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Revisada Atualizada Ampliada Edição 2025.1 L a v a g e m d e CAPITAIS LEI DE LAVAGEM DE CAPITAIS APRESENTAÇÃO................................................................................................................................ 2 1. INTRODUÇÃO .............................................................................................................................. 3 2. HISTÓRICO .................................................................................................................................. 3 2.1. ALTERAÇÕES ADVINDAS COM A LEI 12.683/12 .............................................................. 3 2.1.1. Extinção do rol de infrações antecedentes ................................................................... 4 2.1.2. Aprimoramento das medidas assecuratórias ................................................................ 5 2.1.3. Ampliação das pessoas físicas/jurídicas responsáveis pela comunicação de operações suspeitas (Lei 9.613/98, art. 9º) ................................................................................. 7 3. EXPRESSÃO “LAVAGEM DE DINHEIRO” (LAVAGEM DE CAPITAIS) .................................... 8 4. CONCEITO DE LAVAGEM DE CAPITAIS .................................................................................. 8 5. GERAÇÕES DE LEIS DE LAVAGEM DE CAPITAIS .................................................................. 9 5.1. LEIS DE 1ª GERAÇÃO ......................................................................................................... 9 5.2. LEIS DE 2ª GERAÇÃO ......................................................................................................... 9 5.3. LEIS DE 3ª GERAÇÃO ......................................................................................................... 9 6. FASES DA LAVAGEM DE CAPITAIS ........................................................................................ 10 6.1. 1ª FASE: COLOCAÇÃO (PLACEMENT) ............................................................................ 11 6.2. 2ª FASE: DISSIMULAÇÃO, OCULTAÇÃO OU MASCARAMENTO (LAYERING, “COLOCAR CAMADAS”) ............................................................................................................... 12 6.3. 3ª FASE: INTEGRAÇÃO (INTEGRATION) ........................................................................ 12 7. BEM JURÍDICO TUTELADO ..................................................................................................... 12 7.1. 1ª CORRENTE .................................................................................................................... 12 7.2. 2ª CORRENTE .................................................................................................................... 13 7.3. 3ª CORRENTE .................................................................................................................... 13 7.4. 4ª CORRENTE .................................................................................................................... 14 8. ACESSORIEDADE DA LAVAGEM DE CAPITAIS .................................................................... 15 9. SUJEITOS DO CRIME ............................................................................................................... 18 9.1. SUJEITO ATIVO ................................................................................................................. 18 9.2. SUJEITO PASSIVO ............................................................................................................ 19 9.3. AUTOLAVAGEM (SELFLAUNDERING) ............................................................................ 19 9.4. DESNECESSIDADE DE PARTICIPAÇÃO NA INFRAÇÃO ANTECEDENTE .................. 20 9.5. ADVOGADO COMO SUJEITO ATIVO DO CRIME DE LAVAGEM DE CAPITAIS ........... 20 10. TIPO OBJETIVO ..................................................................................................................... 22 10.1. DISTINÇÃO ENTRE O EXAURIMENTO DA INFRAÇÃO ANTECEDENTE E O CRIME DE LAVAGEM DE CAPITAIS .............................................................................................................. 22 10.2. NATUREZA INSTANTÂNEA OU PERMANENTE .............................................................. 22 11. TIPO SUBJETIVO ................................................................................................................... 24 11.1. DOLO EVENTUAL .............................................................................................................. 24 11.2. CASO DO BANCO CENTRAL DE FORTALEZA (TEORIA DA CEGUEIRA DELIBERADA) 24 12. OBJETO MATERIAL ............................................................................................................... 25 12.1. PRODUTO DIRETO E INDIRETO DA INFRAÇÃO ANTECEDENTE ............................... 25 12.2. LAVAGEM DA LAVAGEM (LAVAGEM EM CADEIA) ........................................................ 25 13. REGIME ESPECIAL DE REGULARIZAÇÃO CAMBIAL E TRIBUTÁRIA (RERCT) ............. 26 14. CAUSA DE AUMENTO DE PENA ......................................................................................... 26 15. COMPETÊNCIA CRIMINAL ................................................................................................... 27 15.1. VARAS ESPECIALIZADAS PARA LAVAGEM DE CAPITAIS ........................................... 27 16. JUSTA CAUSA DUPLICADA ................................................................................................. 28 17. APLICAÇÃO DO ART. 366 DO CPP NA LEI DE LAVAGEM DE CAPITAIS ........................ 29 18. AÇÃO CONTROLADA ............................................................................................................ 29 CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 1 19. COLABORAÇÃO PREMIADA ................................................................................................ 30 19.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES ......................................................................... 30 19.2. BENEFÍCIOS ....................................................................................................................... 31 19.3. EFEITOS ............................................................................................................................. 31 19.4. MOMENTO DA COLABORAÇÃO PREMIADA .................................................................. 32 20. LIBERDADE PROVISÓRIA .................................................................................................... 32 21. EFEITOS DA CONDENAÇÃO ................................................................................................ 32 22. (IM)POSSIBILIDADE DE AFASTAMENTO AUTOMÁTICO DE SERVIDOR PÚBLICO INDICIADO POR LAVAGEM DE CAPITAIS ..................................................................................... 33 22.1. NECESSIDADE DE APRECIAÇÃO PELO PODER JUDICIÁRIO ..................................... 34 22.2. PRINCÍPIO DA PROPORCIONALIDADE .......................................................................... 34 22.3. PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA .......................................................................................... 34 22.4. VIOLAÇÃO À ISONOMIA ................................................................................................... 35 23. JURISPRUDÊNCIA EM TESES ............................................................................................. 36 CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 2 APRESENTAÇÃO Olá! Inicialmente gostaríamos de agradecer a confiança em nosso material. Esperamos que seja útil na sua preparação, em todas as fases. Quanto mais contato temos com uma mesma fonte de estudo, mais familiarizados ficamos, o que ajuda na memorização e na compreensão da matéria. O Caderno Legislação Penal Especial - Lavagem de Capitais possuiou Instruções da Avestruz compreende as hipóteses em que os operadores do sistema financeiro (que têm, enquanto tais, a obrigação de conhecer seus clientes e a procedência do dinheiro deles), deliberadamente, evitam a consciência quanto à origem ilícita dos valores para que, futuramente, não sejam responsabilizados pelo crime de Lavagem de Capitais. Não obstante a decisão do magistrado de 1ª Instância, no TRF da 5ª Região, os empresários foram absolvidos, em razão do entendimento de que o crime do Banco Central somente foi descoberto na segunda-feira e, como a venda ocorreu no sábado, os lojistas não tinham como saber da ocorrência do crime. Para mais, à época, o tipo penal pelo qual foram denunciados não admitia dolo eventual (elemento essencial para a Teoria da Cegueira Deliberada). 12. OBJETO MATERIAL O objeto material é a pessoa ou coisa sob a qual recai a conduta delituosa. O objeto material da lavagem consiste no produto da infração antecedente, tanto produto direto quanto indireto. 12.1. PRODUTO DIRETO E INDIRETO DA INFRAÇÃO ANTECEDENTE Produto direto é o resultado imediato da operação delinquencial. Ex.: relógio subtraído, dinheiro obtido com a venda da droga, dinheiro obtido como fruto da corrupção. Produto indireto ou proveito é o resultado mediato do crime, ou seja, a substituição ou utilização econômica do produto direto do delito. Ex.: venda de droga que gera R$ 500.000,00, esse valor é o produto direto. O que o sujeito for fazer com esses R$ 500.000,00 será o produto indireto. Se comprar um apartamento, será ele o proveito. 12.2. LAVAGEM DA LAVAGEM (LAVAGEM EM CADEIA) CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 26 Possibilitada a partir da edição da Lei 12.683/12, consiste na lavagem que tem como infração penal antecedente outra lavagem. Assim, a partir do momento em que qualquer infração penal pode ser considerada antecedente da Lavagem de Capitais, esta infração penal antecedente poderá ser, inclusive, outra Lavagem de Capitais. 13. REGIME ESPECIAL DE REGULARIZAÇÃO CAMBIAL E TRIBUTÁRIA (RERCT) A título de atualização, atentar-se ao Regime Especial de Regularização Cambial e Tributária (RERCT) de valores não declarados mantidos no exterior e extinção da punibilidade do crime de Lavagem de Capitais, tratado na Lei 13.254/2016. Entendeu-se como alternativa de fonte de rendas, no Brasil, o retorno dos valores remetidos ao exterior de maneira não declarada. Buscou-se incentivar as pessoas que o fizeram a se manifestarem declarando a operação, retomarem a quantia despachada, pagarem uma multa irrisória e assim ter reconhecida, em seu favor, a extinção de sua punibilidade por eventual Lavagem de Capitais, já que, em tese, nela incorreram por ofender a ordem econômico-financeira através do crime de Evasão de Divisas. Apesar de a referida lei ter sido criada com tempo determinado, vem sofrendo sucessivas prorrogações a fim de facilitar tal mecanismo. 14. CAUSA DE AUMENTO DE PENA Lei 9.613/98 Lei 9.613/98, com redação dada pela Lei 12.683/12 Lei 9.613/98, com redação dada pela Lei 14.478/22 Art. 1º, § 4º A pena será aumentada de 1 (um) a 2/3 (dois terços), nos casos previstos nos incisos I a VI do caput deste artigo, se o crime for cometido de forma habitual ou por intermédio de organização criminosa. Art. 1º, § 4º A pena será aumentada de um a dois terços, se os crimes definidos nesta Lei forem cometidos de forma reiterada ou por intermédio de organização criminosa. Art. 1º, § 4º A pena será aumentada de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços) se os crimes definidos nesta Lei forem cometidos de forma reiterada, por intermédio de organização criminosa ou por meio da utilização de ativo virtual. O crime de Lavagem de Capitais não é crime habitual. Tanto não é que, se praticado reiteradamente, será computada a causa de aumento de pena. De acordo com Gustavo Badaró, deve-se “interpretar o novo texto como uma dispensa da comprovação da habitualidade para a causa de aumento, caracterizada como repetição usual da prática criminosa, que revela um estilo de vida do agente, voltado àquele delito”. Renato Brasileiro de Lima entende que “a habitualidade não é uma elementar do tipo de lavagem, como acontece em outros crimes, como o exercício ilegal de medicina, arte dentária ou farmacêutica (art. 282 do CP). O § 4º (em sua redação antiga) traz a figura da habitualidade http://www.jusbrasil.com.br/topicos/10602464/artigo-282-do-decreto-lei-n-2848-de-07-de-dezembro-de-1940 http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/1033702/c%C3%B3digo-penal-decreto-lei-2848-40 CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 27 criminosa, a reiteração delituosa, ou do criminoso habitual, conceito este que não se confunde com crime habitual. Enquanto no crime habitual o delito é único, figurando a habitualidade como elementar do tipo, na habitualidade criminosa há pluralidade de crimes, sendo a habitualidade uma característica do agente, e não da infração penal. No crime habitual a prática de um ato isolado não gera tipicidade, ao passo que, na habitualidade criminosa, tem-se uma sequência de atos típicos que demonstram um estilo de vida do autor, ou seja, cada um dos crimes anteriores já é suficiente de per si para a caracterização da lavagem, sendo que o conjunto de delitos autoriza o aumento da pena”. 15. COMPETÊNCIA CRIMINAL Em regra, a competência para julgar a Lavagem de Capitais é da Justiça Estadual. Todavia, a própria lei prevê situações em que essa competência poderá ser da Justiça Federal (art. 2º, III, da Lei 9.613/98): Art. 2º, III - são da competência da Justiça Federal a) quando praticados contra o sistema financeiro e a ordem econômico- financeira, ou em detrimento de bens, serviços ou interesses da União, ou de suas entidades autárquicas ou empresas públicas; b) quando a infração penal antecedente for de competência da Justiça Federal. Além disso, alguns doutrinadores (Andrey Borges de Mendonça) citam o inciso V do artigo 109 da CF/88: Art. 109. Aos juízes federais compete processar e julgar V - os crimes previstos em tratado ou convenção internacional, quando, iniciada a execução no País, o resultado tenha ou devesse ter ocorrido no estrangeiro, ou reciprocamente. A lavagem também será julgada pela Justiça Federal quando a infração penal antecedente for dotada de internacionalidade territorial do resultado relativamente à conduta delituosa. Nesse caso, o Brasil também teria assumido a obrigação de combater esse delito. Como o tema foi cobrado em concurso? (PC-MG - Delegado - FUMARC - 2021): O processo e o julgamento dos crimes previstos na Lei nº 9.613/1998 não são da competência da Justiça Federal nas hipóteses em que a infração penal antecedente for de competência da Justiça Federal, tendo em vista serem crimes autônomos. Errado. 15.1. VARAS ESPECIALIZADAS PARA LAVAGEM DE CAPITAIS Ao longo dos anos, especialmente, em 2003, com a difusão da especialização de Varas, surgiram dois problemas: 1) É possível especializar Vara? 2) É possível especializar Vara através de Resoluções e Provimentos? CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 28 O STF foi chamado a analisar a questão e pronunciou-se no sentido de que é possível a especialização de Varas, visto que está compreendida no poder de auto-organização do Poder Judiciário. Assim, se o Judiciário entende que a especialização de Varas aperfeiçoará sua prestação jurisdicional, poderá fazê-la. Essa especialização, de acordo com o Supremo, não está sujeita ao Princípio da Reserva Legal em Sentido Estrito e sim ao Princípio da Legalidade em Sentido Amplo. Portanto, pode ocorrer através de Provimentos, Portarias, sem que seja necessária lei ordinária em sentido estrito. Houve uma decisão que, à época, entendeu que essa atribuição não seria do Conselho da Justiça Federal (CJF), porque, de fato,na CF/88, o CJF não tem atribuições jurisdicionais, desta forma, tal especialização não pode ser feita pelo CJF como determina o artigo 12 da Lei 5.010/66 que, por sua vez, deve ser lido à luz da CF/88: Art. 12. Nas Seções Judiciárias em que houver mais de uma Vara, poderá o Conselho da Justiça Federal (entende-se TRF) fixar-lhes sede em cidade diversa da Capital, especializar Varas e atribuir competência por natureza de feitos a determinados Juízes. Vide inciso II do § 1º do artigo 105 da CF/88: Art. 105, § 1º Funcionarão junto ao Superior Tribunal de Justiça: II - o Conselho da Justiça Federal, cabendo-lhe exercer, na forma da lei, a supervisão administrativa e orçamentária da Justiça Federal de primeiro e segundo graus, como órgão central do sistema e com poderes correicionais, cujas decisões terão caráter vinculante. 16. JUSTA CAUSA DUPLICADA A justa causa é requisito para o oferecimento da peça acusatória, ou seja, o suporte probatório mínimo. Tratando-se do delito de lavagem de capitais, a justa causa deve ser duplicada. Significa dizer que deve haver suporte probatório mínimo tanto para a infração penal antecedente quanto para o crime de lavagem. Art. 2º, § 1o A denúncia será instruída com indícios suficientes da existência da infração penal antecedente, sendo puníveis os fatos previstos nesta Lei, ainda que desconhecido ou isento de pena o autor, ou extinta a punibilidade da infração penal antecedente. Observa-se, contudo, que segundo o STJ, na denúncia pelo crime de lavagem de dinheiro, não é necessário que o Ministério Público faça uma descrição exaustiva e pormenorizada da infração penal antecedente: Se o Ministério Público oferece denúncia por lavagem de dinheiro, ele deverá narrar, além do crime de lavagem (art. 1º da Lei nº 9.613/98), qual foi a infração penal antecedente cometida. Importante esclarecer, contudo, que não é necessário que o Ministério Público faça uma descrição exaustiva e pormenorizada da infração penal antecedente, bastando apontar a existência CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 29 de indícios suficientes de que ela tenha sido praticada e que os bens, direitos ou valores que foram “lavados” (ocultados ou dissimulados) sejam provenientes desta infração. Assim, a aptidão da denúncia relativa ao crime de lavagem de dinheiro não exige uma descrição exaustiva e pormenorizada do suposto crime prévio, bastando a presença de indícios suficientes de que o objeto material da lavagem seja proveniente, direta ou indiretamente, de infração penal. STJ. Corte Especial. APn 923-DF, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 23/09/2019 (Info 657). 17. APLICAÇÃO DO ART. 366 DO CPP NA LEI DE LAVAGEM DE CAPITAIS Conforme o art. 366 do CPP, se o acusado, citado por edital, não comparecer, nem constituir advogado, ficarão suspensos o processo e o curso do prazo prescricional, podendo o juiz determinar a produção antecipada das provas consideradas urgentes e, se for o caso, decretar prisão preventiva, condicionada aos pressupostos e requisitos do art. 312 do CPP. Segundo previsão expressa do art. 2º, § 2º da Lei 9.613/98, o art. 366 do CPP não se aplica no caso do processo pelo crime de lavagem de capitais. Art. 2º, § 2o No processo por crime previsto nesta Lei, não se aplica o disposto no art. 366 do Decreto-Lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941 (Código de Processo Penal), devendo o acusado que não comparecer nem constituir advogado ser citado por edital, prosseguindo o feito até o julgamento, com a nomeação de defensor dativo. Trata-se de mera opção legislativa. O legislador entendeu que, para os crimes de lavagem de capitais, deve haver um tratamento mais rigoroso ao réu, não se aplicando a suspensão do processo. Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-PR - Promotor - MPE-PR - 2021): No processo dos crimes previstos na Lei 9.613/1998, o acusado que não comparecer nem constituir advogado será citado por edital e o processo ficará suspenso nos termos do art. 366 do CPP. Errado. (PF - Delegado Federal - CESPE - 2021): Ficarão suspensos o processo e o curso do prazo prescricional do acusado citado por edital que não comparecer nem constituir advogado. Errado. 18. AÇÃO CONTROLADA Segundo Renato Brasileiro, “a ação controlada consiste no retardamento da intervenção do aparato estatal, que deve ocorrer em momento mais oportuno do ponto de vista da investigação criminal. Cuida-se de importante técnica especial de investigação, prevista expressamente na Lei de Lavagem de Capitais, na Lei de Drogas e na Lei de Organizações Criminosas”. A ação controlada está prevista na Lei de Lavagem (art. 4º-B), desde que autorizada pelo juiz. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del3689.htm#art366 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del3689.htm#art366 CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 30 Art. 4o-B. A ordem de prisão de pessoas ou as medidas assecuratórias de bens, direitos ou valores poderão ser suspensas pelo juiz, ouvido o Ministério Público, quando a sua execução imediata puder comprometer as investigações. O Pacote Anticrime incluiu o § 6º ao art. 1º da Lei de Lavagem de Capitais, admitindo a ação controlada e a infiltração de agentes. Art. 1º, § 6º Para a apuração do crime de que trata este artigo, admite-se a utilização da ação controlada e da infiltração de agentes. Destaca-se que até a entrada em vigor da Lei 13.964/2019, não era possível a infiltração de agentes nos delitos de lavagem. Com o advento do Pacote Anticrime passou a ser possível, devendo respeitar os requisitos da Lei 12.850/2013. Diante disso, surge a indagação: qual o motivo de o Pacote Anticrime autorizar algo que já estava previsto em lei? • 1ª corrente: não houve nenhuma novidade. Ao citar a ação controlada no § 6º, o Pacote Anticrime apenas reforçou a previsão já contida. • 2ª corrente: o Pacote Anticrime, ao se referir à ação controlada, estabeleceu que a ação controlada deve seguir a mesma sistemática da Lei 12.850/2013, assim como a infiltração. Portanto, não haverá necessidade de autorização prévia, ao contrário do que prevê o art. 4º-B, que, segundo a 2ª corrente, revogou tacitamente a necessidade de autorização judicial para a ação controlada. Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-PR - Promotor - MPE-PR - 2021): Para apuração de crime previsto na Lei 9.613/1998, admite-se a ação controlada, mesmo quando não se tratar de organização criminosa. Correto. (PF - Delegado Federal - CESPE - 2021): Ouvido o Ministério Público, ordens de prisão ou medidas assecuratórias de bens poderão ser suspensas pelo juiz quando a execução imediata dessas ações puder comprometer as investigações. Correto. 19. COLABORAÇÃO PREMIADA 19.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES Está disciplinada no § 5º do art. 1º da Lei de Lavagem de Capitais: Art. 1º, § 5o A pena poderá ser reduzida de um a dois terços e ser cumprida em regime aberto ou semiaberto, facultando-se ao juiz deixar de aplicá-la ou substituí-la, a qualquer tempo, por pena restritiva de direitos, se o autor, coautor ou partícipe colaborar espontaneamente com as autoridades, prestando esclarecimentos que conduzam à apuração das infrações penais, CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 31 à identificação dos autores, coautores e partícipes, ou à localização dos bens, direitos ou valores objeto do crime. A colaboração premiada (também conhecida por “chamada de corréu”), genericamente falando, consiste na possibilidade concedida ao autor, coautor ou partícipe da infração penal de ter sua pena reduzida, substituída por restritiva de direitos, ou até mesmo extinta, mediante a denúncia de seus comparsas às autoridades, possibilitando: a) O desmantelamento da associação ou organização criminosa; b) A descoberta de toda a trama delituosa; c) A localização do produto docrime ou; d) A facilitação da libertação do sequestrado, no caso do crime de extorsão mediante sequestro, cometido em concurso de agentes. Obs.: se o réu confessar o crime, mas suas declarações não representam efetiva colaboração com a investigação policial e com o processo criminal nem fornecem informações eficazes para a descoberta da trama delituosa, ele não terá direito ao benefício da delação premiada. STJ. 6ª Turma. HC 174286-DF, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 10/4/2012. 19.2. BENEFÍCIOS A colaboração premiada na Lei de Lavagem de Capitais pode trazer para o acusado três benefícios (que variam de acordo com o grau de colaboração): 1) Diminuição da pena de 1/3 a 2/3 e fixação de regime inicial aberto ou semiaberto; Obs.: salienta-se que na redação original havia menção apenas a fixação de regime aberto. 2) Substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos (mesmo que não preenchidos os requisitos do art. 44 CP); 3) Perdão judicial como causa extintiva da punibilidade. 19.3. EFEITOS A colaboração premiada deve produzir um dos efeitos listados abaixo (não são cumulativos): a) Apuração das infrações penais Segundo Renato Brasileiro, “não há qualquer referência a qual das infrações penais a colaboração se refere. Diante do silêncio da lei, o ideal é concluir que o dispositivo se refere-se à apuração de ambas as infrações, ou seja, tanto da lavagem de capitais quanto das infrações antecedentes”. CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 32 b) Identificação dos demais coautores As informações prestadas devem ser capazes de identificar todos os indivíduos que concorreram para a prática criminosa. c) Localização dos bens, direitos ou valores objetos do crime 19.4. MOMENTO DA COLABORAÇÃO PREMIADA Para a doutrina, a colaboração premiada pode ser acordada com o criminoso desde a fase investigatória até o momento da sentença. Porém, para alguns doutrinadores, a colaboração premiada poderia ser feita mesmo após o trânsito em julgado da sentença condenatória, desde que a delação seja objetivamente eficaz. Como o tema foi cobrado em concurso? (PGE-CE - Procurador - CESPE - 2021): Em caso de colaboração espontânea do agente com as autoridades, mediante esclarecimentos relevantes para a apuração da materialidade ou da autoria/participação no crime nos termos da lei, a pena poderá ser reduzida de um a dois terços e ser cumprida em regime aberto ou semiaberto, facultadas ainda ao órgão julgador a concessão do perdão judicial ou a substituição da pena, a qualquer tempo, por pena restritiva de direitos. Correto. 20. LIBERDADE PROVISÓRIA Trata-se de uma medida de contracautela que substitui a prisão em flagrante, desde que o indivíduo preencha determinados requisitos, podendo ou não ficar sujeito ao cumprimento ou não de certas condições. A redação original da Lei de Lavagem de Capitais vedava a concessão de liberdade provisória e de fiança. Art. 3º Os crimes disciplinados nesta Lei são insuscetíveis de fiança e liberdade provisória e, em caso de sentença condenatória, o juiz decidirá fundamentadamente se o réu poderá apelar em liberdade. A Lei 12.683/2012 revogou tal previsão, seguindo o entendimento do STF que considera inconstitucional toda e qualquer lei que vede, de forma genérica, a concessão de liberdade provisória. 21. EFEITOS DA CONDENAÇÃO Além dos efeitos previstos no Código Penal, o art. 7º da Lei de Lavagem de Capitais (alterado pela Lei 12.683/2012), consagra um efeito GENÉRICO da condenação, bastando, portanto, o trânsito em julgado da sentença penal condenatória. Art. 7º São efeitos da condenação, além dos previstos no Código Penal: CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 33 I - a perda, em favor da União - e dos Estados, nos casos de competência da Justiça Estadual -, de todos os bens, direitos e valores relacionados, direta ou indiretamente, à prática dos crimes previstos nesta Lei, inclusive aqueles utilizados para prestar a fiança, ressalvado o direito do lesado ou de terceiro de boa-fé; II - a interdição do exercício de cargo ou função pública de qualquer natureza e de diretor, de membro de conselho de administração ou de gerência das pessoas jurídicas referidas no art. 9º, pelo dobro do tempo da pena privativa de liberdade aplicada. § 1o A União e os Estados, no âmbito de suas competências, regulamentarão a forma de destinação dos bens, direitos e valores cuja perda houver sido declarada, assegurada, quanto aos processos de competência da Justiça Federal, a sua utilização pelos órgãos federais encarregados da prevenção, do combate, da ação penal e do julgamento dos crimes previstos nesta Lei, e, quanto aos processos de competência da Justiça Estadual, a preferência dos órgãos locais com idêntica função. § 2o Os instrumentos do crime sem valor econômico cuja perda em favor da União ou do Estado for decretada serão inutilizados ou doados a museu criminal ou a entidade pública, se houver interesse na sua conservação. A redação do art. 7º, I, é ampla e prevê, como efeito da condenação, o perdimento de bens, direitos e valores relacionados, direta ou indiretamente, à prática de lavagem de dinheiro, inclusive aqueles utilizados para prestar a fiança. A Lei 12.683/2012 aumentou as possibilidades de perdimento. O perdimento será em favor da União se o crime de lavagem, no caso concreto, for de competência federal. Por outro lado, o perdimento será revertido para o respectivo Estado se o processo criminal por lavagem, na situação específica, for de competência da Justiça Estadual. Salienta-se que a União e os Estados poderão editar atos infralegais disciplinando para onde serão destinados os bens, direitos e valores cujo perdimento houver sido declarado. A própria Lei, contudo, limita a discricionariedade do regulamento afirmando que deverá ser assegurada a utilização de tais bens, direitos e valores pelos órgãos encarregados da prevenção (ex.: COAF), do combate (ex.: Polícia Federal), da ação penal (ex.: Ministério Público) e do julgamento (ex.: varas especializadas) de lavagem de dinheiro. 22. (IM)POSSIBILIDADE DE AFASTAMENTO AUTOMÁTICO DE SERVIDOR PÚBLICO INDICIADO POR LAVAGEM DE CAPITAIS1 Observe a redação do art. 17-D da Lei de Lavagem de Capitais: Art. 17-D. Em caso de indiciamento de servidor público, este será afastado, sem prejuízo de remuneração e demais direitos previstos em lei, até que o juiz competente autorize, em decisão fundamentada, o seu retorno. 1 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. É inconstitucional a previsão legal que determina o afastamento do servidor público pelo simples fato de ele ter sido indiciado pela prática de crime. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em: . Acesso em: 02/04/2024. CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 34 A Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) ajuizou ADI contra o dispositivo alegando que ele violaria os princípios constitucionais da presunção de inocência, da segurança jurídica, da razoabilidade e da proporcionalidade, do devido processo legal, do contraditório e ampla defesa e da inafastabilidade da jurisdição. O que o STF decidiu? O pedido foi julgado procedente? A previsão é inconstitucional? SIM. O STF julgou inconstitucional o art. 17-D da Lei 9.613/98. 22.1. NECESSIDADE DE APRECIAÇÃO PELO PODER JUDICIÁRIO O afastamento do servidor somente se justifica quando ficar demonstrado nos autos que existe risco caso ele continue no desempenho de suas funções e que o afastamento é uma medida eficaz e proporcional para se tutelar a investigação e a própria Administração Pública. Tais circunstâncias precisam ser apreciadas pelo Poder Judiciário. A necessidade concreta deafastar o servidor pode ocorrer a partir de representação da autoridade policial ou do Ministério Público, na forma de medida cautelar diversa da prisão, conforme preveem os arts. 282, § 2º, e 319, VI, do CPP. 22.2. PRINCÍPIO DA PROPORCIONALIDADE O indiciamento representa a análise técnico-jurídica do Delegado de Polícia que conclui pela probabilidade do crime objeto da investigação. Trata-se, contudo, de um juízo prévio (pré- processual) e não vinculante. Logo, tendo em vista as características do sistema acusatório, o Ministério Público não está obrigado a seguir o indiciamento realizado pela autoridade policial. Pelo art. 17-D, o afastamento do servidor estaria automaticamente vinculado ao indiciamento, que é uma atividade discricionária da autoridade policial, ocorrendo independentemente do início da ação penal e da análise dos requisitos necessários para a efetivação dessa grave medida constritiva. Afastar o servidor nesses moldes, com o mero indiciamento, viola o princípio da proporcionalidade. O ato de indiciamento não gera e não pode gerar efeitos materiais em relação ao indiciado, já que se trata de mero ato de imputação de autoria de natureza preliminar, provisória e não vinculante ao titular da ação penal. Como o tema foi cobrado em concurso? (TRF-3 - Juiz - TRF-3 - 2022): O Supremo Tribunal Federal reconheceu que o afastamento de servidor público de suas funções em caso de indiciamento por crimes de lavagem de dinheiro ou ocultação de bens, direitos e valores não viola os princípios da presunção de inocência, da proporcionalidade e da igualdade porque tem previsão legal expressa e não acarreta prejuízo de remuneração. Errado. 22.3. PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA A presunção de inocência exige que a imposição de medidas coercitivas ou constritivas aos direitos dos acusados, no decorrer de inquérito ou processo penal, seja amparada em requisitos CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 35 concretos que sustentam a fundamentação da decisão judicial impositiva, não se admitindo efeitos cautelares automáticos ou desprovidos de fundamentação idônea. 22.4. VIOLAÇÃO À ISONOMIA A norma do art. 17-D viola também o princípio da isonomia. Isso porque ela faz uma distinção sem sentido entre acusados que foram previamente indiciados de acusados que não foram indiciados. O inquérito policial e o indiciamento são dispensáveis, ou seja, o MP pode oferecer a denúncia mesmo que não sejam realizados. Isso significa que a norma do art. 17-D cria uma distinção sem sentido: os acusados que foram previamente indiciados pela autoridade policial estarão afastados de suas funções. Por outro lado, os acusados que foram denunciados sem prévio indiciamento irão permanecer, em regra, no exercício de seus cargos. Existem normas jurídicas que determinam o afastamento, mas não com o mero indiciamento Importante destacar que existem normas no ordenamento jurídico nacional que preveem o afastamento de servidor investigado por crimes graves, mas exigem representação da autoridade policial ou do Ministério Público, bem como decisão judicial fundamentada para a imposição da medida, verificando-se sua necessidade e proporcionalidade no confronto entre os interesses públicos e os interesses individuais do investigado. Cite-se, por exemplo, o art. 2º, § 5º, da Lei de Organização Criminosa (Lei 12.850/2013), que prevê a reserva de jurisdição para o afastamento cautelar de servidor público: Art. 2º, § 5º Se houver indícios suficientes de que o funcionário público integra organização criminosa, poderá o juiz determinar seu afastamento cautelar do cargo, emprego ou função, sem prejuízo da remuneração, quando a medida se fizer necessária à investigação ou instrução processual. No mesmo sentido, o art. 56, § 1º, da Lei 11.343/2006: Art. 56. Recebida a denúncia, o juiz designará dia e hora para a audiência de instrução e julgamento, ordenará a citação pessoal do acusado, a intimação do Ministério Público, do assistente, se for o caso, e requisitará os laudos periciais. § 1º Tratando-se de condutas tipificadas como infração do disposto nos arts. 33, caput e § 1º, e 34 a 37 desta Lei, o juiz, ao receber a denúncia, poderá decretar o afastamento cautelar do denunciado de suas atividades, se for funcionário público, comunicando-se ao órgão respectivo. Percebe-se que tais normas, instituídas para o combate de crimes tão graves quanto a lavagem ou ocultação de capitais, determinam que o afastamento do servidor, além de depender de decisão judicial, deve fundar-se em juízo de valor específico, qual seja, o prejuízo à investigação criminal, à instrução processual e, ainda, à reiteração criminosa, decorrentes da manutenção do servidor público em suas funções. Daí que o afastamento, considerando a necessidade de fundamentação específica da decisão, não pode ser consequência automática prevista em lei para o ato administrativo do CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 36 indiciamento, ou mesmo o recebimento da denúncia oferecida, obedecendo-se, com isto, ao princípio constitucional da proporcionalidade das medidas restritivas de direitos. Em suma: É inconstitucional a determinação de afastamento automático de servidor público indiciado em inquérito policial instaurado para apuração de crimes de lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores. STF. Plenário. ADI 4911/DF, rel. orig. Min. Edson Fachin, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes, julgado em 20/11/2020 (Info 1000). 23. JURISPRUDÊNCIA EM TESES Neste tópico, colaciona-se os enunciados das Edições 166 e 167 da Jurisprudência em Teses organizada pelo STJ, frequentemente cobrados em concursos. Edição 166 da Jurisprudência em Teses do STJ: Lavagem de Capitais I 1) É desnecessário que o autor do crime de lavagem de dinheiro tenha sido autor ou partícipe da infração penal antecedente, basta que tenha ciência da origem ilícita dos bens, direitos e valores e concorra para sua ocultação ou dissimulação. 2) Nos crimes de lavagem de dinheiro, a denúncia é apta quando apresentar justa causa duplicada, indicando lastro probatório mínimo em relação ao crime de lavagem de dinheiro e à infração penal antecedente. 3) A aptidão da denúncia relativa ao crime de lavagem de dinheiro não exige uma descrição exaustiva e pormenorizada do suposto crime prévio, bastando, com relação às condutas praticadas antes da Lei 12.683/2012, a presença de indícios suficientes de que o objeto material da lavagem seja proveniente, direta ou indiretamente, de um daqueles crimes mencionados nos incisos do art. 1º da Lei 9.613/1998. 4) O crime de lavagem de dinheiro, antes das alterações promovidas pela Lei 12.683/2012, estava adstrito aos crimes descritos no rol taxativo do art. 1º da Lei 9.613/1998. 5) O tipo penal do art. 1º da Lei 9.613/1998 é de ação múltipla ou plurinuclear, consumando- se com a prática de qualquer dos verbos mencionados na descrição típica e relacionando- se com qualquer das fases do branqueamento de capitais (ocultação, dissimulação, reintrodução), não exigindo a demonstração da ocorrência de todos os três passos do processo de branqueamento. 6) O crime de lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores, tipificado no art. 1º da Lei 9.613/1998, constitui crime autônomo em relação às infrações penais antecedentes. 7) Embora a tipificação da lavagem de dinheiro dependa da existência de uma infração penal antecedente, é possível a autolavagem - isto é, a imputação simultânea, ao mesmo réu, da infração antecedente e do crime de lavagem -, desde que sejam demonstrados atos diversos e autônomos daquele que compõe a realização da primeira infração penal, circunstância na qual não ocorrerá o fenômeno da consunção. CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 37 8) O crime de lavagem de bens, direitos ou valores, quando praticado na modalidade típica de ocultar, é permanente, protraindo-sesua execução até que os objetos materiais do branqueamento se tornem conhecidos. 9) A aquisição de bens em nome de pessoa interposta caracteriza-se como conduta, em tese, de ocultação ou dissimulação, prevista no tipo penal do art. 1º da Lei 9.613/1998, sendo suficiente, portanto, para o oferecimento da denúncia. 10) A realização, por período prolongado, de sucessivos contratos de empréstimo pessoal para justificar ingressos patrimoniais como se renda fossem - sem que se esclareça a forma e a fonte de pagamento das parcelas, acrescidas de juros, e sem que isso represente, em nenhum momento, uma correspondente redução do padrão de vida do devedor - é apta a configurar, em tese, ato de dissimulação da origem ilícita de valores, elemento constituinte do delito de lavagem de dinheiro, que extrapole o mero recebimento de vantagens indevidas. Edição 167 da Jurisprudência em Teses do STJ: Lavagem de Capitais II 1) No crime de lavagem de dinheiro que envolve grande quantidade de agentes residentes em diversas unidades da federação, a regra de competência do local onde se realizaram as operações irregulares será afastada para, em homenagem aos princípios da razoável duração do processo e da celeridade de sua tramitação, dar lugar ao foro do domicílio do investigado. 2) A autoridade judiciária brasileira é competente para julgar os crimes de lavagem ou ocultação de dinheiro cometidos, mesmo que parcialmente, no território nacional, bem como na hipótese em que os crimes antecedentes tenham sido praticados em prejuízo da administração pública, ainda que os atos tenham ocorrido exclusivamente no exterior. 3) Compete ao juízo processante do crime de lavagem de dinheiro apreciar e decidir a respeito da união dos processos (art. 2º, II, da Lei 9.613/1998), examinando caso a caso, com objetivo de otimizar a entrega da prestação jurisdicional. 4) O reconhecimento da extinção da punibilidade pela prescrição da infração penal antecedente não implica atipicidade do delito de lavagem (art. 1º da Lei 9.613/1998). Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-SP - Promotor - VUNESP - 2023): O reconhecimento da extinção da punibilidade pela prescrição da pretensão punitiva referente à infração penal antecedente não implica atipicidade do delito de lavagem. Correto. 5) O delito de evasão de divisas é autônomo e antecedente ao crime de lavagem de capitais, não constituindo este mero exaurimento impunível daquele, nem havendo consunção entre eles. 6) A prática de organização criminosa (art. 1º, VII, da Lei 9.613/1998) como crime antecedente da lavagem de dinheiro é atípica antes do advento da Lei 12.850/2013, por ausência de descrição normativa. CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 38 7) Por ser atípico, não se pode invocar a substituição do crime de organização criminosa por associação criminosa (art. 288 do Código Penal), pois este não estava incluído no rol taxativo da redação original da Lei 9.613/1998. 8) Nos crimes de lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores, é legítima a exasperação da pena-base pela valoração negativa das consequências do crime em decorrência da movimentação de expressiva quantia de recursos, que extrapole o elemento natural do tipo. 9) A incidência simultânea do reconhecimento da continuidade delitiva (art. 70 do CP) e da majorante prevista no § 4º do art. 1º da Lei 9.613/1998, nos crimes de lavagem de dinheiro, acarreta bis in idem. 10) Os familiares e parentes próximos de pessoas que ocupem cargos ou funções públicas relevantes - consideradas pessoas politicamente expostas (PPE), nos termos do art. 2º, da Resolução 29, de 19/12/2017, do COAF - sujeitam-se ao controle estabelecido nos arts. 10 e 11 da Lei 9.613/1998 a fim de ser apurada a possível prática de lavagem de dinheiro. 11) O art. 1º, § 5º, da Lei 9.613/1998 trata da delação premiada, ato unilateral, praticado pelo agente que, espontaneamente, opta por prestar auxílio tanto à atividade de investigação, quanto à instrução procedimental, independente de prévio acordo entre as partes interessadas, cujos benefícios não podem ultrapassar a fronteira objetiva e subjetiva da demanda, dada sua natureza endoprocessual. 12) A atuação de promotores auxiliares ou de grupos especializados, como o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), na investigação de infrações penais, a exemplo do crime de lavagem de dinheiro, não ofende o princípio do promotor natural, não havendo que se falar em designação casuística. 13) Nos crimes de lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores, a autoridade policial e o Ministério Público têm acesso, independentemente de autorização judicial, aos dados meramente cadastrais de investigados que não são protegidos pelo sigilo constitucional (art. 17-B da Lei 9.613/1998). 14) É possível o deferimento de medida assecuratória em desfavor de pessoa jurídica que se beneficia de produtos decorrentes do crime de lavagem, ainda que não integre o polo passivo de investigação ou ação penal. 15) Não há óbice à aplicação imediata das medidas assecuratórias previstas no art. 4º da Lei 9.613/1998 e implementadas pela Lei 12.683/2012, por se tratar de institutos de direito processual a luz do princípio tempus regit actum.como base as aulas do professor Renato Brasileiro, do Curso G7 Jurídico, complementadas com as aulas do Professor Fábio Roque (CERS). Dois livros foram utilizados para complementar nosso CS de Legislação Penal Especial: a) Legislação Criminal para Concursos (Fábio Roque, Nestor Távora e Rosmar Rodrigues Alencar), ano 2018 e b) Legislação Criminal Comentada (Renato Brasileiro), ano 2020, ambos da Editora Juspodivm. Na parte jurisprudencial, utilizamos os informativos do site Dizer o Direito (www.dizerodireito.com.br), os livros: Principais Julgados STF e STJ Comentados, Vade Mecum de Jurisprudência Dizer o Direito, Súmulas do STF e STJ anotadas por assunto (Dizer o Direito). Destacamos: é importante você se manter atualizado com os informativos, reserve um dia da semana para ler no site do Dizer o Direito. Ademais, no Caderno constam os principais artigos da lei, mas, ressaltamos, que é necessária leitura conjunta do seu Vade Mecum, muitas questões são retiradas da legislação. Como você pode perceber, reunimos em um único material diversas fontes (aulas + doutrina + informativos + súmulas + lei seca + questões) tudo para otimizar o seu tempo e garantir que você faça uma boa prova. Por fim, como forma de complementar o seu estudo, não esqueça de fazer questões. É muito importante! As bancas costumam repetir certos temas. Vamos juntos! Bons estudos! Equipe Cadernos Sistematizados. CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 3 1. INTRODUÇÃO Em meio à legislação criminal especial está a Lei de Lavagem de Capitais (Lei 9.613/1998) que, vale dizer, ainda é considerada recente, principalmente porque foi completamente alterada em 2012 pela Lei 12.683/2012 e em 2019 pelo Pacote Anticrime (Lei 13.964/2019). Trata-se de uma das leis mais importantes da atualidade, conforme contemplado na Operação Lava-Jato, por exemplo, cujas investigações se iniciaram no ano de 2009 e, se não fosse a apuração da Lavagem de Capitais, muitos outros crimes não seriam descobertos. 2. HISTÓRICO A Lei de Lavagem de Capitais (LC) surgiu com um compromisso assumido pelo Brasil na Convenção das Nações Unidas contra o Tráfico de Drogas e Substâncias Psicotrópicas (Convenção de Viena, celebrada no ano de 1988), ratificada pelo Decreto 154/1991. Nela, os países signatários reconheceram a falência dos mecanismos de combate ao Tráfico de Drogas e concluíram que, ante à frustração dos meios, até então utilizados, restava pugnar a movimentação financeira do Tráfico. Assim, originou-se a ideia de criminalizar o procedimento usado pelas organizações criminosas para mascarar a origem ilícita dos valores, a chamada “criminalização das lavagens capitais”. O projeto de Lei foi coordenado pelo ex-Ministro Nelson Jobim e contou com a participação de Vicente Greco Filho, René Ariel Dotti, Francisco de Assis Toledo e Miguel Reale Júnior. Destaca-se, contudo, que após quatorze anos da edição da Lei Originária, a legislação brasileira sofreu significativa transformação, verificada através da Lei 12.683/12, que despontou como consequência do reconhecimento de que a lei anterior (Lei 9.613/98) não estava surtindo os efeitos desejados, por isso houve a necessidade de aprimorar a legislação. O Grupo de Controle de Atividades Financeiras (GAF) concluiu que a legislação brasileira, apesar de ter entrado em vigor há poucos anos (1998), estava obsoleta. À época, foram feitas pesquisas com juízes, em que se detectou pouquíssimos casos de condenação fundada na lavagem de capitais. 2.1. ALTERAÇÕES ADVINDAS COM A LEI 12.683/12 A referida lei produziu, pelo menos, três mudanças sensíveis, são elas: Extinção do rol de infrações antecedentes Aprimoramento das medidas assecuratórias Ampliação das pessoas físicas/jurídicas responsáveis pela comunicação de operações suspeitas CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 4 2.1.1. Extinção do rol de infrações antecedentes Quando a lei brasileira entrou em vigor, em 1998 (redação original), havia um rol taxativo de infrações antecedentes. Assim, antigamente, somente se configurava a lavagem de capitais se o crime que produziu aquele dinheiro estivesse listado como infração antecedente no rol do art. 1º da Lei 9.613/98, conforme a antiga redação: Art. 1º Ocultar ou dissimular a natureza, origem, localização, disposição, movimentação ou propriedade de bens, direitos ou valores provenientes, direta ou indiretamente, de crime: I de tráfico ilícito de substâncias entorpecentes ou drogas afins; II de terrorismo e seu financiamento; III de contrabando ou tráfico de armas, munições ou material destinado à sua produção; IV de extorsão mediante sequestro; V contra a Administração Pública, inclusive a exigência, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, de qualquer vantagem, como condição ou preço para a prática ou omissão de atos administrativos; VI contra o sistema financeiro nacional; VII praticado por organização criminosa; VIII praticado por particular contra a administração pública estrangeira (arts. 337 B, 337 C e 337 D do Decreto Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 Código Penal). Pena: reclusão de três a dez anos e multa. Caso o crime antecedente não constasse no rol taxativo, ainda que ocorresse a ocultação ou dissimulação de bens, direitos ou valores, não havia que se falar em Lavagem de Capitais. A partir da alteração trazida pela Lei 12.683/12, esse rol perdeu seu caráter taxativo e adquiriu viés exemplificativo. Observe a nova redação do art. 1º, caput, da Lei 9.613/98: Art. 1º Ocultar ou dissimular a natureza, origem, localização, disposição, movimentação ou propriedade de bens, direitos ou valores provenientes, direta ou indiretamente, de infração penal. I a VIII - revogados pela Lei nº 12.683, de 2012. Pena: reclusão, de 3 (três) a 10 (dez) anos, e multa. Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-MS - Promotor - Instituto AOCP - 2022): A prática de organização criminosa (art. 1º, VII, da Lei nº 9.613/1998) como crime antecedente da lavagem de dinheiro é atípica antes do advento da Lei nº 12.850/2013, por ausência de descrição normativa. Correto. (MPE-MT - Promotor - FCC - 2019): Somente constitui o crime de “lavagem” ou ocultação de bens, direitos e valores se o valor em pecúnia envolvido tiver decorrido de um dos crimes referidos no rol exaustivo da Lei n° 9.613/1998. Errado. (MPE-SP - Promotor - MPE-SP - 2019): Dentre as principais alterações produzidas pela Lei n° 12.683/12 à Lei n° 9.613/98, que dispõe sobre os crimes de “lavagem” ou ocultação de bens, direitos e valores, temos a mudança da redação do caput do artigo 1°, a revogação do rol taxativo CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 5 constante em seus incisos e a majoração da pena, que comportava, até então, a substituição por restritivas de direitos. Errado. Nota-se que, anteriormente, a redação trazia a expressão “crime”. Agora, o legislador não apenas revogou todos os incisos do art. 1º, como também substituiu a palavra “crime” por “infração penal”. Isso significa dizer que, pelo menos, em tese, qualquer infração penal, seja crime ou contravenção penal (a exemplo do jogo do bicho), poderá figurar como antecedente da lavagem de capitais. Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-RS - Promotor – MPE-RS - 2023): Atualmente, a legislação brasileira admite qualquer infração penal capaz de produzir ativos financeiros como antecedente para o crime de lavagem de dinheiro, inclusive as contravenções penais. Correto. O Professor Renato Brasileiro salienta que se o examinador questionar a respeito do crime de prevaricação, previsto no art. 319 do CP, como antecedente do crime de Lavagem de Capitais, é preciso prestar atenção, porque não obstante a nova previsão do art. 1º da Lei 9.613/98 prevendo a expressão “infrações penais”, paraque se classifiquem como antecedentes da Lavagem de Capitais devem revestir-se do que a doutrina denomina “infração penal produtora”, ou seja, a infração precisa produzir bens, direitos ou valores capazes de sofrer algum tipo de ocultação. Se a infração penal não produzir nada, obstará a sua inclusão como antecedente de Lavagem de Capitais. Art. 319 - Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal: Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa. Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-RS - Promotor - MPE-RS - 2021): A partir da alteração promovida pela Lei nº 12.683/2012, foi suprimida a relação de infrações penais antecedentes, de modo que pode configurar-se o delito de “lavagem de dinheiro” diante da prática anterior de qualquer uma, desde que não se trate de contravenção penal. Errado. 2.1.2. Aprimoramento das medidas assecuratórias Houve necessidade da conscientização estatal e social acerca da premissa de que a prisão cautelar de uma pessoa talvez não seja tão importante quanto as medidas cautelares patrimoniais. O combate eficaz a uma organização criminosa passa, obrigatoriamente, pela recuperação dos valores ilícitos desviados. Por isso, a Lei 12.683/12 visou fortalecer as medidas assecuratórias. Ex.: a alienação antecipada é a diligência por meio da qual são vendidos os bens que sofreram algum tipo de constrição patrimonial, quando verificado que o decurso do tempo pode causar seu perecimento ou afetar seu valor (art. 4º da Lei 9.613/98). Art. 4º O juiz, de ofício, a requerimento do Ministério Público ou mediante representação do delegado de polícia, ouvido o Ministério Público em 24 (vinte e quatro) horas, havendo indícios suficientes de infração penal, poderá decretar medidas assecuratórias de bens, direitos ou valores do investigado CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 6 ou acusado, ou existentes em nome de interpostas pessoas, que sejam instrumento, produto ou proveito dos crimes previstos nesta Lei ou das infrações penais antecedentes. § 1º Proceder-se-á à alienação antecipada para preservação do valor dos bens sempre que estiverem sujeitos a qualquer grau de deterioração ou depreciação, ou quando houver dificuldade para sua manutenção. § 2º O juiz determinará a liberação total ou parcial dos bens, direitos e valores quando comprovada a licitude de sua origem, mantendo-se a constrição dos bens, direitos e valores necessários e suficientes à reparação dos danos e ao pagamento de prestações pecuniárias, multas e custas decorrentes da infração penal. § 3º Nenhum pedido de liberação será conhecido sem o comparecimento pessoal do acusado ou de interposta pessoa a que se refere o caput deste artigo, podendo o juiz determinar a prática de atos necessários à conservação de bens, direitos ou valores, sem prejuízo do disposto no § 1o. § 4º Poderão ser decretadas medidas assecuratórias sobre bens, direitos ou valores para reparação do dano decorrente da infração penal antecedente ou da prevista nesta Lei ou para pagamento de prestação pecuniária, multa e custas. Obs.: a expressão de “ofício” contida no art. 4º deve ser interpretada à luz do sistema acusatório e, principalmente, em consonância com o art. 3º-A do CPP, que prevê que o juiz não pode substituir as partes/se enveredar na investigação, sob pena de violar o sistema acusatório. Art. 3º-A. O processo penal terá estrutura acusatória, vedadas a iniciativa do juiz na fase de investigação e a substituição da atuação probatória do órgão de acusação. A modificação provocada pela Lei 12.683/12 passou a permitir que o juiz decrete medidas assecuratórias que poderão recair não apenas sobre bens que sejam instrumento, produto ou proveito dos crimes previstos na Lei de Lavagem de Capitais, mas também das infrações penais antecedentes. Portanto, o juiz poderá sequestrar carros, iates, helicópteros e tantos outros bens quanto forem necessários, não apenas nos casos em que se tratar de produto direto ou indireto da Lavagem, como também se for produto direto ou indireto da infração antecedente. Não obstante, convém mencionar que o STJ também tem entendido que a indisponibilidade de bens da Lei 9.613/98 pode atingir também bens de origem lícita, bens adquiridos antes mesmo do crime e bens da pessoa jurídica ou mesmo de um familiar não denunciado, desde que haja indícios de que houve confusão patrimonial: Segundo o art. 4º da Lei nº 9.613/98, havendo indícios suficientes de infração penal, o juiz poderá decretar medidas assecuratórias de bens, direitos ou valores do investigado ou acusado, ou existentes em nome de interpostas pessoas, que sejam instrumento, produto ou proveito dos crimes previstos nesta Lei ou das infrações penais antecedentes. O § 4º do art. 4º complementa o caput ao dizer que a medida assecuratória pode recair sobre bens, direitos ou valores com duas possíveis finalidades: a) para reparação do dano decorrente da infração penal (seja o antecedente ou a própria lavagem); ou b) para pagamento de prestação pecuniária, multa e custas. De acordo com o STJ, a medida assecuratória de indisponibilidade de bens, prevista no art. 4º, § 4º, da Lei nº 9.613/98, pode atingir bens de origem lícita ou ilícita, adquiridos antes ou depois da infração penal, bem como de pessoa CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 7 jurídica ou familiar não denunciado, quando houver confusão patrimonial. STJ. Corte Especial. Inq 1190-DF, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 15/09/2021 (Info 710). Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-GO - Promotor - FGV - 2022): A medida assecuratória de indisponibilidade de bens prevista no Art. 4º, §4º, da Lei nº 9.613/1998 permite a constrição de quaisquer bens, direitos ou valores para reparação do dano decorrente do crime ou para pagamento de prestação pecuniária, pena de multa e custas processuais. Correto. Nesta toada, observa-se, ainda, que a Alienação Antecipada ganhou mais destaque em nosso ordenamento, passando a ser prevista expressamente no próprio CPP: Art. 144-A. O juiz determinará a alienação antecipada para preservação do valor dos bens sempre que estiverem sujeitos a qualquer grau de deterioração ou depreciação, ou quando houver dificuldade para sua manutenção. Segundo Renato Brasileiro, a alienação antecipada de bens consiste na expropriação antecipada de bens móveis ou imóveis, fungíveis, de fácil deterioração e de difícil conservação, que tenham sido objeto de medidas cautelares patrimoniais, adotada com o objetivo de preservar o valor dos bens. Como o tema foi cobrado em concurso? (PC-AM - Delegado - FGV - 2022): Ainda em relação às medidas assecuratórias da Lei nº 9.613/98, no que toca ao standard de prova (ou modelos de constatação) para o seu deferimento, é correto afirmar que a lei exige indícios suficientes. Correto. (MPE-SP - Promotor - MPE-SP - 2022): No processo por crime de lavagem de dinheiro, o pedido de liberação total ou parcial de bens pelo réu exige o seu comparecimento pessoal. Correto. (TJ-RO - Juiz - VUNESP - 2019): As medidas assecuratórias de bens só podem ser decretadas se a requerimento do Ministério Público ou mediante representação da Autoridade Policial. Errado. (TJ-RO - Juiz - VUNESP - 2019): Decretada medida assecuratória de bens, comprovada posteriormente a origem lícita, o juiz determinará a liberação, mantendo, contudo, a constrição de bens suficientes à reparação dos danos e demais encargos decorrentes da infração penal. Correto. 2.1.3. Ampliação das pessoas físicas/jurídicas responsáveis pela comunicação de operações suspeitas (Lei 9.613/98, art. 9º) No sistema financeiro, por muito tempo, convencionou-se dizer que “dinheiro não temcheiro”, ou seja, a procedência da moeda era propositalmente ignorada. Todavia, a Lei 9.613/98 tentou romper com esse paradigma, mormente porque todos os países se conscientizaram de que de nada adianta um Estado desejar combater a Lavagem de Capitais se, para tanto, não contar com a colaboração de alguns agentes financeiros, aquelas pessoas físicas ou jurídicas que atuam no mercado financeiro. CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 8 Assim, integrantes desse setor devem, obrigatoriamente, comunicar operações suspeitas, os denominados “gatekeepers”. Hoje, existe uma política de Know Your Costumer (conhecer o seu cliente), em que a empresa busca criar mecanismos de modo a evitar que a sua operação seja utilizada para prática de lavagem. Desta forma, houve uma ampliação do rol de pessoas físicas e jurídicas que passam a ter a obrigação legal de, eventualmente, comunicar operações suspeitas. Salienta-se que a Lei 13.974/2020 reestruturou o COAF, que está vinculado administrativamente ao Banco Central. Art. 1º Esta Lei reestrutura o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), de que trata o art. 14 da Lei nº 9.613, de 3 de março de 1998. Art. 2º O Coaf dispõe de autonomia técnica e operacional, atua em todo o território nacional e vincula-se administrativamente ao Banco Central do Brasil. Art. 3º Compete ao Coaf, em todo o território nacional, sem prejuízo das atribuições estabelecidas na legislação em vigor: I - produzir e gerir informações de inteligência financeira para a prevenção e o combate à lavagem de dinheiro; II - promover a interlocução institucional com órgãos e entidades nacionais, estrangeiros e internacionais que tenham conexão com suas atividades. 3. EXPRESSÃO “LAVAGEM DE DINHEIRO” (LAVAGEM DE CAPITAIS) Tem origem no direito norte-americano, a partir da expressão “money laudering”, uma vez que durante a década de 1920, na cidade de Chicago, a máfia teria adquirido várias lavanderias, utilizadas como esquema para lavagem de dinheiro. Atenção: em alguns países da Europa (Espanha e Portugal) é utilizada a terminologia “branqueamento de capitais”. No Brasil, o termo não foi adotado, porque o legislador evitou sugerir inferência racista do vocábulo e consequentes discussões estéreis e inoportunas. Nota-se que “lavagem” é uma metáfora que traduz a ideia de que o dinheiro é “sujo”, porquanto proveniente de infração penal antecedente e quando se “lava” se dá àquela moeda aparência lícita. 4. CONCEITO DE LAVAGEM DE CAPITAIS Conforme leciona Renato Brasileiro, “é o ato ou a sequência de atos praticados para encobrir a natureza, localização ou propriedade de bens, direitos ou valores de origem delituosa, com o objetivo de reintroduzi-los à economia formal com aparência lícita”. Cria-se uma manobra para dar ao dinheiro proveniente de infração penal antecedente feição lícita. CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 9 Cuidado: apesar de a doutrina trabalhar com vários conceitos e fases da lavagem de capitais, a jurisprudência do STF entende que não há necessidade de complexidade das operações financeiras. O Professor Renato Brasileiro exemplifica que houve um caso, conhecido como a “Máfia dos Fiscais em São Paulo”, em que fiscais da prefeitura extorquiam construtoras e afins (concussão, corrupção passiva) e com esse dinheiro realizavam depósitos na conta de familiares (cunhados). A discussão deu-se em torno do questionamento se o mero depósito na conta de um cunhado configuraria Lavagem de Dinheiro. O Supremo entendeu que, embora a doutrina desenvolva vários mecanismos, a Lavagem de Capitais não demanda grandes articulações. O depósito de dinheiro na conta de um parente para mascarar a origem ilícita é suficiente para caracterização do delito (STF, RHC 80.816). 5. GERAÇÕES DE LEIS DE LAVAGEM DE CAPITAIS 5.1. LEIS DE 1ª GERAÇÃO As primeiras leis que surgiram sobre Lavagem de Capitais traziam como infração penal antecedente um único delito: o Tráfico de Drogas. Esse cenário era absolutamente natural, visto que a Lei de Lavagem surgiu na Convenção das Nações Unidas contra o Tráfico de Drogas de Viena (1998). Diante da satisfação dos países para com a criminalização da Lavagem é que surgiram as leis de 2ª geração. 5.2. LEIS DE 2ª GERAÇÃO Nessa oportunidade, advém um rol taxativo de crimes antecedentes, há uma tímida ampliação das circunstâncias caracterizadoras da Lavagem de Capitais. A Lei 9.613/98 em sua redação original era considerada uma lei de segunda geração. Salienta-se que a doutrina minoritária sustentava que a Lei 9.613/98 era uma lei de terceira geração, tendo em vista que o seu art. 1º, inciso VII previa como crime antecedente, pelo menos em tese, qualquer crime praticado por organização criminosa. Contudo, não prevaleceu tal entendimento, já que o STF à época entendeu que não havia conceito de organização criminosa (surgiu apenas em 2012). Atualmente, após as alterações ocorridas em 2012, nossa lei de lavagem de capitais é de terceira geração. 5.3. LEIS DE 3ª GERAÇÃO A partir de 2012 é que se diz que a lei brasileira de Lavagem de Capitais revestiu-se de caráter de lei de 3ª geração, porque qualquer infração penal (desde que produtora) poderá funcionar como infração penal antecedente da Lavagem de Capitais. CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 10 Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-RS - Promotor - MPE-RS - 2017): O atual tratamento legal ao crime de lavagem de dinheiro no Brasil insere-se na doutrinariamente designada terceira fase ou terceira geração da repressão penal a tal tipo de delito. Correto. (PC-PA - Delegado - FUNCAB - 2016): A legislação brasileira que cuida da lavagem de dinheiro é considerada uma lei de segunda geração. Errado. Atenção: em alguns casos, na ânsia de combater a Lavagem de Capitais, pode-se incorrer na vulgarização do crime. Nesse sentido, vários países englobam a referida lei como lei de 3ª geração, todavia (ao contrário do Brasil) o legislador, inteligentemente, estipula que para que a infração penal seja considerada antecedente deverá possuir pena de no mínimo, quatro anos. Trata-se de medida interessante no combate à banalização do crime de Lavagem de Capitais. Ao final, indaga-se: a participação em organização criminosa constitui infração penal hábil para configurar o crime de lavagem de capitais? Depende. A prática de organização criminosa (art. 1º, VII, da Lei 9.613/1998) como crime antecedente da lavagem de dinheiro é atípica antes do advento da Lei 12.850/2013, por ausência de descrição normativa, conforme posicionamento adotado pelo STJ no julgamento do RHC 109122/DF. 6. FASES DA LAVAGEM DE CAPITAIS As fases que serão analisadas abaixo foram idealizadas pelo Grupo de Ação Financeira sobre Lavagem de Dinheiro (GAF), formado pelos sete países mais ricos do mundo, que tem como objetivo coordenar providências de modo a combater a Lavagem de Capitais. Idealiza-se um modelo de Lavagem composto por três fases: COLOCAÇÃO, DISSIMULAÇÃO e INTEGRAÇÃO. 1ª FASE •COLOCAÇÃO (placement) 2ª FASE •DISSIMULAÇÃO ou ENCOBRIMENTO ou MASCARAMENTO ou OCULTAÇÃO (layering) 3ª FASE •INTEGRAÇÃO (integration) CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 11 Os Tribunais Superiores e a própria doutrina consolidam que tais fases desenvolvidas pelo GAF correspondem ao que seria um modelo ideal/completo de Lavagem de Dinheiro. Contudo, a tipificação do delito NÃO está condicionada ao preenchimento das três fases. O depósito de cheques de terceiro recebidos pelo agente, como produto de concussão, em contas-correntes de pessoas jurídicas, às quais contava ele ter acesso, basta a caracterizar a figura de "lavagem de capitais" mediante ocultação da origem, da localização e da propriedade dos valores respectivos (Lei n. 9.613, art. 1º, caput): o tipo não reclama nem êxito definitivo daocultação, visado pelo agente, nem o vulto e a complexidade dos exemplos de requintada "engenharia financeira" transnacional, com os quais se ocupa a literatura. (STF, RHC 80.816, Relator Ministro Sepúlveda Pertence, Julgamento 10/04/2001). Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-MT - Promotor - FCC - 2019): É adotada nos tribunais superiores brasileiros a doutrina norte-americana que aponta a existência de três fases distintas do crime de “lavagem” de bens, direitos e valores: a colocação, o encobrimento e a integração. Correto. (TRF-3 - Juiz - TRF-3 - 2018): O processo de lavagem de dinheiro é composto por, pelo menos, três fases: ocultação, dissimulação e integração. Correto. (PC-RS - Delegado - FUNDATEC - 2018): O crime de lavagem de bens, direitos ou valores é composto por três fases: a colocação (placement), a ocultação (layering) e a integração (integration), devendo todas estarem configuradas para o enquadramento da conduta na figura criminosa. Errado, pois não há necessidade de todas estarem presentes, conforme entendimento do STF. 6.1. 1ª FASE: COLOCAÇÃO (PLACEMENT) Trata-se da introdução do dinheiro ilícito no sistema financeiro com o propósito de dificultar a identificação da origem dos valores e da infração penal antecedente. Várias são as técnicas utilizadas, a exemplo do smurfing, que representa uma tática de colocação pela qual se pulveriza uma quantidade grande em pequenos depósitos com a finalidade de não levantar suspeitas. No julgamento da AP 996, o STF entendeu que o depósito fracionado de dinheiro de corrupção na conta corrente é meio idôneo para consumação do crime de lavagem de capitais. Assim segue: AÇÃO PENAL. CORRUPÇÃO PASSIVA E LAVAGEM DE DINHEIRO. (...). 8. LAVAGEM DE CAPITAIS. 8.1. RECEBIMENTO DE DINHEIRO EM ESPÉCIE. ATIPICIDADE. 8.2. VANTAGEM INDEVIDA DEPOSITADA DE FORMA PULVERIZADA EM CONTAS-CORRENTES. CONDUTA TÍPICA. 8.3. DECLARAÇÃO À AUTORIDADE FAZENDÁRIA DE DISPONIBILIDADE MONETÁRIA INCOMPATÍVEL COM RENDIMENTOS REGULARMENTE PERCEBIDOS. CONFIGURAÇÃO DO DELITO. 8.4. DOAÇÃO ELEITORAL. FORMA DE ADIMPLEMENTO DE VANTAGEM INDEVIDA. INFRAÇÃO PENAL DE BRANQUEAMENTO CARACTERIZADA. CONDENAÇÃO. (...) 8.2. O depósito fracionado de valores em conta corrente, em quantias que não atingem os limites estabelecidos pelas autoridades monetárias à CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 12 comunicação compulsória dessas operações, apresenta-se como meio idôneo para a consumação do crime de lavagem de capitais. No caso, tal prática foi cabalmente demonstrada pelo conjunto probatório amealhado aos autos. STF, Segunda Turma, Ministro Relator Edson Fachin, Julgamento em 29/05/2018. 6.2. 2ª FASE: DISSIMULAÇÃO, OCULTAÇÃO OU MASCARAMENTO (LAYERING, “COLOCAR CAMADAS”) São realizadas diversas operações financeiras com o objetivo de dificultar o rastreamento da origem ilícita dos valores. Quanto maior a movimentação, maior a distância dos valores da sua origem ilícita. Como o tema foi cobrado em concurso? (PC-AC - Delegado - IBADE - 2017): A ocultação é a fase da lavagem de capitais, de acordo com as definições do COAF, em que são realizados diversos negócios e movimentações financeiras, a fim de impedir o rastreamento e encobrir a origem ilícita dos valores. Correto. (PC-PA - Delegado - FUNCAB - 2016): A fase de layering, ou dissimulação, na lavagem de dinheiro, é aquela em que se busca dar aos recursos financeiros a aparência de legítimos, à qual se sucede a fase de integração (integration). Correto. 6.3. 3ª FASE: INTEGRAÇÃO (INTEGRATION) Representa o retorno daqueles bens formalmente incorporados ao sistema financeiro que se dará de duas formas: no próprio mercado (mobiliário ou imobiliário) ou no refinanciamento de atividade ilícita originária. 7. BEM JURÍDICO TUTELADO Em relação ao bem jurídico aqui tutelado, não há consenso doutrinário. Verificam-se, pelo menos, quatro correntes. 7.1. 1ª CORRENTE Defende que o crime de Lavagem de Capitais tutela o mesmo bem jurídico protegido pela infração antecedente. Entretanto, o problema enfrentado é no sentido de que se o crime antecedente for o Tráfico de Drogas, a Lavagem de Capitais tutelará o bem jurídico “saúde pública”. Se, no entanto, a infração antecedente for o roubo, o bem jurídico defendido será o “patrimônio”, e um mesmo delito não pode tutelar bens jurídicos tão distintos. Não é à toa que o presente posicionamento é absolutamente minoritário. CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 13 7.2. 2ª CORRENTE Sustentada por Roberto Podval, Rodolfo Tigre Maia, Gustavo Badaró, Pierpaolo Bottini. Para essa corrente, a Lavagem de Capitais é similar ao favorecimento real (art. 349 CP), porque quando o agente oculta ou dissimula a origem ilícita dos valores, ele visa, em última análise, esconder para tornar seguro o proveito do crime. Portanto, se o favorecimento real tem como bem jurídico a Administração da Justiça, nada mais lógico do que emprestar idêntico raciocínio à Lavagem de Capitais. Art. 349 - Prestar a criminoso, fora dos casos de coautoria ou de receptação, auxílio destinado a tornar seguro o proveito do crime: Pena - detenção, de um a seis meses, e multa. 7.3. 3ª CORRENTE Teoricamente, condiz com a posição majoritária da doutrina brasileira. Obs.: quando cobrado em prova, costuma ser essa a corrente adotada. Aqui, o bem jurídico tutelado é a “ordem econômico-financeira”, visto que a Lavagem de Capitais ocasiona problema no equilíbrio do mercado, nas relações de consumo, na livre concorrência e no próprio financiamento do sistema financeiro. Considerando que o bem jurídico tutelado é a “ordem econômico-financeira”, entende-se como perfeitamente possível a aplicação do denominado princípio da insignificância. Hoje, o valor que serve como parâmetro de aplicação do princípio da insignificância é R$ 20.000,00, embora seja necessário trazer algumas observações. Esse valor foi fixado pela jurisprudência tendo como base a Portaria MF 75, de 29/03/2012, na qual o Ministro da Fazenda determinou, em seu art. 1º, inciso II, “o não ajuizamento de execuções fiscais de débitos com a Fazenda Nacional, cujo valor consolidado seja igual ou inferior a R$ 20.000,00 (vinte mil reais).” Em outros termos, essa Portaria determina que, até o valor de 20 mil reais, os débitos inscritos como Dívida Ativa da União não serão executados. Com base nisso, a jurisprudência construiu o seguinte raciocínio: ora, não há sentido lógico permitir que alguém seja processado criminalmente pela falta de recolhimento de um tributo que nem sequer será cobrado no âmbito administrativo-tributário. Se a própria “vítima” não irá cobrar o valor, não faz sentido aplicar o direito penal contra o autor desse fato. Salienta-se, ainda, que esse valor de 20 mil reais é adotado tanto pelo STF como pelo STJ. Assim segue: Incide o princípio da insignificância aos crimes tributários federais e de descaminho quando o débito tributário verificado não ultrapassar o limite de R$ 20.000,00 (vinte mil reais), a teor do disposto no art. 20 da Lei n. 10.522/2002, com as atualizações efetivadas pelas Portarias n. 75 e 130, CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 14 ambas do Ministério da Fazenda. STJ. 3ª Seção. REsp 1.709.029/MG, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 28/02/2018 (recurso repetitivo). Aplica-se o princípio da insignificância ao crime de descaminho quando o montante do tributo não recolhido for inferior ao limite de R$ 20.000,00 - valor estipulado pelo art. 20, Lei 10.522/2002, atualizado pelas portarias 75 e 130/2012, do Ministério da Fazenda. STF. 2ª Turma. HC 155347/PR, Rel. Min. Dias Tóffoli, julgado em 17/4/2018 (Info 898). Todavia, em uma situação hipotética, tem-se que o Ministério Público Estadual do Pará ofereceu uma denúncia em face dos sócios da Empresa X, porque teriam deixado de recolher ICMS na saída de mercadoriasdurante o exercício de 2003. Na época da constituição definitiva do crédito tributário, 02/09/2005, o valor atualizado, excluído juros e multa, era de R$ 14.700,34. Diante disso, houve a impetração de Habeas Corpus pleiteando o trancamento da ação penal em razão da aplicação do princípio da insignificância com fundamento no limite de R$ 20.000,00 (vinte mil reais) previsto no art. 20 da Lei 10.522/2002. Após a discussão ser decidida nas instâncias ordinárias, o tema chegou até o STJ, que decidiu da seguinte forma: Não pode ser aplicado para fins de incidência do princípio da insignificância nos crimes tributários estaduais o parâmetro de R$ 20.000,00 (vinte mil reais), estabelecido no art. 20 da Lei 10.522/2002, devendo ser observada a lei estadual vigente em razão da autonomia do ente federativo. STJ. 5ª Turma. AgRg-HC 549.428-PA. Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 19/05/2020. Para o STJ, esse parâmetro vale, a princípio, apenas para os crimes que se relacionam a tributos federais, considerando que é baseado no art. 20 da Lei 10.522/2002, que trata dos tributos federais. Assim, esse é o valor que a União considera insignificante. Logo, para fins de crimes de sonegação fiscal que envolvam tributos estaduais ou municipais, deve ser analisado se há lei estadual ou municipal dispensando a execução fiscal no caso de tributos abaixo de determinado valor. Esse será o parâmetro para a insignificância. Ressalta-se, por fim, que esse também é o entendimento adotado pelo STF: O limite previsto pela legislação federal para aplicação do princípio da insignificância nos crimes tributários não é aplicável quando se tratar de tributos estaduais” (RHC 152.069/SC, Rel. Min. Luiz Fux, decisão monocrática, DJe 09.02.2018). STF. 1ª Turma. HC 183959 AgR, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 15/12/2020. Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-RO - Promotor - FMP Concursos - 2017): Em relação ao crime de lavagem de dinheiro, o bem jurídico tutelado é a Administração Pública, segundo a corrente doutrinária preponderante no Brasil. Errado, pois o entendimento majoritário entende que o bem jurídico tutelado é a ordem econômico-financeira. 7.4. 4ª CORRENTE CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 15 Defendida Alberto Silva Franco, entende que o crime de Lavagem de Capitais viola mais de um bem jurídico. Alguns dos defensores afirmam que afeta tanto a “ordem econômico-financeira” quanto a “Administração da Justiça”, enquanto outros dizem que se tutela, a um só tempo, a “ordem econômico-financeira” e o mesmo bem jurídico tutelado pela infração antecedente. Portanto, o crime de Lavagem de Capitais seria pluriofensivo. Esse posicionamento é minoritário. 8. ACESSORIEDADE DA LAVAGEM DE CAPITAIS Inicialmente, destaca-se que a leitura do art. 1º, caput, deve ser realizada conjuntamente com o art. 2º, II e § 1º do art. 2º, todos da Lei 9.613/98. Art. 1o Ocultar ou dissimular a natureza, origem, localização, disposição, movimentação ou propriedade de bens, direitos ou valores provenientes, direta ou indiretamente, de infração penal. Nota-se que a palavra “infração penal” está inserida na redação típica do crime de Lavagem de Capitais, isto é, a infração penal antecedente é uma circunstância elementar do crime de Lavagem de Capitais. Por essa razão é que se diz que à semelhança do que ocorre com o crime de Receptação, a Lavagem de Capitais é conhecida como “crime acessório/parasitário”, porque sua tipificação está atrelada a outro crime. Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-SP - Promotor - MPE-SP - 2019): O crime de “lavagem” de capitais tem natureza acessória, derivada ou dependente de infração penal anteriormente cometida, típica e antijurídica, da qual decorreu a obtenção de vantagem financeira ilegal. Correto. (TRF-3 - Juiz - TRF-3 - 2018): O processo e julgamento do crime de lavagem de dinheiro prescinde da existência da infração penal antecedente. Errado. (TRF-2 - Juiz - TRF-2 - 2017): A lavagem de dinheiro é considerada crime derivado ou acessório, pois pressupõe a ocorrência de delito anterior. Não se admite a sua existência quando o ativo financeiro é proveniente de infração penal cometida posteriormente aos atos acoimados como sendo de lavagem. Correto. Sem que haja a infração penal antecedente, não há que se falar em Lavagem de Capitais. Todavia, o art. 2º, II, da Lei 9.613/98 estabelece aparente independência do processo da Lavagem de Capitais: Art. 2º O processo e julgamento dos crimes previstos nesta Lei: II - independem do processo e julgamento das infrações penais antecedentes, ainda que praticados em outro país, cabendo ao juiz competente para os crimes previstos nesta Lei a decisão sobre a unidade de processo e julgamento. CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 16 Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-RS - Promotor - MPE-RS - 2023): Ao sujeito ativo do crime de lavagem de dinheiro não é exigido que tenha participado ou concorrido do crime antecedente, e sim basta que tenha conhecimento, de qualquer modo, que os bens ocultados tenham uma origem ilícita. Correto. A respeito dessa independência, decidiu o STJ pela exclusão da tipicidade do crime de lavagem ante a inexistência do delito antecedente: A inexistência de delito antecedente exclui a tipicidade do crime de lavagem de dinheiro e torna insubsistente a imputação do crime de organização criminosa, pela ausência da prática de infrações penais. STJ. Sexta Turma. RHC 161.701-PB, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 19/03/2024 (Info 805). No mesmo sentido, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal já julgou situação semelhante: Habeas corpus. 2. Crime contra a ordem tributária. 3. Medidas cautelares de busca e apreensão e prisão domiciliar deferidas pelo juízo de primeiro grau. 4. Substrato fático que não se enquadra no tipo penal mencionado no inciso V do artigo 1º da Lei 8.137/1990. 5. Incidência da Súmula Vinculante 24. 6. Atipicidade dos fatos narrados como delito fiscal no decreto prisional. 7. Não ocorrência do crime de lavagem de dinheiro pela atipicidade dos fatos narrados como suposto delito antecedente. 8. Confirmação da liminar anteriormente concedida. 9. Ordem concedida para reconhecer a ilegalidade das medidas cautelares deferidas, bem como a nulidade das provas delas decorrentes. (HC 180567, Rel. Min. Gilmar Mendes, Segunda Turma, julgado em 22/11/2022, DJe-s/n Divulg. 16-03-2023. Public. 17/03/2023). O processo do crime de Lavagem de Capitais independe do processo da infração antecedente. Nesse sentido, o § 1º do art. 2º: Art. 2º § 1o A denúncia será instruída com indícios suficientes da existência da infração penal antecedente, sendo puníveis os fatos previstos nesta Lei, ainda que desconhecido ou isento de pena o autor, ou extinta a punibilidade da infração penal antecedente. Ex.: dois processos, sendo que um deles comporta autos relacionados ao Tráfico de Drogas e o outro à Lavagem de Capitais, no primeiro foram vendidos um milhão de reais em drogas e, no segundo, abriu-se um curso preparatório para se aplicar esse um milhão de reais. Indaga-se: os dois processos precisam tramitar juntos num único processo ou podem tramitar separadamente? Os processos criminais da Lavagem de Capitais e da infração penal antecedente NÃO precisam tramitar juntos (art. 2º, II, da Lei 9.613/98). Entretanto, não significa que não possam tramitar em conjunto. Não há regra absoluta. Isto porque, entre os dois crimes praticados há evidente conexão probatória. No exemplo, a prova da infração antecedente (Tráfico de Drogas) influi na prova do crime de Lavagem de Capitais (art. 76, III, do CP). Como há conexão probatória, é possível a reunião, porém esta reunião não é obrigatória. Se for dito que podem tramitar juntos, quem é que decide sobre a reunião dos feitos: o juiz da Lavagem ou o juiz do Tráfico de Drogas,já que ao último crime é cominada pena CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 17 mais gravosa? De acordo com o CPP, quando há conexão, quem decide, num primeiro momento, é o juízo com força atrativa (forum attractionis). Existem alguns critérios para identificar o forum attractionis; o primeiro deles é o juiz ao qual for cominada a pena mais grave. Contudo, essa não é a lógica adotada na lavagem de capitais. A segunda parte do art. 2º, II, da Lei 9.613/98 (“cabendo ao juiz competente para os crimes previstos nesta Lei a decisão sobre a unidade de processo e julgamento”) é uma novidade e tem status de regra especial em relação ao CPP. Assim, independentemente da gravidade das penas, quem dará a última palavra acerca da reunião ou separação de processos é o juiz que averigua a Lavagem de Capitais Se no processo de Tráfico de Drogas (crime antecedente) os autores forem absolvidos, será possível uma condenação pelo crime de Lavagem de Capitais? À primeira vista, pode-se pensar que não será possível uma condenação, visto que a infração penal antecedente é elementar da Lavagem. Não obstante, conforme André Luís Callegari, adota-se a Teoria da Acessoriedade Limitada e, portanto, quanto à infração penal antecedente, basta que seja conduta típica e antijurídica/ilícita para que o crime de Lavagem de Capitais seja punível. Assim, a absolvição da infração antecedente poderá influir ou não na condenação do crime de Lavagem de Capitais, dependerá do fundamento da absolvição: • Se tiver sido absolvido porque reconhecida a atipicidade da infração antecedente, obrigatoriamente, não poderá haver condenação pela Lavagem. • Se absolvido por conta de excludente de ilicitude na infração antecedente, também não será possível sua condenação na Lavagem. • Se a absolvição se der com base numa excludente da culpabilidade, poderá ocorrer a condenação, dado que a infração antecedente terá sido conduta típica e antijurídica, logo, basta para condenação no crime de Lavagem de Capitais – mesmo raciocínio será aplicado ao deparar-se com causa extintiva da punibilidade, pelo menos, em regra. O § 1º do art. 2º da Lei 9.613/98 confirma o que foi exposto acima, observe: Art. 2º, § 1º A denúncia será instruída com indícios suficientes da existência da infração penal antecedente, sendo puníveis os fatos previstos nesta Lei, ainda que desconhecido ou isento de pena o autor, ou extinta a punibilidade da infração penal antecedente. Atenção: em regra, se extinta a punibilidade da infração antecedente, os crimes de Lavagem de Capitais continuam puníveis. Ocorre que a doutrina cita duas exceções, ou seja, duas causas extintivas da punibilidade que impedem a tipificação da Lavagem de Capitais. São elas: anistia e abolitio criminis, porque em ambas é como se a infração penal antecedente tivesse deixado de existir (inexiste elementar). Não há que se falar em manifesta ausência de tipicidade de conduta, correspondente ao crime de “lavagem de dinheiro”, ao argumento de que o agente não foi igualmente condenado pela prática de algum dos crimes anteriores arrolados no elenco taxativo do artigo 1º, da Lei 9.613/98, sendo inexigível que o autor do crime acessório tenha concorrido para a prática do crime principal, desde que tenha conhecimento quanto à origem criminosa dos bens ou valores. Complexidade da prova e ausência de CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 18 manifesta inadequação da conduta ao tipo penal. (STJ, 6ª Turma, HC 36.837/GP, Rel. Min. Paulo Medina, DJ 06/12/2004, p. 372). Assim, não se tem como conditio sine qua non da Lavagem de Capitais a condenação pela infração antecedente, tanto é que a própria lei dispõe que os processos são independentes e autônomos. Como o tema foi cobrado em concurso? (MPE-RS - Promotor - MPE-RS - 2023): Somente é possível o crime de lavagem de dinheiro se houver uma infração penal antecedente. Entretanto, basta a comprovação de indícios suficientes da existência da infração penal antecedente, não exigindo a legislação pátria a condenação do(s) autor(es) pela prática do delito antecedente, sendo que, mesmo extinto o processo da infração penal antecedente pela prescrição da pretensão punitiva do Estado, permanece a possibilidade de punição pelo crime de lavagem de dinheiro vinculado a ela. Correto. (MPE-MS - Promotor - Instituto AOCP - 2022): É desnecessário que o autor do crime de lavagem de dinheiro tenha sido autor ou partícipe da infração penal antecedente, basta que tenha ciência da origem ilícita dos bens, direitos e valores e concorra para sua ocultação ou dissimulação. Correto. (MPE-RS - Promotor - MPE-RS - 2021): A extinção da punibilidade da infração penal antecedente pela prescrição não prejudica a configuração do delito de “lavagem de dinheiro”. Correto. (PF - Delegado Federal - CESPE - 2021): É requisito específico da denúncia a existência de indícios suficientes da ocorrência do crime antecedente cuja punibilidade não esteja extinta. Errado. 9. SUJEITOS DO CRIME 9.1. SUJEITO ATIVO A Lavagem de Capitais é crime comum, ou seja, pode ser praticado por qualquer pessoa, não se exige nenhuma qualidade especial do agente. A lei brasileira pune, exclusivamente, pessoas físicas pelo crime de Lavagem de Capitais. A pessoa jurídica pode até responder, mas estará sujeita exclusivamente às punições administrativas e não às criminais. Quando internacionalmente questionado a respeito do tema, o Brasil justificou que não poderia o país ser considerado inadimplente, porque prevê sanções administrativas contra as pessoas jurídicas, tais como advertências e multas pecuniárias. Como o tema foi cobrado em concurso? (PF - Delegado Federal - CESPE - 2021): O crime de lavagem de dinheiro está, consoante a lei, equiparado ao crime hediondo. Errado. CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 19 9.2. SUJEITO PASSIVO Será a “coletividade”, caso se concorde que o bem jurídico tutelado é a “ordem econômico- financeira”. Por outro lado, se entender o bem jurídico tutelado como a “administração da Justiça”, o sujeito passivo será “o próprio Estado no qual está inserido o Poder Judiciário”. 9.3. AUTOLAVAGEM (SELFLAUNDERING) Entende-se por “autolavagem” a hipótese em que o mesmo indivíduo que responde pela infração penal antecedente também é criminalmente processado pelo delito de Lavagem de Capitais. O autor da infração antecedente também responde pelo crime de Lavagem de Capitais? Há duas correntes: • 1ª corrente (minoritária): a autolavagem não é possível. Esse entendimento é adotado por alguns países da Europa, como a Itália e a França, que sustentam que a Lavagem é semelhante ao Favorecimento Real e, portanto, não pode o autor responder pelos dois crimes. Nessa perspectiva, são apontados alguns argumentos, adotados por doutrinadores como Roberto Delmanto, que entendem que o autor da infração antecedente não responde pelo crime de Lavagem por razões como: o O crime de Lavagem deve ser interpretado como semelhante ao Favorecimento Real; o Com base no princípio da consunção, a Lavagem é mero exaurimento da infração antecedente, ou seja, é de se esperar que o sujeito lave o dinheiro obtido em decorrência do ilícito anteriormente ocorrido e sua punição pela lavagem configuraria bis in idem; o Haveria violação ao princípio do Nemo tenetur se detegere (vedação da autoincriminação), pois quem lava dinheiro o faz para que sua autoria em relação ao crime antecedente não seja revelada. Trata-se de tentativa de evitar a produção de provas contra si mesmo. • 2ª corrente (majoritária): a autolavagem é possível. A legislação brasileira não fez semelhante reserva à da Itália e da França, basta comparar os preceitos do art. 1º da Lei 9.613/98 com os do art. 349 do CP. Não há falar em Princípio da Consunção ou conflito aparente de normas, visto que a infração penalantecedente independe da Lavagem de Capitais. Quando o indivíduo lava o dinheiro, praticará infração penal autônoma, violando, portanto, bem jurídico diverso, sendo é incongruente entender a Lavagem como exaurimento da infração antecedente. Tampouco há falar em violação do direito ao silêncio. Ninguém é obrigado a produzir prova contra si mesmo, todavia, tal princípio não serve de justificativa para prática de delitos na tentativa de encobrir crimes anteriores. Os direitos não podem ser utilizados como escudo protetivo para atividades ilícitas. CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 20 Neste sentido, reforçando o entendimento pela possibilidade da autolavagem, entendeu o STJ: Embora a tipificação da lavagem de capitais dependa da existência de uma infração penal antecedente, é possível a autolavagem, isto é, a imputação simultânea, ao mesmo réu, do delito antecedente e do crime de lavagem, desde que sejam demonstrados atos diversos e autônomos daquele que compõe a realização do primeiro crime, circunstância em que não ocorrerá o fenômeno da consunção. A autolavagem (self laundering/autolavado) merece reprimenda estatal, na medida em que o autor da infração penal antecedente, já com a posse do proveito do crime, poderia simplesmente utilizar-se dos bens e valores à sua disposição, mas reinicia a prática de uma série de condutas típicas, a imprimir a aparência de licitude do recurso obtido com a prática da infração penal anterior. Dessa forma, se for confirmado, a partir do devido processo legal, que o indivíduo deu ares de legalidade ao dinheiro indevidamente recebido, estará configurado o crime de lavagem de capitais. STJ. Corte Especial. APn 989-DF, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 16/02/2022 (Info 726). A lavagem de dinheiro pressupõe a ocorrência de delito anterior, sendo próprio do delito que esteja consubstanciado em atos que garantam ou levem ao proveito do resultado do crime anterior, mas recebam punição autônoma. Conforme a opção do legislador brasileiro, pode o autor do crime (leia-se infração penal) antecedente responder por lavagem de dinheiro, dada à diversidade dos bens jurídicos atingidos e à autonomia deste delito. (STJ, 5ª Turma, Resp 1.234.097/PR, Rel. Min. Gilson Dipp,j. 03/11/2011). Como o tema foi cobrado em concurso? (TJ-DFT - Juiz - CESPE - 2023): Embora a tipificação da lavagem de dinheiro dependa da existência de uma infração penal antecedente, é possível a imputação simultânea, ao mesmo réu, do crime de lavagem e da infração antecedente, desde que demonstrados atos diversos e autônomos daquele que compõe a realização da primeira infração penal, circunstância na qual não ocorrerá o fenômeno da consunção. Correto. (MPE-MG - Promotor - FUNDEP - 2021): Se o agente participa do delito principal antecedente, a subsequente lavagem de dinheiro configura um post factum impunível. Errado. 9.4. DESNECESSIDADE DE PARTICIPAÇÃO NA INFRAÇÃO ANTECEDENTE O sujeito ativo da Lavagem de Capitais não necessariamente precisa ter concorrido para a infração antecedente, desde que tenha conhecimento da origem ilícita dos valores por ele ocultados. 9.5. ADVOGADO COMO SUJEITO ATIVO DO CRIME DE LAVAGEM DE CAPITAIS É evidente que o advogado (assim como juízes, promotores e outros) pode ser sujeito ativo, até porque a Lavagem é caracterizada como “crime comum”. Indaga-se: o advogado tem a obrigação de comunicar operações suspeitas ao COAF, como os gatekeepers? CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 21 Há poucos anos, alguns advogados passaram a defender pessoas acusadas de Lavagem de Capitais. Em razão disso, foram demonizados, sob argumento de que, ao patrocinarem lavadores de dinheiro, estariam recebendo dinheiro sujo e, portanto, concorriam com a Lavagem de Capitais. Na oportunidade, houve a infeliz sugestão de que, a partir dali, nos processos de Lavagem de Capitais, os denunciados obrigatoriamente teriam que ser defendidos por defensores públicos. Perceba que se estaria impondo a alguém quem seria seu advogado. Haveria, desta forma, violação ao princípio da ampla defesa, uma vez que o acusado estaria impedido de constituir advogado de sua própria confiança. A indagação feita acima é oriunda das mudanças introduzidas pela Lei 12.683/02, entre elas, a ampliação das pessoas físicas ou jurídicas obrigadas a comunicar operações suspeitas. Nesse sentido, dispõe o parágrafo único, inciso XIV, do art. 9º da Lei 9.613/98: Art. 9o Sujeitam-se às obrigações referidas nos arts. 10 e 11 as pessoas físicas e jurídicas que tenham, em caráter permanente ou eventual, como atividade principal ou acessória, cumulativamente ou não: Parágrafo único. Sujeitam-se às mesmas obrigações XIV - as pessoas físicas ou jurídicas que prestem, mesmo que eventualmente, serviços de assessoria, consultoria, contadoria, auditoria, aconselhamento ou assistência, de qualquer natureza, em operações: a) de compra e venda de imóveis, estabelecimentos comerciais ou industriais ou participações societárias de qualquer natureza; b) de gestão de fundos, valores mobiliários ou outros ativos; c) de abertura ou gestão de contas bancárias, de poupança, investimento ou de valores mobiliários; d) de criação, exploração ou gestão de sociedades de qualquer natureza, fundações, fundos fiduciários ou estruturas análogas; e) financeiras, societárias ou imobiliárias; e f) de alienação ou aquisição de direitos sobre contratos relacionados a atividades desportivas ou artísticas profissionais; Parcela doutrinária (Rodrigo de Grandis) compreende o advogado em duas espécies: a) Advogados de representação contenciosa: advogado que atua na defesa de cliente em processo concreto judicial ou administrativo. Esse advogado não tem a obrigação de comunicar operação suspeita. b) Advogados de operações: advogado especializado em consultoria jurídica não processual. Aqui, inexiste situação jurídica concreta relacionada a processo judicial ou administrativo. Esse perfil de advogado tem a obrigação de comunicar operações suspeitas, assim como profissionais de qualquer outra área. Não é essa a orientação que tem sido adotada pelo próprio COAF (vide Resolução 24/2013) e pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), conforme verificado na provocação do órgão especial do Conselho Pleno do Conselho Federal, em relação à consulta formalizada pela OAB/SP, processo em que o Conselho Federal decidiu que: Lei nº 12.683/02 alterando Lei nº 9.613/98; Lei especial (Estatuto da OAB) não pode ser revogada por lei que trata genericamente outras profissões, advogados e sociedades de advocacia não devem fazer cadastro no COAF, nem têm o dever de divulgar dados sigilosos de seus clientes que lhes forem CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 22 entregues no exercício funcional. Obrigações das Seccionais e Comissões de prerrogativas nacionais e estaduais de amparar os advogados que ilegalmente sejam instados a fazê-los. Portanto, tanto o COAF quanto a OAB entendem que as alterações produzidas pela Lei 12.683/02 não são aplicáveis aos advogados e que a distinção entre advogados de representação contenciosa e advogados de operações não tem qualquer validade. 10. TIPO OBJETIVO Dois são os verbos utilizados no art. 1º, caput, da Lei 9.613/98: 1) Ocultar: esconder alguma coisa. 2) Dissimular: encobrir/disfarçar algo. Tem-se crime de ação múltipla e conteúdo variado, sendo que a incidência de qualquer um dos verbos (ocultar ou dissimular) é suficiente para caracterização do delito de Lavagem de Capitais. 10.1. DISTINÇÃO ENTRE O EXAURIMENTO DA INFRAÇÃO ANTECEDENTE E O CRIME DE LAVAGEM DE CAPITAIS É imperioso saber precisamente a linha tênue que separa a infração penal antecedente, com todo seu iter criminis (cogitação, preparação, execução e consumação), do momento inicial que marca o crime de Lavagem de Capitais, principalmente o momento finaldo antecedente criminal (compreendido como o “exaurimento”, apesar de, para a maioria dos doutrinadores, não fazer parte do iter criminis). Pierpaolo Bottini, Gustavo Badaró e Fausto de Sanctis compreendem que o sujeito somente ingressará no delito de Lavagem de Capitais quando praticar atos ou uma sequência de atos com o intuito de atribuir aparência lícita aos valores ilicitamente obtidos. Portanto, o simples usufruto do produto ou proveito da infração antecedente não tipifica lavagem de capitais. Note que guardar dinheiro em armários, embaixo de colchões ou em qualquer outro esconderijo não caracteriza atos com objetivo de mascarar sua origem ilícita, bem como se o sujeito adquirir um apartamento com valores ilicitamente obtidos e registrá-lo no seu próprio nome. 10.2. NATUREZA INSTANTÂNEA OU PERMANENTE Há duas correntes que objetivam definir a natureza do delito: • 1ª corrente: o crime de Lavagem de Capitais é instantâneo. Sustenta que o delito se concretiza no exato momento em que são realizados atos com intuito de mascarar a origem dos valores. Segundo Bottini, “a manutenção do bem ocultado ou dissimulado é mero desdobramento e decorrência dos atos iniciais”. CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 23 • 2ª corrente: os verbos “ocultar” e “dissimular”, pela própria redação do tipo penal, sugerem tratar-se de crime permanente, ou seja, aquele cuja consumação se prolonga no tempo e, durante todo esse período, o agente detém o poder de fazer cessar sua execução. Quando abordado o crime instantâneo, tem-se que a prescrição começa a fluir a partir da consumação. Por outro lado, no que tange ao crime permanente, a prescrição começa a fluir a partir da cessação da permanência do delito. Dispõe o inciso III do art. 111 do CP: Art. 111 - A prescrição, antes de transitar em julgado a sentença final, começa a correr: III - nos crimes permanentes, do dia em que cessou a permanência. A 1ª Turma do STF, na Ação Penal 863, condenou Paulo Maluf por lavagem de capitais praticada na década de 90, sob justificativa de que o réu manteve os valores ocultos no exterior, configurando, portanto, o crime permanente e, como tal, não haveria que se falar em prescrição. PENAL E PROCESSUAL PENAL. AÇÃO PENAL ORIGINÁRIA. EX- PREFEITO MUNICIPAL. ATUAL DEPUTADO FEDERAL. DENÚNCIA. ALEGAÇÃO DE NULIDADE DO LAUDO PERICIAL. IMPROCEDÊNCIA. NATUREZA DA PROVA DA MATERIALIDADE DOCUMENTAL E NÃO PERICIAL. AUSÊNCIA DE OPINIÃO TÉCNICA ESPECIALIZADA. PARCIAL EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE PELA PRESCRIÇÃO. CRIME DE LAVAGEM DE DINHEIRO. MODALIDADE OCULTAR. NATUREZA PERMANENTE DO CRIME RECONHECIDA. PRESCRIÇÃO QUE NÃO TERIA OCORRIDO AINDA QUE O CRIME FOSSE INSTANTÂNEO DE EFEITOS PERMANENTES. IMPROCEDÊNCIA DA ALEGAÇÃO DE RETROATIVIDADE “IN MALAM PARTEM” DA LEI PENAL. ATOS DE LAVAGEM PRATICADOS QUANDO JÁ ESTAVA EM VIGOR A LEI 9.613/98 A DESPEITO DE O CRIME ANTECEDENTE TER SIDO PRATICADO ANTERIORMENTE. MATERIALIDADE, AUTORIA, TIPICIDADE OBJETIVA E SUBJETIVA PROVADAS. CONDENAÇÃO DECRETADA. (...) 3. O crime de lavagem de bens, direitos ou valores, quando praticado na modalidade típica de “ocultar”, é permanente, protraindo-se sua execução até que os objetos materiais do branqueamento se tornem conhecidos, razão pela qual o início da contagem do prazo prescricional tem por termo inicial o dia da cessação da permanência, nos termos do art. 111, III, do Código Penal. (...) 5. Embora não estivesse em vigor a Lei 9.613/98 quando o crime antecedente (corrupção passiva) foi praticado, os atos de lavagem ocorreram durante sua vigência, razão pela qual não há falar em retroatividade da lei penal em desfavor do réu. A Lei 9.613/98 aplica-se aos atos de lavagem praticados durante sua vigência, ainda que o crime antecedente tenha ocorrido antes de sua entrada em vigor (...). (AP 863, Relator: Min. EDSON FACHIN, Primeira Turma, julgado em 23/05/2017, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe191 DIVULG 28-08-2017 PUBLIC 29-08- 2017). Atente-se, ainda, que a lavagem de capitais é delito do tipo plurissubsistente, ou seja, que se fraciona em fases, tem iter criminis bem definido e, portanto, admite tentativa. Há, inclusive, previsão legal neste sentido: Art. 1º, § 3º A tentativa é punida nos termos do parágrafo único do art. 14 do Código Penal. CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 24 Como o tema foi cobrado em concurso? (TJ-RS - Juiz - FAURGS - 2022): Em uma sociedade por ações "A", dois executivos desenvolvem estratégia para obter importante contrato com uma sociedade de economia mista “M”. Eles decidem que a maneira mais “eficiente” de o conseguir é procurar um diretor da empresa “M” e oferecer- lhe 10% do valor do contrato. O valor equivalente a essa porcentagem seria repassado a uma conta de uma empresa "fantasma", em nome de "laranja", para que depois pudesse ser reinvestido no mercado de bitcoins. E assim foi feito. Nesse cenário global, pode-se identificar o cometimento dos seguintes crimes corrupção ativa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Correto. (MPE-MS - Promotor - Instituto AOCP - 2022): O crime de lavagem de bens, direitos ou valores, quando praticado na modalidade típica de ocultar, é permanente, protraindo-se sua execução até que os objetos materiais do branqueamento se tornem conhecidos. Correto. (PC-ES - Delegado - CESPE - 2022): A modalidade de ocultar a propriedade de bens provenientes diretamente de infração penal é conduta de natureza permanente, até que os objetos materiais da lavagem se tornem conhecidos. Correto. (PGE-CE - Procurador - CESPE - 2021): Por constituir crime unissubsistente, a tentativa é impunível. Errado. 11. TIPO SUBJETIVO No Brasil, o crime de lavagem de capitais é punido, unicamente, a título de dolo, seja ele direto (resultado pretendido) ou eventual (assumidos riscos de produção do resultado). Não se admite, portanto, punição a título de culpa. 11.1. DOLO EVENTUAL Para se afirmar que o crime não admite dolo eventual, é preciso verificar a redação do tipo penal, porque, por vezes, o próprio texto do dispositivo já afasta a possibilidade do dolo eventual. Cita-se, como exemplo, o art. 339 (denunciação caluniosa) e art. 180 (receptação), ambos do CP. O mesmo raciocínio deve ser aplicado aos crimes de Lavagem de Capitais. Em regra, os crimes de Lavagem de Capitais são punidos tanto a título de dolo direto quanto eventual, salvo o crime do art. 1º, § 2º, inciso II, da Lei 9.613/98, que prevê a punição apenas a título de dolo direto. Art. 1o, § 2o Incorre, ainda, na mesma pena quem II - participa de grupo, associação ou escritório tendo conhecimento de que sua atividade principal ou secundária é dirigida à prática de crimes previstos nesta Lei. 11.2. CASO DO BANCO CENTRAL DE FORTALEZA (TEORIA DA CEGUEIRA DELIBERADA) CS - LAVAGEM DE CAPITAIS - 2025.1 25 No Banco Central de Fortaleza foi subtraída a quantia de R$ 164.755.150,00 em espécie. Para retirar o dinheiro de Fortaleza, os criminosos utilizaram várias estratégias, destacando-se, entre elas, a ideia de rechear veículos com notas de R$ 50,00 e R$ 100,00. Onze automóveis importados foram adquiridos de uma concessionária, num sábado, pela totalidade de R$ 980.000,00, pagos em notas de R$ 50,00 transportadas em sacos de nylon. Deixaram os criminosos, ainda, a quantia de R$ 250.000,00 para futuras compras, já que não havia carros o suficiente. Nesse caso, utilizou-se a denominada “Teoria da Cegueira Deliberada” (willfull blindness), posteriormente, aproveitada em outros eventos envolvendo Lavagem de Capitais. A primeira decisão do Juiz de 1ª Instância condenou os empresários da loja pelo crime de lavagem, fundamentada na obrigação dos empresários de comunicar essa operação suspeita. Não o fazendo, assumiram o risco de produzir o resultado (dolo eventual), com base na Teoria da Cegueira Deliberada. A Teoria da Cegueira Deliberada