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O Modelo de Adaptação de Roy
CAP. 02. - ELEMENTOS DO MODELO DE ADAPTAÇÃO DE ROY
A primeira descrição formal do Modelo de Adaptação de Roy foi feita pela Irmã Callista Roy, enquanto ainda era estudante de pós-graduação na Escola de Enfermagem da Universidade da Califórnia em Los Angeles. As raízes do modelo estão ligadas ao contexto pessoal e profissional de Roy.
Ela é comprometida com pressupostos filosóficos e culturais caracterizados pelos princípios gerais do humanismo, além dos conceitos de veritividade (verdade como princípio universal) e unidade cósmica, dois termos aos quais Roy atribui significados especiais.
A base científica do modelo está fundamentada em pressupostos oriundos da teoria de sistemas, da teoria do nível de adaptação e dos desafios do século XXI. Uma redefinição do conceito de adaptação para o futuro foi utilizada para expandir esses pressupostos científicos.
Sob a orientação de Dorothy E. Johnson, Roy se convenceu da importância de se definir a enfermagem. Ela também foi influenciada por seus estudos nas artes liberais, nas ciências naturais e nas ciências sociais. Sua prática clínica em enfermagem pediátrica proporcionou experiências com a resiliência do corpo e do espírito humano.
Roy passou, então, a buscar formas de expressar essas crenças sobre a enfermagem e explorá-las com mais profundidade em seus estudos. A primeira publicação sobre o Modelo de Adaptação de Roy foi em 1970 (Roy, 1970). Na época, Roy era docente em um programa de bacharelado em enfermagem de uma pequena faculdade de artes liberais. Lá, teve a oportunidade de liderar a implementação desse modelo como base do currículo de enfermagem.
Durante a década seguinte, mais de 1.500 docentes e estudantes do Mount St. Mary’s College ajudaram a esclarecer, refinar e desenvolver os conceitos básicos do Modelo de Adaptação de Roy para a enfermagem.
Na década de 1980, Roy foi influenciada por estudos de pós-doutorado em neurociência aplicada à enfermagem. Já nos anos 1990, como docente e teórica da enfermagem no Boston College, Roy passou a se concentrar nos movimentos contemporâneos do conhecimento em enfermagem e na integração contínua entre espiritualidade e a compreensão do papel da enfermagem na promoção da adaptação.
Na primeira década do século XXI, ela ampliou seu foco para questões filosóficas, conhecimento para a prática e preocupações globais.
Este capítulo apresenta uma visão geral dos principais conceitos do Modelo de Adaptação de Roy na enfermagem. O modelo descreve as pessoas como sistemas adaptativos holísticos. Esses elementos são discutidos juntamente com os pressupostos filosóficos, científicos e culturais a eles associados, conforme se desenvolveram ao longo do tempo.
CONCEITOS-CHAVE DEFINIDOS
Adaptação: Processo e resultado por meio dos quais seres humanos pensantes e sensíveis, individual ou coletivamente, utilizam a consciência e a escolha para criar uma integração entre o ser humano e o ambiente.
Nível de adaptação: Representa a condição dos processos vitais, descritos em três níveis: integrado, compensatório e comprometido.
Respostas adaptativas: Respostas que promovem a integridade em consonância com os objetivos dos sistemas humanos.
Pressupostos: Crenças, valores e conhecimentos presumidos como verdadeiros, sobre os quais os teóricos fundamentam seus modelos conceituais para a enfermagem.
Comportamento: Ações e reações internas ou externas sob circunstâncias específicas.
Subsistema cognador: Para indivíduos, é um processo de enfrentamento principal que envolve quatro canais cognitivo-emotivos: percepção e processamento da informação, aprendizagem, julgamento e emoção.
Processo compensatório: Nível de adaptação no qual os subsistemas cognador e regulador são ativados diante de um desafio aos processos vitais integrados.
Processo comprometido: Nível de adaptação resultante de processos vitais integrados e compensatórios inadequados; indica um problema de adaptação.
Estímulo contextual: Todos os outros estímulos presentes na situação que contribuem para o efeito do estímulo focal.
Processos de enfrentamento (coping): Formas inatas ou adquiridas de responder às mudanças ambientais.
Unidade cósmica (Cosmic unity): Perspectiva filosófica da realidade que enfatiza o princípio de que seres humanos e a Terra compartilham padrões comuns e relações integrais.
Ambiente: Todas as condições, circunstâncias e influências que cercam e afetam o desenvolvimento e o comportamento dos seres humanos enquanto sistemas adaptativos, com atenção especial aos recursos humanos e ambientais.
Estímulo focal: O estímulo interno ou externo que confronta mais imediatamente o sistema humano.
Objetivo da enfermagem: Promoção da adaptação em cada um dos quatro modos.
Saúde: Estado e processo de ser e tornar-se integrado e completo.
Sistema humano adaptativo: Sistema humano descrito como um todo, com partes que funcionam em unidade para um determinado propósito. Os sistemas humanos incluem indivíduos ou grupos, como famílias, organizações, comunidades e a sociedade como um todo.
Humanismo: Corrente ampla na filosofia e psicologia que reconhece as dimensões individuais e subjetivas da experiência humana como centrais ao conhecimento e à valoração (Roy, 1988).
Respostas ineficazes: Respostas que não contribuem para a integridade, conforme os objetivos do sistema humano.
Subsistema inovador: Nos grupos, trata-se do subsistema interno que envolve estruturas e processos voltados para mudança e crescimento.
Processo vital integrado: Nível de adaptação no qual as estruturas e funções de um processo vital operam como um todo para atender às necessidades humanas.
Subsistema regulador: Para indivíduos, representa um processo de enfrentamento primário que envolve os sistemas neural, químico e endócrino.
Estímulo residual: Fator ambiental interno ou externo ao sistema humano, com efeitos na situação atual que são incertos.
Subsistema estabilizador: Nos grupos, está associado à manutenção do sistema, envolvendo estruturas estabelecidas, valores e atividades diárias mediante as quais os participantes cumprem o propósito do sistema social.
Estímulo: Aquilo que provoca uma resposta ou, de modo mais geral, o ponto de interação entre o sistema humano e o ambiente.
Sistema: Conjunto de partes interconectadas que funcionam como um todo com um propósito, e que o fazem em virtude da interdependência entre suas partes.
Veritividade: Princípio da natureza humana que afirma uma intencionalidade comum à existência humana (Roy, 1988).
PRESSUPOSTOS DO MODELO DE ADAPTAÇÃO DE ROY
Modelos de enfermagem, enquanto descrições da enfermagem em termos conceituais, baseiam-se tanto em pressupostos filosóficos quanto em princípios científicos. O desenvolvimento do conhecimento em qualquer campo reflete e impulsiona o pensamento filosófico e científico de sua época. Teóricas da enfermagem identificam as crenças, valores e conhecimentos que fundamentam seu trabalho e contribuem para o desenvolvimento dessas ideias. No Modelo de Adaptação de Roy, o conceito de adaptação está ancorado em pressupostos científicos e filosóficos que foram desenvolvidos e refinados por Roy ao longo do tempo.
Inicialmente, os pressupostos científicos refletem a teoria geral dos sistemas de von Bertalanffy (1968) e a teoria do nível de adaptação de Helson (1964), e mais tarde passaram a incluir a noção de unidade e significância do universo criado (Young, 1986). Os pressupostos filosóficos do modelo foram identificados, desde os primeiros escritos, como baseados no humanismo e na veritividade. O desenvolvimento posterior desses pressupostos filosóficos passou a enfocar a mútua relação das pessoas com os outros, com o mundo e com uma figura divina. A forma como os principais conceitos do modelo foram desenvolvidos e expandidos evidencia a influência da formação científica e filosófica da teórica e de suas experiências globais. Os pressupostos específicos que fundamentaram o desenvolvimento do Modelo de Adaptação de Roy nas primeiras décadas foram baseados nessas perspectivas iniciais.Esses pressupostos encontram-se delineados na Tabela 2-1 (não incluída aqui).
Antecipando os desafios da enfermagem no século XXI, Roy (1997) propôs uma redefinição do conceito de adaptação e uma reformulação dos pressupostos que sustentam o modelo. O objetivo da enfermagem, segundo o Modelo de Adaptação de Roy, é promover os processos vitais para favorecer a adaptação. Roy definiu adaptação como o processo e o resultado pelo qual pessoas pensantes e sensíveis, individual ou coletivamente, utilizam a consciência e a escolha para criar uma integração entre o ser humano e o ambiente. A atualização do conceito de adaptação levou à ampliação dos pressupostos filosóficos e científicos em consonância com a sociedade contemporânea, incluindo também pressupostos de natureza cultural.
PRESSUPOSTOS FILOSÓFICOS
Filosofia envolve (1) encontrar significado por meio da análise e (2) compartilhar crenças, valores e objetivos. Uma perspectiva filosófica influencia o que o indivíduo percebe, valoriza e compreende. No primeiro livro sobre o modelo, Roy (1976) foi explícita ao afirmar que os valores humanistas fundamentam seu modelo de enfermagem. O humanismo é definido como um movimento amplo na filosofia e na psicologia que reconhece as dimensões individuais e subjetivas da experiência humana como centrais para o conhecimento e a valorização. No humanismo, considera-se que os seres humanos, individualmente ou em grupo, compartilham poder criativo; agem com intencionalidade, e não por mera causalidade; possuem um holismo intrínseco; e buscam manter sua integridade e realizar suas necessidades de relacionamento.
Em 1988, Roy introduziu o conceito de veritividade, buscando uma alternativa à relatividade total. O termo, cunhado por Roy a partir da palavra latina veritas (verdade), expressa a noção de que todo conhecimento está enraizado em uma única fonte. No contexto do Modelo de Adaptação, a veritividade é o princípio da natureza humana que afirma a finalidade comum da existência humana. A veritividade pressupõe que as pessoas devem ser vistas no contexto do propósito da existência, da unidade de intenção da humanidade, da atividade e criatividade em prol do bem comum, e do valor e significado da vida.
Nos trabalhos mais recentes, Roy aborda o século XXI como um tempo de transição, transformação e visão espiritual. Mudanças na filosofia que influenciaram Roy incluem o empirismo contemporâneo, o pós-modernismo e a crescente relevância da busca humana por sentido e propósito. A ciência objetiva passou a reconhecer a importância do contexto do sujeito na pesquisa (Weiss, 1995). O pós-modernismo, por sua vez, evidenciou os efeitos múltiplos — sociais, culturais e econômicos — sobre o que se pode considerar como conhecimento (Rodgers, 2005). Esse movimento também suscitou questionamentos sobre a possibilidade de estabilidade da verdade diante da multiplicidade de significados da realidade. Responder a essa incerteza e relativismo tornou-se essencial num tempo marcado por ameaças crescentes à humanidade — como conflitos regionais, terrorismo global, violência comunitária e abusos domésticos.
Roy, portanto, enfatizou a unidade do conhecimento (Roy, 2007a), oferecendo uma visão de mundo abrangente que fortalece o pressuposto da veritividade.
Roy (1997) também buscou inspiração nas culturas diversas e nas pesquisas sobre a origem do universo para fundamentar uma visão filosófica da realidade que denominou unidade cósmica (cosmic unity) — princípio segundo o qual seres humanos e a Terra compartilham padrões comuns e relações integrais. Swimme e Berry (1992) destacaram os padrões da Terra como unidade, diversidade e subjetividade, argumentando que ser é um estado de relação e conexão. Segundo os autores:
“No instante primordial em que as partículas primitivas se expandiram, cada uma estava conectada a todas as outras no universo inteiro. Nunca, em nenhum ponto futuro da existência do universo, elas chegariam a um estado de desconexão.” (p. 77)
O destino de cada galáxia está unido ao destino de todas as outras. Somos um com o universo e uns com os outros. No entanto, os seres do universo evoluíram de formas distintas. Temos a beleza natural das montanhas e planícies, flores delicadas e árvores gigantes, oceanos e lagoas. Essa diversidade terrestre nos ajuda a compreender a diversidade humana. A autoexpressão de cada entidade constitui o todo do universo. Roy chamou esse padrão de identidade pessoal (self identity). Assim, o universo — ou comunidade — emerge do caráter único de cada pessoa, e o potencial pleno de cada indivíduo contribui para o bem-estar social.
A crença em um universo intencional também é fundamental para compreender os pressupostos filosóficos do Modelo de Roy. Young (1986) destacou a ironia de o pensamento científico dominante negar propósito ao cosmos, justamente quando fatos extraordinários surgem da cosmologia, geologia e biologia sugerindo um universo ordenado e intencional. Haught (1993) observou que o avanço evolutivo do universo parece apontar para um objetivo cósmico voltado a formas cada vez mais intensas de novidade ordenada — ou seja, para o aumento da beleza e do valor do universo.
Muitas tradições religiosas sustentam que o mundo é ordenado e bom — que Deus é transcendente e intencional, e que o mundo depende Dele. As tradições abraâmicas (judaísmo, cristianismo e islamismo) afirmam a existência de um Deus criador, de quem tudo provém e para quem tudo retorna. Todos os seres humanos compartilham da intencionalidade do universo criado. A crença em um universo com propósito não nega a liberdade individual, mas sim a reforça.
Roy acredita que os indivíduos estão unidos em um destino comum e encontram significado nas relações mútuas com os outros, com o mundo e com uma figura divina. Ela enfatiza a comunalidade, incluindo a unidade e a diversidade humanas. O propósito comum e o destino compartilhado da humanidade oferecem profundas compreensões sobre a dignidade do ser humano em sua individualidade e sobre a dimensão sagrada da humanidade compartilhada. A enfermagem enxerga as pessoas como coextensivas com seus ambientes físicos e sociais. As(os) estudiosas(os) da enfermagem adotam uma posição baseada em valores. Enraizados em crenças e esperanças sobre o ser humano, desenvolvem um conhecimento profissional que visa promover o bem-estar das pessoas (Roy, 1997).
As crenças sobre o ser humano em sociedade contidas no princípio da veritividade estão sintetizadas nos Pressupostos Filosóficos listados na Tabela 2-2 (não incluída aqui).
Pressupostos Científicos
Os pressupostos científicos do Modelo de Adaptação de Roy (MAR) tiveram início com a teoria dos sistemas e a teoria do nível de adaptação. À medida que os conceitos associados ao modelo foram evoluindo, também se aprofundou a compreensão dos pressupostos científicos sobre os quais ele se fundamenta.
A contribuição da teoria dos sistemas à base científica do modelo é evidente na descrição dos seres humanos como sistemas adaptativos. Roy concebe os sistemas humanos adaptativos como compostos por partes interdependentes que atuam em unidade com um propósito comum. Os mecanismos de controle são centrais para o funcionamento dos sistemas humanos. Os conceitos da teoria dos sistemas, relacionados aos insumos (estímulos) e produtos (comportamentos), também oferecem contribuições significativas ao modelo.
Entretanto, os sistemas vivos são considerados fenômenos não lineares, multifacetados e complexos. O processo adaptativo não é concebido como uma simples relação estímulo-resposta. Em vez disso, os sistemas vivos — especialmente os sistemas humanos adaptativos — envolvem processos interativos complexos.
A teoria do nível de adaptação (Helson, 1964) constitui a teoria-mãe da qual emergem o conceito de adaptação proposto por Roy e a descrição dos seres humanos como sistemas com capacidade de adaptação e de transformação do ambiente. A habilidade para responder positivamente às mudanças ambientais depende do nível de adaptação do sistema humano — um pontodinâmico influenciado pelas demandas situacionais e pelos recursos internos. Três níveis de adaptação são descritos neste modelo: integrado, compensatório e comprometido.
Roy (1997) combinou as noções expandidas da teoria dos sistemas e da teoria da adaptação com sua visão de mundo para formular o conjunto de pressupostos científicos apresentados na Tabela 2-2. As ideias e a linguagem da teoria dos sistemas são compatíveis com visões do universo como progressivo em estrutura, organização e complexidade. Ao invés de se concentrar em um sistema que busca manter seu estado, o foco desloca-se para a intencionalidade da existência humana em um universo criativo. Roy enfatiza ainda que a ciência não nega a existência de um criador ou o significado da experiência humana. Pelo contrário, há uma literatura crescente que trata da integração entre fé e ciência (Smith-Moran, 2001).
Pressupostos Culturais
Roy iniciou suas viagens internacionais em 1980 e, eventualmente, visitou cerca de 30 países em cinco continentes. Sempre se sentiu inspirada pelos(as) enfermeiros(as) dedicados(as) que buscavam com entusiasmo novos conhecimentos e formas de aprimorar a prática de enfermagem. Roy também se sentia enriquecida pelas pessoas de diferentes origens culturais que compartilharam com ela seus lares e estilos de vida.
Ela constantemente reforçava a ideia de que os conceitos do Modelo de Adaptação de Roy poderiam ser ajustados às necessidades culturais de cada contexto. Contudo, não existiam diretrizes específicas para a realização de muitos desses ajustes.
Em 2007, dois membros do conselho executivo da Roy Adaptation Association reuniram-se com Roy para discutir essa questão. Martha Velasco-Whetsell e Keville Frederickson, que possuíam ampla experiência com enfermeiros(as) de outros países, especialmente da América Central e América do Sul, expressaram preocupações quanto à frustração vivenciada por profissionais cujas experiências não se encaixavam completamente nos conceitos do modelo. A discussão baseou-se em suas pesquisas transculturais sobre o caráter culturalmente condicionado da análise de conceitos, como o de ansiedade (Frederickson, Acuna, Whetsell, & Tallier, 2005).
A partir dessa discussão, Roy formulou os Pressupostos Culturais apresentados na Tabela 2-2. O objetivo de tornar esses pressupostos explícitos é fomentar o desenvolvimento do Modelo de Adaptação de Roy de maneira culturalmente relevante em cada país.
Esses três conjuntos de pressupostos — filosóficos, científicos e culturais — fundamentam e permeiam a descrição específica dos conceitos centrais do Modelo de Adaptação de Roy: o ser humano como sistema adaptativo (individual e coletivo), o ambiente, a saúde e o objetivo da enfermagem.
PESSOAS COMO SISTEMAS ADAPTATIVOS
Do ponto de vista da disciplina da Enfermagem, as pessoas são o foco central das atividades de enfermagem. A concepção de pessoas como sistemas adaptativos oferece um metaparadigma para a forma como enfermeiros se relacionam e interagem com os indivíduos, suas famílias, bem como com grupos, organizações, comunidades e sociedades das quais fazem parte.
Roy descreve as pessoas como sistemas adaptativos holísticos. O termo holístico deriva dos pressupostos filosóficos que sustentam o modelo e está relacionado à ideia de que os indivíduos funcionam como um todo, em uma expressão unificada de comportamento humano com significado. Assim, são mais do que a simples soma de suas partes. As pessoas representam a unidade na diversidade. Da mesma forma, há diversidade entre os seres humanos e a Terra, mas todos estão unidos por um destino comum.
O termo adaptativo é um conceito central nos pressupostos científicos do modelo. Os sistemas humanos adaptativos possuem capacidade de pensar e sentir, enraizadas na consciência e no significado, por meio das quais ajustam-se de forma eficaz às mudanças no ambiente e, por sua vez, também afetam esse ambiente. Pessoas e o planeta compartilham padrões comuns e uma mutualidade nas relações e nos significados.
Para compreender as pessoas como sistemas adaptativos, é necessário, primeiramente, entender o conceito de sistema. De forma geral, um sistema é um conjunto de partes interligadas que funcionam como um todo com um determinado propósito, exigindo a interdependência entre essas partes. Além da totalidade e da inter-relação das partes, os sistemas são vistos como experienciando entradas (inputs), saídas (outputs) e processos de controle e retroalimentação (feedback). Essa interação dinâmica e multifacetada é representada de maneira simplificada na Figura 2-1.
Roy aplicou essa teoria geral dos sistemas à descrição das pessoas como sistemas adaptativos. 
Conforme ilustrado na Figura 2-2, a entrada no sistema humano é denominada estímulo — definido como aquilo que provoca uma resposta. É o ponto de interação entre o sistema humano e o ambiente. Os estímulos podem ser externos (do ambiente) ou internos (do próprio organismo). Certos estímulos se agrupam para compor uma entrada interna específica chamada nível de adaptação.
O nível de adaptação representa a condição dos processos vitais. São descritos três níveis:
Integrado: o funcionamento usual e saudável.
Compensatório: o sistema tenta restaurar o equilíbrio por meio de respostas adaptativas.
Comprometido: quando os mecanismos compensatórios falham, resultando em desadaptação.
O comportamento (saída) do indivíduo ou grupo é função dos estímulos recebidos e do nível de adaptação presente. Como pessoas e ambiente estão em constante mudança, o nível de adaptação também é dinâmico. Um processo integrado pode regredir para um estado compensatório, desencadeando tentativas de readaptação. Se essas tentativas forem ineficazes, o processo torna-se comprometido.
Neste modelo, os principais processos de enfrentamento são:
Para indivíduos: subsistemas cognador e regulador.
Para grupos: subsistemas estabilizador e inovador.
Esses subsistemas atuam para manter os processos vitais integrados, que se manifestam por meio de comportamentos. Ao longo do tempo, os comportamentos originados desses processos vitais reconstituem padrões reconhecíveis em determinado indivíduo ou grupo. Os comportamentos — como produto do sistema humano — podem assumir a forma de respostas adaptativas ou ineficazes, que atuam como retroalimentação para o sistema, orientando se há necessidade de intensificar ou reduzir os esforços adaptativos diante dos estímulos.
Todos os aspectos dos sistemas humanos estão inter-relacionados. Qualquer alteração em uma parte do sistema afeta o todo. Da mesma forma, diferentes perspectivas de análise podem destacar aspectos distintos do indivíduo ou grupo. A imagem do caleidoscópio ajuda a visualizar como os elementos mudam de posição e refletem diferentes padrões com cada movimento. Outra metáfora útil é a de um show de luzes a laser computadorizado, no qual imagens mudam de tamanho, forma e cor, revelando novos aspectos do todo a cada momento.
Estímulos
O ambiente, no modelo de Roy, é entendido como o conjunto dos estímulos aos quais o sistema humano é exposto, classificados em três categorias:
Estímulo Focal
É o estímulo — interno ou externo — mais imediatamente presente na consciência do indivíduo ou grupo. Exige atenção e consumo de energia para ser enfrentado. Ex: dor após uma cirurgia, medo de um segundo AVC, separação dos pais em uma criança hospitalizada.
A nível coletivo, um evento como um ataque terrorista ou um surto de tuberculose pode se tornar um estímulo focal para toda a comunidade.
Estímulos Contextuais
São todos os outros estímulos presentes na situação, que contribuem para o efeito do estímulo focal, embora não sejam o foco principal da atenção. Eles influenciam como o sistema lida com o estímulo focal.
Ex: um paciente pode suportar melhor a dor se souber que é temporária, ou sentir mais dor se não conhecer a causa; o medo de outro AVC pode ser intensificado por memórias da própria experiência ou da morte de um familiar; ou ainda, fatores como umidade e vento intensificam a percepção térmicado clima.
Estímulos Residuais
São fatores ambientais — internos ou externos — cujos efeitos são incertos ou não evidentes na situação atual. Podem não estar na consciência do indivíduo ou do observador.
Ex: um medo intenso durante uma tempestade pode estar relacionado a uma memória infantil esquecida de ter se perdido em um temporal. Em comunidades, um programa assistencial baseado apenas em carências (modelo baseado em necessidades) pode ignorar as potencialidades locais e perpetuar os problemas — sendo, portanto, um estímulo residual negativo.
O enfermeiro, ao avaliar a situação de cuidado, deve considerar esses três tipos de estímulo. Frequentemente, os estímulos se alteram com o tempo: o que hoje é focal pode se tornar contextual, e o contextual pode tornar-se residual.
Por exemplo, a previsão do tempo em outra região do país pode ser um estímulo residual até o momento em que o indivíduo precisa viajar para lá — então, torna-se focal.
Contribuições para a Enfermagem
O Modelo de Adaptação de Roy enfatiza a capacidade de enfrentamento (coping) como um estímulo central. Esse conceito tem sido explorado por meio de uma teoria de médio alcance sobre o processamento adaptativo e o enfrentamento, sendo base para diversas pesquisas. O objetivo é substituir a ênfase nos “problemas e deficiências” por um enfoque nas capacidades adaptativas do indivíduo ou da comunidade — um estímulo positivo que pode potencializar a adaptação.
Ao longo do texto original de Roy, diversos exemplos mostram a importância da análise e distinção entre os três tipos de estímulo para a prestação do cuidado segundo este modelo.
Nível de Adaptação
Entre os estímulos focais, contextuais e residuais, destaca-se um input interno significativo: o nível de adaptação. Este termo designa três possíveis condições dos processos vitais do sistema adaptativo humano: integrado, compensatório e comprometido. O Modelo de Adaptação de Roy (MAR) sempre identificou o nível de adaptação como um estímulo, mas a definição foi detalhada apenas a partir da edição de 1999 (Roy & Andrews, 1999). Com o avanço do conhecimento sobre os processos básicos de vida de cada componente dos modos adaptativos (abordados nas partes 2 e 3), especifica-se que esses processos podem se manifestar nos três níveis mencionados.
Nível integrado: caracteriza estruturas e funções vitais que operam harmonicamente para atender às necessidades humanas. Por exemplo, a pele íntegra atua como barreira não específica contra infecções. A avaliação deste nível é realizada pela observação dos processos integrados descritos em cada modo adaptativo.
Nível compensatório: ocorre quando os mecanismos cognador e regulador (ou inovador e estabilizador, no caso de grupos) são ativados frente a desafios ao nível integrado. A febre, por exemplo, inibe a proliferação bacteriana e acelera o metabolismo para favorecer a reparação tecidual. Os modos adaptativos fornecem exemplos desses processos para a avaliação do enfermeiro.
Nível comprometido: manifesta-se quando tanto os processos integrados quanto os compensatórios são insuficientes, resultando em problemas adaptativos, como perda da integridade da pele e infecção. Nestes casos, o enfermeiro identifica o comprometimento adaptativo, descrito nos capítulos correspondentes aos modos adaptativos.
O nível de adaptação, portanto, descreve a condição dos processos vitais como estímulo que influencia a capacidade de indivíduos ou grupos de responder positivamente às situações. A avaliação do nível de adaptação integra a análise dos estímulos. Contudo, no processo de enfermagem, um processo comprometido pode constituir o desfecho da avaliação, sendo definido como diagnóstico de enfermagem. Este enfoque reflete a característica do modelo, que propõe analisar a experiência humana sob diferentes perspectivas, tal como padrões mutáveis de um caleidoscópio.
Helson (1964) utilizou inicialmente o termo “nível de adaptação” em sentido técnico, referindo-se à capacidade do sistema humano de lidar com um evento em função das demandas impostas e da situação interna vigente. Por exemplo, ao levantar pesos de diferentes massas, a percepção de esforço é influenciada tanto pelo peso atual quanto por fatores como o peso previamente levantado ou o condicionamento físico. Assim, a resposta adaptativa depende dos três tipos de estímulos e do estado atual dos processos vitais. O estímulo focal exerce maior efeito por determinar quais processos são relevantes para definir o nível de adaptação, havendo também influência de estímulos contextuais e residuais.
Avançando além da descrição de Helson, o conceito foi ampliado para aplicação na enfermagem. O MAR enfatiza que o sistema adaptativo humano é ativo e interage continuamente com o ambiente. Em geral, indivíduos e grupos mantêm processos integrados, mas podem modificar seus níveis adaptativos. Por exemplo, diante de novas demandas, pode-se buscar aprendizado, como um jovem que realiza curso de finanças ao iniciar vida independente. O aprendizado funciona como processo compensatório, elevando o nível adaptativo. Sem essa adaptação, o indivíduo poderia ter seu nível comprometido, resultando em dificuldades financeiras. De forma análoga, grupos também modificam o ambiente externo, como funcionários que se unem para ajustar expectativas irrealistas do empregador.
Em termos clínicos, enfermeiros encontram pessoas com diferentes capacidades para lidar com mudanças, apresentando processos integrados, compensatórios ou comprometidos, que refletem forças e desafios internos e externos. O nível de adaptação constitui fator-chave do ambiente interno, influenciado por experiências passadas, mesmo as não conscientes. Muitas famílias de crianças com malformações congênitas demonstram capacidade adaptativa elevada, respondendo com amor, planejamento e novos níveis de adaptação.
O nível de adaptação, portanto, determina a amplitude da capacidade de enfrentamento do sistema humano. Situações mutáveis podem restringir essa amplitude. Por exemplo, um(a) pai/mãe solo, usualmente capaz de lidar com múltiplas demandas, pode ter dificuldade em manejar uma hospitalização breve. A enfermagem desempenha papel fundamental no suporte a processos vitais, auxiliando indivíduos e grupos a utilizar mecanismos cognadores e reguladores, ou inovadores e estabilizadores, para desenvolver níveis integrados e compensatórios. Enfermeiros reconhecem forças e limitações de pacientes, famílias, comunidades e colegas, bem como suas próprias flutuações adaptativas em situações de fadiga e ansiedade. Esses desafios são vistos como oportunidades para crescimento, expansão de recursos internos e elevação dos níveis adaptativos.
Comportamento
Como descrito, os estímulos e o nível de adaptação funcionam como entradas para o sistema adaptativo humano. O processamento dessas entradas por meio de mecanismos de controle resulta em respostas comportamentais. O MAR propõe uma visão ampliada das experiências humanas relacionadas à saúde, abrangendo todas as respostas do sistema adaptativo, incluindo capacidades, recursos, habilidades, conhecimentos e compromissos.
O comportamento é definido amplamente como ações e reações internas ou externas sob determinadas circunstâncias. Caminhar em direção a um som alto exemplifica uma resposta externa, enquanto o aumento da frequência cardíaca, uma resposta interna. Sistemas humanos coletivos, como organizações, também apresentam comportamentos: hospitais que enfrentam restrições financeiras frequentemente recorrem à fusão ou redução de pessoal, acompanhadas por ansiedade e conflitos organizacionais.
Comportamentos podem ser observados, mensurados ou relatados subjetivamente. Segundo a Declaração de Política Social da ANA (2003), enfermeiros integram dados objetivos ao conhecimento da experiência subjetiva de indivíduos ou grupos. Por exemplo, a “atmosfera” de uma instituição pode ser observada nas interações entre colaboradores, avaliada por pesquisas de satisfação ou refletida na qualidade dos serviços.
Na perspectiva do MAR, o comportamentorevela quão eficazmente o sistema se adapta ao ambiente, sendo fundamental para avaliação e intervenção de enfermagem. Determinar se o comportamento é adaptativo ou ineficaz requer colaboração com o indivíduo ou grupo, considerando contexto e objetivos. Respostas adaptativas promovem a integridade do sistema humano nos objetivos de sobrevivência, crescimento, reprodução, domínio e transformação humano-ambiental. Beber água diante da desidratação é uma resposta adaptativa à sobrevivência; buscar educação continuada, à evolução e ao domínio.
Por outro lado, respostas ineficazes ameaçam a sobrevivência, crescimento, reprodução ou transformação do sistema. Um jejum prolongado, por exemplo, compromete a sobrevivência; a incapacidade de um hospital se adaptar às mudanças ambientais pode levar ao fechamento. O julgamento sobre eficácia considera tanto os objetivos gerais da adaptação quanto metas individuais. Em estágios finais de vida, a prioridade pode ser a preparação para a morte, não a mera sobrevivência, expressando integridade máxima na conclusão da trajetória vital.
Grupos também podem apresentar padrões ineficazes, como organizações que resistem a mudanças ambientais, exibindo atividade estabilizadora acentuada com inovação insuficiente (Malphurs, 1993). A avaliação do enfermeiro quanto ao comportamento adaptativo ou ineficaz integra os conceitos básicos do MAR e normas estabelecidas.
Processos e Capacidade de Enfrentamento
Ao aplicar o conceito de processos de controle de sistemas simplificados ao sistema adaptativo humano, o Modelo de Adaptação de Roy (MAR) conceitua as dinâmicas complexas do indivíduo como processos de enfrentamento. De forma geral, esses processos compreendem o subsistema regulador e os processos cognadores para indivíduos, e os subsistemas estabilizador e inovador para grupos.
Os processos de enfrentamento são definidos como formas inatas ou adquiridas de interação com o ambiente, respondendo e influenciando suas mudanças. Processos inatos são geneticamente determinados ou comuns à espécie, funcionando de maneira automática e inconsciente, sem necessidade de deliberação. Por exemplo, a capacidade de concentrar hemoglobina em grandes altitudes para compensar a menor saturação de oxigênio. Já os processos adquiridos se desenvolvem por meio do aprendizado e da experiência, formando respostas habituais a determinados estímulos, como uma criança que aprende a se levantar ao ouvir a mãe chamá-la para a escola.
Subsistemas Cognador e Regulador
No indivíduo, o MAR subdivide os processos inatos e adquiridos em dois subsistemas principais:
Subsistema regulador: responde por canais neurais, químicos e endócrinos. Estímulos internos e externos são processados automaticamente pelo sistema nervoso e afetam o equilíbrio hídrico, eletrolítico, ácido-base e hormonal, resultando em respostas fisiológicas automáticas. Um exemplo é o trabalho de parto, em que estímulos químicos e neurais desencadeiam respostas hormonais e neurológicas que promovem contrações uterinas e dilatação cervical. Esses processos interagem de forma integrada, evidenciando a natureza holística do indivíduo.
Subsistema cognador: responde por quatro canais cognitivo-emocionais — processamento perceptivo e informacional, aprendizado, julgamento e emoção. Esses canais englobam atenção seletiva, codificação, memória, imitação, reforço, insight, tomada de decisão, solução de problemas e processamento emocional. Por exemplo, ao dirigir um carro, a aprendizagem das habilidades motoras, a aplicação das regras de trânsito, o julgamento contínuo e as reações emocionais frente a situações inesperadas atuam simultaneamente.
Tanto estímulos internos quanto externos (sociais, físicos e fisiológicos) alimentam o subsistema cognador, sendo processados por seus canais e resultando em respostas adaptativas.
Capacidade de Enfrentamento
Com base nos conceitos do MAR, Roy desenvolveu uma teoria de médio alcance sobre enfrentamento e processamento adaptativo, compreendendo o coping como multidimensional (abrangendo os quatro modos adaptativos) e hierárquico (com níveis de processamento da informação). Pesquisas indutivas e dedutivas permitiram identificar estratégias de enfrentamento, desenvolvendo-se um instrumento de mensuração do coping e processamento adaptativo (Roy, 2007b). Fatores-chave para capacidade positiva incluem o uso de recursos pessoais e sociais, com foco na resolução de problemas. Indivíduos com menor capacidade tendem a respostas fixas e predominância de manifestações físicas. Intervenções de enfermagem podem ampliar essa capacidade, como demonstrado em pacientes cardiopatas (Gonzalez, 2007).
Subsistemas Estabilizador e Inovador
Assim como o controle adaptativo é essencial ao indivíduo, os subsistemas estabilizador e inovador são centrais para o funcionamento de sistemas sociais humanos. Os grupos buscam, simultaneamente, manutenção (estabilidade) e mudança (inovação):
Subsistema estabilizador: compreende estruturas, valores e atividades cotidianas que mantêm a coesão e viabilizam o propósito principal do grupo, como papéis definidos na família (provedores, cuidadores, educadores).
Subsistema inovador: abrange processos e estruturas para transformação e crescimento, envolvendo estratégias cognitivas e emocionais para mudança, como planejamento estratégico, desenvolvimento de equipes e criação de novos objetivos organizacionais. Quando eficiente, promove novos níveis de crescimento, domínio e transformação indivíduo-ambiente.
As relações complexas entre regulador e cognador, estabilizador e inovador, no indivíduo e no grupo, reforçam a visão holística do ser humano como sistema adaptativo.
Modos Adaptativos
Embora não seja possível observar diretamente o funcionamento dos subsistemas regulador–cognador e estabilizador–inovador, é possível avaliar os comportamentos resultantes, agrupados por Roy em quatro modos adaptativos para indivíduos e grupos:
Modo fisiológico-físico: para indivíduos, refere-se às interações físicas com o ambiente, manifestando funções fisiológicas celulares, teciduais e sistêmicas. Engloba cinco necessidades básicas (oxigenação, nutrição, eliminação, atividade/repouso, proteção) e quatro processos complexos (sentidos; equilíbrio hídrico, eletrolítico e ácido-base; função neurológica; função endócrina), visando integridade fisiológica. Em grupos, o foco está na adequação dos recursos humanos, físicos e financeiros, necessária para adaptação e manutenção.
Modo autoconceito–identidade grupal: aborda a integridade psíquica e espiritual, relacionada à autoimagem, coerência interna, ideais pessoais e valores éticos-espirituais no indivíduo; e, para grupos, ao senso de identidade coletiva, cultura, relações interpessoais e responsabilidade compartilhada.
Modo de função de papéis: refere-se à integridade social, ao desempenho de papéis sociais e ao entendimento das expectativas associadas a posições individuais e coletivas. Em grupos, envolve funções administrativas, gestão de informações e processos decisórios, com necessidade de clareza de papéis para atingir metas comuns.
Modo interdependência: foca nas relações de dar e receber amor, respeito e valor. Para indivíduos, a necessidade central é a integridade relacional, assegurada por vínculos significativos e sistemas de apoio. Para grupos, refere-se à adequação relacional, contextual e de recursos.
Os quatro modos interagem dinamicamente, influenciando-se mutuamente e evidenciando a natureza integrada do sistema adaptativo humano. Alterações em um modo frequentemente repercutem nos demais — por exemplo, a perda funcional de um membro afeta autoconceito e papéis sociais. Assim, a avaliação adaptativa requer a consideração do indivíduo ou grupo como um todo.
Ambiente
O ambiente é o segundo conceito central do Modelo de Adaptação de Roy (MAR), compreendido como o mundo interno e externo que envolve os sistemas humanos adaptativos. Os seres humanos interagem constantemente com o ambiente em mudança, gerando respostas adaptativas. Como a vida está em permanentetransformação, o sistema humano tem capacidade de formular novas respostas, crescer, desenvolver-se e ressignificar sua existência.
Um exemplo positivo é o paciente que, após um infarto quase fatal, reorganiza suas prioridades e adota um estilo de vida mais satisfatório, dedicando mais tempo à família. Sob a ótica grupal, destacam-se estudos sobre disparidades raciais e étnicas na assistência à saúde (Institute of Medicine, 2003), que impulsionaram pesquisas e melhorias na comunicação profissional e no aconselhamento sobre riscos em populações vulneráveis.
Roy, apoiando-se nos estudos de Helson (1964), descreve a adaptação como função do nível adaptativo, determinado pela soma de três tipos de estímulos:
Focais: confrontam diretamente o sistema humano.
Contextuais: outros estímulos relevantes que influenciam a situação.
Residuais: estímulos cujo efeito na adaptação é incerto.
Assim, o ambiente inclui todas as condições, circunstâncias e influências que afetam o desenvolvimento e o comportamento humano, considerando recursos humanos e naturais. Swimme e Berry (1992) descrevem-no como uma comunidade biofísica de seres interconectados, com padrões complexos de interação, retroalimentação e ciclos de crescimento e declínio.
Saúde
O conceito de saúde é complexo, evolutivo e contextual. Tradicionalmente entendida como ausência de doença, essa visão reducionista ignora a coexistência de bem-estar e enfermidade, além das experiências de pessoas com doenças crônicas que vivem de forma satisfatória.
A definição da Organização Mundial da Saúde (OMS) descreve saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença”. Críticos como Fitzgerald (1994) argumentam que essa concepção fomenta expectativas irreais, enquanto Illich (1974) defende que saúde é a capacidade de lidar competentemente com adversidades inevitáveis, como doença, estresse e morte.
Pender (1987) definiu saúde como a atualização do potencial humano por meio de comportamentos orientados a metas, autocuidado competente e relacionamentos satisfatórios, em harmonia com o ambiente. A American Nurses Association (2003) reforça que saúde e doença são experiências humanas, e que a presença de doença não exclui a saúde.
O MAR compreende saúde como um estado e processo de ser e tornar-se um ser humano integrado e pleno, resultado de respostas adaptativas que promovem sobrevivência, crescimento, reprodução, domínio e transformação humano-ambiental. A falta de integração equivale à falta de saúde. Por exemplo, uma mulher tetraplégica que constrói uma vida significativa como esposa, autora e pintora demonstra adaptação bem-sucedida, enquanto um estudante dependente de drogas, com queda no desempenho acadêmico, evidencia resposta ineficaz e necessidade de intervenção.
Objetivo da Enfermagem
De acordo com a American Nurses Association, a enfermagem visa proteger, promover e otimizar a saúde e habilidades, prevenir doenças e lesões, aliviar o sofrimento por meio do diagnóstico e tratamento das respostas humanas, além de atuar na defesa do cuidado de indivíduos, famílias, comunidades e populações.
No MAR, a enfermagem foca nas interações pessoa–ambiente que promovem desenvolvimento e bem-estar máximos, com a promoção da adaptação como meta central. O cuidado envolve:
avaliação do comportamento adaptativo e dos estímulos que o influenciam;
julgamento clínico;
intervenções direcionadas para facilitar a adaptação.
Por exemplo, no cuidado à primípara, além do manejo fisiológico, o enfermeiro atua para fortalecer seu autoconceito, papéis sociais e redes de apoio. Em níveis avançados, a enfermagem também intervém em grupos, organizações e comunidades, promovendo adaptação coletiva, como em ações para reduzir acidentes ocupacionais.
Roy resume o objetivo da enfermagem como “promover adaptação nos quatro modos adaptativos, contribuindo para saúde, qualidade de vida e morte digna”, reconhecendo que bem-estar físico, mental e social completos nem sempre são alcançáveis. Cabe ao enfermeiro facilitar as interações humano-ambiente, apoiar a interdependência e promover transformações pessoais e ambientais.
RESUMO
O Modelo de Adaptação de Roy (MAR) concebe os indivíduos e grupos como sistemas humanos adaptativos, cujos processos de enfrentamento (coping) mantêm a adaptação em relação a quatro modos adaptativos. Estímulos do ambiente interno e externo ativam os subsistemas de enfrentamento — regulador e cognador, nos indivíduos, e estabilizador e inovador, nos grupos — que, por sua vez, geram respostas comportamentais nos modos fisiológico-físico, autoconceito-identidade grupal, função de papéis e interdependência.
Essas respostas podem ser adaptativas, promovendo a integridade do sistema humano, ou ineficazes, não contribuindo para seus objetivos. Embora descritos separadamente, todos os componentes do sistema adaptativo humano funcionam de forma holística e interdependente.
No MAR, a saúde é definida como um estado e processo de ser e tornar-se um ser humano integrado e pleno, reflexo da interação entre sistema humano adaptativo e ambiente. O objetivo da enfermagem é promover a adaptação em cada um dos quatro modos, contribuindo para a saúde, qualidade de vida e morte digna.
As bases científicas, filosóficas e culturais do modelo incluem teoria dos sistemas, teoria do nível de adaptação, humanismo, veritividade e unidade e diversidade cósmica.
	1. Oxigenação;
	1. Sentidos;
	2. Nutrição;
	2. Equilíbrio hidroeletrolítico / Acidobásico;
	3. Eliminação;
	3. Função neurológica;
	4. Atividade / Repouso;
	4. Função endócrina;
	5. Proteção.
	
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