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Dependência Tecnologica e da Internet

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DEPENDÊNCIA
TECNOLÓGICA E
DE INTERNET:
aspectos clínicos e terapêuticos
e-book
índice
Introdução ............................................................................ 3
Tipos de dependência de internet ........................................ 4
Motivações para o uso problemático de internet ............... 6
Déficits neuropsicológicos e emocionais 
da dependência de internet ................................................ 7
Diagnóstico e avaliação ....................................................... 9
Comorbidades associadas ................................................ 11
Uso de escalas de avaliação .............................................. 11
Intervenção psicoterapêutica ............................................. 12
Intervenções em crianças e adolescentes ........................ 13
Intervenções em adultos ................................................... 14
Integração de familiares e outras pessoas 
no processo terapêutico ................................................... 15
Conclusão ....................................................................... 17 
Sobre este e-book ......................................................... 18 
A Artmed ......................................................................... 19
Referências ..................................................................... 20
3
Nos últimos anos, pode-se observar um aumento significativo no uso de fontes digitais de infor-
mação, principalmente relacionadas à internet e aos jogos eletrônicos, que se tornam cada vez 
mais populares. A dependência tecnológica tem se tornado uma preocupação crescente, impac-
tando diversas esferas da vida cotidiana, desde as relações sociais até o desempenho acadê-
mico e profissional. O uso excessivo de dispositivos tecnológicos, especialmente da internet, é 
uma das formas mais prevalentes dessa dependência. A internet, além de ser uma ferramenta 
essencial para o trabalho e a educação, também se apresenta como um meio de entretenimento 
e interação social, o que acarreta desafios significativos quanto ao seu controle. 
Este e-book terá como foco a dependência de internet especificamente, por ser um fenômeno 
amplamente difundido que pode acarretar prejuízos significativos, como déficits cognitivos e 
emocionais, além de impactos funcionais na vida dos indivíduos. Essa escolha justifica-se pelo 
fato de que, enquanto outras formas de dependência tecnológica envolvem um uso específico, 
como de videogames ou redes sociais, a dependência de internet abrange um espectro mais 
amplo de comportamentos que afetam diretamente a saúde mental e o bem-estar social. 
A partir de 2020, com as políticas de isolamento social impostas pela pandemia de Covid-19, 
houve um aumento significativo no uso de jogos digitais comerciais como uma forma de “es-
capismo” para enfrentar aspectos de solidão, ansiedade e monotonia causados pela pandemia 
(Boldi, Rapp & Tirassa, 2022). Um estudo realizado em 2020 na Itália, um dos países que mais 
sofreu com as políticas de isolamento social, observou uma frequência de uso da internet até 
quatro vezes maior quando comparado com o período pré-pandemia (Candela, Luconni & Vec-
chio, 2020). 
INTRODUÇÃO
4
Kuss e Pontes (2019) apresentam cinco tipos distintos de comportamento online aditivo, sendo 
essencial a sua diferenciação para o direcionamento efetivo do tratamento psicológico: 
• Dependência cibersexual: envolvendo o uso aditivo de sites adultos para fins sexuais; 
• Dependência de ciber-relacionamentos: envolvendo o uso aditivo em relacionamentos 
online; 
• Compulsões de rede: que envolvem o uso aditivo de jogos, compras ou comércio online; 
• Sobrecarga de informações: que envolve o uso aditivo da internet para buscar informações; 
• Dependência de computador: envolvendo o comportamento aditivo de jogos online. 
Os critérios diagnósticos para o uso problemático de internet foram descritos por Shapira e cola-
boradores (Shapira et al., 2003) e podem ser utilizados para nortear o processo de identificação. 
No entanto, a atenção dos pesquisadores para o uso excessivo da internet não se iniciou com a 
Covid-19. Sabe-se que a primeira descrição da dependência de internet surgiu em 1996, em uma 
pesquisa apresentada à Associação Psicológica Americana, na qual foram apresentados 600 
casos de usuários com características de dependência, utilizando uma medida alternativa dos 
critérios do DSM-IV, que, na época, apresentava critérios diagnósticos de uso excessivo de jogos 
de azar (Young & Abreu, 2011). Os estudos na área aumentaram consideravelmente ao longo dos 
últimos anos, a ponto de o “Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais”, o DSM-
-5-TR, atualmente em sua quinta edição (APA, 2023), considerar a dependência de internet como 
uma característica que pode, futuramente, se enquadrar como um transtorno. 
A dependência de internet pode ser entendida como um padrão específico de comportamento 
no uso da internet, que envolve um desejo intenso e disfuncional por períodos desregulados e 
excessivos, acompanhado de diversos prejuízos funcionais significativos que não são bem ex-
plicados por outros quadros psiquiátricos (Kuss & Pontes, 2019). A dependência de internet está 
inserida dentro de um guarda-chuva de dependências tecnológicas, um modelo de dependência 
não química, mas que engloba um conjunto de dependências comportamentais relacionadas ao 
impulso ou comportamentos aditivos. 
TIPOS DE DEPENDÊNCIA DE INTERNET
5
Tabela 1. Critérios diagnósticos para o uso problemático de internet 
Fonte: Adaptado de Shapira et al. (2003) e Abreu et al. (2008). 
Preocupações com o uso da internet experienciadas como incontroláveis e irresistíveis; 
O uso da internet é marcado por períodos maiores do que os planejados;
Preocupação desadaptativa com o uso da internet,
conforme indicado por pelo menos um dos seguintes itens: 
O uso da internet e a preocupação com o uso causam prejuízos
significativos ou danos nos aspectos sociais, ocupacionais ou
em outras áreas importantes do funcionamento; 
O uso excessivo da internet não ocorre exclusivamente durante os períodos
de hipomania ou mania e não é mais bem explicado por outro Transtorno do Eixo II. 
a)
b)
No entanto, embora a Tabela 1 apresente critérios específicos para o diagnóstico, autores mais 
recentes alertam para a necessidade de uma definição mais precisa e aperfeiçoada dos critérios 
e comportamentos do uso problemático de internet, englobando características e outros softwa-
res, como redes sociais. Essa população pode desenvolver sintomas semelhantes aos de outros 
transtornos aditivos não relacionados a substâncias, levando-os a experimentar sintomas nega-
tivos e desagradáveis em razão do uso exacerbado dessas mídias digitais (Kuss & Pontes, 2019). 
6
Para realizar uma diferenciação precisa do uso patológico de internet, é necessá-
rio identificar as fontes de motivação para o uso dessas mídias. Kuss & Pontes 
(2019) apontam cinco motivações para o uso da internet, sendo elas: 
a) Utilidade interpessoal, marcada pelo contato social e interação online; 
b) Modo de passar o tempo, marcado pelo uso da internet para evitar o tédio; 
c) Busca de informações, caracterizado pelo uso da internet para buscar in-
formações online; 
d) Conveniência, marcada pela facilidade do acesso à internet para se comu-
nicar com outras pessoas; 
e) Entretenimento, caracterizado pelo uso de mídias digitais para entreteni-
mento. 
Nota-se que, nos últimos anos, o aumento significativo do uso da internet está 
ligado às motivações mencionadas anteriormente, principalmente para passar o 
tempo (motivação 2), contato social digital, impossibilitado pela pandemia de Co-
vid-19 (motivação 1), e entretenimento (motivação 5). Rich, Tsappis & Kavanaugh 
(2019) apontam que, diferente do uso de substâncias psicoativas, o uso excessi-
vo de internet está integrado a diferentes aspectos da vida diária.
Atualmente, pode-se trabalhar de maneiraremota, crianças e adolescentes de-
vem realizar buscas online para a execução de trabalhos e tarefas acadêmicas, 
participar de chats de aprendizado e reuniões online de trabalho, que são cada vez 
mais comuns. Dessa forma, torna-se necessária a identificação de dificuldades e 
prejuízos associados ao uso da internet e sua diferenciação de uma alta demanda 
para seu uso, causada pelo ambiente social ou laboral do indivíduo. 
MOTIVAÇÕES PARA O USO 
PROBLEMÁTICO DE INTERNET 
7
DÉFICITS NEUROPSICOLÓGICOS E EMOCIONAIS 
DA DEPENDÊNCIA DE INTERNET 
O avanço do uso da internet, seja de forma funcional ou exacerbada, acarreta mudanças signifi-
cativas no funcionamento cerebral. Principalmente durante a infância e a adolescência, quando 
o cérebro está em pleno desenvolvimento de suas habilidades cognitivas, a interferência do uso 
problemático de mídias pode acarretar prejuízos cognitivos, quando comparado com indivíduos 
que não apresentam tal padrão comportamental (Abreu, 2019). 
Em uma metanálise envolvendo 40 estudos sobre o efeito do uso problemático de internet e 
aspectos cognitivos, foram encontradas alterações significativas em áreas como atenção e 
funções executivas, como memória operacional, controle inibitório e tomada de decisão. Além 
disso, observaram-se dificuldades no armazenamento e organização da informação aprendida 
anteriormente. Essas dificuldades são semelhantes às observadas em indivíduos com uso de 
substâncias, especialmente quando comparados aos níveis de habilidades cognitivas, como 
controle inibitório e impulsividade (Ioannidis et al., 2019). 
As funções executivas podem ser definidas como um termo guarda-chuva que engloba ativi-
dades, de maneira geral, de identificação e controle do comportamento humano realizadas de 
maneira controlada e direcionada a metas e objetivos (Diamond, 2013). 
Autores relatam que as funções executivas podem ser divididas em três estruturas principais, 
que servem de base para o desenvolvimento de habilidades mais complexas. São elas: 
8
1) Controle inibitório, ou seja, a capacidade de inibir pensamentos, emoções, comportamentos e/
ou impulsos internos ou externos anteriormente aprendidos em função de uma nova demanda; 
2) Memória operacional, ou seja, a capacidade de armazenar temporariamente uma informação 
verbal ou visual a fim de manipular essa informação para a resolução de problemas ou ativida-
des diárias; 3) Flexibilidade cognitiva, ou seja, a habilidade de flexibilizar comportamentos e/ou 
impulsos anteriormente aprendidos ou executados frente a uma nova demanda interna ou exter-
na, levando à mudança emocional e/ou comportamental, por exemplo (Diamond, 2013). 
Abreu (2019) aponta que o tempo de uso da internet e outras mídias interativas está associado 
a um menor tempo de leitura de livros ou de ouvir histórias, o que pode impactar, na infância, o 
desenvolvimento da linguagem oral e a fluência nos hábitos de leitura. Além disso, o aumento 
das horas de exposição a telas pode levar a um aumento da obesidade, problemas de sono, 
oscilações de humor, comportamentos agressivos e menor tempo de sustentação da atenção, 
quando comparado a indivíduos que passam menos tempo diante das telas. 
Sobre a relação entre o uso de internet e a regulação emocional, Goia, Rega e Bouriser (2021) 
realizaram uma revisão de literatura com 23 estudos e encontraram uma associação entre des-
regulação emocional e o uso excessivo da internet. Os autores relatam que o uso de internet 
se configura como uma estratégia de enfrentamento para compensar os déficits de regulação 
emocional. Outro ponto de destaque foi que as dificuldades de suporte social e de bons relacio-
namentos com pares aumentaram o uso da internet como estratégia de regulação emocional. 
Por fim, boas habilidades metacognitivas podem apresentar um fator protetivo contra a desregu-
lação emocional e o uso problemático de internet. 
O processo emocional pode ser definido por Gross (2024) como um processo que envolve es-
tágios como a identificação da resposta emocional, atenção à resposta emocional, avaliação 
cognitiva e, por fim, a resposta à situação emocional. O processo de regulação é definido pelas 
estratégias tomadas para lidar com qualquer uma das etapas do processamento emocional, 
podendo incluir estratégias de modificação da situação emocional, supressão, aceitação, reava-
liação cognitiva, dentre outras. 
Nesse sentido, os autores relatam que o uso excessivo de internet como uma forma de escape 
da realidade (Kuss & Pontes, 2019) pode se enquadrar no estágio de distração do estímulo emo-
cional para um evento externo. Por outro lado, essa distração do estímulo atencional, sem um 
pleno entendimento de sua origem (ou seja, compreensão do estímulo emocional), pode levar a 
um processo de supressão emocional, resultando em invalidação e aumento daquela expressão 
emocional. 
Ainda, Gross (2024) aponta que o ambiente social pode atuar como corregulador no processo 
emocional, principalmente em indivíduos que apresentam maior vulnerabilidade emocional ou 
dificuldades para regular suas emoções. 
9
Fan e colaboradores (2022) observaram a relação entre autocontrole e o uso problemático da 
internet, mediado pela rejeição e solidão em universitários. Os resultados do estudo indicam que 
quanto menor o autocontrole, maior a tendência ao aumento do uso problemático da internet. 
Além disso, a sensibilidade à rejeição e a solidão dos universitários atuam como mediadores en-
tre o autocontrole e o uso da internet. A solidão e a sensibilidade à rejeição podem estar ligadas 
às consequências disfuncionais na definição de estratégias de regulação emocional, gerando 
aumento dos índices de solidão e dificuldades no relacionamento social de maneira global.
Como ainda não há critérios diagnósticos bem definidos para a identificação do Transtorno de 
Dependência de Internet, o processo de avaliação torna-se clínico, baseando-se na identificação 
de problemas relacionados ao uso problemático da internet. Podem ser utilizadas entrevistas 
e escalas para identificação dos problemas associados (Kuss & Pontes, 2019; Rich, Tsappis & 
Kavanaugh, 2019). Sobre o processo de entrevista, Rich e colaboradores (2019) apontam as se-
guintes diretrizes: 
• Deve-se avaliar a frequência e intensidade do uso da internet ao longo do tempo; 
• Avaliar os impactos emocionais, comportamentais e sociais oriundos do uso problemático 
da internet; 
• Avaliar os impactos funcionais e no autocuidado que podem ser afetados pelo uso exces-
sivo de mídias; 
• Atentar-se ao ambiente social em que o indivíduo está inserido e como isso pode estar 
relacionado ao uso de mídias; 
• Atentar-se aos fatores que contribuem para a dependência da internet (Figura 1). 
DIAGNÓSTICO E AVALIAÇÃO 
10
Deve-se levar em consideração que as mídias eletrônicas estão cada vez mais integradas à reali-
dade dos indivíduos, de forma que é necessário separar o uso excessivo e disfuncional da inter-
net de um alto engajamento com esse uso. A quantidade de tempo despendido online não indica 
necessariamente dependência de internet. Junto ao tempo passado online, deve-se avaliar os 
déficits funcionais que esse tempo ocasiona no comportamento do indivíduo. Kuss & Pontes 
(2019) relatam que pode ser comum confundir o engajamento excessivo com a internet com o 
uso aditivo, principalmente quando se trata de jogos online ou do uso da internet para estudos 
ou relacionamentos sociais. Os usuários dependentes de internet “geralmente apresentam ní-
veis mais elevados de sofrimento psíquico, comorbidades e prejuízos comportamentais” (Kuss 
& Pontes, p. 22). 
Figura 1. Fatores que contribuem para a dependência de internet
Fonte: Kuss & Pontes (2019).
Fatores de uso
da internet
Fatores sociais
e ambientais
Fatores
audiovisuais
Problemas de
saúde mental
comórbidos
Depedência
de internet
11
A dependência de internet geralmente ocorre em conjunto com outros transtornos 
psiquiátricos e do neurodesenvolvimento. Kuss &Pontes (2019) apontam que a de-
pendência de internet é significativamente maior em indivíduos com transtorno de-
pressivo maior (TDM) do que em indivíduos sem TDM. Outros autores corroboram 
que a dependência de internet pode estar associada a indivíduos com Transtor-
no de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), Transtorno de Ansiedade Social 
(TAS), Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), entre outros. Os quadros psi-
copatológicos não tratados podem aumentar o comportamento de dependência 
de internet (Kuss & Pontes, 2019; Lemos, 2024). 
Deve-se observar também a presença de problemas físicos associados ao uso 
de internet. Quadros de obesidade, compulsão alimentar, estilos desadaptativos 
de alimentação e alterações do sono podem influenciar negativamente na manu-
tenção dos resultados da intervenção psicoterápica (Rich, Tsappis & Kavanaugh, 
2019; Young & Abreu, 2011). 
COMORBIDADES ASSOCIADAS 
No contexto nacional, contamos com instrumentos de avaliação adaptados, vali-
dados e com propriedades psicométricas satisfatórias para a avaliação da depen-
dência de internet. O uso de instrumentos padronizados proporciona uma visão 
global dos problemas associados ao uso de mídias, além de oferecer uma medida 
quantitativa, que pode orientar a intervenção psicoterapêutica posterior e realizar 
a manutenção de ganhos. 
Gorenstein & Wang (2024) mencionam dois instrumentos para a avaliação da 
dependência de internet: a “Escala de Transtorno de Jogo pela Internet – versão 
reduzida” (IGDS9-SF) e o “Problematic Internet Use Questionnaire – Short Form-
9” (PIU-SF-9). Além disso, existe a “Smartphone Addiction Scale – Long Version” 
(SAS-LV), que avalia o uso problemático de celulares smartphones em adolescen-
tes e adultos. 
Adicionalmente, pode ser necessário o uso de escalas alternativas para avaliar 
sintomas de impulsividade, ansiedade, depressão, estresse, problemas sociais e 
funcionalidade, a fim de complementar a avaliação global do indivíduo e orientar o 
tratamento (Kuss & Pontes, 2019; Young & Abreu, 2011). 
USO DE ESCALAS DE AVALIAÇÃO
12
Rich e colaboradores (2019) apontam que, geralmente, indivíduos que apresentam característi-
cas de dependência de internet não procuram atendimento por conta própria, especialmente na 
população infantojuvenil. As motivações para a procura de acompanhamento psicoterapêutico 
surgem por meio de terceiros, de forma que o estabelecimento de vínculo se torna essencial para 
a elaboração de um plano de intervenção. 
Dessa forma, a literatura destaca a importância do trabalho com Entrevista Motivacional (EM) na 
atuação com pessoas com dependência de internet (Young & Abreu, 2011; Kuss & Pontes, 2019). 
A entrevista motivacional, nesses casos, pode auxiliar na redução de problemas associados à 
falta de motivação e engajamento no processo terapêutico, além de promover motivação para a 
mudança, identificação de metas e objetivos terapêuticos, e a manutenção de ganhos ao longo 
do tempo (Kuss & Pontes, 2019). 
A intervenção nesses casos pode seguir o modelo individual, assim como o modelo grupal, ge-
ralmente utilizando como base intervenções em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). A in-
tervenção em TCC para dependência de internet tem como objetivo modificar pensamentos e 
comportamentos associados ao uso aditivo da internet. Kuss & Pontes (2019) destacam que 
o modelo cognitivo-comportamental da TCC abrange variáveis relacionadas aos pensamentos 
desadaptativos, que são essenciais para a instalação e manutenção da dependência de internet. 
Dessa forma, pensamentos disfuncionais levam os indivíduos a escaparem da realidade utili-
zando as mídias digitais, o que aumenta problemas comórbidos, como ansiedade, depressão, 
problemas sociais, entre outros fatores. 
Young (2007) relata que as intervenções em TCC para dependência de internet auxiliam os pa-
cientes a: 
• Reduzir o tempo de uso da internet; 
• Diminuir os sintomas de dependência; 
• Melhorar as estratégias de regulação emocional; 
• Aumentar o bem-estar geral. 
INTERVENÇÃO PSICOTERAPÊUTICA 
13
Deve-se levar em consideração, no entanto, que, por se tratar de uma dependência não química 
e amplamente aceita e utilizada em nossa sociedade, não haverá remissão total dos sintomas 
nem do uso da internet. Resultados que busquem essa remissão total seriam desaconselháveis. 
O principal objetivo no tratamento da dependência de internet não é a abolição do uso de mídias 
interativas, mas sim o seu uso consciente (Rich, Tsappis & Kavanaugh, 2019). 
Dessa forma, o trabalho de motivação inicial e engajamento para o tratamento torna-se mais 
difícil, uma vez que se tem em mãos um objetivo de desejo e fixação frequentemente estimulado 
pelo uso da internet, o que pode levar a recaídas. A prevenção de recaídas, assim como nas de-
pendências químicas, é esperada e, em certo grau, validada. Nesse ponto, estratégias baseadas 
em aceitação e validação são incentivadas para não alimentar cognições desadaptativas frente 
às recaídas (Kuss & Pontes, 2019; Rich, Tsappis & Kavanaugh, 2019). 
Um estudo de 2018, que contou com 17 participantes adolescentes submetidos a um programa 
de 8 sessões grupais com base em TCC, abordando temas relacionados ao uso problemático de 
internet, encontrou, após o tratamento, uma redução significativa dos sintomas de uso de inter-
net e sintomas de ansiedade. Após um mês da finalização do tratamento, houve manutenção dos 
ganhos obtidos, com redução das medidas observadas (Kim et al., 2018). 
Ding & Li (2023) realizaram uma revisão de escopo sobre intervenções para dependência de in-
ternet em crianças e adolescentes e elaboraram um fluxograma integrado para o norteamento da 
intervenção em vícios digitais (Figura 2).
INTERVENÇÕES EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES 
Figura 2. Fluxograma de intervenção integrado para dependência de internet 
Fonte: Adaptado de Ding & Li (2023). 
Intervenção integrada em dependência de internet
Triagem inicial
e avaliação da
dependência
de internet
Elaboração de
um programa de
intervenção
individualizado frente
à avaliação
Implementação da
intervenção proposta Avaliação pós-intervenção
Objetivos da
intervenção não
atendidos
Objetivos da
intervenção foram
atendidos
Follow-up
14
INTERVENÇÕES EM ADULTOS 
Como limitações dessas intervenções, os autores apontam a falta de estruturação nos progra-
mas de intervenção. Além disso, quando se trata de intervenções grupais, a elegibilidade de 
participantes homogêneos (em relação às faixas de idade e tipo de dependência digital) pode 
melhorar os resultados da intervenção (Ding & Li, 2023). 
Em adultos, Schimidt e colaboradores (2022) conduziram um ensaio clínico randomizado envol-
vendo 497 jovens adultos com dependência de internet, em intervenções baseadas em entrevista 
motivacional realizada de maneira remota durante duas semanas. Após a intervenção, o grupo 
clínico apresentou uma redução significativa no uso problemático da internet em comparação 
com o grupo controle, assim como diminuições nos sintomas de dependência de internet, como 
compulsão, falta de controle e consequências negativas. 
As estratégias baseadas em entrevista motivacional mostram-se eficazes para reduzir o uso 
problemático de internet e aumentar o engajamento e motivação dos participantes, fazendo-os 
refletir sobre o impacto da internet em seu funcionamento e desenvolvendo uma atitude mais 
consciente sobre o uso desses dispositivos (Schimidt et al., 2022; Kuss & Pontes, 2019). 
O trabalho de Entrevista Motivacional é definido por Araújo, Pedroso e Castro (2017) como um 
estilo colaborativo para proporcionar motivação para a mudança em um compromisso especí-
fico. O objetivo da entrevista motivacional é aumentar a motivação intrínseca, promovendo a 
mudança de comportamentos autodestrutivos e autodepreciativos. Embora não seja um compo-
nente das TCCs, esta abordagem é geralmente utilizada como ferramenta de apoio para promo-
ver mudanças de comportamentos disfuncionais. Sua linha de intervençãomais forte baseia-se 
no trabalho com dependência química, mas as estratégias de entrevista motivacional podem ser 
utilizadas em outros quadros, como na dependência de internet (Young, 2007; Kuss & Pontes, 
2019; Young & Abreu, 2011). 
15
INTEGRAÇÃO DE FAMILIARES E OUTRAS PESSOAS 
NO PROCESSO TERAPÊUTICO 
Abreu (2019) aponta que a exposição às mídias sempre ocorre em um determinado ambiente. 
Este ambiente deve ser avaliado em conjunto com as características comportamentais e a sinto-
matologia. Quando se trata de crianças e adolescentes, principalmente, deve-se entender os fa-
tores ambientais que geram a manutenção desses comportamentos aditivos. As funções execu-
tivas, descritas anteriormente, apresentam um fator de desenvolvimento aplicado à estimulação. 
Esta estimulação inicia-se ainda na infância, quando habilidades relacionadas ao controle de im-
pulsos, memória de trabalho, organização/planejamento e flexibilidade cognitiva são requeridas 
(Dias & Malloy-Diniz, 2019; Diamond, 2013). Dessa forma, Abreu (2019) relata que a qualidade 
da interação social parental e a supervisão dada pelos adultos de referência, assim como a qua-
lidade da exposição às telas, pode influenciar no desenvolvimento adequado das funções exe-
cutivas, influenciando, assim, a manutenção dos comportamentos de dependência de internet. 
O espírito da Entrevista Motivacional envolve quatro elementos: 1) Colaboração, em que o en-
trevistador procura propiciar uma atmosfera interpessoal positiva e favorável à mudança, sem 
invalidação e julgamento; 2) Aceitação da individualidade, que inclui empatia acurada, interesse 
ativo para compreensão da perspectiva do outro, apoio à autonomia, suporte e reconhecimento 
dos valores pessoais; 3) Compaixão, que é um compromisso deliberado para promover o bem-
-estar; e 4) Evocação, focada em identificar déficits a serem corrigidos, evocando-os de maneira 
colaborativa com o entrevistado, procurando recursos dentro de si para lidar com esses déficits 
(Araújo, Pedroso & Castro, 2017). 
Voltado para o trabalho na dependência de internet, o processo de Entrevista Motivacional inclui 
quatro elementos: engajamento, foco, evolução e planejamento (Araújo, Pedroso & Castro, 2017; 
Kuss & Pontes, 2019). O primeiro estágio, engajamento, refere-se à vinculação terapêutica, es-
sencial para qualquer processo terapêutico, sendo ainda mais necessário para a dependência de 
internet, como descrito anteriormente. 
O segundo processo, foco, refere-se ao estabelecimento de um acordo para o trabalho terapêu-
tico, estabelecido de forma colaborativa. Uma meta geralmente estabelecida na dependência 
de internet é passar menos tempo frente ao computador/internet, ao invés de buscar a absti-
nência completa (Kuss & Pontes, 2019). O processo de evocação refere-se ao estabelecimento 
de motivações internas para mudança, geralmente relacionadas aos problemas identificados ao 
longo da entrevista inicial e às consequências desses comportamentos no funcionamento do 
indivíduo. Por fim, o processo de planejamento envolve um compromisso ativo com a mudança 
e o estabelecimento de um plano de ação de curto prazo para alcançar tal objetivo. Nesse ponto, 
podem ser utilizadas estratégias cognitivas e comportamentais para auxiliar o indivíduo a alcan-
çar sua mudança (Kuss & Pontes, 2019; Araújo, Pedroso & Castro, 2017). 
16
O trabalho parental, no caso da dependência de internet, é altamente encorajado, integrando os 
familiares e o ambiente social no tratamento. Kuss & Pontes (2019) apontam que o tratamento 
psicoterapêutico pode suscitar preocupações nos familiares, assim como a própria dependência 
pode gerar conflitos domiciliares, desconfiança, agressões físicas e verbais. Familiares e parcei-
ros podem sentir-se frustrados, esgotados e céticos em relação às possibilidades de mudança. 
Para isso, o processo terapêutico expande-se das sessões individuais ou grupais e abrange ou-
tras pessoas relevantes na vida daquele indivíduo. Fornecer psicoeducação para os familiares 
pode favorecer a prevenção de recaídas, como mostram Kuss & Pontes (2019): 
• Oferecer informações para a família sobre a instalação e manutenção da dependência 
de internet; 
• Estabelecer experiências positivas e compreensão na parceria durante o tratamento; 
• Melhorar as capacidades de comunicação e resolução de conflitos interpessoais; 
• Desenvolver estratégias para o uso funcional da internet e um plano de emergência concre-
to para possíveis recaídas.
17
A dependência de internet é um quadro clínico de origem multifatorial que inclui dificuldades fun-
cionais que vão além das horas despendidas conectadas. Ainda não há um consenso na literatu-
ra sobre os principais sintomas, a etiologia ou os planos de intervenção baseados em evidências 
para o uso excessivo de internet. 
O objetivo deste material foi realizar uma revisão integrativa dos principais déficits encontrados, 
correlatos neuropsicológicos e possibilidades de intervenção para crianças e adultos. Espera-se 
que este material contribua para o aprendizado na prática profissional de psicoterapeutas. Res-
salta-se que este material não tem como objetivo sistematizar todo o conhecimento obtido na li-
teratura científica sobre a dependência de internet, não esgotando a vasta literatura e referências 
sobre a temática nas últimas décadas. 
CONCLUSÃO
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SOBRE ESTE E-BOOK 
Como citar este e-book: Francisco, G. C. P., Lobo, B. O. M., & Neufeld, C. B. (Dez., 2024). 
Dependência tecnológica e de internet: aspectos clínicos e terapêuticos. [E-book]. Artmed. 
Guilherme C. P. Francisco
Psicólogo. Mestre em Distúrbios do 
Desenvolvimento (Universidade Presbiteriana 
Mackenzie). Doutorando em Ciências do 
Desenvolvimento Humano (Universidade 
Presbiteriana Mackenzie). Especialista em 
Terapia Cognitivo-Comportamental (CETCC). 
Especialista em Neuropsicologia (CETCC). 
Tutor Cogmed (Pearson Clinical Brasil). 
Coordenador do curso de Neuropsicologia 
(CETCC). Membro associado à Federação 
Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC).
Beatriz de Oliveira Meneguelo Lobo
Psicóloga e mestra em Psicologia (área 
de concentração Cognição Humana) pela 
Pontifícia Universidade Católica do Rio 
Grande do Sul (PUCRS). Doutoranda em 
Psicologia em Saúde e Desenvolvimento pela 
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de 
Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade de 
São Paulo (USP), com bolsa pelo Conselho 
Nacional de Desenvolvimento Científico e 
Tecnológico (CNPq). Especialista em Terapias 
Cognitivo-Comportamentais e com Formação 
em Terapia do Esquema. Pesquisadora e 
supervisora no Laboratório de Pesquisa e 
Intervenção Cognitivo-Comportamental – 
LaPICC da Universidade de São Paulo (USP).
AUTORAS:
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