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DISCIPLINA E INDISCIPLINA NA ESCOLA 1 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR Disciplina E Indisciplina Na Escola Existe uma grande complexidade envolta no tema que se pretende discutir neste trabalho. Ao mesmo tempo em que temos que lidar com essa realidade crescente, que é a indisciplina, temos que nos atentar para as suas possíveis causas e ver, em alguns momentos, que também somos culpados em expandi-la nos alunos. Certamente, o que acabo de anunciar nestas poucas linhas iniciais abala o leitor, deixa-o com sérias dúvidas sobre a verdadeira intenção que tem este compacto artigo. Mas acreditem. As respostas para a maioria das perguntas encontram-se em nós mesmos, assim como uma boa parcela de culpa pelos problemas ocorridos ao longo das nossas vidas pertence a nós. São vários os fatores que apontam para uma possível crise nas salas de aula das nossas escolas: professores estressados, alunos descrentes e desacreditados, ensino falido, violência física e psicológica, grande número de reprovação, evasão etc. Esses são fatores interligados entre si, ou seja, o aumento de um ocasiona o aumento do outro. Da mesma forma, ao conseguirmos a redução deste, estaremos também reduzindo aquele. O simples fato de nos depararmos com estes indicadores já nos causa pânico. Não sabemos ao menos por onde começar. E para piorar, não temos instrução suficiente para conduzir esses casos de forma exitosa, pois falta a tão pregada – e nunca posta em prática – formação continuada. Mas uma formação que contemple estes fatores; que indique as soluções das quais tanto necessitamos. Chega de enxurradas de teorias que não nos leva a lugar algum, muito pelo contrário, nos deixam cada vez mais confusos e sem saber aonde ir. Indisciplina E Sociedade Não somente o professor é culpado pelo problema da indisciplina na sala de aula, apesar de ter sua parcela de culpa, mas também outros indivíduos e instituições são responsáveis por essa realidade em evolução constante. A família, a escola, a sociedade, o próprio aluno, todos, pouco ou muito, contribuem para indisciplinarização dos nossos discentes. Segundo um dos grandes estudiosos brasileiros da indisciplina, o professor Celso dos Santos Vasconcellos, “... a disciplina consciente e interativa é a capacidade de mediar a tensão dialética entre adequação e transformação, tendo em vista atingir intencional e criticamente um objetivo...”. Apesar da afirmação de Vasconcellos não nos trazer conforto, pois explicita ainda mais a complexidade da indisciplina, ela nos aponta um norte. Indisciplina é a negação da disciplina. É a incapacidade de mediar os conflitos dialéticos entre adequação e transformação apontados por Vasconcellos. Adequar-se a transformação da sociedade, justamente esta na qual vivemos, uma sociedade marcada pela falta de limites, pela decadência de princípios básicos de respeito ao próximo, de solidariedade, de quebra de fronteiras, é uma questão de comodidade. É muito mais fácil se adaptar ao ilimitado do que viver regido por regras, por limites. Aqui mora a dificuldade da questão. Ao mesmo tempo em que o jovem transforma-se com a sociedade das ilimitações, tem que se adaptar às regras impostas, neste caso, pela escola. Aqui nasce o primeiro foco de conflito: da necessidade que a escola tem de limitar os maus hábitos adquiridos em terrenos externos a ela; o fácil (sociedade) de fora se torna o difícil de dentro (escola), portanto, por este motivo, a escola acaba sendo julgada como opressora, retentora da liberdade dos alunos, ultrapassada, limitadora. Ao ocorrer este conflito, a indisciplina se aflora, pois nasce da divergência de valores. Indisciplina E Família A instituição família tem um papel primordial na vida educacional dos discentes. É dela que, primeiramente, parte a Educação. E é pelo fracasso dela que há uma sobrecarga para a escola, especialmente para os professores. No momento em que isso acontece, uma transferência de responsabilidades é emitida à escola, que muitas das vezes não consegue resultados satisfatórios e reencaminha o problema para a família. Um verdadeiro jogo de empurra-empurra sem vencedores. “... Muitas das vezes, a família não Educa, não dá referências básicas e transfere para a escola esta tarefa...”. (Vasconcellos, 2013) Tudo começa no núcleo familiar. Os valores que precisamos carregar para exercer a cidadania são adquiridos no seio da família. À família é resguardado o dever de transmitir valores tais como: DISCIPLINA E INDISCIPLINA NA ESCOLA 2 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR respeito (em seu amplo sentido), ética, humildade, dignidade, deveres etc. A ausência desses valores faz emergir o conflito na escola, criando alunos rebeldes, professores impotentes, educação fracassada. Por isso, a falta de compromisso da família para com a educação dos seus membros, causa o crescimento da indisciplina, dentro e fora da escola. Indisciplina E Professor O questionamento dos professores sobre a atual indisciplina dos seus alunos tem um foco muito remoto, algo próximo aos 900 anos atrás, com o chamado Currículo Disciplinar Instrucionista. Com ele conseguíamos “domar” os alunos; os mantínhamos sobre “rédeas” curtas. Nessa época, mas também além dela, eram evidenciados os castigos físicos e psicológicos contra os discentes. Com o passar do tempo, e com a condenação dessas ações, o professor foi se adaptando às novas realidades e criando meios punitivos para “combater” as questões de indisciplina fracassadamente. As palmatórias, os cintos, as cordas e os cipós foram substituídos pelas avaliações. Por este motivo, as avaliações carregam através dos séculos o seu caráter punitivo, sendo sempre cercada por um tabu irremovível. Porém, em dias atuais, percebe-se cada vez mais claramente a ineficácia desse método opressor. Os alunos submetidos aos exames com este fim aparentam ainda mais indisciplina e repulsa contra os professores. Sem dúvida este método não resolve, apenas agrava. O professor pedagogo Celso Vasconcellos, criou o termo Síndrome do Ecaminhamento para designar a transferência de responsabilidade do professor para a coordenação ou direção. Mas isso não é apenas uma questão de responsabilidade, é também um caso de impotência e geração de mais indisciplina. O professor, quando não consegue conter os ânimos na sala de aula, encaminha o aluno à sala da direção ou coordenação demonstrando ao aluno sua impotência, sua fraqueza. Este, por sua vez, repete os atos indisciplinados por entenderem esta fraqueza e, principalmente, por compreenderem que a ida a estas salas não resultarão em sanções graves, a não nos casos de expulsões – procedimento não recomendado pedagogicamente. “No entanto, o aluno queria sentir a firmeza do professor. E como não sentiu, o que vai acontecer? Muito provavelmente, esse aluno vai, de novo, ter um outro ato indisciplinar para sentir essa segurança. Se de novo o professor o encaminhar, entra-se num ciclo vicioso...” (Vasconcellos, 2013) Da Síndrome do Encaminhamento nascem outros conflitos, por exemplo, entre professor e coordenador ou diretor. Ao encaminhar o aluno, o professor espera que uma punição rígida lhe seja atribuída. Em muitos casos, o professor já encaminha o aluno com um pedido de suspensão. Porém, não seria essa a intenção do aluno? Portanto, a suspensão não é uma atitude educativa e, por isso, não é a mais recomendada. Se a direção não suspende esse aluno, o professor se sente ofendido, sem importância; enquanto isso o aluno socializa com os colegas a irrelevância do professor, que cai no abismo da insignificância, perdendo toda a autoridade que a função lhe permite. Se o aluno quer sentir a sua firmeza, mostre firmeza a ele. Aja com disciplina. Se possível, insira doses de humor em suas aulas para descontrair o clima. Não exagere nas doses de disciplinas, pois a ideia dela é mediar o conflito que existe em sala de aula. Converse com os seus colegas de trabalho; pergunte se os casos acontecem tambémcom eles; reflita sobre si mesmo; monte rodas de diálogos com os seus alunos; procure compreender o que de você perturba os alunos e corrija esses atos; seja amigo dos alunos, mas mantenha a postura profissional. Lembre-se! Os conflitos ocorridos em sala de aula deverão ser corrigidos em sala de aula. Indisciplina E Escola A escola deve, principalmente, ter um Projeto Político Pedagógico que contemple as questões da indisciplina. Para tanto, a escola deverá convocar as famílias, os alunos, os professores, ou seja, toda comunidade escolar para a elaboração do PPP; deve criar possibilidades de debates com os atores da educação; deve conceber regras juntamente com os envolvidos, pois desta forma facilita o seu cumprimento. O PPP da escola deverá estar explícito a todos para consulta. Além dele, o currículo escolar deverá contemplar os valores necessários à boa convivência entre professores, alunos, direção, coordenação, família, pessoal de apoio, enfim, ao bom convívio e harmonia entre todos os envolvidos na promoção da educação e inserção do indivíduo na sociedade. DISCIPLINA E INDISCIPLINA NA ESCOLA 3 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR Além disso, sempre que possível, a escola deverá promover palestras com especialistas, que debaterão o assunto com a propriedade de quem entende mais profundamente do assunto. Outro fator importante é a promoção da formação continuada dos professores, onde eles poderão adquirir conhecimentos seguros para liderarem os conflitos adequadamente e contribuírem para a elevação da pacificidade dentro e fora da sala de aula. Prioridade também é possibilitar, sempre, o diálogo entre todos os envolvidos com a educação. Indisciplina E Aluno O aluno é o núcleo do processo educativo. É a partir dele e para ele que toda a educação é pensada. Infelizmente, este aluno tem protagonizado cenas de horror nas escolas, através da manifestação da indisciplina explícita. Boa parte dos alunos da atualidade perdeu o foco dos estudos e mira um norte divergente daquele apontado pela educação; talvez por esperarem algo diferente da escola, talvez pelos ensinamentos da sociedade das ilimitações, talvez pelo fracasso da família, ou ainda pela “inadequação” da escola. O importante frisar é que o aluno está cada vez mais distante das boas questões educacionais, menos comprometido com a própria formação e muito mais agressivo. O momento é de reflexão, é de pensar que a vida parece ser muito longa, mas quando menos esperamos já estaremos na velhice sem ao menos perceber que o tempo passou tão depressa. É preciso conscientizar-se das responsabilidades que a vida nos traz. É preciso planos, metas, organização. Um presente desregrado transforma-se num futuro instável. O tão importante aluno do qual nos referimos precisará tomar um “choque” de realidade; ele precisa acordar e perceber que não vive num mundo de ilusões, de superficialidades; terá que perceber a indisciplina como a indicadora de um fracasso futuro, mas não tão distante. Seria um bom caminho para o professor, trilhar o caminho da conscientização do aluno. Por Trás Da Indisciplina Escolar O Brasil ocupa o primeiro lugar no quesito “tempo gasto para manter a ordem na classe”. É o que indica a Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizado (Talis, na sigla em inglês), respondida por professores de 32 países em 2013. Trocando em miúdos, os professores brasileiros são os que mais perdem tempo tentando combater a indisciplina escolar. Na média, os profissionais brasileiros disseram que perdem 20% do período de aula com indisciplina, enquanto o padrão foi de 13%. É a segunda vez que a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) faz essa pesquisa com profissionais que atuam nos últimos anos do Ensino Fundamental. Na primeira, em 2008, os educadores brasileiros também foram os que mais disseram perder aula com o assunto. O dado isolado não traz novidade para quem está em sala de aula, mas um estudo feito com cruzamento de outras respostas ao mesmo questionário ajuda a explicar por que ostentamos tal recorde. Entre os profissionais que reclamam perder mais tempo estão os que declararam ter alunos pobres e atuar em grandes cidades. Já entre aqueles que gastam menos tempo com o problema aparecem docentes que lecionam em escolas mais democráticas e colaborativas. “A partir de um conjunto de respostas como qual a frequência com que o educador dá e recebe retorno sobre seu trabalho, observa colegas, atua em conjunto, participa de atividades com turmas diferentes, percebemos, por exemplo, quem está em ambientes colaborativos. Da mesma maneira, chegamos às escolas que têm mais espaço para participação de pais e alunos. Para cada fator há um conjunto de respostas”, explica a pesquisadora em políticas públicas Gabriela Moriconi, da Fundação Carlos Chagas, que ganhou uma bolsa para realizar análises sobre os dados na sede da OCDE e investigar soluções adotadas por outros países. O estudo leva para além do senso comum de que os estudantes seriam indisciplinados e parte para as razões que geram a desordem. A escolha do foco veio pela constatação em outras investigações de que a indisciplina é um dos principais obstáculos para o trabalho docente. “Além da questão de perder tempo de aula, temos muitas evidências no País de que esse é um dos motivos de abandono da profissão”, afirma a pesquisadora. DISCIPLINA E INDISCIPLINA NA ESCOLA 4 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR Para a análise, ela cruzou respostas a outras perguntas do questionário para entender quais fatores estão associados a professores que gastam tempo para manter a ordem no Brasil e em duas realidades consideradas próximas: Chile e México. Outro dado importante na análise do resultado da pesquisa de Gabriela é a formação específica. Quando o conteúdo ensinado faz parte da área de conhecimento do professor, ele perde menos tempo com indisciplina. Os educadores que afirmam terem aprendido a ensinar determinado conteúdo, perdem menos tempo ainda. “A literatura especializada sobre engajamento mostra que a primeira coisa para manter o envolvimento é o domínio do conteúdo e saber ensinar. Então, esses achados fizeram muito sentido para mim”, diz. Para ela, a questão da colaboração profissional também cai na formação tanto de conteúdo como de gestão da sala de aula em termos de organização do tempo, divisão das atividades, espaço e estabelecimento de regras. “Diante da realidade que temos, muito se aprende com outros colegas, tanto a prevenir maus comportamentos como a agir diante de casos de indisciplina.” Bons Exemplos A partir das constatações, Gabriela fez a segunda parte da pesquisa em busca de programas e políticas públicas que poderiam servir aos brasileiros para reduzir o tempo gasto para manter a ordem. Ela escolheu conhecer as saídas adotadas na Inglaterra e em Ontário, região do Canadá, por serem sistemas em que quase todos os alunos atingem desempenho ao menos razoável e teriam problemas com indisciplina, segundo as declarações dos professores locais. O estudo constatou que a colaboração e a formação dos professores se davam em ambientes em que a dedicação é exclusiva a uma escola, o que aumenta a integração da equipe e os momentos de troca. “O aprendizado e os combinados não ocorrem apenas em um determinado horário específico. A gente sabe que não é assim em setor algum. Quanto mais os profissionais convivem, mais se fortalecem.” Por outro lado, uma das percepções foi de que os adolescentes dos últimos anos do Ensino Fundamental eram por lá tão desafiadores quanto os brasileiros. Em suas visitas, a pesquisadora viu gestores lidando inclusive com casos de violência física e tráfico de drogas. “Quando eu contava sobre a impressão dos educadores brasileiros, os professores diziam que era assim no mundo todo, algo natural da idade”, lembra. Dentro da busca pelo engajamento dos alunos, Gabriela procurou projetos que dessem importância a ambientesde bem-estar físico e emocional. Em Ontário encontrou um programa de combate ao bullying, que inclui discussão de valores, incentivo ao envolvimento dos pais e busca pela descoberta dos interesses dos estudantes. Desde as séries finais do Ensino Fundamental há tentativas de individualizar as aulas conforme as curiosidades de cada aluno para envolvê-los ao máximo. Na Inglaterra, a aposta é na fiscalização das escolas inclusive com um departamento próprio com a finalidade. A inspeção é feita em quatro critérios: nota dos alunos, qualidade do ensino, liderança e gestão e comportamento e segurança dos alunos. “Cada unidade passou a ter tanta responsabilidade de manter o ambiente apropriado para estudos como para os demais itens. É uma política mais de controle”, conta Gabriela. Em comum, ela destaca o acompanhamento dado aos estudantes quando recebem medidas administrativas. Existem dispositivos como advertência e suspensão, mas quem é punido não fica sem ter o que fazer. Pelo contrário, é acolhido em outra ponta por programas para ajudá-lo a encontrar caminhos e motivação ou a refletir sobre suas ações: “Os alunos podem ser afastados da aula, mas não da escola”. Na primeira, em 2008, os educadores brasileiros também foram os que mais disseram perder aula com o assunto. O dado isolado não traz novidade para quem está em sala de aula, mas um estudo DISCIPLINA E INDISCIPLINA NA ESCOLA 5 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR feito com cruzamento de outras respostas ao mesmo questionário ajuda a explicar por que ostentamos tal recorde. Entre os profissionais que reclamam perder mais tempo estão os que declararam ter alunos pobres e atuar em grandes cidades. Já entre aqueles que gastam menos tempo com o problema aparecem docentes que lecionam em escolas mais democráticas e colaborativas. “A partir de um conjunto de respostas como qual a frequência com que o educador dá e recebe retorno sobre seu trabalho, observa colegas, atua em conjunto, participa de atividades com turmas diferentes, percebemos, por exemplo, quem está em ambientes colaborativos. Da mesma maneira, chegamos às escolas que têm mais espaço para participação de pais e alunos. Para cada fator há um conjunto de respostas”, explica a pesquisadora em políticas públicas Gabriela Moriconi, da Fundação Carlos Chagas, que ganhou uma bolsa para realizar análises sobre os dados na sede da OCDE e investigar soluções adotadas por outros países. O estudo leva para além do senso comum de que os estudantes seriam indisciplinados e parte para as razões que geram a desordem. A escolha do foco veio pela constatação em outras investigações de que a indisciplina é um dos principais obstáculos para o trabalho docente. “Além da questão de perder tempo de aula, temos muitas evidências no País de que esse é um dos motivos de abandono da profissão”, afirma a pesquisadora. Para a análise, ela cruzou respostas a outras perguntas do questionário para entender quais fatores estão associados a professores que gastam tempo para manter a ordem no Brasil e em duas realidades consideradas próximas: Chile e México. Outro dado importante na análise do resultado da pesquisa de Gabriela é a formação específica. Quando o conteúdo ensinado faz parte da área de conhecimento do professor, ele perde menos tempo com indisciplina. Os educadores que afirmam terem aprendido a ensinar determinado conteúdo, perdem menos tempo ainda. “A literatura especializada sobre engajamento mostra que a primeira coisa para manter o envolvimento é o domínio do conteúdo e saber ensinar. Então, esses achados fizeram muito sentido para mim”, diz. Para ela, a questão da colaboração profissional também cai na formação tanto de conteúdo como de gestão da sala de aula em termos de organização do tempo, divisão das atividades, espaço e estabelecimento de regras. “Diante da realidade que temos, muito se aprende com outros colegas, tanto a prevenir maus comportamentos como a agir diante de casos de indisciplina.” A partir das constatações, Gabriela fez a segunda parte da pesquisa em busca de programas e políticas públicas que poderiam servir aos brasileiros para reduzir o tempo gasto para manter a ordem. Ela escolheu conhecer as saídas adotadas na Inglaterra e em Ontário, região do Canadá, por serem sistemas em que quase todos os alunos atingem desempenho ao menos razoável e teriam problemas com indisciplina, segundo as declarações dos professores locais. O estudo constatou que a colaboração e a formação dos professores se davam em ambientes em que a dedicação é exclusiva a uma escola, o que aumenta a integração da equipe e os momentos de troca. “O aprendizado e os combinados não ocorrem apenas em um determinado horário específico. A gente sabe que não é assim em setor algum. Quanto mais os profissionais convivem, mais se fortalecem.” Por outro lado, uma das percepções foi de que os adolescentes dos últimos anos do Ensino Fundamental eram por lá tão desafiadores quanto os brasileiros. Em suas visitas, a pesquisadora viu gestores lidando inclusive com casos de violência física e tráfico de drogas. “Quando eu contava sobre a impressão dos educadores brasileiros, os professores diziam que era assim no mundo todo, algo natural da idade”, lembra. Dentro da busca pelo engajamento dos alunos, Gabriela procurou projetos que dessem importância a DISCIPLINA E INDISCIPLINA NA ESCOLA 6 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR ambientes de bem-estar físico e emocional. Em Ontário encontrou um programa de combate ao bullying, que inclui discussão de valores, incentivo ao envolvimento dos pais e busca pela descoberta dos interesses dos estudantes. Desde as séries finais do Ensino Fundamental há tentativas de individualizar as aulas conforme as curiosidades de cada aluno para envolvê-los ao máximo. Na Inglaterra, a aposta é na fiscalização das escolas inclusive com um departamento próprio com a finalidade. A inspeção é feita em quatro critérios: nota dos alunos, qualidade do ensino, liderança e gestão e comportamento e segurança dos alunos. “Cada unidade passou a ter tanta responsabilidade de manter o ambiente apropriado para estudos como para os demais itens. É uma política mais de controle”, conta Gabriela. Em comum, ela destaca o acompanhamento dado aos estudantes quando recebem medidas administrativas. Existem dispositivos como advertência e suspensão, mas quem é punido não fica sem ter o que fazer. Pelo contrário, é acolhido em outra ponta por programas para ajudá-lo a encontrar caminhos e motivação ou a refletir sobre suas ações: “Os alunos podem ser afastados da aula, mas não da escola”. Novos Olhares Sobre A Indisciplina Escolar A chegada do sujeito no ambiente escolar, por vezes, representa um “novo mundo”, regras e convivências diferentes do que está habituado em sua vida fora desse ambiente. Novas pessoas, novas atividades, nova organização. Um ambiente onde, independente de suas experiências, todos são enquadrados em um novo modelo de ser e agir. A escola tradicional valoriza a retenção do saber no professor e tem como função a transmissão do conhecimento, não respeitando o tempo e ritmo diferentes de cada aluno, as dificuldades e limitações. Aqueles que não conseguem acompanhar, se dispersam e não prestam atenção , por vezes sendo denominados como alunos indisciplinados por passarem o tempo brincando, levantando e conversando. Os alunos que têm mais facilidade e possuem um ritmo mais rápido, sentem-se frustrados a terem que repetir tantas vezes atividades e escutar explicações repetidas, assim apresentando um comportamento desmotivado e serem taxados como alunos desinteressados. A disciplina então não deve ser compreendida como manter alunos sentados, calados e quietos, mas sim possibilitar que todos possam se expressar e participar da aula, respeitando as regras e limites combinados entre o grupo. Por exemplo, em um jogo de futebol, os torcedores têm toda a liberdade para falar, gritar, cantar e manifestarempolgação, porém, existe como regra permanecer em seus lugares, não agredir fisicamente, não invadir o campo, etc. Cada grupo e ambiente irá impor suas próprias condições, porém, permitindo que as possibilidades de expressão sejam trabalhadas. Psicologado.com A indisciplina é um fenômeno que tenta nos dizer algo, que aponta para uma questão do indivíduo ou do grupo. Não se limita a classe social, sendo observada tanto em escolas públicas quanto privadas. Para compreender esse fenômeno é preciso quebrar paradigmas sobre regras e métodos pedagógicos rígidos, como muito se ouve falar no senso comum, como por exemplo: “As crianças precisam aprender sobre limites e regras! O professor precisa ser rígido e impor sua postura”. Além de não se engessar na naturalização dos fatos se baseando na faixa etária da turma: “Isso é coisa de adolescente”. Não é da natureza humana permanecer sentado por tantas horas, apenas escutando conteúdos que serão reproduzidos em uma prova. É preciso intervir no aprendizado dando sentido a esse conteúdo: “Para que serve? Como vou aplicar isso? Onde observo no meu dia-a-dia?”. Para que a educação não seja apenas uma “decoreba”, mas sim uma fonte de curiosidade e interesse posto em prática tanto nas salas de aula como na vida fora da escola. A educação criativa valoriza a capacidade daqueles que têm um ritmo mais rápido, quanto respeita e auxilia aqueles que possuem dificuldades. É preciso romper a ideia de que a educação se faz com um professor em pé diante da turma transmitindo o conhecimento. A educação pode ser feita com a participação de todos os alunos e o professor tendo a função de facilitador, desmistificando o poder centralizado nesse profissional. Pensando por esse ponto de vista, nos deparamos com outro fator negativo a ser trabalhado nas escolas: O engessamento pedagógico e a dificuldade de mudança dos profissionais da educação. A indisciplina em sala de aula pode ser um reflexo da postura do professor, além do que já foi citado anteriormente, um professor desmotivado atribui ao seu trabalho o desânimo e falta de inovação nas aulas. A turma por sua vez não é contagiada pela vontade de aprender e pontos de indisciplina DISCIPLINA E INDISCIPLINA NA ESCOLA 7 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR sinalizam essa dinâmica. Um ciclo então surge: O professor desmotivado não traz novas possibilidades e espaço para a turma, por sua vez a turma desmotivada pelo professor passa a fazer bagunça e não ter interesse pela matéria, o professor sente-se cansado em perder tanto tempo pedindo atenção e silêncio, ficando ainda mais esgotado e desmotivado. Existe uma grande dificuldade dessa reflexão a partir do profissional da educação, esses justificam a indisciplina dos alunos como sendo algo do grupo e não sendo de sua responsabilidade, não observam que essa postura da turma é um reflexo da sua própria atuação. Cabe então a instituição junto à equipe pedagógica e da psicologia escolar, promover eventos de formação continuada, de motivação, atualização e ter um olhar e espaço para esse profissional. O ambiente escolar não pode enxergar apenas a necessidade dos alunos, mas também compreender as necessidades do professor e dar a devida atenção a ele. As crianças hoje já nascem inseridas numa cultura de informação tecnológica, o avanço rápido dos acessórios digitais, acesso a toda e qualquer informação, esses são alguns exemplos de como a escola precisa acompanhar essa nova forma de atuação. Uma escola obsoleta que não compreende a importância que esses jovens dão a tecnologia cria um abismo entre o aluno e a educação, produz a desmotivação e desinteresse pelo aprender. A criatividade para inserir a tecnologia no ambiente escolar também é uma fonte para trabalhar e diminuir a indisciplina. As mudanças sociais são refletidas em sala de aula, não podemos considerar uma escola que rema contra a maré, que não se insere nessa mudança. As crianças e adolescentes estão na inércia dessas mudanças e é inviável freia-las no ambiente escolar. Os métodos pedagógicos precisam estar em constante reciclagem para acompanhar as inovações da sociedade, o caminhar histórico dos fatos e quebrar o engessamento do conteúdo para não transformar a escola em um ambiente repressor, antiquado e ultrapassado, que não desperta no grupo a vontade de debater, aprender e compreender. Por último, pode-se observar que a indisciplina de um aluno pode ser o reflexo da sua vida fora do ambiente escolar, das suas experiências sociais. A indisciplina pode ser um alarme de que algo não está indo bem para a formação daquela criança. Pode sinalizar uma suposta carência, um sofrimento íntimo, entre tantas outras possibilidades que vão para além da escola. Nesse ponto é importante a escola manter uma constante parceria com as famílias, propondo um trabalho em conjunto, investigando o que esse aluno tem vivido como ser humano e dando a ele um olhar atento, uma observação clínica e não apenas julgadora. Considerações Finais A indisciplina nas escolas deve ser observada com atenção, com um olhar ampliado, para que seja possível compreender a dinâmica do grupo e intervir não apenas no foco que se apresenta, mas na raiz do problema. Propor uma intervenção multidisciplinar afim de não centralizar a indisciplina nos alunos, mas levando em consideração as interações entre alunos e professor, escola e família. A psicologia escolar é uma grande aliada nesse trabalho ao propor um olhar clínico na investigação dos fatores que levam a indisciplina, a compreensão da angústia do profissional da educação, da ponte entre a escola e a família, etc. O psicólogo escolar questiona o que essa indisciplina está querendo dizer, não abafa a manifestação, mas trata como um sintoma de algo que precisa ser resolvido, resgatando a importância do convívio com o coletivo e a importância do outro. Indisciplina Escolar: A Queixa Da Atualidade Boarini (1998) inicia sua análise indicando, com excertos de pesquisas realizadas no país e mesmo fora, que a principal queixa de educadores nos dias de hoje é a indisciplina de seus alunos. São inúmeros os indícios de que o discurso sobre a indisciplina alcança dimensões mundiais. É uma postura interessante, uma vez que permite ao leitor visualizar o fenômeno em questão, além de ser uma boa justificativa para o estudo a que se propõe. Sobre a indisciplina, a autora aponta que este é um fenômeno que não pode ser explicado por diferenças de classes sociais, uma vez que mesmo nas escolas que atendem aos alunos provenientes das chamadas classes A e B as queixas de indisciplina envolvendo tais alunos são freqüentes. Além disso, em países industrializados há uma enorme mobilização dos órgãos do governo, no sentido de tentar solucionar o problema. São citadas obras de vários autores, que apontam para a gravidade do problema em questão. DISCIPLINA E INDISCIPLINA NA ESCOLA 8 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR Depois desta breve exposição das dimensões que o problema da indisciplina atinge na sociedade contemporânea, Boarini (1998) faz outro levantamento bibliográfico, com o objetivo de trazer à luz os discursos da população diretamente envolvida com o problema em questão: professores, alunos e familiares. Aponta que, de acordo com pesquisas, as pessoas tendem a pensar que a escola necessita ou de regras rígidas ou de melhorias nos métodos pedagógicos, a fim de que o aluno se interesse pelo que está aprendendo. É uma estratégia interessante da autora, para mostrar o quanto a sociedade se perde em explicações falsas ou, no mínimo, parciais. Talvez por isso fique fácil, para o leitor desatento, confundir-se com os dados apresentados na obra. A seguir a autora aponta a linha de pensamento que orienta sua análise. Ressalta que, apesar de parecem explicações lógicas, nem a família nem a escola devem ser tidas como culpadas pelo fracasso escolar generalizado, demonstrado pelo problema de indisciplina apresentado pelos alunosde escolas tanto públicas quanto privadas. Assim, ela tenta desmistificar a questão da indisciplina, trazendo uma visão mais integrada, menos linear do problema. Mas, afinal, o que precisamos saber para termos uma idéia não fragmentada do problema da indisciplina? Segundo Boarini (1998), precisamos compreender o movimento histórico-social em que estamos (alunos, professores, pais de alunos, psicólogos etc.), para que possamos visualizar melhor o problema. Assim, percebemos na escola as mesmas características apontadas por uma determinada pesquisa de mercado na obra em questão: o ser humano caminha para um extremo individualismo, no qual não cabe a noção de coletividade e respeito ao outro; assim, a pesquisa mencionada aponta que "... a defesa de interesses coletivos e questões ideológicas não estão entre as prioridades desta geração". Este extremo individualismo tem seu preço. Boarini (1998) traz trechos de pesquisas que indicam que a solidão é um dos frutos mais amargos deste movimento social de se viver "cada um por si, Deus por todos". O que a autora quer dizer com toda esta análise? Novamente, para quem lê com pouca atenção pode ficar confuso compreender o objetivo do texto resenhado. Entretanto, a seguir esclarece o ponto onde quer chegar: tanto a escola, como uma instituição para o público (sendo ela privada ou não), quanto o professor, enquanto um profissional que trabalha em benefício do desenvolvimento do coletivo, passam por uma grande desvalorização, numa sociedade onde o individual prevalece em detrimento da coletividade. Assim, quando se diz que um aluno está desmotivado, a autora entende que suas necessidades individuais não foram atendidas como gostaria, e a desobediência às regras (indisciplina) é justificada pela falta de atenção do aluno ou como uma dificuldade somente dele. Por outro lado, a ausência de limites surge como reflexo da idéia vigente de que não se pode cercear o aluno em sua criatividade, nem podá-lo em sua individualidade. No meio de tudo isso, surge como papel do professor o de motivar o aluno a continuar prestando atenção, criando um ambiente "estimulante" em sala de aula. Aqui, Boarini (1998) inicia uma discussão do conceito de disciplina, para que se possa compreender a linha de pensamento que ela tenta expor em seu artigo. Para ela, a disciplina é algo que não pode ser universalizado, uma vez que em cada situação existe uma noção diferente do que é trabalhar disciplinadamente. Assim, a disciplina é a ordem necessária para a realização de algum trabalho, não necessariamente identificável com "estar quieto" ou "ficar no lugar". Assim, a autora aponta o que entende por disciplina: organização para o trabalho, com a responsabilidade de elaborar as próprias regras a serem seguidas. Claro, esta conceituação não é óbvia, nem absoluta, mas é o que se pode apreender após uma leitura atenta do texto. Por fim, Boarini (1998) aponta para as mudanças necessárias para o desenvolvimento da escola. E define seu objetivo ao entrar nesta discussão: chamar "... a atenção para a necessidade de a escola acompanhar o seu tempo histórico" (Boarini, 1998, p. 14). Para ela, a educação tem por objetivo introduzir o aluno na prática de pensar sobre o ensinamento que lhe é passado em sala de aula e como ele é passado, além de dotá-lo de uma visão crítica dos conteúdos que aprende. Para isso, a rigidez metodológica cai por terra, uma vez que o aluno adquire o hábito de sempre refletir sobre o que é instituído, sem seguir cegamente o que lhe ensinam, mas sem ferir os objetivos comuns da educação. Neste sentido, a disciplina se torna relativa e o aluno tem a responsabilidade de eleger para si as regras que precisa seguir e de questionar porque se deve ser "disciplinado". Resumindo, DISCIPLINA E INDISCIPLINA NA ESCOLA 9 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR quando uma regra não faz sentido corre-se o risco de o sujeito não a seguir, o que acarreta para o indivíduo o rótulo de "indisciplinado". Disciplina Nas Escolas A educação tradicional, sobretudo nas escolas de certo renome, primava pela disciplina, senão severa, pelo menos, exigente. Uniforme bem composto, silêncio fora dos tempos de recreação, filas, limpeza nos recintos, respeito aos professores e funcionários, pontualidade nos horários, cumprimento exato dos deveres escolares, etc. Assim iam sendo formadas as gerações e gerações. Ares libertários invadiram todos os ambientes. E a escola não ficou isenta. Nas diversas partes do mundo, surgiram experiências audazes. Cada uma excelia por mostrar ambiente de liberdade, de distensão. Houve algumas que terminaram por adotar o slogan dos universitários franceses de 1968: “É proibido proibir”. A sanfona da liberação esticou-se em graus diversos. Nalguns, arrebentou tudo, ao gerar verdadeiro caos com a consequente necessidade de intervenção autoritária corretiva. Noutros muitos, conseguiu-se, sem dúvida, mais liberdade dentro de parâmetros equilibrados. Quando a maré parecia já ter chegado a seu equilíbrio, eis que a década de 90 repõe de novo a mesma questão. Se nos inícios se buscava o meio termo entre disciplina e liberdade, hoje a mesma tensão se mostra entre autonomia e limites. A questão avançou em profundidade, ainda que percebida de modo simplesmente intuitivo pelos jovens. A autonomia tornou-se o ponto inquestionável e irreversível da modernidade e pós-modernidade. Desde a idade mais pequena, a criança já se percebe como sujeito de desejos, vontades, decisões que quer que sejam respeitados pelos pais, professores e adultos em geral. Não aceitam que autoridade de fora, de qualquer natureza que seja, lhe fira a própria lei pessoal, isto é, a autonomia, que significa: auto (própria) + nomos (lei). Todos se sentem sujeitos e não suportam ser tratados como objetos. Princípio importante para criar imaginário de igualdade, de respeito, de direitos reivindicados. No entanto, falta a contrapartida de toda autonomia, de todo direito e respeito exigidos. Reconhecer a autonomia do outro, cumprir os próprios deveres em relação à sociedade e assumir a responsabilidade pelos próprios atos. Esse outro lado da moeda constitui-se o maior desafio da educação. Ele só se torna possível se os educadores - pais e escola - mostrarem que autonomia sem responsabilidade dos próprios atos não passa de anarquia destrutiva da possibilidade do convívio humano, social e, no fundo, da própria autonomia. Autonomia só se autossustenta com responsabilidade. E há passo ainda mais difícil. O aprendizado da responsabilidade passa pelo limite. Se a pessoa não sabe impô-lo a si mesmo, alguém deve fazê-lo. Esse alguém são, em primeiro lugar, os pais. E, em seguida, a escola. O limite na escola chama-se disciplina. Portanto, sem disciplina não há responsabilidade. Sem responsabilidade não há autonomia humana e sociável. Do contrário, teríamos aquele mundo que o inglês Hobbes temia: cada ser humano será um lobo para o outro. Sem responsabilidade e limites, imperará a violência bruta, estúpida, sem lei nem grei. E a convivência se tornará cada vez mais difícil, o medo maior, a vida insuportável. Um pouco desse cenário se desenha nas grandes cidades. A reversão começa na família e na escola. Limites E Disciplina No Lar E Na Escola A disciplina é essencial para uma boa educação e para que haja disciplina, faz-se necessário a presença de uma autoridade saudável que tem início no próprio lar. Antigamente, a instrução dos filhos era dever exclusivo da família. Mas a vida foi se complicando e o conjunto dos conhecimentos a serem adquiridos também se estendeu indefinidamente. O resultado disto é que a escola tomou aos poucos o encargo de instruir as crianças e os adolescentes. Muitos até lhe atribuem a missão de formar-lhe o caráter e a personalidade. É na família onde de fato a educação começa, onde a criança tem os primeiros contatos com as regras morais, regras essas que são diferentes em cada família e ao chegaremà escola se deparam DISCIPLINA E INDISCIPLINA NA ESCOLA 10 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR com uma realidade bem diferente causando conflitos com colegas e professores. Nem sempre o aluno que se comporta mal na escola é indisciplinado, às vezes a educação e as regras que recebe em casa se diferem daquelas que a escola impõe ou não existem, fazendo com que ao chegar à escola aconteça um choque de valores e culturas, o professor deve, portanto, entender que o aluno traz para a aula os valores aprendidos até aquele momento, e o seu “comportamento indisciplinado” pode ser um reflexo da falta ou da deficiente educação familiar. É importante ressaltar que é a família, a instituição primária, que tem como dever principal, repassar à criança a importância de valores morais, levando o mesmo a colocarem esses valores em prática. A presença dos pais na educação dos filhos tem grande influência no seu desenvolvimento, já que nessa fase do desenvolvimento, tudo dependerá de suas experiências emocionais, daquilo que de alguma forma já foi vivenciado na infância. A família deve ser a mediadora entre os valores da sociedade e o indivíduo, fazendo-o entender a importância das regras para o bom convívio em sociedade. É do convívio familiar que os alunos refletem seus comportamentos em sala de aula, e ao chegarem à escola se deparam com uma realidade bem diferente das regras aplicadas na escola, mas que precisam ser aprendidas: Como filhos, as crianças e os adolescentes precisam de pai ou responsáveis para ser educados; como alunos, precisam de professores para ser ensinados. Para viver em sociedade precisam aprender a conviver segundo a ética, acatando as regras de convivência. Quando um aluno ultrapassa os limites éticos, esta desrespeitando as normas da escola, representada pelo professor. (RANGEL 2010) O respeito aos limites e regras impostas pela escola deve ser seguido pelo aluno e cabe aos educadores tomarem atitudes de autoridade coerente com sua função. Para tanto, o desenvolvimento do educando pode ser melhor, à medida que ocorre cooperação entre família e escola. “A cada uma, família e escola cabe cumprir a parte que lhe compete, mesmo que possa haver algumas áreas de confluência e superposições, pois para a escola, seus alunos são transeuntes curriculares; para os pais, seus filhos são para sempre” (TIBA, 2006 p. 188). Nos dias atuais, a família está deixando de cumprir seu papel educacional, para alguns pais o simples fato do filho está matriculado em uma escola, tem garantido toda a educação necessária para o seu pleno desenvolvimento. Aquino (1996) afirma que: “a tarefa de educar, não é responsabilidade da escola, é tarefa da família, e que ao docente cabe repassar seus conhecimentos acumulados”. Por mais que os educadores desempenhem seus papeis de transmissão de conhecimento, isso não exime a família de suas responsabilidades educacionais. A escola não pode e não deve substituir o papel da família. Não significando com isso que ela não possa construir seus valores sociais próprios, ou mesmo complementando e ampliando a vivência de cada aluno, desenvolvendo o senso crítico reflexivo para que construa melhor o seu caminho. A família, entendida como o primeiro contexto de socialização, exerce indubitavelmente, grande influencia sobre a criança e o adolescente. A atitude dos pais e suas práticas de criação e educação são aspectos que interferem no desenvolvimento individual e, consequentemente, influenciam o comportamento da criança na escola. (REGO, 1996 p. 97) É na família que as crianças adquirem as primeiras noções de regra, se já de casa os pais não ensinam seus filhos a importância de se cumprir as regras, a escola não terá autonomia para tal ato. Tiba (2011) afirma ainda que “são algumas ações dos pais, que ensinam aos filhos que a escola não é lugar para aprender e os professores não merecem ser respeitados”. Ações como: Não exigir respeito dos seus filhos; Não ensinar aos filhos os sentimentos de gratidão, de pedir permissão, de pedir favor; Não cobrar dos filhos as suas obrigações caseiras. Ainda para o autor “com estas três atitudes, os pais financiam a ignorância e não o aprendizado, além de tornar seus filhos indisciplinados e arrogantes”. Há, portanto pais que reprovam a atitude dos professores exigentes e disciplinadores. Entretanto, esses mesmos pais deviam estar cumprindo o seu papel de educadores, criando regras e limites de forma equilibrada, zelando pelo seu cumprimento, através de um diálogo coerente, levando a criança DISCIPLINA E INDISCIPLINA NA ESCOLA 11 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR desde cedo a ter tolerância à frustração, à persistência e autocontrole. Para o filósofo Fernando Savater[1] a indisciplina é um reflexo da conduta familiar, as crianças não encontram em casa uma “figura de autoridade”, algo que é de plena importância para o seu desenvolvimento moral. Ainda para Savater, os pais continuam “a não querer assumir qualquer autoridade”, preferindo que o pouco tempo que passam com os filhos 'seja alegre' e sem conflitos, empurrando o papel de disciplinador quase exclusivamente para os professores. De acordo com Tiba (2006 p.189), alguns pais preferem se juntar aos filhos e reclamar da escola, pois, é mais “cômodo juntar-se ao reclamante do que fazê-lo vê o quanto ele pode está enganado”. O motivo dessa atitude é querer defender o filho, mesmo sabendo que ele está errado. Os pais e professores devem, portanto, levar as crianças e adolescentes a compreenderem as dimensões educacionais do limite e do desenvolvimento da autonomia moral, levando a refletirem e agirem sob a indisciplina numa estratégia gradativa de relação de respeito mútuo contextualizado num ambiente crítico, onde não mais se legitimem regras pela simples autoridade, mas entendendo disciplina como contrato entre iguais coordenados a fim de decidirem a forma de agir coerentemente seguindo o código íntimo e de necessidade de saber tratar e conviver melhor com os outros. Para a escola, a indisciplina é vista como um retrato comportamental do aluno fora dos seus muros, não considerando que também tem certo grau de responsabilidade na construção de um comportamento indisciplinado. A escola pode gerar indisciplina pelo fato de impor regras aos alunos não levando em consideração seus aspectos cognitivos e culturais esperando que eles as entendam e as cumpram. Garcia (1999 p. 102) afirma que, “é papel da escola considerar o quadro concreto das condições e desenvolvimento dos alunos e de suas necessidades, bem como garantir as condições apropriadas ao processo de ensino-aprendizagem”. Para muitos pesquisadores o regimento escolar é mais fácil de ser obedecido quando construído em conjunto com todos os membros da comunidade escolar, pois a falta de diálogo entre os mesmos pode causar revolta e contestação. Segundo Estrela (apud PARRAT-DAYAN 2006, p.27) os atos de indisciplina escolar podem ser considerados a partir de três modalidades: a intenção de escapar do trabalho escolar, considerando-o desinteressante, sendo o trabalho escolar a razão da indisciplina; a segunda modalidade objetiva a obstrução, impedindo o bom andamento das aulas e até mesmo o desenvolvimento do curso dado pelo professor; e a terceira forma de indisciplina um protesto contra as regras e as formas de trabalho, tratando de se impor e a denunciar um contrato implícito que funciona na aula sem que a opinião dos alunos seja levada em consideração. Essa terceira modalidade de indisciplina pretende renegociar as regras da sala de aula. _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________