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LESÃO CELULAR, DOENÇAS DE ACÚMULO INTRACELULAR E ADAPTAÇÕES PATOLÓGICAS UNIDADE II LESÃO CELULAR Elaboração Jufner Celestino Vaz Toni Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração SUMÁRIO UNIDADE II LESÃO CELULAR.........................................................................................................................5 CAPÍTULO 1 CAUSAS E MECANISMOS DE LESÃO CELULAR ..................................................................... 9 CAPÍTULO 2 DANOS E DISFUNÇÕES MITOCONDRIAIS .......................................................................... 23 CAPÍTULO 3 MORTE CELULAR: APOPTOSE, NECROSE E AUTOFAGIA ...................................................... 30 REFERÊNCIAS ........................................................................................................................49 5 UNIDADE IILESÃO CELULAR As unidades básicas da vida são as células, cuja matriz celular, ou seja, o ambiente em que elas se encontram no organismo, é extremante dinâmico, com milhares de agentes que podem vir a interagir com elas. Dessa maneira, elas não podem permanecer inertes, necessitando constantemente responder aos estímulos externos para sua sobrevivência, logo as células estão, frequentemente, ajustando e adaptando sua estrutura e função diante desses estímulos, visando a manutenção fisiológica de seu estado basal. Essa capacidade de controle e regulação, até certos parâmetros de normalidade intracelular, é chamada de homeostasia, que é o processo em que a célula mantém sua função individual e sua capacidade de interação com as outras células e com a matriz celular. Quando a célula sofre agressões externas, ela pode promover reações que vão ativar vias de sobrevivência ou, em casos mais extremos, vias de morte celular. Sua capacidade de recuperação, adaptação ou morte devido às agressões sofridas é multifatorial, dependendo de vários fatores relevantes, como a nocividade do estresse sofrido, o tempo da agressão, o suprimento nutritivo que a célula tem à sua disposição, assim como de seu metabolismo. Figura 20. Lesão celular e adaptação. AGENTE AGRESSOR Ação direta Lesão Mediadores Fagócitos Enzimas O + OH Sistema imune Citocinas Cicatrização e regeneração Adaptação Lesões sistêmicas Respostas sistêmicas SNC Fonte: adaptada de Rubin; Farber, 2002. 6 UNIDADE II | LESÃO CELULAR 1.1. Lesão celular A lesão celular ocorre quando o estímulo agressivo, também chamado de estresse, ocorre de maneira excessiva por um tempo tão prolongado que a célula não consegue mais se adaptar de forma eficiente, ou quando são expostas a agentes lesivos. Outros fatores, como a falta de acesso a nutrientes essenciais ou a ocorrência de mutações em regiões essenciais da célula, também podem contribuir para a possível ocorrência da lesão celular. Há diversos fatores que podem acarretar lesão celular, dentre eles: alteração genética, deficiência no metabolismo, agressões físicas (como as que podem ser ocasionadas devido a um acidente ou em decorrência de uma infecção). De modo geral, ela pode progredir de maneira reversível ou irreversível. Quando reversível, a célula ainda apresenta capacidade de retornar ao estado basal, anterior às agressões sofridas durante o processo. Nesse estágio, pode-se destacar ainda que nenhum dano severo ocorre à membrana celular ou ao material genético. Por outro lado, quando irreversível, a lesão celular pode provocar morte celular. Nesse ponto, é importante destacar que existem dois tipos de morte celular, com diferenças em seus mecanismos, em sua morfologia e em possíveis consequências ao organismo, denominados de necrose e apoptose. Como discutido ao longo desta apostila, a lesão celular ocorre quando: » as células são estressadas tão excessivamente que não são mais capazes de se adaptar; ou » as células são expostas a agentes lesivos ou são prejudicadas por anomalias intrínsecas. Os diferentes estímulos lesivos afetam muitas vias metabólicas e organelas celulares. Dessa forma, a lesão pode progredir de um estágio reversível e culminar em morte celular. 1.1.1. Lesão celular reversível Nos estágios iniciais, bem como no modo simples de lesão, a modificação morfológica e a modificação funcional são reversíveis, se o estímulo nocivo for retirado. Nessa etapa, apesar de existir problemas na estrutura, a lesão ainda não evoluiu para um dano mais agravante. 7 LESÃO CELULAR | UNIDADE II 1.1.2. Morte celular Com a insistência do dano, a lesão fica irreversível e, com o passar do tempo, as células não podem se recuperar e acabam morrendo. Como sabemos, existem dois tipos essenciais de morte celular: necrose e apoptose. Quando o dano às membranas é grande, as enzimas extravasam dos lisossomos; entram no citoplasma e digerem a célula. Todos esses danos resultam em necrose. Os conteúdos celulares também extravasam por meio da membrana plasmática lesada, iniciando uma reação inflamatória no indivíduo. A necrose é a principal via de morte celular em muitas lesões, incluindo as que resultam de isquemia, exposição a toxinas, várias infecções e trauma. Quando a célula é privada de fatores de crescimento ou quando o DNA celular, bem como as proteínas são danificadas sem reparo, ou quando o reparo é insuficiente, a célula se suicida. Aqui nós temos uma morte celular programada, a apoptose, que é caracterizada pela dissolução nuclear sem perda da integridade da membrana. Ao mesmo tempo que a necrose contém uma etapa patológica, a apoptose contribui com inúmeras sugestões apropriadas e não se relaciona à lesão celular patológica. Ainda assim, a apoptose, em algumas atividades fisiológicas, não desenvolve uma resposta inflamatória. Figura 21. Estágios da resposta celular ao estresse e aos estímulos nocivos. LESÃO REVERSÍVEL CÉLULA NORMAL (homeostasia) ADAPTAÇÃO LESÃO CELULAR LESÃO IRREVERSÍVEL NECROSE APOPTOSE Estresse Estímulos nocivos Incapacidade de se adaptar Intensa e progressiva Leve e transitória Morte celular Fonte: Kumar et al., 2013. 8 UNIDADE II | LESÃO CELULAR 1.2. Morfologia da lesão celular e tecidual As duas principais características morfológicas da lesão celular reversível são denominadas tumefação celular e degeneração gordurosa. A primeira é considerada a primeira ocorrência da maioria das lesões celulares, resultando na perda da capacidade da célula de manter a homeostasia iônica, devido à falta de funcionamento das bombas de íons. Já a degeneração gordurosa pode ocorrer devido ao excesso de ingestão de gorduras, ou deficiências nas vias de metabolização, principalmente nas células hepáticas, em que é muito comum a ocorrência de lesões por hipóxia nessas células. Ela é caracterizada pelo aparecimento de vacúolos lipídicos no citoplasma, podendo apresentar coloração eosinofílica, que se torna muito mais pronunciada com a evolução para a necrose. Um exemplo interessante descrito por Kumar (2013), é a relação entre células miocárdicas normais, adaptadas, lesadas de modo reversível e mortas, que podemos observar na figura a seguir. Figura 22. Relações entre células miocárdicas normais, adaptadas, lesadas de modo reversível e mortas. Miócito normal Lesão celular Miócito lesado reversivelmente Adaptação: resposta ao aumento da carga Miócito adaptado (hipertrofia) Morte celular Fonte: Kumar et al., 2013. 9 CAPÍTULO 1 CAUSAS E MECANISMOS DE LESÃO CELULAR 1.1. Causas da lesão celular As causas da lesão celular variam de um simples trauma físico até um defeito irreversível em um único gene, resultando em uma enzima parcial, o que gera uma doença metabólica específica. 1.2. Estímulos de lesão e morte celular Há uma grande variedade de potenciais promotores de estímulos agressores que podem prover danos às células e, como consequência, a morte celular. Destacam-se os estímulos químicos, agentes infecciosos, agentes físicos,em média, dois dias, o núcleo da célula morta desaparece totalmente. 3.10.3. Destino das células necróticas As células necróticas persistem por algum tempo nos organismos, ou são rapidamente digeridas por enzimas. As células mortas são, dessa forma, substituídas por figuras de mielina que são fagocitadas por outras células ou, eventualmente, degradadas em ácidos graxos. Esses ácidos graxos ligam-se aos sais de cálcio, resultando em células mortas calcificadas. 3.10.4. Padrões de necrose tecidual A necrose de um complexo de células em um tecido ou órgão ocasiona em morte de todo o tecido e, na maioria das vezes, do órgão inteiro. Um exemplo clássico aqui é isquemia miocárdica. Existem inúmeros padrões morfológicos diferentes de necrose tecidual e a maioria nos fornece pistas sobre a causa básica de morte. O extravasamento de proteínas intracelulares por meio da membrana celular para a circulação fornece vários meios de detectar a necrose tecido-específica, usando-se amostras de sangue ou de soro. A lesão irreversível e a morte celular em alguns tecidos, como o músculo cardíaco, o epitélio do ducto hepático biliar e os hepatócitos, são caracterizadas por níveis séricos aumentados das proteínas creatina cinase, troponina, fosfatase alcalina e transaminases. Esse aumento pode ser notado no diagnóstico, evidenciando o dano a esses tecidos. 3.10.4.1. A necrose de coagulação É a forma de necrose tecidual em que os tecidos afetados adquirem textura firme. Caracteristicamente, a lesão desnatura as proteínas estruturais, bem como as enzimas, bloqueando, dessa forma, a proteólise das células mortas. Como resultado, temos muitas células anucleadas e eosinofílicas. 45 LESÃO CELULAR | UNIDADE II Então, os leucócitos são recrutados para o local da necrose e suas enzimas lisossômicas digerem as células mortas. Posteriormente, os restos celulares são fagocitados. A necrose de coagulação está presente particularmente nos infartos, essencialmente nas áreas de necrose isquêmica, e em todos os órgãos sólidos, exceto o cérebro. 3.10.4.2. A necrose liquefativa É observada em infecções bacterianas ou, ocasionalmente, nas infecções fúngicas, uma vez que os micro-organismos estimulam tanto o acúmulo de células inflamatórias quanto as enzimas dos leucócitos a digerirem esse tecido. O tecido digerido é removido por fagocitose. 3.10.4.3. A necrose gangrenosa Não é um padrão específico de morte celular, entretanto, o termo ainda é utilizado na prática clínica. Em suma, é aplicado a um membro, geralmente a perna, que tenha perdido seu suprimento sanguíneo e que sofreu necrose de coagulação, envolvendo muitas camadas de tecido. Quando uma infecção bacteriana se superpõe, a necrose de coagulação é alterada pela ação liquefativa das bactérias, bem como dos leucócitos atraídos, o que resulta na gangrena úmida. 3.10.4.4. A necrose caseosa É encontrada sumariamente nos focos de infecção tuberculosa. O termo caseoso refere- se à aparência branco-amarelada da área de necrose. No exame microscópico, utiliza-se a coloração de hematoxilina e eosina, assim, o foco necrótico apresenta uma coleção de células rompidas ou fragmentadas, com aparência granular amorfa rósea. Aqui, totalmente diferente da necrose de coagulação, a arquitetura do tecido é obliterada, e os contornos celulares não podem ser distinguidos, apresentando uma borda inflamatória nítida. Essa aparência é característica inerente de um foco de inflamação conhecido como granuloma. 3.10.4.5. A necrose gordurosa Ocorre nos locais de quebra de gordura, gerada pela liberação de lipase pancreática ativada. 46 UNIDADE II | LESÃO CELULAR Nesse distúrbio, as enzimas pancreáticas que escapam das células acinares e dos ductos são capazes de liquefazerem as membranas dos adipócitos do peritônio, e as lipases dividem os ésteres de triglicerídeos contidos nessas células. Os ácidos graxos liberados combinam-se com o cálcio, gerando muitas áreas brancas gredosas macroscopicamente visíveis. 3.10.4.6. A necrose fibrinoide É observada, geralmente, nas reações imunes, em que os complexos de antígenos e anticorpos são depositados nas paredes das artérias. Os imunocomplexos depositados, em combinação com a fibrina que extravasou dos vasos, resultam em uma aparência totalmente amorfa. 3.11. Autofagia A autofagia refere-se à digestão lisossômica dos próprios componentes da célula. Interessantemente, a autofagia é considerada um mecanismo de sobrevivência, em períodos de privação de nutrientes. Quando a célula é privada de nutrientes, ela é capaz de sobreviver ingerindo o seu próprio conteúdo celular. Nesse processo, as organelas intracelulares e partes do citosol são sequestradas do citoplasma. Essas permanecem em um vacúolo autofágico, formado a partir de regiões livres de ribossomos do RE. O vacúolo se funde com os lisossomos, formando um autofagolisossoma. Esse digere os componentes celulares utilizando as enzimas lisossômicas. Dessa forma, a autofagia inicia-se por muitas proteínas que percebem a privação de nutrientes e estimulam a formação do vacúolo autofágico. A célula privada de nutrientes não permanecerá digerindo os seus componentes celulares por muito tempo, nessa fase, a autofagia é direcionada para a morte celular programada. Lembre-se de que a autofagia também está envolvida na remoção das proteínas anormalmente dobradas, por exemplo, em neurônios e hepatócitos. Dessa forma, a autofagia com defeito pode ocasionar a morte de neurônios, induzida pelo acúmulo dessas proteínas, subsequentemente formando doenças neurodegenerativas. Por outro lado, a ativação farmacológica da autofagia limita a produção de proteínas mal dobradas nos hepatócitos de tipos animais, minimizando a fibrose hepática. A autofagia consiste em um processo catabólico-chave que auxilia a igualdade da síntese, a degradação e a reciclagem dos produtos celulares. 47 LESÃO CELULAR | UNIDADE II Durante a autofagia, organelas celulares, como os ribossomos e as mitocôndrias, são sequestradas do resto da célula por uma membrana (autofagossomo) e, então, unem- se a um lisossomo, em que são separadas e usadas para produção de energia celular. A mesma atividade pode sinalizar morte nas células, se elas não conseguirem ser resgatadas pela reciclagem das organelas. A autofagia consiste em um processo estruturalmente regulado, cuja função é fundamental na atividade da célula normal, e pode contribuir para as células famintas a derivarem os nutrientes dos processos celulares não utilizados para os processos vitais. A autofagia, como a apoptose, apresenta uma ferramenta reguladora e efetora. Os elementos efetores baseiam-se em proteínas que formam autofagossomos e direcionam seus conteúdos para os lisossomos. Não surpreende que os elementos reguladores da autofagia se sobreponham a vários dos elementos sinalizadores que regulam a apoptose. O estresse celular, incluindo a privação de nutrientes, é capaz de ativar os genes da autofagia (por exemplo, o gene Atg), que iniciam a formação de vesículas revestidas por membrana. Essas vesículas se fundem com os lisossomos, local onde as organelas são digeridas, e os produtos são utilizados para fornecer nutrientes às células. Esse mesmo processo pode desencadear morte celular programada por mecanismos que ainda não estão bem estabelecidos. Figura 34. Autofagia. Privação de nutrientes Sinal para autofagia Organelas citoplasmáticas Formação de vacúolo autofágico Lisossomo Degradação Usado como fonte de nutrientes Fonte: Kumar et al., 2010. Por exemplo: Uma proteína, Beclin-1, extremamente necessária para a autofagia, pertence ao domínio de BH3 contendo proteínas que regulam a morte celular programada. Quando as células percebem o estresse interno, por exemplo, no dano ao DNA, podem sofrer morte celular programada ou autofagia induzida por Beclin-1. Assim, a autofagia, impede o crescimento das células tumorais. 48 UNIDADEII | LESÃO CELULAR Todavia, na fase tardia do crescimento tumoral, a autofagia pode ser útil para os tumores, uma vez que os metabólitos gerados por meio da autofagia podem suprir os blocos de construção que são essenciais para o crescimento e a sobrevivência dos tumores nos ambientes escassos de nutrientes. Dessa forma, a autofagia promove a sobrevivência do tumor em locais hostis, agindo ora como um “amigo”, ora como um “inimigo”, dependendo dos demais fatores internos e externos. 49 REFERÊNCIAS ALBERTS, B. et al. Biologia Molecular da Célula. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. BASNET, P.; MATSUNO, T.; NEIDLEIN, R. Z. Potent free radical scavenging activity of propol isolated from Brazilian propolis. Bioscience, v. 52, n. 11/12, pp. 828-833, 1997. BRASIL. Instituto Nacional do Câncer. Brasil. Ministério da Saúde. A situação do câncer no Brasil. 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Estímulos químicos e degeneração celular As substâncias químicas que possuem a capacidade de promover a intoxicação do hospedeiro podem ser classificadas em substâncias endógenas, as quais têm sua origem no próprio organismo; e exógenas, que, por sua vez, são externas ao organismo. Muitos fármacos também podem promover a ativação de mecanismo que levem à morte celular como um efeito adverso, considerando que a maioria dos fármacos são metabolizados nos hepatócitos e nas células dos rins, alterando assim a homeostasia dessas regiões. 1.4. Agentes infecciosos Inclui grande variedade de vírus, bactérias, fungos e parasitos. Pode promover infecção e destruição por meio de grande variedade de mecanismos. Seja pela utilização de nutrientes que estariam à disposição da célula, promovendo a secreção de toxinas ou enzimas com a capacidade de degradação celular, a espoliação da maquinaria celular o que faz com que a célula hospedeira pare de sintetizar moléculas importantes para a sua sobrevivência, seja por danos causados pela ativação da resposta imune do hospedeiro, dentre outros. 10 UNIDADE II | LESÃO CELULAR Figura 23. Características celulares da necrose (à esquerda) e da apoptose (à direita). Lesão reversível Recuperação CÉLULA NORMAL CÉLULA NORMAL Tumefação do retículo endoplasmático e mitocôndria Bolhas na membrana Figura de mielina Lesão progressiva Figura de mielina Inflamação Densidades amorfas na mitocôndria NECROSE APOPTOSE Condensação da cromatina Bolhas na membrana Fragmentação celular Fagocitose das células e dos fragmentos apoptóticos Corpo apoptótico Fagócito Fonte: Kumar et al., 2013. 1.5. Agentes físicos Dentre os agentes que são considerados físicos, temos: » os traumas: podem ser decorrentes de acidentes e podem causar desde lesões leves e superficiais – chamadas de abrasão –, até as mais profundas e contundentes, como uma contusão ou hematoma; » as temperaturas extremas: ocasionam queimaduras ou reações que levam à exaustação pelo calor; » os choques elétricos: assim como a temperatura, causam queimaduras que vão variar de acordo com a potência elétrica, além de insuficiências cardíaca e respiratória, consequências do rompimento dos impulsos elétricos normais; » a radiação: tem a capacidade de lesionar as células, direta e indiretamente, lesando o DNA por meio da produção de radicais livres. 1.6. Hipóxia A hipóxia é um estado de privação de oxigênio nas células. Tal causa de morte celular é comum, uma vez que a falta de oxigênio impede a respiração oxidativa aeróbica. 11 LESÃO CELULAR | UNIDADE II O oxigênio é transportado por meio da circulação sanguínea, logo, ela pode levar a uma oxigenação ineficiente no sangue. Diante do exposto, problemas vasculares frequentemente podem gerar quadros de hipóxia. 1.7. Estresse oxidativo O acúmulo de oxigênio é prejudicial às células, uma vez que pode originar a formação de vários radicais livres, que, quando acumulados, resultam no estresse oxidativo, visto que há desequilíbrio entre as espécies oxidantes e antioxidantes no organismo. Os radicais livres são espécies altamente reativas devido ao desemparelhamento de elétrons na camada mais externa da molécula, ou seja, apresentam número ímpar de elétrons em tal nível eletrônico. Exemplos de moléculas que se enquadram em tal definição são os radicais hidroxila (OH•) e superóxido (O2 - •). Radicais livres apresentam capacidade de atravessar camadas lipídicas e destruir membranas biológicas. O peróxido de hidrogênio (H2O2) está intimamente relacionado com o estresse oxidativo, mesmo ele não apresentando elétrons desemparelhados em sua última camada eletrônica. Vale ressaltar que o peróxido de hidrogênio é um dos precursores da formação do radical hidroxila, radical mais reativo em sistemas biológicos, uma vez que pode causar inativação ou alteração na fita de DNA dependendo dos fatores. 1.8. Envelhecimento A senescência celular ocorre por meio de alterações deletérias progressivas e acúmulo de mutações levando à diminuição da capacidade de responder ao estresse celular devido à diminuição nas habilidades replicativas e de reparo das células e dos tecidos. 1.9. Lesões por hipoglicemia As células do cérebro obtêm a sua energia única e exclusivamente por meio da glicose, sem ela pode ocorrer falta de energia necessária para o metabolismo dos neurônios. 1.10. Morfologia da lesão celular e tecidual Antes de discutirmos os mecanismos bioquímicos que levam a alterações, é importante entendermos como as alterações básicas ocorrem nas células lesadas. Todos os estresses e influências nocivas são capazes de exercer seus efeitos tanto em nível molecular quanto em nível bioquímico. 12 UNIDADE II | LESÃO CELULAR A função celular pode ser perdida antes que ocorra a morte celular. Nesse caso, as alterações morfológicas na lesão, bem como a morte celular, ocorrem mais tarde. Por exemplo: as células do miocárdio tornam-se não contráteis após aproximadamente 2 minutos de isquemia, mesmo que elas morram somente após 20-30 minutos. Não conseguimos visualizar esses miócitos mortos na microscopia eletrônica por cerca de 2-3 horas e por aproximadamente 8 horas na microscopia óptica. Como sabemos, os desarranjos celulares da lesão reversível podem ser reparados e, nesse caso, se o estímulo nocivo cessa, e a célula retorna à sua normalidade. Todavia, a lesão caracterizada como persistente ou excessiva faz com que as células passem do ponto reversível para o ponto irreversível, com consequente morte celular. Se as alterações bioquímicas e moleculares que antecipam a morte celular puderem ser identificadas, conseguimos prevenir, em muitos casos, a transição de lesão celular reversível para irreversível. Dois fenômenos caracterizam a irreversibilidade da lesão celular e tecidual: » a incapacidade de reverter a disfunção mitocondrial, incluindo a perda da fosforilação oxidativa e a geração de ATP, mesmo após o reparo da lesão original; » extensos distúrbios na função da membrana. Vale ressaltar que a lesão nas membranas lisossômicas gera dissolução enzimática da célula lesada, uma forte característica da necrose, por isso os distúrbios na função da membrana constituem-se de um dos fenômenos que caracterizam a irreversibilidade da lesão celular e tecidual. Vamos discutir a partir deste ponto um pouco sobre a lesão celular reversível, bem como sobre as relações entre função celular, morte celular e alterações morfológicas da lesão celular. 1.11. Lesão reversível As duas características morfológicas essenciais da lesão celular reversível são: » Tumefação celular: ocorre como resultado da falência das bombas de íons, que são dependentes de energia, e se localizam na membrana plasmática, culminado em uma incapacidade de a célula manter a homeostasia iônica e líquida. » Degeneração gordurosa: pode acontecer na lesão hipóxica, assim como em algumas outras formas de lesão metabólica ou tóxica, manifestando-se por meio 13 LESÃO CELULAR | UNIDADE II do surgimento de alguns vacúolos lipídicos no citoplasma, que podem ser grandes ou pequenos. Em alguns casos, as lesões são extremamente nocivas e capazes de promover alterações específicas em organelas, como o retículo endoplasmático. Note, na figura a seguir, que as células rapidamente se tornam não funcionais após o início da lesão, mesmo que elas ainda estejam viáveis, uma vez que apresentam lesão potencialmente reversível. Sequencialmente, percebemos que uma lesão de duração mais longa leva à lesão irreversível, que culmina em morte celular. Repare que, caracteristicamente, a morte celular precede as alterações morfológicas visíveis a olho nu. Figura 24. Relações entre função celular, morte celular e alterações morfológicas da lesão celular. Lesão celular reversível Lesão celular irreversívelFunção celular Morte celular Alterações ultraestruturais Alterações à microscopia óptica Alterações morfológicas macroscópicas EF EI TO DURAÇÃO DA LESÃO Fonte: Kumar et al., 2013. 1.12. Tumefação celular Vale ressaltar que a tumefação celular é a primeira manifestação de quase todas as formas de lesão celular. Essa alteração é caracterizada como uma alteração morfológica reversível. Quando afeta muitas células em um órgão, a tumefação ocasiona aumento do peso do órgão. 1.13. Degeneração gordurosa A degeneração gordurosa é manifestada pela presença de alguns, ou muitos vacúolos lipídicos no citoplasma. É encontrada essencialmente em células que participam do 14 UNIDADE II | LESÃO CELULAR metabolismo dos lipídeos, incluindo os hepatócitos e as células do miocárdio. Também é caracterizada como uma lesão reversível. A necrose também pode ser discutida aqui, mas vamos falar mais especificamente da necrose no Capítulo 3 desta unidade. 1.14. Resumindo 1.14.1. Alterações morfológicas nas células lesadas Lesão celular reversível: » tumefação celular; » alteração gordurosa; » bolhas na membrana plasmática; » perda das microvilosidades; » tumefação das mitocôndrias; » dilatação do RE; » eosinofilia (devido à diminuição do RNA citoplasmático). Necrose: » aumento da eosinofilia; » retração; » fragmentação e dissolução nuclear; » rompimento da membrana plasmática; » rompimento das membranas das organelas; » extravasamento e digestão enzimática dos conteúdos celulares. Padrões de necrose tecidual: Sob diferentes condições, a necrose tecidual assume padrões específicos: » coagulação; » liquefativa; » gangrenosa; 15 LESÃO CELULAR | UNIDADE II » caseosa; » gordurosa; » fibrinoide. Agora que já discutimos as causas da lesão celular e, resumidamente, da necrose, bem como as suas correlações morfológicas e funcionais, consideraremos mais detalhadamente as bases moleculares da lesão celular comentando sobre os princípios considerados essenciais de acordo com o tipo de lesão. 1.15. Mecanismos da lesão celular Os mecanismos biológicos que unem algumas lesões com as manifestações celulares são extremamente complexos, interconectados e intimamente intercombinados com diversas vias metabólicas intracelulares. Todavia, inúmeros princípios gerais são extremamente relevantes na maioria das formas de lesão celular. A resposta celular ao estímulo nocivo depende do tipo de lesão, da sua duração e da sua gravidade. Assim, pequenas doses de toxina (como as micotoxinas), ao longo do tempo ou por curtos períodos de isquemia, podem levar à lesão celular reversível, ao passo que altas doses de toxina ou uma isquemia prolongada resultam em lesão celular irreversível, com consequente morte celular. As consequências de um estímulo nocivo dependem do tipo, do status, da adaptabilidade e do fenótipo genético da célula lesada. Ou seja, a mesma lesão ocasiona respostas distintas dependendo do tipo celular. Um exemplo é quando o músculo estriado esquelético da perna cede à isquemia completa por 3 horas sem obter uma lesão irreversível, enquanto uma isquemia no músculo cardíaco torna essa lesão irreversível com morte celular após 30 minutos. O estado nutricional ou hormonal também é relevante. Por exemplo, um hepatócito repleto de glicogênio tolera a isquemia por mais tempo, e sem irreversibilidade, quando comparado a um hepatócito que tenha acabado de consumir sua última molécula de glicose. A genética intrínseca das vias metabólicas também contribui para as diferentes respostas aos estímulos. Por exemplo, quando expostos à mesma dose de uma toxina, os indivíduos que possuem variantes nos genes que codificam para o citocromo P-450 conseguem catabolizar a toxina em diferentes taxas, obtendo distintas respostas de reversibilidade. Aqui temos um exemplo clássico de polimorfismo genético. 16 UNIDADE II | LESÃO CELULAR Como sabemos, as variações genéticas são capazes de influenciar a suscetibilidade a muitas doenças extremamente complexas, assim como a resposta a inúmeros agentes terapêuticos. Como discutido, a lesão celular resulta tanto de alterações bioquímicas quanto de alterações funcionais em um ou mais dos diversos componentes celulares essenciais. Nesse contexto, os alvos mais importantes dos estímulos nocivos são: » as mitocôndrias e sua habilidade em gerar ATP e EROs em condições patológicas; » desequilíbrio na homeostase do cálcio; » danos às membranas celulares, incluindo tanto a membrana plasmática quanto a membrana lisossômica; » danos ao DNA e, essencialmente, ao dobramento das proteínas. As múltiplas alterações bioquímicas são capazes de ser ocasionadas por diversas lesões nocivas. Dessa forma, torna-se difícil determinar um único mecanismo para uma lesão ou situação clínica específica. Assim, as terapias que visam mecanismos individuais de lesão celular podem não ser tão eficazes. 1.16. Depleção de ATP A adenosina trifosfato (ATP) – estoque de energia da célula – é produzido primordialmente por meio da fosforilação oxidativa do difosfato de adenosina (ADP) durante a redução do O2 no sistema de transporte de elétrons das mitocôndrias. Ademais, a via glicolítica pode gerar ATP, na ausência de O2, utilizando a glicose oriunda da circulação ou proveniente da hidrólise do glicogênio intracelular. As principais causas de depleção de ATP são: » redução do suprimento de oxigênio; » diminuição do suprimento de nutrientes; » dano mitocondrial; » ações de toxinas. Os tecidos com maior capacidade glicolítica, como o fígado, são capazes de sobreviver efetivamente à perda de O2 e à redução da fosforilação oxidativa, quando comparado aos outros órgãos e tecidos, que possuem capacidade limitada para a glicólise, destacando-se o cérebro e a córnea. Vale ressaltar que tanto o cérebro quanto a córnea utilizam glicose como fonte primária de energia. 17 LESÃO CELULAR | UNIDADE II O fosfato de alta energia, na forma de ATP, é extremamente necessário para todos os processos de síntese, bem como de degradação dentro de uma célula, incluindo: transporte de membrana; síntese de proteínas; lipogênese; reações de diacilação-reacilação, necessárias para a renovação dos fosfolipídios. Figura 25. Principais mecanismos bioquímicos e sítios de lesão celular. Múltiplos efeitos em cascata ATP ERO LESÃO MITOCONDRIAL ENTRADA DE CA2+ Lesão aos lipídios, proteínas e DNA Mitocôndria permeável Ativação de múltiplas enzimas celular Membrana plasmática Membrana lisossômica Perda de componentes celulares Digestão enzimática LESÃO DA MEMBRANA PROTEÍNAS ANORMAIS, LESÃO DE DNA Ativação de proteínas pró- apoptóticas Ca Ca Ca Legenda: ATP – Trifosfato de adenosina EROs – Espécies de oxigênio reativo Fonte: Kumar et al., 2013. A diminuição significativa de ATP possui inúmeros efeitos em praticamente todos os sistemas celulares. A atividade da bomba de Na+ na membrana plasmática dependente de ATP é diminuída, gerando, como consequência direta, um acúmulo intracelular de Na+ e um efluxo de K+. Dessa forma, o ganho final do soluto é intimamente acompanhado por um ganho iso-osmótico de H2O, ocasionando tanto tumefação celular quanto dilatação do RE. Há um aumento compensatório na glicólise anaeróbica, com o intuito de manter as fontes de energia celular. Todavia, as reservas de glicogênio intracelular são exauridas de forma extremamente rápida, gerando um acúmulo do ácido lático, ocasionando diminuição do pH intracelular, bem como redução da atividade de diversas enzimas celulares. A falência na bomba de Ca2+ leva ao influxo de Ca2+. Desta forma, danifica diversos componentes celulares. 18 UNIDADE II | LESÃO CELULAR Tanto a depleção prolongada quanto o aumento crescente de energia ocasionam a separação da estrutura do aparelho de síntese proteica. Precocemente, nesse aspecto, a separação do ribossomo do retículoendoplasmático granular (REG) e a redução do polissomo a um monossomo diminuem a síntese proteica. Isso ocasiona dano irreversível às membranas mitocondriais e lisossômicas, culminando em necrose celular. Aqui nós destacamos também os danos e as disfunções mitocondriais, entretanto, veremos este tópico mais detalhadamente no Capítulo 2 desta unidade. 1.17. Acúmulo de radicais livres derivados do oxigênio (estresse oxidativo) Basicamente, os radicais livres são espécies químicas que possuem um único elétron não pareado em órbita externa. Assim, as espécies reativas do oxigênio (EROs) são uma espécie de radical livre derivada do oxigênio. Ademais, os radicais livres iniciam reações autocatalíticas, ou seja, as moléculas que reagem com eles são, automaticamente, convertidas em radicais livres, propagando, dessa forma, a cadeia de danos, lesões e morte celular. Em muitos casos, a lesão celular envolve danos causados pelos radicais livres. Essas circunstâncias incluem: » lesão de isquemia-reperfusão; » lesão química; » lesão por radiação; » toxicidade do oxigênio; » envelhecimento celular; » destruição dos micro-organismos pelos fagócitos; » lesão tecidual causada por células inflamatórias. Existem diferentes tipos de EROs que são geradas essencialmente por duas principais vias. As EROs são produzidas em pequenas quantidades, em todas as células, durante as reações de: oxidação e redução, que acontecem no decorrer da respiração e da geração de energia mitocondrial. Nesse processo, o oxigênio molecular é reduzido de forma sequencial nas mitocôndrias por meio da adição de quatro elétrons, gerando no final da reação H2O. 19 LESÃO CELULAR | UNIDADE II No entanto, essa reação possui falhas, pois alguns intermediários tóxicos altamente reativos são gerados quando o O2 é apenas parcialmente reduzido. Esses intermediários incluem, de forma resumida: » o superóxido (O2 •): convertido em peróxido de hidrogênio (H2O2) de forma espontânea ou por meio da ação da superóxido dismutase; » o H2O2: é mais estável quando comparado ao O2 •, podendo permear diferentes membranas biológicas. Na presença de metais, como o Fe2+, o H2O2 é convertido ao radical hidroxila •OH, por meio da reação de Fenton. As EROs são produzidas também pelos leucócitos, essencialmente, neutrófilos e macrófagos, com o intuito de destruir alguns micro-organismos durante a inflamação e defesa do hospedeiro. O óxido nítrico (NO) é outro radical livre reativo produzido pelos leucócitos, bem como outras células. O NO reage com o O2• e forma um composto altamente reativo, o peroxinitrito, que também atua na lesão celular. Figura 26. Consequências morfológicas e funcionais da diminuição de trifosfato de adenosina intracelular (ATP). ISQUEMIA MITOCÔNDRIA Fosforilação oxidativa ATP da bomba de Na+ Glicólise anaeróbica Destacamento dos ribossomos Síntese de proteínas Agregação da cromatina nuclear pH Ácido lático Glicogêni o Influxo de Ca2+, H2O, de Na+ Efluxo de K+ Tumefação do RE Tumefação celular Perda de microvilosidades Bolhas Legenda RE – Retículo endoplasmático Fonte: Kumar et al., 2013. 20 UNIDADE II | LESÃO CELULAR Como sabemos, o dano causado pelos radicais livres é determinado por suas taxas de produção e remoção. Quando a produção de EROs aumenta ou quando os sistemas de remoção são ineficazes, o resultado é um excesso de radicais livres, culminando em um evento conhecido como estresse oxidativo. Na figura 28, pode-se observar que: » Nas células em gerais, o superóxido (O2 •) é elaborado na respiração mitocondrial pela cadeia de transporte de elétrons, onde é transformado em H2O2 e radical livre hidroxila (• OH) ou a peroxinitrito (ONOO−). » Nos leucócitos, essencialmente os neutrófilos e os macrófagos, a enzima oxidase presente na membrana do fagossoma gera O2 •. O O2 • pode ser convertido a outros radicais livres. A geração de EROs é intensificada por meio de diferentes estímulos nocivos. Subsequentemente, caso a homeostase celular esteja em equilíbrio, esses radicais livres são removidos por decomposição espontânea, bem como por sistemas enzimáticos especializados. Todavia, a produção excessiva ou a remoção inadequada resulta em acúmulo de radicais livres na célula. Esse acúmulo de EROs nas células são capazes de lesar os lipídios, as proteínas e o DNA, resultando em lesão e morte celular. Ao longo dos anos, as células desenvolveram inúmeros mecanismos para a remoção de radicais livres minimizando muitas lesões. Os radicais livres são inerentemente instáveis e extremamente importantes, quando em equilíbrio. Como sabemos, as EROs decompõem-se espontaneamente. É importante ressaltar que além do papel das EROs na lesão celular e destruição de micro-organismos, baixas concentrações de EROs estão intimamente envolvidas em diversas e importantes vias de sinalização celular e em inúmeras reações fisiológicas. Portanto, essas moléculas são essenciais para o funcionamento dos organismos e, de fato, são produzidas normalmente. Figura 27. Vias de produção de espécies reativas de oxigênio. A B MITOCÔNDRIA Cadeia de transporte de elétrons O2 O2 +NO SOD H2O2 OH Reação de Fenton Peroxinitrito ONOO- FAGOSSOMA Oxidase do fagócito 2O2 NADPH H2O ONOO- MPO HOCL 2O2 Fonte: Kumar et al., 2013. 21 LESÃO CELULAR | UNIDADE II 1.18. Defeitos na permeabilidade da membrana O aumento da permeabilidade da membrana gera lesões nas membranas, característica esta de lesão celular seguida de necrose. A membrana plasmática pode ser danificada por: » isquemia; » toxinas microbianas; » componentes líticos do complemento; » agentes químicos e físicos. Diferentes mecanismos bioquímicos contribuem para os danos à membrana. Podemos citar: » Diminuição da síntese de fosfolipídios: nas células, a síntese de fosfolipídios é reduzida sempre que existir diminuição dos níveis de ATP, gerando um decréscimo das atividades enzimáticas dependentes de energia. Assim, essa redução afeta todas as membranas celulares, incluindo as membranas mitocondriais, o que ocasiona ainda mais perda de ATP. » Aumento da degradação dos fosfolipídios: uma lesão celular crescente está intimamente associada ao aumento da degradação dos fosfolipídios da membrana, uma vez que existe a ativação de fosfolipases endógenas por elevação dos níveis de Ca2+ citosólico. » EROs: os radicais livres do O2 ocasionam lesão às membranas celulares por meio da peroxidação lipídica. Figura 28. Geração, remoção e papel das espécies reativas de oxigênio (EROs) na lesão celular. Radiação Toxinas Reperfusão Produção de EROs Superóxid o O2 H2O2 Peróxido de hidrogênio OH Radical hidroxila Conversão da H2O2 pela SOD Decomposição do H2O2 pela glutationa peroxidase, catalase para H2O Remoção dos radicais livres Peroxidação lipídica Modificação das proteínas Degradação, dobramento anormal Lesão da membrana Lesão de DNA Mutações Efeitos patológicos Fonte: Kumar et al., 2013. 22 UNIDADE II | LESÃO CELULAR » Alterações do citoesqueleto: os filamentos do citoesqueleto são como âncoras responsáveis por conectar a membrana plasmática ao interior da célula. Da mesma forma, esses filamentos exercem inúmeras funções que permeiam desde a manutenção da arquitetura até a motilidade e sinalização celular. Dessa forma, a ativação de proteases pelo Ca2+ citosólico aumentado danifica os elementos do citoesqueleto, ocasionando lesão da membrana. » Produtos de degradação de lipídios: aqui incluímos: ácidos graxos livres não esterificados; acil-carnitina; e lisofosfolipídios, produtos catabólicos que se acumulam nas células lesadas, em consequência da degradação fosfolipídica, causando alterações na permeabilidade e na eletrofisiologicidade. » Danos na membrana mitocondrial: ocasionam decréscimo da produção de ATP, culminando em necrose. » Danos à membrana plasmática: os danos à membrana plasmáticageram perda do equilíbrio osmótico, bem como influxo de fluidos e íons, o que ocasiona perda dos conteúdos celulares. Lembre-se! Falhas nas membranas lisossômicas ocasionam liberação da enzima para o citoplasma, culminando na ativação das hidrolases ácidas, quando presente em pH intracelular ácido, proveniente da célula lesada, como falamos, por exemplo, de uma célula isquêmica. Os lisossomos contêm: ribonucleares (RNases); DNases; proteases; glicosidases; e outras enzimas. A ativação dessas enzimas ocasiona digestão enzimática dos componentes celulares e necrose celular. 1.19. Danos ao DNA e às proteínas As células possuem mecanismos capazes de reparar as lesões de DNA, entretanto, se o dano for extremamente grave e o sistema de reparo não for capaz de reparar efetivamente, a célula sofre uma morte celular programada. Uma vez que esses mecanismos de lesão celular causam genuinamente a morte celular programada, discutiremos a apoptose com mais detalhes nos capítulos seguintes. 23 CAPÍTULO 2 DANOS E DISFUNÇÕES MITOCONDRIAIS 2.1. Papéis essenciais das mitocôndrias no metabolismo celular As mitocôndrias geram a maior parte do ATP celular e fornecem muitos dos recursos essenciais para biossíntese e crescimento celular. Antes de descrevermos em mais detalhes a maquinaria notável da cadeia respiratória, desviaremos brevemente desse assunto para considerar alguns desses outros papéis importantes. As mitocôndrias são críticas para o tamponamento do potencial redox no citosol. As células necessitam de suprimentos constantes do aceptor de elétrons NAD+ para as reações centrais da glicólise que convertem gliceraldeído-3-fosfato em 1,3-bifosfoglicerato. Esse NAD+ é convertido em NADH no processo, e o NAD+ precisa ser regenerado pela transferência dos elétrons de alta energia do NADH em outro local (Alberts et al., 2017). Os elétrons do NADH, por fim, serão utilizados para dirigir a fosforilação oxidativa dentro da mitocôndria. Porém, a membrana mitocondrial interna é impermeável ao NADH. Assim, os elétrons são transferidos do NADH para moléculas menores no citosol que, por sua vez, podem se mover por meio da membrana mitocondrial interna. Uma vez na matriz, essas moléculas pequenas transferem seus elétrons para o NAD+ para formar NADH mitocondrial, e, após isso, retornam ao citosol para serem recarregadas – criando o denominado sistema de lançadeira para os elétrons de NADH. Além do ATP, a biossíntese no citosol requer um suprimento constante de poder redutor na forma de NADPH e de pequenas moléculas ricas em carbono para servirem como unidades fundamentais. As descrições de biossíntese em geral afirmam que os esqueletos de carbono necessários são provenientes diretamente da degradação de açúcares, enquanto o NADPH é produzido no citosol por uma via paralela para a degradação de açúcares (a via da pentose-fosfato, uma alternativa à glicólise). Mas em condições ricas em nutrientes e nas quais o ATP encontra-se disponível em abundância, as mitocôndrias ajudam a gerar tanto o poder redutor quanto unidades fundamentais ricas em carbono necessárias ao crescimento celular. Para esse propósito, citrato em excesso produzido na matriz mitocondrial pelo ciclo do ácido cítrico é transportado a favor do seu gradiente eletroquímico para o citosol, onde é metabolizado para produzir componentes essenciais da célula (Alberts et al., 2017). Assim, por exemplo, como parte da resposta celular a sinais de crescimento, grandes quantidades de acetil-CoA são produzidas no citosol a partir do citrato exportado 24 UNIDADE II | LESÃO CELULAR pelas mitocôndrias, acelerando a produção de ácidos graxos e esteróis que constroem novas membranas. Células cancerosas são frequentemente mutadas de forma a estimular essa via, como parte do seu programa de crescimento anormal (Alberts, et al., 2017). A aquisição de mitocôndrias foi um pré-requisito para a evolução de animais complexos. Sem as mitocôndrias, as células dos animais modernos teriam de produzir todo o seu ATP por meio da glicólise anaeróbica. Quando a glicose é convertida em piruvato pela glicólise, apenas uma pequena fração de toda a energia livre potencialmente disponível é liberada. Nas mitocôndrias, o metabolismo de açúcares é completo: o piruvato é importado para dentro da mitocôndria e, em última instância, oxidado pelo O2 em CO2 e H2O, o que possibilita a produção de 15 vezes mais ATP do que o produzido apenas pela glicólise (Alberts et al., 2017). Como explicaremos adiante, isso se tornou possível somente quando foi acumulada uma quantidade suficiente de oxigênio molecular na atmosfera terrestre para permitir que organismos pudessem aproveitar completamente, por meio da respiração, as grandes quantidades de energia potencialmente disponíveis a partir da oxidação de compostos orgânicos. As mitocôndrias são grandes o suficiente para visualização ao microscópio óptico e foram identificadas pela primeira vez no século XIX. Entretanto, avanços reais na compreensão de sua estrutura interna e função dependeram de procedimentos bioquímicos desenvolvidos em 1948 para o isolamento de mitocôndrias intactas e da microscopia eletrônica, que foi primeiramente usada para observar células mais ou menos na mesma época (Alberts et al., 2017). A mitocôndria realiza a maior parte das oxidações celulares e produz a massa de ATP das células animais. Uma mitocôndria possui duas membranas separadas: a membrana externa e a membrana interna. A membrana interna circunda o espaço mais interno (a matriz) da mitocôndria e forma as cristas, que se projetam para dentro da matriz. A matriz e as cristas da membrana interna são as principais partes funcionais da mitocôndria. As membranas que formam as cristas correspondem a uma das principais partes da área de superfície de membrana na maioria das células, e elas contêm as cadeias transportadoras de elétrons mitocondriais (a cadeia respiratória) (Friedman et al., 2011). A matriz mitocondrial contém uma grande variedade de enzimas, incluindo aquelas que convertem piruvato e ácidos graxos a acetil-CoA e aquelas que oxidam essa acetil-CoA a CO2 por meio do ciclo do ácido cítrico. Essas reações de oxidação produzem grandes quantidades de NADH, cujos elétrons de alta energia são transferidos para a cadeia 25 LESÃO CELULAR | UNIDADE II respiratória. A cadeia respiratória, então, usa a energia derivada do transporte de elétrons do NADH para o oxigênio molecular para bombear H+ para fora da matriz. Isso produz um grande gradiente eletroquímico de prótons por meio da membrana mitocondrial interna, composto de contribuições tanto do potencial de membrana quanto da diferença de pH. Esse gradiente eletroquímico exerce uma força para impulsionar os íons H+ de volta para a matriz. Essa força próton-motriz é aproveitada tanto para produzir ATP quanto para o transporte seletivo de metabólitos através da membrana mitocondrial interna (Friedman et al., 2011). 2.2. Danos e disfunções mitocondriais As mitocôndrias são responsáveis por produzir energia, na forma de ATP, todavia são também componentes essenciais da lesão e morte celular. Essa organela é extremamente sensível a uma infinidade de estímulos nocivos, incluindo: hipóxia, toxinas químicas e radiação. Os danos mitocondriais resultam em graves anormalidades bioquímicas, destacando-se: » falha na fosforilação oxidativa: › ocasiona depleção progressiva de ATP, culminando na necrose celular; › leva à formação de espécies reativas de oxigênio (EROs). » formação de um canal na membrana mitocondrial: › conhecido como poro de transição de permeabilidade mitocondrial; › a abertura desse canal leva à perda do potencial de membrana da mitocôndria e à alteração do pH, comprometendo a fosforilação oxidativa. Com responsabilidade na respiração celular (fosforilação oxidativa) e controle da vida dos seres aeróbicos, as mitocôndrias concomitantemente geram radicais livres em mamíferos, incluindoo homem. Assim, inúmeros estudos mostraram que o envelhecimento celular está intimamente associado à redução da integridade funcional das mitocôndrias, bem como ao aumento da produção de radicais livres e espécies reativas de oxigênio e nitrogênio. Em geral, altos níveis de EROs, que excedem a capacidade antioxidante da célula, são extremamente prejudiciais às células, induzindo estresse oxidativo. As mitocôndrias possuem inúmeras proteínas que, quando liberadas para o citoplasma, informam à célula que há uma lesão interna, ativando a via da morte celular programada. 26 UNIDADE II | LESÃO CELULAR As mitocôndrias são afetadas por uma imensidade de estímulos nocivos, e suas anormalidades levam à morte celular, como já vimos, e está resumido na figura a seguir. Figura 29. Papel da mitocôndria na lesão e na morte celular. Suprimento de O2 Toxinas Radiação Sinais de sobrevivência, DNA, lesão de proteína Proteínas pró-apoptóticas Proteínas antiapoptóticas Lesão ou disfunção mitocôndrial Geração de ATP Produção de EROs Múltiplas anormalidades celulares NECROSE APOPTOSE Extravasamento de proteínas mitocôndriais Fonte: Kumar et al., 2013. O aumento de EROs ocasiona, na maior parte das vezes, a despolarização do potencial de membrana mitocondrial (ΔΨm), culminando em um aumento pronunciado nos níveis de Ca2+ intracelular, liberando consequentemente Citocromo C no citosol, que gera: » oxidação dos lipídios de membrana; » danos às proteínas e ao DNA com consequente rompimento da homeostase celular. Em condições de homeostase, as EROs são consideradas moléculas com funções de mensageiros secundários, exercendo: » regulação da expressão de genes sensíveis aos sinais redox; » alterações da homeostase celular, por meio da síntese de moléculas fisiologicamente ativas. 27 LESÃO CELULAR | UNIDADE II O aumento da produção de EROs celular é responsável pela despolarização da membrana mitocondrial, e isso gera morte celular. O padrão de alterações morfológicas e bioquímicas celulares que estão associadas com a programação normal de morte celular, bem como alguns processos patológicos in vivo, inclui: » formação de vacúolos citoplasmáticos; » encolhimento e diminuição do contato entre células vizinhas; » fragmentação da membrana nuclear; » condensação cromatínica; » despolarização de membrana mitocondrial; » fragmentação internucleossomal do DNA; » exposição da fosfatidilserina (PS); » alterações na assimetria de fosfolipídeos de membrana plasmática; » liberação do citocromo C no citosol. Todavia, é importante ressaltar que, quando a morte celular apresenta todas as características morfológicas e bioquímicas de apoptose, ela é induzida por certo composto químico, bem como por um estímulo físico, não constitui um processo programado de morte celular, e sim uma resposta celular às mudanças ambientais. Como já vimos, a morte celular por necrose acontece em resposta ao dano severa e é caracterizada morfologicamente por: » edema citoplasmático e mitocondrial; » ruptura da membrana plasmática; » liberação do conteúdo extracelular. Dessa forma, a necrose gera uma resposta inflamatória, que pode causar dano e até morte de células vizinhas. Nesse caso, podemos notar que muitas células podem ser afetadas e lesadas ao mesmo tempo. 28 UNIDADE II | LESÃO CELULAR Com estudaremos detalhadamente nos capítulos seguintes, neste contexto, a autofagia contribui para a sobrevivência celular por meio da degradação de macromoléculas e reciclagem de organelas, atuando na manutenção da homeostase. A célula tem quatro sistemas interdependentes que, quando alterados, podem levar à morte celular: » danos às membranas: responsáveis por manter a homeostasia iônica e osmótica da célula e das organelas; » danos à mitocôndria: responsável pela respiração aeróbica e fosforilação oxidativa com produção de ATP; » dano à síntese de proteínas e manutenção do citoesqueleto; » danos ao DNA. 2.3. Influxo de cálcio nas disfunções mitocondriais A importância do Ca2+ na lesão celular impõe-se, uma vez que o cálcio extracelular depletado retarda a morte celular após hipóxia e exposição a algumas toxinas. Basicamente, o cálcio livre no citosol é mantido por transportadores de cálcio dependentes de ATP. Esse cálcio livre no citosol se encontra em concentrações 10 mil vezes menores do que a concentração do cálcio extracelular ou do cálcio intracelular sequestrado nas mitocôndrias e no RE. A isquemia, bem como algumas toxinas, pode gerar um aumento repentino na concentração do cálcio citosólico. Esse aumento acontece, essencialmente, por causa da liberação de Ca2+ que se encontra armazenado intracelularmente e, posteriormente, pelo cálcio resultante do influxo da membrana plasmática. O aumento do cálcio citosólico ativa muitas enzimas que possuem efeitos celulares prejudiciais. Ambas aceleram a depleção de ATP. Essas enzimas incluem: » Fosfolipases: causam danos à membrana; » proteases: clivam as proteínas de membrana e do citoesqueleto; » endonucleases: responsáveis pela fragmentação da cromatina e do DNA; » trifosfatases de adenosina: funcionam como ATPases. 29 LESÃO CELULAR | UNIDADE II Figura 30. Fontes e consequências do aumento do cálcio citosólico na lesão celular. Agente nocivo Ca2+ extracelular Mitocôndria RE agranular Ca2+ Ca2+ Ca2+ Ca2+ Aumento do Ca2+ citosólico Ativação de enzimas celulares Fosfolipase Protease Endonuclease ATPase Fosfolipídios Ruptura da membrana e proteínas do citoesqueleto Transição da permeabilidade mitocondrial LESÃO DA MEMBRANA LESÃO NUCLEAR ATP Ca2+ Legenda ATP – Trifosfato de adenosina ATPase – Trifosfatase de adenosina Fonte: Kumar et al., 2013. O aumento dos níveis de Ca2+ intracelular também resulta na indução da apoptose, por meio da ativação direta das caspases, bem como pelo aumento da permeabilidade mitocondrial. 30 CAPÍTULO 3 MORTE CELULAR: APOPTOSE, NECROSE E AUTOFAGIA Neste capítulo, discutiremos, finalmente e detalhadamente, as principais formas de morte celular: apoptose, necrose e autofagia. 3.1. Morte celular A morte celular pode ser causada por muitas lesões celulares, que vão desde os traumas e ação de vírus e toxinas, passando por distúrbios nutricionais e lesões na membrana celular, até alterações no sistema imune e hipóxia. Com o intuito de manter a homeostase, as células possuem diversos mecanismos de defesa, entretanto, quando esses mecanismos são insuficientes, temos a geração de uma ou mais lesões celulares. Como estudamos, essas lesões podem ser reversíveis ou irreversíveis. Quando reversíveis, elas podem não resultar em morte celular, todavia, quando irreversíveis, elas têm morte celular como consequência. Sumariamente, a morte celular ocorre quando a membrana plasmática da célula perde a integridade, gerando fragmentação do núcleo celular. Dependendo das características morfológicas das alterações, bem como dos eventos que culminaram nessa morte, a morte celular pode ser classificada em: » apoptose; » necrose; » autofagia. Quando a célula se encontra em equilíbrio, ou seja, em homeostase, há uma interação entre as células e poucos eventos de morte celular, a saber: » lesão celular; » ausência de fatores para o crescimento; » infecções; » fatores extrínsecos. São eventos que geram morte celular, com algumas características específicas: » aumento do volume da célula; » perda das funções metabólicas; 31 LESÃO CELULAR | UNIDADE II » alterações na membrana plasmática; » perda da integridade celular. Para que uma célula seja considerada morta, é necessário que haja: » perda da integridade da membrana plasmática; » fragmentação do núcleo da célula; » fagocitose dos fragmentos por células adjacentes in vivo. Lembre-se de que é necessário diferenciar: » células mortas; » células em processo de morte celular; » células que ainda estão morrendo.Assim, vamos discutir um pouco os principais tipos de morte celular, ocasionados por lesões nas células. 3.2. Apoptose A apoptose é uma via de morte celular, induzida por um programa de suicídio estritamente regulado. Aqui, as células destinadas à morte: » ativam enzimas que são capazes de degradar o seu próprio DNA, bem como as proteínas nucleares e as proteínas citoplasmáticas; » os fragmentos das células apoptóticas se separam, ocasionando a aparência responsável pelo nome “apoptose”; » a membrana plasmática da célula apoptótica permanece intacta, todavia, é alterada de forma que a célula e os seus fragmentos tornam-se alvos interessantes para os fagócitos; » rapidamente, as células mortas e seus fragmentos são removidos. Isso ocorre antes que seus conteúdos extravasem e, dessa forma, a morte celular não induz uma reação inflamatória no indivíduo. Vamos falar de necrose, sim! Mas, pensem! A apoptose difere da necrose, uma vez que esta é caracterizada por: » perda da integridade da membrana; 32 UNIDADE II | LESÃO CELULAR » digestão enzimática das células; » extravasamento dos conteúdos celulares; » reação no indivíduo. Assim, precisamos saber que, eventualmente, a apoptose e a necrose podem coexistir, bem como a apoptose induzida por alguns estímulos patológicos pode progredir para a necrose. 3.2.1. Causas da apoptose A apoptose ocorre naturalmente em várias situações, e tem a finalidade de: » eliminar células potencialmente prejudiciais; » eliminar células que tenham sobrevivido mais que sua utilidade, ou seja, células velhas, com o telômero muito encurtado. Figura 31. Mecanismos da apoptose. VIA MITOCONDRIAL (INTRÍNSECA) VIA DO RECEPTOR DE MORTE (EXTRÍNSECA) Lesão celular: - subtração de fator de crescimento; - lesão de DNA (por radiação, toxinas, radicais livres); - proteína mal dobrada. Interações ligante- receptor Mitocôndri Efetores Bcl-2 Sensore s Bcl-2 Fragmentação nuclear Reguladore s (Bcl-2) Citocromo c e outras proteínas Proteínas adaptadoras Caspases desencadeantes Caspases executoras Ativação de endonucleases Degradação do citoesqueleto Bolha citoplasmática Corpo apoptólico Ligantes para receptores das células fagocíticas Fagócito - Fas - Receptor TNF Fonte: Kumar et al., 2013. Contudo, a apoptose pode também ser um evento patológico quando células são lesadas de modo irreparável, genuinamente, quando a lesão afeta o DNA ou as proteínas celulares. Aqui, a célula lesada de modo irreparável é eliminada. Vamos entender agora as principais características das células que entram em morte celular programada em situações fisiológicas e/ou em condições patológicas. 33 LESÃO CELULAR | UNIDADE II 3.2.2. Apoptose em situações fisiológicas A morte celular programada é um acontecimento natural das células, que funciona com o intuito de eliminar células que não são mais necessárias para os organismos, mantendo nos tecidos um número constante das diferentes populações celulares. A apoptose é extremamente importante nas seguintes situações fisiológicas. » Destruição programada de células durante a embriogênese. O desenvolvimento normal das células associa-se à morte de outras células, bem como ao surgimento de novas células e tecidos. A expressão morte celular programada, portanto, estabeleceu-se para denotar a morte de alguns tipos celulares específicos, em tempos definidos, durante o desenvolvimento de um organismo. Para tanto, a apoptose é um termo genérico para esse padrão de morte celular. » Involução de tecidos hormônios-dependentes sob privação de hormônio. Ocorre em células semelhantes às células endometriais, que se desprendem durante o ciclo menstrual, bem como na regressão da mama após o desmame. » Perda celular em populações celulares proliferativas. Assim como o epitélio de cripta intestinal, mantém um número constante. » Morte de células que já tenham cumprido seu papel. Algumas células especializadas são originadas para cumprir uma determinada ação, possuindo, dessa forma, um tempo de meia-vida. Um exemplo clássico são os neutrófilos que atuam na resposta inflamatória aguda e os linfócitos, ao término da resposta imune. Nessas situações, as células sofrem apoptose porque estão privadas dos sinais de sobrevivência necessários, como os fatores de crescimento, uma vez que já cumpriram o seu papel e não são mais necessárias. » Eliminação de linfócitos autorreativos potencialmente nocivos. A morte celular programada, nesse caso, acontece antes ou depois desses linfócitos terem completado sua maturação, com o intuito de impedir reações contra os tecidos do próprio indivíduo. » Morte celular induzida por linfócitos T citotóxicos. Nesse caso, a apoptose funciona como um mecanismo de defesa contra viroses e tumores, eliminando as células neoplásicas e infectadas por vírus. 34 UNIDADE II | LESÃO CELULAR 3.2.3. Apoptose em condições patológicas Quando a morte celular programada acontece em condições patológicas, ela tem o intuito de eliminar as células que estão geneticamente alteradas ou lesadas de modo irreversível, sem iniciar uma reação imune no organismo, mantendo, consequentemente, mínima a lesão tecidual. Desta forma, a morte por apoptose é responsável pela perda de células em vários estados patológicos. Veremos, nos tópicos a seguir, alguns casos em que ocorre a morte celular por apoptose em condições patológias. 3.2.3.1. Lesão de DNA A lesão do DNA pode ocorrer como consequência da: » radiação; » drogas citotóxicas; » extremos de temperatura; » hipóxia; » radicais livres. Se os mecanismos de reparo não conseguem “competir” com a lesão, a célula dispara mecanismos intrínsecos que induzem a morte celular programada. Nesses casos, a eliminação da célula (por meio da apoptose) pode ser uma excelente alternativa, uma vez que, se a lesão permanecer, mutações podem ser perpetuadas no DNA evoluindo para um tumor. Esses estímulos nocivos podem causar morte celular programada quando a lesão celular é considerada leve, todavia, quando o estímulo causa uma lesão irreversível e extremamente danosa, a morte celular ocorre por necrose. 3.2.3.2. Acúmulo de proteínas anormalmente dobradas As proteínas impropriamente dobradas ocorrem essencialmente: » pós-mutações nos genes que codificam para essas proteínas; » fatores extrínsecos, como a lesão causada por radicais livres. O acúmulo excessivo de proteínas mal enoveladas no RE gera estresse do RE, o que pode provocar morte celular programada nas células. 35 LESÃO CELULAR | UNIDADE II 3.2.3.3. Lesão celular em infecções virais As infecções virais resultam em morte celular programada, que pode ser induzida por: » vírus, como ocorre nas infecções por adenovírus e vírus da imunodeficiência humana; » resposta imunológica do indivíduo, como acontece na hepatite viral. 3.2.3.4. Atrofia patológica no parênquima de órgãos após obstrução de ducto Esse processo ocorre no pâncreas, na parótida e no rim. 3.2.4. Mecanismos da apoptose A morte celular programada é oriunda da ativação de enzimas chamadas caspases, principal mecanismo de morte por apoptose. A ativação das caspases depende de um equilíbrio extremamente sintonizado entre as vias moleculares pró-apoptóticas e antiapoptóticas. Duas vias distintas convergem para a ativação de caspase: » via mitocondrial; » via receptor de morte. Mesmo que essas vias possam interagir, geralmente, elas são induzidas sob diferentes condições, que envolvem moléculas distintas, exercendo um papel variado tanto na fisiologia quanto na doença. Vamos discutir agora a via mitocondrial da apoptose e a via receptor de morte da apoptose. 3.2.5. Via mitocondrial (intrínseca) da apoptose As mitocôndrias possuem uma série de proteínas capazes de induzir a morte celular programada, destacando-se o citocromo e outras proteínas que neutralizam inibidores endógenos da morte celular programada. Lembre-se! » A escolhaentre a sobrevivência e a morte celular é determinada essencialmente pela permeabilidade da mitocôndria. 36 UNIDADE II | LESÃO CELULAR » A permeabilidade da mitocôndria é controlada por uma família de proteínas que incluem a Bcl-2. Quando as células são privadas de fatores de crescimento; privadas de alguns sinais de sobrevivência; expostas a agentes que lesam o DNA, ou quando acumulam quantidades de proteínas anormalmente dobradas, um grupo de sensores é ativado. Esses sensores são proteínas que fazem parte da família Bcl-2. As famosas “proteínas BH3” são assim nomeadas por apresentarem somente o terceiro dos domínios conservados da família Bcl-2. As proteínas BH3 ativam dois membros pró-apoptóticos: as proteínas chamadas Bax e Bak. Essas proteínas dimerizam-se e inserem-se dentro da membrana mitocondrial, formando canais.vPor meio desses canais, o citocromo c e outras proteínas mitocondriais conseguem extravasar para o citosol. Esses sensores também conseguem inibir as moléculas antiapoptóticas Bcl-2 e Bcl-xL, aumentando e, consequentemente, o extravasamento de proteínas mitocondriais. O citocromo c, em conjunto com alguns cofatores, ativa a caspase 9. Outras proteínas que extravasam das mitocôndrias são capazes de bloquear a atividade dos antagonistas das caspases. Esses antagonistas funcionam como inibidores fisiológicos da morte celular programada. O resultado final é a ativação da cascata de caspases, levando, finalmente, à fragmentação nuclear. Lembre-se de que, de modo contrário, se as células forem expostas aos fatores de crescimento, bem como outros sinais de sobrevivência, elas podem sintetizar alguns membros antiapoptóticos da família Bcl-2 (incluindo o Bcl-2 e o Bcl-xL). Essas proteínas (Bcl-2 e o Bcl-xL) antagonizam Bax e Bak, limitando, consequentemente, o escape das proteínas mitocondriais pró-apoptóticas. Nesse cenário, as células privadas de fatores de crescimento ativam as proteínas pró- apoptóticas Bax e Bak, evidenciando também níveis reduzidos de Bcl-2 e Bcl-xL resultanto em morte celular programada. A via mitocondrial é a principal via de direcionamento para a morte celular programada. 37 LESÃO CELULAR | UNIDADE II Figura 32. Via intrínseca (mitocondrial) da apoptose. CÉLULA VIÁVEL Sinal de sobrevivência (fator de crescimento) APOPTOSE Perda dos sinais de sobrevivência Irradiação Lesão de DNA Proteínas dobradas erradas Ativação de Antagonismo do Bcl-2 Ativação do canal Bax/Bak Produção de proteínas antiapopitóticas Citocromo cBcl-2 Nenhum extravasamento de citocromo c Extravasamento de citocromo c e outras proteínas Ativação de caspases APOPTOSE SOBREVIVÊNCIA DA CÉLULA sensores Fonte: Kumar et al., 2013. 3.2.6. Via receptor de morte da apoptose (extrínseca) Grande parte das células expressam moléculas de superfície, conhecidas como receptores de morte, que disparam a morte celular programada. A maioria dessas moléculas são receptores que fazem parte da família do fator de necrose tumoral (TNF). O TNF contém em suas regiões citoplasmáticas um “domínio de morte” conservado. Esse domínio é responsável por mediar a interação com outras proteínas envolvidas na morte celular. Os receptores de morte prototípicos são do tipo TNF I e Fas (CD95). O ligante de Fas (Fas-L) é uma proteína de membrana expressa, sumariamente, em linfócitos T ativados. Quando as células T reconhecem os alvos que expressam Fas, as moléculas Fas são automaticamente ligadas em reação cruzada pelo Fas-L e proteínas de ligação adaptadoras por meio do “domínio de morte” que mencionamos. Essas proteínas, por sua vez, recrutam e ativam a caspase 8. Em alguns tipos celulares, esta é capaz de clivar e ativar um membro pró-apoptótico da família Bcl-2, chamado de 38 UNIDADE II | LESÃO CELULAR Bid (dentro da via mitocondrial). Ou seja, a ativação combinada de ambas as vias (via mitocondrial e via receptor) induz rapidamente a célula para a apoptose. Lembre-se! A via receptor de morte celular está intimamente envolvida na eliminação de linfócitos autorreativos, bem como na eliminação de células-alvo por alguns linfócitos T citotóxicos. As duas vias de morte celular programada são diferentes tanto na sua indução quanto na sua regulação, entretanto ambas culminam na ativação das caspases. Na via mitocondrial, as proteínas da família Bcl-2, que regulam a permeabilidade mitocondrial, desequilibram-se e o extravasamento de muitas substâncias mitocondriais resulta na ativação das caspases. Na via do receptor de morte, os sinais dos receptores da membrana plasmática induzem as proteínas adaptadoras a um “complexo de sinalização indutor de morte”, responsável por ativar as caspases, gerando morte celular programada. 3.3. Ativação e função das caspases Tanto a via mitocondrial quanto a via de receptor de morte levam à ativação de caspases 9 e 8, respectivamente. As formas ativas das caspase 9 e caspase 8 são produzidas e, em seguida, essas caspases clivam outra série de caspases (as caspases executoras). As caspases executoras, quando ativadas, clivam muitos outros alvos, o que pode resultar na ativação das nucleases. As nucleases ativadas degradam as nucleoproteínas e o DNA. As caspases degradam os componentes da matriz nuclear e do citoesqueleto, ocasionando fragmentação celular. 3.4. Remoção das células apoptóticas As células apoptóticas atraem os fagócitos. Nas células saudáveis, a fosfatidilserina está presente no folheto interno da membrana plasmática. Nas células apoptóticas, o fosfolipídio (fosfatidilserina) move-se para fora e é expresso no folheto externo da membrana; no folheto externo, a fosfatidilserina é reconhecida pelos macrófagos, promovendo a fagocitose das células apoptóticas. 39 LESÃO CELULAR | UNIDADE II Basicamente, as células mortas por apoptose expilem substâncias solúveis que adicionam os fagócitos. Essa etapa ajuda na retirada inicial da célula morta, antecedentemente sofrem outra lesão de membrana e disponibilizam suas substâncias celulares (que pode resultar em inflamação). Na apoptose, queremos que esse suicídio não seja percebido por outras células nem pelo organismo, não queremos gerar inflamação. Determinados indivíduos apoptóticos apresentam glicoproteína adesiva em que reconhece fagócitos, dessa forma, os próprios macrófagos podem elaborar proteínas que se juntam às células apoptóticas (mas não se juntam às células vivas) mostrando a morte celular por engolfamento. O processo de fagocitose das células apoptóticas é extremamente eficiente, uma vez que as células mortas desaparecem sem deixar traços e a inflamação é praticamente ausente. Encontram-se algumas não compatibilidades entre necrose e apoptose (vamos discutir necrose adiante), entretanto, esses dois modelos de morte celular podem coexistir e ser envolvidos mecanicamente. Por exemplo, a lesão de DNA (observada na apoptose) ativa uma enzima chamada poli-ADP polimerase (ribose), responsável por depletar os suprimentos celulares do dinucleotídio adenina nicotinamida, promovendo diminuição dos níveis de ATP e gerando necrose. 3.5. Privação de fator de crescimento Morrem por apoptose: » as células privadas de um hormônio essencial; » os linfócitos que não são estimulados por antígenos e citocinas; » os neurônios privados do fator de crescimento nervoso. Em todas as situações citadas, a apoptose é iniciada pela via mitocondrial e está intimamente relacionada à ativação de membros pró-apoptóticos da família Bcl-2, bem como à diminuição de síntese de Bcl-2 e Bcl-xL. 3.6. Lesão de DNA A exposição das células à radiação ou aos agentes quimioterápicos, por exemplo, induzem lesões no DNA e, se a lesão for irreversível, ou seja, não for reparada pelo sistema de reparo do DNA, a célula é conduzida à morte celular. 40 UNIDADE II | LESÃO CELULAR Dessa forma, quando o DNA é lesado, ocorre uma cascata de eventos que podem provocar morte celular. A proteína p53 acumula-se nascélulas, interrompendo o ciclo celular (o ciclo para de progredir e fica na fase G1). Esse fato ocorre para que a célula tenha tempo de reparar o dano ao DNA, antes de sua replicação. Todavia, se o dano for irreversível, a p53 desencadeia a morte celular programada, ativando Bax e Bak, e aumentando a síntese de membros pró-apoptóticos da família Bcl-2. Interessantemente, quando a proteína p53 encontra-se ausente ou mutada, como o que acontece em alguns tumores, ela é incapaz de induzir apoptose. Ou seja, nesse caso, as células com o DNA lesado sobrevivem. Essa lesão no DNA pode resultar em mutações ou rearranjos que levam à transformação neoplásica nessas células. Como estudamos, a indução da apoptose pela via mitocondrial é dependente do equilíbrio entre proteínas pró e antiapoptóticas da família Bcl. As proteínas pró- apoptóticas incluem alguns “sensores” que percebem a lesão ao DNA e às proteínas, direcionando a célula para o suicídio. As proteínas efetoras se inserem na membrana mitocondrial, promovendo o extravasamento das proteínas mitocondriais. Em uma célula viável, os membros antiapoptóticos da família Bcl-2 impedem o extravasamento de proteínas mitocondriais. Muitas lesões ativam os sensores citoplasmáticos que reduzem a produção das proteínas antiapoptóticas, aumentando, consequentemente, o número de proteínas pró-apoptóticas. Esses eventos geram extravasamento de proteínas que normalmente estão sequestradas dentro das mitocôndrias. As proteínas mitocondriais extravasadas ativam uma série de caspases (tanto desencadeadoras quanto executoras) que causam a fragmentação do núcleo e da célula. 3.7. Acúmulo de proteínas anormalmente dobradas O acúmulo de proteínas anormalmente dobradas gera estresse do RE. Na síntese normal de proteínas, as chaperonas, disponibilizadas no retículo endoplasmático, monitoram o dobramento da proteína sintetizada e, desse modo, o polipeptídio mal dobrado é ubiquitinado e direcionado para a proteólise. Todavia, se as proteínas não dobradas ou anormalmente dobradas se acumularem no retículo endoplasmático, haverá indução de uma resposta celular protetora, conhecida como “resposta de proteína não dobrada”. 41 LESÃO CELULAR | UNIDADE II Essa resposta ativa a via de sinalização que aumenta a produção de chaperonas, diminuindo consequentemente a translação da proteína, reduzindo, dessa forma, os níveis de proteínas mal dobradas na célula. Entretanto, quando o acúmulo de proteínas mal dobradas ultrapassa as adaptações celulares, o resultado é o estresse do retículo endoplasmático. Esse estresse ativa caspases que levam à morte celular programada. O acúmulo intracelular de proteínas mal dobradas, causadas por mutações, envelhecimento ou fatores ambientais, gera uma infinidade de doenças pela “simples” redução da disponibilidade da proteína normal, bem como pela indução de uma lesão celular. A morte celular programada ocasionada por uma proteína anormalmente dobrada é característica de uma série de doenças neurodegenerativas, destacando-se: » Alzheimer; » Huntington; » Parkinson. 3.8. Apoptose de linfócitos autorreativos Os linfócitos que são capazes de reconhecer antígenos próprios são produzidos normalmente nos tecidos de todos os indivíduos. Se esses linfócitos encontram antígenos próprios, as células sofrem morte celular programada. Tanto a via mitocondrial quanto a via receptor de morte Fas têm sido implicadas nesse processo. A falta de morte celular programada nos linfócitos autorreativos é uma das causas de doenças autoimunes. 3.9. Apoptose mediada por linfócito T citotóxico Os linfócitos T citotóxicos (LTCs) reconhecem antígenos estranhos, apresentados na superfície das células hospedeiras infectadas, assim como na superfície das células tumorais. Sob ativação, os grânulos dos linfócitos T citotóxicos contendo proteases (granzimas) penetram nas células-alvo. As granzimas clivam as proteínas nos resíduos de aspartato ativando uma série de caspases celulares. 42 UNIDADE II | LESÃO CELULAR Assim, os linfócitos T citotóxicos eliminam as células-alvo induzindo, consequentemente, a fase efetora da morte celular programada, sem a participação das mitocôndrias ou dos receptores de morte. Vale ressaltar que os LTCs também expressam Fas-L em sua superfície e, dessa forma, podem eliminar células-alvo pela ligação dos receptores de Fas. Na figura a seguir, podemos notar que: » nas células normais, as proteínas recentemente sintetizadas são dobradas com o auxílio das chaperonas e, subsequentemente, elas são incorporadas à célula ou secretadas; » nas células lesadas, inúmeros estresses externos, bem como mutações no DNA induzem estresse do RE, incapacitando a célula de suportar a carga de proteínas mal dobradas. O acúmulo dessas proteínas no RE inicia uma cascata de acontecimentos com o intuito de restaurar a homeostasia celular, evento que conhecemos como adaptação celular. Caso a homeostase não seja atingida, existe uma falha na adaptação celular, e a célula culmina para a morte celular programada. Figura 33. Resposta à proteína não dobrada e estresse do RE. Chaperonas NORMAL A B RNA Proteína madura dobrada - Alterações metabólicas – baixa energia - Mutações genéticas nas proteínas - Infecções virais - Lesões químicas Excesso de proteínas anormalmente dobradas “ESTRESSE DO RE” Demanda e capacidade de dobramento da proteína ADAPTAÇÃO CELULAR RESPOSTA À PROTEÍNA NÃO DOBRADA FALHA NA ADAPTAÇÃO APOPTOSE Proteína madura dobrada Produção de chaperonas Síntese de proteínas Fonte: Kumar et al., 2013. 3.10. Necrose A necrose é o tipo de morte celular que está intimamente associada à perda da integridade da membrana, bem como no extravasamento dos conteúdos celulares, 43 LESÃO CELULAR | UNIDADE II culminando na dissolução das células, resultante da ação degradativa de enzimas nas células irreversivelmente danificadas. O conteúdo celular que escapa nesse processo de morte celular inicia uma reação local no indivíduo, conhecida como inflamação. Esta tem o intuito de eliminar as células mortas, iniciando um processo de reparo. Ressalta-se, aqui, que as enzimas responsáveis pela digestão da célula são derivadas dos lisossomos das próprias células que estão em fase de morte por necrose, entretanto, podem ser provenientes também dos lisossomos encontrados nos leucócitos, que são recrutados como parte da reação inflamatória. A necrose é caracterizada por alterações no citoplasma e no núcleo das células lesadas. 3.10.1. Alterações citoplasmáticas As células necróticas apresentam aumento acentuado da eosinofilia, que é atribuível em parte às proteínas citoplasmáticas desnaturadas que se ligam à eosina e, em parte, à perda do RNA citoplasmático. Ressalta-se que a eosinofilia refere-se à coloração rósea do corante eosina, o “E” no “H&E”. Essa reação faz com que haja perda consequente da basofilia. Lembre-se: basofilia refere-se à coloração azul do corante hematoxilina, o “H” no “H&E”. Na microscopia eletrônica, as células necróticas caracterizam-se pela(o): » descontinuidade das membranas das organelas; » descontinuidade das membranas plasmáticas; » dilatação acentuada das mitocôndrias com a presença de grandes densidades amorfas; » rompimento dos lisossomos; » mielina intracitoplasmáticas. 3.10.2. Alterações nucleares As modificações nucleares assumem um dos três padrões, todos relacionados com a degradação da cromatina e do DNA. Inicialmente, a basofilia da cromatina pode desbotar, promovendo cariólise, essencialmente como consequência da atividade da desoxirribonuclease, que é uma DNase. 44 UNIDADE II | LESÃO CELULAR O padrão seguinte é a picnose, caracterizada pela retração nuclear com consequente aumento da basofilia. Nesse caso, o DNA se condensa em uma massa sólida e encolhida. No terceiro padrão, é conhecido como cariorrexe, nesse caso, o núcleo picnótico sofre fragmentação. Dentro de,