o Ficam cancelados os débitos inscritos em Dívida Ativa da União, de valor consolidado igual ou inferior a R$ 100,00 (cem reais) Passados alguns anos, chegou-se ao valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais), conforme artigo 20 da Lei 10.522/02: Art. 20. Serão arquivados, sem baixa na distribuição, mediante requerimento do Procurador da Fazenda Nacional, os autos das execuções fiscais de débitos inscritos como Dívida Ativa da União pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional ou por ela cobrados, de valor consolidado igual ou inferior a R$ 10.000,00 (dez mil reais) De acordo com Renato Brasileiro de Lima, há notável diferença entre os termos “cancelar” e “arquivar”. “Cancelar” remete à ideia, de fato, de insignificância. Outrora, “arquivar” sugere a hipótese de não valer a pena investigar o referido caso. Segundo Brasileiro, não vinga a argumentação de a previsão do artigo 20 suporta a aplicação do princípio da insignificância. Em 2019, com a Lei 13/874, o art. 20 foi modificado e passou a prever o seguinte: Art. 20. Serão arquivados, sem baixa na distribuição, por meio de requerimento do Procurador da Fazenda Nacional, os autos das execuções fiscais de débitos inscritos em dívida ativa da União pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional ou por ela cobrados, de valor consolidado igual ou inferior àquele estabelecido em ato do Procurador-Geral da Fazenda Nacional. Não obstante, o STF adotou posicionamento no sentido de que para que seja considerada “bagatela”, o valor sonegado não deverá ultrapassar R$ 10.000,00 (dez mil reais). CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 15 Atenção: o artigo 20 dispõe sobre dívida ativa da União, ou seja, aos olhos da jurisprudência, esse dispositivo e o respectivo patamar previsto não valem para tributos estaduais e, tampouco, municipais. Não obstante, adveio a Portaria 75/2012 do Ministro da Fazenda que determinou em seu artigo 1º, inciso II: Art. 1º Determinar: I - a não inscrição na Dívida Ativa da União de débito de um mesmo devedor com a Fazenda Nacional de valor consolidado igual ou inferior a R$ 1.000,00 (mil reais); e II - o não ajuizamento de execuções fiscais de débitos com a Fazenda Nacional, cujo valor consolidado seja igual ou inferior a R$ 20.000,00 (vinte mil reais). Esse patamar de R$ 20.000,00 (vinte mil reais) passou a ser utilizado pelo STF e pelo STJ como parâmetro para aplicação do Princípio da Insignificância em crimes contra a ordem tributária e de descaminho: Incide o princípio da insignificância aos crimes tributários federais e de descaminho quando o débito tributário verificado não ultrapassar o limite de R$ 20.000,00 (vinte mil reais), a teor do disposto no art. 20 da Lei n. 10.522/2002, com as atualizações efetivadas pelas Portarias n. 75 e 130, ambas do Ministério da Fazenda. STJ. 3ª Seção. REsp 1688878-SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 28/02/2018 (recurso repetitivo). STF. 2ª Turma. HC 155347/PR, Rel. Min. Dias Tóffoli, julgado em 17/4/2018 (Info 898). Entretanto, a 1ª Turma do STF tem decidido em sentido contrário: Não é possível a aplicação do princípio da insignificância aos crimes tributários de acordo com o montante definido em parâmetro estabelecido para a propositura judicial de execução fiscal. STF. 1ª Turma. HC-AgR 144.193-SP, Rel. Min. Alexandre de Moraes, julgado em 15/04/2020. Ressalta-se, ao final, que nos casos de reiteração delituosa não se admite a aplicação do princípio da insignificância, nos termos do julgado abaixo: A reiteração da conduta delitiva obsta a aplicação do princípio da insignificância ao crime de descaminho - independentemente do valor do tributo não recolhido -, ressalvada a possibilidade de, no caso concreto, se concluir que a medida é socialmente recomendável. STJ. 3ª Seção. REsps 2.083.701-SP, 2.091.651-SP e 2.091.652-MS, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 28/2/2024 (Recurso Repetitivo – Tema 1218) (Info 802). Como o tema foi cobrado em concurso? (PC-AM - Delegado - FGV - 2022): Durante a investigação das atividades desenvolvidas por determinado grupo na gestão de uma pessoa jurídica, Frigga foi identificada por ter realizado a supressão de tributo estadual, qual seja, o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços, no valor de R$ 11.670,00, incidindo na regra do Art. 1º, CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 16 inciso II, c/c. o Art. 11, ambos da Lei nº 8.137/90. Para tanto, Frigga inseriu elementos inexatos em livro exigido pela lei fiscal, durante os meses de janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho, julho, agosto, setembro, outubro, novembro e dezembro de 2020. O débito do ICMS de R$ 11.670,00 corresponde ao total do ano de 2021, sendo apurado em circunstância única, conforme Auto de Infração e Imposição de Multa, gerando apenas uma certidão de dívida ativa. Diante da hipótese é correto afirmar que não há crime tributário, pois o débito está abaixo do mínimo para execução fiscal e não há reiteração criminosa. Correto. (PC-RJ - Delegado - CESPE - 2022): Ao assumir a titularidade da Delegacia de certo município no interior do estado do Rio de Janeiro, o delegado Tibúrcio percebe a existência de um inquérito policial instaurado para a investigação de crime de sonegação tributária de imposto municipal. Verifica, ainda, que o valor sonegado é ínfimo, embora haja a incidência de multa e juros. Assim, o Delegado passa a deliberar sobre a possível incidência do princípio da insignificância. Nessa situação hipotética, para chegar à conclusão correta, o delegado deverá considerar que, consoante a jurisprudência do STF e do STJ, o princípio da insignificância é aplicável aos tributos de todos os entes federativos, desde que haja norma estadual ou municipal estabelecendo os parâmetros de aferição, desconsiderados os juros e a multa. Correto. (MPE-RS - Promotor - MPE-RS - 2021): Conforme o entendimento dominante no âmbito do Superior Tribunal de Justiça, o princípio da insignificância penal não é aplicável à sonegação fiscal ocorrida no âmbito estadual. Errado. (MPE-RJ - Promotor – Vunesp - 2024): Nos crimes tributários, dada a natureza do bem jurídico protegido, inaplicável o princípio da insignificância. Errado. (MPE-MG - Promotor – IBGP - 2024): É inaplicável o princípio da insignificância aos crimes tributários, independentemente do valor do tributo suprimido ou reduzido em razão das condutas praticadas pelos agentes, ainda que a Advocacia Pública não ajuíze ação deexecução fiscal para cobrança do crédito tributário devido. Errado. 6. COMPETÊNCIA CRIMINAL COMPETÊNCIA DE JUSTIÇA Para definir a competência de justiça dos crimes contra a ordem tributária, deve-se analisar a natureza do tributo. CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 17 Se o tributo é federal, a competência será da Justiça Federal. Se o tributo é estadual ou municipal, a competência será da Justiça Estadual. Vide artigo 109, inciso IV, da CF/88: Art. 109. Aos juízes federais compete processar e julgar IV - os crimes políticos e as infrações penais praticadas em detrimento de bens, serviços ou interesse da União ou de suas entidades autárquicas ou empresas públicas, excluídas as contravenções e ressalvada a competência da Justiça Militar e da Justiça Eleitoral. COMPETÊNCIA TERRITORIAL À luz do artigo 70 do CPP, a competência territorial é determinada com base no local de consumação do delito: Art. 70. A competência será, de regra, determinada pelo lugar em que se consumar a infração, ou, no caso de tentativa, pelo lugar em que for praticado o último ato de execução. Portanto, em regra, o CPP acolheu a teoria do resultado, considerando como lugar do crime o local onde o delito se consumiu (crime consumado) ou onde foi praticado o último ato de execução (no caso de crime tentado), nos termos do art. 70 do CPP. Nessa perspectiva, os crimes do artigo 1º da Lei 8.137/90 se darão no local da supressão ou redução do tributo. Todavia, a jurisprudência tem entendido que, no que concerne à competência territorial, notadamente em relação aos crimes materiais descritos no artigo 1º da Lei 8.137/90, será a competência determinada com base no local do lançamento definitivo, porque é exatamente a partir desse momento que o Estado pode desencadear a persecução penal. Conforme o disposto no enunciado n.24 da Súmula vinculante do STF, os delitos contra ordem tributária no art. 1º e incisos da Lei 8.137/1990 consumam-se no momento da constituição do crédito tributário. 2. Não se deve, assim, confundir o momento consumativo da sonegação fiscal com aquele em que a fraude é praticada, máxime quando se tem em conta que não há tipicidade do delito antes do lançamento definitivo do crédito tributário. 3. Com isso em mente, a jurisprudência desta Corte assentou-se no sentido de que, “tratando-se de crime material contra a ordem tributária (art. 1º da Lei n.8.137/1990), a competência para processar e julgar o delito é do local onde houver ocorrido a sua consumação, por meio da constituição definitiva do crédito tributário, sendo irrelevante a mudança de domicílio fiscal do contribuinte” (...) No caso em apreço, embora a empresa investigada tivesse domicílio em Barueri/SP no momento em que a fraude foi cometida (2005 e 2006), na data da constituição do crédito tributário, em setembro/2010, já havia transferido seu domicílio fiscal para o Estado do Rio de Janeiro desde novembro/2009. Tem-se, assim, que, no momento da consumação do criem, seja dizer, no momento da constituição do crédito tributário, a empresa investigada já possuía domicílio fiscal no Estado do Rio de Janeiro, sendo esse o local que fixa a competência para a condução do presente inquérito policial e de eventual ação penal daí decorrente. (STJ, 3ª Seção, CC 144.872, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, j. 25/02/2016). CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 18 Como caiu na prova oral para Juiz Substituto do TJSP: “Sobre os crimes tributários e a discussão da consumação do crime, seria no local da sede da empresa ou onde se consuma o lançamento?". 7. FISCALIZAÇÃO TRIBUTÁRIA INVIOLABILIDADE DOMICILIAR Observa-se o art. 195 do CTN: Art. 195. Para os efeitos da legislação tributária, não têm aplicação quaisquer disposições legais excludentes ou limitativas do direito de examinar mercadorias, livros, arquivos, documentos, papéis e efeitos comerciais ou fiscais, dos comerciantes industriais ou produtores, ou da obrigação destes de exibi-los O ingresso do Fisco em domicílio alheio pressupõe autorização judicial, sob pena de ilicitude. Sem que ocorra qualquer das situações excepcionais taxativamente previstas no texto constitucional (art. 5º, XI), nenhum agente público, ainda que vinculado à administração tributária do Estado, poderá, contra a vontade de quem de direito (“invito domino”), ingressar, durante o dia, sem mandado judicial, em espaço privado não aberto ao público onde alguém exerce sua atividade profissional, sob pena de a prova resultante da diligência de busca e apreensão assim executada reputar-se inadmissível, porque impregnada de ilicitude material. (...) O atributo da auto-executoriedade dos atos administrativos, que traduz expressão concretizadora do “privilége du préalable”, não prevalece sobre a garantia constitucional da inviolabilidade domiciliar, ainda que se cuide de atividade exercida pelo Poder Público em sede de fiscalização tributária. (STF, 2ª Turma, HC 103.325/RJ, Rel. Min. Celso de Mello, j. 03/04/2012). (IN)CONSTITUCIONALIDADE DA TRANSFERÊNCIA DIRETA DE INFORMAÇÕES DAS ENTIDADES BANCÁRIAS AOS ÓRGÃOS DE FISCALIZAÇÃO TRIBUTÁRIA Os bancos têm o dever de conhecer seu cliente. Nesse sentido, devem comunicar o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) ao constatar atitudes suspeitas. Isto posto, a Lei Complementar 105/01 traz em seu artigo 5º a seguinte previsão: Art. 5o O Poder Executivo disciplinará, inclusive quanto à periodicidade e aos limites de valor, os critérios segundo os quais as instituições financeiras informarão à administração tributária da União, as operações financeiras efetuadas pelos usuários de seus serviços. CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 19 Art. 6o As autoridades e os agentes fiscais tributários da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios somente poderão examinar documentos, livros e registros de instituições financeiras, inclusive os referentes a contas de depósitos e aplicações financeiras, quando houver processo administrativo instaurado ou procedimento fiscal em curso e tais exames sejam considerados indispensáveis pela autoridade administrativa competente. Durante anos, houve questionamento quanto à constitucionalidade desses dispositivos. Parte da doutrina sustentava a inconstitucionalidade dos artigos 5º e 6º da Lei Complementar 105/01, porquanto o banco não poderia atravessar informações à Fazenda sem antes possuir autorização judicial, sob pena de violar o sigilo bancário e a vida privada (essa orientação não foi aderida pelo STF). O STF apreciou diversas ADIs e entendeu que haveria violação à intimidade e à vida privada se as informações bancárias fossem tornadas públicas. Contudo, não há, em qualquer momento, publicidade das referidas. O que acontece é a mera transferência de informações, de modo que o Fisco continua obrigado a manter o sigilo quanto a essas. Os artigos 5º e 6º da Lei Complementar nº 105/2001 (...) consagram, de modo expresso, a permanência do sigilo das informações bancárias obtidas com espeque em seus comandos, não havendo neles autorização para a exposição ou circulação daqueles dados. Trata-se de uma transferência de dados sigilosos de um determinado portador, que tem o dever de sigilo, para outro, que mantém a obrigação de sigilo, permanecendo resguardadas a intimidade e a vida privada do correntista, exatamente como determina o art. 145, §1º, da Constituição Federal. (STF, Pleno, ADI 2.859/DF, Rel. Min. Dias Toffoli, j. 24/02/2016). Salienta-se que o envio da notitia criminis, inclusive com os dados bancários, para a polícia e para o MP, independe de autorização judicial. O próprio ordenamento jurídico impõe a obrigação. HABEAS CORPUS. TRÂMITE CONCOMITANTE COM RECURSO EM HABEAS CORPUS. CONHECIMENTO DO WRIT. ESTÁGIO PROCESSUAL MAIS AVANÇADO. LIMINAR DEFERIDA. CRIME CONTRAA ORDEM TRIBUTÁRIA. TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL. ILICITUDE DA PROVA EMBASADORA DA DENÚNCIA. COMPARTILHAMENTO DOS DADOS BANCÁRIOS OBTIDOS PELA RECEITA FEDERAL COM O MINISTÉRIO PÚBLICO. 1. Embora tenha chegado ao Superior Tribunal de Justiça o RHC n. 93.868, interposto pelos ora pacientes contra o mesmo acórdão atacado neste habeas corpus, o recurso, meio adequado para impugnar o julgado do Tribunal Regional Federal, estava em estágio processual menos avançado que o writ, o qual foi processado com medida liminar deferida. 2. É imperiosa a necessidade de alinhamento da jurisprudência dos tribunais nacionais a fim de preservar a segurança jurídica, bem como afastar a excessiva litigiosidade na sociedade e a morosidade da Justiça. 3. O entendimento de que é incabível o uso da chamada prova emprestada do procedimento fiscal em processo penal, tendo em vista que a obtenção da prova (a quebra do sigilo bancário) não conta com autorização judicial contraria a jurisprudência consolidada do Supremo Tribunal Federal de que é possível a utilização de CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 20 dados obtidos pela Secretaria da Receita Federal, em regular procedimento administrativo fiscal, para fins de instrução processual penal. 4. No caso, não há falar em ilicitude das provas que embasam a denúncia contra os pacientes, porquanto, assim como o sigilo é transferido, sem autorização judicial, da instituição financeira ao Fisco e deste à Advocacia-Geral da União, para cobrança do crédito tributário, também o é ao Ministério Público, sempre que, no curso de ação fiscal de que resulte lavratura de auto de infração de exigência de crédito de tributos e contribuições, se constate fato que configure, em tese, crime contra a ordem tributária (Precedentes do STF). 5. Ordem denegada. Liminar cassada. (HC 422.473/SP, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 20/03/2018, DJe 27/03/2018). Importante consignar que quanto a prévia necessidade de autorização para o compartilhamento de dados, em 2019, Dias Toffoli, determinou singularmente, a suspensão de todos os processos e julgamentos que foram iniciados sem a participação do Judiciário. Contudo, o Plenário do STF revogou tal decisão. Consoante Renato Brasileiro, especificamente quanto à (des)necessidade de prévia autorização judicial para o compartilhamento de dados fiscais e bancários de contribuintes pelos órgãos de fiscalização e controle (v.g., Receita e Coaf – UIF) para fins penais, é de todo relevante destacar que, em data de 15 de julho de 2019, após o ingresso do Senador na condição de amicus curiae (CPC, art. 1.038, I) no RE 1.055.941, no qual havia sido reconhecida repercussão geral acerca da matéria, o Presidente do STF determinou, singularmente, a suspensão do processamento de todos os processos judiciais, inquéritos e procedimentos de investigação criminal que foram instaurados à míngua de supervisão do Judiciário e de sua prévia autorização sobre os dados compartilhados pelos órgãos de fiscalização e controle, que vão além da identificação dos titulares das operações bancárias e dos montantes globais, consoante decidido pela Corte (v.g., ADIs 2.386, 2.390, 2.397 e 2.859). Restou consignado que a contagem do prazo da prescrição ficaria suspensa, conforme já decidido no RE 966.177RG-QO. Ocorre que, por ocasião da apreciação da matéria pelo Plenário da Suprema Corte (RE 1.055.941/SP, Rel. Min. Alexandre de Moraes, j. 27/11/2019), o colegiado entendeu, acertadamente, que não há nenhuma inconstitucionalidade ou ilegalidade no compartilhamento entre Receita (e Unidade de Inteligência Financeira, antigo Coaf) e Ministério Público das provas e dados imprescindíveis à conformação e ao lançamento do Tributo, independentemente de prévia autorização judicial. Logo, se a Receita, após a conclusão de procedimento administrativo e constituição do débito tributário, encaminhar, ao Ministério Público, Representação Fiscal Para Fins Penais (RFFP), com dados regularmente obtidos no curso da fiscalização e remetidos em caráter sigiloso, é perfeitamente possível que o Parquet ofereça denúncia contra os investigados, por exemplo, em virtude de supostos crimes contra a ordem tributária, sem que se possa objetar a existência de provas ilícitas em face da ausência de prévia autorização judicial. Na ocasião, o Colegiado também revogou a tutela provisória anteriormente concedida pelo Min. Dias Toffoli. Assim, foi fixada a seguinte tese pelo STF: É constitucional o compartilhamento dos relatórios de inteligência financeira da UIF e da íntegra do procedimento fiscalizatório da Receita Federal do Brasil (RFB), que define o lançamento do tributo, com os órgãos de CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 21 persecução penal para fins criminais, sem a obrigatoriedade de prévia autorização judicial, devendo ser resguardado o sigilo das informações em procedimentos formalmente instaurados e sujeitos a posterior controle jurisdicional; 2. O compartilhamento pela UIF e pela RFB, referente ao item anterior, deve ser feito unicamente por meio de comunicações formais, com garantia de sigilo, certificação do destinatário e estabelecimento de instrumentos efetivos de apuração e correção de eventuais desvios. STF. Plenário. RE 1055941/SP, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 4/12/2019 (repercussão geral – Tema 990) (Info 962). Assim, com base no entendimento acima descrito, ficou pacificado que cabe a UIF (COAF), compartilhar os Relatórios de Inteligência Financeira (RIF) com os órgãos de persecução penal mesmo sem autorização judicial. Mas surgiu a seguinte questão: Os órgãos de persecução penal podem requisitar diretamente os RIFs da UIF (COAF) sem autorização judicial? Usando das palavras do prof. Márcio Cavalcante, segue a explicação para essa questão2. A sexta turma do STJ decidiu a matéria da seguinte forma (RHC 147.707-PA - Info 784): Não é possível que autoridade policial ou o MP possam requisitar diretamente ao COAF/UIF o envio dos relatórios de inteligência financeira sem autorização judicial. Deixando mais claro: • a UIF pode compartilhar os RIFs com os órgãos de persecução penal mesmo sem autorização judicial; • os órgãos de persecução penal não podem requisitar diretamente os RIFs da UIF sem autorização judicial. Contudo, o STF cassou esse acórdão do STJ e determinou que outro seja proferido. Isso porque, para o STF, não é válido esse distinguish realizado pela Sexta Turma. Pela análise do inteiro teor do acórdão do RE 1.055.491/SP, que originou o verbete do Tema 990/RG, percebe-se claramente que o Supremo Tribunal Federal declarou constitucional o compartilhamento de dados entre o Coaf e as autoridades de persecução penal, sem necessidade de prévia autorização judicial, também em casos em que o relatório tenha sido solicitado pela autoridade. Por essa razão, o acórdão proferido pela Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça foi cassado, para que outro seja proferido em observância ao decidido no Tema 990/RG pelo STF. Por outro lado, houve uma decisão recente da 2ª Turma do STF (RE 1.393.219) em entendimento que fez uma distinção ao da 1ª Turma: 2 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Sem autorização judicial, é lícita a solicitação de relatórios de inteligência financeira feita pela autoridade policial ao COAF (atual UIF). Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 30/10/2024 CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 22 O ministro Edson Fachin, acompanhado pelos demais membros da 2ª Turma, decidiu que o Ministério Público não pode requisitar diretamente à Receita Federal dados para subsidiar investigação criminal sem autorização judicial (STF. 2ª Turma. RE 1393219, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 02/07/2024). Assim, temosuma distinção importante no STF: STF Entendimento STF. 1ª Turma. RCL 61944/PA, Rel. Min. Cristiano Zanin, julgado em 02/04/2024. Entende que o compartilhamento de dados entre o Coaf e as autoridades de persecução penal é constitucional, mesmo quando solicitado pelas autoridades, sem necessidade de prévia autorização judicial. STF. 2ª Turma. RE 1.393.219, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 02/07/2024. Interpreta que a requisição direta de dados fiscais pelo Ministério Público sem autorização judicial não está abarcada pela decisão do Tema 990. Portanto, a decisão da 2ª Turma enfatiza que o que foi autorizado no Tema 990 foi: • O compartilhamento de procedimentos fiscalizatórios em curso na Receita Federal (representações fiscais para fins penais). • O compartilhamento dos relatórios de inteligência financeira da UIF (RIFs). Mas não autorizou: • Que o Ministério Público requisitasse diretamente dados bancários ou fiscais para fins de investigação ou ação penal sem autorização judicial prévia. Por outro lado, a 1ª Turma definiu que: • É constitucional o compartilhamento de dados entre o Coaf e as autoridades de persecução penal, sem necessidade de prévia autorização judicial, também em casos em que o relatório tenha sido solicitado pela autoridade. Ainda, é importante ressaltar outro entendimento do STJ sobre a obrigação bancos a fornecer dados cadastrais de clientes sem autorização judicial. A Corte Especial, decidiu no REsp nº 1955981 em 04/09/2024 por 6 votos a 5, que: • O Ministério Público pode obrigar bancos a fornecer dados cadastrais de clientes sem autorização judicial. • Dados como número de conta corrente, nome completo, RG, CPF, telefone e endereço não são considerados sigilosos ou sensíveis. • O acesso a esses dados não está sujeito ao controle jurisdicional prévio. CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 23 • A solicitação deve ter finalidade delimitada, com hipóteses legais específicas e possibilidade de controle posterior pelo Judiciário. Sendo importante observar, que essa decisão se baseia em entendimento prévio do STF e em leis relacionadas aos crimes de lavagem de dinheiro e organizações criminosas. Ao passo que a decisão do STJ se refere especificamente a dados cadastrais, não a dados bancários ou fiscais mais detalhados. Por fim, decidiu o STF, em sede de controle abstrato de constitucionalidade, que são constitucionais as regras de convênio do Confaz que obrigam as instituições financeiras a fornecer aos Estados informações sobre pagamentos e transferências feitos por clientes em operações eletrônicas em que haja recolhimento do ICMS: São constitucionais — pois não violam o princípio da reserva legal nem os direitos fundamentais à intimidade, à privacidade e ao sigilo de dados pessoais (art. 5º, X e XII, CF/88) — normas editadas pelo Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) que obrigam instituições financeiras a fornecerem aos estados informações relacionadas às transferências e aos pagamentos realizados por clientes em operações eletrônicas com recolhimento do ICMS (como “pix” e cartões de débito e crédito). STF. Plenário. ADI 7.276/DF, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 09/09/2024 (Info 1149). 8. SUJEITOS DOS CRIMES DOS ARTIGOS 1º E 2º DA LEI 8.137/90 SUJEITO ATIVO Alguns doutrinadores (Hugo de Brito Machado) sustentam que os crimes dos artigos 1º e 2º da Lei 8.137/90 são crimes comuns, ou seja, podem ser praticados por qualquer pessoa. Luiz Regis Prado e Renato Brasileiro de Lima, por sua vez, defendem o caráter de crimes próprios, porquanto o próprio delito exige a qualidade especial de ser sujeito passivo da obrigação tributária. Vide artigos 11 da Lei 8.137/90 e 121 do CTN: Art. 11. Quem, de qualquer modo, inclusive por meio de pessoa jurídica, concorre para os crimes definidos nesta lei, incide nas penas a estes cominadas, na medida de sua culpabilidade Art. 121. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária. Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal diz-se: I - contribuinte, quando tenha relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador; II - responsável, quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua obrigação decorra de disposição expressa de lei. CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 24 (IM)POSSIBILIDADE DE RESPONSABILIZAÇÃO PENAL DA PESSOA JURÍDICA PELA PRÁTICA DE CRIMES CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA Segmento da doutrina (Cezar Roberto Bitencourt) afirma que a CF/88 autoriza a responsabilização penal da pessoa jurídica, por meio da norma contida no artigo 173, § 5º: Art. 173, § 5º A lei, sem prejuízo da responsabilidade individual dos dirigentes da pessoa jurídica, estabelecerá a responsabilidade desta, sujeitando-a às punições compatíveis com sua natureza, nos atos praticados contra a ordem econômica e financeira e contra a economia popular. A legislação infraconstitucional, todavia, não prevê essa possibilidade. Desse modo, a sistemática dos crimes contra a ordem tributária permite, apenas, a responsabilização penal das pessoas físicas. DENÚNCIA GENÉRICA Um dos notáveis problemas que circundam os crimes tributários é a denominada “denúncia genérica”. Os crimes tributários são considerados “crimes de gabinete”, isto é, crimes praticados por pessoas físicas que se valem do manto protetor de uma pessoa jurídica. Para Luís Flávio Gomes, “denúncia genérica é a que deixa de apontar claramente a conduta praticada pelos agentes envolvidos no crime. Há ausência de individualização das condutas. Relaciona-se com crimes praticados por mais de uma pessoa, sendo exemplo os crimes societários”. Durante muitos anos, a denúncia genérica era admitida exatamente por conta da dificuldade em estabelecer qual era a pessoa física responsável pela gerência da sociedade. Assim, analisava- se o contrato social da empresa e verificava-se qual o sócio majoritário para então responsabilizá- lo. Atualmente, essa denúncia não é mais admitida, porque os Tribunais Superiores entendem que se não for individualizada a conduta de cada um dos denunciados haverá evidente violação ao princípio da ampla defesa. Nos crimes contra a ordem tributária a ação penal é pública. Quando se trata de crime societário, a denúncia não pode ser genérica. Ela deve estabelecer o vínculo do administrador ao ato ilícito que lhe está sendo imputado. É necessário que descreva, de forma direta e objetiva, a ação ou omissão da paciente. Do contrário, ofende os requisitos do CPP, art. 41 e os Tratados Internacionais sobre o tema. Igualmente, os princípios constitucionais de ampla defesa e do contraditório. Denúncia que imputa corresponsabilidade e não descreve a responsabilidade de cada agente, é brasileiro é o pessoal (subjetivo). A autorização pretoriana de denúncia genérica para os crimes de autoria coletiva não pode servir de escudo retórico para a não descrição mínima da participação de cada agente na conduta delitiva. Uma coisa é a desnecessidade de pormenorizar. Outra, é a ausência absoluta de vínculo do CS - CRIMES TRIBUTÁRIOS - 2025.1 25 fato descrito com a pessoa do denunciado. Habeas deferido. (STF, 2ª Turma, HC 80.549/SP, Rel. Min. Nelson Jobim, DJ 24/08/2001). Como o tema foi cobrado em concurso? (PF - Delegado - CESPE - 2021): A teoria do domínio do fato permite, isoladamente, que se faça uma acusação pela prática de crimes complexos, como o de sonegação fiscal, sem a descrição da conduta. Errado. SUJEITO PASSIVO É o sujeito ativo da obrigação tributária (Luiz Regis Prado), ou seja, a pessoa jurídica de direito público que seria titular da competência para exigir o cumprimento da obrigação, vide artigo 119 do CTN: Art. 119. Sujeito ativo da obrigação é a pessoa jurídica de direito público,