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Revisada Atualizada Ampliada Edição 2025.1 L e i d e DROGAS CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 1 LEI 11.343/2006 - LEI DE DROGAS APRESENTAÇÃO................................................................................................................................ 3 LEI DE DROGAS - 11.343/2006 ......................................................................................................... 4 1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS ....................................................................................................... 4 2. OBJETIVIDADE JURÍDICA .......................................................................................................... 5 3. OBJETO MATERIAL .................................................................................................................... 5 4. SUJEITO ATIVO ........................................................................................................................... 6 5. SUJEITO PASSIVO ...................................................................................................................... 6 6. ELEMENTO SUBJETIVO ............................................................................................................. 7 7. CRIMES DE PERIGO ABSTRATO .............................................................................................. 7 8. AÇÃO PENAL ............................................................................................................................... 7 9. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA .............................................................................................. 7 10. PORTE E CULTIVO PARA CONSUMO PESSOAL ................................................................ 9 PREVISÃO LEGAL ............................................................................................................... 9 ATUAL ENTENDIMENTO DO STF .................................................................................... 10 FUGA DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE .................................................................. 12 CONSUMO PESSOAL X USO PRÓPRIO ......................................................................... 12 PRINCÍPIO DA ALTERIDADE ............................................................................................ 13 NATUREZA JURÍDICA ....................................................................................................... 13 CRITÉRIOS PARA DIFERENCIAÇÃO COM O TRÁFICO ................................................ 15 PENAS ................................................................................................................................. 16 PRESCRIÇÃO ..................................................................................................................... 19 RITO PROCESSUAL .......................................................................................................... 20 11. ART. 33 - TRÁFICO DE DROGAS ......................................................................................... 20 CONSIDERAÇÕES INICIAIS.............................................................................................. 20 SUJEITO ATIVO ................................................................................................................. 21 ELEMENTO NORMATIVO .................................................................................................. 22 FLAGRANTE PREPARADO ............................................................................................... 22 DOSIMETRIA DA PENA ..................................................................................................... 23 11.5.1. Pena privativa de liberdade ......................................................................................... 23 11.5.2. Pena de multa .............................................................................................................. 23 CAUSA DE DIMINUIÇÃO DE PENA .................................................................................. 24 11.6.1. Previsão legal ............................................................................................................... 24 11.6.2. Vedação de penas restritivas de direitos .................................................................... 25 11.6.3. Tráfico privilegiado X Crime Hediondo ........................................................................ 25 11.6.4. Requisitos cumulativos ................................................................................................ 26 11.6.5. Diminuição da pena e quantidade da droga................................................................ 27 11.6.6. Exercício de atividade criminosa ................................................................................. 29 11.6.7. “Mulas” do tráfico ......................................................................................................... 29 11.6.8. Causa de diminuição e histórico de ato infracional ..................................................... 30 FIGURAS EQUIPARADAS ................................................................................................. 32 11.7.1. Inciso I .......................................................................................................................... 32 11.7.2. Inciso II ......................................................................................................................... 34 11.7.3. Inciso III ........................................................................................................................ 37 11.7.4. Inciso IV ........................................................................................................................ 37 12. INDUZIMENTO, INSTIGAÇÃO OU AUXÍLIO AO USO INDEVIDO DE DROGAS................ 38 13. CEDENTE EVENTUAL ........................................................................................................... 39 14. ART. 34 - MAQUINISMO E OBJETOS DESTINADOS AO TRÁFICO .................................. 40 CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 2 FINALIDADE DO TIPO PENAL .......................................................................................... 41 OBJETO MATERIAL ........................................................................................................... 41 CONFLITO DE NORMAS COM O ART. 33, CAPUT, E PRINCÍPIO DA CONSUNÇÃO .. 41 CONCURSO DE CRIMES: ART. 33, CAPUT E ART. 34 .................................................. 42 15. ART. 35 - ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO ........................................................................ 44 INADMISSIBILIDADE DE TENTATIVA .............................................................................. 44 OUTRAS FORMAS DE ASSOCIAÇÃO .............................................................................. 44 REITERAÇÃO NA INTENÇÃO DE COMETER CRIMES .................................................. 44 CONCURSO DE CRIMES .................................................................................................. 45 16. ART. 36 - FINANCIAMENTO AO TRÁFICO .......................................................................... 45 FINANCIAMENTO OU CUSTEIO SEM TRÁFICO ............................................................. 45 AUTOFINANCIAMENTO E ART. 40, VII, DA LD ............................................................... 46 17. ART. 37 - INFORMANTE COLABORADOR .......................................................................... 47 COLABORADOR FUNCIONÁRIO PÚBLICO ..................................................................... 48 ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO E SUBSIDIARIEDADE ............................................... 48 18. CAUSAS DE AUMENTO DA PENA ....................................................................................... 48 APLICABILIDADE ...............................................................................................................112 da LEP, expressando que o tráfico privilegiado não é crime hediondo e nem equiparado: 6 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Tráfico privilegiado não é hediondo (cancelamento da Súmula 512-STJ). Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 15/03/2024. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 26 Art. 112, § 5º Não se considera hediondo ou equiparado, para os fins deste artigo, o crime de tráfico de drogas previsto no § 4º do art. 33 da Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006. Ressalta-se, todavia, que a Lei 13.964/2019, ao promover alterações na Lei de Execução Penal, apenas afastou o caráter hediondo ou equiparado do tráfico privilegiado (art. 33, § 4º, da Lei 11.1343/2006), nada dispondo sobre os demais dispositivos da Lei de Drogas, de modo que a equiparação do tráfico de drogas a delitos hediondos decorre da previsão constitucional contida no art. 5º, XLIII, da Constituição Federal. As alterações providas pelo Pacote Anticrime (Lei nº 13.964/2019) apenas afastaram o caráter hediondo ou equiparado do tráfico privilegiado, previsto no art. 33, § 4º, da Lei nº 11.343/2006, nada dispondo sobre os demais dispositivos da Lei de Drogas. STJ. 5ª Turma. AgRg no HC 748.033-SC, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 27/09/2022 (Info 754). A Lei nº 13.964/2019, ao promover alterações na Lei de Execução Penal, apenas afastou o caráter hediondo ou equiparado do tráfico privilegiado (art. 33, § 4º, da Lei nº 11.1343/2006), nada dispondo sobre os demais dispositivos da Lei de Drogas. STJ. 5ª Turma. AgRg no HC 754.913-MG, Rel. Ministro Jorge Mussi, julgado em 6/12/2022 (Info 760). 11.6.4. Requisitos cumulativos Para que o tráfico privilegiado seja reconhecido, é necessário o preenchimento de 4 requisitos, quais sejam: 1) O agente deve ser primário; 2) O agente deve possuir bons antecedentes; 3) O agente não pode se dedicar a atividades criminosas; 4) O agente não pode integrar organização criminosa. São requisitos cumulativos. Logo, caso o agente não preencha algum não poderá ser beneficiado, conforme determinou o STJ: STJ - Tese 22: A causa de diminuição de pena prevista no § 4º do art. 33 da Lei de Drogas só pode ser aplicada se todos os requisitos, cumulativamente, estiverem presentes. Além disso, a habitualidade e o pertencimento a organizações criminosas deverão ser comprovados pela acusação, não sendo possível que o benefício seja afastado por simples presunção. A previsão da redução de pena contida no § 4º do art. 33 da Lei nº 11.343/2006 tem como fundamento distinguir o traficante contumaz e profissional daquele iniciante na vida criminosa, bem como do que se aventura na vida da traficância por motivos que, por vezes, confundem-se com a sua própria sobrevivência e/ou de sua família. Assim, para legitimar a não aplicação do redutor é essencial a fundamentação corroborada em elementos capazes de afastar um dos requisitos legais, sob pena de http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/Lei/L11343.htm#art33%C2%A74 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/Lei/L11343.htm#art33%C2%A74 CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 27 desrespeito ao princípio da individualização da pena e de fundamentação das decisões judiciais. Desse modo, a habitualidade e o pertencimento a organizações criminosas deverão ser comprovados, não valendo a simples presunção. Não havendo prova nesse sentido, o condenado fará jus à redução de pena. Em outras palavras, militará em favor do réu a presunção de que é primário e de bons antecedentes e de que não se dedica a atividades criminosas nem integra organização criminosa. O ônus de provar o contrário é do Ministério Público. Assim, o STF considerou preenchidas as condições da aplicação da redução de pena, por se estar diante de ré primária, com bons antecedentes e sem indicação de pertencimento a organização criminosa. STF. 2ª Turma. HC 154694 AgR/SP, rel. orig. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Gilmar Mendes, julgado em 4/2/2020 (Info 965). Destaca-se, ainda, que não se pode negar a aplicação da causa de diminuição pelo tráfico privilegiado, prevista no art. 33, § 4º, da Lei 11.343/2006, com fundamento no fato de o réu responder a inquéritos policiais ou processos criminais em andamento, mesmo que estejam em fase recursal, sob pena de violação ao art. 5º, LIV (princípio da presunção de não culpabilidade). Não cabe afastar a causa de diminuição prevista no art. 33, § 4º, da Lei nº 11.343/2006 (Lei de Drogas) com base em condenações não alcançadas pela preclusão maior (coisa julgada). STJ. 6ª Turma. AgRg no REsp 1936058/SP, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 14/09/2021. É vedada a utilização de inquéritos e/ou ações penais em curso para impedir a aplicação do art. 33, § 4º, da Lei nº 11.343/2006. STJ. 3ª Seção. REsp 1.977.027-PR, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 10/08/2022 (Info 745). Pergunta-se: O réu pode receber a minorante do tráfico privilegiado, mesmo sendo mula do tráfico? SIM. A condição de 'mula' do tráfico, por si só, não comprova que o acusado integra organização criminosa e, por via de consequência, não se presta a fundamentar a não aplicação da minorante do tráfico privilegiado, mas, tão-somente, justifica a aplicação da referida causa de diminuição em seu patamar mínimo, de 1/6 (um sexto). (AgRg no AREsp 2.482.593-PI - Info 21 – Edição Extraordinária). Como o tema foi cobrado em concurso? (TJ-SP - Juiz - VUNESP - 2021): A respeito do tráfico ilícito de drogas na sua forma privilegiada (artigo 33, parágrafo 4º, da Lei nº 11.343/06), é correto afirmar que não se aplica a réus reincidentes. Correto. (TJ-MS - Juiz - FCC - 2020): É cabível a redução da pena de um sexto a dois terços para o agente que tem em depósito, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar, matéria-prima, insumo ou produto químico destinado à preparação de drogas, desde que primário, de bons antecedentes, não se dedique às atividades criminosas nem integre organização criminosa. Correto. 11.6.5. Diminuição da pena e quantidade da droga CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 28 Imagine que o agente é primário, de bons antecedentes, não se dedica a atividades criminosas e nem integra organização criminosa. Contudo, foi apreendido com uma grande quantidade de drogas. Neste caso, será possível a concessão do benefício? De acordo com o STF (2ª Turma), a quantidade de drogas, isoladamente, não pode servir de fundamento para a negativa do benefício. A quantidade e natureza da droga são circunstâncias que, apesar de configurarem elementos determinantes na modulação da causa de diminuição de pena, por si sós, não são aptas a comprovar o envolvimento com o crime organizado ou a dedicação à atividade criminosa, devendo o juízo condenatório obter outros elementos hábeis a embasar tal afirmativa. (STF - HC: 195319 SP 0110517-85.2020.1.00.0000, Relator: CÁRMEN LÚCIA, Data de Julgamento: 24/02/2021, Segunda Turma, Data de Publicação: 05/03/2021). Seguindo o posicionamento do STF, o STJ firmou entendimento no sentido de que o simples fato de o indivíduo ter sido preso levando uma grande quantidade de droga para terceiros não é motivo para se afastar o tráfico privilegiado; isso porque a condição de mula não é argumento, por si só, para afastar o privilégio. Assim segue: A quantidade e a natureza da droga apreendida podem servir de fundamento para a majoração da pena-base ou para a modulação da fração da causa de diminuição prevista no art. 33, § 4º, da Lei nº 11.343/2006, desde que não tenham sido utilizadas na primeira fase da dosimetria. O fundamento de que o agente transportava grande quantidade de droga a serviço de terceiros não se presta a sustentar o afastamento do tráfico privilegiado,uma vez que evidencia apenas a condição de “mula” e não de dedicação a atividades criminosas. A condição de “mula”, por si só, não tem o condão de impedir o reconhecimento do tráfico privilegiado (art. 33, § 4º, da LD). STJ. 6ª Turma. AgRg no HC 842.630-SC, Rel. Min. Antonio Saldanha Palheiro, julgado em 18/12/2023 (Info 16 – Edição Extraordinária). Não obstante, a existência de um contexto de grande quantidade de drogas, multiplicidade de agentes, divisão de tarefas, forma de transporte do entorpecente e distância entre a origem e o destino são elementos que permitem afastar o tráfico privilegiado, conforme definido pelo STJ: A elevada quantidade de drogas apreendidas, a multiplicidade de agentes envolvidos na trama criminosa - que perpassa pela contratação e pela proposta de pagamento -, a forma de transporte da substância entorpecente, a distância entre os estados da federação e a nítida divisão de tarefas entre os membros do grupo descaracterizam a condição de pequeno traficante - ou traficante ocasional - impedindo o reconhecimento do benefício do tráfico privilegiado. STJ. 5ª Turma. AgRg no AREsp 2115857-MS, Rel. Min. João Otávio de Noronha, Rel. Acd. Ministro Jorge Mussi, julgado em 25/10/2022 (Info Especial 10). Frise-se, contudo, que a apreensão de petrechos para a traficância, a depender das circunstâncias do caso concreto, pode afastar a causa de diminuição de pena do tráfico privilegiado, in verbis: Caso adaptado: o agente foi preso em flagrante delito e com ele foram encontrados, além de entorpecentes, balança de precisão, colher, peneira, CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 29 todos com resquícios de cocaína e 66 frasconetes. O juiz condenou o réu e negou o benefício do art. 33, § 4º sob o argumento de que havia a apreensão desses petrechos, utilizados comumente para o tráfico de drogas, indicam que o réu se dedicava às atividades criminosas. Assim, não preencheu um dos requisitos para a obtenção do benefício. STJ. 5ª Turma. AgRg no HC 773113-SP, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 04/10/2022 (Info 752).7 Por fim, no que se refere ao regime de cumprimento da pena ao condenado por tráfico privilegiado, é importante evidenciar que o STF editou o seguinte enunciado: Súmula Vinculante 59: É impositiva a fixação do regime aberto e a substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos quando reconhecida a figura do tráfico privilegiado (art. 33, § 4º, da Lei nº 11.343/2006) e ausentes vetores negativos na primeira fase da dosimetria (art. 59 do CP), observados os requisitos do art. 33, § 2º, ‘c’, e do art. 44, ambos do Código Penal. STF. Plenário. PSV 139/DF, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 19/10/2023 (Info 1113). 11.6.6. Exercício de atividade criminosa Indaga-se: a atividade criminosa deve ser exercida com exclusividade para invalidar o benefício? Antes, importante relembrar os requisitos para concessão da causa de diminuição de pena: primariedade do agente, bons antecedentes, não se dedicar a atividades criminosas e não integrar organização criminosa. Imagine o seguinte caso: o agente é médico e, eventualmente, dedica-se às atividades criminosas de tráfico de drogas. Mesmo que a defesa alegue que o agente desempenha a função de médico e esporadicamente recorre ao tráfico, não será possível reconhecer a causa de diminuição de pena, conforme entendimento dos tribunais superiores. Ainda que o réu comprove o exercício de atividade profissional lícita, se, de forma concomitante, ele se dedicava a atividades criminosas, não terá direito à causa especial de diminuição de pena prevista no art. 33, § 4º, da Lei nº 11.343/2006 (Lei de Drogas). O tráfico de drogas praticado por intermédio de adolescente que, em troca da mercancia, recebia comissão, evidencia (demonstra) que o acusado se dedicava a atividades criminosas, circunstância apta a afastar a incidência da causa especial de diminuição de pena prevista no art. 33, § 4º, da Lei nº 11.343/2006. STJ. 6ª Turma. REsp 1380741-MG, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 12/4/2016 (Info 582).8 11.6.7. “Mulas” do tráfico 7 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. A apreensão de petrechos para a traficância, a depender das circunstâncias do caso concreto, pode afastar a causa de diminuição de pena do tráfico privilegiado (art. 33, § 4º, da LD). Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 15/03/2024. 8 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. O fato de o réu ter ocupação lícita não significa que terá direito, necessariamente, à minorante do § 4º do art. 33 da LD. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 15/03/2024. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 30 De acordo com Márcio Cavalcante9, “mula” é o nome dado a pessoa, geralmente primária e de bons antecedentes (para que não desperte suspeitas), que é cooptada pelas quadrilhas de tráfico de drogas para que realize o transporte do entorpecente de uma cidade, estado, país, para outros, em troca de uma contraprestação pecuniária, ou por conta de ameaças. Normalmente, a droga é transportada pela “mula” de forma dissimulada, escondida em fundos falsos de bolsas, junto ao corpo ou até mesmo em cápsulas dentro do estômago da pessoa. A “mula” também é conhecida como “avião” ou “transportador”. Em relação às mulas, até pouco tempo, entendia-se que havia dedicação à atividade criminosa e que integrava organização criminosa. Portanto, o benefício não seria aplicado. Contudo, o atual entendimento do STF é no sentido de que: HC 124.107 - Info 766 STF - o fato de o agente transportar droga, por si só, não é suficiente para afirmar que ele integre a organização criminosa. Assim, é possível aplicar a causa de diminuição, não se podendo fundamentar tal negativa em mera suposição de que o réu se dedique a atividades criminosas em face da quantidade de droga apreendida. O STJ, no Informativo 602, seguiu o mesmo entendimento do STF: HC 387.077 É possível o reconhecimento do tráfico privilegiado ao agente transportador de drogas, na qualidade de "mula", uma vez que a simples atuação nessa condição não induz, automaticamente, à conclusão de que ele seja integrante de organização criminosa. Como o tema foi cobrado em concurso? (TJ-GO - Juiz - FCC - 2021): É inviável a aplicação da causa especial de diminuição da pena do art. 33, § 4°, da Lei 11.343/2006, quando há condenação simultânea do agente nos crimes de tráfico de drogas e de associação para o tráfico, mas possível que a fração de redução, em caso de exclusiva condenação por tráfico, seja modulada em razão da qualidade e da quantidade de droga apreendida, além das demais circunstâncias do delito, não obstando a aplicação da minorante, por si só, a condição de “mula”. Correto. 11.6.8. Causa de diminuição e histórico de ato infracional Conforme bem descreveu Márcio Cavalcante10, o STJ entende que a existência de ato(s) infracional(is) pode ser sopesada para fins de comprovar a dedicação do réu a atividades criminosas e, por conseguinte, de impedir a incidência da causa especial de diminuição de pena prevista no § 4º do art. 33 da Lei de Drogas. 9 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. É possível aplicar o § 4º do art. 33 da lei de drogas às “mulas”. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 15/03/2024. 10 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. O histórico infracional é suficiente para afastar a causa de diminuição prevista no art. 33, § 4º, da Lei 11.343/2006?. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: .Acesso em: 15/03/2024. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 31 Embora atos infracionais praticados na adolescência não constituam crime na acepção normativa do termo, não há como se olvidar que eles são fatos contrários ao Direito e implicam, sim, consequências jurídicas, inclusive a possibilidade de internação do menor. Quando esse indivíduo completa 18 anos de idade – e, portanto, torna-se imputável – essa mesma conduta deixa de ser considerada ato infracional e passa a ser, em seu sentido técnico- jurídico, classificada como crime. No entanto, do ponto de vista da essência do fato, não há distinção entre ambos, porque o fato, objetivamente analisado, é o mesmo. Diante de tais considerações, não se vê óbice a que a existência de atos infracionais possa, com base nas peculiaridades do caso concreto, ser considerada elemento apto a evidenciar a dedicação do acusado a atividades criminosas, até porque esses atos não serão sopesados para um agravamento da pena do réu, mas para lhe negar a possibilidade de ser beneficiado com uma redução em sua reprimenda. Se a natureza do instituto em análise é justamente tratar com menor rigor o indivíduo que se envolve circunstancialmente com o tráfico de drogas – e que, destarte, não possui maior envolvimento com o narcotráfico ou habitualidade na prática delitiva – não parece razoável punir um jovem de 18 ou 19 anos de idade, sem nenhum passado criminógeno e sem nenhum registro contra si, da mesma forma e com igual intensidade daquele indivíduo que, quando adolescente, cometeu reiteradas vezes atos infracionais graves ou atos infracionais equivalentes a tráfico de drogas. Se assim fosse feito, estaria havendo uma afronta ao princípio da individualização da pena e do próprio princípio da igualdade. É importante esclarecer que o registro da existência de atos infracionais pode afastar o benefício do art. 33, § 4º não por ausência de preenchimento dos 2 primeiros requisitos elencados pelo legislador (primariedade e existência de bons antecedentes), mas sim pelo descumprimento do terceiro requisito exigido pela lei, que é a ausência de dedicação do acusado a atividades criminosas. Em outros termos, embora seja evidente que não seja possível considerar atos infracionais como antecedentes penais e muito menos como reincidência, não se vê razões para desconsiderar todo o passado de atuação de um adolescente contrário ao Direito para concluir pela sua dedicação a atividades delituosas. Não há impedimento, portanto, a que se considere fatos da vida real para esse fim. Ademais, exigir a existência de prévio cometimento de crime e de prévia imposição de pena para fins de justificar o afastamento do redutor em questão acaba, em última análise, esvaziando o próprio conceito de dedicação a atividades criminosas. Isso porque, se houver trânsito em julgado de condenação por crime praticado anteriormente, então essa condenação anterior já se enquadra ou no conceito de maus antecedentes ou no de reincidência. Assim, considerando que não há palavras inúteis na lei, por certo que o legislador quis abarcar situação diversa ao prever a impossibilidade de concessão do benefício àqueles indivíduos que se dedicam a atividades criminosas. Vale ressaltar que não é todo e qualquer ato infracional praticado pelo acusado quando ainda adolescente que poderá, automaticamente, gerar a negativa de incidência do redutor previsto no art. 33, § 4º, da Lei 11.343/2006, até porque justiça penal não se faz por atacado e sim artesanalmente, examinando-se atentamente cada caso para dele extraírem-se todas as suas CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 32 especificidades, de modo a torná-lo singular e, portanto, a merecer providência adequada e necessária. Para que se negue o benefício é necessário que, no caso concreto, se identifique: 1) Se o ato infracional foi grave; 2) Se o ato infracional está documentado nos autos, de sorte a não pairar dúvidas sobre o reconhecimento judicial de sua ocorrência; 3) A distância temporal entre o ato infracional e o crime que deu origem ao processo no qual se está a decidir sobre a possibilidade de incidência ou não do redutor, ou seja, se o ato infracional não está muito distante no tempo. Ante todo o exposto, é preciso verificar se STF possui a mesma posição. Para o STF, a existência de atos infracionais pode servir para afastar o benefício do § 4º do art. 33 da LD? Ainda não há entendimento uníssono. Para a 1ª Turma do STF, SIM, pode afastar: (...) Tráfico de drogas (art. 33 da Lei nº 11.343/06). Condenação. Dosimetria. Aplicação do redutor de pena do art. 33, § 4º, da Lei de Drogas. Utilização da prática de atos infracionais para se afastar a causa de diminuição. Possibilidade. Precedentes. Agravo regimental não provido. STF. 1ª Turma. RHC 190434 AgR, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 23/08/2021. Já para a 2ª Turma do STF, NÃO é possível: (...) 2. A causa de diminuição prevista no § 4º do art. 33 da Lei 11.343/2006 é aplicada desde que o agente seja primário, possua bons antecedentes, não se dedique às atividades criminosas nem integre organização criminosa. 3. Na linha dos precedentes desta Colenda Turma, a menção a atos infracionais praticados pelo agente não consiste fundamentação idônea para afastar a minorante em exame. Esse entendimento está em consonância com sistema de proteção integral assegurado a crianças e adolescentes por nosso ordenamento jurídico. (...) STF. 2ª Turma. HC 202574 AgR, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 17/08/2021. FIGURAS EQUIPARADAS As figuras equiparadas ao tráfico de drogas estão previstas nos incisos do § 1º do art. 33 da LD, passando-se, então, a analisar cada um dos seus incisos. 11.7.1. Inciso I Art. 33, § 1º Nas mesmas penas incorre quem: I - importa, exporta, remete, produz, fabrica, adquire, vende, expõe à venda, oferece, fornece, tem em depósito, transporta, traz consigo ou guarda, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar, matéria-prima, insumo ou produto químico destinado à preparação de drogas. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 33 Novamente, nota-se que há diversos núcleos, a fim de que o maior número de situações seja enquadrado como tráfico de drogas. Aqui, o objeto material não é a droga, não se exige que contenha o princípio ativo, mas que seja a matéria-prima, insumo ou o produto químico. Basta que seja idôneo à produção da droga, a exemplo da posse de acetona que é utilizada como matéria-prima para a produção de cocaína. O § 1º do art. 33 da LD prevê que também é crime a importação de “matéria-prima” ou “insumo” destinado à preparação de drogas. Nesse liame, questiona-se: a semente de maconha poderia ser considerada como “matéria- prima” ou “insumo” destinado à preparação de drogas? Também não. Isso ocorre porque ela não é um “ingrediente” para a confecção de drogas. Não se faz droga misturando a semente de maconha com qualquer coisa. Dito de outro modo: não se prepara droga com semente de maconha. Isso porque a semente de maconha não tem substância psicoativa (ela não tem nada em sua composição que atue no sistema nervoso central gerando euforia, mudança de humor, prazer etc.), conforme já explicou o Ministro Gilmar Mendes: “Na doutrina, afirma-se que a matéria-prima, conforme Vicente Greco Filho e João Daniel Rassi, é a substância de que podem ser extraídos ou produzidos os entorpecentes que causem dependência física ou psíquica (GRECO FILHO, Vicente; RASSI, João Daniel. Lei de drogas anotada. 3ª edição. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 99). Ou seja, a matéria-prima ou insumo devem ter condições e qualidades químicas para, mediante transformação ou adição, por exemplo, produzirem a droga ilícita, o que não é o caso das sementes da planta Cannabis sativa, que não possuem a substância psicoativa (THC)” (HC 144161/SP). Dessemodo, a semente da cannabis sativa não é, em si, droga (não está listada na Portaria) e também não pode ser considerada matéria-prima ou insumo destinado à preparação de droga ilícita. Não configura crime a importação de pequena quantidade de sementes de maconha. STF. 2ª Turma. HC 144161/SP, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 11/9/2018 (Info 915). As turmas do STJ divergiam sobre o tema, mas o tema já também se encontra atualmente pacificado: É atípica a conduta de importar pequena quantidade de sementes de maconha. STJ. 3ª Seção. EREsp 1.624.564-SP, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 14/10/2020 (Info 683). Ressalta-se, ainda, que a apreensão de pequenas quantidades de droga junto com o ácido bórico não implica, necessariamente, a conduta de tráfico de drogas (art. 33, § 1º, I, da LD): No caso analisado, o réu foi condenado como incurso no art. 33, § 1º, I, da Lei nº 11.343/2006 porque portava, em via pública, 0,32 g de crack e 164,80 g de ácido bórico. A posse de ácido bórico, por si só, é um indiferente penal, haja vista que é largamente utilizado para fins lícitos, como tratamentos de saúde, desinsetização, adubamento etc. Não se está a ignorar que o ácido CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 34 bórico seja utilizado, também, para os fins de preparação de drogas ilícitas. Ocorre que, nesses casos, a condenação deve se pautar em outros elementos que apontem, de modo inequívoco, para a traficância, como a apreensão de consideráveis quantidades de droga, balanças de precisão, embalagens plásticas, somas de dinheiro etc. Segundo pesquisas, vários usuários de crack fazem uso do chamado “pó virado”, consistente na mistura de crack ao ácido bórico para os fins de consumo pela via nasal. A preparação do “pó virado” é feita pelos próprios usuários, em grupos e de forma compartilhada, a fim de obter efeito mais duradouro e, consequentemente, menores níveis de fissura e paranoia decorrentes do uso da droga. Diante desses achados, é preciso cuidado redobrado ao avaliar se a conduta de portar drogas e ácido bórico deve ser tipificada como tráfico de drogas ou posse de drogas para uso pessoal. Logo, a apreensão de pequenas quantidades de droga junto com o ácido bórico não implica, necessariamente, a conduta tipificada no art. 33 da Lei nº 11.343/2006. STJ. 5ª Turma. AgRg no AREsp 2.271.420-MG, Rel. Min. Messod Azulay Neto, julgado em 27/6/2023 (Info 13 - Edição Extraordinária). Por fim, vale destacar, o entendimento do STJ quanto a aquisição de sementes da Cannabis sativa, para fins medicinais: AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. CULTIVO DOMÉSTICO DA PLANTA CANNABIS SATIVA PARA FINS MEDICINAIS. HABEAS CORPUS PREVENTIVO. UNIFORMIZAÇÃO DO ENTENDIMENTO DAS TURMAS CRIMINAIS. RISCO DE CONSTRANGIMENTO ILEGAL. DIREITO A SAÚDE PÚBLICA E A MELHOR QUALIDADE DE VIDA. REGULAMENTAÇÃO. OMISSÃO DA ANVISA E DO MINISTÉRIO DA SAÚDE. ATIPICIDADE PENAL DA CONDUTA. (...) 2. O entendimento da Quinta Turma passou a corroborar o da Sexta Turma que, na sessão de julgamento do dia 14/6/2022, de relatoria do Ministro Rogério Schietti Cruz, por unanimidade, negou provimento ao Recurso Especial n. 1.972.092-SP do Ministério Público, e manteve a decisão do Tribunal de origem, que havia concedido habeas corpus preventivo. Então, ambas as turmas passaram a entender que o plantio e a aquisição das sementes da Cannabis sativa, para fins medicinais, não se trata de conduta criminosa, independente da regulamentação da ANVISA. (...) Como o tema foi cobrado em concurso? (PC-PB - Delegado - CESPE - 2022): A importação de pequena quantidade de sementes da planta conhecida como maconha é atípica. Correto. (MPE-TO - Promotor de Justiça - CESPE - 2022): A conduta de importar pequena quantidade de sementes de maconha configura uma das modalidades do tipo penal de tráfico previsto na Lei Antidrogas. Errado. 11.7.2. Inciso II Art. 33, § 1º Nas mesmas penas incorre quem: II - semeia, cultiva ou faz a colheita, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar, de plantas que se constituam em matéria-prima para a preparação de drogas. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 35 Novamente, o objeto material é uma matéria-prima, no caso a planta que irá ser utilizada na produção da droga. Não é necessário que a planta origine diretamente a droga. Ressalta-se que só estará configurado o crime quando presente o elemento normativo “sem autorização ou em desacordo com a determinação legal ou regulamentar”. Aplica-se, aqui, o art. 2º da Lei 11.343/2006, in verbis: Art. 2o Ficam proibidas, em todo o território nacional, as drogas, bem como o plantio, a cultura, a colheita e a exploração de vegetais e substratos dos quais possam ser extraídas ou produzidas drogas, ressalvada a hipótese de autorização legal ou regulamentar, bem como o que estabelece a Convenção de Viena, das Nações Unidas, sobre Substâncias Psicotrópicas, de 1971, a respeito de plantas de uso estritamente ritualístico-religioso. A Lei prevê, ainda, que a União poderá autorizar o plantio de tais vegetais, desde que sejam para fins medicinais ou científicos, fixando o prazo e o local em que serão plantadas, com a referida fiscalização. Art. 2º, Parágrafo único. Pode a União autorizar o plantio, a cultura e a colheita dos vegetais referidos no caput deste artigo, exclusivamente para fins medicinais ou científicos, em local e prazo predeterminados, mediante fiscalização, respeitadas as ressalvas supramencionadas. Nesse mesmo sentido, importante trazer à tona a seguinte discussão: é possível que o Poder Judiciário conceda autorização para que a pessoa faça cultivo de maconha com objetivos medicinais? A 5ª Turma do STJ, no AgRg no RHC 155.610-CE, julgado em 10/05/2022 (Info 736), entendeu que NÃO é possível, com base no seguinte fundamento: É incabível salvo-conduto para o cultivo da cannabis visando a extração do óleo medicinal, ainda que na quantidade necessária para o controle da epilepsia, posto que a autorização fica a cargo da análise do caso concreto pela ANVISA. Já no julgamento do HC 779289/DF, em 22/11/2022 (Info 758), a 5ª Turma mudou seu posicionamento, passando a entender que é possível que o Poder Judiciário conceda autorização para que a pessoa faça o cultivo de maconha com objetivos medicinais: As condutas de plantar maconha para fins medicinais e importar sementes para o plantio não preenchem a tipicidade material, motivo pelo qual se faz possível a expedição de salvo-conduto, desde que comprovada a necessidade médica do tratamento. A 6ª Turma do STJ, no REsp 1.972.092, julgado em 14/06/2022 (Info 742), já afirmava que é possível SIM, considerando que: É cabível a concessão de salvo-conduto para o plantio e o transporte de Cannabis Sativa para fins exclusivamente terapêuticos, com base em receituário e laudo subscrito por profissional médico especializado, e chancelado pela Anvisa. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 36 A 3ª Seção do STJ, por sua vez, definiu que o e a aquisição das sementes da cannabis sativa, para fins medicinais, não configuram conduta criminosa, independente da regulamentação da ANVISA: A ausência de regulamentação administrativa persiste e não tem previsão para solução breve, uma vez que a ANVISA considera que a competência para regular o cultivo de plantas sujeitas a controle especial seria do Ministério da Saúde e este considera que a competência seria da ANVISA. Logo, é necessário superar eventuais óbices administrativos e cíveis, privilegiando-se, dessa forma, o acesso à saúde, por todos os meios possíveis, ainda que pela concessão de salvo-conduto mediante habeas corpus. A questão aqui discutida não pode ser objeto da sanção penal, porque se trata do exercício de um Direito Fundamental, constitucionalmente, garantido, isto é, o Direito à Saúde, e a atuaçãoproativa do STJ justifica-se juridicamente. STJ. 3ª Seção. AgRg no HC 783.717-PR, Rel. Min. Messod Azulay Neto, Rel. para acórdão Min. Jesuíno Rissato (Desembargador convocado do TJDFT), julgado em 13/9/2023 (Info 794). No caso concreto, o STJ concedeu o habeas corpus a fim de garantir à paciente o salvo- conduto, para obstar que qualquer órgão de persecução penal turbe ou embarace a aquisição de 10 sementes de cannabis, bem como o cultivo de 7 plantas de cannabis e extração do óleo, por ser imprescindível para a sua qualidade de vida e saúde. Assim, é possível concluir, que o entendimento prevalente é no sentido de que o porte da maconha para consumo pessoal (uso recreativo), respeitados os limites quantitativos, bem como, a conduta de plantar maconha para fins medicinais e importar sementes para o plantio, não preenchem a tipicidade material. Em continuidade, destaca-se o art. 243 da CF, pertinente ao tema, segundo o qual será possível expropriar (natureza de confisco, não havendo indenização) as propriedades rurais e urbanas que se destinam a cultura ilegal de plantas psicotrópicas. Além disso, nada impede a aplicação nos casos do art. 28, § 1º da Lei de Drogas. Art. 243. As propriedades rurais e urbanas de qualquer região do País onde forem localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas ou a exploração de trabalho escravo na forma da lei serão expropriadas e destinadas à reforma agrária e a programas de habitação popular, sem qualquer indenização ao proprietário e sem prejuízo de outras sanções previstas em lei, observado, no que couber, o disposto no art. 5º. Parágrafo único. Todo e qualquer bem de valor econômico apreendido em decorrência do tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins e da exploração de trabalho escravo será confiscado e reverterá a fundo especial com destinação específica, na forma da lei. Por sua vez, o art. 32 da Lei 11.343/2006 prevê a destruição imediata da plantação, conforme abaixo exposto: Art. 32. As plantações ilícitas serão imediatamente destruídas pelo delegado de polícia na forma do art. 50-A, que recolherá quantidade suficiente para exame pericial, de tudo lavrando auto de levantamento das condições encontradas, com a delimitação do local, asseguradas as medidas necessárias para a preservação da prova. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 37 Outro ponto de destaque refere-se ao alcance da medida expropriatória: será atingida a totalidade da área e não apenas a que for destinada ao plantio de matéria-prima que será utilizada na produção de drogas. Por fim, a responsabilidade do proprietário da área destinada ao plantio, de acordo com o STF, poderá ser afastada, desde que comprove que não possui culpa. Assim, comprovado que não agiu com culpa, ainda que in vigilando ou in eligendo, não perderá a propriedade. A expropriação prevista no art. 243 da Constituição Federal pode ser afastada, desde que o proprietário comprove que não incorreu em culpa, ainda que in vigilando ou in eligendo. STF. Plenário. RE 635336/PE, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 14/12/2016 (repercussão geral) (Info 851).11 Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-MG - Promotor de Justiça - FUNDEP - 2021): É possível ao juiz determinar a destruição das drogas apreendidas antes da confecção do laudo definitivo. Correto. (Polícia Federal - Delegado - CESPE - 2021): O confisco e a posterior reversão a fundo especial de bem apreendido em decorrência do tráfico ilícito de entorpecentes exigem prova de habitualidade e reiteração do uso do bem para a referida finalidade. Errado. 11.7.3. Inciso III Art. 33, § 1º Nas mesmas penas incorre quem: III - utiliza local ou bem de qualquer natureza de que tem a propriedade, posse, administração, guarda ou vigilância, ou consente que outrem dele se utilize, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar, para o tráfico ilícito de drogas. Refere-se à utilização para o efetivo tráfico de drogas, não se restringe ao proprietário do bem e não se exige a finalidade de lucro. Caso seja utilizado para o consumo pessoal de drogas, não incidirá no tráfico equiparado. Trata-se de crime doloso, o agente deve conhecer a natureza da substância. 11.7.4. Inciso IV Art. 33, § 1º Nas mesmas penas incorre quem: IV - vende ou entrega drogas ou matéria-prima, insumo ou produto químico destinado à preparação de drogas, sem autorização ou em desacordo com a determinação legal ou regulamentar, a agente policial disfarçado, quando presentes elementos probatórios razoáveis de conduta criminal preexistente. 11 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Possibilidade de o proprietário afastar a sanção do art. 243 da CF/88 se provar que não teve culpa. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 15/03/2024. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 38 Trata-se de novidade introduzida pelo Pacote Anticrime que visou legalizar a situação de flagrante preparado em relação às condutas criminais preexistentes. Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-MG - Promotor - FUNDEP - 2023): Para a configuração do crime tipificado no art. 33, §1°, IV, da Lei de Drogas, não se exige, na lei, que a atuação do policial disfarçado tenha sido previamente autorizada judicialmente. Correto. 12. INDUZIMENTO, INSTIGAÇÃO OU AUXÍLIO AO USO INDEVIDO DE DROGAS É delito previsto no § 2º do art. 33 da LD, cuja pena será de detenção, de 1 a 3 anos, e multa de 100 a 300 dias. Art. 33, § 2o Induzir, instigar ou auxiliar alguém ao uso indevido de droga: Pena - detenção, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa de 100 (cem) a 300 (trezentos) dias-multa. O induzimento (faz surgir a ideia), a instigação (reforça a ideia que já existe) e o auxílio (participação material) devem ser dirigidos a pessoas determinadas. A consumação exige o efetivo uso da droga, não basta só induzir, instigar ou auxiliar sem que a pessoa efetivamente faça uso. Não é crime equiparado a hediondo. É crime de médio potencial ofensivo e admite a suspensão condicional do processo. MARCHA DA MACONHA: não caracteriza o crime do § 2º do art. 33, conforme decidiu o STF na ADI 4274/DF, tendo em vista que a liberdade de expressão e manifestação de pensamento é consagrada na CF. Ademais, só existe o crime quando as condutas são destinadas a pessoa determinada, não a uma multidão. EMENTA: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. PEDIDO DE “INTERPRETAÇÃO CONFORME À CONSTITUIÇÃO” DO § 2º DO ART. 33 DA LEI Nº 11.343/2006, CRIMINALIZADOR DAS CONDUTAS DE “INDUZIR, INSTIGAR OU AUXILIAR ALGUÉM AO USO INDEVIDO DE DROGA”. 1. Cabível o pedido de “interpretação conforme à Constituição” de preceito legal portador de mais de um sentido, dando-se que ao menos um deles é contrário à Constituição Federal. 2. A utilização do § 3º do art. 33 da Lei 11.343/2006 como fundamento para a proibição judicial de eventos públicos de defesa da legalização ou da descriminalização do uso de entorpecentes ofende o direito fundamental de reunião, expressamente outorgado pelo inciso XVI do art. 5º da Carta Magna. Regular exercício das liberdades constitucionais de manifestação de pensamento e expressão, em sentido lato, além do direito de acesso à informação (incisos IV, IX e XIV do art. 5º da Constituição Republicana, respectivamente). 3. Nenhuma lei, seja ela civil ou penal, pode blindar-se contra a discussão do seu próprio conteúdo. Nem mesmo a Constituição está a salvo da ampla, livre e aberta discussão dos seus defeitos e das suas virtudes, desde que sejam obedecidas as condicionantes ao CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 39 direito constitucional de reunião, tal como a prévia comunicação às autoridades competentes. 4. Impossibilidade derestrição ao direito fundamental de reunião que não se contenha nas duas situações excepcionais que a própria Constituição prevê: o estado de defesa e o estado de sítio (art. 136, § 1º, inciso I, alínea “a”, e art. 139, inciso IV). 5. Ação direta julgada procedente para dar ao § 2º do art. 33 da Lei 11.343/2006 “interpretação conforme à Constituição” e dele excluir qualquer significado que enseje a proibição de manifestações e debates públicos acerca da descriminalização ou legalização do uso de drogas ou de qualquer substância que leve o ser humano ao entorpecimento episódico, ou então viciado, das suas faculdades psicofísicas. ADI 4274, Relator(a): Min. AYRES BRITTO, Tribunal Pleno, julgado em 23/11/2011, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-084 DIVULG 30-04-2012 PUBLIC 02-05- 2012 RTJ VOL-00222-01 PP-00146). 13. CEDENTE EVENTUAL É crime previsto no § 3º do art. 33, da Lei 11.343/2006, conforme redação legal abaixo: Art. 33, § 3o Oferecer droga, eventualmente e sem objetivo de lucro, a pessoa de seu relacionamento, para juntos a consumirem: Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 1 (um) ano, e pagamento de 700 (setecentos) a 1.500 (mil e quinhentos) dias-multa, sem prejuízo das penas previstas no art. 28. Obviamente, este delito não é considerado tráfico de drogas e, consequentemente, não é equiparado a crime hediondo. Trata-se de uma infração penal de menor potencial ofensivo, cuja competência será do JECRIM. Na antiga lei, como não havia previsão legal, a conduta descrita no § 3º era considerada tráfico de drogas (majoritário) e, ainda, fato atípico (minoritária). Para que o agente incorra nas sanções do § 3º é necessário o preenchimento de quatro requisitos, cumulativos, quais sejam: 1) Oferta eventual de droga; 2) Oferta gratuita; 3) O destinatário da droga deve ser pessoa do relacionamento de quem oferece a droga; 4) A droga deve ser destinada ao consumo conjunto (tanto de quem oferece quanto de quem recebe). A falta de algum requisito acarreta as sanções do art. 33, caput, da LD. Como o tema foi cobrado em concurso? (MP-MG – Promotor de Justiça – 2023): O oferecimento de drogas para uso compartilhado (art. 33, §3°, da Lei de Drogas) não demanda, CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 40 para efeitos da subsunção típica, que o destinatário da droga seja pessoa de relacionamento do agente, bastando que a oferta seja gratuita. Errado. 14. ART. 34 - MAQUINISMO E OBJETOS DESTINADOS AO TRÁFICO Art. 34. Fabricar, adquirir, utilizar, transportar, oferecer, vender, distribuir, entregar a qualquer título, possuir, guardar ou fornecer, ainda que gratuitamente, maquinário, aparelho, instrumento ou qualquer objeto destinado à fabricação, preparação, produção ou transformação de drogas, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar: Pena - reclusão, de 3 (três) a 10 (dez) anos, e pagamento de 1.200 (mil e duzentos) a 2.000 (dois mil) dias-multa. Trata-se do tráfico de drogas, portanto, equiparado a hediondo. Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-SC - Promotor - CESPE - 2023): A posse de maquinário, aparelho ou instrumento de fabricação de drogas destinadas ao consumo pessoal é conduta penalmente típica, embora não equiparada a crime hediondo. Errado. Vale relembrar, que o entendimento dominante, hoje, é que a expressão “tráfico de drogas” abrange os delitos previstos no art. 33, caput, e § 3º, bem como o art. 34 da referida lei. Há doutrina que também inclui os arts. 35 e 37 como tráfico. TRÁFICO DE DROGAS Art. 33, caput e §3º Art. 34 Doutrina que inclui o art. 35 e 37 Art. 33. Importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à venda, oferecer, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar, entregar a consumo ou fornecer drogas, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar: Pena - reclusão de 5 (cinco) a 15 (quinze) anos e pagamento de 500 (quinhentos) a 1.500 (mil e quinhentos) dias-multa. Art. 34. Fabricar, adquirir, utilizar, transportar, oferecer, vender, distribuir, entregar a qualquer título, possuir, guardar ou fornecer, ainda que gratuitamente, maquinário, aparelho, instrumento ou qualquer objeto destinado à fabricação, preparação, produção ou transformação de drogas, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar: Pena - reclusão, de 3 (três) a 10 (dez) anos, e pagamento Art. 35. Associarem-se duas ou mais pessoas para o fim de praticar, reiteradamente ou não, qualquer dos crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1º, e 34 desta Lei: Pena - reclusão, de 3 (três) a 10 (dez) anos, e pagamento de 700 (setecentos) a 1.200 (mil e duzentos) dias-multa. Art. 37. Colaborar, como informante, com grupo, organização ou associação destinados à prática de qualquer dos crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1º, e 34 desta Lei: CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 41 FINALIDADE DO TIPO PENAL Busca incriminar condutas não abrangidas pelo caput do art. 33, as quais são ligadas à produção de drogas. OBJETO MATERIAL É o bem relacionado ao processo de criação, fabricação e produção da droga. Ex.: o agente que monta um laboratório para refinar cocaína. Obs.: não há crime quando se apreende um bem ou instrumento ligado ao uso da droga, sem que esta exista. Por exemplo, a apreensão de um cachimbo para consumo de crack. Para que se configure a lesão ao bem jurídico tutelado pelo art. 34 da Lei nº 11.343/2006, a ação de possuir maquinário e/ou objetos deve ter o especial fim de fabricar, preparar, produzir ou transformar drogas, visando ao tráfico. Assim, ainda que o crime previsto no art. 34 da Lei nº 11.343/2006 possa subsistir de forma autônoma, não é possível que o agente responda pela prática do referido delito quando a posse dos instrumentos se configura como ato preparatório destinado ao consumo pessoal de entorpecente. As condutas previstas no art. 28 da Lei de Drogas recebem tratamento legislativo mais brando, razão pela qual não há respaldo legal para punir com maior rigor as ações que antecedem o próprio consumo pessoal do entorpecente. STJ. 6ª Turma. RHC 135.617-PR, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 14/09/2021 (Info 709). CONFLITO DE NORMAS COM O ART. 33, CAPUT, E PRINCÍPIO DA CONSUNÇÃO O agente responderá pelo art. 34 da LD quando não houver nenhuma droga no local, mas sim apenas o maquinário. Havendo os objetos de produção da droga e a droga, o agente responderá apenas pelo art. 33, caput, da LD, absorvendo o 34. I - A prática do crime previsto no art. 33, caput, da Lei de Drogas absorve o delito capitulado no art. 34 da mesma lei, desde que não fique caracterizada a existência de contextos autônomos e coexistentes aptos a vulnerar o bem jurídico tutelado de forma distinta. Assim, responderá apenas pelo crime do § 3º Oferecer droga, eventualmente e sem objetivo de lucro, a pessoa de seu relacionamento, para juntos a consumirem: Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 1 (um) ano, e pagamento de 700 (setecentos) a 1.500 (mil e quinhentos) dias-multa, sem prejuízo das penas previstas no art. 28. de 1.200 (mil e duzentos) a 2.000 (dois mil) dias-multa. Pena - reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e pagamento de 300 (trezentos) a 700 (setecentos) dias-multa. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 42 art. 33 (sem concurso com o art. 34), o agente que, além de preparar para venda certa quantidade de drogas ilícitas em sua residência, mantiver, no mesmo local, uma balança de precisão e um alicate de unha utilizados na preparação das substâncias. Isso porque, na situação em análise, não há autonomia necessária a embasar a condenação em ambos os tipos penais simultaneamente, sob pena de “bis in idem”. STJ. 5ª Turma. REsp 1196334- PR, Rel. Min. Marco AurélioBellizze, julgado em 19/9/2013 (Info 531).12 Para melhor compreensão sobre o referido julgado, colaciona-se abaixo a excelente explicação do Dizer o Direito, retirada do Info 531 do STJ. Carlos foi preso, em sua residência, com certa quantidade de cocaína destinada à venda. Além da droga, o agente mantinha, no mesmo local, uma balança de precisão e um alicate de unha utilizados na preparação das “trouxinhas” de cocaína. O Ministério Público desejava a condenação do réu pelos delitos do art. 33 e 34 da Lei 11.343/2006, em concurso. O STJ, no REsp 1.196.334-PR (5ª Turma), contudo, decidiu que o acusado deveria responder apenas pelo crime de tráfico de drogas (art. 33), ficando o delito do art. 34 absorvido. O Min. Marco Aurélio Bellize assentou que “a prática do crime previsto no art. 33, caput, da Lei de Drogas absorve o delito capitulado no art. 34 da mesma lei, desde que não fique caracterizada a existência de contextos autônomos e coexistentes aptos a vulnerar o bem jurídico tutelado de forma distinta.” Na situação em análise, entendeu-se que não há autonomia necessária a embasar a condenação em ambos os tipos penais simultaneamente, sob pena de “bis in idem”. Para o Min. Relator, deve ficar demonstrada a real lesividade dos objetos tidos como instrumentos destinados à fabricação, preparação, produção ou transformação de drogas, sob pena de a posse de uma tampa de caneta (utilizada como medidor), atrair a incidência do tipo penal em exame. Relevante, assim, analisar se os objetos apreendidos são aptos a vulnerar o tipo penal em tela. Na situação em análise, o STJ entendeu que, além de a conduta não se mostrar autônoma, a posse de uma balança de precisão e de um alicate de unha não poderia ser considerada como posse de maquinário nos termos do que descreve o art. 34, pois os referidos instrumentos integram a prática do delito de tráfico, não se prestando à configuração do crime de posse de maquinário. CONCURSO DE CRIMES: ART. 33, CAPUT E ART. 34 II - Responderá pelo crime de tráfico de drogas (art. 33) em concurso com o art. 34 o agente que, além de ter em depósito certa quantidade de drogas ilícitas em sua residência para fins de mercancia, possuir, no mesmo local e em grande escala, objetos, maquinário e utensílios que constituam laboratório utilizado para a produção, preparo, fabricação e transformação de drogas ilícitas em grandes quantidades. Não se pode aplicar o princípio da consunção porque nesse caso existe autonomia de condutas e os objetos encontrados não seriam meios necessários nem constituíam fase normal de execução daquele delito de tráfico de drogas, possuindo lesividade autônoma para violar o bem jurídico. STJ. 5ª Turma. AgRg no AREsp 303213-SP, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 8/10/2013 (Info 531). 12 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Tráfico de maquinário (art. 34). Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 15/03/2024. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 43 Para melhor compreensão do julgado acima, tem-se o seguinte caso: Pablo foi preso, em sua residência, com certa quantidade de cocaína destinada à venda. Além da droga, o agente mantinha, no mesmo local e em grande escala, objetos, maquinário e utensílios que constituíam um verdadeiro “laboratório” utilizado para a produção, preparo, fabricação e transformação de drogas ilícitas em grandes quantidades. O Ministério Público pediu a condenação do réu pelos delitos do art. 33 e 34 da Lei n. 11.343/2006, em concurso. O STJ concordou com o MP e decidiu que o acusado deveria responder pelos crimes de tráfico de drogas (art. 33) e tráfico de maquinário (art. 34) em concurso. Nessa situação, as circunstâncias fáticas demonstraram que havia verdadeira autonomia das condutas, o que inviabilizava a incidência do princípio da consunção. O princípio da consunção deve ser aplicado quando um dos crimes for o meio normal para a preparação, execução ou mero exaurimento do delito visado pelo agente, situação que fará com que este absorva aquele outro delito, desde que não ofendam bens jurídicos distintos. Dessa forma, a depender do contexto em que os crimes foram praticados, será possível o reconhecimento da absorção do delito previsto no art. 34 pelo crime previsto no art. 33. Contudo, para tanto, é necessário que não fique caracterizada a existência de contextos autônomos e coexistentes aptos a vulnerar o bem jurídico tutelado de forma distinta. Levando-se em consideração que o crime do art. 34 visa coibir a produção de drogas, enquanto o art. 33 tem por objetivo evitar a sua disseminação, deve-se analisar, para fins de incidência ou não do princípio da consunção, a real lesividade dos objetos tidos como instrumentos destinados à fabricação, preparação, produção ou transformação de drogas. Relevante aferir, portanto, se os objetos apreendidos são aptos a vulnerar o tipo penal em tela quanto à coibição da própria produção de drogas. Logo, se os maquinários e utensílios apreendidos não forem suficientes para a produção ou transformação da droga, será possível a absorção do crime do art. 34 pelo do art. 33, haja vista ser aquele apenas meio para a realização do tráfico de drogas (como a posse de uma balança e de um alicate – objetos que, por si sós, são insuficientes para o fabrico ou transformação de entorpecentes, constituindo apenas um meio para a realização do delito do art. 33). Todavia, a posse ou depósito de maquinário e utensílios que demonstrem a existência de um verdadeiro laboratório voltado à fabricação ou transformação de drogas implica autonomia das condutas, por não serem esses objetos meios necessários ou fase normal de execução do tráfico de drogas. Ainda nesses termos, vale registrar o julgado do STJ (RHC 135617-PR), que definiu não ser possível que o agente responda pela prática do crime do art 34 da Lei 11.343/2006 quando a posse dos instrumentos configura ato preparatório destinado ao consumo pessoal de entorpecente. Ao passo que condutas previstas no art. 28 da Lei de Drogas recebem tratamento legislativo mais brando, razão pela qual não há respaldo legal para punir com maior rigor as ações que antecedem o próprio consumo pessoal do entorpecente. Mas, quanto ao porte de drogas para consumo pessoal, vale a ressalva de que não comete infração penal quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, a substância cannabis sativa (maconha), conforme o mais recente entendimento do STF sobre o tema (Tema 506 - Repercussão Geral). CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 44 15. ART. 35 - ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO O art. 35 da Lei de Drogas dispõe sobre o crime de associação para o tráfico, salientando que a leitura de sua parte final confirma que apenas os arts. 33, caput e seu § 1º e o art. 34 da LD são crimes de tráfico: Art. 35. Associarem-se duas ou mais pessoas para o fim de praticar, reiteradamente ou não, qualquer dos crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1o, e 34 desta Lei: Pena - reclusão, de 3 (três) a 10 (dez) anos, e pagamento de 700 (setecentos) a 1.200 (mil e duzentos) dias-multa. Parágrafo único. Nas mesmas penas do caput deste artigo incorre quem se associa para a prática reiterada do crime definido no art. 36 desta Lei. INADMISSIBILIDADE DE TENTATIVA Este crime não admite tentativa, eis que se trata de um crime obstáculo, ou seja, é um crime que o legislador utiliza um ato preparatório de outro crime e o tipifica de forma autônoma. Cria-se um tipo penal preventivo, antecipando-se a tutela penal. OUTRAS FORMAS DE ASSOCIAÇÃO É importante distinguir o delito de associação para o tráfico de drogas do crime de associação criminosa, previsto no art. 288 do CP. Observe a tabela abaixo: Art. 288. Associarem-se 3 (três) oumais pessoas, para o fim específico de cometer crimes: Pena - reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos. Parágrafo único. A pena aumenta-se até a metade se a associação é armada ou se houver a participação de criança ou adolescente. ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO ASSOCIAÇÃO CRIMINOSA Basta a presença/união de 2 pessoas, sendo suficiente que apenas um deles seja imputável. Exige, pelo menos, 3 pessoas para que se caracterize. A intenção é cometer quaisquer crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1º e art. 34 da Lei de Drogas. A intenção é cometer qualquer delito em geral, a exemplo de roubo, furto. Existe ou não reiteração na intenção de cometer os crimes. Exige permanência. REITERAÇÃO NA INTENÇÃO DE COMETER CRIMES CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 45 Segundo Masson, o art. 35 é falho ao dispensar a reiteração, uma vez que toda a associação reclama, como o próprio nome diz, um ânimo de permanência. Não existe eventualidade na associação, a reiteração é um requisito. Quando não está presente, é caso de concurso de pessoas. Segundo o STJ e o STF, para configuração do tipo de associação para o tráfico, é necessário que haja estabilidade e permanência na associação criminosa. Dessa forma, é atípica a conduta se não houver ânimo associativo permanente (duradouro), mas apenas esporádico (eventual), conforme entendimento do seguinte julgado: “(...) Para a caracterização do crime de associação para o tráfico é imprescindível o dolo de se associar com estabilidade e permanência, sendo que a reunião ocasional de duas ou mais pessoas não se subsumi ao tipo do artigo 35 da Lei 11.343/2006. Doutrina. Precedentes. (...)” (HC 254.428/SP, Rel. Min. Jorge Mussi, Quinta Turma, julgado em 27/11/2012).13 CONCURSO DE CRIMES É perfeitamente possível concurso de crimes entre a associação e tráfico de drogas. Este não irá absorver o delito do art. 35 da LD. 16. ART. 36 - FINANCIAMENTO AO TRÁFICO É um crime de pena alta, de modo que a doutrina minoritária entende que se trata de um crime de tráfico de drogas, juntamente com o caput e § 1º do art. 33 e o art. 34 da LD. Art. 36. Financiar ou custear a prática de qualquer dos crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1o, e 34 desta Lei: Pena - reclusão, de 8 (oito) a 20 (vinte) anos, e pagamento de 1.500 (mil e quinhentos) a 4.000 (quatro mil) dias-multa. FINANCIAMENTO OU CUSTEIO SEM TRÁFICO O agente que pratica o art. 36 da LD não é um traficante de drogas, tendo em vista que ele irá apenas financiar ou custear as condutas previstas como tráfico de drogas. É o caso, por exemplo, de um empresário que empresta 500 mil reais para o traficante adquirir as drogas. Por isso, este crime é uma exceção à Teoria Monista (quem concorre de qualquer forma para a prática do crime irá responder por ele), já que apesar de concorrer para a prática do tráfico de drogas o agente não irá responder por ele, mas sim pelo art. 36. Vamos relembrar as teorias sobre o concurso de pessoas: 13 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Associação para fins de tráfico (art. 35). Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 15/03/2024. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 46 TEORIA MONISTA TEORIA PLURALISTA É prevista no art. 29 do CP. É adotada de forma excepcional no CP. Prega que todos os concorrentes respondem por um único crime. A consequência do delito é a mesma para todos os concorrentes. É a regra. As condutas dos concorrentes têm consequências distintas, respondendo cada um por um delito autônomo. Art. 29 - Quem, de qualquer modo, concorre para o crime incide nas penas a este cominadas, na medida de sua culpabilidade. Outros crimes que se aplica a teoria pluralista: Aborto, Corrupção e Facilitação de Contrabando e Descaminho. AUTOFINANCIAMENTO E ART. 40, VII, DA LD Art. 40. As penas previstas nos arts. 33 a 37 desta Lei são aumentadas de um sexto a dois terços, se: VII - o agente financiar ou custear a prática do crime. Tal causa de aumento de pena será aplicada quando o próprio agente, que pratica a conduta de tráfico, financia a atividade criminosa, isto é, ele utiliza seus recursos para comprar a droga, por isso terá sua pena aumentada. Não haverá concurso material entre os delitos de tráfico e financiamento para o tráfico. Nesse sentido, o Info 534 do STJ, com a excelente explicação do Dizer o Direito: Se o agente financia ou custeia o tráfico, mas não pratica nenhum verbo do art. 33: responderá apenas pelo art. 36 da Lei de Drogas. Se o agente, além de financiar ou custear o tráfico, também pratica algum verbo do art. 33: responderá apenas pelo art. 33 c/c o art. 40, VII da Lei de Drogas (não será condenado pelo art. 36). STJ. 6ª Turma. REsp 1290296-PR, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 17/12/2013 (Info 534).14 O agente que atua diretamente na traficância, executando, pessoalmente, as condutas tipificadas no art. 33 e que também financia a aquisição das drogas, deve responder apenas pelo crime previsto no art. 33 com a causa de aumento prevista no art. 40, VII, sendo afastado o crime do art. 36. O financiamento ou custeio ao tráfico ilícito de drogas (art. 36) é delito autônomo aplicável somente ao agente que NÃO tem participação direta na execução do tráfico, limitando-se a fornecer os recursos necessários para subsidiar a mercancia. Ao prever como delito autônomo a atividade de financiar ou custear o tráfico (art. 36), o objetivo do legislador foi estabelecer uma exceção à teoria monista e punir o agente que não tem participação direta na execução no tráfico e que se limitada a fornecer dinheiro ou bens para subsidiar a mercancia, sem praticar qualquer conduta do art. 33. 14 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Financiamento do tráfico e assemelhados (art. 36). Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 15/03/2024. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 47 Assim, nas hipóteses em que ocorre o AUTOFINANCIAMENTO para o tráfico ilícito de drogas, como no caso concreto, não há que se falar em concurso material entre os crimes dos arts. 33 e 36, devendo o agente ser condenado pela pena do tráfico (art. 33), com a causa de aumento de pena do art. 40, VII, da Lei de Drogas. Se o agente que faz autofinanciamento fosse condenado pelos arts. 33 e 36, haveria bis in idem. Além disso, seria possível chegar à conclusão de que o art. 40, VII, nunca poderia ser aplicado em conjunto com o art. 33. Ante todo exposto, em síntese, tem-se que: 1) Se o agente financia ou custeia o tráfico, mas não pratica nenhum verbo do art. 33, responderá apenas pelo art. 36 da Lei de Drogas; 2) Se o agente, além de financiar ou custear o tráfico, também pratica algum verbo do art. 33, responderá apenas pelo art. 33 c/c o art. 40, VII da Lei de Drogas (não será condenado pelo art. 36). Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-TO - Promotor de Justiça - CESPE - 2022): O agente que atuar diretamente na traficância e também financiar ou custear a aquisição de drogas ilícitas responderá pelos dois crimes correspondentes, em concurso material. Errado. (MPE-RS - Promotor de Justiça - MPE-RS - 2021): O agente que atua diretamente na traficância e que também financia ou custeia a aquisição de drogas deve responder pelo crime previsto no artigo 33, caput, com a incidência da causa de aumento de pena prevista no artigo 40, inciso VII, ambos da Lei nº 11.343/2006, afastando-se, por consequência, a conduta autônoma prevista no artigo 36 do mesmo ato normativo. Correto. (DPE-GO – Defensor Público – FCC – 2021): No crime de tráfico ilícito de entorpecentes, a participação daquele que meramente custeia a prática docrime é circunstância atenuante da pena. Errado. 17. ART. 37 - INFORMANTE COLABORADOR Art. 37. Colaborar, como informante, com grupo, organização ou associação destinados à prática de qualquer dos crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1o, e 34 desta Lei: Pena - reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e pagamento de 300 (trezentos) a 700 (setecentos) dias-multa. Para a caracterização do crime do art. 37 da LD, não basta a colaboração para o tráfico. Exige-se que o agente colabore para o grupo, organização ou associação voltados ao tráfico. O informante colaborador não integra o grupo, organização ou associação, apenas auxilia no desempenho de suas atividades. Caso fosse um integrante, praticaria o crime do art. 35 da LD. Cita-se, como exemplo, o fogueteiro (pessoa que avisa quando a droga chegou). CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 48 Como o tema foi cobrado em concurso? (PC-RN – Delegado – FGV – 2021): Após receber informação de que uma grande quantidade de droga estaria chegando a certa comunidade, a polícia civil planejou uma operação objetivando a apreensão do material entorpecente e a prisão de vários traficantes. Joaquim, policial civil lotado na delegacia em que a operação era planejada, no momento de sua execução, ciente de que o líder do tráfico do local era um antigo colega de infância, acende, escondido, fogos de artifício que ficavam na comunidade para acionamento em diligências policiais. Em razão do aviso, a diligência tem resultado negativo, ninguém sendo preso e não sendo apreendida qualquer droga. O comportamento de Joaquim foi descoberto, devendo ele responder pelo crime de colaboração ou informante do tráfico. Certo COLABORADOR FUNCIONÁRIO PÚBLICO Caso o informante colaborador seja funcionário público: 1) Se não tiver solicitado nem recebido qualquer vantagem indevida, deve responder pelo crime do art. 37 da LD, com a majorante prevista no art. 40, II; 2) Se tiver solicitado ou recebido vantagem indevida, responderá pelo art. 37 em concurso material com o crime de corrupção passiva (art. 317 do CP). Nesse caso, não haverá a incidência da majorante do art. 40, II, da LD, considerando que a condição de servidor público já foi utilizada para caracterizar o crime do art. 317. ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO E SUBSIDIARIEDADE Caso o agente integre a associação, irá responder pelo art. 35 da LD. Não há concurso de crimes entre os arts. 35 e 37 da LD, consoante precedente do STJ: É possível que alguém seja condenado pelo art. 35 e, ao mesmo tempo, pelo art. 37, da Lei de Drogas em concurso material, sob o argumento de que o réu era associado ao grupo criminoso e que, além disso, atuava também como “olheiro”? NÃO. Segundo decidiu o STJ, nesse caso, ele deverá responder apenas pelo crime do art. 35 (sem concurso material com o art. 37 Considerar que o informante possa ser punido duplamente (pela associação e pela colaboração com a própria associação da qual faça parte), contraria o princípio da subsidiariedade e revela indevido bis in idem, punindo-se, de forma extremamente severa, aquele que exerce função que não pode ser entendida como a mais relevante na divisão de tarefas do mundo do tráfico. STJ. 5ª Turma. HC 224849-RJ, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 11/6/2013 (Info 527).15 18. CAUSAS DE AUMENTO DA PENA 15 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Informante do tráfico (art. 37). Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 15/03/2024. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 49 As causas de aumento de pena estão previstas no art. 40 da LD, aplicando-se apenas aos crimes dos arts. 33 a 37 da LD, razão pela qual serão analisados os crimes dos arts. 38 e 39 em momento posterior. Art. 40. As penas previstas nos arts. 33 a 37 desta Lei são aumentadas de um sexto a dois terços, se: I - a natureza, a procedência da substância ou do produto apreendido e as circunstâncias do fato evidenciarem a transnacionalidade do delito; II - o agente praticar o crime prevalecendo-se de função pública ou no desempenho de missão de educação, poder familiar, guarda ou vigilância; III - a infração tiver sido cometida nas dependências ou imediações de estabelecimentos prisionais, de ensino ou hospitalares, de sedes de entidades estudantis, sociais, culturais, recreativas, esportivas, ou beneficentes, de locais de trabalho coletivo, de recintos onde se realizem espetáculos ou diversões de qualquer natureza, de serviços de tratamento de dependentes de drogas ou de reinserção social, de unidades militares ou policiais ou em transportes públicos; IV - o crime tiver sido praticado com violência, grave ameaça, emprego de arma de fogo, ou qualquer processo de intimidação difusa ou coletiva; V - caracterizado o tráfico entre Estados da Federação ou entre estes e o Distrito Federal; VI - sua prática envolver ou visar a atingir criança ou adolescente ou a quem tenha, por qualquer motivo, diminuída ou suprimida a capacidade de entendimento e determinação; VII - o agente financiar ou custear a prática do crime. APLICABILIDADE As causas de aumento de pena são aplicadas ao tráfico de drogas, bem como aos crimes ligados ao tráfico (associação, financiamento, colaboração). Não incidem nos crimes dos arts. 28, 28 e 29 da Lei de Drogas. Incidem na terceira fase da pena e, por isso, a pena pode ser fixada acima do máximo legal. TRANSNACIONALIDADE (INC. I) Art. 40, I - a natureza, a procedência da substância ou do produto apreendido e as circunstâncias do fato evidenciarem a transnacionalidade do delito. Trata-se do tráfico internacional de drogas, caracterizado pela natureza, pela procedência ou pelas circunstâncias do fato. Percebe-se que o tráfico internacional não é um delito autônomo, de modo que o agente responde, em regra, pelo art. 33, caput, com a causa de aumento do inc. I, do art. 40 da LD. 18.2.1. Transposição da fronteira Para incidir a causa de aumento de pena, não é necessário que a droga tenha saído do Brasil. Basta que haja circunstância indicativa que a droga sairia do país. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 50 Nesse sentido, a Súmula 607 do STJ: Súmula 607 do STJ: A majorante do tráfico transnacional de drogas (art. 40, I, da Lei n. 11.343/2006) configura-se com a prova da destinação internacional das drogas, ainda que não consumada a transposição de fronteiras. 18.2.2. Competência É de competência da Justiça Federal, nos termos do art. 70 da LD: Art. 70. O processo e o julgamento dos crimes previstos nos arts. 33 a 37 desta Lei, se caracterizado ilícito transnacional, são da competência da Justiça Federal. Caso a droga tenha sido importada pela via postal, a competência será do local em que a substância for apreendida ou do local do destino da droga?16 Importação da droga via postal (Correios) Tráfico transnacional de drogas (art. 33 c/c art. 40, I, da Lei nº 11.343/2006) A competência será do local onde a droga foi apreendida ou do local de destino da droga? Entendimento anterior do STJ: Local de apreensão da droga Entendimento atual do STJ: Local de destino da droga Essa posição estava manifestada na Súmula 528 do STJ, aprovada em 13/05/2015: Súmula 528 do STJ: Compete ao juiz federal do local da apreensão da droga remetida do exterior pela via postal processar e julgar o crime de tráfico internacional. Na hipótese de importação da droga via correio cumulada com o conhecimento do destinatário por meio do endereço aposto na correspondência, a Súmula 528/STJ deve ser flexibilizada para se fixar a competência no Juízo do local de destino da droga, em favor da facilitação da fase investigativa, da busca da verdade e da duração razoável do processo. STJ. 3ª Seção. CC 177.882-PR, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, julgado em26/05/2021 (Info 698). Argumentos desse antigo entendimento: O CPP prevê que a competência é definida pelo local em que o crime se consumar: Art. 70. A competência será, de regra, determinada pelo lugar em que se consumar a infração, ou, no caso de tentativa, pelo lugar em que for praticado o último ato de execução. A conduta prevista no art. 33, caput, da Lei nº 11.343/2006 constitui delito formal, multinuclear, sendo que, para sua Argumentos do novo entendimento: O primeiro argumento decorre do bom senso. Em São Paulo desembarca a maioria das remessas importadas, via correios, do exterior. A existência de destinatário certo e devidamente identificado colocaria a Polícia Federal lotada no Estado de São Paulo para investigar indivíduo que residisse, v.g., em Porto Alegre, em Boa Vista, em Cuiabá etc. Enfim, em qualquer lugar do Brasil para onde a encomenda estivesse endereçada. Isso 16 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Compete ao Juízo Federal do endereço do destinatário da droga, importada via Correio, processar e julgar o crime de tráfico internacional. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 15/03/2024. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 51 consumação, basta a execução de qualquer das condutas previstas no dispositivo legal. No caso em tela, a pessoa que encomendou a droga praticou o verbo “importar”, que significa “fazer vir de outro país, estado ou município; trazer para dentro.” Logo, pode-se afirmar que o delito se consumou no instante em que o produto importado tocou o território nacional, entrada essa consubstanciada na apreensão da droga. Vale ressaltar que, para que ocorra a consumação do delito de tráfico transnacional de drogas, é desnecessário que a correspondência chegue ao destinatário final. Se chegar, haverá mero exaurimento da conduta. A consumação (importação) ocorreu quando a encomenda entrou no território nacional. Dessa forma, o delito se consumou no local de entrada da mercadoria, sendo esse o juízo competente, nos termos do art. 70 do CPP. dificultaria sobremaneira as investigações, quando não as inviabilizasse por completo. O segundo argumento decorre da regra que define a competência pelo lugar em que efetivamente se consuma a infração, circunstância esta essencial para a fixação da competência, nos termos do art. 70, do CPP. Para que haja a remessa da droga ao Brasil, é necessário que o importador entabule um negócio (evidentemente ilícito). Não é crível, ainda mais no âmbito do tráfico internacional, que alguém remeta drogas para o Brasil gratuitamente ou ofereça essa remessa como um presente sem ônus. É evidente que há um negócio espúrio preliminar à remessa do entorpecente. Assim, quando o importador acerta a remessa do entorpecente, efetua o pagamento do preço e se cerca dos cuidados para que receba o produto, o negócio se encontra aperfeiçoado, dependendo o seu êxito integral, tão somente, do efetivo recebimento da droga. Desse modo, a consumação da importação da droga ocorre no momento da entabulação do negócio jurídico. Logo, o local de apreensão da mercadoria em trânsito não se confunde com o local da consumação do delito, o qual já se encontrava perfeito e acabado desde a negociação. A ementa oficial do julgado fala em “flexibilização da Súmula 528 do STJ”: (...) 7. A fixação da competência no local de destino da droga, quando houver postagem do exterior para o Brasil com o conhecimento do endereço designado para a entrega, proporcionará eficiência da colheita de provas relativamente à autoria e, consequentemente, também viabilizará o exercício da defesa de forma mais ampla. Em suma, deve ser estabelecida a competência no Juízo do local de destino do entorpecente, mediante flexibilização da Súmula n. 528/STJ, em favor da facilitação da fase investigativa, da busca da verdade e da duração razoável do processo. Em suma: Na hipótese de importação da droga via correio cumulada com o conhecimento do destinatário por meio do endereço aposto na correspondência, a Súmula 528/STJ deve ser flexibilizada para se fixar a competência no Juízo do local de destino da droga, em favor da facilitação da fase investigativa, da busca da verdade e da duração razoável do processo. STJ. 3ª Seção. CC 177.882-PR, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, julgado em 26/05/2021 (Info 698). CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 52 Logo, para fins de concurso público, adota-se a expressão “flexibilização da Súmula 528 do STJ”. É mister salientar, contudo, que em 25/02/2022, após o julgamento acima, o STJ decidiu cancelar formalmente a Súmula 528. Portanto, a Súmula 528 do STJ está formalmente cancelada. Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-GO - Promotor de Justiça - FGV - 2022): Para configuração da majorante da transnacionalidade (Art. 40, inciso I, da Lei nº 11.343/2006), a persecução penal deve demonstrar elementos concretos aptos de que o agente pretendia disseminar a droga no exterior, sendo dispensável ultrapassar as fronteiras que dividem as nações. Correto. AGENTES (INC. II) Art. 40, II - o agente praticar o crime prevalecendo-se de função pública ou no desempenho de missão de educação, poder familiar, guarda ou vigilância. Os crimes da Lei de Drogas são comuns, não exigem uma qualidade especial do agente. Contudo, as penas serão aumentadas quando o delito for praticado por certos agentes, sendo eles: 1) O agente que pratica o crime prevalecendo-se de sua função pública; 2) O agente que pratica o crime no desempenho de missão de educação; 3) O agente que pratica o crime no exercício do poder familiar, guarda ou vigilância. LOCAL EM QUE O CRIME FOR COMETIDO (INC. III) Art. 40, III - a infração tiver sido cometida nas dependências ou imediações de estabelecimentos prisionais, de ensino ou hospitalares, de sedes de entidades estudantis, sociais, culturais, recreativas, esportivas, ou beneficentes, de locais de trabalho coletivo, de recintos onde se realizem espetáculos ou diversões de qualquer natureza, de serviços de tratamento de dependentes de drogas ou de reinserção social, de unidades militares ou policiais ou em transportes públicos. 18.4.1. Fundamento A majorante fundamenta-se na difusão do dano e na maior potencialidade do delito, sua extensão nas referidas localidades. Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-TO - Promotor de Justiça - CESPE - 2022): O rol de ambientes disposto no inciso III do art. 40, que enseja majoração da pena aplicada por crime previsto na Lei Antidrogas, é taxativo e tem por objetivo proteger espaços que promovam a aglomeração de pessoas, circunstância que facilita a ação criminosa. Errado. 18.4.2. Estabelecimento prisional CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 53 Para o STF, não é necessário que a droga seja destinada à difusão dentro do estabelecimento prisional. Basta que seja apreendida no local. Não é necessário que a droga passe por dentro do presídio para que incida a majorante prevista no art. 40, III, da Lei nº 11.343/2006. Esse dispositivo não faz a exigência de que as drogas efetivamente passem por dentro dos locais que se busca dar maior proteção, mas apenas que o cometimento dos crimes tenha ocorrido em seu interior. STJ. 5ª Turma. HC 440.888-MS, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, julgado em 15/10/2019 (Info 659).17 Como o tema foi cobrado em concurso? (MPDFT - Promotor de Justiça - MPDFT - 2021): Configura a causa de aumento de pena de ter sido a infração realizada nas dependências ou imediações de estabelecimento prisionais, a conduta de indivíduo preso no sistema carcerário movimentar volume de entorpecentes e realizar negociações de tráfico por telefone, mesmo que nenhuma droga tenha entrado dentro do presídio. Correto. 18.4.3. Transporte público A49 TRANSNACIONALIDADE (INC. I) ...................................................................................... 49 18.2.1. Transposição da fronteira ............................................................................................ 49 18.2.2. Competência ................................................................................................................ 50 AGENTES (INC. II) .............................................................................................................. 52 LOCAL EM QUE O CRIME FOR COMETIDO (INC. III) .................................................... 52 18.4.1. Fundamento ................................................................................................................. 52 18.4.2. Estabelecimento prisional ............................................................................................ 52 18.4.3. Transporte público ....................................................................................................... 53 18.4.4. Imediações de estabelecimento de ensino ................................................................. 53 18.4.5. Imediações de Igreja .................................................................................................... 54 MODO COMO O CRIME FOI PRATICADO (INC. IV) ........................................................ 55 TRÁFICO INTERESTADUAL.............................................................................................. 55 ENVOLVENDO CRIANÇAS E ADOLESCENTES ............................................................. 57 19. COLABORAÇÃO EFICAZ (ART. 41) ..................................................................................... 58 20. CRIME CULPOSO (ART. 38) ................................................................................................. 59 21. CONDUÇÃO DE EMBARCAÇÃO OU AERONAVE APÓS O CONSUMO DE DROGA ...... 59 22. PROCEDIMENTO POLICIAL ................................................................................................. 60 LAVRATURA DO APF ........................................................................................................ 60 CONCLUSÃO DO INQUÉRITO .......................................................................................... 61 23. DESTRUIÇÃO DAS DROGAS APREENDIDAS .................................................................... 62 COM PRISÃO EM FLAGRANTE (ART. 50) ....................................................................... 62 SEM PRISÃO EM FLAGRANTE (ART. 50-A) .................................................................... 62 24. PROCEDIMENTOS INVESTIGATÓRIOS ESPECIAIS (ART. 53) ........................................ 63 AGENTE INFILTRADO (INC. I) .......................................................................................... 63 AÇÃO CONTROLADA (INC. II) .......................................................................................... 63 25. INTERROGATÓRIO DO RÉU ................................................................................................ 63 26. APREENSÃO, ARRECADAÇÃO E DESTINAÇÃO DE BENS DO ACUSADO .................... 65 27. JURISPRUDÊNCIA EM TESE ............................................................................................... 68 CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 3 APRESENTAÇÃO Olá! Inicialmente gostaríamos de agradecer a confiança em nosso material. Esperamos que seja útil na sua preparação, em todas as fases. Quanto mais contato temos com uma mesma fonte de estudo, mais familiarizados ficamos, o que ajuda na memorização e na compreensão da matéria. O Caderno Legislação Penal Especial possui como base as aulas dos professores Renato Brasileiro, Cleber Masson e Vinícius Marçal, complementadas com as aulas do Professor Fábio Roque (CERS). Três livros foram utilizados para complementar nosso CS de Legislação Penal Especial: a) Legislação Criminal para Concursos (Fábio Roque, Nestor Távora e Rosmar Rodrigues Alencar), ano 2018, b) Legislação Criminal Comentada (Renato Brasileiro), ano 2020, ambos da Editora Juspodivm e c) Lei de Drogas - Aspectos Penais e Processuais (Cleber Masson e Vinícius Marçal, ano 2021, da Editora Gen. Na parte jurisprudencial, utilizamos os informativos do site Dizer o Direito (www.dizerodireito.com.br), os livros: Principais Julgados STF e STJ Comentados, Vade Mecum de Jurisprudência Dizer o Direito, Súmulas do STF e STJ anotadas por assunto (Dizer o Direito). Destacamos: é importante você se manter atualizado com os informativos, reserve um dia da semana para ler no site do Dizer o Direito. Ademais, no Caderno constam os principais artigos da lei, mas, ressaltamos, que é necessária leitura conjunta do seu Vade Mecum, muitas questões são retiradas da legislação. Como você pode perceber, reunimos em um único material diversas fontes (aulas + doutrina + informativos + súmulas + lei seca + questões) tudo para otimizar o seu tempo e garantir que você faça uma boa prova. Por fim, como forma de complementar o seu estudo, não esqueça de fazer questões. É muito importante! As bancas costumam repetir certos temas. Vamos juntos! Bons estudos! Equipe Cadernos Sistematizados. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 4 LEI DE DROGAS - 11.343/2006 1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS A Lei 11.343/2006, também denominada de Lei de Drogas (LD), trata de forma integral (material e processual) toda a sistemática penal envolvendo drogas. Além disso, revogou expressamente as Leis 6.368/76 e 10.409/2002: Art. 75. Revogam-se a Lei n° 6.368, de 21 de outubro de 1976, e a Lei n° 10.409, de 11 de janeiro de 2002. Destaca-se que, anteriormente, a Lei 6.368/76 regulava a sistemática das drogas, sendo editada em 2002 a Lei 10.409/2002, a qual teve sua parte material (crimes e penas) integralmente vetada pelo Presidente da República, prevalecendo apenas sua parte processual. Assim, havia, até a edição da Lei 11.343/2006, duas leis que tratavam sobre o tema, uma dispondo sobre o direito material penal e a outra contendo a parte procedimental. A nova Lei de Drogas criou o SISNAD - Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas: Art. 1o Esta Lei institui o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas - Sisnad; prescreve medidas para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas; estabelece normas para repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas e define crimes. Como o tema foi cobrado em concurso? A Lei nº 11.343/2006 é a atual Lei sobre drogas. Tendo por base os ditames do citado diploma, é correto afirmar que o referido diploma legal institui o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas. Correto. A finalidade do SISNAD é articular, integrar, organizar e coordenar as atividades relacionadas com a prevenção do uso indevido, a atenção e a reinserção social de usuários e dependentes de drogas e a repressão da produção não autorizada e do tráfico ilícito de drogas. Em 2019, a Lei 13.840/2019 incluiu os §§ 1º e 2º ao art. 3º da Lei de Drogas: Art. 3º, § 1º Entende-se por Sisnad o conjunto ordenado de princípios, regras, critérios e recursos materiais e humanos que envolvem as políticas, planos, programas, ações e projetos sobre drogas, incluindo-se nele, por adesão, os Sistemas de Políticas Públicas sobre Drogas dos Estados, Distrito Federal e Municípios. § 2º O Sisnad atuará em articulação com o Sistema Único de Saúde - SUS, e com o Sistema Único de Assistência Social - SUAS. Outrossim, destaca-se que a Lei de Drogas substituiu a expressão “substâncias entorpecentes” por DROGAS. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L6368.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/2002/L10409.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/2002/L10409.htm CS - LEI DE DROGAScausa de aumento de pena irá incidir apenas quando a intenção do agente for a de vender a droga no transporte público. Assim, se o agente leva a droga em transporte público, mas não a comercializa dentro do meio de transporte, incidirá essa majorante? NÃO. A majorante do art. 40, III, da Lei 11.343/2006 somente deve ser aplicada nos casos em que ficar demonstrada a comercialização efetiva da droga em seu interior. É a posição majoritária no STF e STJ. 18.4.4. Imediações de estabelecimento de ensino A prática do delito de tráfico de drogas nas proximidades de estabelecimentos de ensino (art. 40, III, da Lei 11.343/06) enseja a aplicação da majorante, sendo desnecessária a prova de que o ilícito visava atingir os frequentadores deste local. Para a incidência da majorante prevista no art. 40, inciso III, da Lei 11.343/2006 é desnecessária a efetiva comprovação de que a mercancia tinha por objetivo atingir os estudantes, sendo suficiente que a prática ilícita tenha ocorrido em locais próximos, ou seja, nas imediações de tais estabelecimentos, diante da exposição de pessoas ao risco inerente à atividade criminosa da narcotraficância. Não incide a causa de aumento de pena prevista no art. 40, inciso III, da Lei 11.343/2006, se a prática de narcotraficância ocorrer em dia e horário em que não facilite a prática criminosa e a disseminação de drogas em área de maior aglomeração de pessoas. Por exemplo, se o tráfico de drogas é praticado no domingo de madrugada, dia e horário em que o estabelecimento de ensino não estava funcionando, não deve incidir a majorante. 17 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Não é necessário que a droga passe por dentro do presídio para que incida a majorante prevista no art. 40, III, da Lei 11.343/2006. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 15/03/2024. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 54 No mesmo sentido, destaca-se que também não incide a causa de aumento de pena se o crime foi praticado nas proximidades de escola fechada em razão da COVID-19, de acordo com posicionamento adotado pelo STJ nos seguintes termos: No delito de tráfico de drogas praticado nas proximidades ou nas imediações de estabelecimento de ensino, pode-se, excepcionalmente, em razão das peculiaridades do caso concreto, afastar a incidência da majorante prevista no art. 40, III, da Lei nº 11.343/2006. A razão de ser da causa especial de aumento de pena prevista no inciso III do art. 40 da Lei nº 11.343/2006 é a de punir, com maior rigor, aquele que, nas imediações ou nas dependências dos locais a que se refere o dispositivo, dada a maior aglomeração de pessoas, tem como mais ágil e facilitada a prática do tráfico de drogas, justamente porque, em localidades como tais, é mais fácil ao traficante passar despercebido à fiscalização policial, além de ser maior o grau de vulnerabilidade das pessoas reunidas em determinados lugares. Na espécie, não ficou evidenciado nenhum benefício advindo ao réu com a prática do delito nas proximidades ou nas imediações de estabelecimento de ensino – o ilícito foi perpetrado em momento em que as escolas estavam fechadas por conta das medidas restritivas de combate à COVID-19 – e se também não houve uma maximização do risco exposto àqueles que frequentam a escola (alunos, pais, professores, funcionários em geral), deve, excepcionalmente, em razão das peculiaridades do caso concreto, ser afastada a incidência da referida majorante. STJ. 6ª Turma. AgRg no HC 728750-DF, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 17/05/2022 (Info 738). 18.4.5. Imediações de Igreja Há 2 correntes acerca da incidência da causa de aumento em caso de tráfico de drogas cometido nas dependências ou nas imediações de igreja: 1) 1ª Corrente: NÃO há incidência. Entende-se que o tráfico de drogas cometido em local próximo a igrejas não foi contemplado pelo legislador no rol das majorantes previstas no inciso III do art. 40 da Lei 11.343/2006, não podendo, portanto, ser utilizado com esse fim tendo em vista que no Direito Penal incriminador não se admite a analogia in malam partem. Caso o legislador quisesse punir de forma mais gravosa também o fato de o agente cometer o delito nas dependências ou nas imediações de igreja, teria feito expressamente, assim como fez em relação aos demais locais. Trata-se de posicionamento adotado pela 6ª Turma do STJ no HC 528851-SP, julgado em 05/05/2020 (Info 671), sendo a corrente que prevalece. Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-RJ - Promotor - VUNESP - 2024): Ao tráfico de entorpecentes praticado no âmbito de Igreja, pelo princípio da reserva legal, não incide a causa de aumento prevista no art. 40, inciso III, da Lei no 11.345/2006 (que estabelece a majorante em razão do local em que praticado o crime). Correto. 2) 2ª Corrente: há SIM incidência. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 55 Justificada a incidência da causa de aumento prevista no art. 40, inciso III, da Lei 11.343/2006, uma vez consta nos autos a existência de igreja evangélica a aproximadamente 23 metros de distância do local onde a traficância era realizada. Foi o entendimento firmado pela 5ª Turma do STJ no AgRg no HC 668934/MG, julgado em 22/06/2021. Obs.: com relação ao caso concreto envolvendo o AgRg no HC 668934/MG, salienta-se que além de uma igreja evangélica, o local também funcionava como entidade social, de modo que se amoldava no inciso III por esse outro motivo. MODO COMO O CRIME FOI PRATICADO (INC. IV) Art. 40, IV - o crime tiver sido praticado com violência, grave ameaça, emprego de arma de fogo, ou qualquer processo de intimidação difusa ou coletiva. A violência não precisa ser no momento em que a droga for vendida. TRÁFICO INTERESTADUAL Art. 40, V - caracterizado o tráfico entre Estados da Federação ou entre estes e o Distrito Federal. Aqui, o legislador não cometeu o mesmo erro que ocorre na recepção, por exemplo, ao não fazer referência ao DF. Não é necessário que ocorra a transposição das fronteiras, bastando que as circunstâncias demonstrem que isso iria ocorrer, consoante apontado pelo STF: Para que incida a causa de aumento de pena prevista no inciso V do art. 40, não se exige a efetiva transposição da fronteira interestadual pelo agente, sendo suficiente a comprovação de que a substância tinha como destino localidade em outro Estado da Federação. STF. 1ª Turma. HC 122791/MS, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 17/11/2015 (Info 808).18 O STJ segue o entendimento do STF, tendo, inclusive, editado uma súmula sobre o assunto: Súmula 587 do STJ: Para a incidência da majorante prevista no artigo 40, V, da Lei 11.343/06, é desnecessária a efetiva transposição de fronteiras entre estados da federação, sendo suficiente a demonstração inequívoca da intenção de realizar o tráfico interestadual. INDAGA-SE: é possível a incidência desta majorante e, ao mesmo tempo, a incidência da causa de aumento da transnacionalidade? Depende. Se a droga chegar ao Brasil e era destinada a ser difundida 18 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Súmula 587-STJ. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 15/03/2024. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 56 em mais de um Estado, aplicar-se-á as duas majorantes. Se droga ao chegar ao Brasil, passa por mais de um Estado, mas seu destino era um único Estado, aplicar-se-á apenas a causa de aumento do tráfico internacional. Nesse sentido, o Info 586 do STJ define que as causas especiais de aumento da pena relativas à transnacionalidade e à interestadualidade do delito, previstas, respectivamente, nos incisos I e V do art. 40 da Lei de Drogas, até podem ser aplicadas simultaneamente, desdeque demonstrada que a intenção do acusado que importou a substância era a de pulverizar a droga em mais de um Estado do território nacional. Se isso não ficar provado, incide apenas a transnacionalidade. Assim, é inadmissível a aplicação simultânea das causas de aumento da transnacionalidade (art. 40, I) e da interestadualidade (art. 40, V) quando não ficar comprovada a intenção do importador da droga de difundi-la em mais de um Estado-membro. O fato de o agente, por motivos de ordem geográfica, ter que passar por mais de um Estado para chegar ao seu destino final não é suficiente para caracterizar a interestadualidade. Tráfico Interestadual Tráfico Transnacional Tráfico Interestadual + Tráfico Transnacional Majorante Majorante Possibilidade de incidência das duas majorantes Art. 40, V - caracterizado o tráfico entre Estados da Federação ou entre estes e o Distrito Federal. Art. 40, I - a natureza, a procedência da substância ou do produto apreendido e as circunstâncias do fato evidenciarem a transnacionalidade do delito; 1) Se a droga chegar ao Brasil e era destinada a ser difundida em mais de um Estado – Aplica-se as duas majorantes. 2) Se droga ao chegar ao Brasil, passa por mais de um Estado, mas seu destino era um único Estado – Aplica-se só uma majorante (art. 40, I). Conclusão: A aplicação simultânea das causas de aumento da transnacionalidade (art. 40, I) e da interestadualidade (art. 40, V) só ocorre quando comprovada a intenção do importador da droga de difundi-la em mais de um Estado-membro. Como o tema foi cobrado em concurso? (TJ-GO - Juiz - FCC - 2021): Para a incidência da majorante do art. 40, V, da Lei n° 11.343/2006, é desnecessária a efetiva transposição de fronteiras, CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 57 bastando a demonstração inequívoca da intenção de realizar o tráfico interestadual, e, se além dela, houver a incidência de outra circunstância elencada no mesmo artigo, possível a aplicação de acréscimo acima da fração mínima com base apenas no número de causas de aumento identificadas. Errado. ENVOLVENDO CRIANÇAS E ADOLESCENTES Art. 40, VI - sua prática envolver ou visar a atingir criança ou adolescente ou a quem tenha, por qualquer motivo, diminuída ou suprimida a capacidade de entendimento e determinação. Praticar um crime na companhia de menores, além das sanções do delito, enseja o crime de corrupção de menores, em concurso. Em relação aos crimes dos arts. 33 a 37 da LD, quando o maior pratica um crime juntamente com um menor, não é possível aplicar as sanções do delito de corrupção de menores, em razão do princípio da especialidade (art. 44, VI da LD). Nesse sentido, o entendimento consolidado pela 6ª Turma do STJ no REsp 1622781-MT, julgado em 22/11/2016 (Info 595)19, foi no sentido de que caso delito praticado pelo agente e pelo menor de 18 anos não esteja previsto nos arts. 33 a 37 da Lei de Drogas, o réu responderá pelo crime praticado e também pelo delito do art. 244-B do ECA (corrupção de menores). Todavia, caso o delito praticado pelo agente e pelo menor de 18 anos seja o art. 33, 34, 35, 36 ou 37 da Lei 11.343/2006, ele responderá apenas pelo crime da Lei de Drogas com a causa de aumento de pena do art. 40, VI. Não será punido pelo art. 244-B do ECA para evitar bis in idem. Em síntese: na hipótese de o delito praticado pelo agente e pelo menor de 18 anos não estar previsto nos arts. 33 a 37 da Lei de Drogas, o réu poderá ser condenado pelo crime de corrupção de menores, porém, se a conduta estiver tipificada em um desses artigos (33 a 37), não será possível a condenação por aquele delito, mas apenas a majoração da sua pena com base no art. 40, VI, da Lei 11.343/2006. Caso o delito praticado pelo agente e pelo menor de 18 anos NÃO esteja previsto nos arts. 33 a 37 da Lei de Drogas, o réu ... ... responderá pelo crime praticado e também pelo delito do art. 244-B do ECA (corrupção de menores). Caso o delito praticado pelo agente e pelo menor de 18 anos seja o art. 33, 34, 35, 36 ou 37 da Lei de Drogas, ele ... ... responderá apenas pelo crime da Lei de Drogas com a causa de aumento de pena do art. 40, VI. 19 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Agente que pratica delitos da Lei de Drogas envolvendo criança ou adolescente responde também por corrupção de menores?. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 15/03/2024. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 58 Não será punido pelo art. 244-B do ECA para evitar bis in idem. STJ. 6ª Turma. REsp 1622781-MT, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 22/11/2016 (Info 595). 19. COLABORAÇÃO EFICAZ (ART. 41) Possui a seguinte redação legal: Art. 41. O indiciado ou acusado que colaborar voluntariamente com a investigação policial e o processo criminal na identificação dos demais coautores ou partícipes do crime e na recuperação total ou parcial do produto do crime, no caso de condenação, terá pena reduzida de um terço a dois terços. Segundo Masson, trata-se de uma manifestação do Direito Penal premial. Significa dizer que o criminoso arrependido que colabora com o Estado possui direito a um prêmio. Na Lei de Drogas, a colaboração que poderá ser feita tanto na fase investigatória quanto na fase processual, reduzirá a pena de 1/3 a 2/3, desde que: 1) Seja possível identificar a participação dos partícipes; 2) Seja possível recuperar de forma total ou parcial o produto do crime. Destaca-se que só poderá ser reconhecida pelo juiz, na sentença condenatória. Assim, será proferida sentença condenando o agente e, posteriormente, o juiz irá reduzir a pena. Por fim, observa-se o entendimento jurisprudencial acerca dos requisitos legais dispostos no art. 41 da LD: OS REQUISITOS LEGAIS PREVISTOS NO ART. 41 DA LEI DE DROGAS SÃO ALTERNATIVOS OU CUMULATIVOS? 5ª Turma do STJ: são cumulativos 6ª Turma do STJ: são alternativos A jurisprudência desta Corte é no sentido de que a concessão do benefício da delação previsto no art. 41 da Lei n. 11.343/06 (causa de diminuição de pena) depende do preenchimento cumulativo dos requisitos nele descritos, quais sejam, a identificação dos demais coautores ou partícipes do crime e a recuperação total ou parcial do produto do delito. STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp Os requisitos legais previstos no art. 41 da Lei nº 11.343/2006, que trata da causa de diminuição da pena por colaboração premiada, são alternativos e não cumulativos. STJ. 6ª Turma. HC 663.265-SP, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 12/9/2023 (Info 789). CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 59 2.032.118/SP, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, julgado em 28/8/2023. Como o tema foi cobrado em concurso? (PC-PE - Delegado - CESPE - 2024): O indiciado ou acusado que colaborar voluntariamente com a investigação policial e o processo criminal na identificação dos demais coautores ou partícipes do crime e na recuperação total ou parcial do produto do crime, no caso de condenação, terá pena reduzida de um terço a dois terços. Correto. 20. CRIME CULPOSO (ART. 38) Conforme apontado anteriormente, é o único crime culposo da Lei de Drogas: Art. 38. Prescrever ou ministrar, culposamente, drogas, sem que delas necessite o paciente, ou fazê-lo em doses excessivas ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar: Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e pagamento de 50 (cinquenta) a 200 (duzentos) dias-multa. Parágrafo único. O juiz comunicará a condenação ao Conselho Federal da categoria profissional a que pertença o agente. Trata-se de infração de menor potencial ofensivo, que será julgada e processada no JECRIM. Como se percebe pelos núcleos do tipo penal, éum crime próprio, exigindo-se a qualidade especial do agente, pois a conduta de prescrever uma droga só pode ser praticada pelo médico, veterinário ou dentista e conduta de ministrar, além das pessoas acima, só pode ser praticada pelos profissionais da enfermagem ou de farmácia. Salienta-se que se trata de um crime culposo previsto em tipo fechado, pois o legislador descreve expressamente as hipóteses em que a culpa poderá ocorrer, quais sejam: 1) Quando o paciente não necessita da droga; 2) Quando a droga é prescrita ou ministrada em doses excessivas; 3) Quando a droga é prescrita ou ministrada em desacordo com determinação legal ou regulamentar. 21. CONDUÇÃO DE EMBARCAÇÃO OU AERONAVE APÓS O CONSUMO DE DROGA Trata-se de crime de perigo concreto (situação de perigo deve ser provada no caso real), previsto no art. 39 da LD: Art. 39. Conduzir embarcação ou aeronave após o consumo de drogas, expondo a dano potencial a incolumidade de outrem: CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 60 Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 3 (três) anos, além da apreensão do veículo, cassação da habilitação respectiva ou proibição de obtê-la, pelo mesmo prazo da pena privativa de liberdade aplicada, e pagamento de 200 (duzentos) a 400 (quatrocentos) dias-multa. Parágrafo único. As penas de prisão e multa, aplicadas cumulativamente com as demais, serão de 4 (quatro) a 6 (seis) anos e de 400 (quatrocentos) a 600 (seiscentos) dias-multa, se o veículo referido no caput deste artigo for de transporte coletivo de passageiros. Vamos relembrar os conceitos de crime de perigo concreto e perigo abstrato: Crime de Perigo Concreto Crime de Perigo Abstrato Conceito Exige a comprovação efetiva de um perigo real e concreto para o bem jurídico protegido. Presume-se o perigo pela simples realização da conduta, sem a necessidade de comprovação de um risco efetivo. Comprovação do perigo Necessária a prova concreta de que a conduta do agente gerou um risco efetivo ao bem jurídico. Não há necessidade de prova concreta, pois o perigo é presumido pela lei. Justificativa Proteção de bens jurídicos que exigem uma maior comprovação do risco, como o meio ambiente. Proteção de bens jurídicos que, por sua natureza, já envolvem um risco inerente à conduta, como o trânsito. O tipo penal refere-se apenas à aeronave ou à embarcação (de qualquer porte, pois não há especificação na lei). Dessa forma, não se aplica aos casos de condução de veículo automotor em via pública, casos em que será aplicado o art. 306 do CTB: Art. 306. Conduzir veículo automotor com capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool ou de outra substância psicoativa que determine dependência: Penas - detenção, de seis meses a três anos, multa e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor. 22. PROCEDIMENTO POLICIAL LAVRATURA DO APF Para a lavratura do auto de prisão em flagrante, nos termos do art. 50, § 1º, basta que seja feito um laudo de constatação da natureza da droga (materialidade), apontando o tipo e a quantidade da droga. Art. 50, § 1o Para efeito da lavratura do auto de prisão em flagrante e estabelecimento da materialidade do delito, é suficiente o laudo de constatação da natureza e quantidade da droga, firmado por perito oficial ou, na falta deste, por pessoa idônea. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 61 Ressalta-se que o laudo será suficiente para a lavratura do APF, bem como para o oferecimento e o recebimento da denúncia. Mas, por ser precário, não servirá para a condenação do agente, sendo necessário o exame químico-toxicológico. Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-RS - Promotor - MPE-RS - 2023): De acordo com a Lei no 11.343, de 26 de agosto de 2006, o laudo de constatação da natureza e quantidade da droga, para efeito da lavratura do flagrante, pode ser firmado, na falta do perito oficial, por qualquer pessoa idônea, sendo que o perito subscritor do laudo de constatação não ficará impedido de participar da elaboração do laudo definitivo. Correto. Quanto a comprovação da materialidade delitiva, para efeito de condenação, o STJ definiu (Inf. 801), que apreensão e perícia da droga se revelam imprescindíveis para a condenação do acusado pela prática do crime de tráfico de drogas. Conforme extraído do site Dizer o Direito20, imagine o caso hipotético em que a polícia investigava há alguns meses João, Pedro e Tiago, suspeitos de praticarem tráfico de drogas na região. Havia, inclusive, o depoimento de pessoas que afirmaram que adquiram drogas com o grupo. Com base nesses elementos informativos, a polícia requereu a interceptação telefônica dos suspeitos, o que foi deferido. Foram então captadas conversas que indicavam a existência de negociações de drogas entre os membros do grupo, com detalhes sobre venda, compra e oferta de substâncias ilícitas a terceiros. O juiz também autorizou a realização de busca e apreensão nas residências dos suspeitos. Apesar disso, não foram encontradas drogas no local. Com base nos depoimentos dos compradores e nas conversas telefônicas, o Ministério Público estadual denunciou João, Pedro e Tiago por tráfico de drogas (art. 33 da Lei nº 11.343/2006). Em resposta à acusação, dentre outros argumentos, os réus alegaram não haver provas da materialidade dos crimes, pois não foram apreendidas quaisquer substâncias entorpecentes com os acusados e, por consequência, não havia laudo de constatação nem exame químico-toxicológico nos autos. O STJ concordou com os argumentos dos acusados. E decidiu que a apreensão e perícia de drogas se revelam imprescindíveis para a condenação do acusado pela prática do crime de tráfico de drogas. Na ausência de apreensão de substâncias entorpecentes, os demais elementos de prova, por si sós, ainda que em conjunto, não se prestam à comprovação da materialidade delitiva. CONCLUSÃO DO INQUÉRITO O inquérito policial deve ser concluído em: 1) 30 dias: indiciado preso. 20 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. A apreensão e perícia da substância entorpecente é imprescindível para a comprovação da materialidade do crime de tráfico de drogas. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 25/10/2024 CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 62 2) 90 dias: indiciado solto. Os prazos podem ser duplicados pelo juiz, mesmo no caso de indiciado preso, conforme o art. 51 da LD: Art. 51. O inquérito policial será concluído no prazo de 30 (trinta) dias, se o indiciado estiver preso, e de 90 (noventa) dias, quando solto. Parágrafo único. Os prazos a que se refere este artigo podem ser duplicados pelo juiz, ouvido o Ministério Público, mediante pedido justificado da autoridade de polícia judiciária. (TJMS – JUIZ – FCC – 2020): Quanto aos aspectos processuais da Lei de Drogas, correto afirmar que o inquérito policial será concluído no prazo de 30 (trinta) dias, se o indiciado estiver preso, e de 90 (noventa) dias, quando solto, podendo haver duplicação de tais prazos pelo juiz, ouvido o Ministério Público, mediante pedido justificado da autoridade de polícia. Certo 23. DESTRUIÇÃO DAS DROGAS APREENDIDAS A existência de uma droga, por si só, coloca em risco a saúde pública. Assim, quanto mais rapidamente providenciar-se a destruição da droga, melhor. COM PRISÃO EM FLAGRANTE (ART. 50) Art. 50. Ocorrendo prisão em flagrante, a autoridade de polícia judiciária fará, imediatamente, comunicação ao juiz competente, remetendo-lhe cópia do auto lavrado, do qual será dada vista ao órgão do Ministério Público, em 24 (vinte e quatro) horas. § 3o Recebida cópia do auto de prisão em flagrante, o juiz, no prazo de 10 (dez) dias, certificará a regularidade formal dolaudo de constatação e determinará a destruição das drogas apreendidas, guardando-se amostra necessária à realização do laudo definitivo. § 4o A destruição das drogas será executada pelo delegado de polícia competente no prazo de 15 (quinze) dias na presença do Ministério Público e da autoridade sanitária. § 5o O local será vistoriado antes e depois de efetivada a destruição das drogas referida no § 3o, sendo lavrado auto circunstanciado pelo delegado de polícia, certificando-se neste a destruição total delas. Antes da destruição, é preciso guardar uma quantidade para o exame definitivo, bem como para eventual contraprova. O MP irá fiscalizar a destruição da droga, que será feita pelo delegado de polícia. Por fim, o local de destruição será vistoriado antes e após a destruição (o ideal é filmar e fotografar). SEM PRISÃO EM FLAGRANTE (ART. 50-A) CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 63 Art. 50-A. A destruição das drogas apreendidas sem a ocorrência de prisão em flagrante será feita por incineração, no prazo máximo de 30 (trinta) dias contados da data da apreensão, guardando-se amostra necessária à realização do laudo definitivo. Quando a droga for apreendida sem prisão em flagrante, deverá ser destruída, por incineração, em até 30 dias, contados da data da apreensão. 24. PROCEDIMENTOS INVESTIGATÓRIOS ESPECIAIS (ART. 53) Art. 53. Em qualquer fase da persecução criminal relativa aos crimes previstos nesta Lei, são permitidos, além dos previstos em lei, mediante autorização judicial e ouvido o Ministério Público, os seguintes procedimentos investigatórios: I - a infiltração por agentes de polícia, em tarefas de investigação, constituída pelos órgãos especializados pertinentes; II - a não-atuação policial sobre os portadores de drogas, seus precursores químicos ou outros produtos utilizados em sua produção, que se encontrem no território brasileiro, com a finalidade de identificar e responsabilizar maior número de integrantes de operações de tráfico e distribuição, sem prejuízo da ação penal cabível. Parágrafo único. Na hipótese do inciso II deste artigo, a autorização será concedida desde que sejam conhecidos o itinerário provável e a identificação dos agentes do delito ou de colaboradores. São meios especiais, que dependem de autorização judicial, mas que não excluem os meios comuns previstos no CPP. Obs.: a oitiva do MP só será necessária quando o procedimento investigatório especial for solicitado pela autoridade policial. AGENTE INFILTRADO (INC. I) Ocorre quando se infiltra um policial na organização criminosa, o qual está autorizado a praticar fatos típicos, que estarão acobertados pela excludente de ilicitude do estrito cumprimento do dever legal. AÇÃO CONTROLADA (INC. II) É também chamada de flagrante retardado/diferido. A autoridade policial retarda o momento da prisão, com autorização judicial, a fim de que sejam obtidas mais provas e a prisão de mais pessoas. 25. INTERROGATÓRIO DO RÉU CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 64 A Lei de Drogas, em seu art. 57, determina que o interrogatório do réu é o primeiro ato da audiência de instrução: Art. 57. Na audiência de instrução e julgamento, após o interrogatório do acusado e a inquirição das testemunhas, será dada a palavra, sucessivamente, ao representante do Ministério Público e ao defensor do acusado, para sustentação oral, pelo prazo de 20 (vinte) minutos para cada um, prorrogável por mais 10 (dez), a critério do juiz. Parágrafo único. Após proceder ao interrogatório, o juiz indagará das partes se restou algum fato para ser esclarecido, formulando as perguntas correspondentes se o entender pertinente e relevante. Contudo, o CPP, desde 2008, passou a prever que o interrogatório do acusado é o último ato da instrução: Art. 400. Na audiência de instrução e julgamento, a ser realizada no prazo máximo de 60 (sessenta) dias, proceder-se-á à tomada de declarações do ofendido, à inquirição das testemunhas arroladas pela acusação e pela defesa, nesta ordem, ressalvado o disposto no art. 222 deste Código, bem como aos esclarecimentos dos peritos, às acareações e ao reconhecimento de pessoas e coisas, interrogando-se, em seguida, o acusado CPP (art. 400) Lei 11.343/2006 (art. 57) O art. 400 do CP foi alterado pela Lei 11.719/2008 e, atualmente, o interrogatório deve ser feito depois da inquirição das testemunhas e da realização das demais provas. Em suma, o interrogatório passou a ser o último ato da audiência de instrução (segundo a antiga previsão, o interrogatório era o primeiro ato). O art. 57 da Lei de Drogas prevê que, na audiência de instrução e julgamento, o interrogatório do acusado seja feito antes da inquirição das testemunhas. Em suma, o interrogatório é o primeiro ato da audiência de instrução. O que é mais favorável ao réu: ser interrogado antes ou depois da oitiva das testemunhas? Depois. Isso porque após o acusado ouvir o relato trazido pelas testemunhas, ele poderá decidir a versão dos fatos que irá apresentar. Se, por exemplo, avaliar que nenhuma testemunha o apontou como o autor do crime, poderá sustentar a negativa de autoria ou optar pelo direito ao silêncio. Ao contrário, se entender que as testemunhas foram sólidas em incriminá-lo, terá como opção viável confessar e obter a atenuação da pena. Dessa feita, a regra do art. 400 do CPP é mais favorável ao réu do que a previsão do art. 57 da Lei 11.343/2006. Diante dessa constatação, e pelo fato de a Lei 11.719/2008 ser posterior à Lei de Drogas, surgiu uma corrente na doutrina defendendo que o art. 57 foi derrogado e que, também no procedimento da Lei 11.343/2006, o interrogatório deveria ser o último ato da audiência de instrução. Essa tese foi acolhida pela jurisprudência? SIM. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 65 A exigência de realização do interrogatório ao final da instrução criminal, conforme o art. 400 do CPP, é aplicável: 1) Aos processos penais militares; 2) Aos processos penais eleitorais; 3) A todos os procedimentos penais regidos por legislação especial (Ex.: a própria Lei de Drogas). Tal modificação se deu em virtude do HC 127900/AM, julgado pelo STF em 3/3/2016 (Info 816). Vale ressaltar que antes deste julgamento (HC 127900/AM), o entendimento que prevalecia era outro. Por conta disso, o STF, por questões de segurança jurídica, afirmou que a tese fixada (interrogatório como último ato da instrução em todos os procedimentos penais) só se tornou obrigatória a partir da data de publicação da ata deste julgamento, ou seja, do dia 11/03/2016 em diante. Os interrogatórios realizados nos processos penais militares, eleitorais e da Lei de Drogas até o dia 10/03/2016 são válidos mesmo que tenham sido o primeiro ato da instrução. O STJ acompanhou a posição do STF: (...) 1. O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do HC n. 127.900/AM, deu nova conformidade à norma contida no art. 400 do CPP (com redação dada pela Lei n. 11.719/08), à luz do sistema constitucional acusatório e dos princípios do contraditório e da ampla defesa. O interrogatório passa a ser sempre último ato da instrução, mesmo nos procedimentos regidos por lei especial, caindo por terra a solução de antinomias com arrimo no princípio da especialidade. Ressalvou-se, contudo, a incidência da nova compreensão aos processos nos quais a instrução não tenha se encerrado até a publicação da ata daquele julgamento (10.03.2016). In casu, o paciente foi sentenciado em 3.8.2015, afastando-se, pois, qualquer pretensão anulatória. (...) STJ. 6ª Turma. HC 403.550/SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 15/08/2017 (Info 609). Como o tema foi cobrado em concurso? (PC-RJ - Delegado - CESPE - 2022): A audiência de instrução e julgamento será realizada dentro dos sessenta dias seguintes ao recebimento da denúncia,salvo se determinada a realização de avaliação para atestar dependência de drogas, quando a referida audiência se realizará em noventa dias. Errado. 26. APREENSÃO, ARRECADAÇÃO E DESTINAÇÃO DE BENS DO ACUSADO Segundo Cleber Masson, com o objetivo de assegurar a efetividade dos efeitos (civis) da condenação criminal e o pagamento das penas pecuniárias e despesas processuais, a Lei de Drogas, em seu Capítulo IV do Título IV, tratou da apreensão, arrecadação e destinação de bens do acusado, seguindo a lógica de que o crime não deve compensar porque o Estado vai recuperar o patrimônio que deita raízes no delito. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 66 Nesse sentido, dispõe o art. 60 da LD que: Art. 60. O juiz, a requerimento do Ministério Público ou do assistente de acusação, ou mediante representação da autoridade de polícia judiciária, poderá decretar, no curso do inquérito ou da ação penal, a apreensão e outras medidas assecuratórias nos casos em que haja suspeita de que os bens, direitos ou valores sejam produto do crime ou constituam proveito dos crimes previstos nesta Lei, procedendo-se na forma dos arts. 125 e seguintes do Decreto-Lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941 - Código de Processo Penal . Trata-se das medidas assecuratórias relacionadas ao produto (vantagem direta obtida pelo agente em decorrência da prática do crime) ou proveito (é a vantagem indireta do crime) do delito. Em linhas gerais, a cautelar de sequestro se volta para os bens imóveis (art. 125 do CPP) e móveis (art. 132 do CPP) que constituam proveitos do crime (ex.: casas e veículos adquiridos com o dinheiro do narcotráfico). A medida reclama a suspeita da proveniência ilícita dos bens (art. 60, caput, da LD) e tem por escopo garantir o confisco e a reparação do dano. Tratando-se, ao contrário, do produto (ex.: dinheiro obtido com a mercancia), do objeto material (a droga) ou do instrumento do delito (ex.: veículo empregado em prol do narcotráfico), a medida assecuratória adequada a ser tomada pelo Estado é a busca e apreensão. No que se refere à apreensão, de acordo com entendimento adotado pelo STJ, tem-se que a apreensão e perícia da substância entorpecente é imprescindível para a comprovação da materialidade do crime de tráfico de drogas, in verbis: Caso hipotético: A polícia investigava há alguns meses João, Pedro e Tiago, suspeitos de praticarem tráfico de drogas na região. Havia, inclusive, o depoimento de pessoas que afirmaram que adquiram drogas com o grupo. Com base nesses elementos informativos, a polícia requereu a interceptação telefônica dos suspeitos, o que foi deferido. Foram então captadas conversas que indicavam a existência de negociações de drogas entre os membros do grupo, com detalhes sobre venda, compra e oferta de substâncias ilícitas a terceiros. O juiz também autorizou a realização de busca e apreensão nas residências dos suspeitos. Apesar disso, não foram encontradas drogas no local.Com base nos depoimentos dos compradores e nas conversas telefônicas, o Ministério Público estadual denunciou João, Pedro e Tiago por tráfico de drogas (art. 33 da Lei nº 11.343/2006).Em resposta à acusação, dentre outros argumentos, os réus alegaram não haver provas da materialidade dos crimes, pois não foram apreendidas quaisquer substâncias entorpecentes com os acusados e, por consequência, não havia laudo de constatação nem exame químico-toxicológico nos autos. O STJ concordou com os argumentos dos acusados. A apreensão e perícia de drogas se revelam imprescindíveis para a condenação do acusado pela prática do crime de tráfico de drogas. Na ausência de apreensão de substâncias entorpecentes, os demais elementos de prova, por si sós, ainda que em conjunto, não se prestam à comprovação da materialidade delitiva. STJ. 3ª Seção. HC 686.312/MS, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, relator para acórdão Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 12/4/2023. STJ. 5ª Turma.REsp 2.107.251-MG, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 20/2/2024 (Info 801). https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del3689.htm#art125 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del3689.htm#art125 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del3689.htm#art125 CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 67 O sequestro, que pode ser manejado em qualquer fase da persecução penal (art. 127 do CPP), destina-se a evitar que o agente dilapide o seu patrimônio e, com isso, frustre o perdimento e o ressarcimento dos eventuais danos. Trata-se, pois, de diligência com a finalidade de evitar o enriquecimento ilícito do traficante, bem como evitar a lavagem de dinheiro, possibilitando a transformação de dinheiro sujo em dinheiro limpo. De acordo com posicionamento de Masson, o standard necessário para a decretação das medidas assecuratórias com relação ao sequestro no âmbito da Lei de Drogas é menor que o exigido pelo CPP para o sequestro. Com efeito, enquanto a Lei de Drogas se contenta apenas com a suspeita de que os bens, direitos ou valores sejam produto do crime ou constituam proveito dos delitos previstos na Lei 11.343/2006 (art. 60), o CPP reclama a existência de indícios veementes da proveniência ilícita dos bens (art. 126) para a efetivação do sequestro. Ao contrário do que ocorre com o sequestro, o arresto (de imóveis ou móveis) e a especialização da hipoteca legal de imóveis (direito real sobre coisa alheia op lege que não importa em perda da posse, nem da propriedade) são providências acauteladoras incidentes sobre os bens de origem lícita adquiridos pelo sujeito, sem que haja qualquer liame com o delito, e têm por fim assegurar a indenização do ofendido pelos danos causados e o pagamento das despesas judiciais, mediante a indisponibilização de determinado(s) bem. Entretanto, como o sujeito passivo dos crimes previstos na Lei de Drogas é a coletividade (crime vago), em regra, faltarão ofendidos – ressalvados os casos envolvendo os delitos inscritos nos arts. 38 e 39 – legitimados a manejar esses procedimentos na busca por bens do acusado para a garantia de pleito indenizatório. O Ministério Público, contudo, continua tendo legitimidade para requerer o arresto e a especialização da hipoteca legal com vistas a garantir o pagamento da pena pecuniária e das despesas processuais. Outrossim, destaca-se a inovação trazida em 2022, ocasião na qual o legislador buscou oportunizar o direito de manifestação ao acusado acerca da origem lícita do bem, bem como resguardou o direito do terceiro de boa-fé nos §§ 5º e 6º do art. 60, in verbis: Art. 60, § 5º Decretadas quaisquer das medidas previstas no caput deste artigo, o juiz facultará ao acusado que, no prazo de 5 (cinco) dias, apresente provas, ou requeira a produção delas, acerca da origem lícita do bem ou do valor objeto da decisão, exceto no caso de veículo apreendido em transporte de droga ilícita. § 6º Provada a origem lícita do bem ou do valor, o juiz decidirá por sua liberação, exceto no caso de veículo apreendido em transporte de droga ilícita, cuja destinação observará o disposto nos arts. 61 e 62 desta Lei, ressalvado o direito de terceiro de boa-fé. A Lei de Drogas também disciplinou expressamente acerca da apreensão dos instrumentos (instrumenta sceleris) e outros objetos utilizados para a prática do crime: Art. 61. A apreensão de veículos, embarcações, aeronaves e quaisquer outros meios de transporte e dos maquinários, utensílios, instrumentos e objetos de qualquer natureza utilizados para a prática, habitual ou não, dos crimes definidos nesta Lei será imediatamente comunicada pela autoridade de polícia judiciária responsável pela investigação ao juízo competente. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 68 Realizada a comunicação prevista no art. 61, o magistrado ordenará às secretarias de fazenda e aos órgãos de registro e controle que efetuemas averbações necessárias (LD, art. 61, § 12) e, mediante manifestação do Ministério Público e avaliação prévias, poderá submeter os bens que constituam instrumentos utilizados para a prática do narcotráfico e os que tenham sido sequestrados, apreendidos ou submetidos a qualquer medida assecuratória, denominada utilização funcional. Para Cleber Masson, constatado o interesse público, a coisa pode ser entregue para custódia e uso (sob responsabilidade) dos órgãos de segurança pública previstos no art. 144 da Constituição Federal, do sistema prisional, do sistema socioeducativo, da Força Nacional de Segurança Pública e do Instituto Geral de Perícia, com o objetivo de sua conservação e para o desempenho de suas atividades (LD, arts. 61 e 62, caput, c.c. CPP, art. 133-A, caput). Há na medida, portanto, dupla finalidade. A decisão que viabiliza a utilização funcional do bem constrito pode ser tomada tão logo efetivada a comunicação a que se refere o art. 61, não dependendo, pois, de sentença condenatória. Ao contrário, o ideal é que, quando cabível, seja ela proferida ainda na primeira fase da persecução penal, de modo a evitar a ação corrosiva do tempo sobre esses objetos e a sanar a incapacidade prática do Estado de adequadamente administrar os bens que ingressam em sua esfera de proteção. 27. JURISPRUDÊNCIA EM TESE A seguir, colaciona-se o compilado das Edições da Jurisprudência em Tese do STJ. 1) É cabível a aplicação retroativa da Lei 11.343/2006, desde que o resultado da incidência das suas disposições, na íntegra, seja mais favorável ao réu do que o advindo da aplicação da Lei n. 6.368/1976, sendo vedada a combinação de leis. 2) A inobservância do art. 55 da Lei 11.343/2006, que determina o recebimento da denúncia após a apresentação da defesa prévia, constitui nulidade relativa quando forem demonstrados os prejuízos suportados pela defesa. 3) O laudo pericial definitivo atestando a ilicitude da droga afasta eventuais irregularidades do laudo preliminar realizado na fase de investigação. 4) A falta da assinatura do perito criminal no laudo toxicológico é mera irregularidade que não tem o condão de anular o referido exame. A simples falta de assinatura do perito encarregado pela lavratura do laudo toxicológico definitivo constitui mera irregularidade e não tem o condão de anular a prova pericial na hipótese de existirem outros elementos que comprovem a sua autenticidade, notadamente quando o expert estiver devidamente identificado e for constatada a existência de substância ilícita. STJ. 3ª Seção.REsp 2.048.422-MG, REsp 2.048.645-MG e REsp 2.048.440- MG, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgados em 22/11/2023 (Recurso Repetitivo – Tema 1206) (Info 796). CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 69 5) O princípio da insignificância não se aplica aos delitos do art. 33, caput, e do art. 28 da Lei de Drogas, pois trata-se de crimes de perigo abstrato ou presumido. 6) A conduta de porte de substância entorpecente para consumo próprio, prevista no art. 28 da Lei 11.343/2006, foi apenas despenalizada pela nova Lei de Drogas, mas não descriminalizada, não havendo, portanto, abolitio criminis. 7) As contravenções penais, puníveis com pena de prisão simples, não geram reincidência, mostrando-se, portanto, desproporcional que condenações anteriores pelo delito do art. 28 da Lei 11.343/2006 configurem reincidência, uma vez que não são puníveis com pena privativa de liberdade. 8) O crime de uso de entorpecente para consumo próprio, previsto no art. 28 da Lei 11.343/2006, é de menor potencial ofensivo, o que determina a competência do Juizado Especial estadual, já que ele não está previsto em tratado internacional e o art. 70 da Lei n. 11.343/2006 não o inclui dentre os que devem ser julgados pela justiça federal. 9) A conduta prevista no art. 28 da Lei 11.343/2006 admite tanto a transação penal quanto a suspensão condicional do processo. 10) A posse de substância entorpecente para uso próprio configura crime doloso e quando cometido no interior do estabelecimento prisional constitui falta grave, nos termos do art. 52 da Lei de Execução Penal - LEP (Lei 7.210/1984). 11) É imprescindível a confecção do laudo toxicológico para comprovar a materialidade da infração disciplinar e a natureza da substância encontrada com o apenado no interior de estabelecimento prisional. 12) A comprovação da materialidade do delito de posse de drogas para uso próprio (art. 28 da Lei 11.343/2006) exige a elaboração de laudo de constatação da substância entorpecente que evidencie a natureza e a quantidade da substância apreendida. 13) O tráfico de drogas é crime de ação múltipla e a prática de um dos verbos contidos no art. 33, caput, da Lei 11.343/2006 é suficiente para a consumação do delito. 14) O laudo de constatação preliminar de substância entorpecente constitui condição de procedibilidade para apuração do crime de tráfico de drogas. 15) Para a configuração do delito de tráfico de drogas previsto no caput do art. 33 da Lei 11.343/2006, é desnecessária a aferição do grau de pureza da substância apreendida. 16) Não se reconhece a existência de bis in idem na aplicação da causa de aumento de pena pela transnacionalidade (art. 40, inciso I, da Lei 11.343/2006), em razão do art. 33, caput, da Lei 11.343/2006 prever as condutas de "importar" e "exportar", pois trata-se de tipo penal de ação múltipla, e o simples fato de o agente "trazer consigo" a droga já conduz à configuração da tipicidade formal do crime de tráfico. 17) O agente que atua diretamente na traficância e que também financia ou custeia a aquisição de drogas deve responder pelo crime previsto no art. 33, caput, da Lei 11.343/2006 com a incidência da causa de aumento de pena prevista no art. 40, VII, da Lei 11.343/2006, afastando- se, por conseguinte, a conduta autônoma prevista no art. 36 da referida legislação. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 70 18) É possível a aplicação do princípio da consunção entre os crimes previstos no § 1º do art. 33 e/ou no art. 34 pelo tipificado no caput do art. 33 da Lei 11.343/2006, desde que não caracterizada a existência de contextos autônomos e coexistentes, aptos a vulnerar o bem jurídico tutelado de forma distinta. 19) Quando o agente no exercício irregular da medicina prescreve substância caracterizada como droga, resta configurado, em tese, o delito do art. 282 do Código Penal, em concurso formal com o art. 33, caput, da Lei 11.343/2006. 20) O § 3º do art. 33 da Lei 11.343/2006 traz tipo específico para aquele que fornece gratuitamente substância entorpecente a pessoa de seu relacionamento para juntos a consumirem e, por se tratar de norma penal mais benéfica, deve ser aplicado retroativamente. 21) O tráfico ilícito de drogas na sua forma privilegiada (art. 33, § 4º, da Lei 11.343/2006) não é crime equiparado a hediondo. 22) A causa de diminuição de pena prevista no § 4º do art. 33 da Lei de Drogas só pode ser aplicada se todos os requisitos, cumulativamente, estiverem presentes. 23) É inviável a aplicação da causa especial de diminuição de pena prevista no § 4º do art. 33 da Lei 11.343/2006 quando há condenação simultânea do agente nos crimes de tráfico de drogas e de associação para o tráfico, por evidenciar a sua dedicação a atividades criminosas ou a sua participação em organização criminosa. 24) A condição de "mula" do tráfico, por si só, não afasta a possibilidade de aplicação da minorante do § 4º do art. 33 da Lei 11.343/2006, uma vez que a figura de transportador da droga não induz, automaticamente, à conclusão de que o agente integre, de forma estável e permanente, organização criminosa. 25) Configura constrangimento ilegal o afastamento do tráfico privilegiado e da redução da fração de diminuição de pena por presunção de que o agente se dedica a atividades criminosas, derivada unicamente da análise da naturezaou da quantidade de drogas apreendidas. 26) Para a caracterização do crime de associação para o tráfico de drogas (art. 35 da Lei 11.343/2006) é imprescindível o dolo de se associar com estabilidade e permanência. 27) Para a configuração do crime de associação para o tráfico de drogas, previsto no art. 35 da Lei 11.343/2006, é irrelevante apreensão de drogas na posse direta do agente. 28) O crime de associação para o tráfico de entorpecentes (art. 35 da Lei 11. 343/2006) não figura no rol taxativo de crimes hediondos ou de delitos a eles equiparados. 29) Em se tratando de condenado pelo delito previsto no art. 14 da Lei 6.368/1976, deve-se observar as reprimendas mínima e máxima estabelecidas pelo art. 8º da Lei 8.072/1990 (3 a 6 anos de reclusão), por ser norma penal mais benéfica ao réu, impondo-se, inclusive, se for o caso, a exclusão da pena de multa. 30) O crime de financiar ou custear o tráfico ilícito de drogas (art. 36 da Lei 11.343/2006) é delito autônomo aplicável ao agente que não tem participação direta na execução do tráfico, limitando-se a fornecer os recursos necessários para subsidiar as infrações a que se referem os art. 33, caput e § 1º, e art. 34 da Lei de Drogas. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 71 31) O crime de colaboração com o tráfico, art. 37 da Lei n. 11.343/2006, é um tipo penal subsidiário em relação aos delitos dos arts. 33 e 35 da referida lei e tem como destinatário o agente que colabora como informante, de forma esporádica, eventual, sem vínculo efetivo, para o êxito da atividade de grupo, de associação ou de organização criminosa destinados à prática de qualquer dos delitos previstos nos arts. 33, caput e § 1º, e 34 da Lei de Drogas. 32) A Lei 11.343/2006 manteve as condutas descritas no art. 12, § 2º, inciso III, da Lei 6.368/1976, razão pela qual não há que se falar em abolitio criminis. 33) A Lei 11.343/2006 aboliu a majorante da associação eventual para o tráfico prevista no art. 18, III, primeira parte, da Lei 6.368/1976. 34) A incidência da majorante da segunda parte do inciso III do art. 18 da Lei 6. 368/1976 – "visar [o crime] a menores de 21 (vinte e um) anos" – segue contemplada no art. 40, inciso VI, da nova Lei de Drogas – "sua prática envolver ou visar a atingir criança ou adolescente" – não restando configurada a abolitio criminis. 35) O art. 40 da Lei 11.343/2006 conferiu tratamento mais favorável às causas especiais de aumento de pena, devendo ser aplicado retroativamente aos delitos cometidos sob a égide da Lei 6.368/1976. 36) Não acarreta bis in idem a incidência simultânea das majorantes previstas no art. 40 da Lei 11.343/2006 aos crimes de tráfico de drogas e de associação para fins de tráfico, porquanto são delitos autônomos, cujas penas devem ser calculadas e fixadas separadamente. 37) Para a incidência das majorantes previstas no art. 40, I e V, da Lei 11. 343/2006, é desnecessária a efetiva transposição de fronteiras, sendo suficiente, respectivamente, a prova de destinação internacional das drogas ou a demonstração inequívoca da intenção de realizar o tráfico interestadual. 38) É cabível a aplicação cumulativa das causas de aumento relativas à transnacionalidade e à interestadualidade do delito, previstas nos incisos I e V do art. 40 da Lei de Drogas, quando evidenciado que a droga proveniente do exterior se destina a mais de um estado da Federação, sendo o intuito dos agentes distribuir o entorpecente estrangeiro por mais de uma localidade do país. 39) O rol previsto no inciso III do art. 40 da Lei de Drogas não deve ser encarado como taxativo, pois o objetivo da referida lei é proteger espaços que promovam a aglomeração de pessoas, circunstância que facilita a ação criminosa. 40) A causa de aumento de pena prevista no inciso III do art. 40 da Lei de Drogas possui natureza objetiva e se aplica em função do lugar do cometimento do delito, sendo despicienda a comprovação efetiva do tráfico nos locais e nas imediações mencionados no inciso ou que o crime visava a atingir seus frequentadores. 41) A incidência da majorante prevista no art. 40, inciso III, da Lei 11.343/2006 deve ser excepcionalmente afastada na hipótese de não existir nenhuma indicação de que houve o aproveitamento da aglomeração de pessoas ou a exposição dos frequentadores do local para a disseminação de drogas, verificando-se, caso a caso, as condições de dia, local e horário da prática do delito. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 72 42) Para a caracterização da causa de aumento de pena do art. 40, III, da Lei 11. 343/2006, é necessária a efetiva oferta ou a comercialização da droga no interior de veículo público, não bastando, para a sua incidência, o fato de o agente ter se utilizado dele como meio de locomoção e de transporte da substância ilícita. 43) A aplicação das majorantes previstas no art. 40 da Lei de Drogas exige motivação concreta, quando estabelecida acima da fração mínima, não sendo suficiente a mera indicação do número de causas de aumento. 44) Para fins de fixação da pena, não há necessidade de se aferir o grau de pureza da substância apreendida uma vez que o art. 42 da Lei de Drogas estabelece como critérios "a natureza e a quantidade da substância". 45) É possível a valoração da quantidade e natureza da droga apreendida, tanto para a fixação da pena-base quanto para a modulação da causa de diminuição prevista no art. 33, § 4º, da Lei 11.343/2006, neste último caso ainda que sejam os únicos elementos aferidos, desde que não tenham sidos considerados na primeira fase do cálculo da pena. 46) A utilização concomitante da quantidade de droga apreendida para elevar a pena-base e para afastar a incidência da minorante prevista no § 4º do art. 33 da Lei de Drogas, por demonstrar que o acusado se dedica a atividades criminosas ou integra organização criminosa, não configura bis in idem, tratando-se de hipótese diversa da Repercussão Geral - TEMA 712/STF. 47) Reconhecida a inconstitucionalidade da vedação prevista na parte final do § 4º do art. 33 da Lei de Drogas, inexiste óbice à substituição da pena privativa de liberdade pela restritiva de direitos aos condenados pelo crime de tráfico de drogas, desde que preenchidos os requisitos do art. 44 do Código Penal. 48) A utilização da reincidência como agravante genérica é circunstância que afasta a causa especial de diminuição da pena do crime de tráfico, e não caracteriza bis in idem. 49) Reconhecida a inconstitucionalidade do § 1º do art. 2º da Lei 8.072/1990, é possível a fixação de regime prisional diferente do fechado para o início do cumprimento de pena imposta ao condenado por tráfico de drogas, devendo o magistrado observar as regras previstas no Código Penal para a fixação do regime prisional. 50) O juiz pode fixar regime inicial mais gravoso do que aquele relacionado unicamente com o quantum da pena ao considerar a natureza ou a quantidade da droga. 51) Configura ofensa ao princípio da proteção integral a aplicação de medida de semiliberdade ao adolescente pela prática de ato infracional análogo ao crime previsto no art. 28 da Lei 11.343/2006. 52) O ato infracional análogo ao tráfico de drogas, por si só, não conduz obrigatoriamente à imposição de medida socioeducativa de internação do adolescente. 53) A despeito de não ser considerado hediondo, o crime de associação para o tráfico, no que se refere à concessão do livramento condicional, deve, em razão do princípio da especialidade, observar a regra estabelecida pelo art. 44, parágrafo único, da Lei 11.343/2006: cumprimento de 2/3 (dois terços) da pena e vedação do benefício ao reincidente específico. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 73 54) É possível a concessão de liberdade provisória nos crimes de tráfico ilícito de entorpecentes. 55) É vedada a concessão de indulto aos condenados por crime hediondo ou por crime a ele equiparado,entre os quais se insere o delito de tráfico previsto no art. 33, caput e § 1º da Lei 11.343/2006, afastando-se a referida vedação na hipótese de aplicação da causa de diminuição prevista no art. 33, § 4º, da mesma Lei, uma vez que a figura do tráfico privilegiado é desprovida de natureza hedionda. 56) A expropriação de bens em favor da União, decorrente da prática de crime de tráfico ilícito de entorpecentes, constitui efeito automático da sentença penal condenatória. 57) Não viola o princípio da dignidade da pessoa humana a revista íntima realizada conforme as normas administrativas que disciplinam a atividade fiscalizatória, quando houver fundada suspeita de que o visitante esteja transportando drogas ou outros itens proibidos para o interior do estabelecimento prisional. Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-SC - Promotor - CESPE - 2023): No caso de condenação pelo crime de associação para o tráfico, o livramento condicional depende do cumprimento de dois terços da pena, sendo vedada sua concessão ao reincidente específico. Correto. (MPE-SP - Promotor de Justiça - MPE-SP - 2022): A utilização da reincidência como agravante genérica e como circunstância que afasta a causa especial de diminuição da pena do crime de tráfico não caracteriza bis in idem. Correto. (MPE-SE - Promotor de Justiça - CESPE - 2022): Indivíduo primário, mas comprovadamente envolvido com atividade criminosa, foi preso e condenado pela prática de tráfico de drogas, tendo o juiz decidido por uma pena de sete anos. Nesse caso, pode o juiz fixar o regime inicial de cumprimento de pena, com fundamento na natureza ou na quantidade da droga. Correto. (PC-PR - Delegado - NC-UFPR - 2021): A comprovação da materialidade do delito de posse de drogas para uso próprio não depende da elaboração de laudo de constatação da substância entorpecente que evidencie a natureza e a quantidade da substância apreendida. Errado.- 2025.1 5 2. OBJETIVIDADE JURÍDICA Por meio da objetividade jurídica analisa-se o bem jurídico protegido pelo Direito Penal. Por exemplo, no delito de furto o bem jurídico protegido é o patrimônio, no crime de homicídio protege- se a vida. A Lei 11.343/2006, por sua vez, visa tutelar a saúde pública. Ressalta-se, assim, que na parte penal a referida lei não se preocupa com a saúde individual (de cada usuário), mas sim com a saúde de toda a coletividade, pois enquanto há a circulação de drogas, “toda a sociedade corre perigo”. 3. OBJETO MATERIAL Por objeto material entende-se a coisa ou pessoa sobre a qual recai a conduta criminosa do agente. A droga é o objeto material da Lei 11.343/2006 e sua definição está prevista no art. 1º, parágrafo único da referida lei, in verbis: Art. 1º, Parágrafo único. Para fins desta Lei, consideram-se como drogas as substâncias ou os produtos capazes de causar dependência, assim especificados em lei ou relacionados em listas atualizadas periodicamente pelo Poder Executivo da União. Percebe-se, assim, que para determinada substância ser considerada uma droga é necessário que: 1) Cause dependência física ou psíquica; 2) Esteja prevista em uma lei ou ato administrativo (lista) da União. Obs.: os crimes da Lei de Drogas estão previstos em norma penal em branco, uma vez que necessitam de complemento em seu preceito primário. Pela redação do parágrafo único do art. 1º, infere-se que os crimes podem ser complementados tanto por uma norma penal em branco homogênea (complemento em lei) quanto heterogênea (complemento está em ato administrativo, a exemplo de uma portaria). Atualmente no Brasil, os crimes previstos na Lei de Drogas estão dispostos em normas penais heterogêneas, eis que a relação de drogas está contida em atos administrativos da União. A Portaria SVS/MS 344/1998 é que disciplina as substâncias consideradas como drogas, sendo atualizada de forma contínua, conforme preleciona o art. 66 da LD: Art. 66. Para fins do disposto no parágrafo único do art. 1o desta Lei, até que seja atualizada a terminologia da lista mencionada no preceito, denominam- se drogas substâncias entorpecentes, psicotrópicas, precursoras e outras sob controle especial, da Portaria SVS/MS no 344, de 12 de maio de 1998. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 6 Ressalta-se que para ser considerada como droga basta a presença do princípio ativo, pouco importando a nomenclatura utilizada (maconha, cocaína, LSD etc.). Há, inclusive, diversos medicamentos que possuem seu princípio ativo na Portaria. A prova da materialidade, constatação do princípio ativo, será feita por meio de um exame químico-toxicológico (perícia). 4. SUJEITO ATIVO Em regra, os crimes previstos na Lei de Drogas são crimes comuns ou gerais, isto é, são crimes que podem ser cometidos por qualquer pessoa, não se exigindo situação especial. Há, contudo, uma exceção prevista no art. 38 da LD, eis que as condutas de prescrever (médico ou dentista) ou ministrar (farmacêutico ou profissional de enfermagem) drogas, culposamente, sem que delas necessite o paciente, ou fazê-lo em doses excessivas ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar, exigem qualidade especial, tratando-se de crime próprio ou especial. 5. SUJEITO PASSIVO Obs.: sempre que se estudar o sujeito passivo, de qualquer crime, deve-se relacionar com a objetividade jurídica (bem jurídico protegido), pois o sujeito passivo é o titular do bem protegido. Como o bem jurídico protegido pela Lei de Drogas é a coletividade, o sujeito passivo de tais crimes será a coletividade, por isso são classificados como crimes vagos. Frisa-se que o crime vago possui como sujeito passivo um ente destituído de personalidade jurídica (crimes de trânsito, crimes contra a família, crimes da Lei de Drogas). Sistematizando: OBJETIVIDADE JURÍDICA OBJETO MATERIAL SUJEITO ATIVO SUJEITO PASSIVO Saúde Pública Droga Crime comum Crime vago (sujeito passivo sem personalidade jurídica). Saúde da coletividade Substância que causa dependência e esteja prevista em lei ou ato normativo da União. Em regra, pode ser praticado por qualquer pessoa. Exceção: Art. 38 da LD. Exige qualidade especial. Coletividade CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 7 6. ELEMENTO SUBJETIVO Os crimes da Lei 11.343/2006 são DOLOSOS, salvo o crime previsto no art. 38: Art. 38. Prescrever ou ministrar, culposamente, drogas, sem que delas necessite o paciente, ou fazê-lo em doses excessivas ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar: Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e pagamento de 50 (cinquenta) a 200 (duzentos) dias-multa. 7. CRIMES DE PERIGO ABSTRATO Inicialmente, salienta-se que crime de perigo é aquele em que a consumação ocorre com a exposição do bem jurídico a um risco de dano. Não se exige a efetiva lesão ao bem jurídico, bastando a probabilidade de dano. Por sua vez, no crime de perigo abstrato, também chamado de crime de perigo presumido, a prática da conduta descrita em lei acarreta a presunção absoluta do perigo ao bem jurídico, não se exigindo prova concreta. Cita-se, como exemplo, o caso do traficante de drogas, que não se exige prova de que a coletividade, efetivamente, estava em perigo com a sua conduta. Veja a tabela comparativa entre crime de perigo abstrato e perigo concreto: CRIME DE PERIGO ABSTRATO CRIME DE PERIGO CONCRETO Perigo é presumido pela lei. A simples realização da conduta é suficiente para configurar o crime. Perigo não é presumido. É necessário comprovar a existência concreta do perigo para a consumação do crime. Exemplo: Tráfico de drogas e porte ilegal de arma de fogo. Exemplo: Incêndio culposo. 8. AÇÃO PENAL Todos os crimes da Lei de Drogas são de ação penal pública incondicionada. 9. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA Como se sabe, o princípio da insignificância é uma causa supralegal de exclusão da tipicidade material do crime. No tráfico de drogas NÃO se aplica tal princípio, uma vez que há CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 8 incompatibilidade lógica entre ambos, já que o tráfico é um crime de alta periculosidade (crime de máximo potencial ofensivo), equiparado a hediondo. Contudo, em relação ao art. 28 da Lei (consumo próprio), o STF (Info 655) já admitiu a aplicação de tal princípio, com base nos seguintes argumentos1: a) A privação da liberdade e a restrição de direitos do indivíduo somente se justificam quando estritamente necessárias à própria proteção das pessoas, da sociedade e de outros bens jurídicos que lhes fossem essenciais, notadamente naqueles casos em que os valores penalmente tutelados são expostos a dano, efetivo ou potencial, impregnado de significativa lesividade; b) Deste modo, o Direito Penal não deve se ocupar de condutas que produzam resultados cujo desvalor – por não importar em lesão significativa a bens jurídicos relevantes – não representam, por isso mesmo, expressivo prejuízo, seja ao titular do bem jurídico tutelado, seja à integridade da própria ordem social. Assim, estão preenchidos os requisitos de aplicação do princípio da insignificância: a) mínima ofensividade da conduta do agente; b) nenhuma periculosidade social da ação; c) reduzido grau de reprovabilidade do comportamento; e d) inexpressividade da lesão jurídica provocada. A decisão do STF é de 2012, e apenas da 1ª Turma, levando em consideração o caso concreto. Outrossim, a 2ª Turma do STF, no HC 202883, de relatoria do Min. Gilmar Mendes e julgado em 15/09/2021, no caso em que o Réu portava 1,8g de maconha para consumo próprio, também houve possibilidade de aplicação do princípio da insignificância em porte de drogas para consumo pessoal com a concessão de habeas corpus. No referido caso, os argumentos favoráveis à concessão do remédio constitucionalforam, em síntese: a) Entende-se que a razão para a recusa da aplicação do princípio da insignificância em crimes relacionados a entorpecentes está muito mais ligada a uma decisão político- criminal do que propriamente a uma impossibilidade dogmática; b) O comportamento do paciente pode não ser capaz de lesionar ou colocar em perigo o bem jurídico protegido ou colocar em perigo a paz social, a segurança ou a saúde pública, sendo afastada a tipicidade material do tipo penal imputado. Trata-se de um caso exemplar em que não há qualquer demonstração da lesividade material da conduta, apesar da subsunção desta ao tipo formal. Entretanto, vale registrar que o caso foi empatado com 2 votos favoráveis dos Ministros Gilmar Mendes e Edson Fachin e com 2 votos contrários dos Ministros Ricardo Lewandowski e Nunes Marques, bem como que o tema aguarda posicionamento do STF (Tema 506). O STJ, em sentido diverso, entende que NÃO é possível a aplicação do princípio da insignificância ao delito do art. 28. Nesse sentido: 1 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Porte de droga para consumo pessoal. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 14/03/2024. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 9 STJ (Jurisprudência em Tese): O princípio da insignificância não se aplica aos delitos do art. 33, caput, e do art. 28 da Lei de Drogas, pois trata-se de crimes de perigo abstrato ou presumido. Contudo, é importante conhecer o atual posicionamento do STF quanto o porte de pequena quantidade de maconha para uso pessoal. No RE 635.659/SP (Tema 506 de Repercussão Geral), o STF definiu que não comete infração penal quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, a substância cannabis sativa, sem prejuízo do reconhecimento da ilicitude extrapenal da conduta, com apreensão da droga e aplicação de sanções de advertência sobre os efeitos dela (art. 28, I) e medida educativa de comparecimento à programa ou curso educativo (art. 28, III). De modo que, será presumido usuário quem, para consumo próprio, adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, até 40 gramas de cannabis sativa ou seis plantas- fêmeas, até que o Congresso Nacional venha a legislar a respeito. Mas ainda iremos tratar do tema em tópico próprio, logo abaixo. Assim, ressalta-se que é importante conhecer os precedentes acima mencionados para eventual segunda fase e prova oral, mas em provas objetivas é recomendado ficar com o entendimento de que não é possível que seja aplicado o princípio da insignificância à Lei de Drogas. 10. PORTE E CULTIVO PARA CONSUMO PESSOAL PREVISÃO LEGAL O porte e cultivo para consumo pessoal é delito previsto no art. 28 da Lei de Drogas, com a seguinte redação legal: Art. 28. Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas: I - advertência sobre os efeitos das drogas; II - prestação de serviços à comunidade; III - medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo. § 1o Às mesmas medidas submete-se quem, para seu consumo pessoal, semeia, cultiva ou colhe plantas destinadas à preparação de pequena quantidade de substância ou produto capaz de causar dependência física ou psíquica. § 2o Para determinar se a droga se destinava a consumo pessoal, o juiz atenderá à natureza e à quantidade da substância apreendida, ao local e às condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes do agente. § 3o As penas previstas nos incisos II e III do caput deste artigo serão aplicadas pelo prazo máximo de 5 (cinco) meses. § 4o Em caso de reincidência, as penas previstas nos incisos II e III do caput deste artigo serão aplicadas pelo prazo máximo de 10 (dez) meses. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 10 § 5o A prestação de serviços à comunidade será cumprida em programas comunitários, entidades educacionais ou assistenciais, hospitais, estabelecimentos congêneres, públicos ou privados sem fins lucrativos, que se ocupem, preferencialmente, da prevenção do consumo ou da recuperação de usuários e dependentes de drogas. § 6o Para garantia do cumprimento das medidas educativas a que se refere o caput, nos incisos I, II e III, a que injustificadamente se recuse o agente, poderá o juiz submetê-lo, sucessivamente a: I - admoestação verbal; II - multa. § 7o O juiz determinará ao Poder Público que coloque à disposição do infrator, gratuitamente, estabelecimento de saúde, preferencialmente ambulatorial, para tratamento especializado. Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-PE - Promotor de Justiça - FCC - 2022): O autor da conduta de trazer drogas consigo para consumo pessoal (art. 28, da Lei de Drogas) deve ser encaminhado diretamente ao juiz, que irá lavrar o termo circunstanciado e fará a requisição dos exames e perícias; somente se não houver juiz é que tais providências serão tomadas pela autoridade policial. Correto. (PC-SP - Delegado - VUNESP - 2022): Nos termos da Lei n° 11.343/2006 (Lei Antidrogas), é correto afirmar que para garantia do cumprimento da medida educativa de prestação de serviço à comunidade, havendo recusa injustificada, poderá o juiz submetê-lo, sucessivamente a admoestação verbal e multa. Correto. ATUAL ENTENDIMENTO DO STF No tema 506 de Repercussão Geral (RE 635.659/SP), o Plenário do STF decidiu, dentre outras questões, que não comete infração penal quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, a substância cannabis sativa, sem prejuízo do reconhecimento da ilicitude extrapenal da conduta, com apreensão da droga e aplicação de sanções de advertência sobre os efeitos dela (art. 28, I) e medida educativa de comparecimento à programa ou curso educativo (art. 28, III). Nota-se que o atual entendimento se refere tão somente a cannabis sativa (maconha), não se aplicando a outras drogas. Resumo das deliberações do STF2: 1. Não comete infração penal quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, a substância cannabis sativa, sem prejuízo do reconhecimento da ilicitude extrapenal da conduta, com apreensão da droga e aplicação de sanções de advertência sobre os efeitos dela (art. 28, I) e medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo (art. 28, III); 2 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Decisão do STF quanto ao porte de pequena quantidade de maconha para uso pessoal. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 23/10/2024 CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 11 2. As sanções estabelecidas nos incisos I e III do art. 28 da Lei 11.343/06 serão aplicadas pelo juiz em procedimento de natureza não penal, sem nenhuma repercussão criminal para a conduta; 3. Em se tratando da posse de cannabis para consumo pessoal, a autoridade policial apreenderá a substância e notificará o autor do fato para comparecer em Juízo, na forma do regulamento a ser aprovado pelo CNJ. Até que o CNJ delibere a respeito, a competência para julgar as condutas do art. 28 da Lei 11.343/06 será dos Juizados Especiais Criminais, segundo a sistemática atual, vedada a atribuição de quaisquer efeitos penais para a sentença; 4. Nos termos do § 2º do artigo 28 da Lei 11.343/2006, será presumido usuário quem, para consumo próprio, adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, até 40 gramas de cannabis sativa ou seis plantas-fêmeas, até que o Congresso Nacional venha a legislar a respeito;5. A presunção do item anterior é relativa, não estando a autoridade policial e seus agentes impedidos de realizar a prisão em flagrante por tráfico de drogas, mesmo para quantidades inferiores ao limite acima estabelecido, quando presentes elementos que indiquem intuito de mercancia, como a forma de acondicionamento da droga, as circunstâncias da apreensão, a variedade de substâncias apreendidas, a apreensão simultânea de instrumentos como balança, registros de operações comerciais e aparelho celular contendo contatos de usuários ou traficantes; 6. Nesses casos, caberá ao Delegado de Polícia consignar, no auto de prisão em flagrante, justificativa minudente para afastamento da presunção do porte para uso pessoal, sendo vedada a alusão a critérios subjetivos arbitrários; 7. Na hipótese de prisão por quantidades inferiores à fixada no item 4, deverá o juiz, na audiência de custódia, avaliar as razões invocadas para o afastamento da presunção de porte para uso próprio; 8. A apreensão de quantidades superiores aos limites ora fixados não impede o juiz de concluir que a conduta é atípica, apontando nos autos prova suficiente da condição de usuário. STF. Plenário. RE 635.659/SP, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 26/06/2024 (Repercussão Geral – Tema 506). Pergunta-se, portar maconha para uso pessoa é crime? Antes da decisão do STF: SIM. Depois da decisão do STF: NÃO. Assim, nas palavras do Prof. Márcio Cavalcante, em regra, uma pessoa que é encontrada com maconha, para consumo pessoal, pratica a conduta prevista no art. 28 da Lei nº 11.343/2006. Como o STF havia dito, em 2006, que o art. 28 da Lei nº 11.343/2006, era crime, se uma pessoa fosse encontrada com maconha, ainda que para consumo pessoal, ela cometia um crime. Entretanto, no ano de 2024, o STF alterou essa conclusão. De modo que, definiu, que criminalização das aludidas condutas, relacionadas ao porte de maconha para o uso próprio (Lei nº 11.343/2006, art. 28), afronta o postulado da proporcionalidade, pois: (i) versa sobre lesividade que se restringe à esfera pessoal dos usuários; e CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 12 (ii) produz crescente estigmatização, ofuscando os principais objetivos do Sistema Nacional de Políticas de Drogas, quais sejam, a política de redução de danos e a prevenção do uso abusivo de drogas3. Então, podemos afirmar que o STF legalizou o consumo da maconha? Não. O porte e o uso de maconha para fins recreativos ainda é algo ilícito. Só não é mais um ilícito penal. Portanto, a conduta de portar maconha para consumo pessoal é, segundo STF, um ilícito extrapenal. Assim, quando a polícia encontrar o autor do fato com maconha, irá definir se isso é para consumo pessoal ou para tráfico usando os seguintes critérios (o STF construiu uma presunção): 1) se foram apreendidos até 40 gramas de cannabis sativa ou até seis plantas-fêmeas: presume-se que esse indivíduo é apenas usuário e, portanto, não cometeu crime; 2) se foi apreendida uma quantia superior: existe uma presunção de que não era para consumo pessoal. Todavia, tanto em um caso como no outro, essa presunção é relativa. Isso quer dizer que mesmo que a polícia encontre a pessoa com menos de 40 gramas ou com menos do que 6 plantas, ainda assim será possível, com base no caso concreto, concluir que o agente é traficante, de acordo com os elementos do caso concreto. E caso o agente seja apreendido com quantidades superiores a 40 gramas de cannabis sativa ou seis plantas-fêmeas, necessariamente será considerado traficante? O STF disse que não. A apreensão de quantidades superiores aos limites ora fixados não impede o juiz de concluir que a conduta é atípica, apontando nos autos prova suficiente da condição de usuário. FUGA DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE É consenso que o problema do usuário de drogas não é de justiça penal, mas sim um problema de saúde pública que necessita de políticas públicas. A atual Lei de Drogas abrandou muito a situação do usuário (na antiga lei tal delito era punido com pena de detenção de até um ano), prevendo penas de advertência, prestação de serviço à comunidade e medidas socioeducativas, acabando com a pena privativa de liberdade. Portanto, não caberá prisão provisória (preventiva e temporária) e nem prisão definitiva. CONSUMO PESSOAL X USO PRÓPRIO O tipo penal do art. 28 faz referência ao porte e à posse para consumo pessoal, diferentemente da legislação antiga, que se falava em uso próprio. 3 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Decisão do STF quanto ao porte de pequena quantidade de maconha para uso pessoal. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 23/10/2024 CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 13 PRINCÍPIO DA ALTERIDADE Idealizado por Claus Roxin, o princípio da alteridade defende que não há crime na conduta que prejudica somente quem a praticou. O crime, portanto, deve ultrapassar a esfera pessoal do agente, causando danos ou perigo a terceiros. Os crimes da Lei de Drogas são crimes contra saúde pública, não havendo preocupação com a saúde do usuário. Justamente por isso que não há no art. 28 a expressão “uso” e, consequentemente, não há crime no uso pretérito da droga. NATUREZA JURÍDICA Quando a Lei de Drogas entrou em vigor (2006), o saudoso Luiz Flávio Gomes afirmou que o art. 28 não era crime e nem contravenção penal, com base no art. 1º da Lei de Introdução ao CP, considerando que o gênero “infração penal” se subdivide em 2 espécies: 1) Crime: espécie de infração penal a que a lei comina pena de reclusão ou detenção, isolada ou cumulativamente com a pena de multa; 2) Contravenção penal: espécie de infração penal a que a lei comina prisão simples ou multa, de forma isolada ou cumulativa. Como não há nenhuma dessas penas cominadas ao art. 28, para Luiz Flávio Gomes o referido tipo penal não seria crime e muito menos contravenção, mas sim uma infração penal sui generis. Contudo, há uma crítica: não basta afirmar que não se trata de crime e nem de contravenção penal, precisa definir o que é, não simplesmente dizer que é algo sui generis. Assim, vale ressaltar, que de acordo com o posicionamento do STF (RE 430.105), o porte de droga para consumo pessoal, trata-se de CRIME, desde que não enquadrado nas hipóteses do Tema de RG nº 506, eis que: a) A lei, ao tratar do tema, classificou a conduta como crime; b) Estabeleceu o rito processual junto ao Juizado Especial Criminal; c) No tocante à prescrição, o art. 30 determina a aplicação do art. 107 do CP; d) A finalidade do art. 1º da Lei de Introdução ao CP era apenas diferenciar, em 1942, os crimes das contravenções penais, uma vez que o CP e a LICP entraram em vigor simultaneamente (01 de janeiro de 1942); e) A LICP pode ser modificada por outra lei ordinária, como aconteceu com a Lei de Drogas. Ou seja, o art. 1º da LICP traz um conceito legal de crime, de natureza genérica, aplicado aos crimes em geral, ao passo que o art. 28 da Lei de Drogas também traz um conceito de crime, mas de forma restrita, pois aplicado apenas à Lei de Drogas; f) Não existiam penas alternativas quando a LICP entrou em vigor. No mesmo sentido, o entendimento do STJ: CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 14 STJ (Jurisprudência em Tese nº. 131) - 6) A conduta de porte de substância entorpecente para consumo próprio, prevista no art. 28 da Lei n. 11.343/2006, foi apenas despenalizada pela nova Lei de Drogas, mas não descriminalizada, não havendo, portanto, abolitio criminis. Contudo, conforme explicado no tópico anterior, o STF enfrentou novamente a questão no ano de 2024, no RE 635.659/SP, em sede de Repercussão Geral – Tema 506, e definiu, dentre várias outras questões, que o porte de maconha para uso pessoal, quando em quantidades inferiores até 40 gramasde cannabis sativa ou seis plantas-fêmeas, trata-se de um ilícito extrapenal, isto é, uma conduta atípica. Mas vale frisar, que o recente entendimento do STF (RE 635.659/SP), vale tão somente para o porte para uso pessoal de maconha, portanto, quando se tratar de outras drogas, ainda prevalece o entendimento do RE 430.105, que considera a conduta como CRIME. Ainda, importante consignar que por caracterizar crime doloso (na hipótese de não aplicação do entendimento do Tema 506), quando praticado no interior de estabelecimento prisional, será considerado como falta grave, conforme entendimento do STJ: STJ – Jurisprudência em Tese, Edição 131: 10) A posse de substância entorpecente para uso próprio configura crime doloso e quando cometido no interior do estabelecimento prisional constitui falta grave, nos termos do art. 52 da Lei de Execução Penal - LEP (Lei n. 7.210/1984). Como o tema foi cobrado em concurso? (TJ-GO - Juiz - FCC - 2021): É desproporcional que condenações anteriores pelo delito do art. 28 da Lei n° 11.343/2006 configurem reincidência e, por isso, quando cometido no interior de estabelecimento prisional, não constitui falta grave. Errado. Não obstante, salienta-se que a mera solicitação do preso, sem a efetiva entrega do entorpecente ao destinatário no estabelecimento prisional, configura ato preparatório, o que impede a sua condenação por tráfico de drogas, in verbis: Caso hipotético: Tiago cumpre pena em um presídio. Ele pediu que Natália, sua namorada, levasse maconha para ele na próxima visita. Natália adquiriu a droga e levou até o presídio. Ocorre que, durante o procedimento de revista de visitantes, os agentes encontraram o entorpecente. Natália praticou tráfico de drogas e Tiago fato atípico. A interceptação da droga pelos agentes penitenciários antes de ser entregue ao destinatário, recolhido em estabelecimento prisional, impede a ocorrência da conduta típica do art. 33, caput, da Lei nº 11.343/2006 na modalidade “adquirir”, que viria, em tese, a ser por esse praticada. A conduta de apenas solicitar que a droga seja levada para o interior do estabelecimento prisional pode configurar, no máximo, ato preparatório e, portanto, impunível. Não se trata de ato executório do delito, seja na conduta de “adquirir”, seja nas demais modalidades previstas no tipo. Evidencia-se, portanto, a atipicidade da conduta. STJ. 5ª Turma. AgRg no REsp 1.999.604-MG, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 20/3/2023 (Info 770). Em continuidade, quanto ao cultivo de drogas para o consumo pessoal, prevista no § 1º do art. 28 da Lei de Drogas: CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 15 Art. 28, § 1o Às mesmas medidas submete-se quem, para seu consumo pessoal, semeia, cultiva ou colhe plantas destinadas à preparação de pequena quantidade de substância ou produto capaz de causar dependência física ou psíquica. As mesmas medidas são: 1) Advertência sobre os efeitos das drogas; 2) Prestação de serviços à comunidade; 3) Medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo. A figura equiparada solucionou um problema que existia com a legislação anterior. Sempre que era caso de cultivo para consumo pessoal, o fato era considerado atípico ou, dependendo do juiz, enquadrado como tráfico de drogas, não havia coerência. Assim, o recente entendimento do STF, fixado no RE 635.659/SP, que passou a tratar o porte de maconha para uso pessoal como um ilícito extrapenal, também se aplica ao cultivo de maconha para uso pessoal, por se tratar de conduta equiparada. Contudo, tratando-se de plantas de qualquer outra droga ilícita, que não seja a maconha, afasta-se o entendimento atual do STF, configurando conduta criminosa. Obs.: não confunda o § 1º do art. 28 com o art. 33, § 1º, II que trata de figura equiparada ao tráfico, cuja finalidade do agente é entregar matéria prima, para preparação de drogas, a terceiros. Art. 33, 1º, II - semeia, cultiva ou faz a colheita, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar, de plantas que se constituam em matéria-prima para a preparação de drogas. Art. 28, § 1º Art. 33, § 1º, II Infração de menor potencial ofensivo. Equiparado a crime hediondo. Plantio destinado ao consumo pessoal e em pequena quantidade. Plantio destinado ao tráfico. CRITÉRIOS PARA DIFERENCIAÇÃO COM O TRÁFICO O § 2º do art. 28 da Lei de Drogas traz os critérios que irão diferenciar a droga que se destina ao consumo pessoal e a que se destina ao tráfico de drogas, quais sejam: a) Natureza e quantidade da droga; b) Local e condições em que foi apreendida; c) Circunstâncias pessoais e sociais do agente; d) Conduta e os antecedentes do agente. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 16 Havendo dúvida entre tráfico e porte de drogas para consumo pessoal, o juiz deve condenar pelo crime menos grave (in dubio pro reo). De acordo com o STJ (AgRg no AREsp 1740201/AM), não é apenas a quantidade de drogas que constitui fator determinante para a conclusão de que a substância se destinava a consumo pessoal, mas também o local e as condições em que se desenvolveu a ação, as circunstâncias sociais e pessoais, bem como a conduta e os antecedentes do agente. Em recente decisão do STF (Tema 506 – Repercussão Geral), foi definido em relação ao porte de pequena quantidade de maconha, que, nos termos do § 2º do artigo 28, será presumido usuário quem, para consumo próprio, adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, até 40 gramas de cannabis sativa ou seis plantas-fêmeas, até que o Congresso Nacional venha a legislar a respeito. E na hipótese de prisão por quantidades inferiores as descritas, deverá o juiz, na audiência de custódia, avaliar as razões invocadas para o afastamento da presunção de porte para uso próprio. Portanto, não comete infração penal quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, a substância cannabis sativa, sem prejuízo do reconhecimento da ilicitude extrapenal da conduta. Como o tema foi cobrado em concurso? (TJ-AP - Juiz - FGV - 2022): A prisão do agente em local conhecido por venda de drogas não afasta a possibilidade de aplicação de tráfico privilegiado. Correto. (MPE-SC - Promotor de Justiça - CESPE - 2021): Agente denunciado por tráfico de drogas que confesse o porte da substância para consumo próprio, caso venha a ser condenado pela conduta imputada, não terá a seu favor o benefício da atenuante da confissão. Correto. (MPE-SC - Promotor de Justiça - CESPE - 2021): No entendimento dos tribunais superiores, a conduta de posse ou porte ilegal de droga para consumo pessoal e em desacordo com determinação legal e regulamentar não constitui infração penal, pois, nos termos da LICP, constitui infração penal apenas as condutas que sejam sancionadas com pena privativa de liberdade ou de multa. Errado. PENAS Há 3 penas cominadas ao crime do art. 28 da Lei de Drogas. • advertência sobre os efeitos das drogas; • prestação de serviços à comunidade; • medida educativa de comparecimento à programa ou curso educativo. Nos termos do art. 28, § 3º, a prestação de serviços à comunidade e a medida educativa terão prazo máximo de 5 meses. Caso o réu seja reincidente específico, o prazo máximo passa a ser de 10 meses, de acordo com o § 4º do referido artigo: CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 17 Art. 28, § 3o As penas previstas nos incisos II e III do caput deste artigo serão aplicadas pelo prazo máximo de 5 (cinco) meses. § 4o Em caso de reincidência, as penas previstas nos incisos II e III do caput deste artigo serão aplicadas pelo prazo máximo de 10 (dez) meses. Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-SC - Promotor - CESPE - 2023): A duplicação do prazo máximo das penas de prestação de serviços à comunidade e comparecimento a programa oucurso educativo ao condenado pelo crime de porte de drogas para consumo pessoal depende de reincidência específica. Correto. Conforme entendimento do STJ, a reincidência deve ser específica. Assim, se um indivíduo já condenado definitivamente por roubo, pratica o crime do art. 28, ele não se enquadra no § 4º, isso porque se trata de reincidente genérico. A reincidência de que trata o § 4º do art. 28 da Lei nº 11.343/2006 é a específica. Segundo a interpretação topográfica (que leva em consideração à posição dos artigos, parágrafos, incisos), os parágrafos não são unidades autônomas, estando vinculadas ao caput do artigo a que se referem. Logo, quando o § 4º fala em reincidência, quer se referir à nova prática do mesmo crime previsto no caput do art. 28. STJ. 6ª Turma. REsp 1.771.304-ES, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 10/12/2019 (Info 662). Conforme já estudado nos tópicos acima, o porte de maconha para consumo pessoal não é crime, logo, não será possível aplicar uma pena para quem pratica essa conduta. Ensina o professor Márcio Cavalcante4, que o STF entendeu que ao contrário das sanções dos incisos I e III do art. 28, a prestação de serviço a comunidade possui uma natureza de pena, tanto que está prevista expressamente no art. 43, IV, do Código Penal: Art. 43. As penas restritivas de direitos são: (...) IV - prestação de serviços à comunidade ou a entidades públicas. Portanto, o indivíduo que é encontrado com maconha para consumo pessoal, pode receber como sanções a advertência (inciso I do art. 28) e o comparecimento à programa ou curso educativo (inciso III do art. 28). Por outro lado, não pode ser obrigado a prestar serviços à comunidade (inciso II do art. 28). Mas vale frisar, novamente, que a decisão do STF no tema 506 de RG, se aplica tão somente à cannabis sativa (maconha), substância objeto de análise no caso concreto, e não engloba as demais drogas. Assim, a pena de prestação de serviço a comunidade, poderá ser aplicada as hipóteses de porte de droga para consumo pessoal, quando a droga objeto do caso concreto NÃO FOR a cannabis sativa. 4 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Decisão do STF quanto ao porte de pequena quantidade de maconha para uso pessoal. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 24/10/2024. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 18 Quando aplicável, a prestação de serviço à comunidade será cumprida em estabelecimentos que se ocupem, preferencialmente, com a recuperação de usuários e dependentes de drogas (art. 28, § 5º): Art. 28, § 5o A prestação de serviços à comunidade será cumprida em programas comunitários, entidades educacionais ou assistenciais, hospitais, estabelecimentos congêneres, públicos ou privados sem fins lucrativos, que se ocupem, preferencialmente, da prevenção do consumo ou da recuperação de usuários e dependentes de drogas. Além disso, as penas poderão ser aplicadas de forma isolada ou de forma cumulativa, sendo possível sua substituição, ouvido o MP e a defesa, a qualquer tempo (art. 27). Assim, por exemplo, o juiz poderá aplicar a pena de advertência e a de prestação de serviço à comunidade cumulativamente, bem como substituí-las, a qualquer tempo, pela pena de medida educativa, após ouvir o MP e a defesa. Importante salientar, ainda, que caso o condenado não cumpra as penas impostas, o agente não poderá ser conduzido à prisão. O juiz deverá utilizar o § 6º do art. 28 da Lei de Drogas que prevê a admoestação verbal e, após, multa. Obs.: destaca-se que admoestação verbal e multa NÃO são penas, mas sim medidas coercitivas para que o cumprimento da pena seja efetivado. Art. 28, § 6o Para garantia do cumprimento das medidas educativas a que se refere o caput, nos incisos I, II e III, a que injustificadamente se recuse o agente, poderá o juiz submetê-lo, sucessivamente a: I - admoestação verbal; II - multa. Em relação à multa, destaca-se que irá para o Fundo Nacional Antidrogas (art. 29) e que será fixada em 2 fases, quais sejam: 1) 1ª fase: o juiz irá calcular quantidade de dias-multa (entre 40 e 100). Aqui, leva-se em conta a reprovabilidade da conduta; 2) 2ª fase: o juiz irá fixar o valor de cada dia-multa (entre 1/30 até 3x o valor do salário- mínimo). Aqui, considera-se a capacidade econômica do agente. Salienta-se que a condenação anterior pelo crime do art. 28 da Lei de Drogas, conforme entendimento do STJ, não enseja reincidência. Para tanto, vislumbram-se os argumentos utilizados pelo STJ, de acordo com a excelente explicação do Professor Márcio Cavalcante5: 1) A condenação anterior por contravenção penal não gera reincidência, ou seja, um indivíduo condenado por contravenção penal, se praticar em seguida um crime, quando 5 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. A condenação pelo art 28 da Lei 11.343/2006(porte de droga para uso próprio) não configura reincidênciaa. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 15/03/2024. CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 19 for julgado, não se aplicará a ele a agravante da reincidência. Isso porque o art. 63 do Código Penal é expresso ao se referir à prática de novo crime ao dispor: Art. 63. Verifica-se a reincidência quando o agente comete novo crime, depois de transitar em julgado a sentença que, no País ou no estrangeiro, o tenha condenado por crime anterior. (veja que o agente tem que ter sido condenado por crime anterior) 2) Em outras palavras, se a pessoa é condenada definitivamente por CONTRAVENÇÃO e, depois desta condenação, pratica um CRIME, ao ser julgada por esta segunda infração não sofrerá os efeitos da reincidência. Se a primeira infração praticada foi uma contravenção, não há reincidência. 3) A contravenção é punida com prisão simples e/ou multa (art. 5º, do DL 3688/41). 4) O art. 28 da LD é punido apenas com “advertência sobre os efeitos das drogas”, “prestação de serviços à comunidade” e “medida educativa de comparecimento à programa ou curso educativo”. Em nenhuma hipótese, a prática do crime do art. 28 da LD poderá gerar condenação que leve à prisão. 5) Desse modo, comparando a pena das contravenções penais com a do crime do art. 28 da LD, chega-se à conclusão de que as penas previstas para as contravenções são mais gravosas (mais duras) do que as sanções cominadas para o art. 28 da LD. 6) Diante disso, se as sanções do art. 28 da LD são menos graves que a das contravenções, não se mostra proporcional considerar que o art. 28 da LD gera reincidência se a contravenção penal não tem esse efeito negativo. Evidencia-se, por fim, que a 2ª Turma do STF comungou do mesmo entendimento e decidiu que: Viola o princípio da proporcionalidade a consideração de condenação anterior pelo delito do art. 28 da Lei nº 11.343/2006, “porte de droga para consumo pessoal”, para fins de reincidência. STF. 2ª Turma. RHC 178512 AgR/SP, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 22/3/2022 (Info 1048). PRESCRIÇÃO A prescrição é fixa e não poderá ser calculada com base na quantidade da pena imposta. Por isso, o art. 30 fixou o prazo de 2 anos, tanto para a pretensão punitiva quanto para a pretensão executória, aplicando-se o art. 107 do CP para os casos de interrupção do prazo. Art. 30. Prescrevem em 2 (dois) anos a imposição e a execução das penas, observado, no tocante à interrupção do prazo, o disposto nos arts. 107 e seguintes do Código Penal Como o tema foi cobrado em concurso? (PC-RJ - Delegado - CESPE - 2022): Prescrevem em dois anos a imposição e a execução das penas, observado, no tocante à interrupção do prazo, o disposto no art. 107 e seguintes do Código Penal e, quando houver concurso CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 20 materialcom outro delito específico previsto nessa lei, deverão ser observados os ditames do art. 109 do Código Penal. Errado. (TJ-MS - Juiz - FCC - 2020): No que concerne à lei de drogas, é de dois anos o prazo de prescrição no crime de posse de droga para consumo pessoal, não se aplicando, contudo, as causas de interrupção previstas no Código Penal. Errado. RITO PROCESSUAL Para encerrar a análise do art. 28 da Lei de Drogas, é importante observar o rito processual do referido delito. Por se tratar de uma infração de menor potencial ofensivo, seguirá o rito da Lei 9.099/95. Nesse sentido, o item 8 da Jurisprudência em Tese do STJ (Edição 131): STJ (Jurisprudência em Tese): 8) O crime de uso de entorpecente para consumo próprio, previsto no art. 28 da Lei n. 11.343/2006, é de menor potencial ofensivo, o que determina a competência do Juizado Especial estadual, já que ele não está previsto em tratado internacional e o art. 70 da Lei n. 11.343/2006 não o inclui dentre os que devem ser julgados pela justiça federal. Portanto, é um crime de competência do Juizado Especial Criminal (para aprofundamento recomendamos nosso CS sobre o JECrim, baseado nas aulas do Prof. Renato Brasileiro). A luz do Tema nº 506 de Repercussão Geral, qual é o juízo competente para receber o autor do fato e eventualmente aplicar essas sanções? Isso será ainda definido na Resolução que será editada pelo CNJ. Em se tratando da posse de cannabis para consumo pessoal, a autoridade policial apreenderá a substância e notificará o autor do fato para comparecer em Juízo, na forma do regulamento a ser aprovado pelo CNJ. Até que o CNJ delibere a respeito, a competência para julgar as condutas do art. 28 da Lei 11.343/06 será dos Juizados Especiais Criminais, segundo a sistemática atual, vedada a atribuição de quaisquer efeitos penais para a sentença. 11. ART. 33 - TRÁFICO DE DROGAS CONSIDERAÇÕES INICIAIS Art. 33. Importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à venda, oferecer, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar, entregar a consumo ou fornecer drogas, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar: Pena - reclusão de 5 (cinco) a 15 (quinze) anos e pagamento de 500 (quinhentos) a 1.500 (mil e quinhentos) dias-multa. § 1o Nas mesmas penas incorre quem: CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 21 I - importa, exporta, remete, produz, fabrica, adquire, vende, expõe à venda, oferece, fornece, tem em depósito, transporta, traz consigo ou guarda, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar, matéria-prima, insumo ou produto químico destinado à preparação de drogas; II - semeia, cultiva ou faz a colheita, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar, de plantas que se constituam em matéria-prima para a preparação de drogas; III - utiliza local ou bem de qualquer natureza de que tem a propriedade, posse, administração, guarda ou vigilância, ou consente que outrem dele se utilize, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar, para o tráfico ilícito de drogas. § 2o Induzir, instigar ou auxiliar alguém ao uso indevido de droga: Pena - detenção, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa de 100 (cem) a 300 (trezentos) dias-multa. § 3o Oferecer droga, eventualmente e sem objetivo de lucro, a pessoa de seu relacionamento, para juntos a consumirem: Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 1 (um) ano, e pagamento de 700 (setecentos) a 1.500 (mil e quinhentos) dias-multa, sem prejuízo das penas previstas no art. 28. § 4o Nos delitos definidos no caput e no § 1o deste artigo, as penas poderão ser reduzidas de um sexto a dois terços, vedada a conversão em penas restritivas de direitos, desde que o agente seja primário, de bons antecedentes, não se dedique às atividades criminosas nem integre organização criminosa. (Vide Resolução nº 5, de 2012) Os crimes previstos na Lei de Drogas não possuem um nome específico, não há uma “rubrica marginal” como ocorre no CP, por exemplo, que chama o art. 121 de homicídio, o art. 155 de furto, o art. 157 de roubo. Aqui, o nome dos crimes é dado pela doutrina e pela jurisprudência. O entendimento dominante, hoje, é que a expressão “tráfico de drogas” abrange os delitos previstos no art. 33, caput, e § 3º, bem como o art. 34 da referida lei. Há doutrina que também inclui os arts. 35 e 37 como tráfico. O caput do art. 33 contém 18 núcleos. É chamado de tipo misto alternativo, de crime de ação múltipla ou crime de conteúdo variável. Assim, mesmo que o agente pratique 2 ou mais condutas contra o mesmo objeto material (mesma droga) irá responder por um único crime. Contudo, se as drogas forem diversas haverá concurso de crime. Ex.: o agente importou cocaína, guardou maconha, vendeu LSD. SUJEITO ATIVO Trata-se de crime comum ou geral, ou seja, pode ser praticado por qualquer pessoa. Não se exige qualidade especial do agente. Obs.: caso o agente pratique o tráfico de drogas prevalecendo-se de sua função pública, no desempenho de missão de educação, poder familiar, guarda ou vigilância, a pena será aumentada, nos termos do art. 40, II. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Congresso/RSF-05-2012.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Congresso/RSF-05-2012.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Congresso/RSF-05-2012.htm CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 22 Art. 40 - As penas previstas nos arts. 33 a 37 desta Lei são aumentadas de um sexto a dois terços, se: II - o agente praticar o crime prevalecendo-se de função pública ou no desempenho de missão de educação, poder familiar, guarda ou vigilância. ELEMENTO NORMATIVO É necessário que a conduta seja praticada sem “autorização ou em desacordo com determinação legal”. Portanto, havendo autorização para a prática de algum dos 18 núcleos, não haverá o crime de tráfico de drogas. Assim, é perfeitamente possível o comércio lícito de drogas, desde que haja autorização legal. Art. 31. É indispensável a licença prévia da autoridade competente para produzir, extrair, fabricar, transformar, preparar, possuir, manter em depósito, importar, exportar, reexportar, remeter, transportar, expor, oferecer, vender, comprar, trocar, ceder ou adquirir, para qualquer fim, drogas ou matéria-prima destinada à sua preparação, observadas as demais exigências legais. As condutas de plantar maconha para fins medicinais e importar sementes para o plantio não preenchem a tipicidade material, motivo pelo qual se faz possível a expedição de salvo-conduto, desde que comprovada a necessidade médica do tratamento. STJ. 5ª Turma. HC 779.289/DF, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 22/11/2022 (Info 758). A ausência de regulamentação administrativa persiste e não tem previsão para solução breve, uma vez que a ANVISA considera que a competência para regular o cultivo de plantas sujeitas a controle especial seria do Ministério da Saúde e este considera que a competência seria da ANVISA. Logo, é necessário superar eventuais óbices administrativos e cíveis, privilegiando-se, dessa forma, o acesso à saúde, por todos os meios possíveis, ainda que pela concessão de salvo-conduto mediante habeas corpus. A questão aqui discutida não pode ser objeto da sanção penal, porque se trata do exercício de um Direito Fundamental, constitucionalmente, garantido, isto é, o Direito à Saúde, e a atuação proativa do STJ justifica-se juridicamente. STJ. 3ª Seção. AgRg no HC 783.717-PR, Rel. Min. Messod Azulay Neto, Rel. para acórdão Min. Jesuíno Rissato (Desembargador convocado do TJDFT), julgado em 13/9/2023 (Info 794). FLAGRANTE PREPARADO O típico exemplo de flagrante preparadoé o caso do policial à paisana que procura um traficante para comprar drogas. Após a efetiva entrega da droga, o policial efetua a prisão. Para saber se o flagrante preparado é válido ou não, importante conhecer a Súmula 145 do STF: CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 23 Súmula 145 do STF: Não há crime, quando a preparação do flagrante pela polícia torna impossível a sua consumação. TJ-PR - Titular de Serviços de Notas e de Registros - Remoção - 2019: Sobre a prisão em flagrante, é correto afirmar que não há crime quando a preparação do flagrante pela polícia torna impossível a sua consumação. Certo. A súmula trata do crime de ensaio ou experiência ou delito putativo por obra do agente provocador. Segundo Nelson Hungria, neste caso, o traficante será um “protagonista inconsciente de uma comédia criminosa”. Para determinar se há ou não crime, importante separar as condutas, com base nos seguintes critérios: 1) Em relação à conduta de vender, o flagrante é preparado. Portanto, deve-se observar o enunciado da Súmula 145 do STF. No exemplo acima, não haveria crime, eis que o policial forçou a situação de flagrante. 2) Em relação à conduta de ter em depósito, não há flagrante preparado, pois, independentemente da ação do policial o agente já tinha a droga em depósito (crime permanente). DOSIMETRIA DA PENA 11.5.1. Pena privativa de liberdade Para a fixação da pena, o juiz irá considerar a natureza e a quantidade do produto, a personalidade e a conduta social do agente, as quais serão preponderantes sobre as circunstâncias judiciais do art. 59 do CP. Art. 42. O juiz, na fixação das penas, considerará, com preponderância sobre o previsto no art. 59 do Código Penal, a natureza e a quantidade da substância ou do produto, a personalidade e a conduta social do agente. Aqui, também, segue-se o critério trifásico para a fixação da pena. Como o tema foi cobrado em concurso? (TJ-MS - Juiz - FCC - 2020): O juiz, na fixação das penas, em igualdade de condições com todas as circunstâncias previstas no Código Penal para estabelecimento das sanções básicas, considerará a natureza e a quantidade da substância ou do produto. Errado. (DPE-GO - Defensor - FCC - 2021): No crime de tráfico ilícito de entorpecentes, a natureza e quantidade da substância ou do produto não podem ser valoradas negativamente na aplicação da pena por configurar bis in idem. Errado. 11.5.2. Pena de multa CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 24 Para fixar a pena de multa, após observar o art. 42 da Lei Drogas, o juiz irá fixar os dias- multas (500 até 1500). Posteriormente, irá calcular o valor de cada dia-multa, o qual não poderá ser menor do que 1/30 avos do salário-mínimo e nem ultrapassar o valor de 5 vezes o salário-mínimo. Aqui, utiliza-se o sistema bifásico. Caso o valor da multa seja insuficiente, o juiz poderá aumentar em até 10x o seu valor. Obs.: havendo concurso de crimes, as multas são impostas cumulativamente. Art. 43. Na fixação da multa a que se referem os arts. 33 a 39 desta Lei, o juiz, atendendo ao que dispõe o art. 42 desta Lei, determinará o número de dias-multa, atribuindo a cada um, segundo as condições econômicas dos acusados, valor não inferior a um trinta avos nem superior a 5 (cinco) vezes o maior salário-mínimo. Parágrafo único. As multas, que em caso de concurso de crimes serão impostas sempre cumulativamente, podem ser aumentadas até o décuplo se, em virtude da situação econômica do acusado, considerá-las o juiz ineficazes, ainda que aplicadas no máximo. TJ-MS – Juiz - FCC – 2020: A pena de multa pode ser aumentada até o limite do triplo se, em virtude da situação econômica do acusado, considerá-la o juiz ineficaz, ainda que aplicada no máximo. Errado. Foi questionada no STF a constitucionalidade da multa mínima prevista no art. 33 da Lei de Drogas (500 dias-multa), pois violaria os princípios da proporcionalidade, da isonomia e da individualização da pena. O STF (Tema 1.178 - Repercussão Geral) entendeu que o preceito secundário do art. 33 da Lei 11.343/06 é opção legislativa no combate ao tráfico de drogas, apenando com maior severidade aqueles infratores, não competindo ao Poder Judiciário interferir nessas escolhas, in verbis: A multa mínima prevista no artigo 33 da Lei 11.343/06 é opção legislativa legítima para a quantificação da pena, não cabendo ao Poder Judiciário alterá-la com fundamento nos princípios da proporcionalidade, da isonomia e da individualização da pena. STF. Plenário. RE 1347158/SP, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 21/10/2021 (Repercussão Geral – Tema 1.178) CAUSA DE DIMINUIÇÃO DE PENA 11.6.1. Previsão legal Está prevista no art. 33, § 4º da Lei 11.343/2006. Também é chamada de tráfico acidental, de tráfico privilegiado, de tráfico eventual. Art. 33, § 4o Nos delitos definidos no caput e no § 1o deste artigo, as penas poderão ser reduzidas de um sexto a dois terços, vedada a conversão em penas restritivas de direitos, desde que o agente seja primário, de bons antecedentes, não se dedique às atividades criminosas nem integre organização criminosa. (Vide Resolução nº 5, de 2012) http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Congresso/RSF-05-2012.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Congresso/RSF-05-2012.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Congresso/RSF-05-2012.htm CS - LEI DE DROGAS - 2025.1 25 11.6.2. Vedação de penas restritivas de direitos O STF, em controle difuso de constitucionalidade, entendeu que a expressão “vedada a conversão em penas restritivas de direitos” era inconstitucional, uma vez que viola os princípios da individualização da pena e da proporcionalidade. Diante disso, o Senado Federal, em 2012, editou a Resolução nº 5, a fim de que a decisão do STF fosse retirada a expressão, admitindo-se a substituição da pena privativa de liberdade por penas restritivas de direitos. 11.6.3. Tráfico privilegiado X Crime Hediondo O STF, em mudança de entendimento (overruling), passou a considerar que o chamado tráfico privilegiado não pode ser equiparado a crime hediondo, considerando que (argumentos extraídos do Info 831 do Dizer o Direito)6: 1) Para que um crime seja considerado hediondo ou equiparado, é indispensável que a lei assim o preveja. Ao se analisar a Lei 11.343/2006, percebe-se que apenas as modalidades de tráfico de entorpecentes definidas no art. 33, caput e § 1º são equiparadas a crimes hediondos. 2) O art. 33, § 4º não foi incluído pelo legislador como sendo equiparado a hediondo. O legislador entendeu que deveria conferir ao tráfico privilegiado um tratamento distinto das demais modalidades de tráfico previstas no art. 33, caput e § 1º. 3) A redação dada ao art. 33, § 4º demonstra que existe um menor juízo de reprovação nesta conduta e, em consequência, de punição dessas pessoas. Não se pode, portanto, afirmar que este crime tem natureza hedionda. 4) Os Decretos 6.706/2008 e 7.049/2009 beneficiaram com indulto os condenados por tráfico de entorpecentes privilegiado, a demonstrar inclinação no sentido de que esse delito não é hediondo. 5) Vale ressaltar, ainda, que o crime de associação para o tráfico, que exige liame subjetivo estável e habitual direcionado à consecução da traficância, não é equiparado a hediondo. Dessa forma, afirmar que o tráfico minorado é crime equiparado a hediondo significaria concluir que a lei conferiu ao traficante ocasional tratamento penal mais severo que o dispensado ao agente que se associa de forma estável para exercer a traficância de modo habitual. Em virtude da decisão do Plenário do STF, o STJ cancelou a Súmula 512, a qual afirmava que a aplicação da causa de diminuição de pena do § 4º do art. 33 não afastava a hediondez do crime. Corroborando o entendimento acima, o Pacote Anticrime alterou a redação do art.