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Política I - Pensamento Político Moderno Prof.: Felipe Freller Data: 05-06/05/2025 Aula 7 Segundo tratado sobre o governo de Locke. Visão alternativa sobre o estado de natureza, o estado de guerra e o direito de propriedade Contexto da publicação de Dois tratados sobre o governo (1689): a Restauração e a Revolução Gloriosa Carlos II: 1660-1685 Jaime II: 1685-1688 Revolução Gloriosa (1688): Em resposta às políticas pró-católicas de Jaime II e à perspectiva de uma dinastia católica com o nascimento de seu filho em 1688, setores do Parlamento e da Igreja da Inglaterra convidam Maria II (filha protestante de Jaime II) e Guilherme de Orange (chefe militar e político da Holanda, sobrinho de Jaime II) a assumirem o trono. Jaime II se exila na França. O alvo de Locke: Sir Robert Filmer (1588-1653) O Patriarca, ou O Poder Natural dos Reis (publicação póstuma em 1680) “Filmer argumentava que, por força de uma linhagem que remontava a Adão, os reis exerciam pátrio poder sobre seus povos: ‘Há e sempre haverá até o fim do mundo um direito natural do pai supremo sobre qualquer multidão, ainda que, pela secreta vontade de Deus, muitos o tenham obtido inicialmente da forma a mais injusta’. O poder político era uma extensão do pátrio” (LYNCH, Christian. Fundações do pensamento político brasileiro: a construção intelectual do Estado no Brasil. Rio de Janeiro: Topbooks, 2024, p. 80). Capítulo 1 Transição entre o Primeiro e o Segundo Tratado sobre o Governo: O poder político não deriva do domínio particular e da jurisdição paterna de Adão, nem da força e da violência. 1. Poder político (aquele de um magistrado sobre súditos): distinto do poder de um pai sobre filhos, de um amo sobre servidores, de um marido sobre a esposa, de um senhor sobre escravos. 2. Poder político: “direito de editar leis com pena de morte e, consequentemente, todas as penas menores, com vistas a regular e a preservar a propriedade, e de empregar a força do Estado na execução de tais leis e na defesa da sociedade política contra os danos externos, observando tão-somente o bem público” (p. 381) - Poder legislativo e executivo. 3. Cap. 2: Do estado de natureza 4. Estado em que os homens naturalmente estão: perfeita liberdade e igualdade. 6. Estado de liberdade é diferente de licenciosidade: “embora o homem nesse estado tenha uma liberdade incontrolável para dispor de sua pessoa ou posses, não tem liberdade para destruir-se ou a qualquer criatura em sua posse, a menos que um uso mais nobre que a mera conservação desta o exija. O estado de natureza tem para governá-lo uma lei de natureza, que a todos obriga” (p. 384). Homens como propriedade do Criador: cada um obrigado a preservar-se e ao resto da humanidade. 7. No estado de natureza, cada um é responsável pela execução da lei de natureza: “cada um tem o direito de punir os transgressores da dita lei em tal grau que impeça sua violação” (p. 385). 9. A relação de um magistrado com um estrangeiro é a mesma que qualquer homem tem com qualquer outro no estado de natureza: daí o direito de punir. 11. No estado de natureza, todos têm o direito de matar um assassino, que “declarou guerra a toda a humanidade e, portanto, pode ser destruído como um leão ou um tigre, um desses animais selvagens com os quais os homens não podem ter sociedade ou segurança” (p. 389). 13. “Admito sem hesitar que o governo civil é o remédio adequado para as inconveniências do estado de natureza, que certamente devem ser grandes quando aos homens é facultado serem juízes em suas próprias causas... Mas desejo lembrar àqueles que levantem tal objeção que os monarcas absolutos são apenas homens, e, se o governo há de ser o remédio aos males que necessariamente se seguem de serem os homens juízes em suas próprias causas, razão pela qual o estado de natureza não pode ser suportado, gostaria de saber que tipo de governo é esse e em em que é ele melhor que o estado de natureza, no qual um homem, no comando de uma multidão, tem a liberdade de ser juiz em causa própria e pode fazer a todos os seus súditos o que bem lhe aprouver, sem que qualquer um tenha a mínima liberdade de questionar ou controlar aqueles que executam o seu prazer” (p. 391-392). 14. “dado que todos os príncipes e chefes de governos independentes no mundo inteiro encontram-se num estado de natureza, claro está que o mundo nunca esteve nem jamais estará sem um certo número de homens nesse estado” (p. 392) - Estado de natureza como relação entre pessoas que não pertencem a uma mesma sociedade política. Cap. 3: Do estado de guerra 16. Estado de guerra: “aquele que declara, por palavra ou ação, um desígnio firme e sereno, e não apaixonado ou intempestivo, contra a vida de outrem, coloca-se em estado de guerra com aquele contra quem declarou tal intenção... é razoável e justo que eu tenha o direito de destruir aquilo que me ameaça de destruição” (p. 395). 17. “Disso resulta que aquele que tenta colocar a outrem sob seu poder absoluto põe-se consequentemente em estado de guerra com ele” (p. 396). Ilegitimidade de tentar escravizar alguém, pois quem toma a liberdade quer ter poder absoluto sobre a vida, a qual só pertence ao Criador. 18. Legitimidade de matar o ladrão (assaltante): “não tenho razão alguma para supor que aquele que me toma a liberdade não me tomaria todo o resto, quando me tivesse sob seu poder” (p. 397). 19. Distinção entre estado de natureza e estado de guerra. “A ausência de um juiz comum dotado de autoridade coloca todos os homens em estado de natureza; a força sem direito sobre a pessoa de um homem causa o estado de guerra, havendo ou não um juiz comum” (p. 398). 20. “no estado de natureza, por falta de leis positivas e de juízes com autoridade a quem apelar, uma vez deflagrado, o estado de guerra continua” (p. 399). 21. “Evitar esse estado de guerra (no qual não há apelo senão aos céus, e para o qual pode conduzir a menor das diferenças, se não houver juiz para decdir entre os litigantes) é a grande razão pela qual os homens se unem em sociedade e abandonam o estado de natureza. Ali onde existe autoridade, um poder sobre a Terra, do qual se possa obter amparo por meio de apelo, a continuação do estado de guerra se vê excluída e a controvérsia é decidida por esse poder” (p. 400). “Quando não há juiz sobre a Terra, cabe dirigir um apelo a Deus no céu” (p. 401). Cap. 4: Da escravidão 22. Liberdade natural como sujeição apenas à lei de natureza. Liberdade do homem em sociedade como sujeição apenas às leis do poder legislativo estabelecido mediante consentimento. Falsidade da definição de liberdade de Filmer: “liberdade para cada um fazer o que lhe aprouver, viver como lhe agradar e não estar submetido a lei alguma” (p. 402-403). 23. “Esta liberdade em relação ao poder absoluto e arbitrário é tão necessária à preservação do homem, e a ela está tão intimamente unida, que ele não pode abrir mão dela, a não ser por meio daquilo que o faz perder, ao mesmo tempo, o direito à preservação e à vida. Isso porque o homem, por não ter poder sobre a própria vida, não pode, nem por pacto nem por seu consentimento, escravizar-se a qualquer um nem colocar-se sob o poder absoluto e arbitrário de outro que lhe possa tirar a vida quando for de seu agrado. (...) Quando alguém, por sua própria culpa, perdeu o direito à própria vida, por algum ato que mereça a morte, aquele para quem ele perdeu esse direito pode (quando o tiver em seu poder) demorar-se em tomá-la e fazer uso dessa pessoa para seu próprio serviço, sem lhe inflingir com isso injúria alguma” (p. 403). 24. “Tal é a perfeita condição de escravidão, que nada é senão o estado de guerra continuado entre um conquistador legítimo e um cativo“ (p. 404) - A escravidão decorre da guerra (justa), não de pacto. Este jamais pode ter por consequência um poder arbitrário sobre a vida de outrem. Cap. 5: Da propriedade 25. Deus deu a terra para toda a humanidade em comum (oposição à tese de Filmer de uma propriedade exclusiva do mundo concedida por Deus a Adão; 39, p. 420). “Contudo, esforçar-me-eipor mostrar de que maneira os homens podem vir a ter uma propriedade em diversas partes daquilo que Deus deu em comum à humanidade, e isso sem nenhum pacto expresso por parte de todos os membros da comunidade” (p. 406). 26. Propriedade de si mesmo e de seu trabalho: “Embora a Terra e todas as criaturas inferiores sejam comuns a todos os homens, cada homem tem uma propriedade em sua própria pessoa. A esta ninguém tem direito algum além dele mesmo. O trabalho de seu corpo e a obra de suas mãos, pode-se dizer, são propriamente dele. Qualquer coisa que ele então retire do estado com que a natureza a proveu e deixou, mistura-a ele com o seu trabalho e junta-lhe algo que é seu, transformando-a em sua propriedade. Sendo por ele retirada do estado comum em que a natureza a deixou, a ela agregou, com esse trabalho, algo que a exclui do direito comum dos demais homens. Por ser esse trabalho propriedade inquestionável do trabalhador, homem nenhum além dele pode ter direito àquilo que a esse trabalho foi agregado, pelo menos enquanto houver bastante e de igual qualidade deixada em comum para os demais” (p. 407-409). 28. “é o tomar qualquer parte daquilo que é comum e retirá-la do estado em que a deixa a natureza que dá início à propriedade; sem isso, o comum não tem utilidade alguma. E o tomar esta parte ou aquela não depende do consentimento expresso de todos os membros da comunidade. Desse modo, o pasto que meu cavalo comeu, a relva que meu servidor cortou e o minério que retirei da terra em qualquer lugar onde eu tenha um direito a ele em comum com outros homens tornam-se minha propriedade, sem a cessão ou o consentimento de quem quer que seja. O trabalho que tive em retirar essas coisas do estado comum em que estavam fixou a minha propriedade sobre elas” (p. 410). 31. “A mesma lei da natureza que por este meio nos concede a propriedade, também limita essa propriedade. (...) Tanto quanto qualquer pessoa possa fazer uso de qualquer vantagem da vida antes que se estrague, disso pode, por seu trabalho, fixar a propriedade. O que quer que esteja além disso excede sua parte e pertence aos outros. Nada foi feito por Deus para que o homem estrague ou destrua” (p. 412). O direito de propriedade é limitado (concepção pré-capitalista). 32. Aplicação da mesma lógica à própria terra: “A extensão de terra que um homem pode arar, plantar, melhorar e cultivar e os produtos dela que é capaz de usar constituem sua propriedade. Mediante o seu trabalho, ele, por assim dizer, delimita para si parte do bem comum” (p. 412-413). Apropriação também limitada a deixar terra suficiente para os demais (33). 36. Introdução do dinheiro: “a mesma regra de propriedade segundo a qual cada homem deve ter tanto quanto possa usar estaria ainda em vigor no mundo, sem prejuízo para ninguém, conquanto há terra bastante no mundo para o dobro dos habitantes, se a invenção do dinheiro e o acordo tácito dos homens no sentido de lhe acordar um valor não houvesse introduzido (por consenso) posses maiores e um direito a estas” (p. 416-417). 40. “é o trabalho, com efeito, que estabelece a diferença de valor de cada coisa” (p. 420-421). 46. Possibilidade de trocas e armazenamento daquilo que não estraga. 47. “Desse modo instituiu-se o uso do dinheiro, um instrumento durável que o homem pudesse guardar sem se estragar e que, por consentimento mútuo, os homens aceitassem em troca dos sustentos da vida, verdadeiramente úteis mas perecíveis” (p. 426). 48. “E assim como os diferentes graus de esforço lograram conferir aos homens posses em proporções diferentes, essa invenção do dinheiro deu-lhes a oportunidade de continuá-las e aumentá-las” (p. 427). 50. Apenas a convenção do dinheiro permite que alguém possua com justiça mais terra do que aquela cujos produtos ele é capaz de consumir. “Essa partilha das coisas em uma desigualdade de propriedades particulares foi propiciada pelos homens fora dos limites da sociedade e sem um pacto, apenas atribuindo-se um valor ao ouro e à prata e concordando-se tacitamente com o uso do dinheiro” (p. 428).