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DEPENDÊNCIA TECNOLÓGICA E DE INTERNET: aspectos clínicos e terapêuticos e-book índice Introdução ............................................................................ 3 Tipos de dependência de internet ........................................ 4 Motivações para o uso problemático de internet ............... 6 Déficits neuropsicológicos e emocionais da dependência de internet ................................................ 7 Diagnóstico e avaliação ....................................................... 9 Comorbidades associadas ................................................ 11 Uso de escalas de avaliação .............................................. 11 Intervenção psicoterapêutica ............................................. 12 Intervenções em crianças e adolescentes ........................ 13 Intervenções em adultos ................................................... 14 Integração de familiares e outras pessoas no processo terapêutico ................................................... 15 Conclusão ....................................................................... 17 Sobre este e-book ......................................................... 18 A Artmed ......................................................................... 19 Referências ..................................................................... 20 3 Nos últimos anos, pode-se observar um aumento significativo no uso de fontes digitais de infor- mação, principalmente relacionadas à internet e aos jogos eletrônicos, que se tornam cada vez mais populares. A dependência tecnológica tem se tornado uma preocupação crescente, impac- tando diversas esferas da vida cotidiana, desde as relações sociais até o desempenho acadê- mico e profissional. O uso excessivo de dispositivos tecnológicos, especialmente da internet, é uma das formas mais prevalentes dessa dependência. A internet, além de ser uma ferramenta essencial para o trabalho e a educação, também se apresenta como um meio de entretenimento e interação social, o que acarreta desafios significativos quanto ao seu controle. Este e-book terá como foco a dependência de internet especificamente, por ser um fenômeno amplamente difundido que pode acarretar prejuízos significativos, como déficits cognitivos e emocionais, além de impactos funcionais na vida dos indivíduos. Essa escolha justifica-se pelo fato de que, enquanto outras formas de dependência tecnológica envolvem um uso específico, como de videogames ou redes sociais, a dependência de internet abrange um espectro mais amplo de comportamentos que afetam diretamente a saúde mental e o bem-estar social. A partir de 2020, com as políticas de isolamento social impostas pela pandemia de Covid-19, houve um aumento significativo no uso de jogos digitais comerciais como uma forma de “es- capismo” para enfrentar aspectos de solidão, ansiedade e monotonia causados pela pandemia (Boldi, Rapp & Tirassa, 2022). Um estudo realizado em 2020 na Itália, um dos países que mais sofreu com as políticas de isolamento social, observou uma frequência de uso da internet até quatro vezes maior quando comparado com o período pré-pandemia (Candela, Luconni & Vec- chio, 2020). INTRODUÇÃO 4 Kuss e Pontes (2019) apresentam cinco tipos distintos de comportamento online aditivo, sendo essencial a sua diferenciação para o direcionamento efetivo do tratamento psicológico: • Dependência cibersexual: envolvendo o uso aditivo de sites adultos para fins sexuais; • Dependência de ciber-relacionamentos: envolvendo o uso aditivo em relacionamentos online; • Compulsões de rede: que envolvem o uso aditivo de jogos, compras ou comércio online; • Sobrecarga de informações: que envolve o uso aditivo da internet para buscar informações; • Dependência de computador: envolvendo o comportamento aditivo de jogos online. Os critérios diagnósticos para o uso problemático de internet foram descritos por Shapira e cola- boradores (Shapira et al., 2003) e podem ser utilizados para nortear o processo de identificação. No entanto, a atenção dos pesquisadores para o uso excessivo da internet não se iniciou com a Covid-19. Sabe-se que a primeira descrição da dependência de internet surgiu em 1996, em uma pesquisa apresentada à Associação Psicológica Americana, na qual foram apresentados 600 casos de usuários com características de dependência, utilizando uma medida alternativa dos critérios do DSM-IV, que, na época, apresentava critérios diagnósticos de uso excessivo de jogos de azar (Young & Abreu, 2011). Os estudos na área aumentaram consideravelmente ao longo dos últimos anos, a ponto de o “Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais”, o DSM- -5-TR, atualmente em sua quinta edição (APA, 2023), considerar a dependência de internet como uma característica que pode, futuramente, se enquadrar como um transtorno. A dependência de internet pode ser entendida como um padrão específico de comportamento no uso da internet, que envolve um desejo intenso e disfuncional por períodos desregulados e excessivos, acompanhado de diversos prejuízos funcionais significativos que não são bem ex- plicados por outros quadros psiquiátricos (Kuss & Pontes, 2019). A dependência de internet está inserida dentro de um guarda-chuva de dependências tecnológicas, um modelo de dependência não química, mas que engloba um conjunto de dependências comportamentais relacionadas ao impulso ou comportamentos aditivos. TIPOS DE DEPENDÊNCIA DE INTERNET 5 Tabela 1. Critérios diagnósticos para o uso problemático de internet Fonte: Adaptado de Shapira et al. (2003) e Abreu et al. (2008). Preocupações com o uso da internet experienciadas como incontroláveis e irresistíveis; O uso da internet é marcado por períodos maiores do que os planejados; Preocupação desadaptativa com o uso da internet, conforme indicado por pelo menos um dos seguintes itens: O uso da internet e a preocupação com o uso causam prejuízos significativos ou danos nos aspectos sociais, ocupacionais ou em outras áreas importantes do funcionamento; O uso excessivo da internet não ocorre exclusivamente durante os períodos de hipomania ou mania e não é mais bem explicado por outro Transtorno do Eixo II. a) b) No entanto, embora a Tabela 1 apresente critérios específicos para o diagnóstico, autores mais recentes alertam para a necessidade de uma definição mais precisa e aperfeiçoada dos critérios e comportamentos do uso problemático de internet, englobando características e outros softwa- res, como redes sociais. Essa população pode desenvolver sintomas semelhantes aos de outros transtornos aditivos não relacionados a substâncias, levando-os a experimentar sintomas nega- tivos e desagradáveis em razão do uso exacerbado dessas mídias digitais (Kuss & Pontes, 2019). 6 Para realizar uma diferenciação precisa do uso patológico de internet, é necessá- rio identificar as fontes de motivação para o uso dessas mídias. Kuss & Pontes (2019) apontam cinco motivações para o uso da internet, sendo elas: a) Utilidade interpessoal, marcada pelo contato social e interação online; b) Modo de passar o tempo, marcado pelo uso da internet para evitar o tédio; c) Busca de informações, caracterizado pelo uso da internet para buscar in- formações online; d) Conveniência, marcada pela facilidade do acesso à internet para se comu- nicar com outras pessoas; e) Entretenimento, caracterizado pelo uso de mídias digitais para entreteni- mento. Nota-se que, nos últimos anos, o aumento significativo do uso da internet está ligado às motivações mencionadas anteriormente, principalmente para passar o tempo (motivação 2), contato social digital, impossibilitado pela pandemia de Co- vid-19 (motivação 1), e entretenimento (motivação 5). Rich, Tsappis & Kavanaugh (2019) apontam que, diferente do uso de substâncias psicoativas, o uso excessi- vo de internet está integrado a diferentes aspectos da vida diária. Atualmente, pode-se trabalhar de maneiraremota, crianças e adolescentes de- vem realizar buscas online para a execução de trabalhos e tarefas acadêmicas, participar de chats de aprendizado e reuniões online de trabalho, que são cada vez mais comuns. Dessa forma, torna-se necessária a identificação de dificuldades e prejuízos associados ao uso da internet e sua diferenciação de uma alta demanda para seu uso, causada pelo ambiente social ou laboral do indivíduo. MOTIVAÇÕES PARA O USO PROBLEMÁTICO DE INTERNET 7 DÉFICITS NEUROPSICOLÓGICOS E EMOCIONAIS DA DEPENDÊNCIA DE INTERNET O avanço do uso da internet, seja de forma funcional ou exacerbada, acarreta mudanças signifi- cativas no funcionamento cerebral. Principalmente durante a infância e a adolescência, quando o cérebro está em pleno desenvolvimento de suas habilidades cognitivas, a interferência do uso problemático de mídias pode acarretar prejuízos cognitivos, quando comparado com indivíduos que não apresentam tal padrão comportamental (Abreu, 2019). Em uma metanálise envolvendo 40 estudos sobre o efeito do uso problemático de internet e aspectos cognitivos, foram encontradas alterações significativas em áreas como atenção e funções executivas, como memória operacional, controle inibitório e tomada de decisão. Além disso, observaram-se dificuldades no armazenamento e organização da informação aprendida anteriormente. Essas dificuldades são semelhantes às observadas em indivíduos com uso de substâncias, especialmente quando comparados aos níveis de habilidades cognitivas, como controle inibitório e impulsividade (Ioannidis et al., 2019). As funções executivas podem ser definidas como um termo guarda-chuva que engloba ativi- dades, de maneira geral, de identificação e controle do comportamento humano realizadas de maneira controlada e direcionada a metas e objetivos (Diamond, 2013). Autores relatam que as funções executivas podem ser divididas em três estruturas principais, que servem de base para o desenvolvimento de habilidades mais complexas. São elas: 8 1) Controle inibitório, ou seja, a capacidade de inibir pensamentos, emoções, comportamentos e/ ou impulsos internos ou externos anteriormente aprendidos em função de uma nova demanda; 2) Memória operacional, ou seja, a capacidade de armazenar temporariamente uma informação verbal ou visual a fim de manipular essa informação para a resolução de problemas ou ativida- des diárias; 3) Flexibilidade cognitiva, ou seja, a habilidade de flexibilizar comportamentos e/ou impulsos anteriormente aprendidos ou executados frente a uma nova demanda interna ou exter- na, levando à mudança emocional e/ou comportamental, por exemplo (Diamond, 2013). Abreu (2019) aponta que o tempo de uso da internet e outras mídias interativas está associado a um menor tempo de leitura de livros ou de ouvir histórias, o que pode impactar, na infância, o desenvolvimento da linguagem oral e a fluência nos hábitos de leitura. Além disso, o aumento das horas de exposição a telas pode levar a um aumento da obesidade, problemas de sono, oscilações de humor, comportamentos agressivos e menor tempo de sustentação da atenção, quando comparado a indivíduos que passam menos tempo diante das telas. Sobre a relação entre o uso de internet e a regulação emocional, Goia, Rega e Bouriser (2021) realizaram uma revisão de literatura com 23 estudos e encontraram uma associação entre des- regulação emocional e o uso excessivo da internet. Os autores relatam que o uso de internet se configura como uma estratégia de enfrentamento para compensar os déficits de regulação emocional. Outro ponto de destaque foi que as dificuldades de suporte social e de bons relacio- namentos com pares aumentaram o uso da internet como estratégia de regulação emocional. Por fim, boas habilidades metacognitivas podem apresentar um fator protetivo contra a desregu- lação emocional e o uso problemático de internet. O processo emocional pode ser definido por Gross (2024) como um processo que envolve es- tágios como a identificação da resposta emocional, atenção à resposta emocional, avaliação cognitiva e, por fim, a resposta à situação emocional. O processo de regulação é definido pelas estratégias tomadas para lidar com qualquer uma das etapas do processamento emocional, podendo incluir estratégias de modificação da situação emocional, supressão, aceitação, reava- liação cognitiva, dentre outras. Nesse sentido, os autores relatam que o uso excessivo de internet como uma forma de escape da realidade (Kuss & Pontes, 2019) pode se enquadrar no estágio de distração do estímulo emo- cional para um evento externo. Por outro lado, essa distração do estímulo atencional, sem um pleno entendimento de sua origem (ou seja, compreensão do estímulo emocional), pode levar a um processo de supressão emocional, resultando em invalidação e aumento daquela expressão emocional. Ainda, Gross (2024) aponta que o ambiente social pode atuar como corregulador no processo emocional, principalmente em indivíduos que apresentam maior vulnerabilidade emocional ou dificuldades para regular suas emoções. 9 Fan e colaboradores (2022) observaram a relação entre autocontrole e o uso problemático da internet, mediado pela rejeição e solidão em universitários. Os resultados do estudo indicam que quanto menor o autocontrole, maior a tendência ao aumento do uso problemático da internet. Além disso, a sensibilidade à rejeição e a solidão dos universitários atuam como mediadores en- tre o autocontrole e o uso da internet. A solidão e a sensibilidade à rejeição podem estar ligadas às consequências disfuncionais na definição de estratégias de regulação emocional, gerando aumento dos índices de solidão e dificuldades no relacionamento social de maneira global. Como ainda não há critérios diagnósticos bem definidos para a identificação do Transtorno de Dependência de Internet, o processo de avaliação torna-se clínico, baseando-se na identificação de problemas relacionados ao uso problemático da internet. Podem ser utilizadas entrevistas e escalas para identificação dos problemas associados (Kuss & Pontes, 2019; Rich, Tsappis & Kavanaugh, 2019). Sobre o processo de entrevista, Rich e colaboradores (2019) apontam as se- guintes diretrizes: • Deve-se avaliar a frequência e intensidade do uso da internet ao longo do tempo; • Avaliar os impactos emocionais, comportamentais e sociais oriundos do uso problemático da internet; • Avaliar os impactos funcionais e no autocuidado que podem ser afetados pelo uso exces- sivo de mídias; • Atentar-se ao ambiente social em que o indivíduo está inserido e como isso pode estar relacionado ao uso de mídias; • Atentar-se aos fatores que contribuem para a dependência da internet (Figura 1). DIAGNÓSTICO E AVALIAÇÃO 10 Deve-se levar em consideração que as mídias eletrônicas estão cada vez mais integradas à reali- dade dos indivíduos, de forma que é necessário separar o uso excessivo e disfuncional da inter- net de um alto engajamento com esse uso. A quantidade de tempo despendido online não indica necessariamente dependência de internet. Junto ao tempo passado online, deve-se avaliar os déficits funcionais que esse tempo ocasiona no comportamento do indivíduo. Kuss & Pontes (2019) relatam que pode ser comum confundir o engajamento excessivo com a internet com o uso aditivo, principalmente quando se trata de jogos online ou do uso da internet para estudos ou relacionamentos sociais. Os usuários dependentes de internet “geralmente apresentam ní- veis mais elevados de sofrimento psíquico, comorbidades e prejuízos comportamentais” (Kuss & Pontes, p. 22). Figura 1. Fatores que contribuem para a dependência de internet Fonte: Kuss & Pontes (2019). Fatores de uso da internet Fatores sociais e ambientais Fatores audiovisuais Problemas de saúde mental comórbidos Depedência de internet 11 A dependência de internet geralmente ocorre em conjunto com outros transtornos psiquiátricos e do neurodesenvolvimento. Kuss &Pontes (2019) apontam que a de- pendência de internet é significativamente maior em indivíduos com transtorno de- pressivo maior (TDM) do que em indivíduos sem TDM. Outros autores corroboram que a dependência de internet pode estar associada a indivíduos com Transtor- no de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), Transtorno de Ansiedade Social (TAS), Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), entre outros. Os quadros psi- copatológicos não tratados podem aumentar o comportamento de dependência de internet (Kuss & Pontes, 2019; Lemos, 2024). Deve-se observar também a presença de problemas físicos associados ao uso de internet. Quadros de obesidade, compulsão alimentar, estilos desadaptativos de alimentação e alterações do sono podem influenciar negativamente na manu- tenção dos resultados da intervenção psicoterápica (Rich, Tsappis & Kavanaugh, 2019; Young & Abreu, 2011). COMORBIDADES ASSOCIADAS No contexto nacional, contamos com instrumentos de avaliação adaptados, vali- dados e com propriedades psicométricas satisfatórias para a avaliação da depen- dência de internet. O uso de instrumentos padronizados proporciona uma visão global dos problemas associados ao uso de mídias, além de oferecer uma medida quantitativa, que pode orientar a intervenção psicoterapêutica posterior e realizar a manutenção de ganhos. Gorenstein & Wang (2024) mencionam dois instrumentos para a avaliação da dependência de internet: a “Escala de Transtorno de Jogo pela Internet – versão reduzida” (IGDS9-SF) e o “Problematic Internet Use Questionnaire – Short Form- 9” (PIU-SF-9). Além disso, existe a “Smartphone Addiction Scale – Long Version” (SAS-LV), que avalia o uso problemático de celulares smartphones em adolescen- tes e adultos. Adicionalmente, pode ser necessário o uso de escalas alternativas para avaliar sintomas de impulsividade, ansiedade, depressão, estresse, problemas sociais e funcionalidade, a fim de complementar a avaliação global do indivíduo e orientar o tratamento (Kuss & Pontes, 2019; Young & Abreu, 2011). USO DE ESCALAS DE AVALIAÇÃO 12 Rich e colaboradores (2019) apontam que, geralmente, indivíduos que apresentam característi- cas de dependência de internet não procuram atendimento por conta própria, especialmente na população infantojuvenil. As motivações para a procura de acompanhamento psicoterapêutico surgem por meio de terceiros, de forma que o estabelecimento de vínculo se torna essencial para a elaboração de um plano de intervenção. Dessa forma, a literatura destaca a importância do trabalho com Entrevista Motivacional (EM) na atuação com pessoas com dependência de internet (Young & Abreu, 2011; Kuss & Pontes, 2019). A entrevista motivacional, nesses casos, pode auxiliar na redução de problemas associados à falta de motivação e engajamento no processo terapêutico, além de promover motivação para a mudança, identificação de metas e objetivos terapêuticos, e a manutenção de ganhos ao longo do tempo (Kuss & Pontes, 2019). A intervenção nesses casos pode seguir o modelo individual, assim como o modelo grupal, ge- ralmente utilizando como base intervenções em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). A in- tervenção em TCC para dependência de internet tem como objetivo modificar pensamentos e comportamentos associados ao uso aditivo da internet. Kuss & Pontes (2019) destacam que o modelo cognitivo-comportamental da TCC abrange variáveis relacionadas aos pensamentos desadaptativos, que são essenciais para a instalação e manutenção da dependência de internet. Dessa forma, pensamentos disfuncionais levam os indivíduos a escaparem da realidade utili- zando as mídias digitais, o que aumenta problemas comórbidos, como ansiedade, depressão, problemas sociais, entre outros fatores. Young (2007) relata que as intervenções em TCC para dependência de internet auxiliam os pa- cientes a: • Reduzir o tempo de uso da internet; • Diminuir os sintomas de dependência; • Melhorar as estratégias de regulação emocional; • Aumentar o bem-estar geral. INTERVENÇÃO PSICOTERAPÊUTICA 13 Deve-se levar em consideração, no entanto, que, por se tratar de uma dependência não química e amplamente aceita e utilizada em nossa sociedade, não haverá remissão total dos sintomas nem do uso da internet. Resultados que busquem essa remissão total seriam desaconselháveis. O principal objetivo no tratamento da dependência de internet não é a abolição do uso de mídias interativas, mas sim o seu uso consciente (Rich, Tsappis & Kavanaugh, 2019). Dessa forma, o trabalho de motivação inicial e engajamento para o tratamento torna-se mais difícil, uma vez que se tem em mãos um objetivo de desejo e fixação frequentemente estimulado pelo uso da internet, o que pode levar a recaídas. A prevenção de recaídas, assim como nas de- pendências químicas, é esperada e, em certo grau, validada. Nesse ponto, estratégias baseadas em aceitação e validação são incentivadas para não alimentar cognições desadaptativas frente às recaídas (Kuss & Pontes, 2019; Rich, Tsappis & Kavanaugh, 2019). Um estudo de 2018, que contou com 17 participantes adolescentes submetidos a um programa de 8 sessões grupais com base em TCC, abordando temas relacionados ao uso problemático de internet, encontrou, após o tratamento, uma redução significativa dos sintomas de uso de inter- net e sintomas de ansiedade. Após um mês da finalização do tratamento, houve manutenção dos ganhos obtidos, com redução das medidas observadas (Kim et al., 2018). Ding & Li (2023) realizaram uma revisão de escopo sobre intervenções para dependência de in- ternet em crianças e adolescentes e elaboraram um fluxograma integrado para o norteamento da intervenção em vícios digitais (Figura 2). INTERVENÇÕES EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES Figura 2. Fluxograma de intervenção integrado para dependência de internet Fonte: Adaptado de Ding & Li (2023). Intervenção integrada em dependência de internet Triagem inicial e avaliação da dependência de internet Elaboração de um programa de intervenção individualizado frente à avaliação Implementação da intervenção proposta Avaliação pós-intervenção Objetivos da intervenção não atendidos Objetivos da intervenção foram atendidos Follow-up 14 INTERVENÇÕES EM ADULTOS Como limitações dessas intervenções, os autores apontam a falta de estruturação nos progra- mas de intervenção. Além disso, quando se trata de intervenções grupais, a elegibilidade de participantes homogêneos (em relação às faixas de idade e tipo de dependência digital) pode melhorar os resultados da intervenção (Ding & Li, 2023). Em adultos, Schimidt e colaboradores (2022) conduziram um ensaio clínico randomizado envol- vendo 497 jovens adultos com dependência de internet, em intervenções baseadas em entrevista motivacional realizada de maneira remota durante duas semanas. Após a intervenção, o grupo clínico apresentou uma redução significativa no uso problemático da internet em comparação com o grupo controle, assim como diminuições nos sintomas de dependência de internet, como compulsão, falta de controle e consequências negativas. As estratégias baseadas em entrevista motivacional mostram-se eficazes para reduzir o uso problemático de internet e aumentar o engajamento e motivação dos participantes, fazendo-os refletir sobre o impacto da internet em seu funcionamento e desenvolvendo uma atitude mais consciente sobre o uso desses dispositivos (Schimidt et al., 2022; Kuss & Pontes, 2019). O trabalho de Entrevista Motivacional é definido por Araújo, Pedroso e Castro (2017) como um estilo colaborativo para proporcionar motivação para a mudança em um compromisso especí- fico. O objetivo da entrevista motivacional é aumentar a motivação intrínseca, promovendo a mudança de comportamentos autodestrutivos e autodepreciativos. Embora não seja um compo- nente das TCCs, esta abordagem é geralmente utilizada como ferramenta de apoio para promo- ver mudanças de comportamentos disfuncionais. Sua linha de intervençãomais forte baseia-se no trabalho com dependência química, mas as estratégias de entrevista motivacional podem ser utilizadas em outros quadros, como na dependência de internet (Young, 2007; Kuss & Pontes, 2019; Young & Abreu, 2011). 15 INTEGRAÇÃO DE FAMILIARES E OUTRAS PESSOAS NO PROCESSO TERAPÊUTICO Abreu (2019) aponta que a exposição às mídias sempre ocorre em um determinado ambiente. Este ambiente deve ser avaliado em conjunto com as características comportamentais e a sinto- matologia. Quando se trata de crianças e adolescentes, principalmente, deve-se entender os fa- tores ambientais que geram a manutenção desses comportamentos aditivos. As funções execu- tivas, descritas anteriormente, apresentam um fator de desenvolvimento aplicado à estimulação. Esta estimulação inicia-se ainda na infância, quando habilidades relacionadas ao controle de im- pulsos, memória de trabalho, organização/planejamento e flexibilidade cognitiva são requeridas (Dias & Malloy-Diniz, 2019; Diamond, 2013). Dessa forma, Abreu (2019) relata que a qualidade da interação social parental e a supervisão dada pelos adultos de referência, assim como a qua- lidade da exposição às telas, pode influenciar no desenvolvimento adequado das funções exe- cutivas, influenciando, assim, a manutenção dos comportamentos de dependência de internet. O espírito da Entrevista Motivacional envolve quatro elementos: 1) Colaboração, em que o en- trevistador procura propiciar uma atmosfera interpessoal positiva e favorável à mudança, sem invalidação e julgamento; 2) Aceitação da individualidade, que inclui empatia acurada, interesse ativo para compreensão da perspectiva do outro, apoio à autonomia, suporte e reconhecimento dos valores pessoais; 3) Compaixão, que é um compromisso deliberado para promover o bem- -estar; e 4) Evocação, focada em identificar déficits a serem corrigidos, evocando-os de maneira colaborativa com o entrevistado, procurando recursos dentro de si para lidar com esses déficits (Araújo, Pedroso & Castro, 2017). Voltado para o trabalho na dependência de internet, o processo de Entrevista Motivacional inclui quatro elementos: engajamento, foco, evolução e planejamento (Araújo, Pedroso & Castro, 2017; Kuss & Pontes, 2019). O primeiro estágio, engajamento, refere-se à vinculação terapêutica, es- sencial para qualquer processo terapêutico, sendo ainda mais necessário para a dependência de internet, como descrito anteriormente. O segundo processo, foco, refere-se ao estabelecimento de um acordo para o trabalho terapêu- tico, estabelecido de forma colaborativa. Uma meta geralmente estabelecida na dependência de internet é passar menos tempo frente ao computador/internet, ao invés de buscar a absti- nência completa (Kuss & Pontes, 2019). O processo de evocação refere-se ao estabelecimento de motivações internas para mudança, geralmente relacionadas aos problemas identificados ao longo da entrevista inicial e às consequências desses comportamentos no funcionamento do indivíduo. Por fim, o processo de planejamento envolve um compromisso ativo com a mudança e o estabelecimento de um plano de ação de curto prazo para alcançar tal objetivo. Nesse ponto, podem ser utilizadas estratégias cognitivas e comportamentais para auxiliar o indivíduo a alcan- çar sua mudança (Kuss & Pontes, 2019; Araújo, Pedroso & Castro, 2017). 16 O trabalho parental, no caso da dependência de internet, é altamente encorajado, integrando os familiares e o ambiente social no tratamento. Kuss & Pontes (2019) apontam que o tratamento psicoterapêutico pode suscitar preocupações nos familiares, assim como a própria dependência pode gerar conflitos domiciliares, desconfiança, agressões físicas e verbais. Familiares e parcei- ros podem sentir-se frustrados, esgotados e céticos em relação às possibilidades de mudança. Para isso, o processo terapêutico expande-se das sessões individuais ou grupais e abrange ou- tras pessoas relevantes na vida daquele indivíduo. Fornecer psicoeducação para os familiares pode favorecer a prevenção de recaídas, como mostram Kuss & Pontes (2019): • Oferecer informações para a família sobre a instalação e manutenção da dependência de internet; • Estabelecer experiências positivas e compreensão na parceria durante o tratamento; • Melhorar as capacidades de comunicação e resolução de conflitos interpessoais; • Desenvolver estratégias para o uso funcional da internet e um plano de emergência concre- to para possíveis recaídas. 17 A dependência de internet é um quadro clínico de origem multifatorial que inclui dificuldades fun- cionais que vão além das horas despendidas conectadas. Ainda não há um consenso na literatu- ra sobre os principais sintomas, a etiologia ou os planos de intervenção baseados em evidências para o uso excessivo de internet. O objetivo deste material foi realizar uma revisão integrativa dos principais déficits encontrados, correlatos neuropsicológicos e possibilidades de intervenção para crianças e adultos. Espera-se que este material contribua para o aprendizado na prática profissional de psicoterapeutas. Res- salta-se que este material não tem como objetivo sistematizar todo o conhecimento obtido na li- teratura científica sobre a dependência de internet, não esgotando a vasta literatura e referências sobre a temática nas últimas décadas. CONCLUSÃO 18 SOBRE ESTE E-BOOK Como citar este e-book: Francisco, G. C. P., Lobo, B. O. M., & Neufeld, C. B. (Dez., 2024). Dependência tecnológica e de internet: aspectos clínicos e terapêuticos. [E-book]. Artmed. Guilherme C. P. Francisco Psicólogo. Mestre em Distúrbios do Desenvolvimento (Universidade Presbiteriana Mackenzie). Doutorando em Ciências do Desenvolvimento Humano (Universidade Presbiteriana Mackenzie). Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (CETCC). Especialista em Neuropsicologia (CETCC). Tutor Cogmed (Pearson Clinical Brasil). Coordenador do curso de Neuropsicologia (CETCC). Membro associado à Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Beatriz de Oliveira Meneguelo Lobo Psicóloga e mestra em Psicologia (área de concentração Cognição Humana) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Doutoranda em Psicologia em Saúde e Desenvolvimento pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade de São Paulo (USP), com bolsa pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Especialista em Terapias Cognitivo-Comportamentais e com Formação em Terapia do Esquema. Pesquisadora e supervisora no Laboratório de Pesquisa e Intervenção Cognitivo-Comportamental – LaPICC da Universidade de São Paulo (USP). AUTORAS: 19 Este conteúdo foi útil para você? 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