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ANATOMIA E ESCULTURA DENTAL OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Caracterizar as cúspides, sulcos e cristas dos pré-molares superiores. > Diferenciar anatomicamente o primeiro do segundo pré-molar superior. > Descrever o emprego dos pré-molares na mastigação. Introdução O estudo minucioso da anatomia dental é de fundamental importância dentro da odontologia, uma vez que cada grupo dental tem características morfológicas singulares. Nesse âmbito, os pré-molares são dentes exclusivos da dentição permanente, com detalhes importantes de serem reconhecidos para o correto planejamento e execução de tratamentos odontológicos. Neste capítulo, você conhecerá cada uma das características dos pré-molares superiores, identificando os detalhes anatômicos que eles apresentam e as es- truturas que distinguem o primeiro pré-molar superior do segundo pré-molar superior, além de compreender as funções que esses dentes exercem no processo mastigatório. Características gerais dos pré-molares superiores Localizados entre os caninos e os primeiros molares, os pré-molares são os primeiros dentes posteriores do arco dental. O grupo dos pré-molares Pré-molares superiores Andressa Kelly Alves Ferreira superiores é composto por quatro dentes, sendo dois em cada hemiarco, denominados primeiro pré-molar superior e segundo pré-molar superior. Primeiro pré-molar superior (dentes 14 e 24) O primeiro pré-molar superior está localizado entre o canino e o segundo pré-molar, sendo, portanto, o quarto dente do arco (Figura 1). Figura 1. Desenho esquemático do primeiro pré-molar superior, demonstrando todas as suas faces e seu posicionamento na arcada dentária (M = mesial; D = distal; P = palatina; V = vestibular). Fonte: Adaptada de Short e Levin-Goldstein (2012). Vestibular Palatina DistalMesial V Oclusal P M D Pré-molares superiores2 Coroa A coroa desse dente apresenta a forma de um cubo irregular, sendo menor em seu terço cervical e mais alargada próximo à borda oclusal. Veja a seguir a descrição de cada uma das faces desse dente. Face vestibular A face vestibular é bem semelhante à do canino superior, porém mais curta. Está limitada por quatro bordas: a cervical — curva, de convexidade voltada para a raiz; as proximais (mesial e distal) — arredondadas e divergentes em direção à borda oclusal; e a oclusal, que apresenta duas arestas que dão um aspecto pentagonal à face vestibular, apresentando a ponta da cúspide voltada para a distal. A superfície vestibular pode apresentar dois sulcos longitudinais, dividindo esta face em uma crista central e dois lobos de desenvolvimento — um mesial e outro distal (MADEIRA, 2009). Face palatina A face palatina é menor, mais curta e mais estreita que a face vestibular. Não apresenta sulcos, é totalmente lisa e bastante convexa nos sentidos horizontal e vertical, continuando-se com as faces mesial e distal sem nenhum limite de demarcação. A cúspide palatina é pouco acentuada e apresenta arestas mesial e distal mais arredondadas e menores que as vestibulares. A ponta da cúspide palatina é voltada para a mesial (KANO, 2015). Face oclusal A face oclusal é aquela que apresenta maior número de detalhes anatômicos (Figura 2). Sua forma é pentagonal, com uma dimensão vestíbulo-palatina maior que a mésio-distal. Há a presença de duas cúspides (vestibular e palatina), que são separadas por um sulco principal de direção mésio-distal, sendo a cúspide vestibular mais volumosa que a palatina. Esse sulco principal termina nas fossetas mesial e distal, que são depressões ligeiramente pro- fundas e de aspecto triangular. Sulcos secundários partem do sulco principal em alguns casos, dirigindo-se para as faces oclusais das cúspides. Entre as fossetas, estão localizadas as cristas marginais mesial e distal. Um detalhe importante é que a crista marginal mesial geralmente é sulcada por um prolongamento do sulco principal (MADEIRA, 2009). Pré-molares superiores 3 Figura 2. Imagens da face oclusal do primeiro pré-molar superior, identificando os acidentes anatômicos encontrados nessa face (D = distal; M = mesial; O = oclusal; P = palatina). Fonte: Adaptada de Siessere (2020). Faces proximais As faces proximais apresentam um formato quadrilátero, sendo alonga- das no sentido vestíbulo-palatina e convexas no terço oclusal. A face distal diferencia-se da mesial por ser mais convexa e menor. Na face mesial, existe uma depressão próxima à linha cervical, que ocupa a porção cervical da coroa e continua em direção à raiz. Ainda é possível visualizar na face mesial a pre- sença do prolongamento do sulco principal da face oclusal (MADEIRA, 2009). Raiz Na maior parte das vezes, o primeiro pré-molar superior possui duas raízes cônicas: uma vestibular e outra palatina, sendo algumas vezes fusionadas. A raiz vestibular é mais alta e mais volumosa que a palatina. Há uma inclinação de ambas as raízes para o lado distal (MADEIRA, 2009). Colo O colo correspondente à junção entre a coroa e a raiz, e é formado por uma linha bastante sinuosa, com concavidade voltada para a coroa nas faces vestibular e palatina, enquanto nas faces proximais a concavidade é voltada para a raiz (TEIXEIRA; REHER, P.; REHER, V., 2008). Pré-molares superiores4 O primeiro pré-molar superior inicia sua calcificação aos 18–20 meses após o nascimento, completando sua calcificação por volta dos 5–6 anos de idade. A erupção desse dente ocorre aos 10–11 anos e a rizogênese com- pleta ocorre entre os 12 e 13 anos de idade (TEIXEIRA; REHER, P.; REHER, V., 2008). Segundo pré-molar superior (dentes 15 e 25) O segundo pré-molar superior situa-se à distal do primeiro pré-molar supe- rior, sendo o quinto dente do arco dental. As características desse dente são semelhantes às do primeiro pré-molar superior, mas seu tamanho é menor em todas as dimensões (Figura 3). Figura 3. Desenho esquemático do segundo pré-molar superior, demonstrando todas as suas faces e seu posicionamento na arcada dentária (M = mesial; D = distal; P = palatina; V = vestibular). Fonte: Adaptada de Short e Levin-Goldstein (2012). Vestibular Palatina DistalMesial V Oclusal P M D Pré-molares superiores 5 Coroa Face vestibular A face vestibular é menos extensa e os ângulos são mais arredondados quando comparados ao primeiro pré-molar, dando um aspecto mais ovoide a essa face. É menos convexa que o primeiro pré-molar, devido a uma menor saliência do lóbulo mediano. As vertentes que formam a cúspide vestibular são menores e o vértice coincide com o longo eixo do dente. Face palatina A face palatina é ovoide e ligeiramente menos extensa que a face vestibular, apresentando quase a mesma altura. Face oclusal O contorno da face oclusal é de um pentágono mais regular, dando um as- pecto mais ovalar quando comparado ao primeiro pré-molar superior (Figura 4). O sulco principal é centralizado e curto, e as cristas marginais são bem espessas. Há também a presença de vários sulcos secundários, o que dá um aspecto enrugado a essa face (MADEIRA, 2009). Figura 4. Imagem da face oclusal do segundo pré-molar superior (O = oclusal). Fonte: Adaptada de Siessere (2020). Pré-molares superiores6 Faces proximais As faces proximais do segundo pré-molar superior têm formato quadrilátero, sendo a face distal mais convexa que a mesial. Por uma visão proximal, é possível perceber que as cúspides vestibular e palatina apresentam alturas muito similares (KANO, 2015). Raiz O segundo pré-molar superior geralmente possui uma raiz única, bastante achatada no sentido mésio-distal. É comum a presença de sulcos longitudinais na raiz, sendo este sulcamento mais evidente na porção distal, enquanto o terço apical radicular desse dente desvia-se para a distal na maior parte das vezes (MADEIRA, 2009). O início da calcificação do segundo pré-molar superior se dá aos 24–30 meses após o nascimento, completando sua calcificação por volta dos 6–7 anos de idade. A erupção desse dente ocorre aos 10–12 anos ea rizogênese completa ocorre entre os 12 e 14 anos de idade (TEIXEIRA; REHER, P.; REHER, V., 2008). Diferenças anatômicas entre o primeiro e o segundo pré-molares superiores Como você pode perceber, o primeiro e o segundo pré-molares superiores têm algumas características anatômicas bem semelhantes, mas cada um com suas particularidades. Nesta seção, vamos comparar algumas dessas características e identificar o que de mais marcante distingue esses dois elementos dentários um do outro. De uma maneira geral, o primeiro pré-molar é maior em largura e com- primento do que o segundo pré-molar. Além disso, apresenta ângulos mais agudos e as depressões e elevações em suas faces são mais acentuadas. Por uma vista vestibular (Figura 5), nota-se que o primeiro pré-molar tem um formato mais pontiagudo, já que as arestas de sua cúspide vestibular apresentam ângulos mais retos. Os lobos e sulcos de desenvolvimento também são mais demarcados no primeiro pré-molar (MADEIRA, 2009). Pré-molares superiores 7 Figura 5. Imagem comparativa do primeiro pré-molar (1º PM) e segundo pré-molar (2º PM) superiores por uma vista vestibular (D = distal; M = mesial). Fonte: Adaptada de Teixeira, Reher, P. e Reher, V. (2008). A face oclusal (Figura 6) do segundo pré-molar tem um formato mais ovalado e é considerada mais simétrica que a do primeiro pré-molar, pois suas cúspides vestibular e palatina apresentam altura e volume similares. No primeiro pré-molar, o vértice da cúspide palatina está mais deslocado para a mesial. Já no segundo pré-molar, o vértice da cúspide palatina está mais alinhado ao vértice da cúspide palatina. Quanto aos sulcos presentes na face oclusal, o sulco principal do primeiro pré-molar é mais longo e voltado para a palatina, enquanto no segundo pré-molar este sulco é mais curto e mais centralizado. Além disso, destaca-se a presença do prolongamento do sulco principal sobre a crista marginal mesial do primeiro pré-molar supe- rior. Quanto aos sulcos secundários, são mais comuns e mais numerosos no segundo pré-molar superior (MADEIRA, 2009). Figura 6. Imagem comparativa da face oclusal do primeiro pré-molar (1º PM) e segundo pré-molar (2º PM) superiores. Fonte: Adaptada de Scheid e Weiss (2012). 1º PM M es ia l M es ia l D is ta l D is ta l 2º PM Pré-molares superiores8 Com relação às faces proximais, uma característica que distingue bem os dois pré-molares superiores é a presença do prolongamento do sulco principal rompendo a crista marginal mesial do primeiro pré-molar. Outro diferencial está relacionado à superfície radicular desses dentes. A raiz do primeiro pré-molar superior possui uma depressão mais evidente na superfície mesial, enquanto no segundo pré-molar essa depressão é mais evidente na superfície distal, o que ajuda a distinguir esses dois elementos dentários sob uma vista proximal (KANO, 2015; MADEIRA, 2009). Outro ponto de diferenciação entre os dois pré-molares superiores é a quantidade de raízes. O primeiro pré-molar geralmente possui duas raízes, uma vestibular e outra palatina, enquanto no segundo pré-molar é mais comum a presença de uma única raiz (Figura 7). Figura 7. Imagem comparativa do primeiro pré-molar (1º PM) e segundo pré-molar (2º PM) superiores por uma vista proximal. Fonte: Adaptada de Vieira (2011). O Quadro 1 resume as diferenças anatômicas mais evidentes entre o primeiro e o segundo pré-molares superiores. Pré-molares superiores 9 Quadro 1. Características anatômicas diferenciais entre o primeiro e o segundo pré-molares superiores Acidentes anatômicos Primeiro pré-molar superior Segundo pré-molar superior Coroa Maior e com bordas mais agudas Menor e com ângulos mais arredondados Cúspides Vestibular mais alta e mais volumosa que a palatina Vestibular e palatina têm altura e volume semelhantes Sulcos de desenvolvimento, lobos e cristas marginais Mais acentuados Menos acentuados Sulcos secundários Raros Vários Sulco ocluso-mesial Presente; cruza a crista marginal Raramente presente Raiz Duas (na maior parte das vezes) Uma (na maior parte das vezes) Fonte: Adaptado de Madeira (2009). O papel dos pré-molares superiores na mastigação Os pré-molares são essenciais durante o processo de mastigação, cumprindo funções intermediárias entre os dentes anteriores e os molares. De maneira geral, os pré-molares superiores são responsáveis pela trituração dos alimen- tos, transformando boa parte deles em porções menores, além de dar suporte às paredes laterais da boca (bochechas). A cúspide vestibular do primeiro pré-molar superior é longa e pontiaguda, realizando, junto com o canino, a preensão e dilaceração dos alimentos. Os segundos pré-molares, com suas cúspides menos pontiagudas, exercem um papel de dentes triturantes, ao ocluírem com os dentes antagonistas do arco inferior, semelhante à função dos molares (SCHEID; WEISS, 2012). O primeiro pré-molar superior oclui com a metade distal do primeiro pré-molar inferior e com a metade mesial do segundo pré-molar inferior, enquanto o segundo pré-molar superior oclui com a distal do segundo pré- Pré-molares superiores10 -molar inferior e com o primeiro molar inferior (Figura 8). Os pontos de contato corretos entre esses dentes promovem uma oclusão satisfatória, permitindo que os movimentos mandibulares ocorram sem interferências durante o processo da mastigação (NELSON; ASH JR, 2012). Figura 8. Imagem demonstrando os contatos dentários numa oclusão-padrão: (a) vista anterior; (b) vista posterior, com destaque para os pré-molares superiores e a relação que esses dentes têm com os dentes inferiores. Fonte: Adaptada de Nelson e Ash Jr (2011). A B Durante a mastigação, as cúspides vestibulares superiores, também co- nhecidas como cúspides não funcionais, realizam a apreensão e corte dos alimentos. As cúspides palatinas superiores, chamadas de cúspides funcionais, ocluem nas fossas dos dentes inferiores, triturando os alimentos, que vão se dissipando pelo trajeto dos sulcos principais e secundários (FERNANDES NETO, 2008). As bossas presentes nas faces vestibular e palatina também cumprem uma importante função dentro do processo mastigatório. Por serem áreas de maior convexidade, elas protegem as superfícies gengivais que circundam o colo dos dentes, fazendo com que os alimentos sejam desviados e não traumatizem ou fiquem acumulados nessa área gengival. Trata-se de uma característica essencial de ser observada durante a realização de restaurações dentárias, uma vez que excessos ou falhas na restauração de uma bossa podem ser prejudiciais (Figura 9). Se houver a construção de uma convexidade excessiva, a higienização da gengiva naquela região será dificultada. Já uma bossa com pouca definição por ausência de material restaurador permitirá Pré-molares superiores 11 o acúmulo excessivo de alimento naquela região, aumentando as chances de um problema gengival (TEIXEIRA; REHER, P.; REHER, V., 2008). Figura 9. Imagem demonstrando as bossas das faces livres: (a) situação anatômica normal; (b) com excesso de convexidade; (c) com ausência de convexidade. Fonte: Adaptada de Teixeira, Reher, P. e Reher, V. (2008). A Normal Excesso Falta B C Em termos gerais, os pré-molares superiores exercem um papel essencial na mastigação e apresentam diversos detalhes que são importantes de serem reconhecidos, para que você possa identificá-los e reproduzi-los em sua prática clínica futura. Referências KANO, P. Desafiando a natureza. 3. ed. São Paulo: Quintessence, 2015. MADEIRA, M. C. Anatomia do dente. 5. ed. São Paulo: Savier, 2009. NELSON, S. J.; ASH JR, M. M. Wheeler: anatomia dental, fisiologia e oclusão. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012. FERNANDES NETO, A. J. Oclusão e disfunções temporomandibulares. Uberlândia: [s. n.], 2008. SCHEID, R. C.; WEISS, G. Woelfel's dental anatomy. Philadelphia: Wolters Kluwer/Lip- pincott Williams & Wilkins Health, 2012. SHORT, M. J.; LEVIN-GOLDSTEIN, D. Head, neckand dental anatomy. Rio de Janeiro: Cengage Learning, 2012. SIESSERE, S. Anatomia dos dentes permanentes e decíduos: da teoria à prática. São Paulo: Perse, 2020. TEIXEIRA, L. M. S.; REHER, P.; REHER, V. G. S. Anatomia aplicada à odontologia. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008. VIEIRA, F. G. et al. Atlas de anatomia de dentes permanentes: coroa dental. 2. ed. São Paulo: Santos, 2011. Pré-molares superiores12 Leituras recomendadas COSTA, A. P. C.; FARIAS, I. A. P. F.; LEITE, D. F. B. M. (org.). Anatomia e escultura dental. 3. ed. João Pessoa: Editora UFPB, 2020. FERNANDES NETO, A. J. F.; NEVES, F. D.; SIMAMOTO JUNIOR, P. C. Oclusão. São Paulo: Artes médicas, 2013. (Série Abeno). 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