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ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR: introdução crítica estuda as múltiplas determinações econômicas e so- ciais da administração escolar bem como as condi- ções de possibilidade de uma práxis administrativa escolar voltada para a transformação social. De forma clara e objetiva, autor começa por abor- dar O conceito de administração em sua forma mais geral e abstrata, independentemente das determina- ções sociais e econômicas deste ou daquele modo de produção. Em seguida, examina a gênese e a natureza da admi- nistração especificamente capitalista e sua articula- ção com os interesses dominantes. A análise da escola, enquanto instituição que pode contribuir com sua parcela para a transformação so- cial, é realizada à luz de um conceito radical de trans- formação social que supõe a própria superação das classes sociais. Sempre de forma didática, que dos conceitos mesmo pelas pessoas pouco familiari- zadas com O assunto, é discutido () caráter conserva- dor da administração escolar vigente bem como OS supostos básicos de uma administração escolar com- prometida com a trans direla ser Todos ISBN 9 788524 900617 CORTEZ EDITORAITOR HENRIQUE PARO ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR INTRODUÇÃO CRÍTICA ORAL dos eitos Todo 37,015.4 edição CORTEZ EDITORADados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Paro, Vitor Henrique, 1945 Administração escolar : introdução critica / Vitor Henrique 7. ed. - São Paulo : Cortez, 1996. ISBN Bibliografia. 85-249-0061-X AUTORAL protegidos 1. Escolas Administração educacional 86-1008 Todos 1. I. Índices as direitos pela Lei 2 2.VITOR HENRIQUE PARO ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR CRITICA Todos os pela ser ou CORTEZ EDITORAADMINISTRAÇÃO ESCOLAR: introdução Vitor Henrique Paro Capa: Carlos Clémen sobre ilustração de Milton de Almeida Revisão: Vilson Fontana Ramos Coordenação editorial: Danilo A.Q. Morales 2003 Inventário CDC/UFJF CDC/ UFJF UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA edição - 1986 e protegidos FACULDADE is Todos Este ou Nenhuma parte desta obra pode reproduzida ou duplicada sem autorização expressa do autor do editor 1986 by Vitor Henrique Paro Direitos para esta edição CORTEZ EDITORA Rua Bartira, 387 - Tel.: (011) 864-0111 05009-000 - São Paulo - SP Impresso no Brasil março de 1996ou Todos Este os outros. Para Para Iana e para Laura.mundo não cometem nada erros, pela cometem transformação Só do Todos crime. Mas nos devia preocupar não imunidade contra erros, mas encontrar it direção que movimento deve tomar. Sc esta Este a correta, erros podem ser corrigidos; se erros desesperançadamente ampliados. Gilbert Green, Anarquismo ou marxismo, p. 18.SUMÁRIO PREFÁCIO 9 INTRODUÇÃO 11 Capítulo I O CONCEITO DE ADMINISTRAÇÃO EM GERAL 17 Capítulo II A ADMINISTRAÇÃO CAPITALISTA 1. Processo de produção e processo de exploração capitalista 35 35 2. Administração, divisão do trabalho e gerência 45 2.1. Divisão pormenorizada do trabalho 2.2. A racionalidade irracional ou 45 54 2.3. A gerência enquanto controle do trabalho alheio 2.4. A administração enquanto icos 58 enquanto mediação 68 ESCOLAR 81 1. Transformação social: superação da sociedade de classes 82 2. Educação para a transformação social 103 Capítulo IV fotogra ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL 123 1.0 caráter conservador da Administração Escolar vigente 124 2. A natureza do processo de produção pedagógico na escola 135 3. Administração Escolar para a transformação social 149 BIBLIOGRAFIA 169LEIDO DIREITO AUTORAL Todos direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610/1998. Este arquivo não pode ser reproduzido ou sejam quais forem meios empregados: eletrônicos, mecânicos, fotográficos ou quaisquer outros.PREFÁCIO Acompanhar a trajetória de um trabalho de pesquisa é sempre in- teressante e nos dá sobre esse trabalho uma visão enriquecida e com as- pectos de significação diferenciados. Como se originou um texto? De que pontos se partiu? Qual a perspectiva original? Que diferenças exis- tiriam entre o ponto de chegada esse trabalho consultável que aí es- tá e o ponto de De agosto de 1982 que data o projeto inicial meios partiu o presente trabalho. Esse projeto tinha por título: Direção escolar, po- der mudança social" e tinha como objetivo "Exa- minar papel do diretor de escolas de e graus, na gerência e or- ganização do trabalho escolar visando mudança social". Na perspec- tiva proposta nesse projeto inicial, embora trabalho devesse fazer vá- rias incursões para exame das reais funções da escola em uma socieda- de de estrutura capitalista bem como da questão da organização do trabalho dentro fora da escola nessas condições, fulero da análise deveria convergir para a figura do diretor escolar seu papel na mu- dança social, considerado esse diretor como "sujeito de uma práxis so- cial e a consciência que ele tem dela, bem como as perspectivas de mu- dança, tanto em sua práxis quanto em sua consciência da realidade". No entanto, na medida da acumulação e análise de suas leituras, e dos debates com colegas e alunos, o autor foi-se colocando com mais agu- deza questões mais de fundo quanto à Administração Escolar, sua construção teórica, veiculação e consubstanciação em atos na estrutu- 9ra escolar de e graus. Estas questões o conduziram a recolocar seus objetivos, construindo seu objeto de investigação de uma outra forma, visando a atividade administrativa escolar que perpassa o siste- ma educacional em vários níveis, sem consubstanciá-la nesta ou naque- la função particular. Com este novo enfoque, que apresenta como uma introdução crítica ao estudo das atividades administrativas nas es- colas de e graus, tem como objetivo analisar detidamente as pos- sibilidades de uma Administração Escolar voltada para a transforma- ção social. Constrói neste trabalho uma reflexão que pode fundamen- tar uma nova postura em administração escolar, sem ainda se deter nos aspectos mais concretos das possibilidades e condições histórico-con- textuais de sua efetivação. apresentar seu texto como uma introdu- ção. É um trabalho que requer leitura cuidadosa pois cada conceito é analisado com certo detalhamento e seu sentido deriva dessa análise, escapando aos usuais significados que a eles atribuímos segundo ou- tros referenciais. Cada capítulo e cada tópico se ancora nos significa- dos trabalhados nos anteriores; por isso torna se imprescindível que se acompanhe atentamente no texto a construção de cada idéia, caso con- trário corre-se o risco de interpretações apressadas não coerentes com o pensamento do autor em sua linha de O texto, nesta perspectiva, possui um caráter didático, que sua compreensão mesmo pelas pessoas pouco com assuntos de que trata. Sem dúvida i um trabalho que forem estilo bibliografia dominante nesta área de estudos, que muitas questões polêmi- cas que poderá animar um debate construtivo direção de uma re- colocação das questões relativas administração escolar. Este Bernardete A. Gatti S. Paulo, julho de 1986 10INTRODUÇÃO De maneira geral, pode-se considerar que as colocações acerca do problema da Administração Escolar no Brasil, tendem a se movimentar entre duas posições antagônicas: de um lado, a defesa dos procedimentos administrativos na escola sob a forma de adesão ao emprego, dos princípios e métodos desenvolvidos e adotados na empresa capitalista; de outro, a negação da necessidade meios e conveniência da própria administração na situação escolar. A primeira concepção mais largamente difundida, achando-se presente quer na literatura sobre Administração Escolar, onde ela predomina quase exclusivamente; quer na realidade de nossas escolas, onde direção escolar procura adotá la com maior ou menor rigor; quer ainda na formação dos futuros administradores escolares, perpassando de modo marcante curriculos e programas da Habilitação de Administração Escolar, no interior do Curso de Pedagogia. Ela se fundamenta na pretensa universalidade dos princípios da Administração adotados na empresa capitalista, os quais são tidos como princípios administrativos das organizações de modo geral./Embora adaptados a cada situação específica, os métodos e técnicas administrativos utilizados nas mais diversas organizações são todos semelhantes entre si, na medida em que se baseiam nos mesmos princípios gerais da Administração/Assim, diante da necessidade de se promoverem a eficiência e a produtividade da escola, não há razão para que esta, entendida também como organização, não possa pautar-se, na 11consecução de seus objetivos, por procedimentos administrativos análogos àqueles que tanto êxito alcançam na situação empresarial. A segunda posição opõe-se de forma radical a essa concepção empresarial, colocando-se contra todo tipo de administração ou tentativa de organização burocrática da escola. Ela procura constituir- -se, mais precisamente, numa reação ao caráter autoritário das relações que dominam no interior da escola, como de resto em qualquer tipo de organização em nossa sociedade. /A escola, assim, só será uma organização humana e democrática na medida em que a fonte desse autoritarismo, que ela identifica como sendo a administração (ou a burocracia, que é o termo que os adeptos dessa visão preferem utilizar), for substituída pelo e pela ausência de todo tipo de autoridade ou hierarquia nas relações vigentes na escola. Embora defendendo soluções opostas para o mesmo problema, ambas essas concepções incorrem no mesmo de não considera- rem os determinantes sociais e econômicos da Administração Escolar/A primeira visão assim procede, elevando à categoria de universalidade um particular tipo de administração, historicamente determinado, produto dos condicionantes sociais e esconômicos de um dado modo de produ- ção. A segunda procede de modo semelhante ao imputar a essa adminis- tração, e não às forças sociais que a engendram, as causas do autoritaris- mo e da dominação vigentes na Ambas revelam assim, seu caráter acrítico com relação à realidade concreta, na medida em que per- manecem no da aparência imediata, sem aprofundarem na cap- tação das múltiplas determinações do real. Por outro nenhuma de- las se identifica com uma Administração Escolar voltada para trans- formação social: a primeira porque, ao advogar aplicação na escola da administração capitalista, está contribuindo para legitimação de um ti- po de administração elaborado para atender necessidades e interesses do grupo social que mantém domínio a hegemonia na sociedade que tem, nesse tipo de administração de seus mais efetivos instrumentos na perpetuação do status quo; a segunda porque, não conseguindo dar conta das verdadeiras causas da dominação na sociedade, mostra-se im- potente para agir contra tais causas, ou seja, para transformar as condi- ções concretas em que se dá tal dominação, em direção a uma organiza- ção social mais avançada. Convencido da insuficiência dessas duas concepções para dar conta objetivamente do problema da Administração Escolar no Brasil é que me propus a empreender os estudos que deram origem a este trabalho, que agora apresento na forma de uma introdução critica ao estudo da 12atividade administrativa em nossas escolas de e graus, tendo como propósito fundamental examinar as condições de possibilidade de Administração Escolar voltada para a transformação social. Seu caráter que a investigação, embora partindo da observação imediata, não se detenha, mas busque captar, pela mediação da atividade reflexiva/ as múltiplas determinações dos fenômenos que procura Assim, nem il administração será vista apenas enquanto conjunto de métodos técnicas, dos quais se examinarão a conveniência de serem aplicados na situação escolar, nem a escola será tomada como entidade autônoma para a qual apenas se buscarão os procedimentos administrativos mais adequados a seu satisfatório desempenho. A atividade administrativa não se dá no vazio, mas em condições históricas determinadas para atender a necessidades e interesses de pessoas e grupos. Da mesma forma, a educação escolar não se faz separada dos interesses e forças sociais presentes numa determinada situação histórica A administração escolar está, assim, organicamente ligada à totalidade social, onde ela se realiza e exerce sua ação e onde, ao mesmo encontra as fontes de seus condicionantes. Para um tratamento objetivo da atividade administrativa escolar preciso, portanto, que a análise dos elementos mais especificamente relacionados à administração e à escola seja feita em intima relação com exame da maneira como está a sociedade organizada e das forças e sociais ai presentes. () desenvolvimento da estigação teve como base não apenas a bi- bliografia direta ou indiret amente relacionada ao assunto, mas também minha vivência enquanto pesquisador em educação e enquanto docente na área de Administração Escolar. Assim, além da análise e reflexão a respeito da bibliografia apresentada no final do trabalho, exame do te- ma do contato direto com a realidade educacional propi- ciado tanto por men trabalho sistemático de pesquisa junto ao Departa- mento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas, quanto pela docência desenvolvida nos Cursos de Pedagogia do Centro de Edu- cação da Universidade Católica de São Paulo e da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. No que se refere à docência, é importante destacar a importância que teve em minhas reflexões o per- manente contato com a realidade escolar, e em especial com os proble- mas ligados à direção de escolas de e graus, proporcionado por mi- nha atividade sistemática como orientador de estágios junto aos alunos da Habilitação de Administração Escolar do Curso de Pedagogia. Se a natureza crítica da abordagem permeou todas as atividades da 13investigação, na forma de uma preocupação constante em ir além das aparências, buscando as verdadeiras causas dos problemas e os condi- cionantes últimos da realidade pesquisada, o compromisso com a trans- formação social que norteou este estudo não deixou de influenciar em igual medida a própria forma de apresentação dos resultados alcança- dos. A este respeito, tão ou mais importante do que as novas descobertas é a sua divulgação àqueles que estejam mais diretamente envolvidos com o problema em sua prática cotidiana. Por isso, minha preocupação não foi apenas a de pesquisar novos aspectos da Administração Escolar, pro- curando vê-la sob uma perspectiva de transformação social, mas sobre- tudo a de que as contribuições teóricas daí decorrentes chegassem ao co- nhecimento das pessoas envolvidas na prática a que elas se referem. Por conseguinte, presente trabalho foi escrito para ser lido e compreendido especialmente por aqueles que, ou estão diretamente envolvidos com a prática administrativa escolar, como os diretores de escola e os professo- res e educadores engajados no processo escolar de um modo geral, ou es- tão se preparando para atuarem na realidade escolar, como é o caso dos estudantes do Curso de Pedagogia. Esta opção por uma exposição didática do assunto levou-me, mais de uma vez, a deter-me em aspectos que poderão parecer supérfluos às pessoas já bastante familiarizadas com conteúdos econômicos so- ciais de um modo geral Preferi, entretanto assumir conscientemente risco de ver introduzidas algumas passagens que, embora para alguns possam aparecer como desnecessária repetição, propósito de evi- tar erro maior, que seria a produção de um trabalho hermético e incom- preensível precisamente a quem apreensão de seu conteúdo mais pode interessar como subsídio sua atividade prática. visão do problema da Administração Escolar exige um conhecimento mais ou menos preciso da estrutura sócio econômica da sociedade. En- tretanto, quando se sabe que são muito reduzidas as probabilidades de os interlocutores dominarem tal conhecimento, torna-se injustificável que ele seja tomado como pressuposto, sem antes explicitá-lo. Não é possível, por exemplo, compreender problema da gerência capitalista sem ter clara a divisão pormenorizada do trabalho e seus determinantes econômicos e sociais. Não obstante, esse assunto, em geral, ou não é se- quer mencionado nos Cursos de Pedagogia, onde se prepara futuro educador e diretor escolar, ou recebe aí apenas um tratamento superfi- cial e, não raro, mistificador, sob o rótulo de divisão "técnica" do traba- lho. A esse tipo de leitor, podemos afirmar, por exemplo, que "a Admi- nistração Escolar possui um componente de gerência, enquanto contro- 14le do trabalho alheio, que guarda semelhança e tem determinações aná- logas ou coincidentes com as da gerência que se dá no nivel da produção capitalista, a qual serve de mediação da exploração do trabalho pelo ca- pital". Mas, se sabemos que, de conceitos ai contidos (como "gerência", "trabalho", "produção capitalista", "exploração", "ca- pital"), ele detém uma visão, geral, muito superficial e, na maioria das vezes, meramente apaixonada ou moralista, é de se duvidar que ele possa ter uma compreensão verdadeiramente significativa do que esta- mos pretendendo transmitir-lhe. Em vista disso é que senti a necessidade de incluir no trabalho também a discussão de conceitos que são normal- mente tidos como do domínio desses leitores. Por outro lado, não me pareceu recomendável inserir no texto à guisa de elucidação dos pressupostos teóricos necessários à compreen- são do problema da Administração Escolar - vastas e complexas consi- derações sobre matéria de ordem sociológica, econômica, política etc. que pudessem comprometer seu caráter didático e a mais fácil apreensão de seu conteúdo. Procurei, portanto, selecionar aqueles aspectos mais essenciais para a elucidação de cada ponto obscuro do trabalho, buscan- do expô-los de forma porém a fim de evitar que o dida- tismo viesse favorecer a superficialidade esforcei-me também por tratá- los da forma mais rigorosa O conteúdo do trabalho está organizado em quatro capitulos. No primeiro, examino conceito de administração em seus elementos mais simples, fazendo abstração dos condicionantes específicos desta ou da- quela estrutura social determinada. No segundo, estudo a administração como se dá na sociedade capitalista, procurando identificar seus principais determinantes sociais e econômicos No terceiro procuro conceituar a transformação social bem como caracterizar o pa- pel que pode a educação escolar desempenhar em tal processo. Final- mente, no quarto capitulo, analiso caráter conservador da teoria e da prática da Administração Escolar no Brasil e procuro estabelecer alguns pressupostos básicos para uma prática administrativa escolar compro- metida com a transformação social. 15LEIDO DIREITO AUTORAL Todos direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610/1998. Este arquivo não pode ser reproduzido ou transmitido sejam quais forem meios empregados: eletrônicos, mecânicos, fotográficos ou quaisquer outros.CAPÍTULO O CONCEITO DE ADMINISTRAÇÃO EM GERAL Para os modernos teóricos da Administração, a sociedade se apre- senta como um enorme conjunto de instituições que realizam tarefas sociais determinadas. Em virtude da complexidade das tarefas, da es- cassez dos recursos disponíveis, da multiplicidade de objetivos a serem perseguidos e do grande número de trabalhadores envolvidos, assume- -se a absoluta necessidade de que esses trabalhadores tenham suas ações coordenadas controladas por pessoas ou órgãos com funções chama- das Essa visão dos teóricos da Administração tem cor- respondência na realidade concreta da sociedade capitalista, onde a Administração encontra, na organização, seu próprio objeto de estu- do.² Neste contexto, acha-se obviamente a escola que, como qualquer outra instituição, precisa ser administrada, tem na figura de seu dire- tor responsável último pelas ações ai desenvolvidas. 1. historiadores do século XXII podem considerar do século XX aquilo a que nós mesmos não temos prestado quase atenção alguma: 0 surgimento de uma sociedade de organiza- ções na qual toda tarefa social importante está sendo confiada a uma grande instituição" (Drucker, 1974:197). "Um dos marcantes do século atual é surgimento de uma sociedade de or- ganizações" (Chiavenato, 1979:208, grifos no original). 2. "() objeto de estudo da Administração sempre foi a (Chiavenato, 1979:9, V. 1). "Não existe organização sem administração e a é quase sempre totalmente verdadeira, já que é precipuamente dentro das organizações que a administração é exercida" (Motta & Pereira, 1981:19). 48 São competências do Diretor de Escola, além de outras que forem atribuídas por lei, decreto on ato da administração superior: (...) em relação às atividades gerais: a) responder pelo cumprimento, no âmbito da escola, das leis, regulamentos e determinações 17Parece razoável, portanto, que nossa introdução ao estudo crítico da Administração Escolar comece por explicitar a natureza da própria atividade administrativa. A administração como é entendida e realizada hoje é produto de longa evolução histórica e traz a marca das contradições sociais e dos interesses políticos em jogo na sociedade. Por isso, para melhor com- preender sua natureza, é preciso examiná-la, inicialmente, independen- temente de qualquer estrutura social determinada. Isso implica exami- nar o conceito de administração em geral, ou seja, a administração abstraída de seus determinantes sociais que, sob o capitalismo, por exemplo, configuram a chamada administração capitalista. Mas, não se trata, já, de administração em seu sentido apenas geral, e sim administração historicamente determinada pelas relações econômicas, sociais, que se verificam sob o modo de produção capitalista. Não que a administração possa existir concretamente a não ser deter- minada historicamente; apenas que, sob outras relações de produção, outros serão os determinantes e outra será a forma como se apresenta concretamente a administração. Dai a importância de examiná-la em sua concepção mais simples, ou seja, abstraindo as determinações his- toricamente situadas. Só assim se pode em sua "essência", que ela tem de específico, independentemente das múltiplas determina- ções sociais que sobre agem concretamente. Captada especifi- cidade (ou seja, sua forma geral, aquela que todo tipo de estrutura social), é possível identificar quais elementos em sua existência se devem determinações históricas próprias de um dado modo de produção. Numa perspectiva de transformação cial, é além disso, raciocinar em termos dos elementos dos quais esta forma, historicamente determinada numa sociedade de clas- ses, precisa ser depurada para numa sociedade mais avançada, se possa pô-la a serviço de propósitos não-autoritários. Iniciando, pois, por considerá-la em seu sentido geral, podemos afirmar que a administração a utilização racional de recursos para a realização de fins determinados: Assim pensada, ela se configura, ini- cialmente, como uma atividade exclusivamente humana, já que so- mente o homem é capaz de estabelecer livremente objetivos a serem bem como dos prazos para execução dos trabalhos estabelecidos pelas autoridades superiores." SÃO PAULO (Estado). Leis, Decretos. Regimento comum das escolas estaduais de grau do Es- tado de São Paulo: Decreto 10.623, de 26 de outubro de 1977. Essa mesma competência do dire- tor é estabelecida, ipsi litteris, no Regimento comum das escolas estaduais de grau do 18cumpridos. O animal também realiza atividade, mas sua ação quali- tativamente diversa da ação humana, já que ele não consegue trans- cender seu estado natural, agindo apenas no âmbito da necessidade. "Uma aranha executa operações semelhantes As do tecelão, a abelha envergonha mais de um arquiteto humano com construção dos favos de suas colmeias. Mas o que distingue, de antemão, arquiteto da abelha que construiu o fa- em sua cabeça, de cm No fim do processo de trabalho ob- resultado que já no inicio deste existiu na imaginação do trabalhador, e portanto idealmente/Ele não apenas efetua uma transformação da forma da matéria natural; realiza, ao mesmo tempo, na matéria natural seu objetivo, que ele sabe que determina, como a espécie modo de sua atividade e ao qual tem de subordinar sua vontade" (Marx, 1983; 149-50, V. 1, t. 1). Porque se propõe objetivos, o homem precisa utilizar racionalmen- te os meios de que dispõe para realizá-los. A atividade administrativa é, então, não apenas exclusiva mas também necessária à vida do homem. O animal, como ser indiferenciado da natureza⁴, não realiza trabalho hu- mano, já que não busca objetivos livremente, colocando-se portanto no âmbito da pura necessidade. Não se coloca para ele, portanto, o proble- ma da utilização racional de seus recursos, já que suas ações são previa- mente determinadas pela natureza, de modo necessário e imutável para cada espécie. O homem também faz parte da natureza, mas consegue di- ferenciar-se dela por sua ação livre. Ele só é homem porque transcende sua situação natural (Cf. Saviani, 1978: 30-65). Essa transcendência se dá na medida em que ele busca realizar, através da ação racional, os ob- jetivos a que se propõe É conveniente, entretanto, explicitar melhor, ainda que de forma provisória () que devemos entender por utilização racional de recur- sos". palavra racional vem do latim ratio, que quer dizer razão. As- sim, se se tem um fim em mente, utilizar racionalmente os recursos (utili- zá-los de acordo com a razão) significa, por um lado, que tais recursos sejam adequados ao fim visado, por outro, que seu emprego se dê de for- ma Estas duas dimensões estão intimamente relacionadas. Adequação aos fins significa, primeiramente, que, dentre os meios dis- poníveis, há que'selecionar aqueles que mais se prestam à atividade ou atividades a serem desenvolvidas com vistas à realização de tais fins. 4. Com termo natureza "entendemos tudo aquilo que existe independentemente da ação do homem" (Saviani, 1980:39). 5. Voltaremos a esse assunto Capítulo 6. importante notar, desde já, que esses dois aspectos tomam o fim como um dado, não podendo, por isso, dar conta de todo o sentido da racionalidade das ações humanas. No próximo capítulo, item 2, seção 2.2, será demonstrada a necessidade de ampliação desse conceito. 19Além disso, como são múltiplos os usos a que eles geralmente se pres- tam, a combinação e o emprego dos recursos precisam estar permanen- temente impregnados do objetivo a ser alcançado, ou seja, tal objetivo deve estar sempre norteando as ações para que não ocorram desvios em sua realização. A consideração desses desvios aponta, já, para a segunda dimensão da utilização racional dos recursos, ou seja, a dimensão eco- nômica. Esta se faz presente à medida que o alcance dos objetivos se concretiza no menor tempo possível e com o dispêndio mínimo de recursos. Os recursos de que estou falando envolvem, por um lado, os ele- mentos materiais e conceptuais que o homem coloca entre si e a natureza para dominá-la em seu proveito; por outro, os esforços despendidos pe- los homens e que precisam ser coordenados com vistas a um propósito comum. Têm a ver, por um lado, com as relações do homem com a natu- reza, por outro, com as relações dos homens entre si. Essas duas ordens de relações não são de modo nenhum desvinculadas uma da outra, exis- tindo, pelo contrário, em mútua interdependência. Por motivos didáti- cos, porém, vou tratá-las, tanto quanto seja possível, em separado, ten- tando estabelecer, ao mesmo tempo, as implicações que tem cada uma delas, e ambas conjuntamente, com conceito de administração. O homem relaciona se com a natureza pelo trabalho. como "atividade orientada a um fim" (Marx, 1983: 150. 1), um processo pelo qual homem se apropri da vontade, domina-a em seu proveito, para produzir sua existência mate- rial. Ao dar forma aos recursos 0 coloca frente à natureza suas próprias forças naturais. Neste processo não transforma apenas a natureza externa mas também natureza (Marx, 1983: 149, 1,t. 1; 1978a: 39 40). relação do homem com a natureza não se dá, entretanto, de forma imediata. Mediando a relação entre homem e a matéria a que aplica seu trabalho, ou seja, objeto de trabalho, existem os meios de trabalho. No dizer de Marx, meio de trabalho uma coisa ou um complexo de coisas que trabalhador coloca entre si mesmo e objeto de trabalho que serve como condutor de sua atividade sobre esse objeto. Ele utiliza as propriedades mecânicas, fisicas, quimicas das coisas para fazê-las atuar como meios de poder sobre outras coisas, conforme seu objeti- vo" (Marx, 1983: 150, 1, 1). Num sentido lato, porém, Marx considera meios de trabalho todas as condições objetivas necessárias à realização do processo de trabalho. Incluem-se, ai, não apenas os elementos materiais, como ferramentas, instrumentos, máquinas, de que o homem se utiliza 20diretamente para modificar o objeto de trabalho de acordo com seus objetivos, mas também aqueles meios, como estradas, edificios das fábricas etc., que participam só indiretamente do processo de trabalho mas, sem quais, este processo total ou parcialmente Além disso, tanto meio quanto objeto de trabalho, quando considerado processo inteiro do ponto de vista de seu resultado, do produto", se apresentam como meios de produção (Marx, 1983: 151, 1, 1. 1). São meios de produção, portanto, todos os elementos materiais que, direta ou indiretamente, participam do processo de produção. Ao lado desses elementos materiais, o homem faz uso também da- quilo que estou denominando "recursos conceptuais", que consistem nos conhecimentos e técnicas que ele acumula historicamente, No início da civilização, os conhecimentos que o homem tem a respeito da nature- za são bastante incipientes, 0 mesmo acontecendo com as técnicas com as quais ele conta para modificar essa natureza de acordo com seus fins. Com o passar do tempo, porém, e como resultado de sua ação constante sobre a natureza e de suas relações recíprocas, os homens vão podendo acumular conhecimentos em quantidade cada vez mais significativa, o mesmo acontecendo com as técnicas que vão aos poucos se sofisticando e possibilitando o dominio cada vez mais efetivo sobre a natureza. Tam- bém seu instrumental de trabalho que no início, era bastante simples e rudimentar, vai ganhando complexidade crescente possibilitando maior eficiência no processo de trabalho. No que se refere à homem com natureza e de acordo com conceito de administ que estamos examinando, esses recur- SOS materiais conceptuais precisam ser utilizados de maneira racional com vistas a realização de Oque quer dizer que homem age tanto mais administrativamente quanto mais ele conjuga seus conheci- mentos e faz avançar aperfeiçoa, na utilização de seus meios de produção, ou Nessa relação do homem com a natureza, em que ele, na busca de objetivos, precisa utilizar racionalmente seus recursos materiais e con- ceptuais, revela-se todo um campo de interesse teórico-prático da admi- nistração que, na falta de nome mais apropriado, chamo de "racionali- zação do trabalho". E importante observar, de imediato, que essa ex- pressão não tem aqui o mesmo sentido de seu uso corrente na sociedade capitalista. Quando o senso comum e a teoria burguesa de administra- ção falam em racionalização do trabalho, estão se referindo a sua forma historicamente situada, mesmo quando (conscientemente ou não) pre- 21tendem elevar tal forma à categoria de universalidade. Entretanto, ao tratar do conceito de administração em geral, estou preocupado, aqui, com a do trabalho" em sua forma também geral. Por is- so, procuro dar-lhe o sentido preciso que a identifica com as ações, pro- cessos e relações que, no âmbito da administração, dizem respeito à utili- zação racional dos recursos materiais e conceptuais. A do trabalho" engloba, pois, as relações homem/natureza no interior do processo de administração. Voltaremos oportunamente a este Tratemos agora do segundo tipo de relações que têm lugar no pro- cesso de produção material da existência humana, ou seja, das relações que os homens estabelecem entre si. Ao relacionar-se com a natureza, homem não o faz como indivíduo isolado, mas em contato permanente com os outros homens. O relacionar-se dos homens entre si é condição essencial da existência humana. Marx e Engels assim se expressaram a respeito da inevitabilidade dessas relações: "Os individuos sempre em quaisquer circunstâncias, 'deles mas eles não eram únicos no sentido de que não podiam deixar de ter relações entre si; pelo contrário, as suas necessidades, portanto a sua de as satis- fazer, tornava-os dependentes uns dos outros (relação entre sexos, trocas, divisão do trabalho): era portanto inevitável que se estabelecessem relações entre (...) Verifica-se, de fato, que desenvolvimento de individuo condicionado pelo de todos os outros, com quem encontra relações (Marx & Engels, 1975b: V. 2 grifos no original) Essas relações se manifestam de modo particular no de tra- balho, por força, quer da própria natureza do processo de produção no qual estão normalmente envolvidas mais de pesson, quer desti- nação dos produtos desse processo, na sociedade. Por no inte- rior do processo de produção, a atividade humana não via de re- gra, de maneira isolada, existindo, em vez disso, uma conjugação das atividades de todos individuos envolvidos. Não que seja impossível imaginar um produtor isolado realizando todas as etapas de seu em- preendimento. Desde as épocas mais primitivas, entretanto, homens perceberam, por força da inevitabilidade de suas relações que objetivos a que se propunham podiam ser atingidos mais efetiva- mente e com economia de recursos quando, em lugar de agirem isolada- mente, suas ações fossem conjugadas na busca de objetivos comuns. Por outro lado, a divisão social do trabalho, existente nas sociedades onde vigora a troca entre produtores privados, já pressupõe as relações entre esses produtores. Se alguém se dedica a produzir determinado artigo pa- ra trocá-lo por outros produtos necessários a sua subsistência, é evidente 22que isso só se torna possível a partir de seu relacionamento com outros produtores. que é importante salientar, entretanto, i que esse caráter social do trabalho já está presente no momento mesmo em que 0 proces- de trabalho se dá. Nesse momento, produtor privado já antevê a tro- ca e por isso procura produzir um artigo que não apenas tenha uma for- ma útil de modo a satisfazer necessidades de outras pessoas, mas tam- bém seja permutável por outros artigos, de modo a atender a suas neces- sidades particulares (Marx, 1983: 71-2, V. 1, t. 1). Seja no interior do processo de produção, seja no contexto da divi- são social do trabalho, as relações dos homens entre si para produzirem sua existência material envolvem a utilização de esforço humano. Ape- nas se lhes for associado este recurso, os elementos materiais e concep- tuais interpostos entre o homem e a natureza podem concorrer para a realização de fins determinados. Assim sendo, a utilização racional de recursos deve incluir, além dos elementos materiais e conceptuais, o em- prego econômico e a devida adequação aos fins de todo esforço humano despendido no processo. A administração, entretanto, não se ocupa do esforço despendido por pessoas isoladamente, mas com o esforço humano coletivo. "A atividade administ ativa uma atividade grupal. As situações simples, nas quais um homem executa e planeja seu próprio trabalho, lhe são familiares; porém, à me- dida que essa tarefa se expande até ponto cm que se faz necessário esforço de nu- merosas para levá-la cabo simplicidade desaparece, tornando necessário desenvolver processos para aplicação do esforço organizado proveito da tarefa do grupo 1979: 179, grifos no original) À utilização racional desse esforço humano coletivo, chamo de coordenação do esforço humano coletivo ou simplesmente "coordena- Também aqui termo tem significado especial, diverso daquele encontrado na literatura sobre administração. Utilizo a palavra "coor- denação" muito precisamente para indicar campo de interesse teórico- prático da administração que diz respeito ao emprego racional do esfor- ço humano Enquanto a "racionalização do trabalho" se refere às relações homem/natureza, no processo administrativo, a "coordena- ção" tem a ver, no interior desse processo, com as relações dos homens entre si. 7. A. procura interpretar o pensamento de Hebert A. Simon, expresso em sua obra comporta- mento administrativo. 8. "A administração é uma atividade generalizada e essencial a todo esforço humano coletivo, seja na empresa industrial, na empresa de serviços, no exército, nos hospitais, na igreja, etc. homem ca- da vez mais necessita cooperar com outros homens para atingir seus objetivos: nesse sentido, a ad- ministração é basicamente a coordenação de atividades grupais" (Chiavenato, 1979:208, 1). 23A pode ser vista, assim, tanto na teoria quanto na prática, como dois amplos campos que se interpenetram: a "racionaliza- ção do trabalho" ea "coordenação" Isto não significa, entretanto, que a atual Teoria da Administração assim os considere. Até porque, numa sociedade de classes, o próprio objeto de estudo de determinada discipli- na ou ciência tende a se amoldar aos interesses No caso da Administração, teremos oportunidade de constatar, mais adiante, que houve uma delimitação restritiva de seu campo, que atendeu a conve- niências dos grupos detentores do poder na sociedade. Todavia, do amplo em que está sendo aqui examinada, e para os propósitos de tal análise, considero satisfatório organizar os problemas de administração sob as rubricas de "racionalização do trabalho" e de "coordenação", levando em conta, respectivamente, os elementos materiais e concep- tuais, de um o esforço humano coletivo, de outro. Na busca de determinado objetivo ou conjunto de objetivos, esses dois tipos de recursos encontram-se em mútua dependência, não poden- do, na prática, ser separados: elementos materiais e conceptuais não cumprem sua função no processo se não estiverem associados ao esforço humano coletivo; da mesma forma, esforço humano coletivo necessita dos elementos materiais e conceptuais para ser aplicado racionalmente. Cada um desses dois grupos de recursos, entretanto, possui especifi- cidade, que permite, em termos teóricos, separadamente. os elementos materiais e concept dizem respeito relação do homem com servindo como mediação nessa relação, es- forço humano coletivo refere as relações que homens levados a estabelecer entre si para que processo SC realize. se que este agrupamento dos recursos, com base nas rela- ções do homem com a natureza com outros homens, não coincide com a abordagem que reúne, de um lado, recursos naturais de outro, os recursos humanos. Quanto aos recursos naturais, não há nenhuma distinção a fazer, já que podem ser considerados como sinônimo de re- cursos materiais. A grande diferença surge quando se trata dos chama- dos recursos humanos. por esta expressão entendermos aqueles recur- SOS que são inerentes ao homem recursos humanos, portanto, como sinônimo de recursos do homem -, então temos, por um lado, que os elementos conceptuais, que na classificação que estou considerando en- contram-se ao lado dos recursos materiais (ou naturais), são eles nitida- mente recursos humanos, ou recursos do homem, no sentido de que só este é capaz de criar novas técnicas, produzir novos conhecimentos e acumulá-los historicamente. Por outro lado, também o esforço huma- 24no, por força da especificação imposta pelo próprio qualificativo, cons- titui-se, obviamente, num recurso humano. Se, entretanto, a expressão pretender referir-se às próprias pessoas envolvidas no processo, então ela não terá lugar na classificação apresentada, já que, ai, não parto do homem como recurso, como meio, mas essencialmente como fim. Considerar homem como fim implica tê-lo como sujeito e não co- mo objeto no processo em que se busca a realização de objetivos. Como ficou dito anteriormente, ao relacionar-se com a natureza, o homem o faz como ser diferenciado dela, que a domina, modificando-a em seu be- Somente a partir deste domínio sobre o natural pode o homem produzir sua existência sobre a Terra, perpetuando-se como realidade que se destaca dela, ou seja, como realidade humana. Não haveria neces- sidade da palavra "humano" se o homem permanecesse indiferenciado da natureza, dominado pela necessidade própria a ela. É, pois, a partir de seu domínio sobre a natureza que o homem se faz, se torna humano. Reconhecer esta evidência, implica, conseqüentemente, reconhecer que as relações entre os homens não podem ser de dominação, sob pena de se perder sua característica humana, quer dizer, de seres dife- renciados do mundo meramente natural. Se eu, diante da natureza, me reconheço homem pelo dominio que tenho sobre a mesma, ao deparar- -me com meu semelhante, devo obrigatoriamente reconhecer-lhe esta mesma condição Se o domino, reduzo nesta perspectiva, à condição meramente natural, ou a um ser dominado como a natureza o é por mim. Toda vez, portanto, que se verifica uma dominação sobre o ho- mem, degrada-se-lhe sua condição de humano para a condição de coisa, identificando-se-lhe, portanto, ao natural, ao Esta por- tanto, uma propriedade fundamental da relação dos homens entre si que, para ser verdadeiramente humana, verdadeiramente destacada da necessidade natural, precisa ser de cooperação não de dominação (Cf. Saviani, 1980: 40-1) Assim sendo, para efeito do sentido amplo que estou dando à noção de administração, a expressão "recursos humanos" que, embora na linguagem do senso comum e da chamada Teoria Geral da Administra- ção, seja, no mais das vezes, empregada, ou implicitamente, pa- ra se referir às próprias pessoas como recursos utilizados para atingir ob- jetivos de outros essa expressão "recursos humanos" precisa ser en- tendida no sentido específico de recurso do homem e não do homem co- recurso. Quando se utiliza o próprio homem como recurso, não se está no âmbito da administração em geral, mas no da administração co- mo é realizada numa estrutura social determinada, na qual o ser humano 25acaba sendo tratado não como homem, mas como simples parte indife- renciada da natureza. Até aqui, ocupamo-nos da natureza dos recursos envolvidos na ati- vidade administrativa. Examinemos, agora, o grau de consciência que têm dessa atividade os sujeitos nela envolvidos. Segundo Sánchez Váz- quez, em toda atividade humana encontra-se presente a consciência. Em toda práxis entendida esta como "uma atividade material, transfor- madora e ajustada a objetivos" (Sánchez Vázquez, 1977: 208) inter- vém, em maior ou menor grau, a consciência do homem. Esta se mani- festa de modo mais acentuado na chamada práxis criadora, mas não dei- xa de estar presente também na práxis reiterativa ou imitativa. esses tipos, ou níveis, da práxis são de importância decisiva para o ho- mem. "Do ponto de vista da práxis humana, total, que se traduz na produção ou auto- criação do próprio homem, a práxis criadora é determinante, já que é exatamente ela que lhe permite enfrentar novas necessidades, novas situações. O homem é o ser que tem de estar inventando ou criando constantemente novas soluções. Uma vez encon- trada uma solução, não basta repetir ou imitar o que ficou resolvido; primeiro lugar, porque ele mesmo cria novas necessidades que invalidam as soluções encontra- das e, em segundo lugar, porque a própria vida, com suas novas exigências, se encar- rega de invalidá-las. Mas as soluções alcançadas têm sempre, no tempo, certa esfera de validade, dai a possibilidade a necessidade de generalizá-las isto de repeti-las enquanto essa validade mantenha. ^ repetição enquanto própria vida não reclama uma nova criação, não vive estado criador. Ele só cria por necessidade; cria para adaptar para tisfazer novas necessidades. Repete, portanto, não NC obrigado criar. Contudo, criar é para ele a primeira mais necessidade porque do, transformando mundo, homem como legel de diferentes prismas filosóficos faz mundo se mesmo, Assim, atividade prática fundamental do homem tem junto porém, temos também como atividade relativa, possibilidade necessidade de ser substituída a 1977: 247-8). Na práxis criadora há a unidade indissolúvel da atiyidade da cons- ciência (o subjetivo, interior) e da realização do projeto (o objetivo, () exterior), o que quer dizer que produção do objeto ideal inseparável da produção do objeto real, material" Vázquez, 1977: 249). Criar implica a idealização e objetivação de algo novo. Esse caráter de novidade que acompanha toda criação implica que, tanto a lei que rege o processo de realização, quanto a forma última que tomará o objeto ma- terial, só sejam conhecidas a posteriori. isso, o subjetivo eo objetivo não são separados, de tal sorte que haja, num primeiro momento, um plano idealizado pela consciência que será, num momento seguinte, me- ramente duplicado no processo de sua realização. Em vez disso, ambos 26projeto e realização sofrem modificações no processo, advindas da relação entre eles. () projeto inicial defronta-se com resistências em sua concretização. Ao tentar há a necessidade de sua constante modificação, não só no modo de realizá-lo modificando, com isso, o processo mas também na forma do objeto ideal, resultando, no fi- nal, um produto que não será mais idêntico ao inicialmente projetado. Na práxis criadora verifica-se, portanto, uma indeterminação e imprevi- sibilidade tanto do processo quanto do produto dele resultante (Sánchez Vázquez, 1977: 247-51). Em vista disso, "a consciência se vê obrigada a estar constantemente ativa, peregrinando do interior ao exterior, do ideal ao material, com o que ao longo do processo prático se vai apro- fundando cada vez mais a distância entre o modelo ideal (ou resultado pré-figurado) e o produto (resultado definitivo e real)" (Sánchez Vázquez, 1977: 250). Em oposição, a essa práxis criadora de caráter único e irrepetível, a práxis reiterativa, como o próprio termo indica, caracteriza-se exata- mente por sua repetibilidade. A lei que rege o processo de realização já é conhecida a priori, constituindo o objeto real em simples duplicação ou cópia do objeto ideal. Opera-se, portanto, uma separação entre o subje- tivo e o objetivo, constituindo-se a práxis reiterativa ou imitativa em re- petição de um processo de um resultado por uma práxis cria- dora anterior, sem, contudo, a imprevisibilidade a unicidade desta. lado positivo da práxis reiterativa reside em seu poder de ampliar e multi- plicar a práxis Seus aspectos negativos aparecem, todavia, quando sua ocorrência se dá de a barrar as possibilidades de no- vas Ainda que em menor grau, também na práxis reiterativa a consciência se Pormais rotinizada que seja deter- consciência, minada atividade, 0 homem não prescindir da intervenção de sua "entre outras porque ele pode se abrir para uma atitude diante das coisas na qual entre parênteses sua própria Mesmo pa- ra assegurar 0 caráter mecânico da operação e poder excluir as intervenções da cons- ciência supérfluas do ponto de vista da produção -, é indispensável um mínimo de sua atividade" Vázquez, 1977: 282). Compreendidos esses dois níveis da práxis humana, fica fácil racio- cinar em termos da atividade administrativa e admitir que aqui também se encontra um tipo ou nível de administração que é invenção/descober- ta de novos procedimentos e caminhos para se alcançarem objetivos e "Não existe atividade humana da qual se possa excluir toda intervenção intelectual, não se pode se- parar o homo faber do homo sapiens" (Gramsci, 1978b:7). 27outro que é repetição/imitação desses caminhos e procedimentos: uma administração criadora e uma administração reiterativa. Na prática, ambos esses níveis coexistem em íntimo relacionamento, já que um pres- supõe o outro e vice-versa: por um lado, a administração criadora vale- -se de conquistas anteriores procedimentos que foram bem- -sucedidos em outras situações para criar novas formas de atingir objeti- vos de modo mais efetivo; por outro lado, a administração reiterativa multiplica a aplicação dos procedimentos criados, ampliando o seu al- cance. Ambos esses níveis da administração são de extrema importância para a atividade humana/ Porque o homem se defronta permanente- mente com novos problemas e se coloca sempre novas metas a serem atingidas, a administração criadora precisa ser pensada em termos de re- levância, propondo soluções e descobrindo novas alternativas que res- pondam às reais necessidades humanas. Por sua vez, a administração reiterativa encontra sua aplicação na repetição de procedimentos que, uma vez criados, não têm porque não serem repetidos e aplicados em si- tuações Essa reiteração, entretanto, não pode erigir-se em fim em si mesma, sob pena de degenerar numa práxis burocratizada, 10 que impede o desenvolvimento da própria administração criadora. Como toda práxis, tanto a administração criadora quanto a reitera- tiva estão impregnadas pela consciência humana. A esta consciência que participa do processo prático, desde () início ao longo dele, transfor- mação de um objeto ideal em real, Vazquez de consciên- cia prática (Sánchez Vázquez, 1977: 283). A consciência prática está, pois, sempre presente na atividade administrativa. 6 fundamental, portanto exigida alta escala, na administração criadora; mas atua imitativa. também, embora em menor proporção na administração reiterativa ou Entretanto, para compreender toda a extensão da atividade admi- nistrativa enquanto práxis, não basta ter presente a inserção da consciên- cia no processo prático, como visto até aqui. preciso levar em conta também o grau de consciência dessa inserção que tem sujeito, ou seja, sua consciência da práxis. Como afirma Sánchez Vázquez, "a consciência não só se projeta se plasma, como se sabe a si mesma como consciên- cia projetada, plasmada, ou, 0 que dá no mesmo, sabe que a atividade que rege as mo- dalidades do processo prático é sua e que, além disso, é uma atividade procurada ou desejada por ela. A essa consciência que se volta sobre si mesma, e sobre a atividade material em que se plasma, podemos chamar de consciência da práxis" (Sánchez Váz- quez, 1977: 283-4, grifos no 10. Voltaremos a esse tema no Capitulo II. 28De acordo com grau de consciência da práxis, pode-se falar em dois novos níveis da práxis: práxis reflexiva práxis espontânea. No pri- meiro caso, ocorre uma alta consciência da atividade prática que, no se- gundo, encontra-se bastante reduzida ou quase não existe. E preciso res- saltar que, embora intimamente ligados aos dois niveis anteriores (da práxis criadora da práxis reiterativa), esses dois novos niveis com eles não se identificam nem precisam necessariamente coincidir. Pode ocor- rer uma práxis criadora, com a participação em alta escala da consciência do sujeito no processo prático, sem que isso implique embora não impeça que o sujeito tenha um elevado grau de consciên- cia da práxis. Da mesma forma, o fato de um operário, por exemplo, executar um atividade altamente repetitiva e mecânica, que exige quase nenhuma consciência prática, não impede que ele tenha uma consciência bastante elevada da atividade prática que desenvolve (Sánchez Vázquez, 1977: 283-6). Isso significa que tanto pode existir uma prática administrativa es- pontânea, na qual a utilização dos recursos, embora realizada de manei- ra racional, é feita mais de modo a atender às necessidades imediatas que vão surgindo no processo prático, sem que se tenha uma visão clara e consciente de como isso se dá, quanto uma administração reflexiva, na qual, além da consciência prática, representada pela utilização racional dos recursos, sujeito (individual ou coletivo) se acha consciente da ra- cionalidade do processo e da participação nele de sua consciência. Em termos históricos, essa da administra- ção não aparece imediatamente acabada na vida dos homens, surgindo somente como decorrência de um longo desenvolvimento histórico da práxis humana. Embora, desde início, homens se relacionassem en- tre si e com a empregando racionalmente recursos disponi- veis fazendo intervir, portanto, em maior ou menor grau, sua cons- ciência ao longo de todo processo prático não entretan- to, uma consciência clara desse fato. Existia, na verdade, uma visão ain- da muito fragmentária, ou apenas uma consciência da práxis em estado ainda demasiadamente incipiente para permitir-lhes a realização de uma administração reflexiva. Esta, entretanto, não pode dar-se de um mo- mento para no decorrer de milhares de anos de desenvolvimen- to histórico que, em decorrência da própria atividade humana, vão-se produzindo as condições culturais, econômicas, políticas e sociais que possibilitam ao homem captar conscientemente a maneira racional com 11. "Podemos dizer (...) que a consciência da práxis vem a ser a prática" (Sánchez Váz- quez, 1977:284). 29que ele vem empregando os elementos materiais e conceptuais e esfor- ço humano coletivo na realização de objetivos. Com o desenvolvimento continuado dessa consciência da práxis, e com sua associação, no pro- cesso prático, aos conhecimentos, técnicas e procedimentos administra- tivos que se vão acumulando historicamente, o homem vai conseguindo cada vez mais passar do nível de uma administração espontânea para o de uma administração reflexiva, abrindo possibilidade para surgimen- to, no final do século passado e início deste, de uma "teoria geral de ad- ministração". A criação de uma disciplina encarregada de estudar os problemas administrativos já denota por si que, em seu desenvolvimento histórico, o homem atingiu um estágio em que ele não apenas utiliza racionalmente seus recursos para atingir fins, mas possui também consciência desse fa- to. Por isso pode refletir sobre ele e sistematizar os conhecimentos, técni- cas e procedimentos já alcançados e buscar intencionalmente fazê-los avançar de modo mais acelerado. É preciso, entretanto, distinguir essa conquista de um estágio reflexivo na administração de sua generalização na fato de a administração ter-se erigido em disciplina rica não implica, obviamente, que toda atividade administrativa passa a ser reflexiva desde então Significa, porém, que já foram colocadas as condições de possibilidade para que a atividade administrativa seja reali- zada reflexivamente. Essa realização envolve um aspecto objetivo um aspecto subjetivo. O primeiro diz respeito, por um lado, própria neces- sidade de que determinada atividade ou conjunto de atividades sejam realizadas reflexivamente por outro, às disponibilidades em termos de esforço humano coletivo e recursos materiais conceptuais que tornam possível a satisfação dessa necessidade. Refere-se, portanto, a todas as condições objetivas (culturais, econômicas, sociais, etc.) que precisam ser levadas em conta na concepção e realização da atividade. Por sua vez, o aspecto subjetivo se faz presente na medida em que essa necessidade da atividade administrativa reflexiva, bem como as possibi- lidades e limitações que a realidade prática oferece, se apresentam de modo consciente ao sujeito, qual passa a realizar de maneira intencio- nal a atividade administrativa correspondente. A atividade administrativa, enquanto utilização racional de recur- SOS para atingir fins, é, como já vimos, condição necessária da vida hu- mana. Sempre existiu, portanto, permeando as mais diversas formas de organização social. Este fato, por si só, já empresta à administração um caráter progressista, na medida em que foi agindo administrativamente (no sentido visto até aqui) que o homem foi conseguindo superar seu pri- 30mitivo estado de necessidade natural, produzir sua existência material de forma cada vez mais eficaz, bem como produzir-se a si próprio como realidade diferenciada da natureza. Reconhecer, entretanto, que o ho- mem sempre precisou sempre precisará utilizar racionalmente os recursos com vistas à concretização de fins, não implica dizer que a ativi- dade administrativa imutável em todos os tipos de sociedade ao longo da história. O que venho procurando fazer é abordar a administração em seus elementos mais simples abstratos, os quais têm validade para toda forma de organização social. Entretanto, como não podia deixar de ser, atividade administrativa participa também das contradições e for- ças (sociais, econômicas, políticas, culturais etc.) em conflito em cada período histórico e em cada formação social determinada. Por isso, sua realização concreta determina, ao mesmo tempo em que é determinada por essas forças. Essa relação de mútua determinação com as contradições vigentes na sociedade revela mais uma vez o caráter progressista da atividade ad- ministrativa, na medida em que são essas contradições que acabam de- terminando a superação do modo de produção até então dominante e sua passagem para outro historicamente mais avançado. É necessário, entretanto, ainda que de sucinta, explicitar um pouco as condi- ções em que se dá essa passagem. De acordo com a contribuição legada por Marx, os homens, ao pro- duzirem sua existência social, estabelecem relações determinadas, cessárias, independentes da sua vontade, relações de produção que cor- respondem a um determinado grau de desenvolvimento das forças pro- dutivas (Marx, 1977a: 24). São essas relações de produção que determinam, em última instância, maneira como homens se or- ganizam em sociedade. conjunto destas relações de produção consti- tui a estrutura econômica da sociedade, base concreta sobre a qual se eleva uma superesti jurídica e politica e à qual correspondem deter- minadas formas de consciência social" (Marx, 1977a: 24). O que chama- mos, pois, de modo de produção não é senão a maneira pela qual a socie- dade se organiza com base nas relações de produção, ou seja, nas rela- ções que os homens, na produção de sua existência material, estabele- cem com a natureza (mediados pelas forças produtivas) e entre si, deter- minadas pela propriedade dos meios de produção. Essas relações, entretanto, não se mantêm perenemente. Pelo con- trário, "em certo estágio de desenvolvimento, as forças produtivas materiais da entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que é a 31pressão relações de propriedade no seio das quais se tinham relações movido trans- até então. De formas com de as desenvolvimento das forças produtivas, estas transforma- ção da base econômica altera, Surge mais ou menos rapidamente, toda a imensa formam-se no seu entráve. então uma época de revolução social. A superestru- tura" (Marx, 1977a: 24-5). Na medida em que a atividade administrativa participa das contra- e na dições ao nível das relações de produção e das forças produtivas, mo- medida em que estas, evoluindo, reclamam sucessivamente novos no- dos de produção, essa evolução e essa passagem trazem em seu bojo mo- vas maneiras de administrar que são negadas (e superadas) num mento subseqüente. Esse texto de Marx não pode, entretanto, animar interpretações economicistas e deterministas, que procuram fazer crer, por um a que a estrutura econômica determina mecânica e transformação social e, por outro, que essa transformação se in- toriza interpretações desse tipo, bastaria, tencional. Não fosse o testemunho de toda mente, não dependendo, portanto, de cia desse modo de ver, atentar par a protey do trecho citado onde se lê: material que se pode comprovar de "Ao considerar tais alterações necessário sempre entre alteração cia em resumo, as formas ideológicas pelas homens ções econômicas de produção, formas politicas, meus) deste levando (Marx, 1977a: grifos Na mesma linha de ao se identificar esse progres- sista da atividade administrativa não se pode pretender que esta se cons- titua, por numa força revolucionária autônoma. Esse seu caráter con- e em certo sentido progressista, estou procurando carac- superação homens. ras terizar, nea, forças interessadas necessária, produtivas e Por que da isso estrutura a coloca ou em é e das manter social como relações tal vigente, co-participante tanto de produção, Marx, com quanto um independente que projeto com da se dá evolução as de forças revolucionário, maneira da histórica conservado- vontade dos das em de tem que o poder está confinado nas estrutura. mãos Nas sociedades administração de classes, nante servido historicamente como instrumento de uma minoria, a da classe domi- domínio. para manter ostatus quo perpetuar ou nas mãos ao máximo seu transformação O que não significa que ela não prolongar vir concorrer para a social em favor dos interesses possa das classes a subalternas, 32nistrativa esses desde interesses. que suas aproveitadas articulação darei que se este realiza a im- nossa sociedade tema, capitalista. procurando investigar como No se DIREITO e Todos os arquivo ou 33LEIDO DO DIREITO AUTORAL Todos OS direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610/1998. Este arquivo não pode ser reproduzido ou transmitido sejam quais forem OS meios empregados: eletrônicos, mecânicos, fotográficos ou quaisquer outros.CAPÍTULO II A ADMINISTRAÇÃO CAPITALISTA No capítulo anterior, examinamos o conceito de administração em seus elementos mais simples, independentemente dos condicionantes específicos desta ou daquela estrutura social determinada. No presente capitulo, estudaremos a administração como ela se dá na sociedade ca- Para tal, é necessário examinar inicialmente, a forma como se organiza essa sociedade. Assim, embora de maneira sucinta dado o propósito e limites do presente trabalho procurarei identificar, a seguir, principais determinantes sociais e econômicos que configu- ram a administ Todos tipicamente 1. PROCESSO DE PRODUC AO PROCESSO DE EXPLORAÇÃO gados ISTA ou Comecemos por examinar as relações de produção vigentes no modo de produção capitalista, as quais acabam por determinar, embo- ra em última instância, a forma como essa sociedade se organiza. Essas relações se constituem em relações de exploração de uma parte da po- pulação sobre outra, sob a forma da apropriação do produto do traba- lho alheio. Essa exploração só é possível porque o trabalho, nessa so- ciedade, produz um excedente. Sem a produção de excedente por uns, não é possível sua apropriação por outros. Essa impossibilidade exis- tia, por exemplo, nas sociedades mais primitivas, onde o homem, devi- do ao caráter rudimentar dos recursos de que dispunha e de sua precá- 35ria utilização, conseguia produzir, com seu trabalho, apenas sufi- ciente para sua subsistência. Sob tais condições, era impraticável sub- metê-lo à exploração do trabalho, sob pena de vir ele a sucumbir por lhe ser tirado mínimo necessário à manutenção de sua vida de traba- lhador. Entretanto, com constante desenvolvimento de novos instru- mentos de trabalho e a utilização racional dos recursos disponíveis, foi sendo possível produzir cada vez mais de acordo com suas necessida- des, de tal forma que, desde épocas muito remotas, o homem conse- guiu atingir um estágio na produção de sua existência material que lhe permite produzir para além de seu consumo imediato, ou seja, ele pro- duz um excedente. A produção de excedente não é, pois, exclusiva do capitalismo, embora tenha atingido, nessa sociedade, dimensões se- quer imagináveis anteriormente. É importante notar, de passagem, que essa constatação, aparente- mente muito simples, de que o homem, há muito tempo, e em especial na sociedade capitalista, é capaz de produzir para além de suas necessidades imediatas, é de particular importância para a explicitação das verdadei- ras relações de produção que têm lugar em nossa sociedade. E não deve ser por acaso que ela seja insistentemente omitida toda vez que preten- de camuflar a exploração capitalista do trabalho. Voltaremos a esse pon- to mais adiante. Se a capacidade de produzir excedente não exclusiva da socieda- de capitalista, a exploração do trabalho, que apropriação desse ex- cedente, também antecede surgimento desse modo de produção. Po- demos dizer, com que que específico capitalismo portanto, não fato da exploração de uma parte da população pela outra" já que em sociedades não capitalistas, como, por exemplo, escravista e a feudal, isso também ocorre mas a forma que essa exploração assume, ou seja a produção da mais-valia" (Sweezy, 1983: 61, grifo no original) A produção da mais-valia, por sua vez, se dá no processo de produ- ção de mercadorias. Esse processo, entretanto, não se apresenta à obser- vação imediata em suas reais dimensões. Ao contrário, "a forma de produção das mercadorias constitui véu mais eficiente do verdadeiro caráter de classe da sociedade capitalista. Em primeiro lugar, todo mundo aparece co- mo apenas um dono de mercadorias com alguma coisa a vender tanto os proprietá- rios de terra e capitalistas como os trabalhadores. Como proprietários de mercado- rias, estão todos em pé de igualdade; suas relações não são as que se observam entre se- nhores e servos num regime de domínio pessoal, mas as relações contratuais de seres humanos livres e iguais. Não parece ao trabalhador que a falta de acesso aos meios de produção o força a trabalhar de acordo com as condições impostas pelos que mono- 36polizam tais meios, e que por isso está sendo explorado de outros, tal qual servo que era obrigado a trabalhar durante de dias na do se- nhor, em pagamento do privilégio de poder cultivar de term para Pelo contrário, 0 mundo das parece mundo de seres A força de tra- balho do operário é alienada dele contraposta como qualquer è contraposta seu Elc vende, enquanto for pago verdadeiro valor, todas as condições de troca justa igual estão satisfeitas" (Sweezy, 1983: 42). Sc quisermos descobrir, por trás dessa aparência, o verdadeiro cará- ter das relações sociais que se dão ao nivel da produção capitalista, preci- samos começar por examinar a natureza da mercadoria, que é a forma elementar da riqueza das sociedades em que rege esse modo de produção. Como afirma Marx, "qualquer mercadoria se apresenta sob o du- plo aspecto de valor de uso e de valor de troca" (Marx, 1977a:31). O va- lor de uso é a própria utilidade da mercadoria.² Refere-se ele, portanto, a uma relação entre o consumidor e o objeto consumido.³ Nesse sentido, a mercadoria constitui "um objeto externo, uma coisa, a qual satisfaz necessidades humanas de qualquer espécie. A natureza dessas necessidades, se elas se originam do estômago ou da fantasia, não altera nada na coisa Aqui também não se trata de como a coisa satisfaz a necessidade humana, se imediatamente, como meio de subsistência, isto é, objeto de consumo, ou se indiretamente como meio de produção" (Marx, 1983: 45, 1, São, pois, as qualidades úteis da mercadoria que duzido fazem dela um va- lor de uso. Além disso a consideração desse valor de uso não depende de quanto foi gasto de trabalho humano para incor porar na mercadoria tais propriedades (Marx, 1983: 46, V Rt. Diferentemente do valor de que manifestação de uma rela- ção entre homem coisa, ent consumidor e objeto de consumo valor de troca advém da relação entre pessoas, revelando-se na troca entre bens de diferentes utilidades () valor de troca só se revela, portanto, quando, na relação de troca, contrapõem-se mercadorias de valores de uso diversos. Não tem sentido trocarem-se mercadorias que possuam as mesmas propriedades úteis. Se abro mão de determinada quantidade da mercadoria A, portadora de certo valor de uso, em favor de determinada quantidade da mercadoria B, é porque estou interessado no valor de uso 1. "A riqueza das sociedades em que domina 0 modo de produção capitalista aparece como uma 'imensa coleção de mercadorias', e a mercadoria individual como sua forma elementar" (Marx, 1983:45, 1, 1. 1). 2. "A utilidade de uma coisa faz dela um valor de uso" (Marx, 1983:45, V. 1, t. 1). 3. valor de uso é a expressão de uma certa relação entre o consumidor e 0 objeto consumido" (Sweezy, 1983:33). 37desta última, que tem de ser diferente do da primeira, ou seja, que atende a necessidades que a primeira, da qual já disponho, não Além disso, o valor de troca de uma mercadoria qualquer parece possuir um caráter relativo, variando de acordo com as outras mercado- rias com as quais aquela se contrapõe, na troca. Assim é que podemos trocar uma quantidade x da mercadoria A (1 casaco), por y da mercado- ria B (20 quilos de feijão), ou por da mercadoria C (15 caixas de sabão em pó), ou etc. A mercadoria A (casaco) tem, portanto, diversos valores de troca. Mas, cada uma das demais mercadorias nas quantidades defi- nidas y de B (20 quilos de feijão), ou de (15 caixas de sabão em pó), ou etc. é o valor de troca da quantidade x da mercadoria A (1 casaco). São, pois, como valores de troca, todas iguais, do que se deduz que os muitos valores de troca de uma dada mercadoria expressam sempre uma mesma igualdade. Ora, se variam assim esses valores de troca e se expres- sam todos um significado igual, só podemos concluir, com Marx, que o valor de troca não é algo incrente à mercadoria, ao objeto, só aparecen- do, na relação de troca, como expressão, como 'forma de manifesta- ção' de um conteúdo dele (Marx, 1983: 46 1, 1. 1). que será, entretanto, esse conteúdo comum que permite que mercadorias com valores de uso diversos diferentes, portanto, sua materialida- de sejam comparáveis entre si e igualáveis na troca? Marx responde: "o que há de que se revela na de troca valor de da (...) seu valor" (Marx, 1983: 47, () valor de troca é, portanto, apenas maneira necessária de expressão ou forma de manifestação do valor" (Marx, 1983: 47, Cabe perguntar, em seguida: que 0 valor? Do que é constituido? O que o determina? Vimos que sua expressão valor de troca, mas, qual sua substância? Para responder a essas questões preciso buscar nas mercadorias algo de comum que possa dar origem ao valor. Não cer- tamente suas propriedades úteis, materialidade, porque, como já vi- mos, os valores de uso são diversos na troca de mercadorias. Mas, "dei- xando de lado então valor de uso dos corpos das mercadorias, resta a apenas uma propriedade, que a de serem produtos do trabalho" (Marx, 1983: 47, 1, t. 1). A substância do valor é, pois, o trabalho. 4. Convém notar que a exposição, aqui, para ser didática, mantém-se nos limites da troca simples de mercadorias. Como se sabe, entretanto, no cotidiano da sociedade capitalista, trocam-se mercado- rias por dinheiro e vice-versa, e não mercadorias entre si. Ao final, todavia, o raciocínio é mes- mo, já que o dinheiro representa possibilidade de obtenção de mercadorias, sendo esta, aliás, sua utilidade, seu valor de uso, ou seja, servir de meio de troca. Para uma explanação detalhada a res- peito da evolução histórica do dinheiro e sobre seu papel na sociedade capitalista, veja-se Marx, 1983:87-121, V. 1, 1. 38Mas, para a formação do valor, não importa já trabalho em sua forma concreta, particular, criadora de valores de uso, mas trabalho abstrato, indiferenciado, 0 trabalho geral. Sc abstraímos do produto do trabalho valor de uso, também componentes formas corpóreas que fazem dele valor de Deixa já de ser mesa ou casa ou fio ou qualquer outra coisa útil. Todas as suas qualidades sensoriais se apagaram. Também já não é o produto do trabalho do marce- neiro ou do pedreiro ou do fiandeiro ou de qualquer outro trabalho produtivo deter- minado. Ao desaparecer caráter útil dos produtos do trabalho, desaparece o caráter útil dos trabalhos neles representados, e desaparecem também, portanto, as diferen- tes formas concretas desses trabalhos, que deixam de diferenciar-se um do outro para reduzir-se em sua totalidade a igual trabalho humano, a trabalho humano abstrato" (Marx, 1983: 47, V. 1, t. 1). Assim, o trabalho abstrato, o trabalho formador de valor, "é trabalho indiferenciado, socialmente necessário, geral, trabalho inteiramente in- diferente acerca de todo conteúdo particular, pelo que alcança, também, em sua ex- pressão autônoma no dinheiro, na mercadoria como preço uma expressão co- mum a todas as mercadorias, diferençável apenas pela quantidade' (Marx, 1978: 23, grifos no original). Mas, como se mede esse valor que, como se acaba de ver, é a mate- rialização de trabalho humano abstrato? Só pode ser pela magnitude de sua substância, ou seja, pelo tempo de trabalho. Não, entretanto, o tem- po de trabalho gasto individualmente na produção de cada valor de uso, mas tempo de trabalho socialmente necessário para essa produção, ou seja, "aquele requerido para produzir um valor de uso qualquer, nas condições dadas de produção socialmente normais, com grau social médio de habilidade e de intensidade de trabalho" (Marx, 1983: 48, V. 1, 1. 1). Para que se de mercadorias necessária a existên- cia de uma desenvolvida divisão social do trabalho, com produtores pri- vados produzindo uns para outros, ou seja, produzindo para a troca. É claro que essa produção para a troca empresta um caráter eminente- mente social ao trabalho humano que se incorpora nas mercadorias. Es- tas, por sua vez, só existem sob a forma de mercadorias porque são a ma- terialização de trabalho humano abstrato, que constitui a substância de seu valor. A mercadoria é, pois, a objetivação de uma relação social. E suas propriedades, enquanto mercadoria, enquanto portadora de valor 5. "É (...) apenas o quantum de trabalho socialmente necessário ou tempo de trabalho socialmente necessário para produção de um valor de uso o que determina a grandeza de seu valor" (Marx, 1983:48, 1, 1. 1). 39(o qual, como vimos, se manifesta através do valor de troca), advêm des- sa relação social. Não é assim, entretanto, que ela se apresenta. Aos olhos do senso comum ela "se manifesta como uma coisa, dotada de uma autonomia e de um poder próprios (...) como algo enigmático, mis- terioso, dotado de um ser sensível e (Sánchez Vázquez, 1977: 445). Nesta sua forma "mística", as características sociais do tra- balho humano são refletidas como se fossem características suas, ineren- tes ao produto desse trabalho. Assim, "determinada relação social entre os próprios homens (...) assume a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas" (Marx, 1983: 71, V. 1, t. 1). Isso se dá porque os produtores privados não entram em contato pessoal diretamente uns com os outros, mas somente mediante a troca de seus produtos.⁶ Por isso, "os trabalhos privados só atuam, de fato, como membros do trabalho social total por meio das relações que a troca estabelece entre produtos do trabalho e, por meio dos mesmos, entre os produtores. Por isso, aos últimos aparecem as relações sociais entre seus trabalhos privados como que são, isto não como relações diretamente sociais entre pessoas em seus próprios trabalhos, senão como relações reificadas entre as pes- soas e relações sociais entre as coisas" (Marx, 1983: 71, V. 1). Ao encobrir o verdadeiro caráter social do trabalho que dá ori- gem, a forma mercadoria dos produtos do trabalho acaba também por dissimular as relações sociais que têm lugar entre participantes do pro- cesso de produção capitalista, apresentando-as, conforme vimos riormente, como relações justas entre proprietários de mercadorias, im- pedindo que se perceba a exploração do trabalho presente nessas rela- ções. Vejamos agora OS element que compõem esse processo de produ- ção. São eles: meios de produção força de meios de produção, como vimos no capítulo anterior, todos elementos ma- teriais que, direta ou indiretamente, participam do processo de produ- ção. Compõem meios de produção: il matéria-prima e instrumen- tos de produção. A matéria prima a própria matéria sobre a qual se aplica o trabalho no processo de produção e que, nesse processo, se transforma no novo produto. Ao chegar a esse processo, entretanto, ela já tem incorporado trabalho humano. É, pois, o objeto de trabalho "fil- trado por meio de trabalho anterior" (Marx, 1983: 150, V. 1, t. 1). Os ins- trumentos de produção são os elementos, como ferramentas, máquinas etc. utilizados para transformar a matéria-prima num objeto útil. Diver- 6. "Em periodos anteriores da história, quando as relações de produção tinham um caráter pessoal direto, essa transferência das relações sociais para as coisas era evidentemente (Sweezy, 1983:40). 40samente da matéria-prima, que sofre transformação e se incorpora ma- terialmente, no todo ou em parte, no produto final, instrumentos de produção apenas se desgastam no processo, nada de si sendo transferido materialmente para novo tanto matéria-prima quan- to instrumentos de produção já possuem incorporado trabalho huma- no, sendo, pois, portadores de valor, têm ambos esse valor transferido para produto final. Essa transferência se dá na exata medida do valor que cada um possuía ao entrar no processo, já que, como vimos, só o tra- balho cria valor, não podendo esses meios de produção, por si, adicionar ao novo produto mais valor do já possuem. Por esse motivo, os meios de produção são também chamados de capital constante. Força de trabalho ou capacidade de trabalho é toda energia humana gasta no processo de produção, ou seja, "o conjunto das faculdades fisi- cas e espirituais que existem na corporalidade, na personalidade viva de um homem e que ele põe em movimento toda vez que produz valores de uso" (Marx, 1983: 139, V. 1, t. 1). Como veremos mais adiante, diferen- temente dos meios de produção, a forca de trabalho acrescenta ao pro- duto final mais valor do que o que ela mesma possui. Por isso ela é tam- bém chamada de capital variável. No processo de produção capitalista, não apenas os meios de produ- ção mas também a força de trabalho se apresentam como mercadorias. () fato, aliás, de que a força de trabalho seja objeto de troca, pode ser considerado como a especificidade do modo capitalista de produção.⁷ Tal como acontece com qualquer mercadoria, valor da força de trabalho se mede pelo tempo de trabalho socialmente necessário para 'omo ela se produz e se reproduz pelo consumo dos meios necessários a subsistência do trabalhador de sua família alimenta- ção, vestuário, lazer etc. a grandeza de seu valor se mede pelo tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de tais meios. Como, entretanto, num determinado, digamos num dia de trabalho, homem capaz de produzir mais do que é necessário à subsistência sua e de sua nesse período, podemos dividir seu dia de trabalho em duas partes. Na primeira, ele produz o equivalente ao va- lor de sua força de trabalho. O tempo do dia gasto nessa produção cha- ma-se tempo de trabalho necessário e o trabalho despendido durante es- se tempo chama-se trabalho necessário. Na segunda parte do dia de tra- balho, o trabalhador produz um valor adicional. Essa segunda parte é chamada de tempo de trabalho excedente e o trabalho despendido nesse 7. a compra e venda da força de trabalho é a diferença específica do capitalismo" (Sweezy 1983:57, grifos no original). 41tempo denomina-se trabalho excedente ou mais-trabalho (Cf. Marx, 1983: 176, V. 1, t. 1). Para que a compra e venda da força de trabalho se realize, são neces- sárias duas condições básicas. Primeiramente, é preciso haver o traba- lhador livre, ou seja, proprietário de sua própria força de trabalho. Só assim ele pode dispor dela para vender. Essa venda, entretanto, só pode dar-se por tempo determinado, porque "se a vende em bloco, de uma vez por todas, então ele vende a si mesmo, transforma-se de homem livre em um escravo, de possuidor de mercadoria em uma mercadoria" (Marx, 1983: 139, 1, t. 1). Em segundo lugar, o trabalhador precisa es- tar desprovido de quaisquer meios de produção nos quais possa empre- gar sua capacidade de trabalho. Assim, possuidor apenas de sua força de trabalho, a única maneira de empregá-la é através de sua venda aos pro- prietários de tais meios de produção. Na produção simples de mercadorias, o produtor troca mercadorias (M) de um certo valor de uso por ele produzida, por dinheiro (D), o qual ele troca por mercadorias (M) de valor de uso diverso da que ele produ- ziu. A operação pode ser expressa simbolicamente pela fórmula M-D- M, mercadoria-dinheiro-mercadoria Começa e termina com M (merca- doria); mas encontra sua razão de ser na entre os valores de uso da mercadoria que inicia da que encerra a operação. Na produção capi- talista, entretanto, a operação comeca com () dinheiro que capita- lista emprega na compra de mercadorias (M) meios de produção for- ça de trabalho as quais são empregadas no processo de produção, dando como resultado um produto que vendido, transformando-se novamente em dinheiro A operação resume-se pois, em D-M-D, começa termina com D(dinheiro). Mas seu sentido já não pode mais residir na diferença entre valores de do primeiro e do último termos da operação, já que () dinheiro homo- gênco, sendo o primeiro 1) qualitativamente igual ao último. Se a razão de ser não está na qualidade, SO pode estar na quantidade. E exatamen- te o que acontece: ao empregar seu dinheiro, capitalista não tinha por intenção obter, apos processo de produção, a mesma quantidade de di- nheiro. Seu objetivo era obter um valor superior àquele que ele empre- gou. A expressão correta deve ser, pois, D-M-D', sendo D'maior que D. Mas, tendo o capitalista pago justo valor pelos meios de produção e pela força de como pode acontecer de essas mercadorias Ao considerar esse pagamento do justo valor da força de trabalho, estamos apenas utilizando uma hipótese de trabalho, que está longe de corresponder à realidade de muitas sociedades onde domina 0 modo capitalista de produção, caso tipico do Brasil, em que o salário da grande maioria dos tra 42transmutarem-se, com processo de produção, num valor mais elevado do que a soma de seus valores individuais? Ao adquirir mercadorias pa- gando seu valor de troca, 0 capitalista adquire tem a sua disposição os valores de uso dessas Acontece que, dentre há uma, a força de trabalho, que tem um valor de uso peculiar. Enquanto que, com a utilização dos meios de produção, o capitalista consegue apenas ver transferida a mesma magnitude de valor para o novo produto, a utiliza- ção da força de trabalho, a realização de seu valor de uso, ou seja, o tra- balho do trabalhador é criador de valor. E ele cria mais valor do que o contido na força de trabalho paga pelo capitalista. Numa parte de seu dia de trabalho, durante o tempo de trabalho necessário, ele cria um va- lor equivalente ao de sua força de trabalho. Esse montante é pago pelo capitalista sob a forma de salários. Mas sua jornada de trabalho não ter- mina aí. Durante o restante da jornada de trabalho ele vai produzir um valor adicional que fica nas mãos do capitalista e que faz a diferença en- tre D e D'. Esse valor produzido pelo trabalhador durante o tempo de trabalho excedente é a chamada objetivo último do processo de produção Sua apropriação pelo capitalista constitui a for- ma pela qual se dá a exploração do trabalho em nossa sociedade. Embo- ra pagando o justo valor da força de trabalho, capitalista não remune- ra todo o trabalho realizado pelo trabalhador, mas apenas uma parte, aquela necessária para produzir valor de sua força de trabalho. Essa operação só porque o homem consegue produzir não apenas o necessário para subsistir (o valor de sua força de trabalho), mas também um excedente que, no modo de produção capitalista, aparece sob a for- ma de mais-valia, que apropriada pelo proprietário dos meios de pro- Dai porque, ao falar da capacidade que têm os homens, há mui- to, de produzir para além de suas necessidades imediatas, eu chamava a atenção para a importância da consideração desse fato para a compreen- são das reais relações de produção vigentes no sistema capitalista. Ao tentar escamotear a situação de exploração a que estão submetidos os trabalhadores, afirmando que, sob tal sistema, o seu trabalho é pago in- teiramente, o e seus ideólogos tratam o trabalho do homem de hoje como se tivesse a mesma produtividade do trabalho do homem da caverna ou de épocas ainda mais remotas. balhadores fica abaixo desse valor. Essa hipótese reflete, entretanto, a posição da classe burguesa, que toma esse pagamento como uma realidade ou pelo menos um ideal de justiça a ser atingido no capitalismo. Ao utilizá-la para demonstrar que, mesmo pagando o real valor da força de tra- balho, está havendo a exploração do trabalhador, estaremos demonstrando, a fortiori, a explora- ção nos casos em que sequer esse valor é pago. 43Ao comprar meios de produção e força de trabalho, capitalista tem por finalidade a valorização de seu capital. Seu objetivo último é a produção de mais-valia.⁹ Só assim ele consegue ter seu capital ampliado. Mas essa expansão do capital só se dá, como acabamos de ver, pela ex- ploração do trabalhador. capitalista pode, na verdade, remunerar o trabalhador um pouco acima do valor de sua força de trabalho, dimi- nuindo com isso a parte não paga do tempo de trabalho excedente. A ex- ploração, entretanto, continua a se dar, embora em menor proporção. Ela só deixaria de existir no momento em que todo tempo de trabalho (necessário e excedente) fosse pago ao trabalhador. Mas aí todo o pro- cesso perderia o sentido para o capitalista, que não mais veria seu capital expandir-se. O processo de produção capitalista só se sustenta, pois, a partir da exploração do trabalho alheio. Da mesma forma, para que o capitalismo se perpetue, é necessário que as relações sociais que se dão no nível da produção sejam relações de exploração dos proprietários dos meios de produção sobre os que dispõem apenas da própria força de tra- balho. A exploração do trabalho no processo de produção capitalista, que acabamos de considerar resumidamente, dá, pois, de forma necessá- ria, independentemente da vontade ou da consciência que dela tenham os agentes envolvidos no processo. A real compreensão da maneira pela qual se dá essa exploração deve, portanto, afastar listas" ou meramente apaixonadas a respeito do This interpre- tações bastante difundidas no senso comum mesmo em meios universitários fundamentam exploração numa pretensa ou desonestidade por parte do capitalista, tirar partido da boa vontade ou ingenuidade do trabalhador. Bastará, portanto, que capitalista use de boa vontade e compreensão, pagando melhores salários trabalha- dor e dando-lhe melhores condições de trabalho, para que a exploração deixe de ocorrer. A exploração do trabalho como acabamos de ver, en- tretanto, não se coaduna com esse tipo de interpretação, já que não de- pende da ação e vontade dos homens individualmente considerados, mas das condições históricas e sociais em que se dão (e da qual fazem par- te) tais ações, ou seja, das condições gerais do modo capitalista de pro- dução. Dentro dessas condições, 0 processo se dá de tal forma que não resta outra alternativa ao capitalista senão explorar, e ao trabalhador su- jeitar-se à exploração, embora ambos estejam, no nível privado, apenas 9. "No processo capitalista de produção 0 processo de trabalho só se manifesta como meio; o processo de valorização ou a produção de mais-valia, como fim" (Marx, 1978:32, grifos no original). 44procurando "fazer melhor negócio", num mundo onde domina a tro- ca de 2. ADMINISTRAÇÃO, DIVISÃO DO TRABALHO E GERÊNCIA No processo de produção capitalista, comando está nas dos proprietários dos meios de produção. Esse comando se reflete na superestrutura politica, jurídica e ideológica, que se organiza com vis- tas ao domínio da classe capitalista, detentora do poder econômico, sobre o restante da população. A administração, ou a utilização racio- nal de recursos para a realização de fins, adquire, na sociedade capita- lista, como não podia deixar de ser, características próprias, advindas dessa situação de domínio. Permeando a estrutura e a superestrutura, tanto a do trabalho" quanto a coordenação do esfor- ço humano coletivo adquirem, ao lado das propriedades gerais vistas no capítulo anterior, características específicas do modo de produção capitalista. Tais características dizem respeito, no que concerne à "ra- cionalização do trabalho", ao problema da divisão pormenorizada do trabalho e da forma que assume visando à geração de maiores lu- ao capitalista; no que diz respeito à coordenação do esforço hu- do trabalho pelo capital. mano coletivo, têm a ver com o problema da gerência meios ou do controle A divisão pormenorizada ou técnica do se dá no is 2.1 Divisão pormenorizada do trabalho interior do processo de produção, diferentemente da divisão social, divisão do trabalho pelos diferentes ramos de atividade na so- ciedade. Enquanto esta última é a todas as sociedades conheci- das, a primeira peculiar da sociedade capitalista: 10. "() operário não se propõe nem deseja produzir um valor que exceda valor de sua força de trabalho; 0 capitalista, a turno, pode acreditar que ao pagar determinado salário está pagando, a seu preço verdadeiro, não a força de trabalho do operário mas sim seu trabalho mesmo. Um e outro, porém, agem segundo a lei econômica fundamental da produção de mais-valia que atua objetivamente, atra- vés de seus próprios atos, mas independente de suas intenções, de sua consciência e de sua vontade" (Sánchez Vázques, 1977:355). 11. Prefiro a expressão "divisão pormenorizada do trabalho", em lugar de "divisão técnica do traba- lho", em virtude da impressão errônea que esta última pode favorecer a respeito das reais causas da divisão do trabalho no interior do processo de produção capitalista que, como se verá, não são me- ramente "técnicas", mas sobretudo econômicas e sociais. 45"A divisão do trabalho na indústria capitalista não de modo algum idêntica ao fe- nômeno da distribuição de tarefas, ou especialidades da produção através da sociedade, porquanto, embora todas as sociedades conhecidas tenham dividido seu trabalho em especialidades produtivas, nenhuma sociedade antes do capitalismo sub- dividiu sistematicamente trabalho de cada especialidade produtiva em operações li- mitadas" (Braverman, 1980: 70). Em seus inícios, o capitalismo não muda o processo de trabalho. O produtor direto, agora empregado pelo capital, continua a realizar seu ofício da mesma maneira que antes, quando lhe pertenciam as condições objetivas de trabalho. Os instrumentos de trabalho continuam os mes- mos, cumprindo a mesma função de mediador entre o homem e o objeto de trabalho. É o trabalhador que maneja sua ferramenta, transforman- do com ela a matéria-prima em objeto útil determinado. A diferença é que agora o produto de seu trabalho já não mais lhe pertence, mas sim ao capitalista, que detém a propriedade dos meios de produção. O trabalho subordina-se, pois, ao capital. Marx chama a isso de subsunção formal do trabalho ao capital. Por um lado, "a faculdade que trabalho tem de conservar valor apresenta como faculdade de autoconservação do capital; a faculdade de gerar valor, como de autovalorização do capital, conjunto por definição, trabalho objetivado rece como utilizando 0 trabalho vivo" (Marx, 1978: grifos no Por outro lado, meios ou "em que pese tudo isso, com tal troca (change) não se mudança sencial no modo real do proces de trabalho, do processo real de Pelo contrário, faz parte da natureza da de que do processo de trabalho capital opere base de um processo trabalho anterior essa subsunção no capital, que configurou A base de diferentes processos de pro- dução anteriores de outras condições de produção; capital se subsume determi- nado processo de trabalho existente, como por exemplo, trabalho tesanal ti- po de agricultura correspondente pequena economia camponesa autônoma" (Marx, 1978: 52, grifos no Ao comprar meios de produção ráficos e força de trabalho, o capitalista tem por objetivo a expansão do capital. Esta, como vimos, se dá pela apropriação, por ele, da mais-valia, cuja magnitude está na dependência direta da magnitude do trabalho excedente. Se não se modifica o proces- so de trabalho, permanecendo, portanto, constante sua produtividade, a mais-valia só se produz por trabalho intensificar-se ou por ele se pro- longar para além do tempo necessário. Essa mais-valia produzida pelo prolongamento da jornada de trabalho e/ou pelo aumento de sua inten- sidade e não pelo aumento da produtividade do trabalho é chama- 46da de mais-valia absoluta, que se constitui, assim, na "expressão mate- rial da subsunção formal do trabalho no capital" (Marx, 1978: 56). Em tais condições, da exploração da força de trabalho, e o do grau de expansão do capital, só pode dar-se pelo prolongamento da jornada de trabalho ou pelo aumento da intensi- dade do trabalho. Isso, entretanto, encontra barreiras naturais e sociais. As primeiras referem-se, quer aos limites da capacidade física do traba- lhador, quer ao próprio fato de que o dia comporta número limitado de horas. As barreiras sociais dizem respeito à resistência dos trabalhadores à exploração ilimitada de sua capacidade de trabalho. Os primeiros tempos do capitalismo se caracterizam e têm por base essa produção da mais-valia absoluta, em que se conjugam de maneira extrema o prolongamento da permanência do trabalhador a serviço do capital e o aumento da intensidade de seu trabalho. Com o desenvolvi- mento, porém, da produção capitalista, e com a luta incansável dos tra- balhadores por melhores condições de trabalho e pela redução da jorna- da de trabalho, o capitalista passa a dispor de meios mais efetivos para a expansão contínua do capital, através do aumento da produtividade do trabalho. Essa elevação da produtividade implica o aumento relativo do tem- po de trabalho excedente mas pela redução do tempo de trabalho neces- sário, Essa mudança na relação quantitativa entre trabalho necessário e trabalho excedente, sem que se promova o prolongamento da jornada de trabalho, nem a intensidade deste, só pode ser alcançada pela mudan- ça do processo de trabalho. A mais-valia decorrente dessa redução do tempo de trabalho necessário chamada de mais-valia relativa. Sendo fim último do capitalista a expansão constante de seu capi- tal, a produção de valores de uso apresenta se apenas como meio de con- seguir esse fim. Para que este se concretize entretanto, duas condições devem ser satisfeitas. Primeiramente, as mercadorias produzidas devem materializar valor superior ao que foi adiantado na compra de meios de produção e força de trabalho Como os meios de produção (capital cons- tante) não podem transferir mais que seu exato valor ao novo produto, resta a alternativa da exploração crescente da força de trabalho (capital variável). Na impossibilidade de se estender a jornada de trabalho, ou aumentar a intensidade deste, essa exploração só se dá pela elevação da produtividade do trabalho e conseqüente redução do tempo de trabalho necessário, produzindo maior quantidade de valores de uso com a mes- ma quantidade de trabalho. A segunda condição para que se realize a ex- pansão do capital é a de que as mercadorias produzidas sejam vendidas. 47Por isso, num mercado concorrencial, têm de apresentar vantagens em termos de preço e/ou qualidade em relação às mercadorias dos concor- rentes. Esses requisitos são conseguidos também a partir do aumento da produtividade do processo de trabalho. É nesse processo de elevação da produtividade que se insere a divi- são pormenorizada do trabalho. É preciso observar, de início, que, em- bora tal divisão do trabalho venha a se revelar desastrosa para o produ- tor direto, como veremos mais adiante, não se deve crer que ela tenha si- do o produto de uma intenção maligna por parte do capitalista, a procu- rar prejudicar deliberadamente o trabalhador. O objetivo último do proprietário dos meios de produção continua sendo a expansão ao máxi- mo de seu capital, não a infelicidade do trabalhador pelo contrário, se essas duas coisas fossem compatíveis, não haveria por que duvidar que isso seria até desejável de sua parte. Na verdade, o que ele pretende, aci- ma de tudo, é que seu negócio renda o máximo possível, o que implica o aproveitamento máximo dos recursos no qual empregou seu dinheiro. Com relação ao capital constante, ele sabe que matéria-prima e instru- mentos de produção requerem cuidados especiais: a primeira, para se evitarem desperdícios e para que seja garantida sua adequada incorpora- ção ao produto final; segundos, para que sua eficiente utilização transforme a matéria-prima na maior quantidade possível de valores de uso, com o mínimo de desgaste. Com relação ao capital variável, interes- sa-lhe também seu máximo aproveitamento porque, quanto mais ade- quada e intensa for sua utilização, maior a quantidade de valores de uso produzidos com a mesma quantidade de tempo empregado. Enquanto, porém, o aproveitamento máximo dos meios de produção só favorece ao seu proprietário, mesmo não ocorre com a utilização máxima da força de trabalho com relação a seu possuidor, trabalhador. Para este, o emprego da força de trabalho implica consumo de suas próprias energias vitais, não sendo portanto indiferentes a maneira e a intensi- dade com que é Mas, para capitalista, consumo da for- ça de trabalho é condição imprescindível para que emprego dos meios de produção resulte em mercadorias. Além disso, se seu fim último não é a infelicidade do trabalhador, tampouco é a felicidade deste, mas sim o lucro, estando indiferente se a consecução desse objetivo se dê através de uma divisão do trabalho que promova a desumanização do trabalhador. De seu ponto de vista, parece, ademais, muito natural que, para o em- prego mais rendoso possível dos meios de produção, ele utilize ao máxi- mo a força de trabalho que comprou. Afinal, foi exatamente com esse intuito que empregou parte de seu capital, sendo-lhe conferido esse di- 48reito pelas leis que regem a troca de mercadorias na sociedade capitalista. A dilapidação, assim, da força de trabalho, através da divisão pormeno- rizada do trabalho, aparece apenas como da tentativa do capitalista de atingir desejado. Para a elevação da produtividade há que se mudar o processo de produção, alterando instrumental de trabalho, ou o método de traba- ou ambos (Cf. Marx, 1983: 250-1, V. 1, t. 1). Na verdade, essas duas ordens de alterações não são independentes; a curto ou a longo prazo, mudanças no método de trabalho costumam provocar mudanças no instrumental de trabalho e vice-versa. A divisão pormeno- rizada do trabalho tem a ver, em princípio, com a mudança no de trabalho, mas afetada, como também afeta, as alterações no instru- mental de trabalho. Ela se inicia e tem seu grande desenvolvimento no manufatureiro, que perdura aproximadamente da metade do século XVI até fins do século XVIII. Em que pese o fato de ser este um estágio do capitalismo em que, comparadas com o grande desenvolvi- mento da organização do trabalho, são poucas as mudanças verificadas nos instrumentos de trabalho, a evolução da divisão pormenorizada do trabalho vai favorecendo, ao mesmo tempo em que é favorecida pelas al- terações que se vão processando nesses instrumentos. A divisão manufatureira do trabalho, segundo Marx, constitui uma espécie particular de cooperação E a cooperação, como forma de tra- balho em que muitos trabalham planejadamente lado a lado e conjunta- mente, no mesmo processo de produção ou em processos de produção diferentes, mas conexos" (Marx, 1983: 259, V. 1), "permanece a for- ma básica do modo de produção capitalista" (Marx, 1983: 266, V. 1, 1). Nesse modo de produção, a cooperação se faz presente desde o início, constituindo-se na "primeira modificação que o processo de trabalho real experimenta pela sua subordinação ao capital" (Marx, 1983: 265, V. Ela aparece a partir da reunião de grandes contingentes de traba- lhadores sob comando do mesmo capital. "A atividade de empre um número maior de trabalhadores, ao mesmo tempo, no mesmo lu- gar (ou, se se quiser, no mesmo campo de trabalho), para produzir a mesma espécie de mercadoria, sob o comando do mesmo capitalista, constitui histórica e conceitual- mente o ponto de partida da produção capitalista" (Marx, 1983: 257, 1, 1. 1). De início, a cooperação em sua forma mais simples, em que "os muitos que se completam mutuamente fazem o mesmo ou algo da mes- ma espécie" (Marx, 1983: 260-1, V. 1, t. 1), prescinde da divisão do tra- balho em pormenor, permanecendo o processo de trabalho, como já 49