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Rede de Ensino Doctum - Cataguases PROJETO INTEGRADOR III Automação Residencial para Pessoas com Deficiência (PcD) Rômulo Barbosa Lacerda1 Eduardo Amarildo Amancio Netto Pereira2 Eliel da Silva Geraldo3 RESUMO Este trabalho aborda a automação residencial acessível como uma ferramenta para promover inclusão, autonomia e melhoria na qualidade de vida de pessoas com deficiência, especialmente aquelas com mobilidade reduzida, deficiência visual, auditiva e tetraplegia. A pesquisa contextualiza a importância da tecnologia na eliminação de barreiras arquitetônicas e na facilitação de tarefas cotidianas, ga- rantindo maior segurança e independência. O objetivo central é analisar como as inovações em automação podem contribuir para ambientes domésticos mais acessíveis, atendendo às necessidades específicas desses grupos. Para isso, rea- liza uma revisão bibliográfica sistemática, com seleção de estudos recentes entre 2020 e 2025, utilizando critérios de relevância e aplicabilidade prática, resultando na análise de quatro artigos científicos relevantes. A metodologia enfatiza a abor- dagem qualitativa, interpretativa e documental dos recursos de automação, in- cluindo sistemas de controle ocular para tetraplégicos, notificações sonoras para deficientes auditivos, automação para deficientes visuais e aplicações de IoT vol- tadas para idosos e pessoas com mobilidade reduzida. Os principais resultados evidenciam que as soluções de automação personalizadas e intuitivas contribuem significativamente para a inclusão social e a autonomia dessas pessoas, além de facilitar tarefas domésticas essenciais e aumentar sua segurança. O estudo reforça a necessidade de desenvolver e implementar tecnologias acessíveis e amigáveis ao perfil desses usuários, promovendo ambientes residenciais mais inclusivos e sujeitos a contínuas inovações no campo da domótica assistiva. Palavras-chave: Domótica; Pessoas com Deficiência; Tecnologia Assistiva; Automação Residencial. 1. INTRODUÇÃO A acessibilidade tecnológica é essencial para a inclusão, pois elimina bar- reiras que impedem a participação ativa de pessoas com deficiência na sociedade. Ao garantir que todos possam acessar e interagir com a tecnologia, promove-se 1Graduando em Egenharia Elétrica - romulobarbosa1111@gmail.com 2Graduando em Egenharia Elétrica - eduardo10netto10@gmail.com 3Graduando em Egenharia Elétrica - eliel10kta@gmail.com igualdade de oportunidades em áreas como educação, trabalho e lazer, fortale- cendo a autonomia e a independência desses indivíduos (ALMEIDA et al., 2024; MONTEIRO; DáRIO; SOUZA, 2023). Deficiência é um conceito abrangente que está relacionado às restrições sociais impostas às pessoas que possuem variedade e limitações nas habilidades corporais que implicam em sua convivência social (SANTOS, 2008). AMIRA- LIAN et al. (2000) explicam que a deficiência pode estar associada à perda ou anormalidade de uma função física, sensorial ou mental; a incapacidade é a limi- tação de desempenhar atividades consideradas comuns; e a desvantagem refere-se aos prejuízos sociais e culturais decorrentes dessas limitações. De acordo com o 4oRelatório Nacional para a Organização dos Estados Americanos (OEA) (IBGE, 2024) sobre a eliminação da discriminação e pro- moção da dignidade das pessoas com deficiência, publicado pelo Instituto Bra- sileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2024, a população total do Brasil é de 203.080.756 habitantes. Deste total, 18.579.623 indivíduos, representando 8,7% da população, autodeclararam possuir pelo menos um tipo de deficiência. A quantidade de indivíduos autodeclarados deficientes tem colocado a acessibili- dade em primeiro lugar quando o assunto é construção civil, seja ela residencial ou comercial. Isso tem motivado as empresas a adotarem posturas distintas no mercado, investindo em tecnologias que possibilitem a acessibilidade em novos empreendimentos (BERGMANN, 2013). Tecnologias voltadas para automação residencial, por exemplo, buscam ampliar a acessibilidade, pois oferecem alternativas de comunicação, mobilidade e interação. Para pessoas com limitações físicas, sensoriais ou cognitivas, esses sistemas não representam apenas uma conveniência, mas sim instrumentos essen- ciais que restauram a autonomia do indivíduo (BERGMANN, 2013). Aquário (2024) descreve alguns recursos para automação residencial, sendo: • Iluminação: por meio de lâmpadas smart, é possível controlar o horário em que deverá ser ligada ou desligada a luz. • Segurança: através da instalação de câmeras inteligentes, fechaduras di- gitais e alarmes que podem ser controlados pelo celular. 2 • Sistema de som: com a utilização de aparelhos como a Alexa, torna-se possível controlar diversos aparelhos residenciais com comandos por voz. Em síntese, a acessibilidade tecnológica desempenha um papel crucial na promoção da inclusão e na melhoria da qualidade de vida das pessoas com defici- ência, especialmente por meio de inovações como a automação residencial. Essas tecnologias não só asseguram maior autonomia e independência, mas também favorecem a plena integração dessas pessoas na sociedade. Diante do cenário de crescente preocupação com a inclusão e a acessibilidade, este trabalho tem como objetivo geral analisar o papel da automação residencial como ferramenta essencial para promover a acessibilidade de pessoas com deficiência. Busca-se compreender como as inovações tecnológicas aplicadas ao ambiente doméstico podem contribuir para a melhoria da qualidade de vida, garantindo maior auto- nomia, segurança e independência a indivíduos com limitações físicas, sensoriais ou cognitivas, além de refletir sobre a importância dessas soluções no contexto da construção civil e na sociedade contemporânea. A seguir, será apresentado um aprofundamento dos conceitos abordados, juntamente com uma análise das tecnologias que estão transformando o panorama da acessibilidade no contexto residencial. 2. REFERENCIAL TEÓRICO Antes de aprofundar nas informações específicas sobre automação resi- dencial e suas aplicações para pessoas com deficiência, é fundamental estabelecer um panorama teórico que sustente e embase as discussões deste estudo. Este capítulo apresenta conceitos-chave, definições e abordagens que fundamentam o entendimento das tecnologias de automação e sua potencialidade para promover a inclusão social e a autonomia, especialmente no contexto de residências adap- tadas às necessidades de indivíduos com diferentes tipos de deficiências. 3 2.1. Automação Residencial BERGMANN (2013) descreve três níveis de interação em sistemas de automação residencial: os Sistemas Autônomos, a Integração de Sistemas e a Re- sidência Inteligente. Nos Sistemas Autônomos, dispositivos ou subsistemas são operados individualmente por meio de ajustes pré-definidos, sem interação en- tre eles. Na Integração de Sistemas, múltiplos subsistemas se unem a um único controlador, embora cada um opere conforme as especificações do fabricante, ga- rantindo benefícios e eficiência. Por fim, na Residência Inteligente, o sistema é personalizado para atender às necessidades do proprietário, transformando-o em um gerenciador dinâmico que depende de comunicação bidirecional e feed- back entre todos os subsistemas para um desempenho otimizado (BERGMANN, 2013). Com a utilização da Automação Residencial, é possível permitir que ta- refas domésticas sejam realizadas de forma simples e acessível por pessoas ido- sas, com mobilidade reduzida ou deficiências físicas, proporcionando mais con- forto e melhorando sua qualidade de vida. Ações cotidianas como controlar a iluminação, acionar aparelhos de diferentes locais da casa e ativar mecanismos de alerta em situações de risco contribuem para sua segurança e bem-estar (CA- NATO, 2007). Segundo CANATO (2007), a utilização da automação residencial apre- senta inúmeras vantagens, das quais se destacam: segurança −ao ser detectada a invasão de domicílio, uma sirene de alarme ou um sistemade luzes é acio- nado, possibilitando a percepção de um invasor; gestão de energia −que permite a otimização do consumo por meio da programação, por exemplo, do sistema de aquecimento ou climatização da residência com base nos hábitos diários do mora- dor ao longo do ano; e conforto −com o controle da luminosidade dos cômodos, programação de eletrodomésticos, entre outros. As referidas vantagens ganham maior acuidade nos casos de pessoas idosas e/ou deficientes. A Automação Residencial propõe a reconfiguração da infraestrutura do lar com o objetivo de centralizar diversos serviços e dispositivos em um único equipamento integrador, responsável por executar e gerenciar diferentes tarefas 4 de forma unificada. A Figura 1 apresenta a estrutura física para o pleno funciona- mento conjunto dos equipamentos (PEREIRA, 2022). Figura 1 Estrutura física para funcionamento conjunto dos equipamentos na automação residencial (PEREIRA, 2022) 2.2. Pessoas com Deficiência (PcD) Pessoas com Deficiência são aquelas que possuem variedade nas habilida- des corporais, ou seja, apresentam restrições sociais impostas por diferenças nas habilidades físicas ou mentais, que podem gerar opressão e dificuldades de acesso aos ambientes sociais. Essa definição é fundamentada no conceito de deficiência como uma expressão da diversidade humana, e não apenas como uma limitação individual (SANTOS, 2008). O entendimento contemporâneo trata a deficiência também como uma questão relacionada às barreiras físicas e morais que dificul- tam a participação plena dessas pessoas na sociedade, reconhecendo que a defici- ência não deve ser encarada apenas de modo assistencialista, mas como parte da diversidade humana a ser protegida por mecanismos institucionais em um Estado democrático (SANTOS, 2008). 2.2.1. Deficiência Auditiva. Segundo DIAS (2024), a deficiência auditiva é uma condição que afeta milhões de brasileiros, com tendência de crescimento nos pró- ximos anos em virtude do envelhecimento da população. A surdez pode variar em grau e tipo, impactando de formas distintas a comunicação, a socialização e 5 a independência dos indivíduos. Além disso, sua compreensão pode se dar por múltiplas abordagens clínica, legislativa e sociocultural , o que demonstra a com- plexidade do tema. Essa diversidade de interpretações evidencia a importância de se pensar em soluções inclusivas que contemplem os diferentes perfis de pessoas com deficiência auditiva, especialmente no que se refere ao acesso à informação e à adaptação dos espaços cotidianos, como o ambiente doméstico. 2.2.2. Deficiência Visual. Além da deficiência auditiva, torna-se pertinente ampliar a discussão para os desafios enfrentados por pessoas com deficiência visual no ambiente doméstico. Perante o problema, a automação residencial, integrada a tecnologias assistivas, surge como uma alternativa viável para mitigar barreiras relacionadas à mobilidade, segurança e autonomia. A abordagem de soluções adaptadas às necessidades sensoriais desse público exige um olhar técnico e mul- tidisciplinar, considerando tanto os aspectos tecnológicos quanto as limitações funcionais. Com essa visão que se insere o estudo desenvolvido por MONTEIRO; DáRIO; SOUZA (2023) que propõem um modelo de casa conectada voltado es- pecificamente para deficientes visuais, com o objetivo de desenvolver uma me- todologia que permita a criação de casas conectadas assistivas, integradas com tecnologias que promovam inclusão, independência e conforto para esse nicho. Para alcançar esse objetivo, MONTEIRO; DáRIO; SOUZA (2023) pro- puseram a utilização de um assistente pessoal controlado por voz, como a Alexa, que permite ao usuário manipular todos os dispositivos da residência de forma simples e natural, eliminando a necessidade de interfaces visuais ou táteis con- vencionais. Eles entendem que, com a serventia de sensores de movimento, fe- chaduras e campainhas inteligentes, aspiradores de pó robôs, e outros periféricos inteligentes conectados a um hub central, faz-se realidade o controle por voz dos dispositivos. 2.2.3. Deficiência Física. Indo além das soluções de automação voltadas para pes- soas com deficiência auditiva e visual, é necessário considerar as necessidades de outro grupo frequentemente afetado por barreiras no ambiente doméstico: os idosos e indivíduos com mobilidade reduzida. ALMEIDA et al. (2024), em seu trabalho intitulado Aplicações de IoT em automação residencial para idosos e 6 pessoas com mobilidade reduzida, identifica que tarefas simples, como estender roupas no varal, acender luzes e fechar persianas, são desafiadoras para essa par- cela da população, comprometendo seu conforto e bem estar. Ainda, ALMEIDA et al. (2024), aponta que há uma lacuna na oferta de soluções de automação que sejam acessíveis, inclusivas e que possam ser controladas facilmente por meio de interfaces amigáveis, levando em consideração o perfil tecnológico dos idosos e PCDs, muitos dos quais possuem smartphones. 2.3. Acessibilidade A acessibilidade refere-se à garantia de acesso desimpedido a diversos espaços ou locais, não apenas para indivíduos comuns, mas também para aqueles com deficiências. Isso inclui a garantia de igualdade de oportunidades para todos, independentemente de circunstâncias temporárias ou permanentes, promovendo a inclusão e a disponibilidade de facilidades de maneira equitativa, sem obstáculos ou barreiras (MORAES et al., 2007). No Brasil, têm sido implementados gradualmente mecanismos legais e revisões normativas destinados a proteger os direitos das pessoas com deficiên- cia. Em 1989, foi instituída a Lei no7.853 (BRASIL, 1989), que assegura apoio a esse grupo. Posteriormente, em 2000, foi promulgada a Lei Federal no10.098 (BRASIL, 2000), estabelecendo normas gerais e critérios básicos para promover a acessibilidade para pessoas com deficiência. A Lei Federal no10.098/2000 define pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida como aquela que, temporá- ria ou permanentemente, tem sua capacidade de interagir com o meio e utilizá-lo de forma limitada. Isso inclui indivíduos como pessoas com deficiência física, idosos, gestantes, lactantes, pessoas com crianças de colo, obesos e outros. No contexto das políticas voltadas para a acessibilidade em edifícios, mobiliário ur- bano e espaços públicos no Brasil, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), por meio do Comitê Brasileiro de Acessibilidade, desenvolveu a NBR 9050 (Associação Brasileira de Normas Técnicas, 2020). 7 3. METODOLOGIA A pesquisa qualitativa busca compreender os fenômenos em seu contexto natural, valorizando as interpretações e os significados atribuídos pelos sujeitos envolvidos, em vez de quantificar dados (MACHADO, 2023). Dessa forma, o presente estudo possui foco na análise interpretativa dos recursos de automação e em seu potencial de promover inclusão e autonomia. Esta pesquisa caracteriza-se como uma revisão bibliográfica de caráter qualitativo, com objetivo de analisar e sintetizar os principais estudos acadêmicos sobre o conceito de Automação Residencial para Pessoas com Deficiência. A revisão foi conduzida entre os meses de fevereiro/2025 e junho/2025, seguindo uma abordagem sistemática para garantir a relevância e a atualidade das fontes selecionadas. Essa abordagem permitiu reunir informações sobre dispositivos, sistemas e soluções inovadoras, avaliando suas funcionalidades, aplicações e impactos no dia a dia dos usuários. Assim, este estudo foca na análise interpretativa dos recur- sos de automação e em seu potencial para promover inclusão e autonomia. A primeira etapa consistiu na definição das palavras-chaves utilizadas nas buscas em repositórios, com base nos principais termos relacionados ao tema: Automação Residencial, Pessoas com Deficiência, Domótica, Tecnologia Assis- tiva, Deficiência Física, Deficiência Auditiva, Deficiência Visual e Conceito de Deficiência. As buscar foram realizadas na base de dados científicosGoogle Acadê- mico, considerando publicações entre 2020 e 2025. Os critérios de inclusão dos artigos foram: relevância direta com o tema proposto e estudos com possibilidade de aplicação prática. Após o levantamento inicial, foram encontrados aproximadamente 100 artigos. A leitura dos títulos, resumos e palavras-chaves possibilitou uma triagem inicial. Em seguida, foi feita uma leitura seletiva e analítica dos textos completos. Ao final, foram selecionados 3 artigos científicos, conforme sintetizado na Tabela 1. 8 Tabela 1 Artigos selecionados e justificativas No Referência (Au- tor, Ano) Título do Artigo Justificativa da escolha 1 Barradas et al. (2023) Domótica assistiva com controle ocular para inclu-são de deficientes tetraplé-gicos Apresenta uma solução piloto testada em 50 pessoas em um seminário. 2 Dias (2024) Sound Notice: Adaptando os sons do ambiente do- méstico para surdos orali-zados e pessoas com defi- ciência auditiva Possui envolvimento direto dos usuários em todas as eta- pas, com pesquisa qualitativa, entrevistas, definição de per- sonas, etc. 3 Monteiro, Dário e Souza (2023) Automação Residencial para pessoas com defici- ência visual Apresenta um projeto de casa inteligente com a utilização de produtos disponíveis no mercado. Fonte: Autoria própria. 4. RESULTADOS 4.1. Domótica assistiva com controle ocular para inclusão de deficientes tetraplégicos De acordo com SEBASTIãO et al. (2023), o trabalho intitulado "Domótica assistiva com controle ocular para inclusão de deficientes tetraplégicos", propõe um sistema inovador que integra tecnologias assistivas e automação residencial (Domótica), permitindo que indivíduos com tetraplegia controlem dispositivos eletrônicos, como lâmpadas e televisores, por meio do movimento das pálpebras. Para colocar em prática esse projeto, os autores utilizaram as bibliotecas OpenCV e Dlib para processamento de imagens e detecção facial. O sistema calcula a Relação do Aspecto do Olho (EAR) para reconhecer se os olhos estão abertos ou fechados, interpretando esses movimentos como comandos. A Figura 2 apresenta 9 os pontos oculares e o gráfico do EAR ao longo do tempo, ilustrando diferentes situações. Figura 2 Pontos oculares e gráfico do EAR. (SEBASTIãO et al., 2023) A interface gráfica, desenvolvida em Python, proporciona uma navegação intuitiva, enquanto a utilização de uma placa Arduino possibilita a implemen- tação econômica e acessível de soluções de automação residencial. A Figura 3 apresenta o menu de interação facial. Figura 3 Menu de interação. (SEBASTIãO et al., 2023) 10 Os autores ressaltam que a abordagem não só melhora a autonomia e a qualidade de vida dos usuários, mas também se apresenta como um sistema aberto a melhorias, promovendo a inclusão e a inovação na assistência a pessoas com deficiências motoras severas. Os resultados do trabalho desenvolvido indicam que a implementação de um sistema de controle domótico baseado em reconhecimento facial e controle ocular foi viável e promissora para aumentar a autonomia de pessoas com defici- ências motoras severas, especialmente tetraplegia. Durante os testes pilotos reali- zados com aproximadamente 50 participantes sem deficiência corporal, o sistema demonstrou capacidade de detectar a face mais próxima da câmera e monitorar o movimento ocular, especialmente o fechamento e abertura dos olhos, utilizando a relação do aspecto ocular (EAR). Os resultados mostraram que o sistema conse- guiu interpretar eventos como piscadas curtas e longas, que foram utilizados para navegar na interface gráfica e acionar dispositivos eletrônicos de forma intuitiva. Adicionalmente, a equipe planeja realizar novos testes com pessoas com deficiência motora severa, além de ampliar a análise estatística dos dados coleta- dos. Esses novos testes visam validar o sistema de forma mais abrangente, iden- tificar melhorias na usabilidade e adaptar o sistema às necessidades específicas desses usuários. Assim, o projeto avança na direção de uma tecnologia acessível e personalizada, contribuindo para a inclusão social e a autonomia de indivíduos com limitações motoras severas. 4.2. Sound Notice Entre as muitas condições que restringem a independência e a integração nas residências, sobressai a perda de audição, que prejudica de forma clara a ha- bilidade de captar avisos sonoros fundamentais para o dia a dia. A surdez, com suas variadas manifestações, pode colocar em risco a segurança, a troca de infor- mações e o convívio com outras pessoas, principalmente se o lar não for adaptado para as necessidades do residente. Nesse contexto, torna-se fundamental discu- tir soluções específicas que atendam às necessidades desse público, sobretudo no campo da automação. É com base nessa perspectiva que o projeto Sound No- tice, desenvolvido por DIAS (2024), propõe uma abordagem inovadora voltada à 11 adaptação sonora do ambiente doméstico para surdos oralizados e pessoas com deficiência auditiva. De acordo com DIAS (2024), a ideia do Sound Notice partiu de relatos de pessoas com deficiência auditiva que enfrentavam dificuldades para perceber sons importantes no ambiente doméstico, como campainhas, alarmes ou até mesmo o choro de um bebê, o que compromete sua autonomia e segurança. O desenvol- vimento do projeto seguiu a metodologia de design centrado no usuário, com a participação ativa dos mesmos em todas as etapas do processo, incluindo a per- sonalização de alertas e a escolha de dispositivos de notificação. O projeto foi realizado com uso do Figma, um aplicativo web colaborativo para design de in- terface, para a criação de protótipos e através da realização de testes com fluxos de interação para demonstrar a aplicação de uma abordagem prática e focada nas necessidades do público-alvo. Além disso, foram elaborados mapas da jornada do usuário, permitindo uma análise aprofundada dos pontos críticos e oportunidades de intervenção no ambiente doméstico. Complementarmente, foi realizado um estudo comparativo de soluções si- milares existentes, como o aplicativo Google Live Transcribe & Notification, para compreender suas funcionalidades, limitações e diferenciais, bem como identifi- car potenciais melhorias e inovações que pudessem ser incorporadas ao protótipo do Sound Notice. O funcionamento do protótipo do Sound Notice baseia-se na captação de sons do ambiente por meio de microfones integrados ao sistema, que, após proces- samento, geram notificações visuais (como luzes ou ícones) e vibratórias, possibi- litando ao usuário identificar a presença de sons importantes, como porta aberta, telefone tocando ou alarmes. Paralelamente, a tecnologia de reconhecimento de áudio converte o som captado em texto, permitindo ao usuário compreender uma conversa ou ruído sem necessidade de ouvir. Foi utilizado o software Figma de prototipagem digital, que permite a criação de interfaces de alta fidelidade com elementos acessíveis e in- tuitivos. Durante a fase de validação, o protótipo foi submetido a testes de fun- cionalidade conduzidos remotamente via plataformas de videoconferência, como 12 Google Meet, envolvendo pessoas reais que participaram do processo de valida- ção e forneceram retornos cruciais para ajustes e melhorias no design. Em suma, o projeto Sound Notice apresenta uma abordagem multidisciplinar que combina técnicas de pesquisa qualitativa, análise comparativa, design de interfaces aces- síveis e tecnologias de reconhecimento de áudio, com o objetivo de desenvolver uma solução inclusiva, eficaz e viável economicamente. A continuidade do traba- lho prevê etapas de validação em campo, aprimoramentos tecnológicos e possível ampliação do escopo para atender a diferentes perfis de usuários, consolidando-se como uma contribuição relevante para a promoção da acessibilidade e autonomia de pessoas com deficiência auditiva. 4.3. Automação Residêncial para pessoas com deficiência visual MONTEIRO; DáRIO; SOUZA (2023) apresentaram um estudopautado no desenvolvimento de um sistema de automação residencial voltado a pessoas com deficiência visual, visando promover maior independência, segurança e aces- sibilidade no ambiente doméstico. O projeto foi estruturado através do levanta- mento de requisitos, definição dos componentes funcionais, modelagem do sis- tema e implementação de estratégias de conectividade e controle inteligente. Na etapa inicial, MONTEIRO; DáRIO; SOUZA (2023) realizaram um levantamento dos requisitos e necessidades específicas dos usuários, com foco na acessibilidade e na integração de recursos de tecnologia assistiva. A partir desse levantamento, iniciou-se à seleção de dispositivos essenciais, como sensores de movimento, fe- chaduras inteligentes, câmeras, roteadores, hubs de automação e assistentes vir- tuais, como o Amazon Alexa. A partir dessa seleção, foi planejada uma arquite- tura de sistema que pudesse garantir plena comunicação entre esses componentes, possibilitando o controle remoto e por comando de voz, além de monitoramento contínuo. Para a modelagem do sistema, utilizou-se a teoria de sistemas domóticos, considerando a infraestrutura necessária para garantir locomoção, segurança e comunicação acessível ao usuário. A conectividade foi priorizada por meio do uso de um hub de automação residencial, que centraliza a gestão dos dispositivos, gerenciando protocolos de comunicação sem fio, comoWi-Fi, Bluetooth, ZigBee e 13 infravermelho. A localização estratégica do hub, próxima ao roteador de internet, foi considerada fundamental para assegurar uma conexão estável e eficiente. O funcionamento do sistema baseia-se na integração entre periféricos ele- trônicos controlados pelo hub, incluindo sensores, fechaduras inteligentes e câme- ras, todos configurados para oferecer resposta automática a determinados eventos ou comandos por voz (MONTEIRO; DáRIO; SOUZA, 2023). Assim, o usuário pode, por exemplo, abrir portas, verificar o ambiente ou acioná-lo remotamente, apenas através de comandos de voz, promovendo uma experiência de automação acessível e intuitiva. A implementação também contempla cuidados específicos para garantir acessibilidade, como a disponibilização de manuais em formatos acessíveis considerando as dificuldades enfrentadas pelos indivíduos com defici- ência visual. As ferramentas utilizadas nesse projeto incluem plataformas de automa- ção compatíveis com protocolos abertos, assistentes virtuais e aplicativos de ges- tão de dispositivos inteligentes, além de recursos de suporte técnico, como ma- nuais de montagem e configurações que também visam facilitar a instalação e uso por usuários com limitações visuais. Dessa forma, a combinação de tecno- logias, metodologias de integração e atenção às demandas específicas resulta na proposta de um sistema de automação residencial acessível e eficiente, demons- trando o potencial de inclusão tecnológica para melhorias na qualidade de vida de pessoas com deficiência visual. 5. DISCUSSÃO Analisando os resultados apresentados, observa-se uma forte preocupação dos autores em desenvolver soluções de automação residencial que promovam a inclusão e a autonomia de pessoas com diferentes tipos de deficiência, como visual e tetraplegia. No entanto, ao comparar os três estudos algumas diferenças e correlações relevantes são notáveis, sobretudo em relação à questão do custo e da acessibilidade real dessas tecnologias. No estudo de SEBASTIãO et al. (2023), a proposta consiste em um sis- tema de domótica assistiva que utiliza recursos de processamento de imagem para 14 controle ocular de tetraplégicos. Os autores destacam que o sistema é composto por componentes de baixo custo, como placas Arduino e softwares com uso gra- tuito como OpenCV e Dlib, o que evidencia uma preocupação em tornar a solução acessível economicamente. Apesar disso, o custo financeiro final do projeto não foi explicitamente apresentado, gerando a dúvida quanto, além do custo de equi- pamento, o seu custo para implementação prática. Ainda assim, a intenção de utilizar componentes acessíveis reforça uma perspectiva de viabilidade financeira para uma parcela da população. Similarmente, o trabalho de MONTEIRO; DáRIO; SOUZA (2023), que trata da automação para deficientes visuais, também fundamenta suas soluções na utilização de componentes de custo reduzido, como a placa Arduino, reforçando a viabilidade de tecnologias acessíveis. Entretanto, ao mencionar o uso de uma assistente virtual como a Alexa, o sistema apresentado por MONTEIRO; DáRIO; SOUZA (2023) revela uma contradição, uma vez que esse assistente, por si só, ainda não é considerado uma solução acessível no contexto brasileiro devido ao seu custo elevado. Isso evidencia que, embora o conceito de automação acessível seja importante, sua implementação prática muitas vezes esbarra na disponibili- dade de componentes de baixo custo, limitando o acesso por pessoas de baixa renda do Brasil. Por sua vez, a abordagem do sistema Sound Notice, que adapta sons do ambiente para surdos oralizados e deficientes auditivos, não discute explicita- mente o custo de implantação. Contudo, o envolvimento direto dos usuários e a ênfase na pesquisa qualitativa tendem a indicar que a solução está direcionada a tecnologias de fácil acesso, mesmo que essa ausência de informações específicas sobre custos dificulte uma análise conclusiva nesse aspecto. Ainda assim, a falta de menção ao custo sugere que a solução pode não ser tão facilmente acessível, sobretudo se considerarmos a necessidade de recursos adicionais ou de tecnolo- gias específicas que podem estar fora do alcance de grande parte da população brasileira. Diante dessas observações, fica evidente que, apesar do esforço comum de promover acessibilidade por meio de tecnologias de automação, a realidade atual no Brasil apresenta uma barreira significativa: muitas soluções ainda carregam 15 custos elevados, tornando-as inviáveis para seu amplo uso. Embora o desenvol- vimento de tecnologias acessíveis seja uma meta clara, a implementação prática ainda demanda esforços para avanço na redução de custos e na adaptação às con- dições econômicas brasileiras, de modo a viabilizar a adoção dessas inovações para inclusão social. 6. CONCLUSÃO A análise dos três artigos selecionados evidencia uma preocupação co- mum com a promoção da inclusão social e do fortalecimento da autonomia dos indivíduos com deficiência, sendo esse o ponto central na concepção de suas so- luções de automação residencial. Os sistemas de domótica assistiva com con- trole ocular para tetraplégicos e a automação destinada a pessoas com deficiência visual, por exemplo, foram desenvolvidos com o objetivo de eliminar barreiras de comunicação e controle no ambiente doméstico, favorecendo a independên- cia dessas pessoas. Da mesma forma, o sistema Sound Notice busca ampliar a acessibilidade para deficientes auditivos, traduzindo informações ambientais via sons e notificações que promovem maior segurança e autonomia. Em suma, esses projetos compartilham o intuito de criar ambientes residenciais mais inclusivos, que atendam às necessidades específicas de diferentes tipos de deficiência, con- tribuindo para uma maior integração social e qualidade de vida desses indivíduos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, A. N. P. de et al. Aplicações de iot em automa- ção residencial para idosos e pessoas com mobilidade reduzida. BIUS - Boletim Informativo Unimotrisaúde em Sociogerontolo- gia, v. 47, n. 41, 2024. Acesso em: 15 abr. 2025. Disponível em: . AMIRALIAN, M. L. et al. Conceituando deficiência. Revista de Saúde Pú- blica, SciELO Brasil, v. 34, p. 97–103, 2000. 16 Aquário. Tipos de automação residencial. 2024. Acesso em: 10 mar. 2025. Disponível em: . Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR 9050: Acessibilidadea edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos. nov. 2020. https://www.abntcatalogo.com.br/norma.aspx?ID=476625. Rio de Ja- neiro: ABNT, 2020. 114 p. BERGMANN, S. O. 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