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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS - UFAL 
FACULDADE DE MEDICINA - FAMED 
DISCIPLINA: SEMIOLOGIA INTEGRADA 
(ÁREA DE ESTUDO: SEMIOLOGIA PSIQUIÁTRICA) 
 
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CIÊNCIAS 
DA SAÚDE DE ALAGOAS - UNCISAL 
FACULDADE DE MEDICINA - FAMED 
DISCIPLINA: PSIQUIATRIA 
 
 
 
 
 
FLÁVIO SOARES 
 
 
 
 
MANUAL 
SEMIOLOGIA PSIQUIÁTRICA 
 
Anamnese 
Princípios Básicos de Psicopatologia 
das Funções Psíquicas (Exame Mental) 
 
 
 
 
O amor é o estado no qual os homens têm mais probabilidades 
de ver as coisas tal como elas não são. 
Friedrich Nietzsche 
 
 
 
MACEIÓ/2021 
 
 
 
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Ao nos depararmos com uma pessoa doente, temos como 
profissionais o dever de aprimorarmos cada vez mais nossa 
capacidade de empatia (colocar-se no lugar do outro). É a empatia 
que definirá nosso sucesso ou fracasso na tarefa de descrevermos 
e compreendermos as alterações psíquicas do homem 
(psicopatologia descritiva – fenomenologia). É bem simples 
treinarmos: nunca deixar de lembrar que também somos seres 
humanos passíveis das mais diversas doenças. Com essa 
consciência, faremos um bom trabalho. Escutaremos melhor 
nossos pacientes. 
 
Flávio Soares 
 
 
O tempo não avança 
Não muda nada 
Porque tudo que ocorre no presente 
E vai ocorrer no futuro 
Já ocorreu no passado 
Voltar a sonhar o já sonhado 
É o destino dos poetas 
É reiterar o ritual da memória 
O castigo dos homens 
Posso tratar-me e interromper o ciclo infinito dos astros? 
 Manoel de Barros 
 
 
 
 
 
 
 
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1.1. CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE A ENTREVISTA COM O PACIENTE 
 
As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras. 
(Friedrich Nietzsche - filósofo) 
 
As entrevistas iniciais 
 
Durante a entrevista inicial se faz a anamnese, ou seja, são colhidos todos os dados 
necessários para um diagnóstico pluridimensional do paciente, o que inclui os dados 
sociodemográficos, a queixa ou o problema principal e a história dessa queixa, os 
antecedentes mórbidos somáticos e psíquicos pessoais, contendo os hábitos e o uso de 
substâncias químicas, os antecedentes mórbidos familiares, a história de vida do 
paciente, englobando as várias etapas do desenvolvimento somático, neurológico, 
psicológico e psicossocial e, finalmente, a avaliação das interações familiares e sociais 
do paciente. 
Na anamnese, o entrevistador se interessa tanto pelos sintomas objetivos como pela 
vivência subjetiva do paciente em relação àqueles sintomas; pela cronologia dos 
fenômenos e pelos dados pessoais e familiares. Além disso, o entrevistador permanece 
atento às reações do paciente ao fazer os seus relatos. Realiza, assim, parte do exame 
psíquico e da avaliação do estado mental atual durante a coleta da história (anamnese). 
Em alguns casos, o paciente consegue formular com certa clareza e precisão a “queixa 
principal”, que, ao entrevistador, parece consistente e central no sofrimento do paciente 
e para o seu diagnóstico. Isso pode ajudar o entrevistador a limitar o “campo de 
procura” a ser investigado. Muitas vezes, entretanto, o paciente psiquiátrico não tem 
qualquer queixa a fazer; ou simplesmente não tem crítica ou insight de sua situação, de 
seu sofrimento. Outras vezes, se recusa defensivamente a admitir que tenha um 
problema mental, comportamental ou psicológico e que esteja sofrendo por ele. 
Assim, em algumas situações faz-se necessária a informação de familiares, amigos, 
conhecidos. Os dados fornecidos pelo “informante” também padecem de certo 
subjetivismo, que o entrevistador deve levar em conta. A mãe, o pai ou cônjuge do 
paciente, por exemplo, têm a sua visão do caso, e não a “visão” (correta e absoluta) do 
caso. De qualquer forma, muitas vezes as informações fornecidas pelos acompanhantes 
podem revelar dados mais confiáveis, claros e significativos. Pacientes com quadro 
demencial, déficit cognitivo, em estado psicótico grave e em mutismo geralmente não 
conseguem informar dados sobre a sua história, sendo, nesses casos, fundamental a 
contribuição do acompanhante. 
 
Condução da entrevista 
 
De início, pode-se afirmar que a habilidade do entrevistador se revela pelas perguntas 
que formula, por aquelas que evita formular e pela decisão de quando e como falar ou 
apenas calar. É fundamental que o profissional possa estar em condições de acolher o 
paciente em seu sofrimento, de ouvi-lo realmente, escutando-o em suas dificuldades. Às 
vezes, uma entrevista bem conduzida é aquela na qual o profissional fala muito pouco e 
ouve pacientemente o doente. Outras vezes, o paciente e a situação exigem que o 
entrevistador seja mais participante, falando mais, fazendo muitas perguntas, intervindo 
mais freqüentemente. 
 
 
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Deve-se ressaltar que algumas atitudes são, na maior parte das vezes, inadequadas e 
improdutivas, devendo o profissional evitar: a. posturas rígidas, estereotipadas, fórmulas 
que o profissional acha que funcionaram bem com alguns pacientes e, portando, devem 
funcionar com todos; b. atitude excessivamente neutra ou fria que transmite ao paciente 
sensação de distância e desprezo; c. reações exageradamente emotivas ou 
artificialmente calorosas que produzem, na maioria das vezes, uma falsa intimidade; d. 
comentários valorativos ou emitir julgamentos sobre o que o paciente relata ou 
apresenta; e. reações emocionais intensas de pena ou compaixão; f. responder com 
hostilidade ou agressão às investidas hostis ou agressivas de alguns pacientes; g. fazer 
muitas anotações durante a entrevista. Dessa forma, o profissional deverá buscar: a. uma 
atitude flexível, que seja adequada a personalidade do doente, aos sintomas que 
apresenta no momento, à sua bagagem cultural, aos seus valores e à sua linguagem; b. 
uma atitude receptiva e calorosa, mas discreta, de respeito e consideração pelo paciente; 
c. a criação de um clima de confiança para que a história do doente surja em sua 
plenitude; d. serenidade e firmeza diante de um paciente agressivo ou muito hostil, 
procurando responder, ao doente que eleva a voz e se exalta, sempre em voz mais baixa 
que ele; e. não revidar à agressões, porém mostrar ao paciente que ele está sendo 
inadequadamente hostil e que não aceita agressão física ou verbal exagerada (discussões 
acirradas costumam ser inúteis no contato com os doentes). 
Uma dificuldade comum nas entrevistas realizadas em serviços públicos é a falta de 
tempo dos profissionais, excesso de trabalho, estresse e condições físicas de 
atendimento precárias. Assim, muitas vezes o profissional de saúde está impaciente para 
ouvir pessoas com queixas pouco precisas (poliqueixosos), rejeita aqueles doentes que 
informam de forma vaga ou que estão muito desorganizados psiquicamente. Entretanto, 
no atendimento em saúde, a paciência do entrevistador é fundamental. Ás vezes, o 
profissional dispõe de não mais que cinco ou dez minutos ( ex: emergência, ambulatório 
repleto de pessoas à espera), mas, se nesse pouco tempo, puder ouvir e examinar o 
paciente com paciência e respeito, criando uma atmosfera de confiança e empatia, 
mesmo com as restrições de tempo, isso poderá propiciar o início de um trabalho de boa 
qualidade. Assim, o profissional, ao entrar em contato com o paciente, deve preparar o 
espírito para encarar o desafio de conhecer essa pessoa, formular um diagnóstico, 
entender, quando possível, algo do que realmente se passa em seu interior. Aqui, a 
paciência é um dos elementos mais fundamentais. 
A primeira entrevista é considerada um momento crucial no diagnóstico e no tratamento 
em saúde mental. Esse primeiro contato, sendo bem conduzido, deve produzir no 
paciente uma sensação de confiança e de esperança em relação ao alívio do sofrimento. 
É conveniente que o profissional se apresente, dizendo seu nome, sua profissão e 
especialidade e, se for o caso, a razão da entrevista.de uma pessoa 
situar-se no espaço e/ou no tempo (desorientação espacial e/ou temporal). 
 
B. Desorientação autopsíquica: é a alteração da capacidade de estabelecer sua própria 
identidade pessoal. 
 
Obs: em situações psicopatológicas, geralmente a desorientação ocorre, em 
primeiro lugar, em relação ao tempo. Só após o agravamento do transtorno, o 
indivíduo se desorienta quanto ao espaço e, finalmente, quanto a si mesmo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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2.3.4. MEMÓRIA 
 
Amar o perdido 
deixa confundido 
este coração. 
Nada pode o olvido 
contra o sem sentido 
apelo do Não. 
As coisas tangíveis 
tornam-se insensíveis 
à palma da mão. 
Mas as coisas findas, 
muito mais que lindas, 
essas ficarão. 
 
“Memória” by Carlos Drummond de Andrade 
 
A memória é aquilo que nos separa do caos. 
 
Sergei Korsakov (neuropsiquiatra russo do século XIX) 
 
A memória é o elo temporal da vida psíquica. É a capacidade de registrar, manter e 
evocar as experiências e os fatos já ocorridos. Podemos identificar três fases no 
processo da memória: a. fase de registro (percepção, gerenciamento e início da fixação); 
b. fase de conservação (retenção) e c. fase de evocação (também denominada de 
lembranças, recordações ou recuperação). 
 
2.3.4.1. ALTERAÇÕES QUANTITATIVAS DA MEMÓRIA 
 
A. Hipermnésias – as representações (elementos mnêmicos) afluem rapidamente, 
ganhando em número, perdendo, porém, em clareza e precisão. Pode ocorrer, por 
exemplo, em episódios de mania. 
 
B. Amnésias ou Hipomnésias – denomina-se amnésia, de forma genérica, a perda da 
memória, seja a da capacidade de fixar ou a da capacidade de manter ou evocar antigos 
conteúdos mnêmicos. Amnésia de fixação ou anterógrada é a perda da capacidade de 
fixar as lembranças do momento (do início da doença em diante). Amnésia de 
evocação ou retrógrada é a perda da capacidade de evocar as lembranças antes do 
início da doença. Sua ocorrência sem amnésia anterógrada pode ser observada em 
quadros dissociativos. De modo geral, é comum, após trauma cranioencefálico, a 
ocorrência de amnésias retroanterógradas, ou seja, déficits de fixação para o que ocorreu 
dias, semanas ou meses antes e depois do evento patógeno. 
 
 
 
 
 
 
 
 
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2.3.4.2. ALTERAÇÕES QUALITATIVAS DA MEMÓRIA (PARAMNÉSIAS) 
 
As alterações qualitativas da memória envolvem, sobretudo a deformação do processo 
de evocação de conteúdos mnêmicos previamente fixados. O indivíduo apresenta 
lembrança deformada que não corresponde à sensopercepção original. Os principais 
tipos de paramnésias são: 
 
A. Ilusões mnêmicas – há o acréscimo de elementos falsos há um núcleo verdadeiro de 
memória. Assim, a lembrança adquire caráter fictício. Muitos pacientes informam sobre 
o seu passado indicando claramente deformações de elementos reais. Ocorre na 
esquizofrenia, na paranóia, nos transtornos da personalidade borderline, esquizotípica e 
histriônica. 
 
B. Alucinações mnêmicas – são verdadeiras criações imaginativas com a aparência de 
lembranças ou reminiscências que não correspondem a qualquer elemento mnêmico, a 
qualquer lembrança verdadeira. Podem surgir de modo repentino, sem corresponder a 
qualquer acontecimento. Ocorrem principalmente na esquizofrenia. 
 
C. Fabulações (ou confabulações) – elementos da imaginação do doente ou mesmo 
lembranças isoladas completam artificialmente as lacunas da memória, produzidas, em 
geral, por déficits da memória de fixação. Além do déficit de fixação, o doente não é 
capaz de reconhecer como falsas as imagens produzidas pela fantasia. As confabulações 
são invenções, produtos da imaginação do paciente, que preenchem um vazio da 
memória. O paciente não tem intenção de mentir ou enganar o entrevistador. É possível 
produzi-las, direcioná-las ou estimulá-las ao perguntar ao doente, por exemplo, se ele 
lembra o que ele fez na noite passada. Portanto, as confabulações diferem das ilusões e 
das alucinações mnêmicas que não podem ser produzidas, direcionadas ou induzidas 
pelo examinador. As confabulações ocorrem freqüentemente na síndrome de Korsakoff, 
secundária ao alcoolismo crônico, associado a déficit da tiamina (vitamina B1), 
traumatismo craniano, etc. A síndrome é caracterizada por déficit intenso da memória 
de fixação. O paciente preenche as lacunas mnêmicas com histórias fantásticas. 
Lembro-me, ainda estudante de medicina, do atendimento que realizei no ambulatório 
de hepatologia a um paciente alcoolista crônico. Ao perguntar qual foi a refeição que ele 
fez no café da manhã, a reposta foi: “lobisomem com cachorro morto estão perdidos no 
quintal”. 
 
D. Criptomnésia – é um falseamento da memória, em que as lembranças aparecem 
como fatos novos ao doente, que não as reconhece como lembranças, vivendo-as como 
uma descoberta. Por exemplo, um indivíduo com demência (como do tipo Alzheimer) 
conta a seus amigos uma história muito conhecida como se fosse inteiramente nova, 
história essa que, há poucos minutos, foi relatada por um desses amigos. 
 
E. Ecmnésia - é a recordação muito nítida de uma certa fase do passado, a ponto de o 
paciente pensar que está vivendo a mesma no momento. Tudo é sentido com muita 
intensidade. Pode ocorrer em alguns pacientes com crises epilépticas. O fenômeno 
denominado visão panorâmica da vida, associado às chamadas experiências de quase 
morte (EQM), é um tipo de ecmnésia. A ecmnésia também pode ocorrer em quadros 
dissociativos. 
 
 
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Obs: a exploração da capacidade de evocação de fatos remotos começa a ser feita 
no decorrer mesmo da anamnese. Para a exploração da memória recente deve-se 
interrogar o paciente acerca de detalhes do seu internamento ou de fatos bem 
próximos (incidentes da véspera, pessoa com quem falou, etc.). 
 
 
...A morte chegou à memória 
Ainda respiro? 
...Morro por que não morro? 
Vivo e já não vivo em mim 
Se for para viver assim 
Prefiro morrer sem ti. 
 
Santa Tereza D’Ávila 
 
 
2.3.5. INTELIGÊNCIA 
 
 
 Nem digam não, que o antigo cepticismo chegou aqui. 
Dizer “apenas sei que nada sei” não é inteligência para compreender isto: que a 
verdade está além do ser ou não ser, as duas formas do erro mais simples do pensar. 
 
Fernando Pessoa 
 
A inteligência é um processo de rendimento psíquico utilizável para adaptação a tarefas 
vitais e que pode empregar-se com fim determinado. As principais habilidades incluídas 
nesse processo são: raciocínio, planejamento, resolução de problemas, pensamento 
abstrato, compreensão de idéias complexas, aprendizagem rápida e aprendizagem a 
partir da experiência. A dimensão de rendimento psíquico refere-se às habilidades 
intelectivas que, com um mínimo de esforço empregado, obtêm o máximo de ganho ou 
de rendimento funcional. 
 
Em geral, entre os 15 e os 16 anos de idade é que os processos intelectuais alcançam o 
máximo do seu desenvolvimento quantitativo. Além desse limite cronológico, o 
processo intelectual far-se-á apenas em qualidade. Entre 40 e 45 anos ocorre uma parada 
quanto à capacidade de novas aquisições, iniciando-se então o declínio. 
 
Observamos variações do nível de inteligência de acordo com o teste de quociente de 
inteligência (QI). Esse quociente é uma medida convencional da capacidade intelectual 
do indivíduo, baseada na averiguação das distintas habilidades intelectuais (verbais, 
visuoespaciais, abstração, cálculo, etc.). Ele é obtido por meio de testes individuais 
padronizados. Pela aplicação dos testes em extensas amostras populacionais, obtiveram-
se normas quantitativas do QI. A média populacional do QI é igual a 100. Na faixa de 
85 a 115 (QI normal médio), encontram-se 68% da população. Um QI superior a 115 ou 
120 é considerado uma inteligência superior e um QI acima de 130 é considerado uma 
inteligência muito superior. Um QI entre 70 a 84 é considerado limítrofe entre a 
 
 
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“normalidade” e o retardomental. Diversos aspectos são levados em conta quando esses 
testes são aplicados. Principalmente, o contexto cultural da população investigada. 
As alterações da inteligência podem ser de dois tipos: os retardos mentais (QI com 
resultado a partir de 69 para baixo) e as demências. Ambas serão estudadas 
especificadamente nas aulas de Retardo Mental e de Demências. 
 
 
Suponho que me entender 
não é uma questão de inteligência 
e sim de sentir, 
de entrar em contato... 
Ou toca, ou não toca. 
 
Clarice Lispector (escritora) 
 
 
2.3.6. SENSOPERCEPÇÃO 
 
 
Is this a dagger which I see before me. 
The handle to ward my hand? 
Come, let me clutch thee: 
I have thee not, fatal vision, sensible 
To feeling as to sight? or art thou but 
A dagger of the mind, a false creation, 
Proceeding from the heat-opressed brain? 
 
William Shakespeare in “Macbeth” 
 
Todas as informações do ambiente, necessárias à sobrevivência do indivíduo, chegam 
até o organismo por meio das sensações. Os diferentes estímulos físicos (luz, som, 
calor, etc) ou químicos (substâncias com sabor ou odor, estímulos sobre as mucosas, a 
pele, etc) agem sob os órgãos dos sentidos, estimulando os diversos receptores e, assim, 
produzindo as sensações. O ambiente fornece constantemente informações sensoriais ao 
organismo que, por intermédio delas, se auto-regula e organiza suas ações voltadas à 
sobrevivência ou à interação social. 
 
A sensação é um fenômeno gerado por estímulos físicos, químicos ou biológicos 
variados, originados fora ou dentro do organismo, que produzem alterações nos órgãos 
receptores, estimulando-os. As diferentes formas de sensação são geradas por estímulos 
sensoriais específicos, como visuais, táteis, auditivos, olfativos, gustativos, cinestésicos. 
 
A percepção é a tomada de consciência, pelo indivíduo, do estímulo sensorial. Defini-se 
também como a tomada de conhecimento sensorial de objetos ou de fatos exteriores 
mais ou menos complexos. 
 
Atribui-se à sensação a dimensão neuronal, ainda não plenamente consciente, no 
processo de sensopercepção. A percepção diz respeito à dimensão neuropsicológica do 
 
 
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processo, à transformação de estímulos puramente sensoriais em fenômenos perceptivos 
conscientes. A visão do azul do mar, acompanhada de todas as emoções a ela atreladas, 
só chega à nossa consciência a partir do momento que o impulso nervo partindo dos 
nossos olhos (sensação) chega à região do córtex cerebral (occipital) responsável por 
esse reconhecimento (percepção). Fica evidente que nossas percepções vão sendo 
formadas ao longo do nosso desenvolvimento. Estão atreladas às experiências passadas 
registradas na memória e a ao contexto sociocultural em que vivemos. Ou seja, a 
percepção é aprendida ao longo da nossa história. 
 
O elemento básico do processo de sensopercepção é a imagem perceptiva real, ou 
simplesmente imagem. A imagem se caracteriza pelas seguintes qualidades: 
 
A. Nitidez – a imagem é nítida, seus contornos são precisos. 
B. Corporeidade – a imagem é viva, corpórea, tem luz, brilho e cores vivas. 
C. Estabilidade – a imagem percebida é estável, não muda de um momento para 
outro. 
D. Extrojeção (projeção para o exterior) – a imagem, provinda do espaço 
exterior, também é percebida neste espaço. 
E. Ininfluenciabilidade voluntária – o indivíduo não consegue alterar 
voluntariamente a imagem percebida. 
F. Completitude – a imagem apresenta desenho completo e determinado, com 
todos os detalhes diante do observador. 
 
É preciso diferenciar o fenômeno imagem do fenômeno representação. A contrário da 
imagem perceptiva real, a imagem representativa ou mnêmica (representação) se 
caracteriza por ser apenas uma revivescência de uma imagem sensorial determinada, 
sem que esteja presente o objeto original que a produziu. Assim, denomina-se 
representação a reapresentação de uma imagem na consciência, sem a presença real, 
externa, do objeto que, em um primeiro momento, gerou uma imagem sensorial. A 
imagem representativa ou mnêmica (representação) tem as seguintes características: 
 
A. Pouca nitidez – os contornos, geralmente, são borrados. 
B. Pouca corporeidade – a imagem representativa não tem a vida de uma imagem 
real. 
C. Instabilidade – a representação aparece e desaparece facilmente da consciência. 
D. Introjeção – a imagem representativa é percebida no espaço interno. 
E. Incompletude – a representação demonstra um desenho indeterminado, 
apresentando-se geralmente incompleta e apenas com alguns detalhes. 
 
Existem alguns subtipos de representações: 
 
A. Imagem eidética (eidetismo) – é a evocação de uma imagem guardada na 
memória, ou seja, de uma representação, de forma muito precisa, com 
características semelhantes à percepção. A imagem eidética é experimentada por 
alguns indivíduos que, por uma capacidade excepcional, conseguem ver um 
objeto com muita nitidez e clareza (ex.: a face de uma pessoa). A evocação de 
uma imagem eidética é voluntária e não representa necessariamente sintoma de 
transtorno mental. 
 
 
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B. Pareidolias – são as imagens visualizadas voluntariamente a partir de estímulos 
imprecisos do ambiente. Ao olhar uma nuvem e poder ver nela um animal 
qualquer, um rosto, a criança está experimentando uma pareidolia. Muitos 
olham para a lua, por exemplo, e por meio de esforço voluntário visualiza o que 
seria a figura de São Jorge montado em um cavalo e matando um dragão. São 
formas de percepção artificialmente modificadas, ou seja, são pareidolias. 
 
2.3.6.1. ALTERAÇÕES QUANTITATIVAS DA SENSOPERCEPÇÃO 
 
A. Hiperestesia – as percepções encontram-se anormalmente aumentadas em sua 
intensidade ou duração. Os sons são ouvidos de forma muito amplificada; um ruído 
parece um estrondo; as imagens visuais e as cores tornam-se mais vivas e intensas. 
Pode ocorrer nas intoxicações por alucinógenos como o LSD; em algumas formas 
de epilepsia, na enxaqueca, no hipertireoidismo; na esquizofrenia aguda e em certos 
quadros maníacos. 
B. Hipoestesia - diminuição global da sensopercepção. O mundo circundante é 
percebido como mais escuro; as cores tornam-se mais pálidas e sem brilho; os 
alimentos não têm mais sabor e os odores perdem sua intensidade. Pode ocorrer em 
estados depressivos e orgânicos ou de sensações isoladas (ex.: amaurose dissociativa 
– “cegueira histérica”). 
C. Anestesia – perda da sensação. Usa-se, com freqüência, o termo anestesia para 
indicar também analgesias (perda das sensações dolorosas) de área de pele e parte 
do corpo. 
 
Obs: anestesias, hipoestesias e analgesias em áreas que não correspondem a 
territórios de nervos anatomicamente definidos em geral são de causa psicogênica. 
Tais alterações ocorrem mais em pacientes com transtornos somatoformes, 
dissociativos e conversivos (antigas neuroses histéricas), em indivíduos com alto 
grau de sugestionabilidade (personalidade patológica dependente, por exemplo), 
em alguns quadros depressivos e psicóticos graves. 
 
2.3.6.2. ALTERAÇÕES QUALITATIVAS DA SENSOPERCEPÇÃO 
 
“As ilusões são, por natureza, doces...” Proclamam os poetas. 
 Poeticamente, talvez. Às vezes, não nos permitimos perceber que vivemos de 
reminiscências e que tudo é ilusório. Fabricamos a ilusão para sobreviver. É como a 
nuvem leve e passageira, vivendo de nunca chegar a ser. 
 
by Gilda Kelner* in “Perdidas Ilusões – Carta a um jovem amigo”. 
*médica gastroenterologista; profª drª da ufpe; psicanalista e escritora. 
 
A. Ilusão – se caracteriza pela percepção deformada, alterada, de um objeto real e 
presente. Na ilusão, há sempre um objeto externo real, gerador do processo de 
sensopercepção, mas tal percepção é adulterada. Ocorrem basicamente em três 
condições: por turvação da consciência, a percepção torna-se imprecisa, fazendo com 
que os estímulos sejam percebidos de forma deformada; em estados de fadiga grave ou 
inatenção marcante(podem ocorrer ilusões transitórias e sem muita importância clínica) 
e em alguns estados afetivos. Por sua acentuada intensidade, o afeto pode formar o 
 
 
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processo de sensopercepção, gerando as chamadas ilusões catatímicas. Por exemplo: 
pacientes portadores do Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT) têm um quadro 
clínico repleto de ilusões catatímicas. Nesses casos, o estado afetivo e a reminiscência 
do trauma sofrido podem fazer com que o doente perceba objetos e situações como se 
fossem idênticas àquela que gerou o trauma. Pacientes deprimidos podem perceber os 
objetos em sua volta de forma deturpada e destituída de interesse e prazer. Tudo que é 
influenciado pelo afeto (será exposto na função psíquica afetividade) recebe em 
psicopatologia a denominação de catatimia. As ilusões mais comuns são as visuais, nas 
quais o paciente geralmente vê pessoas, monstros, animais, entre outras coisas, a partir 
de estímulos visuais como móveis, roupas, objetos ou figuras penduradas nas paredes. 
Também não são raras as ilusões auditivas, nas quais, a partir de estímulos sonoros 
inespecíficos, o paciente ouve seu nome, palavras significativas ou chamamento. 
 
Vem 
 Vem andar sobre os meus sonhos 
 Em minhas alucinações o vejo 
 O escuto como cachoeiras de águas cristalinas 
 O seu caminhar é suave e misterioso 
 Não sei quem você é 
 Não sei quem eu sou 
 Só restam os meus sonhos 
 
in “A Lagoa” by Janet Frame* 
*escritora neozelandesa – passou anos internada como esquizofrênica devido a um erro 
diagnóstico - teve sua biografia retratada no cinema em “Um Anjo Em Minha Mesa” 
(filme devastador!), Nova Zelândia, 1990. 
 
B. Alucinação – é a percepção clara e definida de um objeto (voz, ruído, imagem), sem 
a presença do objeto estimulante real. As alucinações têm todas as características de 
uma imagem perceptiva real (nitidez, corporeidade, projeção no espaço exterior, 
constância). As mais importantes em psicopatologia fenomenológica são: 
 
B.1 – Alucinações auditivas – são as mais freqüentes nos transtornos mentais. Podem 
ser simples e complexas. As simples são caracterizadas pela queixa do paciente de estar 
escutando ruídos, zumbidos (acoasmas) e são menos freqüentes que as complexas. A 
forma de alucinação auditiva complexa mais freqüente e significativa em psicopatologia 
é a alucinação audioverbal, na qual o paciente escuta vozes sem qualquer estímulo real. 
São vozes que geralmente o ameaçam ou insultam. Quase sempre a alucinação 
audioverbal é de conteúdo depreciativo e/ou de perseguição. Em alguns casos, as vozes 
ordenam que o paciente faça isso ou aquilo (são as chamadas vozes de comando – 
alucinações auditivas complexas imperativas), podendo, inclusive, mandar que ele se 
suicide ou mate outra pessoa. Ás vezes, as vozes comentam as atividades corriqueiras 
do paciente (são as chamadas vozes que comentam a ação – alucinações auditivas 
complexas em forma de vozes comentadoras de atos). As vozes podem ser de duas 
ou mais pessoas conversando sobre questões que envolvem o paciente (alucinações 
auditivas complexas em forma de diálogo). Fenômenos próximos das alucinações 
auditivas são: a sonorização do pensamento, o eco do pensamento e a publicação do 
pensamento. A sonorização é experimentada como a vivência sensorial de ouvir o 
 
 
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próprio pensamento, no mesmo momento em que está sendo pensado. O eco do 
pensamento é experimentado como a vivencia sensorial de ouvir o pensamento de forma 
repetida, logo após ter sido pensando. Em psicopatologia moderna, considera-se a 
sonorização e o eco do pensamento como fenômenos que se complementam e se 
confundem. Ambos podem ser chamados de Eco do pensamento. Na publicação do 
pensamento, o paciente tem a nítida sensação de que as pessoas ouvem o que ele pensa 
no exato momento em que está pensando (está mais relacionada a uma alteração do 
pensamento). Assim, as alucinações auditivas complexas, resumidamente, podem 
ser fenomenologicamente divididas em quatro tipos: imperativas, em forma de 
diálogo, comentadoras de atos e eco do pensamento. Ocorrem, sobretudo, na 
esquizofrenia; em paciente deprimido grave que pode ouvir vozes que lhe acusa de ser 
mau, merecedor de castigo (depressão delirante - vozes que lhe falam de suicídio não 
lhe são estranhas porque o doente já vem pensando na morte); nos quadros de mania as 
vozes reafirmam ao paciente seu status de poder e grandeza. 
 
B.2 - Alucinações visuais – são visões nítidas que o paciente experimenta, sem a 
presença de estímulos visuais. Podem ser simples (também são denominadas 
fotopsias) ou complexas. Nas simples, o indivíduo vê cores, bolas e pontos brilhantes. 
Podem ocorrer na esquizofrenia, no abuso de álcool, na epilepsia. As alucinações 
visuais complexas ou configuradas incluem figuras e imagens de pessoas (vivas os 
mortas, familiares ou desconhecidos), de partes do corpo (órgãos genitais, caveiras, 
olhos assustadores, cabeças disformes, etc.), de entidades (o demônio, um fantasma, um 
santo), de objetos inanimados, animais ou crianças. Podem incluir visões de cenas 
completas (p. ex., a casa pegando fogo), sendo então denominadas alucinações 
cenográficas (são relativamente raras). Um outro tipo de alucinação visual complexa é 
a chamada alucinação liliputiana, na qual o indivíduo vê cenas com personagens 
diminutos, minúsculos, “duendes”, entre os objetos e pessoas reais de sua casa. Relatava 
Santa Teresa D’Ávila quando, já vivendo no convento, entrava em surto psicótico: 
 
Os homenzinhos estão todos soltos no jardim e posso vê-los entre as plantas. Fechem 
todas a portas porque eles planejam invadir o convento e nos molestar. Vão subir pelas 
nossas pernas disfarçados de formigas. Mas, são homens! São do tamanho de insetos. 
Lá veem eles com a intenção de nos violar. 
 
Existem pessoas que colocam adesivos em seus automóveis do tipo “eu acredito ou eu 
já vi duendes”. Se elas tiverem visto realmente, podemos está diante de indivíduos que 
apresentaram uma alucinação liliputiana. Mas, sabemos que a maior parte desses 
indivíduos se refere aos duendes de forma mística. Vê de verdade nunca viu! Em nosso 
meio, temos uma apresentadora de tv que divulga bastante, entre os de tenra idade, a 
existência desses “seres”. As alucinações visuais complexas podem ocorrer: nas 
demências por corpos de Lewy (recentemente, publicamos um trabalho sobre esse tipo 
de demência – os interessados solicitem); doença de Parkinson com demência; delirium 
(sobretudo no delirium tremens dos alcoolistas – visão de insetos andando pelo 
corpo – são as chamadas zoopsias); demência vascular; demência de Alzheimer; 
intoxicações por alucinógenos (como o LSD); esquizofrenia (em proporção bem menor 
que as alucinações auditivas). Percebe-se que a grande maioria dos transtornos (onde as 
alucinações visuais podem se apresentar) está relacionada a doenças orgânicas ou a uso 
de substâncias psicoativas. Assim, na presença de alucinações visuais, é 
 
 
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35 
importantíssima a investigação complementar de causas orgânicas (principalmente 
entre idosos). 
 
B.3 - Alucinações táteis – o paciente sente espetadas, choques. Os doentes podem se 
queixar que insetos ou pequenos animais correm sobre sua pele (muito freqüente no 
delírio de infestação ou síndrome de Ekbon). São relativamente freqüentes as 
alucinações táteis sentidas nos genitais, sobretudo em pacientes esquizofrênicos, que 
sentem de forma passiva que forças estranhas tocam, cutucam ou penetram seus 
genitais. Além dos quadros citados, podemos encontrar esse tipo de alucinação no 
delirium tremens (associada com as zoopsias o paciente pode se queixar que sente os 
animais caminhando sobre sua pele) e nas psicoses tóxicas (sobretudo naquelas 
produzidas pela cocaína). 
B.4 – Alucinações olfativas e gustativas - são relativamente raras. Em geral, as 
olfativas manifestam-se como o “sentir”o odor de coisas podres, de cadáver, de fezes, 
etc. Nas gustativas, os pacientes sentem, na boca, o sabor de ácido, de sangue, de urina, 
etc., sem qualquer estímulo gustativo presente. As olfativas são mais freqüentes nos 
quadros histéricos, seguidos dos quadros de esquizofrenia e em crises de epilepsia 
temporal (crises uncinadas). As gustativas ocorrem com mais freqüência na 
esquizofrenia e, em seguida, nos quadros histéricos. 
 
B.5 – Alucinações cenestésicas e cinestésicas – as cenestésicas ou viscerais são 
alucinações descritas pelos pacientes de modo bizarro. Eles referem-se a dores 
dilacerantes, a que os órgãos estão saindo das cavidades, que tem um animal ou objeto 
cortante rastejando ou perfurando dentro do seu corpo. Ocorrem principalmente na 
esquizofrenia. Quando se percebem os órgãos encolhendo ou sumindo ocorrem, 
sobretudo em depressões graves. As cinestésicas ou de movimento são sensações de 
flutuação, de sentir o corpo rodar ou de afundar no leito, de sentir a perna encolhendo 
ou o braço se elevando. Tais fenômenos ocorrem principalmente no delirium tremens e 
nos quadros histéricos. 
 
B.6 – Alucinações funcionais – são aquelas verdadeiramente desencadeadas por 
estímulos sensoriais. A diferença com a ilusão é que enquanto a ilusão é a deformação 
de uma percepção de um objeto real e presente, a alucinação funcional é uma alucinação 
(ausência de objeto) apenas desencadeada por um estímulo real. Alguns pacientes 
relatam, por exemplo, que quando abrem o chuveiro ou a torneira da pia começam a 
ouvir vozes. São encontradas na esquizofrenia. 
 
B.7 – Alucinações combinadas, reflexas ou sinestésicas – são experiências 
alucinatórias nas quais podem ocorrer alucinações de várias modalidades sensoriais 
(auditivas, visuais, táteis, etc.), ao mesmo tempo. Por exemplo: um paciente 
esquizofrênico ver (alucinação visual) a pessoa que está falando palavrões para ele 
(alucinação auditiva complexa) e consegue até tocar no corpo dessa pessoa (alucinações 
táteis). 
 
B.8 – Alucinações extracampinas - são alucinações experimentadas fora do campo 
sensoperceptivo usual, como quando o indivíduo vê uma imagem às suas costas ou atrás 
de uma parede. É um fenômeno raro, associado usualmente às psicoses. 
 
 
 
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B.9 – Aluncinações Hipnagógicas e Hipnopômpicas – são alucinações auditivas, 
visuais ou táteis, relacionadas à transição sono-vigília. Assim, não são incomuns 
alucinações visuais (com pessoas, objetos, animais, monstros, etc.) que surgem na fase 
de transição entre a vigília e o sono. As hipnopômpicas ocorrem na fase em que o 
indivíduo está acordando e as hipnagógicas surgem no momento em que se está 
adormecendo. Não são sempre fenômenos patológicos. Exemplo patológico: 
narcolepsia. 
 
B.10. – Alucinação autoscópica (imagem do duplo) – é relativamente rara. Esse tipo 
de alucinação não é precisamente uma alucinação visual porque as sensações 
cinestésicas e cenestésicas podem também estar dando ao indivíduo a impressão de que 
a alucinação é ele próprio. Podem ocorrer em estados de delirium e ocasionalmente é 
um sintoma histérico. O fato de que a alucinação autoscópia pode estar associada com 
desordens do lobo parietal devidas a alterações cérebro-vasculares ou infecções severas 
explica porque no folclore alemão acredita-se que a pessoa quando vê seu duplo é 
indicativo de que ela está próxima de morrer. 
 
C. Alucinose – é o fenômeno pelo qual o paciente percebe a alucinação como estranha à 
sua pessoa. A escola francesa enfatiza que na alucinose o indivíduo sempre terá o 
sensório claro (estará consciente) e fará crítica ao quadro alucinatório, reconhecendo-o 
como patológico. Aqui, embora o doente veja a imagem ou ouça a voz, falta a crença 
que comumente o alucinado tem em sua alucinação. O exemplo mais clássico é o que 
acontece na alucinose alcoólica (quadro clínico que pode ocorrer na evolução do 
alcoolismo, onde o paciente abstênico sabe que as vozes que escuta na verdade são 
conseqüências psicopatológicas da falta que o álcool está fazendo no seu organismo). 
 
Considerações finais sobre psicopatologia da sensopercepção - na fase inicial de 
alguns quadros psicóticos, observa-se um fenômeno chamado modernamente como 
estranheza do mundo percebido ou, simplesmente, estranheza do percebido (Karl 
Jaspers denominava de “alterações da síntese perceptiva”). O mundo, como um todo, 
é percebido alterado, bizarro, difícil de definir pelo doente. O mundo parece que se 
transformou, ou parece morto, sem vida, vazio, ou ainda sinistramente outro, estranho. 
Não se trata de erro de julgamento (se fosse, seria uma alteração do juízo), mas, de fato, 
o próprio mundo é percebido de outra forma, a visão do mundo é que está alterada, e 
não o julgamento sobre ele. Pode ocorrer como sintoma que antecede, em cerca de seis 
meses, um surto psicótico. Na maioria das vezes, não o presenciamos na clínica. O 
paciente ou a família relata como uma característica do início da doença (quando ainda 
não se imaginava que o quadro evoluiria para uma psicose, por exemplo). Pode ocorrer 
também em um quadro clínico chamado de desrealização (é estudado nos transtornos 
dissociativos/conversivos). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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JUÍZO (OU JUÍZO DE REALIDADE) 
 
Tudo transcende tudo e é mais real e menor do que é. 
Fernando Pessoa 
 
Felizmente, eu nunca convivi com gente muito ajuizada. 
Nise da Silveira (militante política socialista e libertária, psiquiatra e escritora) 
 
Ajuizar (produzir juízo) é uma atividade humana por excelência. Por meio dos juízos o 
ser humano afirma a sua relação com o mundo, discerne a verdade do erro, assegura-se 
da existência ou não de um objeto perceptível (juízo de existência), assim como 
distingue uma qualidade de outra (juízo de valor). Juízos falsos podem ser produzidos 
de inúmeras formas, sendo ou não patológicos. Em psicopatologia, a primeira distinção 
essencial a se fazer é entre o erro não determinado por transtorno mental e as diversas 
formas de juízos falsos determinados por uma doença mental, sendo a principal delas o 
DELÍRIO. Não existe limite nítido, fácil e decisivo entre o erro e o delírio. O erro se 
origina da ignorância, do julgar apressado e com base em premissas falsas. O erro pode 
ocorrer por atribuições culturais e de valores falsos a determinadas pessoas ou situações, 
como exemplos: tomar-se uma pessoa simpática, bem vestida, educada como confiável 
e honesta, etc., ou, inversamente, considerar uma pessoa malvestida, com aparência 
desagradável, expressão rude como desonesta; valer-se de uma prática ilegal promovida 
por uma determinada categoria profissional ou por alguma entidade e ter convicção que 
todos os indivíduos que pertencem a esse grupo praticam atos desonestos, etc. 
 
Os erros são passíveis de serem corrigidos pela experiência, pelas provas e pelos dados 
que a realidade oferece. Uma boa parte dos erros de ajuizamento é determinada por 
situações afetivas intensas ou dolorosas, que impedem que o indivíduo analise a 
experiência de forma objetiva e lógica. Segundo Jaspers, o erro é psicologicamente 
compreensível, pois se admiti que possa surgir e persistir em virtude da ignorância, do 
medo, do fanatismo religioso ou político, da necessidade e da pressa em se solucionar 
um problema, de esclarecer uma dúvida ou de resolver um impasse. Enquanto o delírio 
tem como característica principal ser incompreensível. Nessa concepção, não se pode 
compreender psicologicamente o delírio. 
 
Os tipos de erros mais comuns, não determinados necessariamente por transtornos 
mentais, são os preconceitos, as crenças culturalmente sancionadas e as superstições. 
 
2.3.7.1. PSICOPATOLOGIA DO JUÍZO: O DELÍRIO 
 
Conceito e características do delírio 
 
A idéia delirante ou delírio são juízos patologicamente falsos. Dessa forma, o delírio é 
um erro no ajuizar que tem origem na doença mental. Nãoé tanto a falsidade do 
conteúdo que faz um delírio ser incompreensível (existem conteúdos delirantes que são 
passíveis de acontecer), mas, sobretudo a justificativa para a crença que o delirante 
 
 
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apresenta, o tipo de evidência que lhe assegura que as coisas são assim. Jaspers descreve 
algumas características que, do ponto de vista prático, são muito importantes para a 
identificação clínica do delírio: 
 
A. O doente apresenta uma convicção extraordinária, uma certeza subjetiva 
praticamente absoluta. A sua crença é total; a seu ver, não se pode colocar em 
dúvida a veracidade de seu delírio; 
 
B. É impossível a modificação do delírio pela experiência objetiva, por provas 
explícitas da realidade, por argumentos lógicos. Assim, diz-se que o delírio é 
irremovível, mesmo pela prova de realidade mais cabal, ele não é passível de 
ser influenciado externamente por pessoas que queiram demover o delirante de 
suas crenças. 
 
C. O conteúdo do delírio é impossível. Embora este seja o aspecto mais evidente 
do delírio, mais fácil de caracterizar, é, também, o aspecto, do ponto de vista 
psicopatológico, mais frágil. Existem conteúdos delirantes passíveis de serem 
verídicos. Por exemplo: o delírio de ciúmes que ocorre no alcoolismo crônico; a 
síndrome de Othello (transtorno delirante crônico – um tipo de paranóia, cujo 
tema principal é o delírio de ciúmes), etc. Nesses casos, os pacientes têm a 
certeza delirante que está sendo traído pelo cônjuge. A justificativa, para a 
crença que está sendo traído e o tipo de evidência que o paciente assegura ser, 
esse fato, verdadeiro são determinantes para a caracterização de que está 
ocorrendo um delírio. 
 
D. O tema do delírio não é compartilhado pelas outras pessoas que fazem 
parte do grupo cultural do delirante. Ao delirar, o indivíduo se desgarra de sua 
trama social, do universo cultural no qual se formou, e passa, mesmo contra 
esse grupo cultural, a produzir seus símbolos e suas crenças individuais. 
 
Surgimento e evolução clínica do delírio 
 
Jaspers destacou que, em geral, os delírios surgem após um período pré-delirante. Ele 
denominou essa fase de humor delirante. Nesse período, o paciente sente aflição e 
ansiedade intensas, sente como se algo terrível estivesse por acontecer, sem saber 
exatamente o quê. Predomina aqui grande perplexidade, sensação de fim do mundo e 
estranheza do percebido. Esse estado pode durar horas ou dias. O humor delirante cessa 
quando o paciente passa a vivenciar o delírio propriamente dito. Nessa fase, na maioria 
das vezes, o paciente se acalma, fica menos ansioso, como se tivesse encontrado 
explicação plausível para a perplexidade anteriormente inexplicável. Descrevem-se as 
seguintes fases na evolução clínica do delírio: 
 
A. Trema (a palavra significa a tensão dos atores de teatro antes de entrar em cena) 
– corresponde ao humor delirante descrito por Jaspers. É a fase que precede 
imediatamente o surgimento das idéias delirantes. O paciente tem sensação de 
fim do mundo e estranheza do percebido. Pressente que algo de ruim está por 
acontecer. Sente medo e angústia. 
 
 
 
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B. Apofania (o termo significa “torna-se manifesto”) – a tensão acumulada na fase 
anterior agora se desdobra em delírio. O paciente tem a vivência de uma 
verdadeira revelação. Nessa fase, tudo se volta para o indivíduo. Não é ele que 
se dirige intencionalmente para o mundo, mas o contrário. Esse fenômeno é 
chamado de anástrofe (inversão, deslocamento). O paciente se sente de forma 
passiva o centro do mundo, observado por todos. A apofania (revelação do 
delírio) e a anástrofe (quando o mundo se volta para o delirante) formam o 
núcleo da experiência esquizofrênica. 
 
C. Fase apocalíptica – corresponde a certo grau de desorganização do indivíduo 
após a primeira revelação do delírio inicial. Tal fase é acompanhada de 
vivências ameaçadoras de fim de mundo. O indivíduo delirante parece viver a 
estranha reestruturação do seu mundo. Podem surgir alterações psicomotoras, 
como sintomas catatônicos ou agitação, e alterações da consciência do Eu. 
 
D. Consolidação – depois de certo tempo do início do processo psicótico, de idas e 
vindas de desorganização e reorganização, ocorre certa estabilização. O delírio 
tente a cristalizar-se, há certa elaboração intelectual em torno dele, com a 
fixação de elementos a partir da personalidade do indivíduo. O paciente diz: 
“finalmente me deixaram em paz apesar de ainda estarem me observando”. 
 
E. Fase de resíduo – período final do processo psicótico delirante. Hás alterações 
importantes da volição (vontade) e da afetividade. O paciente não pode mais 
confiar e nem se relacionar calorosamente com os outros e busca o isolamento 
social. Às vezes alguns esquizofrênicos se afastam do seu grupo social, porém 
buscam contato com indivíduos que vivem nas ruas, em guetos ou procuram 
relacionamentos exclusivamente virtuais (chats, msn, geralmente, com 
desconhecidos). 
 
Em relação ao curso, os delírios podem ser agudos ou crônicos. Os agudos surgem de 
forma rápida podendo desaparecer em pouco tempo (horas ou dias). Podem ser 
passageiros e fugazes, estando, nesses casos, associados a transtornos da consciência 
das psicoses tóxicas ou infecciosas. Os crônicos tendem a ser persistentes, contínuos, de 
longa duração (vários anos), pouco modificáveis ao longo do tempo (ex.: esquizofrenia 
e paranóia). 
 
Mecanismos construtivos do delírio - formação da idéia delirante 
O delírio é formado pelas vivências delirantes primárias. Existem três tipos de 
vivências delirantes: percepções, representações e intuições. 
 
A. Na percepção delirante, uma percepção real adquire de repente uma significação 
especial, quase sempre com alguma referência ao paciente; às vezes ela é precedida por 
um vago humor delirante, em que o indivíduo pressente que os fatos percebidos 
significam algo sem poder ainda, porém, precisar o que seja. Ex.: uma paciente 
apresentada em aula prática relatava: no domingo fui à missa... vi o padre entrar pela 
porta do lado esquerdo do altar... ele sempre entrava pela outra porta... aí eu entendi 
tudo... fui ao altar...comecei a fazer um sermão...perguntei: por que o senhor está 
armando um complô para me matar? 
 
 
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B. As representações ou interpretações delirantes são novas colorações e 
significados especiais que o paciente atribui às recordações da sua vida. São 
significados inverossímeis atribuídos a certas reminiscências que repentinamente 
assaltam o paciente. Ex.: um paciente que saiu de casa, estimulado pelos pais, para 
estudar em outra cidade. Infelizmente, fez um quadro psicótico grave e em crise dizia: 
agora entendi porque há dois anos meus pais me mandaram estudar em outra 
cidade...Desde àquela época eles tinham intenção de me matar. 
 
C. A intuição ou cognição delirante é uma crença falsa, em geral; de grande 
significação para o paciente, que lhe ocorre de modo imediato e compreensível. 
Enquanto na percepção delirante existem dois membros, a percepção normal e o 
significado delirante a ela atribuído, na intuição delirante existe um só membro. Ex.: um 
paciente afirma, de um momento para o outro, que é habitante de Marte. Pergunta-se: o 
que lhe faz pensar assim? Resposta: eu sei, simplesmente tenho certeza disso. 
 
Estrutura dos delírios 
 
Segundo a estrutura, os delírios podem ser: 
 
A. Simples (monotemático) – são idéias que se desenvolvem em torno de um só 
conteúdo, de um tema único. 
 
B. Complexos (pluritemáticos) – são aqueles que englobam vários temas ao 
mesmo tempo, com múltiplas facetas, envolvendo diversos conteúdos. 
 
C. Não-sistematizados - os conteúdos e os detalhes dos delírios variam de 
momento para momento e costumam ser encontrados em indivíduos com baixo 
nível intelectual, deficientes mentais ou em pacientes com quadros demenciais. 
 
D. Sistematizados – são bemorganizados, com histórias ricas, consistentes, que 
mantêm, ao longo do tempo, os mesmos conteúdos, com riquezas de detalhes. O 
paciente justifica e sustenta seu delírio de forma bem estruturada e com base em 
suas vivências delirantes primárias. 
 
Patoplastia dos delírios - os tipos de delírio segundo seus conteúdos (descreveremos 
aqui de acordo com a ordem de freqüência dos temas) 
 
A. Delírios de perseguição - a perseguição é o tema mais freqüente dos delírios 
(três quartos dos delirantes apresentam essa patoplastia). 
 
A.1. Delírio persecutório ou de perseguição (propriamente dito) – o paciente 
acredita que está sendo vítima de um complô e está sendo perseguido por pessoas 
desconhecidas ou conhecidas. Tem certeza que querem envenená-lo, prendê-lo, 
prejudicá-lo no trabalho ou na escola, desmoralizá-lo, matá-lo, etc. Pode ocorrer na 
esquizofrenia e nas paranóias. 
 
 
 
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A.2. Delírio de referência (ou de auto-referência) – o paciente experimenta fatos 
cotidianos fortuitos como sendo sempre direcionados à sua pessoa. Diz ser alvo 
constante de referências caluniosas, depreciativas. Por exemplo: ao passar por um bar 
e observar pessoas falando e rindo acredita que estão falando mal dele, chamando-o 
de homossexual, chamando-o de ladrão, etc. Geralmente ocorre associado com a 
temática anterior, ou seja, com o delírio persecutório. Ocorre com freqüência na 
esquizofrenia e nas paranóias. Um mecanismo de defesa importante na formação dos 
delírios persecutórios e de referência é o que Freud denominou de projeção. O 
delirante, do ponto de vista psicodinâmico, projeta para o exterior seus medos e 
angústias internas inconscientes. A projeção está envolvida na teoria 
psicodinâmica da gênese das psicoses. 
 
A.3. Delírio de influência ou controle (também denominados vivências de 
influência) – o paciente vivencia intensamente o fato de está sendo controlado, 
comandado ou influenciado por força, pessoa ou entidade externa. Exemplos de 
frases dos doentes com vivências de influência: “raios luminosos controlam o que 
devo pensar e falar”; “um espírito maligno guia meus sentimentos para cometer o 
mau”. Ocorre com freqüência na esquizofrenia. 
 
A.4. Delírio de reivindicação (ou querelância) – de forma completamente 
desproporcional em relação à realidade, o paciente afirma ser vítima de terríveis 
injustiças e discriminações e, em conseqüência disso, envolvem-se em intermináveis 
disputas legais, querelas familiares, processos trabalhistas, etc. O indivíduo 
considera-se o representante dos injustiçados, dos perseguidos, e engaja-se 
tenazmente contra o que considera injustiças, das quais julga ser a principal vítima. 
Ocorre mais comumente em transtornos delirantes persistentes (paranóias). 
 
B. Delírios expansivos 
 
B.1. Delírio de grandeza - o paciente acredita ser extremamente especial, dotado de 
capacidades e poderes. Acredita ter um destino espetacular, assim como sua origem 
e seus antecedentes indicam que ele é um ser superior. Assim, o delírio é dominado 
por idéias delirantes de poder e riqueza. Ocorre com freqüência nos quadros de 
mania. 
 
B.2. Delírio místico religioso - o doente acredita ter uma missão importante na 
Terra. Geralmente, essa missão tem características messiânicas. Alguns chegam a 
delirar “ser” o próprio Cristo reencarnado ou o verdadeiro Cristo. Não é um 
fenômeno restrito ao cristianismo. Delírios místicos que envolvem a crença de se 
estar possuído por entidades espirituais diversas são freqüentes (demônios, xangôs, 
pomba-gira, iemanjá, buda, e outros deuses). Às vezes, vem associado com delírios 
persecutórios. O paciente relata que está sendo perseguido e provavelmente será 
exterminado por conta da missão importante que tem de realizar no plano 
terrestre/espiritual ou por conta do ódio à “entidade” espiritual que ele reencarnou. 
Os delírios religiosos freqüentemente apresentam aspecto grandioso, enfatizando a 
própria importância do indivíduo que delira. Esse tema pode ocorrer em todas as 
formas de psicoses, predominando, porém, na mania delirante e na esquizofrenia. 
 
 
 
42 
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B.3. Delírio de invenção ou descoberta – mesmo completamente leigo da ciência 
ou na área tecnológica em questão, o indivíduo revela ter descoberto a cura de uma 
doença grave ou ter descoberto um aparelho fantástico que irá mudar o mundo. Pode 
ocorrer na esquizofrenia, paranóia e mania (por exemplos). 
 
C. Delírio de ciúme e delírio de infidelidade 
 
O indivíduo percebe-se traído pelo cônjuge de forma vil e cruel, afirma que ela(e) tem 
centenas de amantes, que o(a) trai com parentes, etc. Em geral o indivíduo acometido 
pelo delírio de ciúmes é extremamente ligado e emocionalmente dependente do ser 
amado. O sentimento de ciúmes intenso e desproporcional em indivíduos muito 
possessivos e inseguros pode eventualmente ser difícil de diferenciar do delírio de 
ciúmes. Principalmente, quando o delírio ocorre em indivíduos que já têm um 
comportamento possessivo. O delírio de ciúmes pode ocorrer no alcoolismo crônico; na 
Síndrome de Othello (transtorno delirante crônico – um tipo de paranóia, cujo tema 
principal é o delírio de ciúmes); na esquizofrenia, etc. Nesses casos, os pacientes têm a 
certeza delirante que está sendo traído pelo cônjuge. A justificativa, para a crença que 
está sendo traído e o tipo de evidência que o paciente assegura ser, esse fato, verdadeiro 
são determinantes para a caracterização de que está ocorrendo um delírio. 
 
D. Delírios dolorosos ou depressivos 
 
Têm temática marcadamente triste, como ruína ou miséria, culpa ou auto-acusação, 
doenças e mesmo o desaparecimento de partes do corpo (negação de órgãos). São 
extremamente relacionados a estados depressivos graves e profundos (chamados de 
depressões delirantes). 
 
D.1. Delírio de ruína (ou niilista) – o indivíduo refere que vive em um mundo onde só 
tem desgraças, que ele e sua família está condenado à miséria, irão passar fome, o futuro 
lhes reserva sofrimentos e fracassos. Em alguns casos, o paciente acredita estar morto 
ou que o mundo inteiro está destruído e todos estão mortos. 
 
D.2. Delírio de culpa e de auto-acusação – o paciente afirma, sem base real para isso, 
ser culpado por todas as desgraças que acontecem na vida dele e daqueles que o cercam, 
ter cometido um grave crime, ser uma pessoa indigna, pecaminosa, suja, irresponsável, 
que deve ser punida por seus pecados. 
 
D.3. Delírio de negação de órgãos – o indivíduo experimenta profundas alterações 
corporais. Relata que seu corpo está destruído ou morto, que não tem mais um ou vários 
órgãos, como o coração, o fígado, etc., não tem mais uma gota de sangue, seu corpo 
secou ou apodreceu. Denomina-se delírio ou síndrome de Cottard quando o delírio de 
negação de órgãos vem acompanhado de delírio de imortalidade (“Não vou morrer 
nunca mais, vou sofrer para o resto da eternidade”) e, mais raramente, de delírio de 
enormidade (o paciente sente o corpo se expandindo, tomando conta de todo o quarto, 
crescendo até proporções gigantescas) 
 
 
 
 
 
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E. Delírio erótico (erotomania) 
 
O paciente afirma que uma pessoa, geralmente de destaque social, está totalmente 
apaixonada por ele e irá abandonar tudo para que possam se casar. É o delírio típico da 
Síndrome de Clerambault (será estudada em transtornos delirantes persistentes – 
paranóia). 
 
F. Delírios somáticos 
 
F.1. Delírio hipocondríaco – o indivíduo crê com convicção extrema que tem uma 
doença grave, incurável, que está contaminado pelo vírus da AIDS, que irá morrer 
brevemente em decorrência do câncer. Às vezes é difícil de se diferenciar das idéias 
hipocondríacas não delirantes (são estudadas em transtornos somatoformes). Esse 
delírio pode ocorrer em algumas formas de paranóia, na depressão delirante e na 
esquizofrenia. 
 
F.2. Delírio de infestação (síndrome de Ekbon) – o paciente acredita queseu corpo 
(principalmente sua pele e/ou seus cabelos) está infestado por pequenos (mas 
macroscópicos) organismos. Pode ocorrer na esquizofrenia, na depressão delirante, no 
delirium tremens, em intoxicações por cocaína ou alucinógenos, etc. 
 
Conceitos e considerações finais 
 
Idéias deliróides versus idéias delirantes 
 
Estamos diante de uma idéia deliróide, quando o delírio é fruto de condições 
psicologicamente rastreáveis e compreensíveis. O delírio de ruína e culpa do paciente 
com depressão grave é compreensível e derivável psicologicamente do estado de humor 
alterado (catatimia) de forma profunda; constitui mais um aspecto, mais uma dimensão 
que o humor deprimido adquiri. O humor elevado em pacientes com mania justifica as 
idéias delirantes (deliróides) de grandeza e poder. Nessas situações, é mais prudente 
denominarmos idéias deliróides e não idéias delirantes (essas não são frutos de 
condições psicologicamente compreensíveis). Além disso, com o uso do termo idéia 
deliróide, clinicamente registramos a evidência que um estado afetivo alterado 
pode estar interferindo na patoplastia da atividade delirante. 
 
Mitomania versus idéias delirantes 
 
A mitomania foi descrita pelo francês Ernest Dupré em 1905. É a tendência patológica a 
mentir e criar mitos, de modo mais ou menos voluntário e consciente. O paciente 
mitômano conta longas e complicadas histórias. Seus feitos, suas aventuras, tudo é 
falso. Existem duas formas clínicas da mitomania. Uma delas é a mitomania maligna, 
o indivíduo cria histórias (orais ou escritas), cria fatos falsos e os divulga para 
prejudicar ou depreciar alguém (geralmente uma pessoa das relações do mitômano, que 
confia no mesmo, que, a princípio, nem imagina ser alvo da depreciação pública 
promovida pelo portador de mitomania e que, raramente, descobre de quem partiu a 
calúnia – a não ser quando o próprio mitômano revela). Tais mitômanos comumente se 
mantêm no anonimato e zombam em segredo das especulações em torno da verdadeira 
 
 
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identidade do caluniador. Esse tipo ocorre mais nos transtornos da personalidade anti-
social e borderline. A outra forma clínica é a mitomania vaidosa, mais benigna que a 
anterior, o indivíduo, em geral fanfarrão e charlatão, busca apenas impressionar os 
outros para se promover. Pode ocorrer nos transtornos de personalidade anti-social, 
borderline, histriônica e em episódios de mania ou hipomania. 
 
Pseudologia fantástica versus idéias delirantes 
 
A pseudologia fantástica foi descrita em 1891, pelo psiquiatra alemão Delbrück, como 
uma forma de mentira patológica. É bastante difícil de ser diferenciada tanto da 
mitomania como do delírio mais estruturado e fantástico. A pseudologia fantástica 
ocorre quando o indivíduo mescla dados reais da sua história com fantasia intensa e 
penetrante. Um paciente relatou a Kurt Schneider: “por desgraça, a minha capacidade de 
confundir o meu pensamento e a minha fantasia com a realidade viva é muito grande, 
para que possa discernir os limites entre ser e parecer”. Os relatos são grandiosos e 
extremos, e o indivíduo parece acreditar plenamente no que relata. Ocorre com mais 
freqüência nos transtornos da personalidade borderline e histriônica. 
 
O delírio se diferencia pelo marcante componente de convicção, não modificável 
por provas de realidade ou confrontações. Já no caso da mitomania versus 
pseudologia fantástica, deve-se levar em conta que ambas contêm uma mescla de 
mentira, manipulação, auto-engano, auto-sugestão e ânsia pela estima e pelo 
reconhecimento dos outros. Na mitomania prevalece o componente da mentira e 
manipulação (principalmente no tipo maligna), e, na pseudologia fantástica, o 
auto-engano, a auto-sugestão e a busca por estima alheia. Mais difícil ainda é 
diferenciar entre a pseudologia fantástica e o tipo clínico mitomania vaidosa. Pois, 
nem sempre é fácil saber o que realmente aconteceu na história do individuo e está 
sendo mesclado com a mentira e a fantasia (no caso da pseudologia) ou se tudo que 
está sendo relatado é absolutamente falso (no caso da mitomania vaidosa). 
 
A falsidade de um juízo não chega a construir, para nós, uma objeção contra ele. 
 
Friedrich Nietzsche 
 
 
PENSAMENTO 
 
Eu sou, eu existo; isso é certo; mas por quanto tempo? A saber, por todo o tempo em 
que eu penso; pois poderia ocorrer que, se eu deixasse de pensar, eu deixaria ao 
mesmo tempo de ser ou de existir. Agora eu nada admito que não seja necessariamente 
verdadeiro: portanto, eu não sou, precisamente falando, senão uma coisa que pensa... 
 
Descartes in “Segunda meditação”. 
 
O pensamento representa uma ligação entre conceitos, juízos e conhecimentos, 
derivando sempre uns dos outros. No processo de pensamento distinguem-se: o curso do 
pensamento, a forma ou estrutura do pensamento e o conteúdo ou temática do 
pensamento. O curso é o modo como o pensamento flui, a sua velocidade e seu ritmo ao 
 
 
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longo do tempo. A forma do pensamento é a sua estrutura básica, preenchida pelos mais 
diversos conteúdos e interesses do indivíduo. Por sua vez, o conteúdo do pensamento 
pode ser definido como aquilo que dá substância ao pensamento, os seus temas 
predominantes, o assunto entre si. Há tantos conteúdos de pensamento quantos são os 
temas de interesse do ser humano. 
 
ALTERAÇÕES DO CURSO 
 
A. Aceleração (taquipsiquismo) – o pensamento flui de forma muito acelerada, 
uma idéia se sucedendo à outra rapidamente. Ocorre nos quadros de mania, na 
esquizofrenia, nos estados de ansiedade intensa, nas psicoses tóxicas (sobretudo 
por anfetaminas e cocaína). 
B. Lentificação (bradpsiquismo) – o pensamento progride lentamente, de forma 
dificultosa. Há certa latência entre as perguntas formuladas e as respostas. 
Ocorre principalmente nas depressões graves, em alguns casos de rebaixamento 
do nível da consciência, em certas intoxicações por substâncias. 
C. Bloqueio ou interceptação do pensamento – verifica-se quando o paciente, ao 
relatar algo, no meio de uma conversa, brusca e repentinamente interrompe seu 
pensamento, sem qualquer motivo aparente. O doente relata que, sem saber 
motivo, “o pensamento para”, é bloqueado. Trata-se de alteração quase que 
exclusiva da esquizofrenia. 
D. Roubo do pensamento – é uma vivência, frequentemente associada ao bloqueio 
do pensamento, na qual o individuo tem a nítida sensação de que seu 
pensamento foi roubado de sua mente, por uma força ou ente estranho, por uma 
máquina, uma antena, lâmpadas elétricas, etc. É uma alteração típica da 
esquizofrenia. 
E. Irradiação ou Difusão do pensamento - é uma vivência na qual o paciente tem 
a nítida sensação de que seu pensamento está sendo difundido, por exemplo, 
através de ondas eletromagnéticas. 
F. Inserção do pensamento - é uma vivência na qual o paciente relata que 
pensamentos estão sendo inseridos em sua mente por uma força externa. 
Observação: roubo, irradiação e inserção do pensamento são vivências de 
influência corporal. 
 
ALTERAÇÕES DA FORMA OU ESTRUTURA 
 
A. Fuga de idéias – é uma alteração da estrutura secundária à aceleração do 
pensamento, na qual uma idéia se segue a outra de forma extremamente rápida. 
As associações entre as palavras deixam de seguir uma lógica ou finalidade do 
pensamento e passam a ocorrer associações por assonância (ex.: amor, flor, 
cor... ou cidade, idade, realidade...), e as idéias se associam muito mais pela 
presença de estímulos externos contingentes (as pessoas que estão presentes na 
sala de entrevista, os móveis da sala, um ruído incidental, alguém que entra na 
sala, etc.). Tudo entra como tema do discurso (expressão da fuga de idéias). Há 
o progressivo afastamento da idéia diretriz ou principal. É muito encontrada nos 
quadros de mania. 
 
 
 
 
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B. Dissociação – é como Bleuler definiu a desorganização do pensamento 
encontrada em certas formas de esquizofrenia.Os pensamentos passam a não 
seguir uma seqüência lógica e bem-organizada, e os conceitos não se articulam 
de forma coerente uns com os outros. Em fase inicial, a incoerência pode ser 
discreta, ainda sendo possível captar aquilo que o indivíduo quer comunicar. 
Com o agravamento do processo patológico, o pensamento pode tornar-se 
totalmente incoerente e incompreensível. 
C. Afrouxamento das associações – embora ainda haja concatenação lógica entre 
as idéias, nota-se o afrouxamento dos enlaces associativos. As associações 
parecem mais livres, não tão bem-articuladas. Manifesta-se nas fases iniciais da 
esquizofrenia. 
D. Desagregação – há profunda e radical perda dos enlaces associativos, total 
perda da coerência do pensamento. Sobram apenas “pedaços” de pensamento, 
conceitos e idéias fragmentadas, muitas vezes irreconhecíveis, sem qualquer 
articulação racional, sem que sejam detectadas uma linha diretriz e uma 
finalidade no ato de pensar. Trata-se de alteração típica de formas avançadas de 
esquizofrenia e de quadros demenciais. Na esquizofrenia, de modo geral, o 
progredir da desestruturação do pensamento segue esta seqüência (em ordem de 
gravidade): dissociação, afrouxamento das associações e, finalmente, 
desagregação. 
 
“ALTERAÇÕES” DO CONTEÚDO 
 
Embora muitos autores classifiquem os delírios como alterações do conteúdo do 
pensamento, outros consideram isso incorreto. Ficamos com a opinião dos autores 
clássicos, ou seja, julgamos incorreto. O conteúdo do pensamento é aquilo que preenche 
a estrutura do processo de pensar. Nesse sentido, o conteúdo corresponde à temática do 
pensamento. Assim, não se pode falar propriamente em alterações patológicas do 
conteúdo do pensamento. Quando um indivíduo acometido por uma psicose afirma que 
os vizinhos preparam um complô para matá-lo, o conteúdo é de perseguição, mas o que 
está patologicamente alterado é a atribuição de realidade absoluta a esse pensamento (ou 
seja, o juízo de realidade). Assim, o conteúdo do pensamento será preenchido com os 
temas dos delírios (estudamos as diversas patoplastias em “juízo”). Os conteúdos 
persecutórios, em psicopatolgia, são os mais freqüentes. 
 
 
O espelho reflete certo; 
Não erra porque não pensa. 
Pensar é essencialmente errar. 
Errar é essencialmente estar cego e surdo. 
 
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) 
 
 
 
 
 
 
 
 
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LINGUAGEM 
 
Temos à escolha um ou outro dos hemisférios cerebrais; mas vamos por este, que é 
onde nascem os substantivos. Os adjetivos nascem no da esquerda. Descoberta minha, 
que, ainda assim, não é a principal, mas a base dela, como se vai ver. Sim, meu senhor, 
os adjetivos nascem de um lado, e os substantivos de outro, e toda a sorte de vocábulos 
está assim dividida por motivo da diferença sexual... 
- Sexual? 
Sim, minha senhora, sexual. As palavras têm sexo. Estou acabando a minha grande 
memória psico-léxico-lógica, em que exponho e demonstro esta descoberta. 
Palavra tem sexo. 
- Mas, então, amam-se umas às outras? 
Amam-se umas às outras. E casam-se. O casamento delas é o que chamamos estilo. 
Senhora minha, confesse que não entendeu nada. 
 
Machado de Assis in “O Cônego ou metafísica do estilo” 
 
É a expressão por meio de palavras. A palavra é o envoltório material do pensamento e 
manifesta a dimensão perceptível das idéias. A linguagem, portanto, é a expressão do 
pensamento por meio das palavras. É, na sua forma verbal, uma atividade 
especificamente humana, talvez a mais característica de nossas atividades mentais. É o 
principal instrumento de comunicação dos seres humanos. 
 
ALTERAÇÕES DO COMPORTAMENTO VERBAL 
 
A. Logorréia (taquifasia) - o paciente fala constantemente, em um ritmo rápido, 
sem interrupção, acelerado. Freqüentemente associada ao taquipsiquismo, 
podendo haver perda da lógica do discurso. Denomina-se pressão do discurso 
ou pressão para falar a atividade lingüística do paciente maníaco na qual este 
sente a pressão incoercível para falar sem parar. 
B. Latência da resposta ou bradifasia - o paciente fala muito vagarosamente, as 
palavras seguem-se umas às outras de forma lenta e difícil (exemplos: 
depressões graves; demências, esquizofrenia residual). 
C. Mutismo – ausência de resposta verbal oral por parte do paciente. O doente não 
fala, mesmo quando insistentemente solicitado (reina o silêncio profundo). Pode 
ocorrer, por exemplo, na esquizofrenia catatônica, na depressão grave. 
D. Mussitação - voz murmurada em tom baixo e repetitivo. O paciente mal 
movimenta os lábios (o doente fala em tom inaudível, como se estivesse falando 
para si próprio). Pode ocorrer na esquizofrenia, por exemplo. 
E. Solilóquio - o paciente fala só algumas vezes (em voz alta), como se dialogasse 
com um interlocutor imaginário. Exemplo: esquizofrenia. 
F. Coprolalia - é a emissão involuntária e repetitiva de palavras obscenas, 
vulgares ou relativas a excrementos (exemplo: Síndrome de Gilles de la 
Tourette). 
G. Verbigeração - é a repetição de forma monótona e sem sentido comunicativo 
aparente de palavras, sílabas ou trechos de frases. Exemplo: esquizofrenia. 
H. Para-resposta - ao ser perguntado sobre determinado assunto (exemplo, qual 
seu nome, idade, onde mora?), o paciente “responde” algo, com a inflexão 
 
 
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verbal de uma resposta, como se estivesse respondendo de fato a uma pergunta, 
porém o conteúdo de sua resposta é completamente disparatado em relação ao 
conteúdo da pergunta. Ao ser indagado, por exemplo, “onde o sr. Mora?”, o 
paciente responde “o dia está muito quente”. As para-respostas ocorrem nos 
diversos tipos de psicoses, mas com maior freqüência nas esquizofrenias. 
Obs: na presença de mussitação e/ou solilóquio é importante investigar se o 
paciente está “escutando vozes” (alucinações auditivas). 
 
ALTERAÇÕES MORFOLÓGICAS, SINTÁTICAS E SEMÂNTICAS (QUASE 
EXCLUSIVAS DA ESQUIZOFRENIA): 
 
A. Ecolalia – o paciente repete, sem nenhuma finalidade, a última ou últimas 
palavras que o entrevistador (ou alguém do ambiente) falou ou dirigiu a ele. É 
um fenômeno quase automático, involuntário, realizado sem planejamento ou 
controle. 
B. Neologismos patológicos - palavras inteiramente novas criadas pelo paciente ou 
palavras já existentes que recebem uma acepção totalmente nova. 
C. Esquizofazia ou jargonofazia - também denominada “salada de palavras”. 
Reflete a repetição de frases inteiras sem sentido, tornando o discurso quase que 
ininteligível, pois há um fluxo verbal desorganizado e caótico. 
 
D. Criptolalia - o sinal extremo da esquizofazia é o desenvolvimento de uma 
linguagem completamente incompreensível, uma linguagem privada (do doente) 
que ninguém entende. 
 
...Assim nosso silêncio se serve até das coisas mais comuns 
 E nosso encontro é meta livre: 
 O lugar indeterminado, em um momento indefinido, 
 A palavra ilimitada para o homem não cerceado. 
Jacob Levy Moreno in “Convite ao encontro” 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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CONSCIÊNCIA DO EU 
 
 
Eis que em breve nos separaremos 
E a verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia 
Eu agora sei, eu sou só 
Eu e minha liberdade que não sei usar 
Mas, eu assumo a minha solidão 
Sou só, e tenho que viver uma certa glória íntima e silenciosa 
Guardo teu nome em segredo 
Preciso de segredos para viver 
 
E eis que depois de uma tarde de quem sou eu 
E de acordar a uma hora da madrugada em desespero 
Eis que as três horas da madrugada, acordei e me encontrei 
Fui ao encontro de mim, calma, alegre, plenitude sem fulminação 
Simplesmente eu sou eu, e você é você 
É lindo, é vasto, vai durar 
Eu não sei muito bem o que vou fazer em seguida 
Mas, por enquanto, olha pra mim e me ama 
Não, tu olhas pra ti e te amas 
É o que está certo 
 
Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca 
E tudoisso ganhei ao deixar de te amar 
Escuta! Eu te deixo ser... Deixa-me ser. 
 
Clarice Lispector 
 
O “Eu” se faz consciente de si mesmo. A consciência do Eu pressupõe a tomada de 
consciência do próprio corpo, do “Eu físico”. A este Eu corporal, psíquico e somático 
ao mesmo tempo, chamamos esquema ou imagem corporal. As alterações da 
consciência do Eu ocorrem tanto a nível psíquico como corporal. 
 
Características do Eu segundo Jaspers: a. consciência de atividade do Eu; b. 
consciência de unidade do Eu; c. consciência da identidade do Eu no tempo e d. 
consciência da oposição do Eu em relação ao mundo (limites do eu). 
 
A. Consciência de atividade do Eu – consciência íntima de que, em todas as atividades 
psíquicas que ocorrem, é o próprio Eu que as realiza e presencia. Jaspers denomina de 
personalização o fenômeno no qual se percebe, em todas as atividades psíquicas, um 
tom especial de “meu”, de pessoal, daquilo que é feito e vivenciado por mim mesmo. 
Esse autor clássico subdivide as alterações da consciência de atividade do Eu em dois 
grupos abaixo especificados: 
 
A.1. Alteração da consciência da existência – suspensão da sensação normal do 
próprio Eu, corporal e psíquico, na carência da consciência do fazer próprio, no 
distanciamento do mundo perceptivo, na perda da consciência do sentido do Eu. Para 
 
 
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Jaspers, o curioso desse fenômeno é a condição na qual O HOMEM EXISTINDO JÁ 
NÃO PODER SENTIR SUA PRÓPRIA EXISTÊNCIA. Frases de pacientes com 
essa alteração: “sou apenas um robô, uma máquina”; “sou um nada, como um morto”. 
Pode ocorrer, sobretudo, em quadros psicóticos. 
 
A.2. Alteração da consciência de execução – o paciente, ao pensar ou desejar alguma 
coisa, sente que de fato foi um outro que pensou ou desejou tais pensamentos ou desejos 
e os impôs de alguma maneira. Todas as tarefas, atividades cotidianas que realiza, 
atribui a ação a outro ser (conhecido, por exemplo o companheiro, ou desconhecido, por 
exemplo um espírito). Os pensamentos podem ser vivenciados como feitos e impostos 
por alguém ou algo externo, ou como roubados, extraídos, arrancados do paciente. O 
doente não só não se sente mais senhor dos seus pensamentos, como passa a viver sob a 
violência e o julgo (escravidão) de um poder desconhecido (Kurt Schneider denomina 
esse fenômeno como pensamentos impostos e pensamentos roubados). A sensação de 
“algo feito” por uma força externa pode abarcar todos os tipos de atividade psíquica, 
não apenas o pensamento, mas também, o falar, o querer, o fazer, o caminhar, os 
impulsos (inclusive sexuais). O doentes passam a sentir-se inibidos ou contidos, mas 
não por algo interno e, sim, por alguma coisa externa, totalmente desconhecida. 
 
B. Consciência de unidade do Eu – a cada momento, o Eu é sentido como algo uno e 
indivisível. Essa é uma qualidade da vivência do Eu sentida como natural e espontânea. 
A vivência de cisão do Eu só existe quando o indivíduo sente-se radicalmente dividido, 
sente-se anjo e demônio ao mesmo tempo, homem e mulher ao mesmo tempo. O Eu 
corporal divide espaço com outro Eu. Eu sou eu e mais uma outra pessoa ou entidade 
que coexistem em mim mesmo. Mais freqüente nas psicoses. 
 
C. Consciência de identidade do Eu no tempo – consciência de ser o mesmo na 
sucessão do tempo. Mudam aspectos da personalidade, mas o Eu nuclear é vivenciado 
como o mesmo ao longo do tempo. Alguns pacientes relatam que atualmente, em 
comparação à sua vida anterior (em especial “antes do início da psicose”) não são a 
mesma pessoa. Muito utilizam a terceira pessoa para se referirem ao seu Eu do passado. 
Dizem, por exemplo, durante a anamnese: “Esse sujeito de quem estão falando aí não 
sou eu. Esses não são meus pais. Eu não sou brasileiro. Eu pertenço a outra civilização”. 
 
D. Consciência da oposição do Eu em relação ao mundo (consciência dos limites do 
Eu) – é a percepção evidente da separação entre o Eu subjetivo e o espaço exterior. A 
alteração dessa consciência faz com que os pacientes se identifiquem completamente 
com os objetos do mundo externo. Há a perda da sensação de oposição e fronteira entre 
o Eu e o mundo. O indivíduo sente que seu eu se expande para o mundo exterior e não 
mais se diferencia deste. Os pacientes projetam maciçamente seus estados subjetivos no 
próximo, transladando-se para um Eu alheio, para o corpo de um animal ou para outro 
objeto. Pode ocorrer nas psicoses, mais comumente na esquizofrenia, nas intoxicações 
por substâncias (sobretudo alucinógenos), nos estados de transe e possessão (quadros 
dissociativos), etc. 
 
 
 
 
 
 
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Despersonalização e desrealização 
 
A despersonalização é o sentimento de perda ou de transformação do Eu. Alguns 
autores a consideram como uma alteração da consciência de atividade do Eu. É uma 
vivência profunda de estranhamento e perda da familiaridade consigo mesmo. O doente 
sente-se estranho a si mesmo, vive marcante transformação, com sentimentos de 
angústia e perplexidade. Tem freqüentemente a sensação de que vai enlouquecer, perder 
o controle. Esse fenômeno engloba tanto o Eu psíquico como o Eu corporal (há uma 
sensação de estranhamento com o próprio corpo). 
 
Comumente associada à despersonalização, pode ocorrer a desrealização, que é a 
transformação e a perda da relação de familiaridade com o mundo comum, no sentido 
de uma relação de profunda estranheza daquilo que, no dia-a-dia, é comum e familiar. O 
doente refere que o mundo está estranho, mudado. As pessoas e os lugares parecem 
estranhos, os sons são percebidos com um timbre novo, as cores têm características 
diferentes. 
 
Em geral, tanto a despersonalização como a desrealização são vivenciadas com muita 
angústia. 
 
“O despersonalizado é o homem que perdeu a segurança de uma relação familiar 
consigo mesmo e o desrealizado é o homem que sente essa mesma insegurança em 
relação ao mundo à sua volta. Estão condenados, assim, ao frio de uma terra 
estranha, de um país desconhecido” (Nobre de Melo). 
 
Não é incomum a ocorrência de despersonalização e desrealização nas crises intensas de 
ansiedade, nas psicoses tóxicas por alucinógenos, nos episódios agudos de esquizofrenia 
e em formas graves de depressão. 
 
Nessa altura do manual, tendo observado na prática (com a leitura do mesmo e o 
atendimento aos pacientes) que as funções psíquicas são estudadas de forma separadas, 
porém, são totalmente interligadas umas às outras, cabe lançar uma indagação para 
reflexão: 
 
Qual a diferença entre a estranheza do percebido, descrita na função psíquica 
sensopercepção, e a desrealização? 
 
 
O God, I could be bounded in a nutshell and count myself a King of infinite space. 
 
William Sheakespeare in “Hamlet” 
 
[...] o menino é o pai do homem. 
 
Machado de Assis in “Memórias Póstumas de Brás Cubas” 
 
 
 
 
 
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VONTADE (CONAÇÃO) 
 
 
Ando repleto de vazios 
Não me encantam as vontades 
Meu desejo de morrer me predomina 
Essa falta de prazer me deixa desajeitado 
Minha independência tem algemas 
Estou sem eternidades 
 
Manoel de Barros 
 
A vontade é impotente perante o que está para trás dela. 
Não poder destruir o tempo, nem a avidez transbordante do tempo, 
é a angústia mais solitária da vontade. 
 
Friedrich Nietzsche 
 
A vontade é uma dimensão complexa da vida mental, relacionada intimamente com as 
esferas instintiva, afetiva e intelectiva (que envolve avaliar, julgar, analisar, decidir), 
bem como com o conjunto de valores, princípios, hábitos e normas socioculturais do 
indivíduo. 
 
O ato volitivo (ou ato de vontade) é traduzido pelas expressões típicas do “eu quero” ou 
“eu não quero”, que caracterizam a vontade humana. O ato volitivo se dá, de forma 
geral, como um processo, o chamado processo volitivo, no qual se distinguem quatro 
etapas ou momentos fundamentais e, emgeral, cronologicamente seguidos. 
 
1ª - Fase de intenção ou propósito, na qual se esboçam as tendências básicas 
do indivíduo, suas inclinações e interesses. Nesse momento, os impulsos, 
desejos e temores inconscientes exercem influência decisiva sobre o ato 
volitivo, muitas vezes imperceptíveis para o próprio indivíduo. 
2ª - Fase de deliberação (apreciação e opção), que diz respeito à ponderação 
consciente, tomando-se em conta tanto os motivos como os móveis implicados 
no ato volitivo. O indivíduo aqui faz uma análise básica do que seria positivo ou 
negativo, favorável ou desfavorável, benéfico ou maléfico na sua decisão. É um 
momento de apreciação, consideração dos vários aspectos e implicações de 
determinada ação. 
3ª - Fase de decisão propriamente dita é o momento culminante do processo 
volitivo, instante que demarca o começo da ação, no qual os móveis e motivos 
vencidos dão lugar aos vencedores. 
4ª - A Fase de execução constitui a etapa final do processo volitivo, no qual o 
conjunto de atos psicomotores simples e complexos decorrentes da decisão são 
postos em funcionamento, afim de realizar e consumar aquilo que mentalmente 
foi decidido e aprovado pelo indivíduo. 
 
 
 
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O ato de vontade pautado por essas quatro fases, em que ponderação, análise e reflexão 
precedem a execução motora, é denominado ação voluntária. Denomina-se 
pragmatismo à capacidade de exercer plenamente o ato volitivo. 
 
ALTERAÇÕES DA VONTADE 
 
A. Hipobulia/abulia – há uma diminuição ou até abolição da atividade volitiva. O 
indivíduo refere que não tem vontade para nada, sente-se muito desanimado, sem 
forças. Ocorre freqüentemente em episódios depressivos. 
 
B. Ato impulsivo – em oposição à ação voluntária, há os atos impulsivos, que são uma 
espécie de curto circuito do ato voluntário (da fase de intenção à fase de execução). O 
ato impulsivo abole abruptamente as fases de intenção, deliberação e decisão, em 
função tanto da intensidade dos desejos ou temores inconscientes como da fragilidade 
das instâncias psíquicas implicadas na reflexão, na análise, na ponderação e na 
contenção dos impulsos e dos desejos. Os impulsos patológicos são tipos de atos 
impulsivos, nos quais predominam as ações psicomotoras automáticas, se reflexão, 
ponderação ou decisão prévias, de tipo instantâneo e explosivo. Eles também se 
caracterizam por serem incontroláveis. São características do ato impulsivo: é 
realizado sem fase prévia de intenção, deliberação e decisão; é realizado, de modo 
geral, de forma egossintônica (o indivíduo não percebe tal ato como inadequado, 
não tenta evitá-lo ou adiá-lo, o ato não é contrário aos valores morais e desejos de 
quem o pratica); geralmente é associado a impulsos patológicos, de natureza 
inconsciente, ou à incapacidade de tolerância à frustração e necessária adaptação à 
realidade; o indivíduo dominado pelo ato impulsivo tende a desconsiderar os 
desejos e as necessidades das outras pessoas. Exemplo: a frangofilia é um impulso 
patológico de destruir os objetos que circundam o indivíduo. Está associado geralmente 
a agressividade. Ocorre nas psicoses (principalmente esquizofrenia e mania), em alguns 
quadros de intoxicação por substâncias psicoativas, nos transtornos da personalidade 
anti-social e borderline, etc. 
 
C. Ato compulsivo ou compulsão – difere do ato impulsivo por ser reconhecido pelo 
indivíduo como indesejado e inadequado, assim como pela tentativa de refreá-lo ou 
adiá-lo. A compulsão é geralmente uma ação motora complexa que pode envolver desde 
atos compulsivos relativamente simples, como coçar-se, arranhar-se, até rituais 
compulsivos complexos, como tomar banho de forma repetida e muito ritualizada, etc. 
Os atos e os rituais compulsivos apresentam as seguintes características: há 
vivência freqüente de desconforto subjetivo por parte do indivíduo que realiza a 
compulsão; são egodistônicos, isto é, vividos como indesejáveis, contrários aos 
valores morais e anseios de quem os sofre; há a tentativa de resistir ou adiar à 
realização do ato compulsivo; há a sensação de alívio ao realizar o ato compulsivo, 
alívio que logo é substituído pelo retorno do desconforto subjetivo e pela urgência 
de realizar novamente a compulsão. 
 
D. Negativismo – é a oposição do indivíduo às solicitações do meio ambiente. Verifica-
se uma resistência automática e obstinada a todos ou quase todos os pedidos que a 
equipe de saúde ou a família faz ao paciente. O indivíduo nega-se a colaborar nas 
condutas diagnósticas ou terapêuticas, opõe-se ao contato nas tentativas de 
 
 
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relacionamento interpessoal. No negativismo ativo, o paciente faz o oposto ao 
solicitado. No negativismo passivo, o paciente simplesmente nada faz quando 
solicitado pelo ambiente. Pode ocorrer, principalmente, na esquizofrenia catatônica. 
 
E. Obediência automática – é o oposto ao negativismo. O indivíduo obedece 
automaticamente, como um robô teleguiado, as solicitações de pessoas que entram em 
contato com ele. Há profunda alteração da atividade volitiva, na qual a pessoa perde a 
autonomia e a capacidade de conduzir seus atos volitivos. Pode ocorrer, principalmente, 
na esquizofrenia catatônica. 
 
F. Fenômenos em eco – o indivíduo repete de forma automática, durante a entrevista, 
os últimos atos do entrevistador (ecopraxia), suas palavras ou sílabas (ecolalia), reações 
mímicas (ecomimia) ou escrita (ecografia). Os fenômenos em eco revelam acentuada 
perda do controle da atividade voluntária e sua substituição por atos automáticos, 
sugeridos pelo ambiente circundante. Pode ocorrer, principalmente, na esquizofrenia 
catatônica. 
 
G. Atos, vontades, impulsos controlados – fazem parte das vivências de influência 
corporal descritas por Kurt Schneider. O paciente se queixa que forças externas estão 
comandando todas as suas vontades e atitudes. Geralmente, há também alteração da 
consciência de atividade do Eu. São comuns na esquizofrenia. 
 
Um encontro entre dois: olho no olho, cara a cara. 
 E quando estiveres próximo, tomarei teus olhos 
 E os colocarei no lugar dos meus, 
 E tu tomarás meus olhos 
 E os colocarás no lugar dos teus, 
 Então te olharei com teus olhos 
 E tu me olharás com os meus... 
Jacob Levy Moreno in “Convite ao encontro” 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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PSICOMOTRICIDADE 
 
Sapo não pula por boniteza, mas por precisão. 
 
Guimarães Rosa in “Sagarana” 
 
Estas alegrias violentas têm fins violentos 
Falecendo no triunfo, como fogo e pólvora 
Que num beijo se consomem. 
 
William Shakespeare in “Romeu & Julieta” 
 
Assim como o ato motor é o componente final do ato volitivo, as alterações da 
psicomotricidade frequentemente são a expressão final de alterações da vontade. 
 
ALTERAÇÕES DA PSICOMOTRICIDADE 
 
A. Agitação psicomotora (hipercinesia) - caracterizada por uma movimentação 
intensa e desordenada que pode durar horas ou até mesmo dias e que apresenta 
peculiaridades distintas conforme o quadro mórbido em que ocorre. As agitações 
maníacas caracterizam-se pela euforia, atitudes jocosas e fuga de idéias. Na agitação do 
catatônico, domina a impulsividade, o desinteresse pelo ambiente e as condutas 
discordantes. Comumente se associa à hostilidade e à heteroagressividade. É um sinal 
psicopatológico freqüente e inespecífico. 
 
B. Bradicinesia (lentificação e inibição psicomotora) – a lentificação generalizada de 
todos os movimentos, acompanhada sempre por uma mímica parada, que ora exprime 
dor (estados depressivos), ora exprime perplexidade (estados confusionais). Reflete 
também a lentidão de todas as atividades psíquicas (bradipsiquismo). Toda 
movimentação voluntária torna-se lenta, difícil, podendo haver período de latência entre 
uma solicitação ambiental e a resposta motora do paciente. JáA confidencialidade, a privacidade e 
o sigilo poderão ser explicitamente garantidos caso se note o paciente tímido ou 
desconfiado ou se o contexto da entrevista assim o exigir. Para isso, em alguns casos, é 
importante que o profissional: a. esclareça ao paciente (e aos familiares, quando 
necessário) que aquilo que for revelado durante as entrevistas não será revelado a 
ninguém. Caso isso se faça necessário por exigência do próprio tratamento 
(encaminhamento a um outro profissional, carta à alguma instituição, informação à 
família para proteger o paciente, etc.), só será feito após consulta e concordância do 
entrevistado. O sigilo poderá ser rompido no caso de idéias, planos ou atos seriamente 
auto ou heterodestrutivos; b. ressalte a necessidade de colaboração do paciente e, 
 
 
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quando for o caso, da família. Todos devem trabalhar ativamente para que o processo 
terapêutico tenha bons resultados. 
Embora a atitude básica do entrevistador na fase inicial da avaliação seja de escuta, isso 
não significa colocar-se em posição totalmente passiva. Pelo contrário, os dados 
essenciais da clínica psicopatológica emergem basicamente de uma observação 
participativa e da interação intensa entre o paciente e o profissional. O entrevistador 
desempenha um papel ativo na introdução de interrogações, não para mostrar que é 
inteligente ou cético, mas literalmente para ter certeza que ele sabe o que está sendo 
dito. O entrevistador deve lembrar que, nas fases mais iniciais da entrevista, o paciente 
pode estar muito ansioso e usar manobras e mecanismos defensivos como riso, silêncio, 
perguntas inadequadas, comentários circunstanciais sobre o profissional, etc. Podem 
significar estratégias involuntárias ou propositais que podem ser utilizadas para que o 
doente evite falar de si, de seu sofrimento, de suas dificuldades. O profissional deve 
lidar com tais manobras, lembrando polidamente ao paciente que a entrevista tem por 
finalidade identificar seu problema para, assim, poder melhor ajudá-lo. Também deve 
deixar claro para o paciente que a pessoa do entrevistador não é o tema da entrevista. 
Nos primeiros encontros, o entrevistador deve evitar pausas ou silêncios prolongados, 
que possam aumentar muito o nível de ansiedade do paciente e deixar a entrevista muito 
tensa e improdutiva. Alguns procedimentos podem facilitar a entrevista no momento em 
que o entrevistador lida com o silêncio prolongado do doente: a. fazer perguntas e 
colocações breves que assinalem a sua presença efetiva e mostrem ao paciente que ele 
está atento e tranqüilo para ouvi-lo; b. evitar perguntas muito direcionadas, fechadas, 
que possam ser respondidas com um sim ou um não categóricos; c. evitar perguntas 
muito longas e complexas, difíceis de serem compreendidas pelo paciente. 
A duração e o número de entrevistas iniciais, com fins diagnósticos e de planejamento 
terapêutico não são fixos, dependendo do contexto institucional onde se dá a prática 
profissional, da complexidade e gravidade do caso e da habilidade do entrevistador. 
 
São consideradas regras “de ouro” da entrevista em saúde mental: 
 
A. Pacientes organizados (mentalmente), com inteligência normal, com escolaridade 
boa ou razoável, fora de um “estado psicótico”, devem ser entrevistados de forma mais 
aberta, permitindo que falem e se apresentem de maneira mais fluente e espontânea. O 
apresentador fala pouco, fazendo algumas pontuações para que o paciente “conte a sua 
história”. 
B. Pacientes desorganizados, com nível intelectual baixo, em estados psicóticos ou 
paranóides, “travados” por alto nível de ansiedade, devem ser entrevistados de forma 
mais estruturada. Nesse caso, o entrevistador fala mais, faz perguntas mais simples e 
dirigidas (perguntas fáceis de serem compreendidas e respondidas). 
 
C. Nos primeiros contatos com pacientes muito tímidos, ansiosos ou paranóides, deve-
se fazer primeiro perguntas neutras (nome, onde mora, estado civil, profissão, nome de 
familiares, etc), para apenas, gradativamente, começar a formular perguntas “mais 
quentes” (às vezes, constrangedoras para o paciente), como: “qual o seu problema?”; 
“por que foi trazido ao hospital?”; “o que aconteceu para que você agredisse seus 
familiares?”, etc. 
 
 
 
 
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Avaliação inicial e perguntas introdutórias: 
 
A. Providenciar um local com o mínimo de privacidade e conforto para a entrevista (no 
caso de pacientes muito irritados, potencialmente agressivos, evitar lugares trancados e 
de difícil acesso ou evasão). 
B. Apresentar-se ao paciente e depois explicar brevemente o objetivo da entrevista. 
C. Buscando estabelecer um contato empático com o paciente, iniciar com as perguntas 
gerais sobre quem ele é: como se chama; quantos anos tem; qual seu estado civil; tem 
filhos; com quem mora; até que ano foi à escola; qual sua profissão; em que trabalha; 
qual sua religião. 
D. Qual o seu problema? (alternativas: como tem se sentido? que o traz aqui? tem 
alguma dificuldade? sente que algo não vai bem? está se sentido doente?).Como 
começaram seus problemas? 
E. Como tem passado nos últimos anos (meses ou semanas)? 
F. A que atribui seus problemas? 
 
Relato do caso por escrito 
 
Ao final da entrevista, forma-se o esboço do quadro na mente do entrevistador. O estado 
mental foi observado durante toda a coleta dos dados, surgindo, dessa forma, a síntese 
do estado mental do paciente para o profissional. O relato do caso por escrito deve 
conter, de preferência, as próprias palavras que o paciente e os informantes usaram ao 
descrever os sintomas mais relevantes. O uso de termos técnicos deve ser sóbrio e 
proporcional ao grau de conhecimento que o profissional obteve do caso. 
Deve-se evitar terminologia por demais tecnicista que geralmente revela a insegurança 
do profissional, que busca compensar, na linguagem rebuscada, os vácuos de sua 
ignorância sobre o caso, ou que quer demonstrar de modo exibicionista sua erudição e 
seu saber. Além disso, o profissional deve evitar a interpretação precoce dos dados, seja 
ela psicológica, psicanalítica, sociológica ou biológica. Uma interpretação precoce, 
feita muitas vezes de modo apressado ou excessivo por um profissional que quer logo 
ver um sentido em tudo, pode impedir que se enxergue o paciente que está à sua frente. 
Apesar de serem descritos fenômenos irracionais em uma história psicopatológica, 
muitas vezes de forma desorganizada e caótica, o relato deve ser organizado e coerente, 
facilitando o estabelecimento de hipóteses diagnósticas e o planejamento terapêutico 
adequado. O paciente tem o direito de ser confuso, contraditório, ilógico; já o 
profissional, ao relatar o caso, não. 
Além do diagnóstico clínico, a entrevista e o seu relato devem fornecer uma 
compreensão suficientemente ampla da personalidade do paciente, da dinâmica de sua 
família e de seu meio sociocultural imediato. O relato também tem um valor legal. É um 
documento que, sendo bem redigido, poderá ser decisivo em questões legais futuras, 
impensáveis no momento em que a avaliação está sendo feita. 
Resumindo: o relato deve ser redigido com um estilo claro, preciso, com frases e 
parágrafos curtos; a história clínica deve ser redigida com uma linguagem simples 
e compreensível; o relato deve ser pormenorizado, mas não prolixo, detalhado 
naquilo que é essencial ao caso e conciso naquilo que é secundário. 
 
 
 
 
 
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1.2. IDENTIFICAÇÃO 
 
Consta dos seguintes dados: 
A. Nome do examinador; data e local da entrevista; 
B. Nome do paciente; sexo; idade ou data de nascimento; nome dos pais (filiação). 
C. Estado Civil: solteiro – casado/amasiado – separado/divorciado – viúvo. Obs: 
qualquer união estável pode ser considerada como casamento, deixando-se os 
detalhes para serem descritos nos antecedentes sociais. 
D. Número de filhos. 
E. Escolaridade (anos de escola com sucesso). Registrar se apenas assinaa inibição psicomotora é 
um estado acentuado e profundo da lentificação, com ausência de respostas motoras 
adequadas, sem que haja paralisias ou déficit motor primário (lesão neurológica). 
 
C. Estupor – perda de toda a atividade espontânea, que atinge o indivíduo globalmente, 
na vigência de um nível de consciência aparentemente preservado e de capacidade 
sensório-motora para reagir ao ambiente. Envolve toda a atividade voluntária, incluindo 
a comunicação verbal (mutismo), mímica, olhar, gesticulação e marcha. Em geral, o 
paciente em estupor fica restrito ao leito, acordado, porém sem reagir de modo algum ao 
ambiente. Suas reações ficam como se estivessem congeladas; o doente chega a defecar 
e urinar no leito, não se alimenta voluntariamente e, se lá deixado, fatalmente irá 
falecer. 
 
D. Catalepsia – é um acentuado exagerado do tônus postural, com grande redução da 
mobilidade passiva dos vários segmentos corporais e com hipertonia muscular global do 
tipo plástico. 
 
 
 
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E.Flexibilidade cerácea – o indivíduo, ou uma parte do seu corpo (braço, perna, 
cabeça) é colocado pelo examinador em uma determinada posição (mesmo posições 
muito desconfortáveis), e assim permanece, como se fosse um homem de cera, 
moldável por uma outra pessoa. A catalepsia e a flexibilidade cerácea são sintomas 
freqüentes na esquizofrenia catatônica. 
 
Obs: há divergências, entre os autores, na definição dos fenômenos descritos em D 
e E. Existem pesquisadores que definem a flexibilidade cerácea como um 
acentuado exagero do tônus postural, com grande redução da mobilidade passiva 
dos vários segmentos corporais e com hipertonia muscular global do tipo plástico, 
ou seja, com o conceito que vimos acima de catalepsia. Esses autores conceituam 
que a manutenção de partes do corpo em posições desagradáveis, por horas 
seguidas, é que se denomina catalepsia. A flexibilidade cerácea, seguindo o 
pensamento desses pesquisadores, em psiquiatria seria uma pseudo-flexibilidade 
cerácea, já que a verdadeira acontece em quadros patológicos onde existem lesões 
neurológicas. Fazemos, assim, esse alerta. Esses conceitos podem mudar de autor 
para autor. A opção, na atualização do manual, foi por definir como a maioria dos 
autores atuais tem feito. O importante é saber que são fenômenos com conceitos 
diferentes, mas que fazem parte de uma mesma dimensão em psicopatologia 
fenomenológica, ou seja, são sintomas da série catatônica das alterações da 
psicomotricidade. 
 
F. Cataplexia – perda abrupta do tônus muscular, geralmente acompanhada de queda 
ao chão. Presente em doenças do sono, como na narcolepsia. 
 
G. Estereotipias motoras – são repetições automáticas e uniformes de determinado ato 
motor complexo, indicando geralmente marcante perda do controle voluntário sobre a 
esfera motora. O paciente repete o mesmo gesto com as mãos dezenas ou centenas de 
vezes em um mesmo dia. Observa-se na esquizofrenia crônica, no retardo mental, etc. O 
maneirismo é um tipo de estereotipia motora caracterizado por movimentos bizarros e 
repetitivos, geralmente complexos, que buscam certo objetivo, mesmo que esdrúxulo. 
Trata-se de alteração do comportamento expressivo (mímica, gestos, linguagem), em 
que a harmonia normal do conjunto de gestos do indivíduo é substituída por posturas e 
movimentos estranhos, exagerados, afetados ou bizarros. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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AFETIVIDADE 
 
Os diamantes são indestrutíveis? 
Mais é o meu amor. 
O mar é imenso? 
Meu amor é maior, 
mais belo sem ornamentos, 
do que um campo de flores. 
Mais triste do que a morte, 
mais desesperançado 
do que a onda batendo no rochedo, 
mais tenaz que o rochedo. 
Ama e nem sabe mais o que ama. 
 
 “Pranto para comover Jonathan” by Adélia Prado 
 
 
A vida afetiva é a dimensão psíquica que dá cor, brilho e calor a todas as vivências 
humanas. Sem afetividade, a vida mental torna-se vazia, sem sabor. Afetividade é um 
termo genérico, que compreende várias modalidades de vivências afetivas, como o 
humor, as emoções e os sentimentos. Distinguem-se cinco tipos básicos de vivências 
afetivas: humor ou estado de ânimo; emoções; sentimentos; afetos; paixões. 
 
Humor 
É o tônus afetivo do indivíduo, o estado emocional basal e difuso em que se encontra a 
pessoa em determinado momento. É a disposição afetiva de fundo que penetra toda a 
experiência psíquica, a lente afetiva que dá as experiências do indivíduo, a cada 
momento, uma cor particular, ampliando ou reduzindo os impactos das experiências 
reais. 
Emoções 
São reações afetivas agudas, momentâneas, desencadeadas por estímulos significativos. 
Assim, a emoção é um estado afetivo intenso, de curta duração, originado geralmente 
como a reação do indivíduo a certas aceitações externas e internas, conscientes ou 
inconscientes. A emoção é uma tempestade anímica, desconcerta, comove e perturba o 
instável equilíbrio existencial. 
Obs: O humor e as emoções são freqüentemente acompanhados de reações somáticas 
(neurovegetativas, motoras, hormonais, viscerais e vasomotoras, etc.). São, ao mesmo 
tempo, experiências psíquicas e somáticas. 
 
Sentimentos 
 
São estados e configurações afetivas estáveis; em relação às emoções são mais 
atenuados em sua intensidade e menos reativos a estímulos passageiros. Os sentimentos 
estão comumente associados a conteúdos intelectuais, valores e, em geral, não implicam 
concomitantes somáticos. Constituem fenômeno muito mais mental que somático. São 
vivenciados, de modo geral, em dois pólos: agradável e desagradável, prazeroso e 
desprazível. A seguir, são expostos vários sentimentos de acordo com suas tonalidades 
afetivas: sentimentos da esfera da tristeza (melancolia, tristeza, saudade, nostalgia, 
 
 
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vergonha, impotência, aflição, culpa, remorso, desesperança, etc.); sentimentos da 
esfera da alegria (euforia, júbilo, contentamento, satisfação, confiança, gratificação, 
etc.); sentimentos da esfera da agressividade (raiva, revolta, rancor, ciúme, ódio, ira, 
inveja, vingança, desprezo, etc.); sentimentos associados ao perigo (temor, receio, 
desamparo, abandono, rejeição, etc.); sentimentos de tipo narcísico (vaidade, orgulho, 
onipotência, superioridade, prepotência, etc.); sentimentos relacionados à atração 
pelo outro (amor, atração, tesão, estima, carinho, gratidão, amizade, apego, apreço, 
respeito, consideração, admiração). 
 
Luis de Camões (1524-1580), em um breve verso, tenta expressar preciosamente o que 
é o amor: 
 
Amor é um fogo que arde sem se ver; 
é ferida que dói e não se sente; 
é um contentamento descontente; 
é dor que desatina sem doer. 
 
Afetos 
 
Define-se como a qualidade e o tônus emocional que acompanha uma idéia. Os afetos 
acoplam-se a idéias, anexando a elas um colorido afetivo. São, assim, o componente 
emocional de uma idéia. Amplamente, usa-se também o termo para designar, de modo 
inespecífico, qualquer estado do humor, sentimento ou emoção. 
 
Paixões 
 
É um estado afetivo extremamente intenso, que domina a atividade psíquica como um 
todo, captando e dirigindo a atenção e o interesse do indivíduo em uma só direção, 
inibindo os demais interesses. 
 
 De quanto mais paixão do que razão não nos fez Júpiter? 
Além disso, confinou a razão a um canto do cérebro, e deixou 
todo o resto do corpo às nossas paixões. 
 
Erasmo de Roterdam 
Conceitos importantes para o estudo da afetividade 
Catatimia 
Bleuler denominou de catatimia a importante influência que a vida afetiva, o estado de 
humor, as emoções, os sentimentos e as paixões exercem sobre as demais funções 
psíquicas. A afetividade influencia toda a vida mental. Não é à toa que essa função 
psíquica finaliza a segunda parte desse manual. Exemplos: a atenção é captada, 
desviada, dirigida ou concentradaem função do valor afetivo de determinado estímulo; 
a memória é extremamente detalhada ou muito pobre dependendo do significado afetivo 
dos fatos ocorridos; a sensopercepção pode se alterar em função de estados afetivos 
intensos, etc. 
Reação afetiva 
 
 
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A vida afetiva ocorre sempre em um contexto em relações do Eu com o mundo e com as 
pessoas, variando de um momento para outro à medida que os eventos e as 
circunstâncias da vida se sucedem. A afetividade caracteriza-se principalmente por sua 
dimensão de reatividade. Nesse sentido, há duas importantes dimensões da resposta ou 
reação afetiva de um indivíduo. Denomina-se sintonização afetiva a capacidade de o 
indivíduo ser influenciado afetivamente por estímulos externos; assim, o indivíduo 
entristece-se com ocorrências dolorosas, alegra-se com eventos positivos, ri com uma 
boa piada, enfim, entra em sintonia com o ambiente. A irradiação afetiva, por sua vez, 
é a capacidade que o indivíduo tem de transmitir, irradiar ou contaminar os outros com 
seu estado afetivo momentâneo; por meio da irradiação afetiva faz com que os outros 
entrem em sintonia com ele. Na condição de rigidez afetiva, o indivíduo não deseja, tem 
dificuldade ou impossibilidade tanto de sintonização como de irradiação afetiva; ele não 
produz reações afetivas nos outros nem reage afetivamente diante da situação 
existencial externa. 
Ansiedade vital e ansiedade patológica 
A ansiedade é definida como estado de humor desconfortável, apreensão negativa em 
relação ao futuro, inquietação interna desagradável. Inclui manifestações somáticas e 
fisiológicas (dispnéia, taquicardia, tensão muscular, tremores, sudorese, tonturas, etc.) e 
manifestações psíquicas (desconforto mental, inquietação interna, apreensão, etc). Os 
seres humanos são dotados do mecanismo de ansiedade como um sinal de alerta para 
diversas situações de perigo eminente, como risco de morte por um assalto, necessidade 
de se alimentar para não morrer desnutrido, necessidade de estudar para ter um futuro 
melhor, de juntar algo para construir uma família, etc. Esse tipo de vivência afetiva é 
chamado de ansiedade vital. Ao contrário, na ansiedade patológica, o medo irá dominar 
a experiência afetiva da pessoa, surgirá de situações que, a priori, não refletem perigo 
eminente para a maioria das pessoas. É vivenciado, na grande maioria dos casos, como 
um medo irracional, que traz sofrimento. Porém, o paciente fica escravizado a ele. Passa 
a viver em função desse sentimento (medo). Nesses casos, estamos diante da ansiedade 
patológica. 
ALTERAÇÕES DA AFETIVIDADE 
ALTERAÇÕES DO HUMOR 
A. Distimia – termo que designa a alteração básica do humor, tanto no sentido da 
inibição como no sentido da exaltação. A distimia hopitímica, ou mais comumente 
chamada hipotimia, refere-se ao humor deprimido, tristeza patológica. A distimia 
hipetímica, ou simplesmente hipertimia, designa a euforia ou alegria patológica. 
A hipotimia e a hipertimia são as alterações psicopatológicas presentes nos atualmente 
denominados transtornos do humor (por ex.: depressão e mania). O estado de humor 
normal, sem tendência ao pólo de depressivo ou ao pólo de eufórico, denomina-se 
eutimia. O termo disforia, por sua vez, diz respeito à distimia acompanhada de uma 
tonalidade afetiva desagradável, mal-humorada, com intensa irritabilidade. Quando se 
fala em depressão disfórica ou mania disfórica, significa que esses quadros estão se 
apresentando clinicamente com uma intensa irritabilidade, amargura e agressividade. 
Não é raro encontrarmos, na clínica cotidiana, o emprego do termo distimia e 
disforia para designar, de modo geral, uma intensa irritabilidade. Na prática 
 
 
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clínica, não está incorreto. Porém, em psicopatologia descritiva, têm significados 
semelhantes, porém não idênticos. 
B. Puerilidade – alteração do humor que se caracteriza pelo aspecto simplório, infantil, 
regredido. O indivíduo ri ou chora por motivos banais; sua vida afetiva é superficial, 
sem afetos profundos, consistentes e duradouros. Está presente, principalmente, na 
esquizofrenia hebefrênica e em indivíduos com retardo mental. 
C. Moria - assemelhando-se a puerilidade, a moria é uma forma de alegria muito pueril, 
ingênua, boba, que ocorre principalmente em pacientes com retardo mental e em 
pacientes com quadros demenciais acentuados. 
D. Estado de êxtase – há uma experiência de beatitude, uma sensação de 
compartilhamento íntimo do estado afetivo interior com o exterior, muitas vezes com 
colorido hipertímico ou expansivo. É comum em estados de dissociações 
proporcionadas por experiências místicas, religiosas, como no transe e na possessão. 
Pode ocorrer também na esquizofrenia e na mania. 
ALTERAÇÕES DAS EMOÇÕES E DOS SENTIMENTOS 
A. Apatia – diminuição da excitabilidade emotiva e afetiva. Os pacientes se queixam de 
não poderem sentir nem alegria, nem tristeza, nem raiva, nem nada... Na apatia, o 
indivíduo, apesar de saber da importância afetiva que determinada experiência deveria 
ter para ele, não consegue sentir nada. O paciente torna-se hiporeativo, é um “tanto faz 
quanto tanto fez”, para tudo na vida. É comum nos quadros depressivos, mas pode 
ocorrer de forma inespecífica em um grande número de transtornos mentais. 
B. Inadequação do afeto ou paratimia – reação completamente incongruente a 
situações existenciais ou a determinados conteúdos ideativos, revelando desarmonia 
profunda na vida psíquica. Exemplo: um esquizofrênico crônico que ao receber uma 
notícia ruim ou em pleno velório, começa a sorrir espontaneamente e sem sentido 
aparente, chamando a atenção de todos e provocando constrangimento geral. 
C. Embotamento afetivo – perda profunda de todo tipo de vivência afetiva. Ao 
contrário da apatia, que é basicamente subjetiva, o embotamento afetivo é observável, 
constatável por meio de mímica, da postura e da atitude do paciente. Ocorre tipicamente 
nas formas residuais (crônicas) das esquizofrenias. 
D. Sentimento da falta de sentimento – vivência de incapacidade para sentir emoções, 
experimentada de forma muito penosa pelo paciente. É percebido claramente pelo 
doente, que se queixa de sentir-se intimamente morto ou em estado de vazio afetivo. Ao 
contrário da apatia, o sentir o “não sentir” é vivenciado com muito sofrimento, como 
uma tortura. Pode ocorrer em quadros depressivos graves. 
E. Labilidade afetiva e incontinência afetiva – são os estados no quais ocorrem 
mudanças súbitas e imotivadas do humor, sentimento ou emoções. O indivíduo oscila 
de forma abrupta, rápida e inesperada de um estado afetivo para outro. O paciente está 
conversando sobre algo ameno, alegre e começa a chorar convulsivamente, passando, 
logo a seguir, a sorrir de forma tranqüila. O indivíduo não consegue conter de forma 
alguma suas reações afetivas. Podem ocorrer em estados depressivos, maníacos, estados 
 
 
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graves de ansiedade, esquizofrenia ou serem indicativos de quadros psico-orgânicos 
(tumores cerebrais, demências, encefalites, etc). 
F. Ambivalência afetiva – termo usado por Bleuler para descrever sentimentos opostos 
em relação a um mesmo estímulo ou objeto, sentimentos que ocorrem de modo 
absolutamente simultâneo. Assim, o indivíduo sente, ao mesmo tempo, ódio e amor, 
rancor e carinho por alguém. Pode ser um sintoma importante da experiência afetiva do 
esquizofrênico. Ela indica um processo de cisão radical do Eu, de desarmonia profunda 
das vivências psíquicas. 
G. Neotimia – vivência afetiva bizarra, completamente nova e estranha, que acompanha 
alguns quadros psicóticos. É estranha para a própria pessoa que a experimenta. Faz 
parte da experiência peculiar e radicalmente diferente da esquizofrenia. 
H. Indiferença afetiva – foi descrita particularmente na histeria com uma “bela 
indiferença” (belle indifference). Trata-se de certa frieza afetiva incompreensível diante 
dos sintomas que o pacienteapresenta, que parece indicar que, no fundo (de forma 
inconsciente), o paciente sabe que seus sintomas são psicogênicos e potencialmente 
reversíveis. Não é uma indiferença profunda, sendo mais aparente e teatral que real (daí 
bela). A bela indiferença das histerias contrapõe-se à triste indiferença do paciente 
depressivo com apatia marcante e à pálida indiferença do paciente esquizofrênico 
crônico com embotamento afetivo marcante. 
I. Anedonia – é a incapacidade parcial ou total de obter e sentir prazer com 
determinadas atividades e experiências da vida. O paciente relata que, diferentemente 
do que ocorria antes de adoecer, agora não consegue mais sentir prazer sexual, não 
consegue desfrutar mais de um bom papo com os amigos, de um almoço gostoso com a 
família, de um bom filme, etc. Os doentes dizem: “Agora não vejo mais graça em nada, 
as coisas perderam o sabor, não vibro e nem sinto prazer com mais nada”. A anedonia é 
um sintoma central das síndromes depressivas. A apatia (incapacidade de sentir afetos) 
e a anedonia (incapacidade de sentir prazer) são fenômenos muito próximos que 
ocorrem, na maioria das vezes, de forma simultânea. 
Reflexões finais em relação à afetividade e às perdas afetivas 
 
Por que amar se a perda é tão dolorosa? 
Eu não tenho mais respostas 
Só a vida que tenho vivido 
Por duas vezes nesta vida foi-me dada a escolha 
Quando garoto e quando homem 
O garoto escolheu a segurança 
O homem escolheu o sofrimento 
A dor de agora é parte da felicidade de então 
Esse, para sempre, é o nosso trato 
 
C.S. "Jack" Lewis (escritor e poeta britânico). Sua biografia foi brilhantemente retratada 
no filme inglês “Terra das Sombras”. Excelente! 
 
 
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O que é ter? O que é perder? Vamos pensar a respeito. Se alguém não se importa em perder 
é porque na verdade nunca teve aquilo que perde. Sendo esse "não se importar" o que o 
escritor José de Morais, em sua análise sobre a obra do escritor britânico C.S. "Jack" Lewis, 
chama de “a arte da perda”. O que é perder? O que é ter? Vamos falar de pessoas, 
relacionamentos. Nesse contexto, seria ter um sinônimo de amar? E sendo esse amor 
verdadeiro, pode-se chamar a separação de perda? Mesmo quando separados carregamos 
ainda no peito a lembrança e a intensidade de um sentimento que nem distância, nem 
tempo, e talvez, nem a morte conseguem apagar? E se o sentimento sobrevive, ter-se-á 
mesmo perdido algo? Perder é não ter? Não ter é estar longe? Longe do coração amado? 
Não sei e não tenho respostas. Porém, há um momento em que o ter se torna ser, quando o 
sentimento se apega de tal maneira a alma que esta já não o é sem ele. Alguém diz: "Toda 
dor vem do desejo de não sentir dor". Talvez, mas não é só isso que move a alma. A alma 
sabe que não há alegria sem sofrimento. O que a alma quer é uma dor que valha a pena, um 
preço justo que ela possa pagar por aquilo que imagina ser felicidade. A alma não rejeita a 
dor, muito menos as lágrimas. O que a alma se recusa é sofrer em vão ou sem saber quando 
ou quanto basta, ou ainda mais, se receberá ao final os louros da vitória. Pois uma vez que 
se experimenta o sabor da alegria, como a define Lewis, alma nenhuma mede esforços para 
obtê-la. Mesmo que seu valor seja inestimável e que o coração tenha já gasto toda sua 
fortuna tentando alcançá-la. 
Boa leitura, Flávio Soares. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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EXEMPLO DA DESCRIÇÃO DO EXAME MENTAL DE UM PACIENTE 
O EXAME MENTAL DEVE SER DESCRITO COM A CONJUGAÇÃO 
VERBAL NO PRESENTE DO INDICATIVVO 
 
ATENÇÃO: ABAIXO, AS DESCRIÇÕES EM MAIÚSCULO, SUBLINHADAS E 
EM NEGRITO SÃO EXPLICATIVAS DE COMO CHEGAMOS À 
CONCLUSÃO DA SÚMULA DO EXAME MENTAL. NÃO DEVEM CONSTAR 
QUANDO O EXAME FOR DESCRITO. SÓ DEVE CONSTAR NA SÚMULA 
(VIDEM EXEMPLO ABAIXO) 
 
EXAME MENTAL (só o que está descrito em minúsculo) 
Paciente aceita de bom grato o convite para entrevista. Ao chegar à sala, senta-se no 
local indicado, é cumprimentado e cumprimenta o examinador. Está higienizado e 
vestido com roupas limpas que contêm o logotipo do hospital. Apresenta-se descalço e 
com barba por fazer, mas sem sujeiras. Sua fácies reflete perplexidade, olhos vibrantes e 
espantados. PACIENTE HIGIENIZADO E COM FACE CLÁSSICA DE APATIA 
INDIFERENTE. 
Durante a consulta, levanta-se diversas vezes dizendo que decidiu sair da sala. Porém, 
logo em seguida volta a sentar. Na maior parte do tempo não responde às nossas 
perguntas. Porém, queixa-se dos mais variados sintomas. EM DETERMINADOS 
MOMENTOS COOPERANTE E EM OUTROS NEGATIVISTA. 
Sabe dizer seu nome completo, nome dos pais, mas não consegue dizer ano, mês e dia 
que nos encontramos no momento atual. Também refere está em uma oficina da mente e 
que o hospital, na verdade, é uma fábrica de cabeças gigantes localizada nos Estados 
Unidos. Inclusive, diz se encontrar nos EUA. Não encontramos alterações da 
consciência vígil, atenção ou memória. A ORIENTAÇÃO AUTOPSÍQUICA ESTÁ 
PRESERVADA. DESORIENTADO DO PONTO DE VISTA ALOPSÍQUICO. 
Refere escutar vozes de dois homens que dialogam a respeito da sua vida. Especifica: 
“uma voz é de homem do bem e a outra é de homem do mal”. O homem do bem diz que 
o paciente precisa fazer coisas boas para a mãe e o do mal diz que o doente é bicha, 
maconheiro e por isso deveria ser assassinado. Diz que na verdade não é de Maceió e 
que foi trazido à “oficina da mente” para que sua cabeça fosse fabricada. “Eu sou dos 
Estados Unidos. Meus pais são americanos. Fui raptado e me trouxeram para essa 
fábrica no interior e me registraram aqui com esse nome falso”. Nesse instante, ao 
contrário do que havia confirmado quando se identificou, nega ter o nome de batismo: 
“esse aí não existe”, referindo-se ao seu próprio nome. APRESENTA 
ALUCINAÇÕES AUDITIVAS COMPLEXAS DO TIPO VOZES EM FORMA 
DE DIÁLOGO E COMENTADORAS DE ATOS. TAMBÉM DETECTAMOS 
ALTERAÇÃO DA CONSCIÊNCIA DA IDENTIDADE DO EU. 
Relata está sendo vítima de uma conspiração internacional e que se o governo dos EUA 
não tomarem providencia ele provavelmente será capturado e assassinado. Em 
determinado momento, pergunta-nos se não somos o chefe internacional da conspiração 
que existe contra ele. Diante do nosso silêncio, irrita-se e faz menção em sair da sala. 
Logo em seguida, passa diversos minutos de cabeça baixa e falando sem parar palavras 
inaudíveis. Parece está conversando com um interlocutor imaginário. Quando a 
enfermeira entra na sala, o paciente exclama: “é ela! Veja que ela entrou de branco e por 
isso a conspiração está se desfazendo porque ela trouxe a paz e a guerra. O branco dela 
me salvou e agora sou imortal!”. EM FRANCA ATIVIDADE DELIRANTE 
 
 
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PERSECUTÓRIA. PERCEPÇÕES DELIRANTES ESTÃO PRESENTES. 
DETECTAMOS MUSSITAÇÃO... 
Refere que evita pensar e falar muito. “Meus pensamentos estão sendo retirados da 
cabeça pelas ondas magnéticas dessa fábrica. Seu eu pensar eles ficam sabendo de 
tudo”. Indaga: “o senhor é o chefe dessa pernicabecitália?”. ...NEOLOGISMOS 
PATOLÓGICOS. EVIDENCIAMOS TAMBÉM VIVÊNCIAS DE INFLUÊNCIA 
CORPORAL À CUSTA DE ROUBO DO PENSAMENTO. 
Demonstra, ao mesmo tempo e na mesma intensidade, sentimentos de amor e ódio pelos 
pais biológicos. “Eles não são meus pais e vou acabar com eles”. Em sequência: “minha 
mãe e meu pai são minha vida e salvando eles eu vou me salvar também”. 
AMBIVALÊNCIA AFETIVA... 
Finaliza: “e aí, já roubou tudo da minha cabeça seu chefão?”. Ao final da entrevista, 
volta a se isolar na enfermaria. ...E ISOLAMENTO SÃO SINTOMAS 
IGUALMENTE PRESENTES. 
 
OBSERVAÇÃO: NESSE ÚLTIMO PARÁGRAFO TAMBÉM HÁ UM REFORÇO 
DA VIVÊNCIA DE INFLUÊNCIA CORPORAL À CUSTA DO ROUBO DO 
PENSAMENTO. PORÉM, NÃO PRECISA REPETIR A INFORMAÇÃO PORQUE 
JÁ FOI MENCIONADO ANTERIORMENTE. 
 
SÚMULA DO EXAME MENTAL (TUDO O QUE ESTÁ DESCRITO EM 
MAIÚSCULO, NEGRITO E SUBLINHADO ACIMA):Paciente higienizado e com face clássica de apatia indiferente. Em determinados 
momentos cooperante e em outros momentos negativista. A orientação autopsíquica 
está preservada. Desorientado do ponto de vista alopsíquico. Apresenta alucinações 
auditivas complexas do tipo vozes em forma de diálogo e comentadoras de atos. 
Também detectamos alteração da consciência da identidade do eu. Em franca atividade 
delirante persecutória. Percepções delirantes estão presentes. Detectamos mussitação e 
neologismos patológicos. Evidenciamos também vivências de influência corporal à 
custa de roubo do pensamento. Ambivalência afetiva e isolamento são sintomas 
igualmente presentes. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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CASOS CLÍNICOS 
 
 
O amor comeu o meu nome, minha identidade, meu retrato 
O amor comeu a minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço 
O amor comeu meus cartões de visita, o amor veio e comeu todos os papéis onde eu 
escrevera meu nome 
O amor comeu minhas roupas, meus lenços e minhas camisas 
O amor comeu metros e metros de gravatas 
O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de 
meus chapéus 
O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos 
O amor comeu minha paz e minha guerra, meu dia e minha noite, meu inverno e meu 
verão 
Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte! 
João Cabral de Melo Neto 
 
A terceira parte desse manual traz, para que o leitor possa se exercitar na tarefa de 
descrever a fenomenologia das funções psíquicas, o relato de três casos clínicos. Não é 
objetivo, nesse momento, buscarmos hipóteses diagnósticas para os quadros 
apresentados. Aliás, algumas patologias, diagnósticos, já são mencionadas na descrição 
dos mesmos. O objetivo é descrevermos, em cada caso, as alterações psicopatológicas 
encontradas. Dessa forma, o primeiro relato clínico traz alterações, a serem 
investigadas, das seguintes funções psíquicas: consciência vígil, atenção, orientação, 
memória e inteligência. No segundo caso a busca será pela psicopatologia da 
sensopercepção, do juízo, do pensamento, da linguagem e da consciência do Eu. 
Finalmente, pesquisaremos no terceiro quadro clínico alterações fenomenológicas que 
envolvem a vontade, a psicomotricidade e a afetividade. Porém, todas as funções 
psíquicas devem ser investigadas em todos os casos. Além de exercitarmos a descrição 
psicopatológica de cada caso, também é uma boa oportunidade para revermos aspectos 
importantes a serem descritos na história clínica (anamnese) dos pacientes. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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 CASO CLÍNICO 1 
Porque é que, na maior parte das vezes, os homens na vida quotidiana dizem 
a verdade? Porque é mais cômodo, pois a mentira exige invenção, 
dissimulação e memória. 
Friedrich Nietzsche 
 
“ELE NÃO LEMBRA... ELE NÃO SABE”. 
L. de 49 anos, sexo masculino, branco, casado, terceiro grau completo, com 
queixas iniciais de "falhas de memória". 
Aos 40 anos, o paciente começou a apresentar esquecimento para eventos 
recentes da sua vida ou "distrações" freqüentes, como referido pelos pais e 
pela ex-esposa. Concomitantemente, passava por crises conjugais e 
insatisfação no trabalho, vindo a se separar da mulher. 
Nesse período, observou-se uma piora dos esquecimentos descritos no 
parágrafo anterior. 
Por ocasião do seu segundo casamento, obteve uma bolsa de pós-graduação, 
porém não foi capaz de levá-la adiante em função dos esquecimentos 
freqüentes. À época, foi acometido por um episódio depressivo leve, com 
insônia, perda do interesse e prazer especialmente para com seus familiares e 
sensação de angústia. Fez uso de fluoxetina 20 mg/dia por seis meses, com 
remissão total do quadro. 
Aos 43 anos parou de trabalhar, apesar de ter construído uma carreira 
brilhante, em função dos prejuízos provocados pelos esquecimentos. Passou a 
cuidar de sua filha e a realizar pequenos trabalhos domésticos diariamente. 
Seu discurso era marcado por repetições constantes. Foi submetido a uma 
avaliação neuropsicológica que mostrou as alterações psicopatológicas a 
serem descritas nesse caso. Fez uso de donepezil 5 mg/dia por um curto 
período, pois não tolerou os seus efeitos colaterais, e vitamina E 800 mg/dia. 
Aos 46 anos, iniciou avaliação diagnóstica e tratamento no Centro para 
Pessoas com Doença de Alzheimer e outros Transtornos Mentais do HC - 
UFPE. O miniexame do estado mental (MEEM) revelou que o paciente não 
sabia o nome da sua cidade, do local onde se encontrava e em que dia, mês e 
ano estava, dificuldades para lembrar fatos da sua vida passada e os mais 
recentes. A avaliação funcional para atividades de vida diária (AVD) revelou 
um comprometimento de moderado a grave. Apesar de não apresentar 
dificuldades na realização de AVD básicas (cuidados pessoais), o paciente 
pouco comparecia a eventos sociais, se perdia freqüentemente na rua e não 
administrava mais suas finanças nem sua medicação. Mostrava-se sem 
interesse por nada, sua fala era disártrica, embora compreendesse sem 
dificuldade o que lhe era dito. Não apresentava quaisquer alterações de 
comportamento. 
 
 
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História pessoal e familiar sem relatos de patologias. 
Exame físico dentro dos padrões de normalidade. 
Exame neurológico: alerta, sem déficit motor focal, com reflexos profundos 
simétricos (3+/4), reflexo glabelar inesgotável e orbicular dos lábios presente. 
Nervos cranianos mostram-se sem alterações, tônus muscular normal. Prova 
índex-nariz lentificada e simétrica. Marcha apráxica. Equilíbrio estático 
preservado. Sensibilidade superficial e profunda sem alterações. 
Exames complementares 
Hemograma completo, bioquímica sangüínea, provas de função tireoidiana, 
sorologia anti-HIV, sorologia para Lues, exame qualitativo da urina, perfil 
liquórico e radiografia de tórax dentro dos padrões de normalidade. 
Eletroencefalograma (EEG) com mapeamento cerebral – atividade lenta (teta) 
com predomínio frontotemporal à esquerda. Ressonância nuclear magnética 
(RNM) do encéfalo com espectroscopia de prótons e volumetria de 
hipocampos áreas hiperintensas na substância branca dos cornos occipitais 
dos ventrículos laterais, acentuação dos sulcos corticais temporais e, 
notadamente, occipitoparietais, redução volumétrica dos hipocampos – e 
importante aumento da relação mio-inositol/creatina (Mi/Cr) e redução da 
relação N-acetil-aspartato/creatina (Naa/Cr). 
Tomografia por emissão de fóton único (SPECT) – área extensa e bilateral de 
hipoperfusão em região parietal posterior). 
Avaliação neuropsicológica 
A primeira avaliação realizada revelou uma síndrome amnésia grave do tipo 
anterógrada sem quadro demencial estabelecido. O paciente também 
apresentou um grave déficit da atenção comprometendo discretamente a 
memória de trabalho. Desempenho normal em testes de linguagem expressiva 
e receptiva, capacidade de abstração, cálculos e funções visuoperceptivas e 
um leve comprometimento da inteligência "fluida" e preservação da 
inteligência "cristalizada". 
Após quatro anos, a segunda avaliação revelou alterações de memória 
(estruturação de estratégias, fixação, evocação e seletividade), atenção, 
processamento executivo e de planejamento e visuoconstruccionais 
relacionados funcionalmente à região cortical associativa anterior e posterior, 
bilateral e circuitos subcórtico-frontais. Os índices de memória global, verbal, 
visual e evocação tardia mostraram-se inferiores aos limites dos testes 
utilizados de acordo com os percentis para a idade. 
Evolução 
Uma vez realizado o diagnóstico de DA provável (NINCDS-ADRDA) iniciou 
uso de rivastigmina 3 mg/dia, vitamina C 1 g/dia e vitamina E 800 mg/dia. 
 
 
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A rivastigmina foi gradualmente aumentada até 10,5 mg/dia, com melhora 
significativa da apatia, porém notou-se maior prejuízo napraxia e disartria. 
Apresentou piora da qualidade do sono, com constantes despertares noturnos. 
A redução da rivastigmina para 7,5 mg/dia melhorou parcialmente este 
quadro, que remitiu totalmente com a introdução de zolpidem 10 mg/dia. 
No ano seguinte, houve sensível piora da apraxia, acarretando maior 
dependência nas Atividades da Vida Diária (AVDs). Uma acompanhante foi 
contratada para auxiliá-lo. Seus pais observaram também alguns episódios de 
agitação psicomotora à noite, com hipersexualidade e coprolalia. 
Inicialmente, fez uso de lorazepam 2 mg/dia e, posteriormente, mirtazapina 
30 mg/dia, sem sucesso. Após extensa avaliação clínica e laboratorial 
(hemograma, bioquímica sangüínea, EEG e RNM), que não revelou 
informações adicionais, iniciou-se olanzapina 5 mg/dia, com remissão total 
dos sintomas noturnos. 
O último MEEM mostrou grave comprometimento de orientação, atenção, 
cálculo e memória de evocação. Outros domínios que se encontraram 
alterados foram memória imediata, linguagem (repetição), comando, escrita e 
cópia de pentágonos (08/30 pontos). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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CASO CLÍNCO 2 
Seja o senhor quem for, não importa... 
Eu sempre dependi da gentileza de estranhos. 
Tenessee Williams in “Um bonde chamado desejo” 
“SEMPRE PRECISEI DA BONDADE DE ESTRANHOS” 
Paciente M., 45 anos, evangélica, solteira, recebera diagnóstico de esquizofrenia paranóide 
aos 25 anos de idade. Aos 30 anos, passou a relatar que sentia um forte cheiro de enxofre e 
que tudo o que ofereciam para ela comer tinha um gosto amargo. Dessa forma, tinha certeza 
que os familiares queriam envenená-la. O primeiro surto se caracterizou pela presença de 
vozes que a acusavam de ser prostituta e por intensa agitação (quebrou todos os objetos do 
lar). Posteriormente, passou a relatar que, na verdade, se chamava por outro nome e que 
seus pais não eram seus genitores biológicos. Dizia que havia sido abduzida por discos 
voadores e implantada nessa nova casa onde morava. Segundo a família, M. mora no lugar 
onde nasceu e nunca saiu nem mesmo da sua cidade. Não aceitava tratamento e foi 
submetida a diversos internamentos em hospitais psiquiátricos. 
Atualmente, relata que ouve vozes dizendo para ela ir embora e procurar sua verdadeira 
família (que mora nos Estados Unidos). A voz atual é identificada como a voz do Diabo ("O 
Diabo que me manda quebrar tudo e fugir daqui"). A paciente relata que as vozes também 
são uma forma de provação que todos os evangélicos tinham que passar para alcançar o 
Reino dos Céus. 
Diz também que ouve vozes de anjos que conversam com ela. “São vozes boas e que me 
deixam calminha” (as vozes comentam as suas ações ou, às vezes, conversam entre si). 
Relata que os anjos são enviados pelo Espírito Santo para orientá-la e que todo evangélico, 
quando aceitava Jesus, tinha que passar por uma provação. 
Apresenta ainda isolamento social, dificuldade em demonstrar e compartilhar afeto, 
passividade ("Tenho que fazer o que as vozes mandam, senão coisas piores podem ocorrer 
comigo"), comportamento esquivo e desconfiada na maior parte do tempo, falta de vontade 
para fazer qualquer tarefa. 
Nos dias que antecedem os piores surtos, há uma clara alteração de seu comportamento. Ela 
torna-se mais arredia com a família, aumenta sua atividade psicomotora, seu olhar torna-se 
perplexo e eventualmente torna-se agressiva. Após os internamentos, refere que a qualidade 
das vozes alterava (passava a ouvir as vozes do Diabo, que ordena que ela fuja). 
Durante o último internamento, a paciente usou olanzapina 20 mg, haloperidol 10 mg e 
clonazepam 4 mg. Optou-se pela troca da olanzapina pela clozapina devido à falta de 
resposta do quadro clínico à primeira. Durante a retirada da olanzapina e a introdução da 
clozapina, houve exarcebação da sintomatologia psicótica. Aumentou-se a dose do 
haloperidol para 15 mg e introduziu-se diazepam até a dose 50 mg para controle desses 
episódios. Após o alcance da dose de 200 mg de clozapina, não houve novos a intensidade 
das vozes diminuíram bastante. Aumentou-se a dose de clozapina gradualmente para 700 
mg, mantendo-se as demais medicações com doses inalteradas (haloperidol 15 mg 
diazepam 50 mg). Com esse esquema terapêutico, foi observada resposta significativa dos 
sintomas negativos (melhorou a interação com outros pacientes e equipe do hospital, 
aumentou a sua comunicabilidade, passou a realizar atividades terapêuticas do hospital). 
 
 
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Entretanto, houve resposta parcial dos sintomas positivos e apresentou novos episódios de 
agitação psicomotora de leve intensidade, controlados com baixas doses de haloperidol 
intramuscular - IM (por exemplo, 5 mg). Paciente continua em acompanhamento 
ambulatorial. 
Sempre relata que vive mais nas casas dos vizinhos do que na sua própria e diz pedir ajuda 
a todos a quem encontra na rua. “Os estranhos são muito bons doutor. Eles são as pessoas 
que mais me tratam bem”. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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CASO CLÍNICO 3 
 
O sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão. 
 
by Antônio Conselheiro 
 
 
“A TRISTE SECA DO SERTÃO NORDESTINO” 
A., mulher, 25 anos, com antecedentes pessoais de dois episódios de convulsão na 
infância (aos 9 e aos 12 anos de idade) na ausência de hipertermia e sem crises 
convulsivas desde essa época. História familiar de epilepsia negativa e pai com história 
de alcoolismo e depressão. 
A paciente fez uso de 10 mg/dia de dextroanfetamina, por prescrição médica, visando a 
redução do apetite devido à obesidade que apresentava desde a adolescência. Após dois 
meses de uso, passou a apresentar insônia, desconfiança dos familiares, delírios de 
conteúdo místico e agitação, que persistiram mesmo após uma semana de interrupção da 
medicação. Trazida ao serviço psiquiátrico, foi tratada com haloperidol 10 mg/dia, com 
o qual obteve remissão completa dos sintomas após quatro semanas. Fez uso dessa 
medicação nos dois meses seguintes, sendo essa suspensa devido à evolução favorável. 
Depois de cinco meses sem uso de antipsicóticos, apresentou quadro compatível com 
depressão grave e idéias de que era a grande responsável pela seca que há décadas mata 
milhares de nordestinos. Após dois meses de tratamento com fluoxetina até 40 mg/dia, 
obteve melhora significativa da depressão, porém apareceram idéias que era uma grande 
assassina. Dizia que as pessoas podiam ler seus pensamentos e que havia na TV e na 
Bíblia mensagens especialmente dirigidas a ela. A fluoxetina foi suspensa e introduzido 
um antipsicótico (haloperidol até 20 mg/dia) com remissão do quadro delirante. 
Manteve-se bem por dois anos, quando interrompeu o tratamento espontaneamente. 
Após seis meses, apresentou novamente quadro depressivo, sendo tratada então com 
imipramina até 175 mg/dia, tendo permanecido eutímica por um ano. Durante o novo 
episódio depressivo grave, voltou a dizer que ouvia vozes que a acusavam de ser a 
responsável pela falta de chuva no sertão do Nordeste. Devido a um aumento da ingesta 
alimentar e ganho de peso, substituiu-se a imipramina por sertralina 50 mg/dia. Após 
seis semanas de uso apresentou quadro delirante, idéias paranóides e agressividade sem 
alteração do humor. Foi reiniciado uso de antipsicótico. A melhora do quadro clínico 
tem sido gradativa. 
 
 
 
 
 
 
 
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72 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
*artigos do autor desse manual (Araujo, Flávio Soares) 
 
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM 5: manual diagnóstico e 
estatístico dos transtornos mentais. 5. ed. Porto Alegre: Artemed, 2014. 
 
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MEDLINE, v. 25, n. 3, 2008, p. 18-25. 
 
*ARAÚJO, F.S.; PETRIBÚ, K.C.L.; BASTOS FILHO, O.C. Depressão em 
Esquizofrenia.In: Bressan, R.A.; Mari, J.; Mercadante, M.T.; Rhode, L.A.; Miguel, 
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SIMS, A. Sintomas da mente: introdução à psicopatologia descritiva. Rio de Janeiro: 
Guanabara Koogan, 2017. 
 
	MANUAL
	SEMIOLOGIA PSIQUIÁTRICA
	Anamnese
	Flávio Soares
	C. Nos primeiros contatos com pacientes muito tímidos, ansiosos ou paranóides, deve-se fazer primeiro perguntas neutras (nome, onde mora, estado civil, profissão, nome de familiares, etc), para apenas, gradativamente, começar a formular perguntas “mai...
	Consta dos seguintes dados:
	1.3. QUEIXA PRINCIPAL E HISTÓRIA DA DOENÇA
	1.5. ANTECEDENTES MÓRBIDOS PESSOAIS E HÁBITOS
	1.8. EXAME FÍSICO GERAL
	Aparelho Circulatório:
	Aparelho Respiratório:
	Aparelho Digestivo:
	Aparelho Gênito-Urinário:
	Registrar quaisquer queixas relativas à micção e às funções genitais. Obs: essas queixas já devem ter sido registradas no interrogatório sintomatológico. Aqui são descritas sumariamente.
	Sistema endócrino:
	1.10. EXAME MENTAL
	2. PRINCÍPIOS BÁSICOS DE PSICOPATOLOGIA DAS FUNÇÕES PSÍQUICAS (EXAME MENTAL QUE DEVE SER ANOTADO NA SEQUÊNCIA DESCRITA ACIMA DA ANAMNESE PSIQUIÁTRICA)
	2.1. PSICOPATOLOGIA DESCRITIVA OBSERVACIONAL
	a sua busca pelo pornográfico, a sua fragilidade e o seu sofrimento.
	A arte dela é o seu “cartão de visita”. Deixa-nos a indagação:
	o que há por trás da bagagem emocional do “cartão de visita” de cada um de nós?
	Bernardo Krivochein em sua crítica sobre o filme “La Pianiste”
	2.2.1. CONDUTA EXPLÍCITA – “CARTÃO DE VISITA” – APRESENTAÇÃO
	Vem
	Vem andar sobre os meus sonhos
	Em minhas alucinações o vejo
	O escuto como cachoeiras de águas cristalinas
	O seu caminhar é suave e misterioso
	Não sei quem você é
	Não sei quem eu sou
	Só restam os meus sonhos
	in “A Lagoa” by Janet Frame*
	*escritora neozelandesa – passou anos internada como esquizofrênica devido a um erro diagnóstico - teve sua biografia retratada no cinema em “Um Anjo Em Minha Mesa” (filme devastador!), Nova Zelândia, 1990.
	Temos à escolha um ou outro dos hemisférios cerebrais; mas vamos por este, que é onde nascem os substantivos. Os adjetivos nascem no da esquerda. Descoberta minha, que, ainda assim, não é a principal, mas a base dela, como se vai ver. Sim, meu senhor,...
	- Sexual?
	Sim, minha senhora, sexual. As palavras têm sexo. Estou acabando a minha grande memória psico-léxico-lógica, em que exponho e demonstro esta descoberta. Palavra tem sexo.
	- Mas, então, amam-se umas às outras?
	Amam-se umas às outras. E casam-se. O casamento delas é o que chamamos estilo.
	Senhora minha, confesse que não entendeu nada.
	CONSCIÊNCIA DO EU
	VONTADE (CONAÇÃO)
	Ando repleto de vazios
	Não me encantam as vontades
	Meu desejo de morrer me predomina
	Essa falta de prazer me deixa desajeitado
	Minha independência tem algemas
	Estou sem eternidades
	Manoel de Barros
	A vontade é impotente perante o que está para trás dela.
	Não poder destruir o tempo, nem a avidez transbordante do tempo, é a angústia mais solitária da vontade.
	Friedrich Nietzsche
	C. Ato compulsivo ou compulsão – difere do ato impulsivo por ser reconhecido pelo indivíduo como indesejado e inadequado, assim como pela tentativa de refreá-lo ou adiá-lo. A compulsão é geralmente uma ação motora complexa que pode envolver desde ato...
	D. Negativismo – é a oposição do indivíduo às solicitações do meio ambiente. Verifica-se uma resistência automática e obstinada a todos ou quase todos os pedidos que a equipe de saúde ou a família faz ao paciente. O indivíduo nega-se a colaborar nas c...
	E. Obediência automática – é o oposto ao negativismo. O indivíduo obedece automaticamente, como um robô teleguiado, as solicitações de pessoas que entram em contato com ele. Há profunda alteração da atividade volitiva, na qual a pessoa perde a autonom...
	F. Fenômenos em eco – o indivíduo repete de forma automática, durante a entrevista, os últimos atos do entrevistador (ecopraxia), suas palavras ou sílabas (ecolalia), reações mímicas (ecomimia) ou escrita (ecografia). Os fenômenos em eco revelam acent...
	G. Atos, vontades, impulsos controlados – fazem parte das vivências de influência corporal descritas por Kurt Schneider. O paciente se queixa que forças externas estão comandando todas as suas vontades e atitudes. Geralmente, há também alteração da co...
	PSICOMOTRICIDADE
	Sapo não pula por boniteza, mas por precisão.
	Guimarães Rosa in “Sagarana”
	Estas alegrias violentas têm fins violentos Falecendo no triunfo, como fogo e pólvora Que num beijo se consomem.
	William Shakespeare in “Romeu & Julieta”
	AFETIVIDADE
	Os diamantes são indestrutíveis?
	Mais é o meu amor.
	O mar é imenso?
	Meu amor é maior,
	Mais triste do que a morte,
	Ama e nem sabe mais o que ama.
	Erasmo de Roterdam
	Conceitos importantes para o estudo da afetividade
	CASOS CLÍNICOS
	A terceira parte desse manual traz, para que o leitor possa se exercitar na tarefa de descrever a fenomenologia das funções psíquicas, o relato de três casos clínicos. Não é objetivo, nesse momento, buscarmos hipóteses diagnósticas para os quadros apr...o nome, se 
é alfabetizado (lê e escreve), se tem curso primário completo, se tem curso 
superior e qual. 
F. Etnia: branco – pardo – preto 
G. Quem acompanha o doente 
H. Qual instituição o encaminha 
I. Procedência/endereço. Se mora na cidade, anotar a rua, o número da casa, o 
bairro e a cidade. Se mora em zona rural, anotar o nome da propriedade, usina, 
engenho, fazenda ou sítio, o distrito e o município. Anotar o número do telefone 
da residência, se houver, ou de algum contato próximo (vizinho, posto médico, 
prefeitura, etc.). 
J. Naturalidade (cidade/Estado) 
K. Há quantos anos mora no local atual de residência 
L. Profissão – registrar não só o título genérico (funcionário público, militar, etc.) 
como também precisar realmente a função exercida (vínculo empregatício): 
escriturário, delegado, motorista, servente, etc. 
M. Ocupação atual: dona de casa – ativo – ativo, mas irregular – inativo. 
N. Religião – em caso de ser evangélico, precisar a denominação da igreja: batista, 
presbiteriana, pentecostal. No caso de se ser católico, precisar se realmente 
freqüenta a igreja, se faz parte de alguma comunidade carismática. Se for espírita, 
definir bem se freqüenta centros ou se, na verdade, freqüenta locais determinados 
às práticas de religiões afro-brasileiras. 
O. Há quanto tempo está nessa religião e com que freqüência vai à igreja. 
 
OBSERVAÇÕES 
Desses dados alguns (como cor e filiação) servem, sobretudo, para uma melhor 
identificação nos casos de igualdade de nomes; outros são esclarecedores quanto às 
condições do organismo ou ao tipo de problemas psicológicos próprios de 
determinados pacientes (idade, sexo, estado civil, profissão, instrução, religião), 
outros constituem dados que serão úteis para eventuais estudos sobre epidemiologia 
das doenças mentais e sobre suas condições reais de assistência, indispensáveis a 
qualquer tentativa séria de planejamento de assistência psiquiátrica no Estado 
(naturalidade, residência, entidade ou pessoa que solicitou internamento). 
Finalmente, aspectos relacionados ao estado civil e à religião, por exemplos, podem 
atuar como estressores psicossociais (life events). Esses estressores podem ter 
contribuído para o desencadeamento do transtorno mental, bem como para uma pior 
ou uma melhor evolução do mesmo. 
 
 
 
 
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1.3. QUEIXA PRINCIPAL E HISTÓRIA DA DOENÇA 
 
Descrever (de preferência com as palavras do paciente) sintomas, sinais e 
comportamentos desde o início do último episódio até o presente momento. São 
recomendadas as seguintes perguntas: você já consultou, no passado, algum profissional 
para tratar de problemas nos nervos, psicológicos ou psiquiátricos; há quanto tempo foi 
a primeira consulta; já tomou remédios para os nervos; há quanto tempo tomou pela 
primeira vez; você já procurou ajuda de padre, pastor, benzedeira, centro espírita para 
solucionar o seu problema; deixou de fazer tratamento por orientação de algum deles; já 
houve internação psiquiátrica; há quanto tempo foi a primeira internação; quantas 
internações psiquiátricas você teve até hoje; em média, quanto tempo duram as 
internações; 
Quando o paciente é trazido por outras pessoas, procurar saber do acompanhante quais 
foram os primeiros indícios de anormalidade do comportamento observado e há quanto 
tempo ocorreram. Descrever a seguir a evolução cronológica dos sintomas e sua ordem 
de aparecimento, quais tratamentos foram realizados ou tentados e quais as respostas 
aos mesmos. 
Na reconstituição dos tratamentos anteriores, deve-se anotar os médicos e serviços 
consultados, remédios tomados, duração de seu uso e hipótese acerca das causas de seus 
eventuais fracassos. 
 
1.4. INTERROGATÓRIO SINTOMATOLÓGICO – questionar de acordo com as 
regras clássicas da anamnese. 
 
1.5. ANTECEDENTES MÓRBIDOS PESSOAIS E HÁBITOS 
 
Registrar em primeiro lugar as condições de gestação e parto do paciente; se a mãe 
passou bem durante a gravidez; se houve alguma doença infecciosa, tóxica ou carencial, 
ou se sofreu traumatismos emocionais, se a gestação foi a termo ou prematuro; se o 
parto foi normal, muito demorado, a fórceps ou operatório; e finalmente se o paciente ao 
nascer estava em cianose ou se custou muito a respirar. Todos esses dados são 
importantes porque tanto as doenças maternas ocorridas durante a gestação (sobretudo 
as infecciosas) como os traumatismos do parto ou asfixia prolongada ao nascer podem 
determinar na criança lesões cerebrais mais ou menos extensas capazes de condicionar, 
por exemplos, retardamento intelectual e predisposição convulsiva. Investigar, em 
seguida, o desenvolvimento psicomotor na primeira infância, sobretudo se aprendeu a 
falar, a andar e a controlar esfíncteres nas idades habituais. Um grande atraso nesses 
aprendizados é em geral sintomático de um retardamento intelectual global. É 
importante procurar saber se o paciente urinou na cama até muito tarde, se andava 
durante o sono (sonambulismo) e se apresentava pesadelos freqüentes, pois todos esses 
sinais podem ser indicativos de lesão cerebral localizada, capaz de condicionar sintomas 
paroxísticos epilépticos ou transtornos da personalidade. Essa investigação é 
importante, principalmente, nos casos de pacientes adolescentes e jovens. Pode se tornar 
absolutamente desnecessária diante de pacientes adultos ou idosos. 
Se for um paciente do sexo feminino, conseguir informes acerca do funcionamento dos 
órgãos da reprodução: idade da menarca (primeira menstruação); condições habituais 
 
 
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9 
dos catamênios (menstruações); intervalo de um para o outro; ocorrência de cefaléia 
durante o mesmo ou de insônia na fase pré-menstrual. 
Se for casada: idade do casamento, número total de gestação, número de gestações a 
termo e de abortos, número de filhos vivos e respectivo estado de saúde. 
Se já está na menopausa: idade em que teve o último catamênio; a ocorrência de 
sintomas neurovegetativos ou psíquicos. Todos esses dados são importantes em face da 
repercussão que os distúrbios endócrinos podem ter sobre o equilíbrio psíquico da 
mulher. 
Finalmente, todo o passado mórbido do paciente: 
Doenças próprias da infância e demais doenças infecciosas ou parasitarias = sarampo, 
catapora, parotidite, difteria, asma, disenterias (amebíase, giardíase), febre tifóide, 
hepatite infecciosa, malária, coqueluche. 
Doenças venéreas: gonorréia, cancro duro, sífilis, aids. 
Traumatismo craniano grave com perda prolongada da consciência; registrar a idade da 
ocorrência e o período de inconsciência. 
Convulsões. 
Quaisquer outras doenças graves, prolongadas ou invalidantes – tuberculose pulmonar, 
cardiopatias, polimielite, etc. 
Intervenções cirúrgicas em geral. 
Certas doenças infecciosas como o sarampo, a febre tifóide podem se acompanhar de 
reações meningoencefalíticas, às vezes clinicamente imperceptíveis, capazes, porém, de 
deixar seqüelas duradouras no córtex cerebral. 
Os traumatismos cranianos graves podem deixar lesões duradouras, capazes de 
condicionar sintomas epilépticos ou distúrbios de conduta mais ou menos graves. As 
doenças graves, prolongadas ou invalidantes e as intervenções cirúrgicas são 
importantes, sobretudo pelas repercussões psicológicas que possam ter tido sobre a 
personalidade do paciente. 
Descrever os episódios psiquiátricos anteriores. 
Tentativas de suicídio (forma e números). 
ATENÇÃO: SE AS TENTATIVAS DE SUICÍDIO ESTIVEREM 
RELACIONADAS À HDA, É NA HDA QUE ELAS DEVEM SER 
MINUCIOSAMENTE DETALHADAS. NÃO DEVE HAVER NENHUM TIPO 
DE RECEIO EM EXPLORAR JUNTO AO PACIENTE AS MOTIVAÇÕES E OS 
MÉTODOS QUE ELE UTILIZOU PARA TENTAR SE MATAR. NÃO HÁ 
RISCOS DE ESTIMULARMOS O SUICÍDIO. PELO CONTRÁRIO, AO FALAR 
O PACIENTE ALIVIA SUAS DORES. CASO O PACIENTE SE NEGUE A 
FAZER ESSE RELATO, DEIXAR ESSA ATITUDE BEM DOCUMENTADA NA 
DESCRIÇÃO DO EXAME MENTAL. 
Brigas e agressões. 
Problemas legais (processos). 
Problemas coma polícia. 
Hábitos tóxicos: fumo (cigarro comum – relatar a quantidade), álcool (relatar como o 
paciente faz uso da bebida), uso de benzodiazepínicos, anfetaminas, maconha, crack, 
drogas injetáveis, cola, etc. SE A DEPENDÊNCIA QUÍMICA FOR A HDA, 
DESCREVER TUDO ISSO NA HDA! 
 
O abuso do álcool, das anfetaminas e do crack, por exemplos, podem levar a psicoses 
graves; o uso da maconha pode significar um sintoma de desajuste emocional. 
 
 
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1.6. ANTECEDENTES FAMILIARES 
Procurar saber, inicialmente, se os progenitores ainda são vivos e que idades têm; 
gozam-se saúde ou sofrem de alguma doença. Se forem mortos quais as causas da 
morte. Pesquisar os respectivos traços de personalidade dos pais: calado, falante, calmo, 
irritável, explosivo, alegre, triste, seco, afetuoso, autoritário, intransigente, tolerante, 
compreensivo, reclamador, gosta de se fazer de vítima, etc. 
Procurar saber se entre os antecedentes (avós ou colaterais – irmãos tios e primos) 
houve algum caso de nervosismo, retardamento mental, loucura (com ou sem 
tratamento), ataques (epiléticos ou histéricos), uso imoderado de bebidas alcoólicas, 
conduta anti-social ou criminosa e suicídios. 
Os informes acerca da idade, estado de saúde, causa da morte dos progenitores e do 
número total de filhos mortos ou sobreviventes fornecem uma idéia acerca das 
condições sanitárias da família e da existência de possíveis predisposições a doenças 
degenerativas ou infecciosas. 
Os traços de personalidade dos pais ajudam não só a identificar a presença de certas 
predisposições hereditárias (como esquizofrenias p. ex.), como, sobretudo permitem 
compreender as condições psicológicas em que se deu a formação da personalidade do 
paciente. Os dados acerca de doenças mentais e de distúrbios do comportamento entre 
parentes, antecedentes e colaterais dão uma idéia das predisposições das psicopatias 
familiares em geral. 
 
1.7. ANTECEDENTES SOCIAIS - CURVA DE VIDA - PERSONALIDADE PRÉ-
MÓRBIDA 
 
Neste item procura-se investigar as circunstâncias da formação da personalidade do 
paciente e explorar todos os setores de sua vida em que possam ter ocorrido 
traumatismo ou conflitos afetivos. 
Os diversos aspectos investigados podem ser agrupados nos cinco tópicos seguintes: 
a) Condições sociais e psicológicas da vida infantil. 
– Registrar quantos filhos houve ao todo do matrimônio dos pais, quantos são 
atualmente vivos e qual é a posição do paciente na ordem dos irmãos. É muito prático 
representar a série de irmãos por símbolos masculino e feminino com a idade inscrita no 
centro e o símbolo correspondente ao paciente devidamente assinalado. 
- Situação jurídica, social, econômica da família; se os pais são casados no civil 
e no religioso, se houve separação; profissão do pai e da mãe, situação econômica de 
um modo geral (equilibrada, apertada, extrema penúria, satisfatória); situações de 
moradia atual. 
 - Relações efetivas e atividades dos pais, grau de harmonia entre os progenitores, 
atitudes de predileção ou rejeição em relação aos filhos, métodos pedagógicos (mimos 
excessivos, castigos físicos, etc.). 
- Ajustamento do paciente em criança: traços de temperamento, relação com os 
adultos e com as demais crianças (isolamento, liderança nas brincadeiras coletivas, 
brinquedos preferidos, distúrbios emocionais), tiques, gagueira, chupar dedo, roer unha, 
fobias, crises de birra, etc. 
OBS: fica evidente que em paciente adulto e idoso não se faz tão importante a 
investigação do item a. Ou seja, quanto mais jovem o paciente maior será a importância 
da investigação descrita no item acima. 
 
 
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b) Escolaridade – idade da alfabetização, tempo que freqüentou escola e série 
atingida, curso realizado, idade em que foi concluído e respectivo aproveitamento. 
c) Vida profissional – idade em que começou a trabalhar regularmente, 
empregos sucessivos, situação atual, aposentadoria por invalidez (deve ser especificado 
se a causa da invalidez foi o transtorno mental ou não). 
d) Vida religiosa: explora aqui o que foi citado na identificação. 
e) Psicosexualidade e vida sentimental – idade que teve as primeiras noções 
sobre sexo (gestação, parto, coito) e reação psicológica às mesmas, idade das primeiras 
experiências masturbatórias; ocorrência de experiências homossexuais, idade e 
vicissitudes das primeiras experiências heterossexuais, idade do noivado e casamento, 
ajustamento conjugal, disfunções eréteis, uso de métodos anticoncepcionais; aventuras 
extraconjugais; frustrações e desenganos amorosos; idade em que começou a namorar, 
etc. 
 OBS: a não ser em situações específicas como nos transtornos da sexualidade e 
nos transtorno mentais que evoluam com alterações na esfera sexual, não é apropriado 
realizar essa investigação em todos os casos. O bom senso não nos permitirá, por 
exemplo, realizar investigação de caráter tão íntimo diante de pacientes que vemos pela 
primeira vez na vida, muitas vezes adultos ou idosos, e com os quais ainda não 
tenhamos praticamente nenhum vínculo terapêutico. 
f) Padrões de ajustamento anterior à doença: 
Situação econômica – hábitos sociais: visitas aos amigos, freqüência e reuniões 
festivas, diversões preferidas, militância sindical e política, prática religiosa. Traços de 
personalidade: calado, falante, alegre, triste, emotivo, ansioso, sensível, desconfiado, 
ciumento, irritável, explosivo, meticuloso, intransigente, agressivo, submisso, capaz de 
liderar, sempre disposto a obedecer, preocupado em agradar, gostando de se fazer de 
mártir, etc. 
ENFATIZANDO: esses dados dos antecedentes sociais possuem tanto maior 
importância quanto mais jovem for o paciente e mais provável a influência dos 
fatores emocionais no condicionamento de sua doença atual. No caso de um 
paciente senil, por exemplo, será suficiente reconstituir as grandes etapas da curva 
de vida. Num paciente de vinte anos, porém, cujo quadro mórbido, segundo a 
história, parece ter sido precipitado por um traumatismo efetivo, quanto mais 
minuciosos forem os informes colhidos neste item, mais elementos terá o terapeuta 
para fundamentar o diagnóstico e programar o tratamento. Certos diagnósticos, 
como os dos transtornos conversivos ou da personalidade, dependerão quase que 
exclusivamente desse informes. 
 
1.8. EXAME FÍSICO GERAL 
 
Registrar o estado geral de nutrição, o estado do panículo adiposo, da musculatura, da 
pele e das mucosas; a temperatura axilar, a existência de enfartamentos ganglionares e 
de edemas. Proceder em seguida a um exame sumário dos aparelhos da vida vegetativa. 
 
Aparelho Circulatório: 
Verificar a pressão arterial e auscultar o coração, registrando todas as anormalidades 
encontradas ou apenas chamando a atenção para alguma anormalidade que não tenha 
sido possível identificar bem. 
 
 
 
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Aparelho Respiratório: 
Registrar as alterações do ritmo respiratório e a ocorrência de tosse e expectoração. 
Aparelho Digestivo: 
Indagar inicialmente sobre queixas digestivas em geral: pirose, vômitos, cólicas, 
constipação intestinal, etc. Fazer uma palpação sumária do abdômen. 
Aparelho Gênito-Urinário: 
Registrar quaisquer queixas relativas à micção e às funções genitais. Obs: essas queixas 
já devem ter sido registradas no interrogatório sintomatológico. Aqui são descritas 
sumariamente. 
Sistema endócrino: 
Estar atento aos indícios mais evidentes: bócio, exoflalmia, hirsutismo, acromegalia, 
etc. 
1.9. EXAME NEUROLÓGICO 
Só deve ser realizado quando houver conhecimento clínico sobre o mesmo. 
Um exame neurológico sumário deve incluir as seguintes pesquisas: 
 A.Inspeção: malformações grosseiras da cabeça, da coluna ou das extremidades. 
B. Pares cranianos: 
I – Identificação dos odores 
II – Diminuição da acuidade visual, sobretudo se recente ou rápida, amaurose, 
campos visuais, fundo do olho. 
III, I, VI – Diplopia, ptose palpebral,paralisia isoladas dos pares e do olhar. 
Alterações pupilares: midríase, miose, anisocoria, deformações pupilares. Reflexos foto-
motor, de acomodação e convergência. 
V – Reflexo córneo-palpebral, sensibilidade da face 
VII – Paralisia facial 
VIII – Ramo coclear: hipoacusia, anacusia,. Ramo vestibular: vertigens, nistagmos. 
C. Troficidade: alterações tróficas mais evidentes da pele, dos músculos e dos 
ossos. 
D. Tono Muscular: hipotonia. Hipertonias: sinal de canivete e da roda dentada (não 
esquecer que paciente impregnado com antipsicóticos apresenta sinais 
extrapiramidais). 
E. Força muscular: alterações da força global ou segmentar. 
F. Reflexos clônicos: superficiais: cultâneo-plantares; abdominais. Profundos: estilo 
radiais, bicipitais, tricipitais, patelares, aquileus (registrar o grau de vivacidade e a 
simetria). 
G. Motricidade involuntária e espontânea: tremores, coréia, mioclonias, fasciculações. 
H. Coordenação: Estática – equilíbrio na posição de Romberg. Dinâmica: índice nariz 
e calcanhar – joelho. 
I. Sensibilidade subjetiva: dores, parestesias. Objetiva: superficial e profunda. 
J. motricidade automática: marcha parética, espástica, atáxica, cerebelar, etc. Fala 
disártrica, etc. Mímica: riso e choro espasmódicos. 
K. Sistema nervoso vegetativo: sudorese, palidez, rubor, cianose. 
L. Linguagem: disfasia, afasias. 
M. Gnosias e praxias. 
No caso de ser encontrada qualquer anormalidade é indispensável realizar um exame 
neurológico completo. O exame neurológico é de fundamental importância para a 
identificação da natureza da lesão cerebral condicionadora dos quadros psiquiátricos 
 
 
13 
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orgânicos, retardo mental, epilepsias, demências, etc. O retardo mental acompanha 
algumas vezes as malformações neurológicas ou as encefalopatias precoces. 
Os estados demências e as manifestações epilépticas podem ser condicionados por 
diferentes processos orgânicos: atrofia cerebral, tipo Alzheimer (sintomas afaso-agnoso-
apráxicos); processos vasculares cerebrais: arteriosclerose cerebral generalizada, 
tromboses, hemorragias, angiomas; meningoencefalite sifilítica (com sinais pupilares, 
disartria e sintomas motores), tumores cerebrais, etc. 
OBSERVAÇÃO: o exame físico geral e neurológico devem ser mais ou menos 
detalhados a partir das hipóteses diagnósticas que se formam com os dados da 
anamnese e do exame do estado mental do paciente. Caso o profissional suspeite de 
doença física, deverá examinar o paciente somaticamente em detalhes, caso 
suspeite de distúrbio neurológico ou neuropsiquiátrico, o exame neurológico deve 
ser completo e detalhado. 
 
1.10. EXAME MENTAL 
É a avaliação do estado psíquico em um determinado momento. 
Ele se integra à entrevista psiquiátrica e começa ao primeiro contato com o paciente. O 
exame mental objetiva reconhecer, auxiliar e descrever, da forma mais precisa possível, 
a presença de sinais e sintomas psíquicos. 
O examinador tem que evitar interpretações/julgamentos pessoais e procurar descrever 
detalhadamente o que ouve e observa. Se o paciente não fala, a descrição do seu exame 
poderá limitar-se a uma exposição cuidadosa do seu comportamento. 
Para melhor ordem de exposição, os diversos aspectos a serem investigados são 
apresentados no item dois desse manual, em tópicos separados, seguidos de suas 
respectivas alterações mais freqüentes. Na descrição, porém, os dados obtidos devem 
ser expostos em texto contínuo e sua descrição deve vir nessa sequência da anamnese. 
 
OBSERVAÇÕES: 
 
O EXAME MENTAL DEVE SER DESCRITO COM A CONJUGAÇÃO 
VERBAL NO PRESENTE DO INDICATIVO. 
 
QUANDO TIVER ESTUDADO TODO EXAME MENTAL, NO FINAL DA 
DESCRIÇÃO O MÉDICO DEVER REALIZAR A SÚMULA COMO 
EXEMPLIFICADA NO FINAL DESSE MANUAL. 
 
 
1.11. SOLICITAÇÃO E/OU AVALIAÇÃO DE EXAMES COMPLEMENTARES 
Exames e dosagens laboratoriais gerais, exame do líquido cerebrospinal, 
eletroencefalograma (EEG), psciodiagnóstico, testes neuropsicológicos, exames de 
neuroimagem estrutural e funcional, etc. Nesse momento da graduação, vocês ainda 
não têm condições de solicitarem exames complementares. Então, escrevam: não 
solicitados. 
 
 
 
 
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1.12. HIPÓTESES DIAGNÓTICAS (DIAGNÓSTICO MULTIAXIAL – CINCO 
EIXOS – A HISTÓRIA DA PESSOA E NÃO APENAS DA DOENÇA) 
 
A. EIXO I - devem ser diagnosticados os transtornos mentais (exceto os especificados 
no eixo II). Pesquisamos esse eixo nos seguintes tópicos da Anamnese Psiquiátrica: 
HDA; Antecedentes Pessoais (AP); Interrogatório Sintomatológico (IS); Antecedentes 
Sociais – Personalidade Pré-mórbida – Curva de Vida (AS); Exame Físico Geral (EFG); 
Exame Neurológico (EN) e Exame Mental (EM). 
B. EIXO II - devem ser especificados, se houver, os transtornos da personalidade 
(Personalidades Patológicas - PPs) e retardo mental. Pesquisamos esse eixo na HDA; 
nos AP; nos AS; no EFG, no EN e no EM. 
C. EIXO III – devem ser especificadas quaisquer doenças, diferentes das mencionadas 
nos eixos I e II (exemplos: infecções, hipertensão arterial, diabetes, câncer, etc) que o 
paciente possa apresentar ao longo da sua história e que possam interferir ou não na 
evolução clínica dos transtornos dos eixos I e II. Serão descritas as condições médicas 
gerais (clínica médica) que porventura coexistam com o transtorno mental. 
Pesquisaremos na HDA; no IS, nos AP; no EFG e no EN. 
D. EIXO IV - devem ser especificados os problemas psicossociais e ambientais. 
Descreveremos a ocorrência de fatores (chamados “life events” – estressores 
psicossociais) que possam ter sido importantes no desencadeamento de um transtorno 
mental e/ou que estejam prejudicando a evolução clínica/tratamento dos mesmos. 
Pesquisamos na Identificação; na HDA e nos AS. 
E. EIXO V - devem ser realizadas avaliações globais do funcionamento do paciente 
(comparando o funcionamento um ano antes do início dos transtornos especificados no 
eixo I e II). Avaliação do funcionamento global atual do paciente tendo como 
comparação o ano anterior ao início do transtorno mental. Pesquisamos na HDA e nos 
AS. 
Exemplo clínico de um diagnóstico multiaxial: em minha dissertação de mestrado e 
tese do primeiro doutorado estudei a presença de quadros depressivos que podem 
ocorrer nas Esquizofrenias. Usei o diagnóstico multiaxial e darei o exemplo de uma das 
pacientes acompanhadas no estudo. 
Eixo I: Transtorno Esquizofrênico – tipo clínico – Esquizofrenia Paranóide; 
Eixo II: não havia evidência de transtorno da personalidade ou de retardo mental; 
Eixo III: Hipertensão Arterial Sistêmica e Diabetes; 
Eixo IV: foi estuprada na juventude; deixou de usar os antipisicóticos; diversos 
internamentos; assassinato do irmão mais novo. 
Eixo V: advogada, há 18 anos não exerce a profissão, tendo sido aposentada por 
invalidez. 
Dessa forma, temos um olhar não só sobre a doença mental, mas sobre o doente. 
Buscamos a “história da pessoa” e não apenas da doença. 
 
 
 
 
 
 
 
 
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1.13. PLANEJAMENTO TERAPÊUTICO E AÇÕES TERAPÊUTICAS 
IMPLEMENTADAS – só realizar quando estiverem aptos. Enquanto isso não 
acontece deixar documentado que o planejamento terapêutico não foi realizado. 
A. Medicamentos que vem utilizando 
B. Medicamentos prescritos no momento atual 
C. Proposta para tratamento psicoterapêutico 
D. Encaminhamento para a Terapia Ocupacional 
E. Cuidados de enfermagem 
F. Procedimentos socioterapêuticos indicados 
Em situações de urgência, por exemplo, uma agitação psicomotora com 
heteroagressividade, deve-se especificar como foi ministrada a medicação proposta, se 
foi necessária a contensão mecânica do paciente, quanto tempo o paciente deve 
permanecer contido, etc. Em situações ambulatoriais, descrever a forma como foi 
prescrita a medicação para o paciente fazer uso em casa, anotar se no momento da 
consulta foi realizada a administração oral o parenteral de alguma substância. Caso haja 
a necessidade de internamento,fazer uma proposta terapêutica para o caso com 
cobertura de, no máximo, 48 horas. Após esse período o paciente deverá ser reavaliado. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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2. PRINCÍPIOS BÁSICOS DE PSICOPATOLOGIA DAS FUNÇÕES 
PSÍQUICAS (EXAME MENTAL QUE DEVE SER ANOTADO NA 
SEQUÊNCIA DESCRITA ACIMA DA ANAMNESE PSIQUIÁTRICA) 
 
...Não se aprende, senhor, na fantasia 
sonhando, imaginando ou apenas estudando, 
senão vendo, tratando e pelejando” 
 
Camões in “Os Lusíadas” 
 
Adicionado ao exame físico e à anamnese, o exame mental, PSICOPATOLOGIA, é a 
ferramenta profissional fundamental em saúde mental. A psicopatologia é o estudo 
sistemático do comportamento, cognição e das experiências subjetivas que afligem os 
seres humanos: é o estudo dos produtos de uma mente com um transtorno mental. Uma 
das divisões da psicopatologia é: a. Explicativa e b. Descritiva. 
A. Explicativa: divide-se em diversas abordagens, como por exemplos, a 
PSICODINÂMICA e a COMPORTAMENTAL. Elas buscam supostas explicações, 
com base em conceitos teóricos (a partir de uma base psicodinâmica - mecanismos de 
defesas, comportamental ou existencial, etc). Teóricos que abordam esse tema: Jaspers, 
Freud, Jung, Melaine Klein, Lacan, etc. Não é objetivo desse manual estudá-la. 
B. Descritiva: consiste na descrição e na categorização precisas de experiências 
anormais (da forma como são informadas pelo paciente e observadas em seu 
comportamento). Ou seja, a descritiva evita explicações teóricas para eventos 
psicológicos. Ela pode se dividir em B.1. OBSERVACIONAL (descreve aspectos 
objetivos, como por exemplo o comportamento do paciente durante a entrevista – vide 
conduta explícita abaixo). Porém, existe a necessidade de observa-se mais que o 
comportamento. Precisamos realizar a avaliação empática das experiências subjetivas, 
ou seja, exercer a B.2. FENOMENOLOGIA, que estuda os eventos psicológicos ou 
físicos, sem “enfeitá-los” com explicação de causa ou função. Quando usada em 
psiquiatria, a fenomenologia envolve a observação e a categorização de eventos 
psíquicos anormais, as experiências internas (subjetivas) do paciente e seu 
comportamento conseqüente. O profissional tenta entender o evento ou fenômeno 
psíquico. Para ter sucesso, necessita exercitar sua capacidade de empatia. EMPATIA, 
como termo psicodinâmico, significa “sentir-se como” e ou “colocar-se no lugar do 
outro”. Em psicopatologia descritiva é um instrumento clínico que precisa ser utilizado 
com habilidade para “medir” o estado subjetivo interno de outra pessoa. Experimentar 
algo com a experiência de outra pessoa – o paciente – não pode ser medido, computado. 
Depende da troca (relação terapeuta-paciente). Todas as descrições fenomenológicas 
das funções psíquicas abordadas nesse manual seguirão o modelo fenomenológico 
proposto por Karl Jaspers (neurofisiologista alemão e considerado o “pai” da 
psicopatologia). Seu tratado é a “bíblia” para o profissional que optar pela atuação em 
saúde mental. Porém, buscamos em obras atualizadas uma linguagem de mais fácil 
compreensão. O presente manual se comparado, porventura, ao Tratado de 
Psicopatologia de Karl Jaspers seria como um grão de areia em um imenso deserto. 
Dessa forma, esse resumo é voltado para o estudante que trabalhará com a saúde das 
pessoas (independente da área de estudo que possa seguir). 
 
 
 
 
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2.1. PSICOPATOLOGIA DESCRITIVA OBSERVACIONAL 
 
Através do domínio de uma arte nobre, Érika Kohut esconde 
a sua busca pelo pornográfico, a sua fragilidade e o seu sofrimento. 
A arte dela é o seu “cartão de visita”. Deixa-nos a indagação: 
o que há por trás da bagagem emocional do “cartão de visita” de cada um de nós? 
 
Bernardo Krivochein em sua crítica sobre o filme “La Pianiste” 
 
2.2.1. CONDUTA EXPLÍCITA – “CARTÃO DE VISITA” – APRESENTAÇÃO 
 
Descrever, da maneira mais objetiva possível, as circunstâncias em que se realizaram a 
entrevista e o exame somático e a atitude do paciente durante os mesmos; reação ao 
convite para ser entrevistado, postura, marcha, expressão facial, olhar, gesticulação, 
peculiaridades do vestuário e do arranjo pessoal (por exemplo: cabelos), rapport 
(relação com o examinador durante à entrevista) . Atitude geral: amigável, cooperativa, 
indiferente, negativista, perplexa, desconfiada, de devaneio, etc. Cuidados com higiene, 
odores, presença de fezes ou urinas, etc. 
Logo no início da entrevista, o olhar e, com ele, toda comunicação não verbal, já tem 
sua importância: é o centro da comunicação, que inclui toda carga emocional do ver e 
ser visto, do gesto, da postura, das vestimentas, do modo de sorrir ou expressar 
sofrimento. A primeira impressão que o paciente produz no entrevistador é, na verdade, 
o produto de uma mescla de vários fatores, como a experiência clínica do profissional, a 
transferência que o paciente estabelece com ele, aspectos contratransferenciais do 
entrevistador, valores pessoais e preconceitos que o profissional, querendo ou não, 
carrega consigo. Além disso, há grande dose de intuição que, lapidada pelo estudo e 
amadurecida pela prática clínica, pode se tornar instrumento valioso de conhecimento e 
ação. Um fator importante nas fases iniciais de avaliação do paciente é notar e descrever 
o aspecto global do doente, expresso pelo corpo e pela postura corporal, pela 
indumentária (roupas, sapatos, etc.), pelos acessórios (colares, brincos, piercing, etc.), 
por detalhes como maquiagem, perfumes, odores, marcas corporais (tatuagens, 
queimaduras, etc.). A aparência do paciente, suas vestes, seu olhar, sua postura, revela 
muito do seu estado mental interior e é recurso fundamental para o diagnóstico. 
Descrevemos, a seguir, alguns elementos a serem detalhados ao ser exposta a conduta 
explícita do paciente durante a entrevista. Observemos o quanto eles devem ser bem 
utilizados na clínica. Caso contrário, cairemos no risco de se “etiquetar” as pessoas. 
 
A. POSTURA GERAL - ATIVA – verificada por meio da postura, da iniciativa, da 
fala. Paciente com energia toma iniciativa, sugere o que fazer. Exemplos de posturas 
excessivamente ativas são: pacientes histriônicos, maníacos, alguns delirantes, etc. 
PASSIVA – paciente apático, “largado”, indiferente ao que acontece na entrevista. 
Exemplos: quadros demenciais, depressões, personalidade dependente, esquizofrenia 
crônica, etc. 
 
B. ROUPAS E ACESSÓRIOS SEGUNDO OS QUADROS CLÍNICOS – 
ANOREXIA NERVOSA: roupas largas e escuras; DEMÊNCIA: pode apresentar 
higiene e roupas descuidadas, dentes sujos, ausência de senso crítico em relação à 
aparência; DEPRESSÃO: às vezes, roupas desalinhadas ou sujas, cabelos despenteados 
 
 
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(em desalinho), higiene descuidada, sem maquiagem, preferência por roupas escuras; 
ESQUIZOFRENIA: nos pacientes mais crônicos, pode-se notar higiene e roupas 
descuidadas e sujas, indiferença pela vestimenta. Podem apresentar roupas e acessórios 
bizarros que expressão delírios (medalhas, colares e coroas que podem ter significado 
no delírio) ou desorganização comportamental; HISTERIA E MANIA: roupas 
chamativas, roupas excessivamente eróticas (exemplos: muito curtas ou decotadas), 
roupas impróprias para o horário e/ou para a ocasião, muita maquiagem, perfume em 
excesso; PERSONALIDADE BORDERLINE: roupas extravagantes, muitos 
piercings, marcas no corpo (podem ser marcas de tentativas de suicídio), tatuagens em 
excesso, cabelos coloridos; TRANSTORNO OBSESSIVO COMPULSIVO E 
PERSONALIDADE OBSESSIVA: às vezes, roupas e acessórios muito “certinhos” 
(roupas passadas de forma impecável, cabelos penteados de modo ultracuidadoso, etc.). 
 
C. ATITUDES GLOBAIS: AFETADA - modo de falar, gesticular e andar muito 
teatral e artificial; ARROGANTE - coloca-se como superior, acima do entrevistador, 
ironiza e critica constantemente; AMANEIRADA - comportamento caricatural,curva-
se diante do entrevistador, diz “vossa excelência”; CONFUSA - parece não entender 
nada, não estar na situação da entrevista; DEPRIMIDA - paciente triste e desanimado 
de modo geral; DESCONFIADA - pelo olhar, postura, pelo modo de ouvir e responder, 
revela desconfiança, medo; DESINIBIDA - contato extremamente fácil, próximo 
fisicamente, trata como se conhecesse o entrevistador há anos, fala e pergunta sobre 
intimidades, sem inibição; DISSIMULADORA - tenta ocultar sintomas ou fatos da sua 
vida com algum intuito; DRAMÁTICA OU TEATRAL - quer chamar a atenção, dá 
grande expressão a coisas corriqueiras; EVASIVA - evita responder a perguntas, dá 
respostas muito gerais e inespecíficas; ESQUIVA: não deseja o contato e foge dele; 
EXCITADA - fala e gesticula muito e de forma acelerada; EXPANSIVA - fala alto, é o 
“dono do pedaço”, comporta-se como se fosse muito importante; GLISCRÓIDE – 
VISCOSA - “GRUDENTA” OU “PEGAJOSA” - difícil de encerrar a entrevista, quer 
atenção na sua prolixidade; HOSTIL OU BELIGERANTE - provoca, irrita, parece 
querer confronto; INDIFERENTE - não parece estar na entrevista, não se sente 
incomodado por estar na entrevista; INIBIDA OU CONTIDA - não encara o 
examinador, demonstra estar pouco à vontade, se segura para não falar; IRÔNICA - faz 
comentários críticos a toda hora, mas não revela superioridade como o arrogante; 
LAMURIOSA OU QUEIXOSA - queixa-se o tempo todo de seus problemas, 
demonstra autopiedade; MANIPULADORA - tenta obrigar o entrevistador a fazer o 
que ele quer, com chantagens, indiretas, ameaças; NÃO-COOPERANTE - não 
colabora com solicitações básicas na entrevista; OPOSICIONISTA OU 
NEGATIVISTA - recusa-se a participar da entrevista, se opõe a tudo que solicitam; 
PERPLEXA - assustado, parece não entender nada do que está acontecendo na 
entrevista; QUERELANTE - discute ou briga com o entrevistador por se sentir 
ofendido ou prejudicado; REINVINDICATIVA - exige, de forma insistente, aquilo 
que julga ser seu direito, mesmo se inadequado; SEDUTORA - elogia e tenta agradar o 
entrevistador, às vezes sexualmente; SIMULADORA - tenta parecer que tem um 
sintoma ou problema que realmente não tem; SUBMISSA - atende passiva e 
imediatamente, sem questionar, a todas as solicitações do entrevistador. 
 
 
 
 
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D. ASPECTO CORPORAL: GLOBAL – atlético, magro, caquético, frágil, abaixo do 
peso, acima do peso, musculoso, robusto, atarracado, disforme, obeso ou obeso 
mórbido, baixo, alto; FÁCIES/ROSTO – agradável, atraente, bonito, feio, disforme, 
repugnante, neutro, pálido, cansado, doloroso, bronzeado, corado, rosado, magro, gordo, 
ossudo, redondo, quadrado, sem maquiagem, maquiagem adequada, maquiagem 
excessiva ou bizarra, lavado, sujo, ensebado, perplexo, triste, alegre, angustiado, 
assustado, desanimado, sem expressão (hipomímico); OLHAR – vivaz, intenso, 
agressivo, vago, sonolento, esquivo, perdido, confuso, assustado, amedrontado, 
perplexo, fixo, abatido, doloroso, bondoso, afetuoso, de compaixão, tedioso, maligno, 
de desprezo, arrogante, irônico; OLHOS – penetrantes, tristes, alegres, arregalados, 
lacrimejantes, avermelhados, inchados por choro, pálpebras caídas (sono ou 
sonolência); CABELOS – limpos, bem-penteados, emaranhados, sujos, oleosos, 
sebosos, com muita caspa, despenteados, curtos, longos, raspados (total ou parcial), 
lisos, crespos, ondulados, encaracolados, encarapinhados ou pixaim, rabo-de-cavalo, 
maria-chiquinha, tranças, afro, alisados, rastafári, punk (moicano), pintados, 
artificialmente aloirados ou oxigenados; PÊLOS FACIAIS – barbeado adequadamente, 
barba bem-feita, longa ou curta, descuidada, bem-cuidada, por fazer, suja, tingida, rala, 
com corte bizarro, tipo de bigode, cavanhaque, costeletas; UNHAS – bem-cortadas, 
longas, limpas, sujas, esmaltadas, com esmalte cuidado ou descascado; DENTES – bem 
ou mal-conservados, limpos, sujos, apodrecidos, com falhas (banguela), muitas cáries, 
gengivite, prótese (dentadura), uso de aparelho ortodôntico; ODOR – agradável, 
desagradável, perfumado adequadamente ou em excesso, fétido, odor de fezes, de urina, 
mau hálito; MOVIMENTOS, POSTURAS E GESTOS – inquieto, esfregando as 
mãos, pernas inquietas, trêmulo, tiques, espasmos, estala lábios ou articulações, franze 
os olhos e/ou lábios, parado, rígido, flácido, largado, curvado, bizarros, afeminados em 
homens e masculinizados em mulheres. 
 
OBSERVAÇÃO: SÃO FÁCIES CLÁSSICAS EM PSIQUIATRIA A APATIA 
INDIFERENTE (PERPLEXIDADE DO PSICÓTICO), A TRISTE 
INDIFERENÇA DO DEPRIMIDO E A BELA INDIFERENÇA DO HISTÉRICO. 
 
 
 
Objeto de Amar 
De tal ordem é e tão precioso 
o que devo dizer-lhes 
que não posso guardá-lo 
sem que me oprima a sensação de um roubo: 
cu é lindo! 
Fazei o que puderdes com esta dádiva. 
Quanto a mim dou graças 
pelo que agora sei 
e, mais que perdôo, eu amo. 
 
Adélia Prado 
 
 
 
 
 
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2.3. PSICOPATOLOGIA DESCRITIVA FENOMENOLÓGICA 
DAS FUNÇÕES PSÍQUICAS 
 
Os seres humanos são como parte de um corpo 
Criados da mesma essência 
Quando uma parte está ferida e sofre, 
As outras não podem permanecer em paz e calmas. 
Se o sofrimento dos outros o deixa indiferente 
E sem sentimentos de tristeza, 
Você não pode ser chamado de ser humano. 
 
Sa’adi, século XIII, Pérsia 
 
A seguir, começaremos a abordar a PSICOPATOLGIA GERAL, com base na 
FENOMENOLOGIA de cada função psíquica. 
 
Apesar de ser absolutamente necessário o estudo analítico das funções psíquicas 
isoladas e de suas alterações, é necessário sempre ressaltar que a separação da vida e da 
atividade mental em distintas áreas ou funções psíquicas é um procedimento 
essencialmente artificial. Trata-se apenas de uma estratégia de abordagem da vida 
mental que, por um lado, é bastante útil, mas, por outro, um tanto arriscada, pois pode 
suscitar enganos e simplificações inadequadas. É útil porque permite o estudo mais 
detalhado e aprofundado de determinados fatos da vida psíquica normal e patológica; 
arriscada, porque facilmente se passa a acreditar na autonomia desses fenômenos, como 
se fossem objetos naturais. 
 
Com o passar do tempo, na prática clínica diária, passa-se inadvertidamente a crer que a 
memória, a sensopercepção, a vontade, a afetividade, etc., são áreas autônomas e 
naturais, separadas umas das outras e com vida própria. Deixa-se de lembrar o que elas 
realmente são, isto é, construtos aproximativos da psicologia e da psicopatologia que 
permitem uma comunicação mais fácil e um melhor entendimento dos fatos. 
 
Eugen Bleuler (psiquiatra suíço e marco referencial na história da psiquiatria mundial) 
advertiu: 
 
Em um ato psíquico, apenas pode ocorrer uma separação teórica, não uma separação 
real, entre as distintas qualidades psíquicas de que se trata. Na observação e descrição 
do mundo das manifestações psíquicas e psicopatológicas tendemos, de há muito, à 
fragmentação: descrevemos funções psíquicas singulares (como a sensação, a 
percepção, a memória, o pensamento...). Se reunirmos estes fragmentos, ficamos com a 
impressão de que a vida psíquica pode ser compreendida como um mosaico, a partir de 
uma soma de manifestações isoladas. Esta impressão, não obstante, não corresponde à 
realidade. Cada função parcial na vida psíquica e cada aspecto da realidade psíquica 
só existem em vinculação estreita com toda a vida e com a realidade psíquica total. 
 
 
 
 
 
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Dessa forma, nunca podemos esquecer: não existem funções psíquicas isoladas e 
alterações psicopatológicas compartimentalizadas desta ou daquela função. É 
sempre a pessoa na sua totalidade que adoece. 
 
Nesse manual, optamos pela “divisão” das funções psíquicas de acordo com a 
predominância de suas alterações em determinados transtornos (ISSO NÃO 
SIGNIFICA QUE ESSAS FUNÇÕES SÓ ESTEJAM ALTERADAS NESSES 
QUADROS CLÍNICOS). 
Transtornos psico-orgânicos: consciência vígil, atenção, orientação, memória e 
inteligência.Transtornos psicóticos: sensopercepção, juízo, pensamento, linguagem e consciência 
do Eu. 
Transtornos afetivos (do humor), antigas neuroses (transtornos ansiosos, somatoformes 
e dissociativos) e personalidades patológicas: vontade, psicomotricidade e 
afetividade. 
 
2.3.1 CONSCIÊNCIA VÍGIL 
 
Agora, porém, o caminho é escuro. Passamos da consciência para a inconsciência, 
onde se faz a elaboração confusa das idéias, onde as reminiscências dormem ou 
cochilam. Aqui pulula a vida sem formas, os germens e os detritos, os rudimentos e os 
sedimentos; é o desvão imenso do espírito. 
 
Machado de Assis in “O Cônego ou metafísica do estilo” 
 
O termo consciência origina-se da junção de dois vocábulos latinos: cum (com) e scio 
(conhecer), indicando o conhecimento compartilhado com o outro e, por extensão, o 
conhecimento compartilhado consigo mesmo. Na língua portuguesa, a palavra 
consciência tem, pelos menos, três acepções diferentes: a. definição neuropsicológica 
– emprega o termo consciência no sentido de estado vígil (vigilância), o que, de certa 
forma, iguala consciência ao grau de clareza do sensório. Consciência aqui é 
fundamentalmente o estado de estar desperto, acordado, vígil, lúcido. Trata-se 
especificamente do nível de consciência (SERÁ O NOSSO OBJETO DE ESTUDO 
EM PSICOPATOLOGIA FENOMENOLÓGICA DA CONSCIÊNCIA); b. 
definição psicológica – conceitua como a soma total das experiências conscientes de 
um indivíduo me determinado momento. Nesse sentido, consciência é o que se designa 
campo da consciência. É a dimensão subjetiva da atividade psíquica do sujeito que se 
volta para a realidade. Na relação do Eu com o meio ambiente, a consciência é a 
capacidade de o indivíduo entrar em contato com a realidade, perceber e conhecer os 
seus objetos; c. definição ético-filosófica – o termo consciência refere-se a capacidade 
de tomar ciência dos deveres éticos e assumir as responsabilidades, os direitos e os 
deveres concernentes a essa ética. É atributo do homem desenvolvido e responsável, 
engajado na dinâmica social de determinada cultura. Trata-se da consciência moral ou 
ética. 
 
 
 
 
 
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2.3.1.1. ALTERAÇÕES QUANTITATIVAS DA CONSCIÊNCIA VÍGIL 
(REBAIXAMENTO DO NÍVEL DE CONSCIÊNCIA) - em diversos quadros 
neurológicos e psicopatológicos, o nível de consciência diminui de forma progressiva, 
desde o estado normal, vígil, desperto, até o estado de coma profundo. Os diversos 
graus de rebaixamento da consciência são: 
 
A. Obnubilação ou turvação da consciência – rebaixamento da consciência em grau 
leve a moderado. À inspeção inicial, o paciente pode já estar claramente sonolento ou 
parecer desperto, o que dificulta o diagnóstico. Há sempre diminuição do grau de 
clareza do sensório, com lentidão da compreensão e dificuldade de concentração. Nota-
se que o paciente tem dificuldade para integrar as informações sensoriais oriundas do 
ambiente. Assim, mesmo não se apresentando claramente sonolento, observa-se, nos 
quadros leves de rebaixamento do nível da consciência, que o doente encontra-se um 
tanto perplexo, com a compreensão dificultada, podendo o pensamento já está 
ligeiramente confuso. 
 
B. Sopor – é um estado de marcante turvação da consciência. O paciente sempre se 
apresenta evidentemente sonolento. Embora ainda possa apresentar reações de defesa, 
ele é incapaz de qualquer ação espontânea. A psicomotricidade encontra-se mais inibida 
do que nos estados de obnubilação. 
 
C. Coma – grau mais profundo do rebaixamento do nível de consciência. Não é 
possível qualquer atividade voluntária consciente. 
 
Iremos encontrar o rebaixamento do nível da consciência, principalmente, no estudo dos 
transtornos mentais orgânicos, mais especificamente: O DELIRIUM. 
 
2.3.1.2. ALTERAÇÕES QUALITATIVAS DA CONSCIÊNCIA VÍGIL – estados 
alterados da consciência, nos quais se têm mudanças parciais ou focais do campo da 
consciência. Uma parte do campo da consciência está preservada, normal, e outra parte, 
alterada. De modo geral, há quase sempre, algum grau de rebaixamento (mesmo que 
mínimo) do nível de consciência. São alterações qualitativas: 
 
A. Estados crepusculares – é um estado patológico transitório no qual uma 
obnubilação da consciência (mais ou menos perceptível) é acompanhada de relativa 
conservação da atividade motora coordenada. Há estreitamento transitório do campo da 
consciência, afunilamento da consciência (que se restringe a um círculo de idéias, 
sentimentos ou representações de importância particular para o indivíduo acometido), 
com a conservação de uma atividade psicomotora global mais ou menos coordenada, 
permitindo a ocorrência dos chamados atos automáticos. Caracteriza-se por surgir e 
desaparecer de forma abrupta e ter duração variável, de poucos minutos ou horas a 
algumas semanas. Durante esse estado, ocorrem, com certa freqüência, atos explosivos 
violentos e episódios de descontrole emocional (podendo haver implicações legais de 
interesse à psiquiatria forense). Geralmente ocorre amnésia lacunar para o episódio 
inteiro, podendo o indivíduo se lembrar de alguns fragmentos isolados. Ocorrem nas 
epilepsias, em intoxicações por álcool ou outras substâncias, após traumatismo 
craniano, em quadros dissociativos histéricos agudos e, eventualmente, após choques 
emocionais intensos. 
 
 
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B. Dissociação da consciência – ocorre a perda da unidade psíquica comum do ser 
humano e sua interação com o meio ambiente. Geralmente é desencadeada por 
acontecimentos psicológicos significativos (conscientes ou inconscientes) que geram 
grande ansiedade para o paciente. Essas crises duram de minutos a horas, raramente 
permanecendo por dias. São clássicas dos Transtornos Dissociativos. Podem ocorrer 
também em alguns quadros de transtornos que evoluem com ansiedade intensa. 
 
C. Transe – assemelha-se ao sonhar acordado, diferindo disso, porém, pela presença de 
atividade motora automática e estereotipada acompanhada de suspensão parcial dos 
movimentos voluntários. Podem ocorrer em contextos religiosos e culturais. Assim, não 
se deve confundir o transe religioso, culturalmente contextualizado e sancionado, com o 
transe histérico (exposto nesse item e que é estudado na psicopatologia dos transtornos 
dissociativos). 
 
D. Experiência de quase-morte (EQM) – um estado especial de consciência é 
verificado em situações críticas de ameaça grave à vida, como parada cardíaca, 
isquemias, acidente automobilístico grave, entre outros, quando alguns sobreviventes 
afirmam ter vivenciado as chamadas experiências de quase morte. São muito rápidas (de 
segundos a minutos) em que um estado de consciência particular é vivenciado e 
registrado por essas pessoas. A maioria relata que viveu uma sensação de paz e 
tranqüilidade imensa, deslocamento muito rápido ao longo de um túnel escuro que, ao 
fim, tinha uma luz particularmente brilhante. Há ainda referência há uma vivência 
rápida de tudo o que aconteceu na vida da pessoa e da sensação da presença de um 
espírito pleno de amor. Recente estudo científico divulgou as sensações mais comuns, 
sendo que 87% dos investigados relataram sensação de paz, 80% de estar fora do corpo, 
78% de estar rodeado de uma luz intensa, 75% de estar em outro mundo, etc. 
 
OBSERVAÇÕES EM RELAÇÃO À SEMIOLOGIA DA CONSCIÊNCIA VÍGIL 
 
A. lembrar que qualquer alteração do nível da consciência repercute no 
funcionamento global do psiquismo. Ele deve ser avaliado em primeiro 
lugar; 
B. observar a fácies e a atitude do paciente e, se possível, notar se ele está 
desperto ou sonolento; 
C. observar se o paciente está perplexo, com dificuldade de integrar 
coerentemente os estímulos ambientais; 
D. lembrar que e por meio da ORIENTAÇÃO (sobretudo temporoespacial) 
que, muitas vezes, se avalia o nível de consciência; 
 
O mistério das cousas, onde está ele? 
Onde está ele que não aparece 
Pelo menos a mostrar-nosque é mistério?... 
... Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: 
--As cousas não têm significação:têm existência. 
As cousas são o único sentido oculto das cousas. 
 Alberto Caeiro (Fernando Pessoa - poeta) 
 
 
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2.3.2 ATENÇÃO 
 
Milhões de itens que são apresentados aos meus sentidos nunca ingressam 
propriamente em minha consciência. Por quê? Porque esses itens não são de interesse 
para minha pessoa. Minha experiência é aquilo que eu consinto em captar. 
Todos sabem o que é a atenção. É o tomar posse pela mente, de modo claro e vívido, de 
um entre uma diversidade enorme de objetos ou correntes de pensamentos 
simultaneamente dados. Focalização, concentração da consciência são a sua essência. 
Ela implica abdicar de algumas coisas para lidar eficazmente com outras. 
 
William James (médico e filósofo) 
 
A atenção pode ser definida como a direção da consciência, o estado de concentração da 
atividade mental sobre determinado objeto. É um conjunto de processos psicológicos 
que torna o ser humano capaz de selecionar, filtrar e organizar as informações. Os 
termos consciência e atenção estão estreitamente relacionados. A determinação do nível 
de consciência é essencial para a avaliação da atenção. 
 
Existem a atenção voluntária e a espontânea. A primeira exprime a concentração ativa 
e intencional da consciência sobre um objeto. A segunda é suscitada pelo interesse 
momentâneo, incidental, que desperta este ou aquele objeto. 
 
É importante destacarmos dois conceitos relacionados à atenção. TENACIDADE 
consiste na capacidade do individuo de fixar sua atenção sobre determinada área ou 
objeto. Na tenacidade, a atenção se prende a certo estímulo, fixando-se sobre ele. A 
VIGILÂNCIA é definida como a qualidade da atenção que permite ao indivíduo mudar 
seu foco de um objeto para outro. 
 
2.3.2.1. PSICOPATOLOGIA DA ATENÇÃO 
 
A. Hipoprosexia – diminuição global da atenção. É a alteração mais comum e menos 
específica da atenção. Há a perda básica da capacidade de concentração, com 
fatigabilidade aumentada, o que dificulta a percepção dos estímulos ambientais e a 
compreensão; as lembranças tornam-se mais difíceis e imprecisas, há dificuldade 
crescente em todas as atividades psíquicas complexas, como o pensar; o raciocinar; a 
integração de informações, etc. Pode ocorrer na esquizofrenia (o déficit de atenção é 
central e há intensa distraibilidade), em quadros depressivos, demenciais, em 
intoxicações por substâncias, no delirium, no transtorno do déficit de atenção e 
hiperatividade (TDAH). O deprimido grave terá hipertenacidade (atenção se fixa em 
aspectos ruins da vida, em situações pessimistas, sentimentos de culpa) e alguma 
diminuição da capacidade de mudar o foco da atenção (hipovigilância). 
 
B. Aprosexia - total abolição da capacidade de atenção, por mais fortes e variados que 
sejam os estímulos utilizados. Pode ocorrer em paciente com demência em estado 
avançado e nos estados de coma. 
 
 
 
 
 
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C. Hiperprosexia – consiste em um estado de atenção exacerbada, no qual há uma 
tendência incoercível a obstinar-se, a deter-se indefinidamente sobre certos objetos com 
surpreendente infatigabilidade. Pode ocorrer, por exemplo, nos quadros de transtorno 
obsessivo compulsivo, nos episódios de mania, etc. Nos quadros maníacos há 
diminuição da atenção voluntária e aumento da atenção espontânea, ou seja, 
hipotenacidade e hipervigilância. A atenção de um indivíduo em fase maníaca salta 
rapidamente de um estímulo para o outro, sem se fixar em algo. 
 
D. Distraibilidade – é um estado patológico que se exprime por instabilidade marcante 
e mobilidade acentuada da atenção voluntária, com dificuldade ou incapacidade para 
fixar-se ou deter-se em qualquer coisa que implique esforço produtivo. A atenção do 
indivíduo é muito facilmente desviada de um objeto para o outro. Pode ocorrer, por 
exemplo, na mania e na esquizofrenia. 
 
OBS: ao contrário da distraibilidade, A DISTRAÇÃO não é patológica, não é um sinal 
de déficit, mas de superconcentração ativa da atenção sobre determinados conteúdos ou 
objetos, com a inibição de tudo o mais. Há, nesse sentido, certa hipertenacidade e 
hipovigilância. Exemplo: um estudante universitário extremamente concentrado em seu 
trabalho de conclusão de curso, está com a atenção totalmente voltada para a finalização 
do mesmo, esquece-se de onde estacionou o carro ou colocou objetos de uso cotidiano. 
 
 OBSERVAÇÕES EM RELAÇÃO À SEMIOLOGIA DA ATENÇÃO 
 
A. perguntar ao paciente e à pessoa que o acompanha se o doente: tem 
dificuldades para se concentrar?; distrai-se com facilidade?; não escuta 
quando lhe falam?; tem problemas para terminar tarefas?; não consegue 
organizar as tarefas?; perde coisas necessárias para a realização de 
tarefas?; 
B. a avaliação mais simples e prática da atenção é pedir ao paciente que olhe 
os objetos que estão na sala da entrevista e que logo em seguida cite o que 
viu. 
 
2.3.3 ORIENTAÇÃO 
 
So she was considering in her own mind 
(as well as she could, for the hot day made her feel very sleep and stupid)... 
when suddenly a White Rabbit with pink eyes run close by her. 
 
Lewis Carroll in “Alice’s Adventures in Wonderland” 
 
Processo integrativo que permite ao individuo saber que ele é ele mesmo, onde se 
encontra e qual é a sua situação no tempo e no espaço. A capacidade de orientar-se é 
classificada em orientação autopsíquica e alopsíquica. A orientação autopsíquica é a 
orientação do indivíduo em relação a si mesmo. Revela se o paciente sabe quem é: 
nome, idade, data de nascimento, profissão, filiação, estado civil, etc. A orientação 
alopsíquica diz respeito à capacidade de orientar-se em relação ao mundo, isto é, 
quanto ao espaço (orientação espacial) e quanto ao tempo (orientação temporal). 
 
 
 
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Orientação espacial 
 
É investigada perguntando-se ao paciente o lugar onde ele se encontra, a instituição em 
que está, o andar do prédio, o bairro, a cidade, o Estado e o país. Também é investigada 
a capacidade do paciente de identificar a distância entre o local da entrevista e a sua 
residência (em quilômetros ou horas de viagem). Em relação à orientação espacial, é 
importante verificar claramente se o paciente sabe o tipo de lugar em que está (por ex. 
hospital, ambulatório, consultório particular, centro de atenção psicossocial – caps), se 
pode dizer o nome do lugar (por ex. Hospital Portugal Ramalho) e onde se situa esse 
lugar. 
 
Orientação temporal 
 
Trata-se de orientação mais sofisticada que a espacial e a autopsíquica. Indica se o 
paciente sabe em que momento cronológico está vivendo, a hora do dia, se é manhã, 
tarde ou noite, o dia da semana, o dia do mês, o mês do ano, a época do ano, bem como 
o ano corrente. Se o paciente tiver dificuldades em responder, deve-se perguntar do 
mais fácil para o mais difícil: Em que ano estamos? Que mês? Que dia da semana? 
Que dia do mês? 
 
Desorientação 
 
 É a denominação genérica do transtorno da orientação. Ela ocorre, sobretudo nos 
estados confusionais, em que a obnubilação da consciência impede um uso adequado 
das percepções do ambiente (ex.: delirium), mas pode ocorrer também em pacientes 
com transtornos de memória (desorientação ammésica das demências); desinteressados 
pelo ambiente (desorientação apática das depressões) ou pela presença de atividade 
delirante (desorientação delirante dos psicóticos). 
 
2.3.3.1. PSICOPATOLOGIA DA ORIENTAÇÃO 
 
A. Desorientação alopsíquica: é a perturbação ou impossibilidade

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