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O Papel da Contabilidade na Governança das Instituições Públicas e Privadas Universidade de Brasília - Campus Darcy Ribeiro Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais - Programa de Pós-Graduação em Ciências Contábeis 26 a 27 novembro de 2015 Qualidade das Informações Contábeis em Empresas Familiares Brasileiras Pós IFRS Rafaela Fracari da Silva Bacharel em Ciências Contábeis Universidade de São Paulo (USP) Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) Departamento de Contabilidade E-mail: rafaelasilva@fearp.usp.br (16) 3315-3919 Av. Bandeirantes 3900 - Monte Alegre - CEP 14040-905 - Ribeirão Preto/SP Silvio Hiroshi Nakao Doutor em Controladoria e Contabilidade Universidade de São Paulo (USP) Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) Departamento de Contabilidade E-mail: shnakao@usp.br (16) 3315-3919 Av. Bandeirantes 3900 - Monte Alegre - CEP 14040-905 - Ribeirão Preto/SP João Carlos de Aguiar Domingues Doutor em Administração de Organizações Universidade de São Paulo (USP) Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) Departamento de Contabilidade E-mail: joaocarlosdomingues@uol.com.br (16) 3315-3919 Av. Bandeirantes 3900 - Monte Alegre - CEP 14040-905 - Ribeirão Preto/SP Resumo O objetivo desta pesquisa foi o de identificar, por meio de um estudo de value relevance, se a qualidade das informações contábeis de empresas familiares melhorou em relação às empresas não familiares, após a adoção das International Financial Reporting Standards (IFRS). Em ambos os grupos foram consideradas apenas empresas brasileiras de capital aberto, no total de 84 familiares e 84 não familiares, durante o período anterior (2007-2009) e posterior (2010-2012) a adoção das normas. Utilizou-se como variável a ser explicada (dependente) o preço da ação das empresas, considerando o fechamento dos meses de dezembro de cada ano. Como variáveis explicativas foram utilizadas o valor patrimonial por ação das empresas no final do exercício social de cada ano, uma variável dummy para o período pós IFRS e outra variável dummy para empresas familiares. Os resultados obtidos sugerem que houve aumento mais significativo na qualidade das informações contábeis de empresas familiares brasileiras de capital aberto quando comparado com as demais empresas da amostra. Palavra chave: Qualidade. Informação. Empresa familiar. IFRS. Método da Pesquisa: MET3 – Empírico/Banco de Dados Área de Conhecimento da Pesquisa: AT3 – Contabilidade Financeira e Finanças O Papel da Contabilidade na Governança das Instituições Públicas e Privadas Universidade de Brasília - Campus Darcy Ribeiro Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais - Programa de Pós-Graduação em Ciências Contábeis 26 a 27 novembro de 2015 1 Introdução A adoção das International Accounting Standards Board (IFRS) no Brasil ocorreu de duas formas: (i) parcialmente no ano de 2008 e (ii) adoção total e obrigatória a partir de 2010. Para Armstrong et al. (2010) entre os benefícios da adoção de IFRS se destacam: uma melhor qualidade informacional, uma maior comparabilidade dos relatórios contábeis, redução da assimetria informacional, aumento na transparência e a diminuição do custo de capital das empresas. Historicamente, no Brasil, grandes empresas brasileiras são controladas por seus fundadores ou pelas famílias dos fundadores e herdeiros. Com a obrigatoriedade de adoção das normas internacionais de contabilidade pelas empresas brasileiras, surge um ambiente favorável para análise da qualidade da informação contábil em empresas de controle familiar. Soma-se a isso o fato de, cientificamente, que pouca atenção tem sido dada à análise desses fatores em empresas familiares (Burkart, Panunzi & Shleifer, 2003). Empresas familiares podem ter características diferentes de empresas não familiares em termos de divulgação de informações para o mercado. Em função do controle familiar e da recorrente alta concentração acionária, podem apresentar restrições à divulgação plena e transparente de informações. Por outro lado, a adoção de IFRS, em função de suas exigências não discricionárias, pode trazer melhoria da qualidade da informação contábil. Diante deste contexto, a presente pesquisa objetiva identificar, por meio de um estudo de value relevance, se a qualidade das informações contábeis de empresas familiares brasileiras de capital aberto melhorou em relação às empresas não familiares brasileiras de capital aberto, após a adoção dos padrões internacionais de contabilidade (IFRS), considerando os períodos anteriores (2007-2009) e posteriores (2010-2012) a adoção das referidas normas. O objetivo supracitado traduz-se na seguinte questão que norteará esta pesquisa: o value relevance da informação contábil de empresas familiares brasileiras de capital aberto, comparadas com as empresas não familiares, melhorou após a adoção das IFRS no Brasil? Além desta introdução, consta na próxima seção a revisão bibliográfica e a apresentação de conceitos essenciais para o entendimento e contextualização da pesquisa, na seção 3 a metodologia, na seção 4 a análise dos resultados e na 5 as considerações finais. 2 Referencial Teórico 2.1 As IFRS As IFRS é um conjunto de normas contábeis a serem seguidas pelas empresas e sua dimensão é internacional. Vários países, a fim de facilitar a compreensão e a comparabilidade das informações contábeis das empresas por todos os usuários (principalmente empresas estrangeiras que possam ter interesses em empregar seus recursos financeiros), vêm adotando as IFRS. Para Antunes, Antunes e Penteado (2007), a adoção destas normas contábeis internacionais pelas empresas mundiais está associada à benefícios econômicos concretos na forma de atração de maior volume de investimentos, uma vez que o processo de globalização trouxe para primeiro plano a demanda por informações contábeis confiáveis e comparáveis para suportar a variedade de transações e operações desse mercado. O Papel da Contabilidade na Governança das Instituições Públicas e Privadas Universidade de Brasília - Campus Darcy Ribeiro Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais - Programa de Pós-Graduação em Ciências Contábeis 26 a 27 novembro de 2015 Para verificar o impacto que as IFRS tiveram na Europa, Barth, Landsman e Lang (2007) analisaram em uma amostra de 21 empresas de vários países e verificaram que as empresas que adotaram voluntariamente as IFRS antes de 2005 apresentaram uma maior relevância na informação contábil. Verificou-se também que a adoção das IFRS melhorou o funcionamento dos mercados de capitais globais, fornecendo informações comparáveis e de alta qualidade para os investidores. Fernandes (2011) estudou o impacto da entrada em vigor das IFRS no nível de gestão de resultados em empresas cotadas nas bolsas de Madrid e Lisboa entre 2002 e 2006. O estudo consistiu na análise dos níveis de accruals e da aplicação do valor justo através da aplicação de regressões, com o objetivo de comparar o período anterior com o posterior à adoção das IFRS. Concluiu que as alterações não são significativas (a qualidade da informação contábil não se alterou após a adoção das normas internacionais). Considerando que o objetivo do presente trabalho consiste em comparar como as práticas das empresas brasileiras familiares e de capital aberto eram antes da adoção das IFRS e como são após a adoção, torna-se pertinente discorrer sobre os aspectos de convergência das normas contábeis brasileiras para as normas IFRS no ambiente institucional brasileiro. Para isso também, será citado o papel do Comitê de Pronunciamentos Contábeis e as implicações da Lei no 11.638/07 e a MP no 449/08. Antes do processo de convergência das normas contábeis brasileira ao padrãointernacional, a contabilidade societária era norteada por normas da Receita Federal, responsável por ser reguladora e fiscalizadora das informações publicadas pelas empresas. Como resultado, as demonstrações contábeis não eram elaboradas de acordo com as disposições técnicas conhecidas mais adequadas, gerando uma perda na qualidade da informação contábil. Dessa forma, surgiu uma forte pressão de acadêmicos, profissionais ligados ao mercado e outros usuários para harmonizar as normas brasileiras com as normas internacionais da contabilidade emitidas pelo IASB. Um dos principais resultados foi a criação do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC), cujo principal objetivo é produzir normas em consonância com os padrões internacionais (Iudícibus, Martins, Gelbck & Santos, 2010; Silva, 2013). Antes da adoção das novas normas internacionais, a contabilidade brasileira era exclusivamente fundamentada na lei. Os contadores procuravam seguir fielmente as regras estabelecidas na lei até mesmo para se livrar de qualquer culpa ou acusação de fraude. O uso de princípios (essência sobre a forma) requer maior julgamento e análise, exigindo maior preparação, mas, por outro lado, permite que se produzam informações contábeis com maior qualidade e utilidade (Iudícibus et al., 2010). Para Lima (2010), no Brasil as normas e práticas contábeis apresentavam características conservadoras, derivadas principalmente do regime tributário instituído. No Brasil, o governo (as instituições fiscais) figurava-se como principal órgão regulador do sistema, interferindo diretamente nos procedimentos e nas práticas contábeis para que se estabeleçam o regime tributário. Nesse cenário, as demais instituições de mercado (Comissão dos Valores Mobiliários) e de classe (Instituto dos Auditores Independentes do Brasil - IBRACON, e Conselho Federal de Contabilidade - CFC) somente participavam no processo regulatório, auxiliando na criação de normas para a contabilidade brasileira. Devido a este vinculo entre a contabilidade e regulamentação por órgãos governamentais e buscando uma adaptação à evolução no ambiente de negócios e ao fortalecimento do mercado de capitais, introduziram-se estas novas práticas contábeis O Papel da Contabilidade na Governança das Instituições Públicas e Privadas Universidade de Brasília - Campus Darcy Ribeiro Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais - Programa de Pós-Graduação em Ciências Contábeis 26 a 27 novembro de 2015 (baseadas em princípios e não em regras), para uma maior transparência e qualidade das informações contábeis pelas companhias brasileiras. Segundo Oliveira e Lemes (2011), o objetivo do processo de convergência contábil foi o de integrar as práticas contábeis entre os diversos países para que a informação contábil possa atender as necessidades dos usuários por parte dos mercados financeiros. Esse processo de convergência tende a adequar diferenças de GAAP’s (Generally Accepted accounting principles) existentes, de modo a permitir a comparabilidade e tornar o capital ainda mais dinâmico entre as economias globais envolvidas. A convergência das normas contábeis brasileiras ao padrão internacional (IFRS) pode ser caracterizada como um processo de migração de um padrão de regulamentação contábil mais code law para o padrão common law, prevalecendo a essência sobre a forma (requer maior conhecimento pelo profissional contábil da operação a ser contabilizada e do cenário envolvido) e com normas baseadas mais em princípios do que em regras (Macedo, Machado, Murcia & Machado, 2011). Segundo Santos (2011), no Brasil o processo de convergência às normas contábeis internacionais se deu em duas fases: (i) Uma primeira fase de adoção da lei 11.638/07 e Medida Provisória 449/08 (convertida na lei 11.941/09), com um conjunto de pronunciamentos abordando temas específicos que deveriam ser aplicáveis a partir do exercício de 2008 (CPCs 01 a 14, exceto o CPC 11, aplicável apenas a partir de 2010). Nesta fase inicial, foi dispensada a reapresentação das demonstrações contábeis de 2007 (o objetivo desta reapresentação seria para uma comparação entre a demonstração de 2008), gerando duas datas alternativas de transição para as novas normas: 01/01/2007 (para as empresas que reapresentaram 2007 conforme as novas normas) ou 01/01/2008. (ii) Uma fase final para o full IFRS aplicável a partir de 2010, com a introdução de outros pronunciamentos sobre novos temas e também a revisão dos outros pronunciamentos emitidos na fase inicial de adoção/transição (CPCs 15 a 43, OCPC 03 e ICPCs 01 a 15). As determinações específicas para a adoção inicial do padrão IFRS estão previstas no CPC 37, que estabelece a obrigatoriedade de convergência total para o padrão IFRS nas demonstrações contábeis de encerramento do exercício de 2010 (a serem apresentadas até março de 2011), com reapresentação das demonstrações contábeis de 2009 conforme as novas normas para fins de comparação, bem como a reapresentação das demonstrações trimestrais de 2010 no novo padrão. Como base, foi utilizada na Lei 11.638/07 a estrutura já existente do CPC, que havia sido criado por meio da Resolução 1.055/05 pelo CFC considerando os seguintes aspectos: (a) a redução de riscos nos investimentos internacionais (quer sob a forma de empréstimo financeiro, quer sob a forma de participação societária), bem como os créditos de natureza comercial, sendo a redução de riscos derivada de um melhor entendimento das demonstrações contábeis, elaboradas pelos diversos países, por parte dos investidores, financiadores e fornecedores de crédito; (b) a maior facilidade de comunicação internacional no mundo dos negócios com o uso de uma linguagem contábil bem mais homogênea e (c) a redução do custo do capital que deriva dessa harmonização, o que no caso é de interesse vital para o Brasil (Ata CFC nº 878). O CFC é o órgão que ficou responsável por traduzir os padrões internacionais para o português e também, adaptá-los ao contexto e ambiente institucional brasileiro, O Papel da Contabilidade na Governança das Instituições Públicas e Privadas Universidade de Brasília - Campus Darcy Ribeiro Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais - Programa de Pós-Graduação em Ciências Contábeis 26 a 27 novembro de 2015 emitindo pronunciamentos, interpretações e orientações técnicas convergentes com as normas internacionais. As inovações trazidas pela Lei 11.638/07 causaram muita inquietação, especialmente para os contadores, gestores, auditores e para o mercado de capitais, importante usuário da informação contábil divulgada. No entanto, pode-se afirmar que estas mudanças foram introduzidas para melhorar a qualidade da informação contábil (para uma maior compreensibilidade para qualquer investidor do mundo, confiabilidade e comparabilidade das informações divulgadas), tendo como foco principal a sua utilidade para os usuários dessa informação (Antunes, Grecco, Formigoni & Mendonça Neto, 2012). Assim, como as demonstrações contábeis são a principal fonte de informações econômico-financeiras das empresas para os usuários em seus processos decisórios e são uma forma importante de se comunicar o desempenho e a governança da empresa aos usuários (principalmente aos investidores) o objetivo da normatização contábil é garantir que estas informações divulgadas sejam compreensíveis, relevantes, confiáveis e comparáveis, ou seja, úteis tanto aos usuários internos como também aos usuários externos. De acordo com Iudícibus et al. (2010), as mudanças mais relevantes que decorrem do processo de internacionalização dos padrões contábeis são as seguintes: primazia da essência sobre a forma, normas contábeis orientadas por princípios e necessidade do exercício do julgamento por parte dos profissionais de contabilidade. 2.2 Value Relevance Para analisar a qualidade informacional das demonstraçõespublicadas e para avaliar como o mercado de capitais reage a essas informações (se a informação contábil está, pelo menos minimamente, refletida no preço das ações das empresas), utiliza-se a metodologia de value relevance. Amir, Harris e Venuti (1993) usou o termo value relevance para descrever a associação entre o mercado de capitais e a informação contábil contida nas demonstrações financeiras. Segundo os mesmos uma variável contábil é de valor relevante se a mesma traduzir uma relação significativa com os preços das ações. Segundo Barth, Beaver & Landsman (2001), em termos operacionais uma informação contábil é considerada relevante se estiver significativamente associada ao valor de mercado das empresas, ou seja, se uma informação contábil tem impacto no preço das ações é porque essa informação é relevante para o mercado de capitais. O estudo feito por Morais e Curto (2009) mostra que, nos países Europeus, as informações em IFRS são mais relevantes que as informações em GAAP’s locais. Os autores também ressaltam que o value relevance das informações contábeis é maior quanto maior for à separação entre as contabilidades societária e fiscal. Já no Brasil, com o intuito de averiguar se as mudanças decorrentes da adoção inicial das IFRS interferiram na relevância da informação contábil, Lima (2010) analisou 107 empresas, que participaram do índice Ibovespa em algum momento durante o período de 1995 a 2009, totalizando 2.277 balanços observados. Os resultados indicaram que a relevância da informação contábil, mensurada por meio dos modelos de preço e retorno, aumentou após a adoção parcial das normas IFRS no Brasil e observou-se maior associação entre as informações de lucro e patrimônio líquido das empresas com o preço das ações. O Papel da Contabilidade na Governança das Instituições Públicas e Privadas Universidade de Brasília - Campus Darcy Ribeiro Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais - Programa de Pós-Graduação em Ciências Contábeis 26 a 27 novembro de 2015 Holthausen e Watts (2001) classificaram os estudos de value relevance em três categorias, podendo um mesmo estudo estar em mais de uma categoria: a) Relative Association Studies (Estudos de Associação Relativa), que comparam a associação entre os valores do mercado de ações (ou alterações desses valores) com formas de mensuração alternativas, tais como um padrão contábil existente e um a ser proposto. Esses estudos realizam normalmente a comparação dos R2 dos modelos de regressão, sendo que o padrão contábil com maior R2 é avaliado como mais relevante; b) Incremental Association Studies (Estudos de Associação Incremental), que investigam se o componente contábil em análise é útil para explicar valores ou retornos ao longo de períodos de tempo, sendo importante incluir outras variáveis. Considera-se um valor relevante se o seu coeficiente de regressão estimado é significativamente diferente de zero; c) Marginal Information Content Studies (Estudos de Conteúdo Informacional Marginal), que investigam se determinado valor adiciona poder informacional aos investidores em relação às informações disponíveis. Tipicamente, são utilizadas metodologias de estudos de evento, onde o interesse é avaliar se a disponibilidade de determinada informação está associada a alterações de valor de ativos (reação de preços), onde reações são consideradas evidências da relevância. De maneira geral, estes estudos são feitos por meio de análise de regressão (para verificar se o comportamento das variáveis pode explicar o comportamento do preço das ações), que possui o preço das ações como variável dependente e as informações contábeis como variáveis independentes. Assim, nesta pesquisa, foi verificado, seguindo a metodologia de value relevance, se a adoção das IFRS trouxe uma maior qualidade na informação das empresas familiares ou das empresas não familiares do cenário brasileiro. 2.3 Empresas Familiares no Brasil e as IFRS De acordo com o dossiê Retrato de Família (2003), os negócios familiares representam 80% do universo empresarial e suas operações respondem por metade do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. No Brasil, as empresas familiares correspondem a mais de 4/5 da quantidade das empresas privadas brasileiras e respondem por mais de 3/5 da receita e 2/3 dos empregos, quando se considera o total das empresas privadas (Oro, Beuren & Hein, 2009). Para Donnelley (1967), a empresa é familiar quando está identificada com os valores de uma família. Para Grzybovski e Lima (2004) empresas familiares são grupos de pessoas ligadas por relações parentais estabelecidas tanto por laços genealógicos, biológicos, quanto sociais, como por ocasião de uniões de casais com filhos oriundos de outros casamentos. Pode-se dizer que uma empresa familiar se inicia com o sonho de seu fundador, porém a medida que evolui são necessário gerenciamento e controle para dar continuidade. Vale ressaltar, que uma das questões sobre empresas familiares está no envolvimento pessoal da família com a gestão da organização, gerando muitas vezes conflitos de poder, de relacionamentos e financeiros já que como características marcantes para estas empresas têm- se a participação majoritária da família no capital da empresa e de membros da família na gestão do negócio. Particularmente neste trabalho, a partir dos diversos conceitos que são dados a empresa familiar optou-se por operacionalizar a definição de empresa familiar pelo vínculo à história de uma ou mais famílias, com uma valorização da figura do fundador e na qual duas O Papel da Contabilidade na Governança das Instituições Públicas e Privadas Universidade de Brasília - Campus Darcy Ribeiro Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais - Programa de Pós-Graduação em Ciências Contábeis 26 a 27 novembro de 2015 ou mais pessoas de uma mesma família (ou de várias famílias, em empresas multifamiliares) são proprietários/acionistas e/ou participam do gerenciamento do negócio. Para a manutenção das empresas familiares no Brasil, Leone (2005), alega que a “globalização dos mercados, à estabilidade da economia brasileira, o fim de um modelo empresarial de mercado fechado e à inevitável pulverização do controle dos grupos nacionais começam a provocar alterações rápidas no perfil da empresa brasileira”. Assim, com o objetivo das IFRS de evidenciar de forma transparente a posição financeira, o desempenho e o fluxo de caixa das entidades, potencializando a atração de capital e investimento devido à utilização de uma linguagem comum nas demonstrações contábeis e também como estas normas permitem uma melhor comparabilidade das empresas de setores comum, as empresas familiares brasileiras, representando o tipo de organização com maior crescimento, com a adoção destas normas tem a possibilidade de uma maior profissionalização na gestão além de aumentar a captação de capital de terceiros (no Brasil e no exterior). Dessa forma, espera-se que com a adesão a estas novas normas e pelo tipo de organização que tem maior crescimento no Brasil, as empresas familiares brasileiras a aumentem a sua qualidade informacional. 3 Metodologia A seleção das empresas analisadas nesta pesquisa foi feita de forma não probabilística e intencional, mas atendeu algumas premissas que são, a seguir, apresentadas e justificadas. Inicialmente, para uma maior padronização dos dados levantados, foi levada em consideração a necessidade de listagem das empresas na BM&FBovespa durante os anos estudados. Para a amostragem de empresas familiares brasileiras de capital aberto, foi utilizado o estudo de Oro e Casagrande (2013) que teve como critério para escolha das empresas a associação de características que constituem os laços familiares. Assim, foram selecionadas, em um primeiro momento, 104 empresas, das quais 49 se identificam como proprietário controlador, 41como sociedade entre irmãos e 14 que possuem muitos familiares acionistas e é denominada como consórcio entre primos. A seguir, consta no quadro 1, as 104 empresas familiares selecionadas de acordo com estes critérios de laços familiares. O Papel da Contabilidade na Governança das Instituições Públicas e Privadas Universidade de Brasília - Campus Darcy Ribeiro Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais - Programa de Pós-Graduação em Ciências Contábeis 26 a 27 novembro de 2015 N. EMPRESAS N. EMPRESAS N. EMPRESAS N. EMPRESAS 1 Aliperti 27 Eucatex 53 Lojas Marisa 79 Rasip Agro 2 All Amer Lat 28 Even 54 Lopes Brasil 80 Rossi Resid 3 Alpargatas 29 Eztec 55 M.Diasbranco 81 Santanense 4 Anhanguera 30 Fer Heringer 56 Mangels Indl 82 Santos Brp 5 Arezzo Co 31 Fibam 57 Marcopolo 83 Saraiva Livr 6 Autometal 32 Fras-Le 58 Marfrig 84 Schulz 7 Azevedo 33 Gerdau 59 Marisol 85 SLC Agricola 8 Baumer 34 Gerdau Met 60 Melhor SP 86 Springer 9 Brasilagro 35 Gol 61 Met Duque 87 Sultepa 10 Braskem 36 Grazziotin 62 Metal Iguacu 88 Suzano Hold 11 Cacique 37 Grendene 63 Metisa 89 Suzano Papel 12 Cambuci 38 Guararapes 64 Mills 90 Tam S/A 13 CC Des Imob 39 Habitasul 65 Minasmaquinas 91 Tecnosolo 14 CCR AS 40 Helbor 66 Minerva 92 Tekno 15 Celul Irani 41 Iguatemi 67 Multiplan 93 Trevisa 16 Clarion 42 Inds Romi 68 Nadir Figuei 94 Trisul 17 Contax 43 Inepar 69 Oderich 95 Triunfo Part 18 Csu Cardsyst 44 Iochp-Maxion 70 P.Acucar-Cbd 96 Ultrapar 19 Dasa 45 JBS 71 Panatlantica 97 Unipar 20 Dimed 46 Jereissati 72 Petropar (Évora) 98 V-Agro 21 Direcional 47 Josapar 73 Pettenati 99 Viavarejo 22 Dohler 48 Karsten 74 Portobello 100 Vicunha Text 23 Duratex 49 Klabin S/A 75 Positivo Inf 101 Viver 24 Elekeiroz 50 Kroton 76 Profarma 102 Vulcabras 25 Energisa 51 Lix da Cunha 77 RaiaDrogasil 103 Weg 26 Eternit 52 Localiza 78 Randon Part 104 Wembley Quadro 1 - Relação de Empresas Familiares que Compõem a BM&FBovespa Posteriormente, nem todas as empresas apresentavam informações contábeis completas no banco de dados Economática®, utilizado como fonte nesta pesquisa. Assim, foram consideradas aquelas empresas que apresentaram as informações “Valor Patrimonial por Ação” e o “Preço da Ação” para os 6 anos analisados, de 2007 a 2012. Excluindo as empresas que não se obtiveram as informações no Economática®, a amostragem final ficou constituída de 84 empresas familiares brasileiras de capital aberto. No quadro 2 são apresentadas essas empresas. O Papel da Contabilidade na Governança das Instituições Públicas e Privadas Universidade de Brasília - Campus Darcy Ribeiro Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais - Programa de Pós-Graduação em Ciências Contábeis 26 a 27 novembro de 2015 N. EMPRESAS N. EMPRESAS N. EMPRESAS N. EMPRESAS 1 All Amer Lat 22 Fras-Le 43 Lojas Marisa 64 Rasip Agro 2 Alpargatas 23 Gerdau 44 Lopes Brasil 65 Rossi Resid 3 Braskem 24 Gerdau Met 45 M.Diasbranco 66 Santanense 4 Cacique 25 Gol 46 Mangels Indl 67 Saraiva Livr 5 Cambuci 26 Grazziotin 47 Marcopolo 68 Schulz 6 CCR AS 27 Grendene 48 Marfrig 69 SLC Agricola 7 Celul Irani 28 Guararapes 49 Melhor SP 70 Springer 8 Contax 29 Habitasul 50 Met Duque 71 Sultepa 9 Csu Cardsyst 30 Helbor 51 Metal Iguacu 72 Suzano Papel 10 Dasa 31 Iguatemi 52 Metisa 73 Tekno 11 Dimed 32 Inds Romi 53 Minerva 74 Trevisa 12 Dohler 33 Inepar 54 Multiplan 75 Trisul 13 Duratex 34 Iochp-Maxion 55 P.Acucar-Cbd 76 Triunfo Part 14 Elekeiroz 35 JBS 56 Panatlantica 77 Ultrapar 15 Energisa 36 Jereissati 57 Petropar (Évora) 78 Unipar 16 Eternit 37 Josapar 58 Pettenati 79 V-Agro 17 Eucatex 38 Karsten 59 Portobello 80 Viavarejo 18 Even 39 Klabin S/A 60 Positivo Inf 81 Vicunha Text 19 Eztec 40 Kroton 61 Profarma 82 Viver 20 Fer Heringer 41 Lix da Cunha 62 RaiaDrogasil 83 Vulcabras 21 Fibam 42 Localiza 63 Randon Part 84 Weg Quadro 2 – Amostra Final - Relação de Empresas Familiares Selecionadas Como o objetivo da pesquisa é comparar a qualidade informacional das empresas familiares com as não familiares, foram selecionadas mais 84 empresas não familiares e de capital aberto de forma aleatória, que apresentavam no Economática® todas as informações correspondentes aos anos, conforme consta no quadro 3. O Papel da Contabilidade na Governança das Instituições Públicas e Privadas Universidade de Brasília - Campus Darcy Ribeiro Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais - Programa de Pós-Graduação em Ciências Contábeis 26 a 27 novembro de 2015 N. EMPRESAS N. EMPRESAS N. EMPRESAS N. EMPRESAS 1 Aco Altona 22 Celpa 43 Itausa 64 Pet Manguinh 2 AES Elpa 23 Cemar 44 Itautec 65 Petrobras 3 AES Tiete 24 Cia Hering 45 ItauUnibanco 66 Plascar Part 4 Alfa Consorc 25 Coelba 46 J B Duarte 67 Porto Seguro 5 Alfa Financ 26 Coelce 47 Light S/A 68 Pro Metalurg 6 Alfa Holding 27 Copel 48 Lojas Americ 69 Recrusul 7 Alfa Invest 28 Coteminas 49 Lojas Renner 70 Rede Energia 8 Amazonia 29 CPFL Energia 50 M G Poliest 71 Renar 9 Ambev S/A 30 Docas 51 Mendes Jr 72 Sabesp 10 Ampla Energ 31 Elektro 52 Merc Brasil 73 Sanepar 11 Bahema 32 Eletrobras 53 Metal Leve 74 Sansuy 12 Banese 33 Embraer 54 Millennium 75 Santader BR 13 Banestes 34 Embratel Part 55 Minupar 76 São Carlos 14 Banrisul 35 Encorpar 56 Mont Aranha 77 Seg Al Bahia 15 Biomm 36 Forja Taurus 57 Mundial 78 Sid Nacional 16 Bombril 37 Ger Paranp 58 Natura 79 Souza Cruz 17 Bradesco 38 Haga S/A 59 Net 80 Tectoy 18 Bradespar 39 Hoteis Othon 60 Nord Brasil 81 Teka 19 Brasmotor 40 Ideiasnet 61 Oi 82 Telebras 20 Ceg 41 IGB S/A 62 Par Al Bahia 83 Telef Brasil 21 Celesc 42 Iguacu Café 63 Paranapanema 84 Tim Part S/A Quadro 3 - Relação de empresas não familiares selecionadas Para estas 168 empresas foram realizadas coletas de dados na Economática® do Valor Patrimonial por Ação referente ao mês de dezembro nos anos de 2007 a 2012 e também uma coleta do último preço da ação destas empresas cotado no mercado em cada um dos períodos de 2007 a 2012 (a grande maioria destas empresas teve seu último preço cotado em dezembro de cada um destes anos). A escolha deste período de pesquisa se refere à adoção das normas internacionais no Brasil. Assim os anos de 2007 a 2009, anteriores a adoção, servirão de base para a comparação com os anos de 2010 a 2012, que são os posteriores a adoção. Já a escolha destas variáveis (VPA e Preço) estão relacionadas com o modelo selecionada para a pesquisa: (1) em que: Preço = preço das ações da empresa; PL/A = Valor patrimonial por ação da empresa no final do exercício social de cada ano; D = Dummy de IFRS; F = Dummy de empresa familiar. O Papel da Contabilidade na Governança das Instituições Públicas e Privadas Universidade de Brasília - Campus Darcy Ribeiro Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais - Programa de Pós-Graduação em Ciências Contábeis 26 a 27 novembro de 2015 Com esta fórmula e a coleta de dados, definiu-se uma regressão em que o preço da ação, dependente, se relacionará com as demais variáveis independentes (valor patrimonial da ação, dummy IFRS e dummy empresas familiares). A partir dos resultados foram feitas análises se a qualidade informacional das empresas familiares brasileiras de capital aberto melhorou em comparação com as empresas não familiares brasileiras de capital aberto. 4 Análise dos Dados A partir da coleta de dados e como especificado na metodologia, obteve-se o seguinte resultado da regressão: Tabela 1: Regressão – Empresas Familiares e Não Familiares – (2007 a 2009) e (2010 a 2012) Variável Coeficiente Valor-p Intercepto 19,21 *** 0,00 D -3,77 ** 0,02 VP/A 0,23 *** 0,00 D*VP/A -0,12 ** 0,01 F -1,93 ** 0,20 F*D*VP/A 0,44 *** 0,00 N 1008,00 R-quadrado 0,09 Estatística F 20,00 0,00 (1) Asteriscos *, **, e *** denotam significância estatística de duas caudas a 10%, 5% e 1%,respectivamente. P = Preço da ação D = Dummy para adoção de IFRS VP/A = Valor patrimonial por ação das empresas F = Dummy para empresas familiares Nota-se na tabela 1 que o R-quadrado tem um valor baixo de 0,09. O F (0,00) mostra a significância do estudo, ou seja, de como as informações contábeis após a adoção das IFRS para as empresas familiares brasileiras aumentaram em sua qualidade ou não em comparação as demais empresas brasileiras de capital aberto. Ao analisar os coeficientes obtidos, percebe-se resultados negativos de algumas variáveis em relação ao preço e outras com resultados positivos. E é na relação positiva de 0,44 do coeficiente da multiplicação entre todas as variáveis (F x D x VP/A) que se contra a resposta da pesquisa. Com essa relação positiva de 0,44, conclui-se houve um aumento mais significativo na qualidade das informações contábeis de empresas familiares após adoção das IFRS quando comparado com as demais empresas brasileiras de capital aberto. Esses resultados sugerem que como algumas empresas familiares selecionadas para o estudo representam uma grande relevância na economia brasileira com seu histórico de sucesso e empresas de tradição, como por exemplo, Alpargatas, JBS, Gerdau, Gerdau Met, Pão de Açúcar, Minerva entre outras, a qualidade da informação contábil destas empresas familiares seria maior em comparação as não familiares. Além disso, outras empresas familiares selecionadas apresentaram crescimento nos últimos, como a Trisul, Rossi Residencial, Positivo Informática, RaiaDrogasil, entre outras, O Papel da Contabilidade na Governança das Instituições Públicas e Privadas Universidade de Brasília - Campus Darcy Ribeiro Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais - Programa de Pós-Graduação em Ciências Contábeis 26 a 27 novembro de 2015 sugerindo que para estas empresas familiares também houve aumento na qualidade da informação contábil. Assim, com este perfil de empresas grandes e bem sucedidas, a necessidade de apresentarem demonstrações contábeis com maior transparência e qualidade informacional para os investidores e demais usuários da contabilidade fizeram parte de suas estratégias ao longo dos anos para atraírem, com destaque perante as demais empresas do setor, a atenção no mercado econômico brasileiro. 5 Considerações Finais O objetivo desta pesquisa foi o de identificar, por meio de um estudo de value relevance, se a qualidade das informações contábeis de empresas familiares melhorou em relação às empresas não familiares, após a adoção das International Financial Reporting Standards (IFRS). Em ambos os grupos foram consideradas apenas empresas brasileiras de capital aberto, no total de 84 familiares e 84 não familiares, durante o período anterior (2007- 2009) e posterior (2010-2012) a adoção das normas. Utilizou-se como variável a ser explicada (dependente) o preço da ação das empresas, considerando o fechamento dos meses de dezembro de cada ano. Como variáveis explicativas foram utilizadas o valor patrimonial por ação das empresas no final do exercício social de cada ano, uma variável dummy para o período pós IFRS e outra variável dummy para empresas familiares. Os resultados obtidos sugerem que houve aumento mais significativo na qualidade das informações contábeis de empresas familiares brasileiras de capital aberto quando comparado com as demais empresas da amostra. Considerando a amostra de empresas familiares brasileiras para a presente pesquisa, vale ressaltar que até o período de 2012 estas empresas selecionadas eram consideradas familiares, porém agora pode ser que nem todas estejam classificadas dessa forma, como é o caso da Pão de Açúcar, por exemplo. Em relação à amostra das empresas não familiares, instituições financeiras fizeram parte da amostragem, pois as variáveis estudadas não interferem no setor. Por fim, no decorrer desta pesquisa, diversas questões foram levantadas, o que garante ao tema um campo vasto para pesquisas e novos estudos. No universo de estudos possíveis, recomendam-se um estudo que investigue a influencia de variáveis institucionais, legais e culturais no preço das ações das empresas familiares. Como possível limitação cita-se a violação parcial de alguns pressupostos dos modelos de regressão, citados na literatura e que, apesar observados, não invalidam o comportamento e as tendências que os resultados evidenciaram. Referências Amir, Eli; Harris, Trevor; Venuti, Elizabeth. (1993). A comparison of value relevance of US versus non-US-GAAP accounting measures using Form 20-F reconciliations. Journal of Accounting Research Supplement, 31, pp. 230-264. 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