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TUTORIAL 2 - MÓDULO 2.1 1) Entender o quadro de sepse 2) Estudar a classe dos B-lactâmicos e como o uso de 2 da mesma classe funciona Sepse A sepse é definida como uma disfunção orgânica que apresenta risco a vida causada por uma resposta desregulada do hospedeiro à uma infecção. Evidências de disfunção orgânica incluem anormalidades clínicas e laboratoriais do sistema respiratório, coagulação, fígado, sistema cardiovascular, sistema nervoso e rins. Alguns pacientes que apresentam sepse podem desenvolver choque séptico, o qual é definido por anormalidades celulares profundas e perfusão inadequada de órgãos. Clinicamente, o choque séptico pode ser identificado em pacientes sépticos que apresentam hipotensão persistente (pressão arterial média abaixo de 65 mmHg) e lactato sérico elevado, apesar da administração adequada de fluidos intravenosos. Bacteriemia é um termo associado, definido como a presença de bactérias na corrente sanguínea. Aproximadamente 25% dos pacientes com sepse apresentam bacteriemia detectável. Os 75% restantes sem bacteriemia apresentam infecções sistêmicas, mais frequentemente no trato respiratório, trato urinário, vesícula biliar ou intestino, causadas por vírus, fungos e protozoários. Fisiopatologia A sepse resulta da interação do agente infeccioso, geralmente bactérias, com os sistemas imunológico, cardiovascular, neuronal, metabólico e de coagulação do hospedeiro. Algum grau de resposta inflamatória à infecção é normal, mas quando essa resposta se encontra desregulada, o excesso de mediadores pró e anti-inflamatórios pode levar à disfunção orgânica. A sepse causada por bactérias Gram-negativas é mediada principalmente por uma endotoxina, também conhecida como lipopolissacarídeo (LPS). Os principais efeitos do LPS são associados ao seu componente chamado de lipídeo A. O lipídeo A em conjunto com a proteína de ligação ao LPS se liga ao receptor do tipo Toll (TLR, Toll-like receptor) -4 na superfície dos macrófagos. Isso estimula a produção de interleucina (IL) -1, fator de necrose tumoral (TNF, tumor necrosis factor) e IL-6. Essas citocinas causam febre, alteram as células endoteliais provocando vazamento vascular e recrutam e ativam glóbulos brancos inflamatórios. O óxido nítrico também é liberado, causando vasodilatação e hipotensão, contribuindo para a hipotensão Estrutura da parede celular: Ao contrário das Gram-positivas (parede grossa de peptidoglicano), as Gram negativas têm: duas membranas, uma interna e uma externa. Entre elas, um espaço periplasmático com uma fina camada de peptidoglicano. A membrana externa contém LPS (lipopolissacarídeo), também chamado de endotoxina. O LPS tem duas partes importantes: Polissacarídeo → é o que varia entre espécies, principal antígeno de superfície, frequentemente utilizado no diagnóstico laboratorial Lipídio A → a parte tóxica → pode causar choque séptico (queda de pressão, falência circulatória). Consequência para a imunidade: O LPS ativa a via alternativa do complemento diretamente. Isso gera: • C3a e C5a → moléculas inflamatórias (quimiotáticas, chamam neutrófilos e aumentam inflamação). • C3b → opsonina (marca a bactéria para fagocitose). • C5-C9 → formam o Complexo de Ataque à Membrana (MAC) → faz “furos” na bactéria, levando à lise direta. Todas as endotoxinas produzem sintomas sistêmicos de febre e choque, embora endotoxinas de alguns microrganismos sejam mais eficientes quando comparadas às demais. Endotoxinas são pouco antigênicas; a produção de anticorpos protetores é tão baixa que inúmeros episódios de toxicidade podem ocorrer. A endotoxina também ativa a cascata de coagulação, causando coagulação intravascular disseminada (CIVD). A endotoxina inicia a CIVD, estimulando as células endoteliais a produzirem fator tecidual. O resultado final dessa cascata é a formação de trombos (compostos de fibrina) nos capilares do corpo, bloqueando o fluxo sanguíneo e resultando em anóxia dos órgãos vitais. Hemorragias petequiais e lesões purpúricas ocorrem quando o sangue vaza para os espaços teciduais no local onde as células endoteliais foram danificadas pela anóxia. A sepse causada por bactérias Gram-positivas não é mediada por endotoxina, uma vez que essas bactérias não contêm LPS. Ao invés, existem componentes de superfície, como o peptidoglicano e o ácido teicoico que estimulam o macrófago a produzir as mesmas citocinas que a endotoxina. Da mesma forma, alguns fungos, vírus e protozoários possuem elementos que podem estimular os macrófagos produzindo efeito similar. A relevância médica dos ácidos teicoicos reside em sua capacidade de induzir inflamação e choque séptico quando causado por certas bactérias Gram positivas; isto é, os ácidos teicoicos ativam as mesmas vias que a endotoxina (LPS) de bactérias Gram-negativas. Frequentemente, a sepse é caracterizada por uma elevação no total de leucócitos no sangue, principalmente neutrófilos, mas pode ser acompanhada por uma redução no número e na função dos leucócitos, principalmente nos linfócitos B e T. Isso limita a resposta adaptativa do hospedeiro, eleva a gravidade da infecção e aumenta ainda mais o impacto da sepse. Uma predisposição para a sepse é observada em indivíduos muito jovens (sepse neonatal), muito idosos, naqueles com defesas reduzidas e em pessoas com doenças crônicas, como diabetes, hepatite crônica e insuficiência renal. Mecanismos da disfunção orgânica induzida pela sepse Na sepse, a resposta do hospedeiro contra a infecção ativa uma série de mecanismos que acabam prejudicando o transporte e a utilização de oxigênio (DO₂) nos tecidos. A gravidade e a forma como esses mecanismos se manifestam variam de acordo com o órgão afetado, características do paciente (idade, genética, uso de medicamentos) e fatores do próprio microrganismo (carga e virulência). 1. Início da resposta inflamatória Acontece quando moléculas dos patógenos chamadas PAMPs (padrões moleculares associados a patógenos, como LPS de bactérias gram-negativas) são reconhecidas por PRRs (receptores de reconhecimento de padrão) presentes nas células da imunidade inata. Esses receptores incluem TLRs (Toll-like receptors) e CLRs (receptores de lectina tipo C) na superfície ou endossomos, e NLRs (receptores de oligomerização de nucleotídeos) e RIG-1 no citoplasma. 2. DAMPs – amplificação da inflamação O dano tecidual e a morte celular liberam moléculas chamadas DAMPs (padrões moleculares associados a dano), como ácido úrico, proteínas S100, histonas, DNA e RNA extracelulares. Esses DAMPs reforçam a ativação das células imunes, aumentando ainda mais a inflamação. 3. Consequências vasculares e endoteliais O endotélio ativado (pela inflamação) passa a expressar moléculas de adesão (ICAM-1, VCAM-1), facilitando a migração de leucócitos (facilita que neutrófilos e monócitos parem no vaso e migrem para o tecido infectado.) Há disfunção endotelial, com maior permeabilidade → ocorre edema tecidual (os espaços entre células endoteliais se abrem → plasma e proteínas extravasam para os tecidos) e hipovolemia relativa (perda de volume efetivo no intravascular, mais sangue no interstício e menos no intravascular). Em paralelo, há ativação do sistema de coagulação e do complemento, o que contribui para microtromboses e pior perfusão. 4. Alterações hemodinâmicas Ocorrem vasodilatação sistêmica e queda da pressão arterial, agravando a dificuldade de oxigenação dos tecidos. 5. Alterações celulares e metabólicas As células passam a usar mais glicólise anaeróbica, aumentando a produção de lactato. Há lesão mitocondrial e excesso de espécies reativas de oxigênio (EROs), o queprejudica ainda mais a produção de energia. Esse conjunto de alterações resulta em falência orgânica progressiva. Manifestação clínica A ocorrência de febre e hipotensão são características evidentes do choque séptico. Outras manifestações clínicas incluem taquicardia, leucocitose (aumento taquipneia e de leucócitos, principalmente de neutrófilos). Associados a sinais de disfunção orgânica sistêmica, incluindo hipoxemia, plaquetas baixas, função hepática anormal, hipotensão, alterações do estado mental e lesão renal (ver Tab. 79-1). No choque séptico, a hipotensão é grave o suficiente para exigir a administração de vasopressores que mantenham a pressão arterial média em 65 mmHg. Podem ocorrer também hemorragias petequiais e erupção cutânea purpúrica, os quais indicam a ativação da cascata de coagulação. Patógenos A sepse pode ser causada por uma variedade de patógenos (Tab. 79-2). As bactérias causam a grande maioria dos casos de sepse e choque séptico. No entanto, vírus como o ebola, influenza, hantavírus, vírus da febre amarela e vírus da dengue (febre hemorrágica da dengue) também podem desencadear características clínicas de sepse. Além disso, leveduras, como a Candida albicans, e protozoários, como Plasmodium falciparum, também podem causar uma síndrome séptica. Entre as bactérias, bastonetes Gram- negativos, como Enterobacteriaceae (p. ex., E. coli, Enterobacter, Klebsiella, Serratia e Proteus) e Pseudomonas, são causas comuns de sepse mediada por endotoxina. Neisseria meningitidis causa meningococemia, uma causa comum de choque séptico em adultos jovens. Bactérias Gram-positivas, como Staphylococcus aureus e Enterococcus faecalis, também são causas importantes de sepse. Streptococcus pneumoniae também é uma causa importante de sepse, especialmente em pacientes asplênicos. Tanto o S. aureus quanto os estreptococos do grupo A (Streptococcus pyogenes) causam a síndrome do choque tóxico mediada por superantígenos Diagnóstico Para identificar a causa microbiológica da sepse, as hemoculturas representam a base do diagnóstico de infecções da corrente sanguínea. Também devem ser feitos exames de análise e culturas de urina. Outros sítios de infecção, incluindo lesões cutâneas e escarro, devem ser cultivados. Aproximadamente 25% dos pacientes sépticos não terão o seu organismo causador identificado por cultura. Tratamento A sepse é uma emergência que apresenta risco a vida. É essencial administrar antibióticos bactericidas de amplo espectro por via intravenosa para contemplar os organismos mais prováveis. Os antibióticos devem ser iniciados diretamente após a coleta de amostras para a hemocultura. O objetivo é iniciar o tratamento antibiótico intravenoso dentro da primeira hora após o diagnóstico de sepse ou choque séptico. A prevalência de organismos resistentes a antibióticos deve ser considerada na escolha do regime de tratamento. Uma sugestão de regime antibiótico inclui vancomicina associada a uma cefalosporina de terceira ou quarta geração, como ceftazidima ou cefepima, piperacilina/tazobactam ou um carbapenem, como o imipenem. Pode ser adicionado um aminoglicosídeo ou uma fluoroquinolona. Além da terapia antimicrobiana, o tratamento da sepse é semelhante ao tratamento de outras causas de choque hipotensivo distributivo. Fluidos intravenosos, particularmente soluções cristaloides, são usados para aumentar o volume sanguíneo. Caso a administração de fluidos seja ineficaz, a hipotensão também pode ser tratada com vasopressores, como a noradrenalina. Pode ser necessário suplementação de oxigênio, respiração assistida com ventilador e/ou diálise para insuficiência renal. Nenhuma dessas medidas será bem- sucedida, a menos que sejam feitos esforços produtivos para se identificar e remover a fonte da infecção. Qualquer corpo estranho infectado (p. ex., cateteres intravenosos) deve ser removido o mais rápido possível e qualquer abscesso deve ser drenado e cultivado. Sepse x bacteriemia Diferença essencial o Bacteriemia = bactéria no sangue (dado microbiológico). o Sepse = resposta clínica grave do hospedeiro, com risco de falência orgânica. Uma pessoa pode ter: Bacteriemia sem sepse (ex.: hemocultura positiva, mas paciente estável). Sepse sem bacteriemia (ex.: pneumonia grave com sepse, mas hemocultura negativa). Ou as duas juntas (infecção urinária → bacteriemia por E. coli → sepse). Sepse = disfunção orgânica causada por resposta inflamatória descontrolada a uma infecção. Não exige bacteriemia. O que importa é a cascata inflamatória sistêmica, que pode ser disparada por bactérias, toxinas ou até fungos/parasitas em um foco localizado. SOFA Sequential Organ Failure Assessment (ou Avaliação Sequencial da Falência de Órgãos). Ele analisa 6 sistemas do corpo, atribuindo de 0 a 4 pontos para cada um, conforme a gravidade da disfunção: o Respiração → avaliado pela PaO₂/FiO₂ (oxigenação). o Coagulação → contagem de plaquetas. o Fígado → bilirrubina. o Sistema cardiovascular → pressão arterial e necessidade de vasopressores. o Sistema nervoso central → Escala de Coma de Glasgow. o Rins → creatinina e débito urinário. 0 pontos = função normal 4 pontos = disfunção grave/falência A soma varia de 0 a 24 pontos. SOFA na sepse Um aumento ≥ 2 pontos no SOFA em paciente com suspeita ou infecção confirmada indica disfunção orgânica significativa → define sepse. Quanto maior o SOFA, pior o prognóstico (risco maior de morte). B-lactâmicos e o uso de 2 da mesma classe Os antibióticos β-lactâmicos – penicilinas, cefalosporinas, carbapenêmicos e monobactâmicos – compartilham uma estrutura (anel β- lactâmico) e um mecanismo de ação (i.e., inibição da síntese da parede celular de peptideoglicanos das bactérias). Os β- lactâmicos são a classe mais importante de antibacterianos, tendo em vista o seu espectro amplo e variado de atividade, sua potente atividade bactericida e sua tolerabilidade geralmente favorável. Infelizmente, a resistência aos β- lactâmicos tem aumentado de maneira constante, exigindo o desenvolvimento de novos agentes que possam escapar desses mecanismos (p. ex., ceftarolina) ou neutralizá-los (p. ex., inibidores da β- lactamase). Os glicopeptídeos, incluindo a vancomicina, e os lipopeptídeos (daptomicina) são importantes alternativas no tratamento de infecções causadas por microrganismos Gram-positivos. A parece celular das bactérias é composta de peptideoglicanos heteropoliméricos, que conferem estabilidade mecânica rígida. Os antibióticos β-lactâmicos inibem a última etapa da síntese dos peptideoglicanos. Nos microrganismos Gram-positivos, a parede celular tem uma espessura de 50 a 100 moléculas; nas bactérias Gram-negativas, sua espessura é de apenas 1 ou 2 moléculas. O peptideoglicano é constituído de cadeias de glicano, que são filamentos lineares de dois aminoaçúcares alternados (N- acetilglicosamina e ácido N- acetilmurâmico), que são unidos por ligações cruzadas de cadeias peptídicas. A formação dos precursores dos peptideoglicanos ocorre no citoplasma. A síntese de UDP- acetilmuramilpentapeptídeo é finalizada com o acréscimo de um dipeptídeo, a d- alanil-d-alanina, formado por racemização e condensação da l-alanina. O UDP- acetilmuramilpentapeptídeo e o UDP- acetilglicosamina são reunidos, com liberação dos nucleotídeos de uridina, para formar um polímero longo. A ligação cruzada é concluída por uma reação de transpeptidação que ocorre fora da membrana celular Os antibióticos β-lactâmicos inibem essa última etapa da síntese dos peptideoglicanos pela acetilação da transpeptidase via clivagem da ligação – CO–N– do anel β-lactâmico. Os alvos de transpeptidasepara as ações dos antibióticos β-lactâmicos são coletivamente denominados proteínas de ligação às penicilinas (PLP). É notável observar que as bactérias podem produzir múltiplas PLP funcionalmente relacionadas, porém distintas, e cada uma dessas PLP pode ter afinidades variáveis por β-lactâmicos específicos. A letalidade antibacteriana das penicilinas parece envolver mecanismos tanto líticos quanto não líticos (Bayles, 2000), e a inibição de algumas PLP pode ser mais relevante do que outras para a atividade bactericida. São um grupo de antibióticos pouco tóxico para o Homem, isto porque tem um alvo que é apenas específico das células bacterianas. Ou seja, eles interferem na síntese do peptidoglicano, um componente existente da parede celular, que não se encontra nas células humanas. Pode-se considerar então, que os beta-lactâmicos têm um tropismo elevado para a célula bacteriana. O peptidoglicano é então um componente essencial da parede celular bacteriana, que se encontra do lado de fora da membrana citoplasmática da maioria das bactérias. A sua principal função é preservar a integridade da célula quando esta se encontra em ambientes hipotónicos. Esta macromolécula tem tal importância, que qualquer tipo de inibição da sua biossíntese (mutação ou antibióticos antiparietais), ou de degradação (lisozimas), durante o crescimento celular, resultará na lise da célula, exercendo uma ação bacteriolítica. Contribui ainda para a manutenção da forma da célula e serve de suporte para outros componentes. O peptidoglicano é constituído por cadeias lineares de açúcares alternados, a N acetilglucosamina (NAG) e o ácido N- acetilmurânico (NAMA), como demonstra a Figura 15, podendo a sua química alterar ligeiramente entre diferentes bactérias. Principais classes • Penicilinas: naturais (penicilina G, V) e semissintéticas (ampicilina, amoxicilina, oxacilina, piperacilina). • Cefalosporinas: classificadas em gerações (1ª à 5ª) com espectro progressivamente ampliado contra Gram-negativos e maior estabilidade às β-lactamases. • Carbapenêmicos (imipeném, meropeném): amplo espectro, resistentes a muitas β-lactamases, usados em infecções graves. • Monobactâmicos (aztreonam): ativos contra Gram-negativos aeróbios, sem reação cruzada significativa com penicilinas. 1. Biosíntese do peptidoglicano e a interferência dos beta-lactâmicos As bactérias são produzidas por divisão binária. Assim, antes desta divisão é imprescindível que elas aumentem de tamanho sendo necessário a produção de mucopeptídeo para que se possa formar uma nova parede celular. Neste processo de crescimento, a parede celular junta antigos fragmentos de peptidoglicano com os novos recém-formandos, havendo posteriormente a divisão. Antes deste processo é necessário a síntese propriamente dita do peptidoglicano. Esta consiste em três fases, como se resume na Tabela Existem diversos antibióticos que atuam na biossíntese do peptidoglicano, pois, se conseguirem que ocorra uma perturbação neste processo, vai ocorrer a lise celular, exercendo assim uma ação bacteriolítica. Podem atuar em todas as fases, por exemplo a fosfomicina atua na fase citoplasmática, enquanto os beta- lactâmicos tem o seu alvo no folheto externo da membrana celular, atuando assim na fase parietal. Portanto, os beta-lactâmicos têm a sua ação na fase final da biossíntese do peptidoglicano. Nesta fase há a ação das autolisinas bacterianas que quebram as ligações covalentes do peptidoglicano existente, para que haja a inserção nos novos “tijolos” na parede celular. Os antibióticos beta-lactâmicos conseguem inibir irreversivelmente as D-D- carboxitranspeptidases, conhecidas por PBP´s (penicillin binding-proteins), impedindo assim a formação das ligações entre as cadeias peptídicas de peptidoglicano (“cross-linking”). Isto acontece devido à similaridade existente entre o anel beta-lactâmico e a região dos tetrapeptidos recém-formados onde se ligariam as PBP´s. Assim sendo, para que os beta- lactâmicos tenham atividade é necessário que a bactéria se encontre em fase de multiplicação, visto que é neste momento que há a produção de parede celular. Conclui-se assim que esta classe de antibióticos não é útil em situações onde o desenvolvimento bacteriano se encontra numa fasea estacionária, como no caso dos abcessos. Não sendo também útil contra infeções causadas pelo Mycoplasma e Ureaplasma, visto que é um grupo onde a parede celular não está presente na sua estrutura. Os beta-lactâmicos têm também uma ação sobre as autolisinas bacterianas endógenas, conseguindo ativá-las, levando à destruição enzimática do peptidoglicano. Para que estes antibióticos consigam exercer o seu efeito, é necessário que atravessem a parece celular bacteriana e se liguem às PBP´s, mantendo o seu anel beta-lactâmico intacto. Dado que as bactérias Gram-negativo e Gram-positivo possuem uma estrutura diferente, é de esperar que o modo como estes penetram nas bactérias seja também diferente. Apesar de os Gram-negativo apresentarem por fora uma camada rica em lípidos, devido ao peso molecular dos beta lactâmicos e à sua hidrofilia compatível com os canais de porina, conseguem atravessar igualmente β-Lactâmicos: mecanismos de resistência bacteriana A resistência das bactérias aos antibióticos β-lactâmicos normalmente ocorre por um dos três mecanismos seguintes: alterações no alvo das PLP, redução da concentração no local-alvo e/ou degradação enzimática do próprio β- lactâmico. Uma cepa sensível pode adquirir resistência por meio de mutações que diminuem a afinidade das PLP pelo antibiótico ou por meio da aquisição da capacidade de expressar novas PLP de baixa afinidade (p. ex., por transferência de plasmídeos). As PLP alteradas com menor afinidade pelos antibióticos β-lactâmicos também podem ser adquiridas por recombinação homóloga entre genes das PLP de diferentes espécies bacterianas. A resistência bacteriana aos antibióticos β-lactâmicos também resulta da incapacidade do fármaco de alcançar concentrações suficientes no seu local de ação (Fernández e Hancock, 2012). No caso das bactérias Gram-positivas, o polímero de peptideoglicano está muito próximo da superfície da célula (ver Fig. 58-1A), e as moléculas pequenas dos antibióticos β- lactâmicos conseguem penetrar facilmente na camada externa da membrana citoplasmática e chegar às PLP. No caso das bactérias Gram-negativas, a membrana interna é interna à membrana externa e à cápsula (ver Fig. 58-1A); a membrana externa atua como uma barreira impenetrável para alguns antibióticos. Entretanto, certos antibióticos hidrofílicos pequenos difundem-se através dos canais aquosos presentes na membrana externa, que são constituídos por proteínas denominadas porinas. A quantidade e a dimensão dos poros da membrana externa variam nas diversas espécies de bactérias Gram-negativas e, desse modo, permitem maior ou menor acesso dos antibióticos ao seu sítio de ação. As bombas de efluxo ativas atuam como outro mecanismo de resistência, uma vez que removem o antibiótico de seu local de ação antes que ele possa agir. As bactérias também podem inativar enzimaticamente os antibióticos β- lactâmicos pela ação de β-lactamases. Milhares de β-lactamases diferentes foram caracterizadas de forma variada de acordo com a sua classe molecular ou características funcionais (Bush e Jacoby, 2010). Suas especificidades por substratos podem ser relativamente estritas ou podem estender-se a quase todos os β-lactâmicos. Em geral, as bactérias Gram- positivas produzem e secretam grandes quantidades de β-lactamase, normalmente penicilinases de espectro estreito. A sequência da penicilinase estafilocócicaé codificada em um plasmídeo; este pode ser transferido por bacteriófagos a outras bactérias, e a sua expressão é induzível por substratos de antibióticos. Nas bactérias Gram-negativas, as β-lactamases são encontradas em quantidades menores, porém a sua localização no espaço periplasmático entre as membranas interna e externa (ver Fig. 58-1A) confere uma proteção máxima ao micróbio. As β- lactamases das bactérias Gram-negativas são codificadas por cromossomos ou por elementos transferíveis, como os plasmídeos; sua expressão pode ser constitutiva ou induzível. Há uma preocupação particular com as carbapenemases, ou seja, β-lactamases que são capazes de hidrolisar carbapenêmicos, bem como penicilinas e cefalosporinas. Os microrganismos que expressam essas β- lactamases (juntamente com outros mecanismos de resistência) podem ser resistentes a todos ou quase todos os antibacterianos disponíveis para uso clínico Inibidores da β-lactamase Devido ao papel essencial desempenhado pelas β-lactamases ao conferir resistência aos β-lactâmicos, um número crescente de β-lactâmicos é coformulado com moléculas cuja função é “proteger” o β-lactâmico da β-lactamase. Esses inibidores da β-lactamase ligam-se às β-lactamases e impedem as enzimas de hidrolisar agentes β-lactâmicos que estejam presentes na vizinhança. Os inibidores da β-lactamase de geração mais antiga (p. ex., clavulanato, sulbactam e tazobactam) inativam muitas β-lactamases codificadas por plasmídeos, porém são incapazes de fornecer proteção nas concentrações clinicamente alcançadas contra as AmpC β-lactamases codificadas por cromossomos em alguns bacilos Gram- negativos (p. ex., Enterobacter, Citrobacter e Pseudomonas), bem como carbapenemases do tipo carbapenemase da Klebsiella pneumoniae (KPC) e metalo-β- lactamase. O avibactam, o vaborbactam e o relebactam são novos inibidores da β- lactamase estruturalmente diferentes dos fármacos da geração mais antiga, com espectro de inibição mais amplo Penicilinas Apesar do desenvolvimento de resistência, as penicilinas continuam sendo os fármacos de escolha para um número significativo de doenças infecciosas. As penicilinas (Fig. 58-4) consistem em um anel de tiazolidina (A) ligado a um anel β- lactâmico (B), ao qual está conectado por uma cadeia lateral (R). O próprio núcleo da penicilina é o requisito estrutural principal para sua atividade biológica. É possível acrescentar cadeias laterais que alteram a sensibilidade dos compostos resultantes às enzimas inativadoras (β-lactamases), melhoram a afinidade pelas PLP, aumentam a capacidade do fármaco de atravessar a membrana externa das bactérias Gram-negativas e modificam as propriedades farmacocinéticas do fármaco Isoxazolilpenicilinas: oxacilina, cloxacilina e dicloxacilina A oxacilina, a cloxacilina (não disponível nos Estados Unidos) e a dicloxacilina são congêneres semissintéticos da isoxazolilpenicilina, que mostram resistência acentuada à clivagem pela penicilinase. A nafcilina é um congênere semelhante com estrutura ligeiramente diferente. Esses fármacos não substituem a penicilina G no tratamento de doenças sensíveis a esse antibiótico e não são ativos contra enterococos, Listeria ou microrganismos Gram-negativos. Associação de dois medicamentos da mesma classe Em sepse grave, a escolha do antibiótico é crucial. Mas associar dois β- lactâmicos (mesma classe) não é recomendado Por quê não se associa β- lactâmicos entre si: Todos os β-lactâmicos têm mesmo mecanismo de ação → inibição das PBPs. A associação não gera sinergia real (efeito não soma). Pode aumentar toxicidade (reações adversas) e custo, sem benefício clínico. Exceção: raríssimas situações de “inoculum effect”, mas na prática clínica moderna não se faz. O que se faz na sepse: Terapia combinada, mas com classes diferentes, buscando: Ampliar espectro empírico (cobrir Gram+, Gram−, anaeróbios, Pseudomonas, fungos dependendo do risco).Sinergia real entre mecanismos distintos. Exemplos práticos em sepse: β-lactâmico (piperacilina-tazobactam, meropenem, cefepime) + aminoglicosídeo (gentamicina, amicacina) → aumenta chance de cobrir Gram− multirresistentes. β-lactâmico + vancomicina/linezolida → quando há risco de MRSA. Em alguns casos, antifúngico é associado se há risco de candidemia. Mecanismos da disfunção orgânica induzida pela sepse Na sepse, a resposta do hospedeiro contra a infecção ativa uma série de mecanismos que acabam prejudicando o transporte e a utilização de oxigênio (DO₂) nos tecidos. A gravidade e a forma como esses mecanismos se manifestam variam de acordo com o órgã... Diferença essencial SOFA SOFA na sepse Principais classes O que se faz na sepse: