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Evol FIL TEO HIST DA PENA

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das penas corporais. No Egito, a revelação de segredos era 
punida com a amputação da língua.
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prova dos fatos era feita através das ordálias ou “prova de Deus”: 
se a pessoa andasse sobre o fogo e não tivesse queimaduras, seria 
inocente; do contrário, seria culpada.
Por fim, se segue o período da vingança pública. A idéia de 
paz social começou, pouco a pouco, a progredir, e se consideraram 
as guerras privadas como obstáculos à paz pública. Então a coleti-
vidade se interpôs para fazê-las cessar. Ademais, com a evolução 
das organizações sociais e o avanço e reforço da vida política, sur-
giram comunidades maiores e com tendência de centralizar o po-
der, passando a pena a representar uma reação desta coletividade, 
com o objetivo de autopreservação. Dessa concepção já se pode 
extrair a idéia de prevenção da pena, uma vez que a preservação 
antecede qualquer forma de agressão ao bem jurídico tutelado 
pena norma.
Portanto, desde o início a pena surge em sua função muito 
mais do que individual. É uma reação social contra os elementos 
refratários às condições de vida coletiva; é a pena no interior do 
grupo, a pena interna, mas é uma defesa contra os inimigos do ex-
terior a pena externa. Onde quer que exista um grupo organizado 
(família, clã ou tribo), encontramos estas duas formas de pena: a 
pena proteção, sob o aspecto exterior, e a pena expiação, sob o 
aspecto interior.
Com efeito, talvez a característica mais marcante da Idade 
Antiga não seja o estudo dos períodos de fundamentação da pena, 
mas a sua forma de execução. A idéia de privação da liberdade 
como forma de punição era completamente estranha; a pena pos-
suía uma função meramente acautelatória do corpo do sentencia-
do para posterior aplicação da pena de morte.
1.2. Idade Média
1.2.1. Compreensão histórica do período
A transição da Idade Antiga para a Idade Média é marcada 
por inúmeros acontecimentos históricos, especialmente no âmbito 
político: (193 d.C.) tem início a crise do terceiro século no Império 
Romano; (285 d.C.) Diocleciano salva o Império Romano do colap-
so, dando a ele seu último fôlego; (313 d.C.) com o Édito de Milão, 
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o cristianismo deixa de ser perseguido; (391 d.C.) com o Édito de 
Tessalónica, Teodósio I torna o cristianismo a religião oficial do 
Império Romano; (451 d.C.) a Batalha dos Campos Cataláunicos na 
qual o exército romano sai vencedor, porém com enormes perdas; 
(476 d.C.) queda definitiva do Império Romano do Ocidente.
Este período foi tradicionalmente delimitado com marcos 
em eventos políticos. Nestes termos, o seu início tem como marco 
a desintegração do Império Romano do Ocidente, no século V (476 
d.C.), e término com o fim do Império Romano do Oriente, com a 
Queda de Constantinopla, no século XV (1453 d.C.). Pode-se falar, 
ainda, numa subdivisão em períodos menores, em três fases: Ida-
de Média Antiga (ou Alta Idade Média ou Antigüidade Tardia) que 
decorre do século V ao X; Idade Média Plena (ou Idade Média Clás-
sica), que se estende do século XI ao XIII; e Idade Média Tardia (ou 
Baixa Idade Média), correspondente aos séculos XIV e XV.
No final do século XIV e início do século XV, com o fim do Im-
pério Romano14 e o surgimento da peste negra15, passa-se à Idade 
Moderna (ou Modernidade).
14 Por volta do século III, o Império Romano passava por uma enorme crise econômica e 
política. A corrupção dentro do governo e os gastos com luxo retiraram recursos para o 
investimento no exército romano. Com o fim das conquistas territoriais, diminuiu o número 
de escravos, provocando uma queda na produção agrícola. Na mesma proporção, caía o 
pagamento de tributos originados das províncias. Em crise e com o exército enfraquecido, 
as fronteiras ficavam a cada dia mais desprotegidas. Muitos soldados, sem receber soldo, 
deixavam as obrigações militares. Os povos germânicos, tratados como bárbaros pelos ro-
manos, estavam forçando a penetração pelas fronteiras do norte do império. No ano de 
395, o imperador Teodósio resolve dividir o império em: Império Romano do Ocidente, com 
capital em Roma e Império Romano do Oriente (Império Bizantino), com capital em Cons-
tantinopla. Em 476, chega ao fim o Império Romano do Ocidente, após a invasão de diversos 
povos bárbaros, entre eles, visigodos, vândalos, burgúndios, suevos, saxões, ostrogodos, 
hunos, etc. Era o fim da Antiguidade e início de uma nova época chamada de Idade Média, 
uma etapa necessária na História e que abriu caminho para o Renascimento.
15 Em meados do século XIV, uma doença devastou a população européia. Historiadores 
calculam que aproximadamente um terço dos habitantes morreram em decorrência desta 
doença, de guerras e da fome. A peste negra era transmitida através da picada de pulgas 
de ratos doentes. Estes ratos chegavam à Europa nos porões dos navios vindos do Oriente. 
Como as cidades medievais não tinham condições higiênicas adequadas, os ratos se espalha-
ram facilmente. Após o contato com a doença, a pessoa tinha poucos dias de vida. Febre, 
mal-estar e bulbos (bolhas) de sangue e pus espalhavam-se pelo corpo do doente, principal-
mente nas axilas e virilhas. Como os conhecimentos médicos eram pouco desenvolvidos, a 
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1.2.2. Compreensão histórica, filosófica e teórica da pena neste 
período
Neste período da história, o Direito Canônico exerceu gran-
de influência, pois a Igreja adquiria cada vez mais poder e suas 
decisões eclesiásticas eram executadas por tribunais civis. A pena 
possuía um caráter precipuamente sacral, de base retribucionista, 
porém – e aqui o seu mérito16 –, já com preocupações de correção 
do infrator, além de consolidar a punição pública como a única 
justa e correta. Vale destacar, ainda, que foi neste período, mais 
precisamente no século V, que produz-se o primeiro antecedente 
substituto da pena de morte: a Igreja, para punir clérigos faltosos, 
usava aplicar como penalidade a reclusão em celas ou a internação 
em mosteiros. 
Surge, então, a privação da liberdade como pena: a prisão 
eclesiástica, que tinha por finalidade fazer com que o recluso me-
ditasse, refletisse e arrependesse da infração cometida. Cárcere 
como penitência e meditação, originando a palavra “penitenciá-
ria”. Esta foi a grande contribuição deste período da história para 
a teoria da pena.
1.3. Idade Moderna ou Modernidade
1.3.1. Compreensão histórica do período
O fim da Idade Média está relacionado a grandes transforma-
ções, como a ascensão das monarquias nacionais européias; o iní-
cio da recuperação demográfica e econômica após a peste negra; 
os descobrimentos marítimos; o movimento de redescoberta da 
cultura clássica, por volta do século XV; e a reforma protestante, 
a partir de 1517. 
Tradicionalmente aceita-se o início estabelecido pelos histo-
riadores franceses, em 1453, quando ocorreu a tomada de Cons-
tantinopla pelos Turcos otomanos, e o término com a Revolução 
Francesa, em 1789. Entretanto, apesar de a queda de Constanti-
nopla ser o evento mais aceito, não é o único. Têm sido propostas 
morte era certa. Para complicar ainda mais a situação, muitos atribuíam a doença a fatores compor-
tamentais, ambientais ou religiosos. Muitos fugiam para o campo com medo de serem infectados.
16 CORRÊA Júnior, Alceu; SHECARIA, Sérgio Salomão. Op. cit., p. 31.
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outras datas para o início deste período, como a conquista de Ceu-
ta pelos portugueses em 1415, a viagem de Cristóvão Colombo ao 
continente americano em 1492, ou a viagem à Índia de Vasco da 
Gama em 1497. A noção de “Idade Moderna” tende a ser desvalori-
zada pela historiografia marxista, que prolonga a Idade Média até 
o advento das Revoluções Liberais e o fim do regime senhorial na 
Europa, devido à ampla ação das Cruzadas,