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A Teoria da Alma Tripartida em Platão e Comparações com Escolas Posteriores TIPO Material de referência SITUAÇÃO Entrada TIPO DE MATERIAL CONTEXTO TAREFA ÁREAS Desenvolvimento Pessoal e Intelectual RECURSOS Filosofia ASSUNTO Virtudes CONEXÕES A ALMA TRIPARTIDA E A FORMAÇÃO DAS VIRTUDES CARDEAIS ⭐ A Teoria da Alma Tripartida em Platão e Comparações com Escolas Posteriores A Teoria da Alma Tripartida em Platão e Comparações com Escolas Posteriores Introdução Platão e a Alma Tripartida A República: Três Partes da Alma e a Justiça O Carro Alado no Fedro A Visão do Fédon sobre a Alma Comparações com Aristóteles, Estóicos e Epicuristas A Concepção Aristotélica da Alma A Perspectiva dos Estóicos A Perspectiva dos Epicuristas Conclusão A Teoria da Alma Tripartida em Platão e Comparações com Escolas Posteriores 1 https://www.notion.so/Desenvolvimento-Pessoal-e-Intelectual-91eeb2f4485044cea601d4006a8c17b9?pvs=21 https://www.notion.so/Desenvolvimento-Pessoal-e-Intelectual-91eeb2f4485044cea601d4006a8c17b9?pvs=21 https://www.notion.so/Filosofia-a7810207324c4e5290f59456a3d51832?pvs=21 https://www.notion.so/Filosofia-a7810207324c4e5290f59456a3d51832?pvs=21 https://www.notion.so/A-ALMA-TRIPARTIDA-E-A-FORMA-O-DAS-VIRTUDES-CARDEAIS-710d2299a232429990a8765acac8ee5c?pvs=21 https://www.notion.so/A-ALMA-TRIPARTIDA-E-A-FORMA-O-DAS-VIRTUDES-CARDEAIS-710d2299a232429990a8765acac8ee5c?pvs=21 Introdução Platão desenvolveu na obra A República a teoria da alma tripartida, segundo a qual a psique humana está dividida em três partes distintas: a parte racional, a parte irascível (ou espírito fogoso) e a parte concupiscente (ou apetitiva). Essa divisão surge da tentativa de explicar conflitos internos da motivação humana – por exemplo, quando a razão quer agir de um modo, mas os desejos empurram em outra direção. Platão identifica cada parte da alma com funções e valores próprios, e estabelece uma analogia entre a estrutura interna da alma e a organização ideal da cidade. Nessas discussões, a justiça pessoal é definida em termos de harmonia entre as partes da alma, e o sumo Bem (a Ideia do Bem) é posto como fim último que orienta a parte racional. Além de A República, a alegoria do Fedro ilustra poeticamente essa tripartição, enquanto Fédon oferece uma visão complementar sobre a natureza imortal e pura da alma racional separada do corpo. Neste relatório, exploramos detalhadamente a teoria platônica da alma tripartida e suas partes, seu papel na psicologia e na ética de Platão – especialmente em relação à justiça e ao Bem – e examinamos como outras correntes filosóficas da Antiguidade (notadamente Aristóteles, os estóicos e os epicuristas) compartilharam, modificaram ou rejeitaram essa concepção da alma, indicando convergências, divergências e possíveis influências entre essas escolas. Platão e a Alma Tripartida A República: Três Partes da Alma e a Justiça Em A República Livro IV, Platão expõe sistematicamente a divisão tripartida da alma humana. Os três componentes são: logístikon (racional), responsável pelo pensamento e pela busca da verdade; thymoeidés (irascível ou colérico), fonte de coragem, indignação e desejo de honra; e epithymētikón (concupiscente ou apetitivo), sede dos apetites físicos e das paixões por prazeres materiais. A existência dessas partes é inferida por Sócrates a partir do princípio de que uma mesma entidade não pode ao mesmo tempo agir de maneiras opostas em relação ao mesmo objeto. Por exemplo, a mesma pessoa não conseguiria simultaneamente desejar algo e rejeitá-lo na mesma condição, o que sugere que “não era a mesma coisa que atuava, mas uma pluralidadeˮ de agentes psíquicos distintos República 4, 436b-439e). Assim, a alma deve ter pelo menos dois aspectos; posteriormente identifica-se um terceiro, A Teoria da Alma Tripartida em Platão e Comparações com Escolas Posteriores 2 correspondente ao “espíritoˮ (thymós), que nas almas bem ordenadas deve aliar-se à razão contra os impulsos desregrados. Platão relaciona cada parte da alma a um papel específico e a uma virtude correspondente, espelhando-as nas classes de sua cidade ideal. A parte racional, localizada simbolicamente na cabeça, busca a verdade e deve governar as demais com sabedoria; ela corresponde à classe dos governantes-filósofos e tem por virtude a sabedoria. A parte irascível ou colérica (também chamada “espíritoˮ), figurada no peito, é fonte de bravura, orgulho e sentido de honra; corresponde aos guardiões guerreiros e tem como virtude a coragem. Por fim, a parte concupiscente ou apetitiva, associada ao ventre, diz respeito aos desejos corporais (fome, sede, sexo, riqueza material) e motiva a maioria dos homens comuns; a virtude que a limita é a temperança ou moderação, entendida como o consenso de todas as partes em aceitar a liderança da razão. Platão afirma que essas três faculdades estão presentes em cada indivíduo e também na cidade: “correspondendo aos três tipos presentes na cidade, a alma também é tripartidaˮ República 4, 435c- 436a). A justiça, nessa concepção, é definida como a condição na qual cada parte cumpre sua função adequada sem usurpar a função das outras. Sócrates explica que haverá justiça na cidade se cada classe ocupar-se apenas do que lhe compete; analogamente, a alma individual é justa quando cada parte interna realiza corretamente o seu próprio ofício e não interfere nos demais. Isso requer, em particular, que as partes “superioresˮ – razão e espírito – recebam a educação apropriada para domar e guiar a parte apetitiva. Quando a razão (auxiliada pelo bom ânimo do espírito) governa os apetites, instaura- se uma ordem harmoniosa na alma. Então as outras virtudes florescem: a coragem passa a consistir na firmeza nobre do espírito controlado pela razão, e a moderação consiste na concordância entre todas as facetas da psique sobre quem deve comandar. A justiça surge como a qualidade integradora que mantém essa harmonia interna – o justo “harmoniza as três partes de sua almaˮ – ao passo que a injustiça representa a rebelião de uma parte contra as demais, invertendo a hierarquia natural (por exemplo, quando apetites ou paixões usurpam o comando da razão). Platão compara a justiça à saúde ou sanidade da alma, e a injustiça à sua doença: assim como ninguém em sã consciência preferiria viver com o corpo doente, tampouco se deveria preferir uma alma desordenada e injusta, pois esta é intrinsecamente miserável. Desse modo, ao término do Livro IV de A República, conclui-se provisoriamente que a justiça é um bem em si mesma para a alma – uma A Teoria da Alma Tripartida em Platão e Comparações com Escolas Posteriores 3 condição interna de equilíbrio que faz seu possuidor verdadeiramente feliz, ao contrário da alma injusta, que é internamente conflitante e doente. No prosseguimento de A República, Platão amarra as pontas soltas dessa teoria. Ele reforça que a razão deve reinar soberana na alma e, portanto, a educação dos governantes-filósofos torna-se tema central Livros VI e VII. Nesse contexto, é introduzida a noção da Ideia do Bem, o supremo objeto de conhecimento intelectual que o filósofo deve contemplar para poder governar retamente. Por meio das famosas analogias do Sol, da Linha Dividida e da Caverna República 67, Platão ilustra a ascensão do intelecto desde o mundo sensível até a visão da Forma do Bem, que é “a fonte última de todo ser e de todo conhecimento .ˮ A parte racional da alma, portanto, cumpre plenamente seu papel apenas quando orientada para o Bem em si – isto é, quando conhece aquilo que é o mais digno de ser conhecido e que fornece o fundamento da moralidade e da ordem adequada tanto na alma quanto na cidade. Em resumo, em A República a alma humana é concebida como uma microcosmo político-moral: a justiça é o governo legítimo da razão sobre si mesma e sobre as outras partes, garantindo unidade e direcionamento ao ser humano, enquanto a contemplação do Bem supremo fornece à razão a luz necessáriapara guiar a alma no caminho da virtude. O Carro Alado no Fedro No diálogo Fedro, Platão retoma a doutrina da alma tripartida, porém em forma de mito e com ênfase diferente. Sócrates apresenta a célebre alegoria do carro alado para descrever a natureza da alma: ele compara a alma a uma carruagem conduzida por um auriga (cochero) alado e puxada por dois cavalos alados de índoles opostas. O auriga, representando a parte racional da alma, tem a tarefa de guiar e equilibrar os ímpetos dos dois corcéis. Um dos cavalos, de cor branca e natureza nobre (imortal), personifica o elemento espiritual: é obediente, virtuoso, “amante da honra e da moderaçãoˮ, necessitando apenas de leves ordens verbais para seguir o rumo correto. O outro cavalo, negro e de natureza inferior (mortal), simboliza o elemento apetitivo ou concupiscente: Platão o descreve como um animal teimoso, deformado, “companheiro da insolência e da vaidade ,ˮ difícil de controlar, surdo aos comandos e só governável a custa de muito freio e chicote. A viagem desse carro alado representa a jornada da alma para contemplar as realidades supremas: o auriga racional busca elevar a carruagem rumo ao céu, onde pode vislumbrar as Formas eternas, a Verdade e o Conhecimento absoluto, que nutrem as asas das almas. Entretanto, os dois cavalos tendem a puxar em A Teoria da Alma Tripartida em Platão e Comparações com Escolas Posteriores 4 direções contrárias – o corcel branco almeja ascender para junto dos deuses, ao passo que o negro inclina-se para a terra e os prazeres baixos – de modo que o trajeto é turbulento e cheio de conflitos. Essa rica metáfora ilustra como, no Fedro, Platão confirma a estrutura tripartida da alma, porém aplicando-a à dinâmica da paixão e do amor. O contexto do diálogo é o tema do amor (eros) e sua potencial função elevadora. Quando o auriga (razão) consegue controlar harmoniosamente os dois cavalos, especialmente domando a teimosia do cavalo negro com a ajuda virtuosa do cavalo branco, a alma consegue se erguer e contemplar brevemente as Formas, especialmente a Forma da Beleza, seguindo o cortejo do deus Zeus. Se, porém, a parte racional fracassa em governar os impulsos desordenados, os cavalos perdem as asas e a alma “caiˮ ao mundo material, encarnando em um corpo humano de acordo com o grau de Verdade que tenha conseguido vislumbrar durante a ascensão Fedro 246a-249d). Cada alma encarnada então precisa gradualmente reconstituir suas asas – metáfora para recuperar sua natureza divina – o que se dá, em grande medida, através de experiências de amor e beleza que despertam a reminiscência do mundo ideal. Em outras palavras, no Fedro a alma é libertada e purificada não tanto por uma longa educação intelectual como em A República, mas pelo “poder ascendente do amorˮ e da beleza que inspira a alma a buscar sua autoaperfeiçoamento. A tripartição serve aqui menos para justificar uma ordem social (como em A República) e mais para descrever os dramas internos da psicologia do amor e da ascensão mística da alma perante o Belo e o Verdadeiro. Vale notar também que Platão atribui explicitamente ao Fedro a tese da imortalidade da alma 245c), mostrando que essas partes aladas da psique são imperecíveis – ideia que ecoa a discussão de Fédon, unindo-se ao núcleo da doutrina platônica. A Visão do Fédon sobre a Alma Enquanto A República e Fedro se concentram na constituição interna e nas funções das partes da alma, o diálogo Fédon (também conhecido como Sobre a Alma ou Sobre a Imortalidade da Alma) aborda principalmente a natureza imortal e imaterial da alma e sua relação com o corpo. Na narrativa do Fédon, Sócrates – horas antes de sua morte – argumenta que a verdadeira filósofa é aquela que passa a vida toda separando, tanto quanto possível, a alma do contato com o corpo e seus desejos, em preparação para a morte, momento no qual a alma poderá existir pura e livre. Curiosamente, Fédon não apresenta explicitamente uma divisão tripartida; pelo contrário, pressupõe uma visão mais dualista: de um lado a alma racional (identificada ao verdadeiro “euˮ imortal A Teoria da Alma Tripartida em Platão e Comparações com Escolas Posteriores 5 que busca a sabedoria) e de outro o corpo físico com seus apetites e paixões que perturbam a alma. Sócrates indica que muitos dos fenômenos que A República atribuiu às partes inferiores da alma, como os prazeres, dores, medos e apetites, são tratados no Fédon como funções ligadas ao corpo animado. A alma, em especial a alma do filósofo, é retratada essencialmente como intelecto: é ela que pensa, que apreende as Formas, que tem desejos “superioresˮ (por exemplo, a sede de verdade e de pureza) e que deve governar o corpo. Já as inclinações inferiores – apetites por comida, bebida, prazeres sensuais, bem como as emoções desordenadas – são vistas como resultantes da mistura da alma com o corpo e chegam a ser figurativamente imputadas ao corpo em vez de a uma parte autônoma da alma. Assim, podemos interpretar que, no quadro conceitual do Fédon, a alma humana corresponde grosso modo ao elemento racional (logístikon) da teoria tripartida, ao passo que aquilo que A República chamava de partes irascível e concupiscente aparecem aqui subsumidas na natureza corporal ou no “homem mortalˮ composto de alma + corpo. Essa abordagem do Fédon enfatiza a oposição entre alma e corpo: o corpo é fonte de enganos dos sentidos e de distrações hedonistas que afastam a alma da contemplação das realidades inteligíveis; já a alma racional, quando liberada dessas amarras corpóreas, mostra-se afinada com o divino, sendo “muito semelhante ao que é invisível e imutávelˮ Fédon 79b-80b) – ou seja, aparentada às Formas eternas. No Fédon, Platão apresenta vários argumentos clássicos para demonstrar a imortalidade da alma racional, como o argumento dos opostos, da reminiscência e da afinidade, procurando refutar o receio, expresso por Cebes, de que a alma pudesse se desfazer e desaparecer no momento da morte como “fumaçaˮ ou dispersão de átomos 70a, 77c). A conclusão buscada é que a alma, sendo simples e incorpórea, sobrevive à morte do corpo, persistindo num estado separado. Essa perspectiva complementa a teoria da alma tripartida ao sugerir que a identidade mais profunda da psique é seu aspecto racional imortal, enquanto as outras “partesˮ mais ligadas a desejos e emoções talvez não tenham existência autônoma após a morte. Assim, Fédon reforça a primazia do elemento racional e moral da alma – purificado dos apetites – como o verdadeiro sujeito que alcança a bem- aventurança filosófica e a comunhão com o Bem. Em suma, nas obras de Platão a noção de alma tripartida é articulada sob diferentes lentes: A República oferece a visão político-moral de uma alma hierarquicamente ordenada rumo à justiça; Fedro poetiza esse esquema em imagem mítica para enfatizar o conflito e a possibilidade de ascensão A Teoria da Alma Tripartida em Platão e Comparações com Escolas Posteriores 6 amorosa; Fédon sublinha a separação da alma intelectual do corpo e a imortalidade daquele elemento racional. Em todas, contudo, mantém-se a ideia central de que a natureza humana possui componentes diversos que precisam estar harmonizados sob a guia da razão para que se alcance a vida virtuosa e a contemplação do Bem. Comparações com Aristóteles, Estóicos e Epicuristas A teoria platônica da alma tripartida exerceu grande influência e suscitou reações nas filosofias posteriores. Aristóteles, formado na Academia de Platão, adotou uma visão própria sobre a alma que reconhece distinções entre faculdades racionais e não racionais, porém com diferenças importantes de concepção. Já as escolas estóica e epicurista, no período helenístico, desenvolveram teorias da alma em forte diálogo (positivo ou negativo) com a herança platônica: os estóicos tendendo a unificar a alma sob a razão, enquanto os epicuristas a materializaram e simplificaram sua estrutura. A seguir, examinamos cadacaso, apontando convergências e divergências em relação ao modelo de Platão, bem como possíveis influências mútuas. A Concepção Aristotélica da Alma Aristóteles concebe a alma de forma distinta de Platão, embora não totalmente incompatível. Em sua obra De Anima Da Alma), ele define a alma (psyché) como a forma dos seres vivos, isto é, o princípio organizador que dá vida e função ao corpo natural. A alma aristotélica não é dividida em “partesˮ separadas substancialmente, mas sim em diferentes faculdades ou funções integradas em um todo. No ser humano, Aristóteles identifica tradicionalmente três níveis de faculdades da alma: a vegetativa (comum a plantas, responsável por nutrição e crescimento), a sensitiva (comum a animais, responsável pelas sensações e apetites sensíveis) e a intelectiva (própria do humano, capaz de pensamento racional). Essas não são “almasˮ distintas, mas aspectos de uma única alma que anima o corpo. No âmbito ético (especialmente na Ética a Nicômaco I.13, Aristóteles faz eco a Platão ao distinguir na alma humana um elemento racional e um elemento irracional, para explicar a dinâmica da virtude. Ele afirma que “a alma consiste de duas partes, uma racional e outra irracionalˮ EN 1102a). O elemento irracional, por sua vez, subdivide-se em: (a) um componente totalmente irracional, o aspecto vegetativo, que lida com as funções básicas (nutrição, A Teoria da Alma Tripartida em Platão e Comparações com Escolas Posteriores 7 metabolismo etc.) e “não participa em nada da excelência humana ;ˮ e (b) um aspecto sensitivo-apetitivo, sede dos desejos e emoções, o qual não é racional em si, mas é capaz de ouvir e obedecer à razão. Em outras palavras, Aristóteles reconhece que os seres humanos têm apetites e paixões (como fome, impulsos sexuais, ira, medo) que não derivam do pensamento racional, mas que podem e devem ser governados ou persuadidos pela razão – analogamente ao que Platão concebia como as partes concupiscente e irascível sendo subordinadas à racional. Aristóteles chega a sugerir que o próprio lado racional da alma possui duas dimensões: uma puramente intelectiva (razão teórica-contemplativa) e outra prática (razão calculadora, que delibera sobre ações), embora ambas façam parte do mesmo princípio racional. Essa psicologia aristotélica conduz a uma teoria das virtudes bipartida: as virtudes intelectuais (sabedoria, prudência, entendimento científico) perfazem a excelência da razão pura, enquanto as virtudes morais (coragem, temperança, generosidade, justiça, etc.) dizem respeito justamente ao bom condicionamento da parte irracional “obedienteˮ – isto é, à conformidade dos desejos e emoções com as diretrizes da razão. Por exemplo, a coragem em Aristóteles é a disposição em que a parte apetitiva (emoções de medo e audácia) encontra-se regulada pelo julgamento racional do que é ou não ameaçador; a temperança é a disposição em que os apetites por prazeres sensíveis estão moderados pela razão. Nota-se, portanto, uma continuidade de preocupação com Platão: ambos admitem tensões internas entre razão e paixões e veem a areté (virtude) como implicando uma certa hierarquia interna. No entanto, Aristóteles diverge de Platão ao não reificar “partesˮ da alma como agentes autônomos. Para ele, a alma é essencialmente una e indissociável do corpo (ele nega explicitamente que a alma seja uma substância separável, exceto talvez por algum aspecto do intelecto). As faculdades vegetativa, apetitiva e racional não são três “almasˮ distintas brigando entre si, mas aspectos funcionais de um mesmo ente anímico que trabalham em conjunto. Assim, embora Aristóteles reconheça na prática a mesma tríade de atividades (nutrição/desejo, emoção e pensamento) que Platão distinguira, ele evita a linguagem de uma alma literalmente tripartida; prefere falar em partes da alma apenas em sentido lógico ou analítico, não como componentes separados localizáveis. Outra diferença significativa está na visão teleológica e ontológica da alma. Platão via a alma como uma realidade imaterial que preexiste e sobrevive ao corpo, capaz de migrar entre corpos (metempsicose) e contemplar as Formas A Teoria da Alma Tripartida em Platão e Comparações com Escolas Posteriores 8 eternas Fédon, Fedro). Aristóteles rejeita essa abordagem: para ele, a alma é a forma inseparável do corpo vivo concreto, de modo que a pergunta sobre a imortalidade individual da alma fica em aberto ou tendendo à negativa (ele admite, no máximo, que o “Intelecto Ativoˮ pudesse ter uma existência separada, questão controversa entre intérpretes). Assim, Aristóteles diverge de Platão na concepção da relação alma-corpo e na unidade do sujeito psíquico, mas converge ao reconhecer a distinção entre elementos racionais e não racionais no ser humano e a necessidade de harmonizá-los sob a liderança da razão para se atingir a excelência ética. Historicamente, pode-se dizer que Aristóteles herdou de Platão (e também de reflexões populares gregas) a ideia de uma alma dual em conflito, mas procurou naturalizá-la: ele integrou as “partesˮ da alma em um organismo biológico-psicológico contínuo, enfatizando como a razão pode cultivar hábitos (héxeis) virtuosos que moldam os desejos, em vez de vê-las como entidades separadas em permanente confronto. A Perspectiva dos Estóicos A escola estóica, fundada por Zenão de Cítio no século IV a.C. (pouco após Aristóteles), também abordou a questão da constituição da alma, porém chegando a conclusões quase opostas às de Platão. Os estóicos rejeitaram explicitamente a ideia de uma alma dividida em partes autônomas, sustentando ao contrário que a psique é completamente unitária e racional em sua estrutura. Na cosmologia estóica, tudo que existe é corpóreo; assim, a alma (incluso a humana) é concebida como um sopro material (pneuma) extremamente sutil, uma mistura de fogo e ar que penetra e anima o corpo. Esse pneuma anímico possui tensividade e organiza o organismo em diferentes funções. Os estóicos distinguiam até oito “partesˮ funcionais da alma, mas aqui “parteˮ significa apenas órgãos ou capacidades, não partes no sentido de faculdades com vontade própria. As partes enumeradas incluíam os cinco sentidos, a capacidade de fala (voz), a faculdade reprodutiva e, dominando todas, o hegemonikon ou princípio diretor (situado no coração). É esse hegemonikon que equivale à mente racional, responsável por receber impressões, elaborar julgamentos e comandar as ações. Importante: o hegemonikon é uno e indivisível, não havendo dualidade interna nele – diferentemente da razão platônica, que coabita a alma com componentes irracionais. Para os estóicos, um ser humano adulto e mentalmente sadio possui uma alma 100% racional. Isso não quer dizer que não experimentamos paixões (ira, medo, luxúria etc.), mas os estóicos reinterpretam as “paixõesˮ (pathê) A Teoria da Alma Tripartida em Platão e Comparações com Escolas Posteriores 9 justamente como juízos ou crenças falsas da própria razão, e não como pulsões de uma parte irracional independente. De acordo com a teoria estoica, todo impulso (desejo ou ação voluntária) é resultado de um ato de assentimento racional a uma certa impressão: até mesmo impulsos que parecem “instintivosˮ são, no fundo, pensamentos que o hegemonikon endossou (ainda que apressadamente). Assim, a mente nunca age contra si mesma; o que chamamos de conflito interior – razão vs. paixão – é explicado como uma oscilação rápida e imperceptível da própria razão, que ora se inclina a um julgamento, ora a outro contrário. Plutarco relata ironicamente essa explicação estoica de que “a paixão não difere da razão, não há dissensão entre as duas, mas apenas uma mudança da única razão para direções opostas, rápida demais para notarmos .ˮ Em suma, os estóicos aboliram os “partesˮ platônicas da alma, arguindo que um ser racional não pode ter faculdades que o forcem a agir contra o próprio logos. Mesmo as crianças e animais – queagem impulsivamente – foram explicados como possuindo uma razão ainda incompleta ou “sementeˮ que carece de pleno desenvolvimento; mas uma vez atingida a idade da razão, o indivíduo deve ser capaz de governar totalmente a si mesmo mediante o intelecto. Essa posição estoica traz algumas consequências. Primeiro, em termos éticos, implica que cada pessoa é integralmente responsável por suas ações voluntárias, já que não se pode culpar um “elemento irracionalˮ separado pela conduta: se a pessoa agiu mal, foi porque seu hegemonikon (a razão dela) consentiu em um julgamento errado. Daí vem o ideal estoico do sábio como aquele que eliminou todos os pathê (atingiu a apatheia), ou seja, extirpou de si quaisquer opiniões enganosas que poderiam perturbar sua virtude perfeita. Segundo, do ponto de vista psicológico, os estóicos precisaram refutar as evidências introspectivas do conflito interno que Platão havia usado em A República. Eles o fizeram argumentando, conforme citado, que o aparente conflito é ilusório – não passa de um raciocínio que muda de direção rapidamente – e que conceitos como epithymia (desejo) ou thymos (ira, ânimo) são apenas classificações de pensamentos avaliativos que a razão formula sobre as coisas (por exemplo, “isto é bom e desejável, devo perseguir ;ˮ ou “isto é ultrajante, devo reagir agressivamenteˮ). Essa explicação era engenhosa, mas nem todos a consideraram satisfatória. No século I a.C., o filósofo estóico Posidônio – já sob influência do renovado interesse por Platão – criticou a visão radical de Crisipo (o grande sistematizador do estoicismo) e reintroduziu no estoicismo a noção de forças irracionais na alma. Aparentemente, Posidônio argumentou que certos impulsos humanos não dependem de assentimento A Teoria da Alma Tripartida em Platão e Comparações com Escolas Posteriores 10 racional algum, mas provêm de motivos alogos (não racionais) enraizados na nossa natureza, mais alinhando-se assim à psicologia tripartida de Platão. Esse desenvolvimento indica a influência duradoura da concepção platônica: mesmo numa escola inclinada ao racionalismo monista, a experiência da divisão interna acabou por ser reconhecida, pelo menos por alguns dissidentes, exigindo uma síntese entre as teorias. Em todo caso, o estoicismo clássico divergiu profundamente de Platão, ao negar qualquer real compartimentalização da alma. Para os estóicos ortodoxos, falar em “parte concupiscenteˮ ou “parte irascívelˮ seria um abuso de linguagem – tudo se reduz a faculdades de um mesmo princípio racional corpóreo. Eles compartilhavam com Platão apenas a ideia de que a razão deve governar, mas para eles não havia literalmente mais nada dentro da alma além dessa razão, a ser iluminada ou enganada. Adicionalmente, quanto à destino da alma, os estóicos também diferiam: enquanto Platão sustentava a imortalidade pessoal da alma (especialmente do seu núcleo racional), os estóicos consideravam a alma material e mortal. Conforme seus postulados físicos, aquilo que é composto (como o pneuma anímico, feito de elementos) um dia se desfaz. Há registros de que os estóicos criam que, após a morte, as almas humanas sobreviveriam por um tempo (as dos sábios até a conflagração cósmica final, as dos não-sábios por menos tempo), mas acabariam por se dissipar no Logos universal. Em suma, a alma estóica não é eterna nem separada do corpo, o que contrasta com o platonismo original. A Perspectiva dos Epicuristas A escola epicurista, fundada por Epicuro 341270 a.C.), também apresentou uma concepção de alma marcadamente diferente da de Platão, em sintonia com sua filosofia materialista e atomista. Para Epicuro, tudo o que existe (à exceção do vazio) é composto de átomos, e isso inclui a alma: a alma seria uma espécie de corpo sutil, formada por átomos especiais espalhados pelo organismo, responsável pelas sensações e pelos movimentos voluntários. Trata-se, em parte, de uma retomada da teoria de Demócrito, mas Epicuro faz descobertas importantes: ele postulou que entre os átomos da alma há um tipo de partícula extremamente refinada e desconhecida (“átomos sem nomeˮ) que explica a capacidade sensorial – pois nenhuma das substâncias “básicasˮ (terra, água, ar, fogo) por si só parece capaz de gerar a sensação consciente. Assim, a alma epicurista é corpórea mas muito tênue, distribuída pelo corpo A Teoria da Alma Tripartida em Platão e Comparações com Escolas Posteriores 11 (com epicentro no tórax), e responsável por funções que hoje chamaríamos de mentais. Mesmo sendo materialista, Epicuro não deixou de fazer distinções funcionais dentro da alma. Ele dividiu a alma em duas partes: uma parte racional (chamada to hēgemonikon ou, em latim pelos seguidores, animus), e uma parte irracional (to alogon, chamada anima em latim). A parte racional (animus) é identificada como a sede do pensamento, da deliberação e também da iniciativa dos impulsos e das emoções superiores. É no animus que se formam as opiniões e os juízos; por exemplo, nele os dados dos sentidos são interpretados e avaliados, e decisões são tomadas com base nessas avaliações. Já a parte irracional (anima), por sua vez, seria responsável diretamente pelas sensações e percepções – ou seja, é a alma irracional que recebe as impressões sensoriais do mundo – e também por transmitir o comando do animus para o corpo, efetuando os movimentos e respostas fisiológicas. Em termos simples, o animus é o “espírito pensanteˮ e o anima o princípio “vital-sensorial .ˮ Essa bipartição lembra a distinção platônica entre uma alma racional e um composto de apetite+espírito como outro elemento. No entanto, Epicuro não identifica um componente anímico equivalente ao “espírito irascívelˮ separado – honras, ira moral, ambição e semelhantes seriam considerados resultados de crenças formadas pelo animus racional, não de uma parte distinta da psique. Assim, comparativamente, o modelo epicurista simplifica a estrutura da alma de três partes Platão) para duas partes principais. Uma consequência dessa visão é que as emoções e desejos são, em última análise, reduzidos à interação entre pensamento e sensação: por exemplo, o medo dos deuses ou da morte é visto como um juízo falso do animus baseado em imaginações infundadas; já prazeres e dores físicos residem na anima mas ganham significado para a felicidade apenas quando avaliados pelo animus. A felicidade (ataraxia), meta epicurista, é alcançada quando o animus alcança plena compreensão racional da natureza (dissipando medos e crenças vãs) e quando os desejos irracionais são reduzidos ao mínimo necessário e natural. Nesse aspecto, há certa afinidade distante com Platão: ambas as filosofias propõem que a razão esclarecida deve dominar os temores e apetites irracionais para atingir a eudaimonia. Contudo, Epicuro rejeita toda conotação de conflito dramático entre faculdades internas – idealmente, o animus esclarecido expurga os distúrbios da anima e o sábio vive em tranquilidade sem ser dilacerado por impulsos opostos. A Teoria da Alma Tripartida em Platão e Comparações com Escolas Posteriores 12 Uma diferença fundamental reside na questão da imortalidade e da transcendência. Epicuro notoriamente negou a imortalidade da alma: sendo a alma composta de átomos, ela nasce e perece com o organismo. Ao morrer, os átomos psíquicos se dispersam, e com isso cessam completamente as sensações e a consciência. Por isso Epicuro pregava que a morte não deve ser temida, pois “enquanto existimos, a morte não está presente; quando a morte chega, já não existimosˮ – não há alma alguma para sofrer no além. Essa posição diverge radicalmente de Platão Fédon), para quem a alma (ou pelo menos a parte racional dela) continua vivendo após a morte e mesmo em ciclos sucessivos de reencarnação. Também a ideia platônica de que a alma pudesse apreender verdades metafísicas eternas é estranha a Epicuro: para este, todo conhecimento vem da experiência sensível (as ideias são formadasa partir das imagens que os objetos emanam). Em suma, os epicuristas discordam da concepção tripartida de Platão, embora mantivessem uma distinção básica entre aspectos racionais e não racionais da alma. Podemos ver a divisão epicurista animus/anima como uma espécie de resposta simplificada ao problema mente-corpo: onde Platão tinha três princípios de motivação, Epicuro reduz a dois, incorporando o thymos (espírito) na esfera do animus racional. Não há, nos textos conhecidos, uma crítica explícita de Epicuro a Platão sobre as partes da alma, mas implicitamente sua doutrina contrasta com a do ateniense, privilegiando uma antropologia naturalista: a alma é parte da natureza material, sujeita às mesmas leis, e sua sanidade consiste mais em equilibrar prazeres e dores do que em um conflito ético interno profundo. Ainda assim, a influência platônica é perceptível na linguagem de “parte racional vs parte irracionalˮ que se tornou corrente – os filósofos antigos após Platão em geral adotaram essa distinção de alguma forma, inclusive Epicuro. Comparando resumidamente: Platão propôs uma alma trina por razões sobretudo morais e psicológicas, para explicar a tensão entre razão, emoção e desejo na busca da justiça interior. Aristóteles aceitou a tensão razão-desejo, mas enquadrou-a num modelo biológico e unitário de alma como forma do corpo, abandonando a tripartição formal. Os estóicos radicalizaram a unidade racional da alma, negando qualquer dualidade interna real, numa tentativa de eliminar o irracional do homem sábio. Já os epicuristas, seguindo uma via materialista, também não adotaram a tripartição, preferindo um dualismo simplificado entre mente (racional) e “almaˮ sensitiva, e rejeitando a imortalidade e metafísica platônicas. Cada escola foi, de alguma maneira, estimulada pelos problemas colocados por Platão – seja para concordar parcialmente (como Aristóteles, que concorda que a virtude envolve subordinar A Teoria da Alma Tripartida em Platão e Comparações com Escolas Posteriores 13 apetites à razão ), seja para refutar (como os estóicos, que argumentam que uma razão perfeita não teria conflitos internos ), seja ainda para reformular em outros termos (como Epicuro, que procurou explicar a alma sem recorrer a entidades supra-sensíveis, mas manteve a distinção funcional entre pensar e sentir ). Conclusão A teoria platônica da alma tripartida foi um marco no pensamento antigo sobre a psicologia moral. Platão, em A República, delineou de forma vívida uma alma composta de razão, espírito e apetite, oferecendo com isso um modelo para entender os conflitos internos do ser humano e para definir a justiça como uma harmonia dessas partes sob a liderança do intelecto orientado pelo Bem. Essa visão integrou considerações éticas, políticas e metafísicas – mostrando a alma humana como um microcosmo que deve espelhar a ordem cósmica e racional. Nos diálogos Fedro e Fédon, Platão enriqueceu o tema: no Fedro, a imagem do carro alado reforça a ideia de que o destino da alma depende de controlar as paixões e direcioná-las para algo superior (a Beleza e a Verdade) ; no Fédon, a imortalidade e a valorização da alma racional confirmam a intuição de que a parte mais nobre do ser humano transcende o corpo e deve ser purificada dos elementos inferiores. As escolas posteriores reagiram de modos diversos. Aristóteles aproveitou a distinção entre elementos racionais e irracionais da alma, mas descartou uma separação rígida: sua alma é una, ainda que possua aspectos distintos, e a virtude consiste em habituar a parte apetitiva a seguir a razão. Os estóicos foram além na unidade: para eles a alma é monolítica e racional, e a ideia platônica de faculdades em conflito foi substituída pela noção de que todo conflito é entre juízos da própria razão. Os epicuristas, por sua vez, reduziram a complexidade tripartida a um dualismo corpo/mente: uma alma feita de átomos, sem destino após a morte, na qual um princípio racional (animus) interage com um princípio sensitivo (anima). Apesar das discordâncias, Platão estabeleceu a pauta: a pergunta sobre como a razão se relaciona com as paixões e desejos tornou-se central. Mesmo quando discordaram, filósofos subsequentes tiveram de definir sua posição em relação a essa estrutura. A influência platônica é visível, por exemplo, no vocabulário de Aristóteles ao falar em partes “racionalˮ e “irracionalˮ da alma, ou no esforço estoico para explicar a moralidade sem apelar a múltiplas partes psíquicas. A Teoria da Alma Tripartida em Platão e Comparações com Escolas Posteriores 14 Em termos de possíveis influências, Aristóteles certamente foi inspirado pelos problemas levantados por Platão, ainda que buscando soluções mais naturalistas. Os estóicos inicialmente rejeitaram Platão, mas mais tarde pensadores como Posidônio reaproximaram o estoicismo de elementos platônicos ao admitir forças irracionais na alma. Os epicuristas divergiram fortemente, alinhados com a física atomista de Demócrito, mas mesmo eles herdaram a distinção fundamental entre mente e desejos corporais que já era parte do léxico filosófico após Platão. Em suma, a teoria da alma tripartida de Platão, com sua profunda análise da psique e seu ideal de ordem interior justa, foi um ponto de partida fecundo: algumas tradições a adaptaram, outras a combateram, mas nenhuma pôde ignorá-la. A ideia de que dentro de nós convivem diferentes princípios motivadores – e de que nosso bem-estar moral depende de integrá-los de modo adequado – permanece como um legado filosófico duradouro de Platão para todo o pensamento antigo e além. Fontes: Platão, A República, Fedro, Fédon; Aristóteles, Ética a Nicômaco, De Anima; textos do estoicismo e do epicurismo; análise contemporânea em Lorenz 2009 ; Bobonich 2010 ; Warren 2009 ; Long & Sedley 1987 etc. A Teoria da Alma Tripartida em Platão e Comparações com Escolas Posteriores 15