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PSIQUÊ, SUBJETIVIDADE, INTERESUBJETIVIDADE & PSICOLOGIA 
Da psyché mitológica grega ao pensamento existencialista 
Compilação e estudo de textos: Psicólogo Doutor Pedro Paulo Sammarco Antunes 
Introdução 
Antes de iniciar esse estudo, é importante fazer alguns esclarecimentos introdutórios. 
Como psicólogos, nossa abordagem clínica se utiliza do método fenomenológico. Nossa 
visão do ser humano se baseia no pensamento existencial da filosofia. Portanto, 
considerando que o objeto de estudo da psicologia é a psyché (psiquê), esse texto 
procura compreender seu conceito desde sua na mitologia grega, e sua trajetória até a 
Idade Contemporânea. Veremos partes de pensamentos de cerca trinta e seis 
importantes filósofos europeus, que trataram sobre o tema da psyché. Nosso destino 
final será como a psiquê era compreendida pelo filósofo alemão Edmund Husserl (1859-
1938), um dos mais importantes estudiosos do método fenomenológico. 
Para isso, inicialmente será abordada como funcionava a maneira mitológica grega de 
pensar. Em seguida serão mostrados alguns exemplos de mitos gregos, presentes na 
psicologia. Depois, a passagem da forma mitológica para a forma filosófica de pensar 
na Grécia antiga. 
A partir de então, veremos os primeiros filósofos gregos e como o conceito de psyché 
foi abordado por cada um deles. Seguiremos pelos filósofos europeus da Idade Antiga, 
Média, Moderna e Contemporânea, que abordaram esse tema. Destacarei de cada 
filósofo somente os aspectos referentes aos conceitos relativos à alma, método 
fenomenológico e pensamento existencial. Suas filosofias são muito ricas, porém não 
faz parte do nosso objetivo, estudá-las por inteiro. Ao longo do tempo, houve 
modificações no conceito original de psyché que se transformou em anima, alma, 
espírito, consciência, substância pensante, cógito, pensamento, sujeito, mente, 
subjetividade. Em Husserl se tornou consciência intencional. Para iniciar nosso longo 
estudo, uma pequena contextualização da Grécia da época. 
 
 
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Períodos históricos da Grécia Antiga 
 Grécia Antiga é o termo geralmente usado para descrever o 
mundo grego e áreas próximas (tais como Chipre, Turquia, sul 
da Itália, da França e costa do mar Egeu, além de assentamentos 
gregos no litoral de outros países, como o Egito). Tradicionalmente, 
a Grécia Antiga abrange desde 1 100 a.C. (período posterior 
à invasão dórica) até à dominação romana em 146 a.C. 
 Pré-Homérico (2000 - 1 100 a.C.) — período caracterizado pela 
penetração de povos indo-europeus na Grécia: aqueus (2000 - 1 200 
a.C.), eólios (1700 a.C.) e Jônios (1700 a.C.); civilização 
minóica continua prosperar (3000 - 1 400 a.C.) e a civilização 
micênica é formada (1600 - 1 200 a.C.); dóricos invadem a Hélade 
no final do período (1 200 a.C.) (Pedro, 2005; Piletti, 2006). 
 Homérico ou Idade Média Grega (1100 - 800 a.C.) — período 
marcado pela ruralização, ausência de escrita e formação dos genos; 
período da criação das obras de Homero (VIII a. C. - VIII a. 
C.), Ilíada e Odisséia (Homero, 2005; 2000; Pedro, 2005). 
 Arcaico (800 - 500 a.C.) — Há a formação da pólis, a colonização 
grega, o aparecimento do alfabeto fonético além de progresso 
econômico com a expansão da divisão do trabalho, do comércio e da 
indústria (Braik., 2006; Levi, 2008). 
 Clássico ou Século de Péricles (500 - 338 a.C.) — período marcado 
pelo divisão bipolar da Grécia sob a égide de duas potências: Esparta 
(com a Liga do Peloponeso) e Atenas (com a Liga de Delos). Além 
disso, ocorreram nesse período as famosas Guerras Médicas e 
a Guerra do Peloponeso que decidiram os rumos políticos da 
Grécia. No final do período Tebas assume o controle político da 
Grécia. No entanto, este poder logo lhe é tomado pela expansão 
macedônica que termina com a anexação grega em 338 
a.C. sob Filipe II da Macedônia (Coltrim, 1999; Pedro, 2005). 
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 Helenístico (338 - 146 a.C.) — fase marcada pela crise da pólis, 
conquista do Império Aquemênida e expansão cultural helenística 
(Pedro, 2005). 
 
Algumas definições de mito grego 
 
 A palavra mito vem do grego, mythos e deriva de dois verbos mytheyo 
(contar, narrar, falar alguma coisa para alguém) e mytheo (conversar, contar, 
designar). 
 É uma narrativa de caráter simbólico, relacionada a uma dada cultura. O 
mito procura explicar a realidade, os fenômenos naturais, as origens do 
Mundo e do Homem por meio de deuses, semideuses, monstros e heróis 
(Wilkinson e Philip, 2009). 
 Quem narra o mito geralmente é o poeta-rapsódo. Acredita-se que ele tem a 
autoridade para isso, pois recebeu dos deuses a revelação de todos os 
acontecimentos passados e a origem de todos os seres. 
 O mito narra a origem das coisas por meio de lutas, alianças e relações 
sexuais entre forças sobrenaturais que governam o mundo e o destino dos 
homens. Os mitos sobre a origem do mundo são genealogias, diz-se que 
são cosmogonias e teogonias. 
 
 Cosmogonia (do grego κοσμογονία; κόσμος "universo" e -γονία 
"nascimento") é o termo que abrange as diversas lendas e teorias sobre as 
origens do universo de acordo com 
as religiões, mitologias e ciências através da história. 
 
 Teogonia (em grego, Θεογονία [theos, deus + genea, origem]), também 
conhecida por Genealogia dos Deuses, é um poema mitológico em 1022 
versos escrito por Hesíodo no séc. VIII a.C., no qual o narrador é o próprio 
poeta. 
 
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 O poema se constitui no mito cosmogônico (descrição da origem do mundo) 
dos gregos, que se desenvolve com geração sucessiva dos deuses e na parte 
final, com o envolvimento destes com os homens originando assim 
os heróis. Nesse mito, as divindades representam fenômenos ou aspectos 
básicos da natureza humana, expressando assim as idéias dos primeiros 
gregos sobre a constituição do universo. 
 O mito é considerado sagrado, pois é fruto da revelação divina. Logo é 
incontestável e inquestionável (Chauí, 2012). 
 
Mitos Gregos 
 
 "Mitos de origem" ou "mitos de criação", na mitologia grega, são termos 
alusivos à intenção de fazer com que o universo torne-se compreensível e 
com que a origem do mundo seja explicada. 
 Além de ser o mais famoso, o relato mais coerente e mais bem estruturado 
sobre o começo das coisas, a Teogonia de Hesíodo (VIII a. C. – VIII a. C.) 
também é vista como didático, onde tudo se inicia com o Caos: o vazio 
primitivo e escuro que precede toda a existência. A progressiva gênese do 
universo da desordem (caos) para a ordem (cosmos) presidida 
por Zeus começa com os elementos fundamentais e se desenvolve por seis 
gerações sucessivas de deuses: No início Caos (ou vazio primitivo) 
e Gaia (a terra) conviviam com Tártaro (a escuridão primeva) e Eros (a 
atração amorosa) daí sendo gerados (assexuadamente) Hemera (o 
dia), Nix (a noite), Urano (o céu) e Ponto (a água primordial). 
 Na segunda geração, Urano e Gaia geraram os Titãs, gigantes dos quais 
destacam-se Cronos (o tempo), Oceano (a água doce), Temis (a 
Lei), Mnemósine (a memória) e vários monstros míticos. Na terceira 
geração, Cronos assume o poder e inadvertidamente dá origem 
a Afrodite (amor sensual), relacionando a noite (Nix) com Tânato (a morte), 
Hipno (o sono) e Oniro (os sonhos). Ponto origina Forcis, pai de monstros 
como Górgona, Equidna e Esfinge e Nereu (o mais antigo deus do mar), pai 
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das Nereidas. Oceano dá vida às Ninfas dos ventos Métis (sabedoria) e 
Hélios (o sol) e Ceo gera entre outros Hécate (a dádiva/magia). 
 Numa última etapa, Zeus destrona Cronos seu pai, altura em que é inserida a 
lenda de Prometeu, dito filho de Jápeto. Mas, para consolidar seu poder, 
Zeus teria ainda que lutar e derrotar Tífon, filho de Gaia e Tártaro. Daí até o 
seu final, o poema trata do relacionamento dos deuses com os homens 
(Hesíodo, 1991; Vernant, 2000; Wilkinson & Philip, 2009). 
 
Mitos Gregos e a Psicologia 
 
• Psyché ou Psiquê: do gregoa preposição 
que leva a considerar os resultados dos processos perceptivos como 
descrições objetivas do mundo e os conteúdos ordinários da mente como 
verdades óbvias. Ao contrário, é preciso assumir uma atitude 
fenomenológica, desinibida, desinteressada e crítica, em primeiro lugar 
em relação aos hábitos mentais do próprio sujeito. A fenomenologia, com 
efeito, não se apresenta como um novo sistema filosófico, mas como um 
método aplicável aos mais diferentes campos do conhecimento. É um 
exercício que o sujeito realiza sobre si mesmo com o fim de levar as 
idéias lógicas, os conceitos e as leis à clareza e distinção do ponto de 
vista gnosiológico (Husserl, 2006). 
• A prática da epoché fenomenológica consiste em suspensão do juízo, que 
caracteriza a atitude dos céticos antigos; consiste em não aceitar nem 
refutar, em não afirmar nem negar. Na filosofia contemporânea, com 
Husserl e a filosofia fenomenológica em geral, a epoché 
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tem finalidade diferente: a contemplação desinteressada, ou seja, uma 
atitude desvinculada de qualquer interesse natural ou psicológico na 
existência das coisas do mundo ou do próprio mundo na sua totalidade. 
Além disso, permite voltar às próprias coisas, ou seja, ao fenômeno, 
entendido não como pura aparência em contraposição a uma hipotética 
coisa em si, mas como manifestação originária de uma realidade de 
consciência (Husserl, 2008). 
• A fenomenologia nasceu no interior do vasto movimento filosófico que 
nas primeiras décadas do século XX pretendeu reagir ao Positivismo. 
Basicamente, a característica essencial do positivismo é a devoção à 
ciência, vista como único guia da vida individual e social, única moral e 
única religião possível. O escopo final do método fenomenológico, de 
fato é apreender e estudar de modo subjetivo todas as expressões da 
consciência que o Positivismo excluía a priori da área da pesquisa 
cientifica. O apelo de Husserl para fazer a epoché – colocando entre 
parênteses todos os hábitos, pré-juizos, as convicções ingênuas e as 
considerações obvias – não se propõe a ser um processo exclusivamente 
destrutivo (Nicola, 2005). 
• Ao contrário da epoché cética, a fenomenológica não pretende 
demonstrar a inexistência de uma verdade qualquer, mas, ao contrário, 
demonstrar que o exercício da dúvida metodológica e a suspensão de 
todo saber positivo já adquirido são instrumentos de higiene mental. O 
pesquisador fenomenológico deve esvaziar a mente de tudo o que é 
fictício, desnecessário, casual e pessoal, para se colocar na condição de 
um espectador ingênuo e desinteressado. Depois assim de ter se libertado 
de uma parte de si mesmo, por meio de um trabalho demorado e árduo, 
será capaz de analisar com a devida objetividade o mundo e os 
fenômenos da consciência e do espírito (Depraz, 2008). 
• As ciências exatas nada dizem sobre o homem enquanto ser espiritual e 
livre. As ciências humanas simulam as ciências exatas, transformando o 
espírito em objeto, tratando como um fenômeno natural. Ambas reduzem 
o mundo a uma série de fatos. A ciência tende a excluir todo fator de 
subjetividade. Mas a fuga da subjetividade afasta o cientista do mundo-
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da- vida, o único verdadeiro e real. Qualquer teoria adquire significado 
somente em certa situação e em relação à vida. Uma nova ciência deveria 
estudar espiritualidade segundo seus princípios (subjetividade, 
inclusive). O divórcio entre ciência e mundo-da-vida produziu a crise da 
civilização européia, construiu o seu destino sobre a ciência (Husserl, 
2011). 
• O cógito da fenomenologia husserliana não é o mesmo 
do cógito cartesiano, pois este funcionava como reduto solipsista, isolado 
e independente do mundo. A consciência fenomenológica é a consciência 
da experiência vivida do sujeito, cuja atitude perante o fenômeno deve 
ser distinta da atitude natural, ou seja, daquela que não distingue a 
percepção do percebido. É intrínseco à fenomenologia que nossa atitude 
perante os fenômenos seja livre de preconceitos. Husserl identifica dois 
momentos da intencionalidade. No primeiro, no ato noético, percebemos 
o fenômeno, dotando-lhe de sentido; depois, o preenchemos de 
significação, tornando-se o fenômeno noema (Dartigues, 1992). 
• Com isso, ele afasta-se do psicologismo, que não diferencia esses dois 
momentos da atividade intencional. Para Husserl a intencionalidade é a 
forma “apropriada de ser da consciência”, é nesse sentido que se diz que 
“não há consciência que não esteja em ato, dirigida para um determinado 
objeto”. É a consciência sempre intencionada a algo. A proposta 
husserliana de intencionalidade torna-se inovadora no tocante, não só 
pela crítica ao psicologismo, mas também em dar uma nova conotação 
ao termo. O “fenômeno psíquico” se estabeleça não como conteúdo, mas 
sim como ação (Husserl, 1979). 
• Segundo Heiddeger (1889-1976 d.C.), seu maior intuito foi elaborar 
uma análise da existência, buscando esclarecer o sentido do ser, 
relacionando este com conceitos como Dasein (o "ser-aí"), morte, 
angústia, temporalidade, finitude, abertura, entre outros. Desde a Grécia 
Antiga, o Ser tem sido entendido como coisa, atemporal, eterno e 
imutável. Diferente dessa tradição, ele faz a indagação sobre o Ser 
partindo da existência concreta, entendendo este como um participante 
do mundo, que está mediado por seu passado e orientado para seu futuro. 
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Constatou que o sentido do ser está relacionado com o tempo, pois 
somos seres temporais. 
• Quando nascemos, chegamos num ambiente histórico e temporal que já 
possui uma trajetória encaminhada, que não escolhemos, mas que nela 
somos lançados. O "ser-aí" não é uma consciência separada do mundo, 
mas está numa situação e toma conhecimento de um mundo que ele 
próprio não criou, mas onde se encontra inserido. Além da herança 
biológica, cada pessoa recebe também uma herança cultural, que 
depende do tempo e local onde nasceu. 
• A angústia, por ser um modo do existencial da disposição que singulariza 
o homem, é considerada por Heidegger como disposição fundamental 
porque além do caráter de singularização da existência do homem, ela 
abre para ele a possibilidade de sair da decadência e de se apropriar de 
seu ser (autenticidade). A angústia desperta para a morte, enquanto dado 
temporal mais significativo da existência, e revela a finitude da 
existência humana. O fato de o homem ter um fim, que ele morre e que 
sua existência acaba, remete a um outro conceito fundamental (ser-para-
morte) de Heidegger. O filósofo afirma que a morte é uma possibilidade 
presente constantemente, e não distante. Esta possibilidade (a morte) é a 
última que o homem realiza; que enquanto ela chega falta ao homem 
alguma coisa, algo que ainda será. 
• Ou seja, a vida humana só se torna um todo por intermédio da morte. 
Perceber-se mortal faz com que o homem viva autenticamente ou não? 
Em suma, ser para-a-morte é ser angustiado, pois “a angústia é uma 
forma privilegiada de abertura, pois ela não permite que o ser fique 
quieto e alienado no seu mundo impessoal. A angústia coloca o homem 
diante do nada, isto é, ao não sentido dos projetos humanos e da própria 
existência. Existir autenticamente exige, então, coragem para enfrentar a 
realidade própria do não-ser e sentir a angústia do ser que caminha para a 
morte. Existência autêntica implica aceitar a sua própria finitude. Viver 
autenticamente é reconhecer-se ser-para-a-morte e a partir disso, diante 
das possibilidades para as quais ela nos abre, projetar e construir a nossa 
vida a partir dessa constatação. Portanto, a morte deve ser vivida como 
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experiência antecipadora, isto é, deve ser vivida no dia a dia de nossa 
existência. Todas as nossas ações devem ter em vista, como horizonte, 
essa possibilidade, a mais própria do Dasein. (Mallmann, 2009). 
• Sartre (1905 – 1980 d. C.) leva o indeterminismo existencial às suasmais radicais consequências. Porém, para Aristóteles, e muitos outros 
filósofos, a essência de ser humano era ser racional. Mas para Sartre, a 
pessoa deve produzir sua própria essência. A existência precede a 
essência. Como seres conscientes, estamos sempre querendo preencher o 
“vir a ser” que na realidade é a verdadeira “essência” do nosso ser 
consciente. Queremos nos transformar em coisas em vez de permanecer 
perpetuamente num estado em que as possibilidades, que estão sempre 
irrealizadas. 
• O homem passa toda sua existência em um processo de devir. Estamos 
sempre abertos às novas possibilidades de reinvenção partindo de um 
determinado contexto existencial possível. Sartre chamou isso de 
facticidade. Ela diz respeito às resistências e objetos que a liberdade 
necessariamente se defronta quando cria nova situação (Perdigão, 1995). 
• Como exemplo de facticidade, podemos pensar no sexo biológico, 
família, país, cidade, cultura, época e condição socioeconômica que 
nascemos. As condições impostas pela facticidade conjugadas ao 
significado dado pela liberdade se combinam para criar uma nova 
situação. Sartre defende que não importa o que foi feito do indivíduo, e 
sim o que o indivíduo faz com aquilo que foi feito dele. A resistência é 
intrínseca à liberdade e ao humano. 
• No entender de Sartre estamos condenados à liberdade. Cada ato 
contribui para definir como nos apresentamos ao mundo. Em qualquer 
momento podemos começar a agir de modo diferente e desenhar um 
retrato diferente de nós mesmos. Há sempre uma possibilidade de 
mudança, de começar a fazer um tipo diferente de escolha. Temos o 
poder de nos transformar indefinidamente, tendo sempre como ponto de 
partida, nossa facticidade. Não há nenhuma “essência” determinada que 
oriente a priori, o comportamento de ninguém (Sartre, 2005). 
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• Sartre acreditava que não há nenhum deus e, portanto, não há qualquer 
plano divino que determine o que deve acontecer. Não há um sentido ou 
propósito último inerente à vida humana, ela é absurda. Isto significa que 
o indivíduo foi jogado de fato na existência sem nenhuma razão real para 
ser. Simplesmente descobrimos que existimos e temos então que decidir 
o que fazer de nós mesmos. O homem não é mais do que aquilo que ele 
faz de si mesmo. Se não há nenhum deus, não há nenhum padrão 
objetivo de valores (Giles, 1989). Ou seja, somos nós mesmos que 
criamos os valores e as convenções sociais que irão estabelecer o 
funcionamento social e nos “governar”. 
• Consequentemente, devemos estabelecer ou inventar, a partir da 
liberdade e facticidade nossos próprios valores particulares. Tal é o 
primeiro princípio do existencialismo ateu de Sartre. Sem diretrizes 
absolutas, nós devemos sofrer a agonia de nossa tomada de decisão e a 
angústia de suas consequências. A angústia é, então, a consciência da 
própria liberdade e a consciência da imprevisibilidade última do nosso 
comportamento. 
• Sartre define como “má fé” a tentativa de fugir da angústia fingindo que 
não somos livres. Tentamos nos convencer que as nossas atitudes e ações 
são determinadas pela nossa personalidade, horóscopo, situação ou por 
qualquer outra coisa fora de nós mesmos. Segundo Sartre, nenhum 
motivo ou resolução passada determina o que fazemos agora. Cada 
momento requer uma escolha nova ou renovada. Mesmo que não 
fizermos nada, uma escolha já está sendo realizada: o não agir. Negar a 
liberdade é uma tomada de posição covarde, a fim de fugir da angústia da 
escolha, e achar o repouso e a segurança na confortável ilusão de ser uma 
essência acabada. Portanto, o existencialismo se contrapõe ao 
essencialismo, à medida que defende que não somos determinados. Para 
esta corrente filosófica, podemos nos reinventar a cada momento 
(Abbagnano, 2007; Bornheim, 2000; Chauí, 2003; Perdigão, 1995). 
• Merleau-Ponty (1908-1961) defendia que não há separação e sim 
coexistência. Somos unidade única, duplicidade una e unidade ambígua. 
O conceito de experiência ainda define que somos consciência entre 
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aquilo que foi denominado de espírito e o que foi denominado de 
matéria. Para Merleau-Ponty (2006) o corpo não é um objeto. Quer se 
trate do corpo de alguém quer se trate do próprio corpo. O único modo 
de conhecê-lo é vivenciando seu próprio drama e aquilo que lhe 
atravessa confundindo-se com ele (Abbagnano, 2007). 
• No plano pré-reflexivo somos vivência; no plano perceptivo, somos 
experiência. Ora nos percebemos mais corpo, ora nos percebemos mais 
mente (conhecida também na filosofia como alma ou espírito). Nosso 
corpo nos situa, é uma forma de ser e estar no mundo. Percebemos a tudo 
e a todos. A cultura nos constitui, assim como a constituímos. Nosso 
corpo nos compõe, assim como subjetivamente, compomos nosso corpo. 
Não temos como nos separar dele. 
• Por meio do corpo alcançamos o mundo. Somos o nosso corpo no 
mundo. Nosso corpo é condição necessária para percebemos nosso 
campo de presença no mundo. O corpo nos situa, limita e demarca 
tornando possível a relação com outros corpos. A subjetividade está tanto 
no corpo, como na própria mente. Ou seja, somos nosso corpo com os 
outros corpos no mundo. Percebemos nosso corpo não apenas como um 
objeto localizado no espaço. O corpo é a condição necessária para 
perceber, sendo esse, o campo de presença no mundo. Ele nos situa, pois 
nos relaciona com o espaço, tempo e outros seres. Ao mesmo tempo nos 
limita. Tal limite demarca, tornando possível a relação com o outro. Por 
meio dele desenvolvemos posturas. 
• Para Merleau-Ponty, é a história de cada um que nos constitui. Só somos 
quem somos, pois fomos o que fomos. O tempo é uma dimensão do 
nosso ser. O tempo está no nosso corpo; ele nos situa em relação ao 
passado pela memória, presente pela vivência e futuro pela imaginação. 
Para o autor, o que nos limita nos faz compreender o outro. Ser eu, me 
possibilita compreender o não-eu. Ser finito nos faz aspirar ao eterno. 
Assumir que morremos nos permite viver melhor (Chauí, 2003; Merleau-
Ponty, 2006). 
• Conforme já dissemos, Merleau-Ponty foi influenciado pelo 
existencialismo que diz que o homem não foi planejado por alguém para 
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uma finalidade, como os objetos que o próprio homem cria. O homem se 
faz em sua própria existência. Não havendo tal essência, todos são iguais 
e igualmente livres para se fazerem em relação a determinado contexto. 
Afirma o primado da existência sobre a essência. Não há afirmações 
gerais e verdadeiras sobre o que os homens devem ser. 
• Camus (1913 - 1960) defendia que o ser humano tem consciência, 
portanto sente que a vida tem sentido. Porém, o homem sabe que o 
universo como um todo não tem sentido. A vida é uma contradição. Para 
viver bem é preciso superar essa contradição. Pode-se fazer isto 
aceitando a falta de sentido da existência. Logo, a vida será mais bem 
vivida se não tiver sentido. Partindo do pressuposto que não há sentido, a 
humanidade cria sentidos para si (Camus, 2004). 
• Rogers (1902 – 1987) em seus estudos, passaram a ter como base novas 
formas de atendimento psicoterapêutico. Essas, por sua vez, eram muito 
diferentes das abordagens convencionais da psicologia acadêmica. 
Alguns de seus métodos dividiram opiniões, como é o caso do método 
não-diretivo. Sua abordagem foi denominada de centrada na pessoa. 
• Este método consiste em permitir que o paciente “direcione” as consultas 
psicoterapêuticas conforme as suas próprias reflexões e conclusões. O 
profissional não o orienta a seguir um determinado caminho. É o próprio 
paciente que, através da livre expressão pessoal, tece a sua trajetória para 
as verdades que tanto procura. O psicólogo trabalha com o paciente a 
partir das descobertas feitas por ele. 
• Para isso, ele também estudou o “clima” apropriado para o atendimento. 
Rogers acreditava que o paciente se sentiria livre para se expressar em 
um ambientecaloroso. Ele compartilharia os seus sentimentos sem 
preocupações, não importando quão absurdos ou não-convencionais 
fossem, contanto que estivesse inserido em um clima permissivo. Não 
importa o que é dito durante as sessões, o psicólogo o aceita como ele é. 
• Toda pessoa tem capacidade de encontrar maneiras de suprir as suas 
necessidades físicas e emocionais. A abordagem de Carl Rogers acredita 
que, em razão dessa característica comum a todos os seres humanos, as 
pessoas possuem uma tendência natural à atualização. De acordo com o 
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psicólogo, quando uma pessoa vive experiências cujos significados são 
confusos ou incoerentes conforme a sua percepção, ocorre uma 
contradição. Essa dissonância pode indicar que a pessoa não está em 
contato com a sua verdadeira natureza. A empatia é um fator 
indispensável para qualquer atendimento psicológico. O profissional 
deve tentar compreender as questões problemáticas trazidas pelo paciente 
a partir das percepções dele. Não se trata de se colocar no lugar do outro 
com exatidão. É, na verdade, procurar se aproximar da percepção do 
paciente para aprofundar a avaliação dos seus incômodos. 
• A pessoa que está em congruência com o seu ser é genuína e não tem 
razões para disfarçar sentimentos perante situações ou outros indivíduos. 
Ela pratica a autoaceitação e amor-próprio diariamente, mesmo quando 
se depara com seus defeitos e falhas. Caso contrário, não conseguiria 
estar em contato com a sua verdadeira essência. 
• A aceitação incondicional positiva nada mais é que a aceitação 
incondicional da personalidade. O psicólogo deve aceitar os pacientes 
como eles são e recebê-los com afetividade independente de suas queixas 
emocionais. Não cabe a ele fazer julgamentos ou críticas a respeito de 
quem o paciente é. Assim, dois resultados do acompanhamento 
psicológico rogeriano são esperados: a aceitação de si mesmo e a dos 
outros. Do mesmo modo, os pacientes precisam ter a mesma postura 
consigo mesmos e os outros. A atitude de pressionar uma pessoa para 
agir de uma determinada maneira é errada, pois faz com que ela se afaste 
de sua verdadeira essência (Rogers, 1997; Rogers e Stevens, 1991). 
• Para Perls (1893 – 1970) o gestalt-terapeuta utiliza-se de dois pontos 
básicos para apoio na prática clínica: a abordagem dialógica e o método 
fenomenológico. A postura dialógica tem importância devido ao 
estabelecimento de vínculo entre terapeuta e cliente. Esta confiança, 
conhecida também como o espaço do “entre”, permite ao cliente se 
derramar em um ambiente de compreensão, expondo seus conflitos, 
mágoas, expectativas e sua forma de enxergar o mundo e a si mesmo. 
• O outro ponto de apoio no manejo clínico desta abordagem é o método 
fenomenológico. Fenomenologia significa “estudo dos fenômenos”, isto 
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é, daquilo que é dado à consciência. Consciência, para a Fenomenologia, 
é muito mais do que apontava até então a psicologia, que a via como um 
lugar onde, de alguma maneira já se tem os conceitos conhecidos e 
estabelecidos. Consciência é sempre consciência de alguma coisa. 
• Este conceito é conhecido como conceito de Intencionalidade, formulado 
por Husserl, pai da fenomenologia. Nada pode ser descrito sem levar em 
conta o olhar do sujeito, sua intencionalidade. Não existe como estudar a 
consciência separada do objeto ou do mundo, assim a consciência é 
sempre situacional. 
• A fenomenologia pretende explorar a intuição, evitando estabelecer 
qualquer hipótese, exaltando a singularidade do outro em sua inteireza, 
sem reduzi-lo a conceitos e teorias, mas sem cair em um descuido para 
com sua experiência. Para aprender a realidade do paciente, o 
psicoterapeuta deve suspender o próprio julgamento e a experiência 
pessoal à respeito das coisas (suspensão fenomenológica). 
• Esta base indica que o psicoterapeuta, precisa valorizar a experiência 
presente, dando conta do que está acontecendo na situação, com ele 
mesmo e com o ambiente. Quanto menos confiança tivermos em nós 
mesmos, quanto menos contato tivermos com nós mesmos e com o 
mundo, maior será o nosso desejo de controle”. Não é uma postura 
passiva, mas aproveitar a situação da melhor forma possível, visando ao 
desenvolvimento da awareness, que significa tomada de consciência de 
si, dentro da experiência presente. A awareness é o ponto central de todo 
o processo de restauração do equilíbrio e de autorregulação do 
organismo. 
• O psicoterapeuta recebe seu cliente com olhar fenomenológico e aguarda 
o aparecer de elementos em sua fala e em sua postura e reações corporais 
que podem num determinado momento, mostras a possibilidade de 
intervenção. A Gestalt-terapia compreende que a consciência é um 
evento focalizado no presente, no aqui-e-agora, isto significa que: para 
perceber melhor um fenômeno 'dentro' ou 'fora' de mim mesmo, devo 
estar concentrado em minhas funções de contato, na relação "ser-no-
mundo". Conforme já dito, esse fluxo de consciência é conceituado em 
48 
 
Gestalt-terapia como "awareness". Quando tal fluxo é interrompido 
significa que a consciência deixou de focalizar sua percepção sensorial 
atual para focalizar também uma fantasia, antecipando o futuro ou 
lembrando o passado. Tais fantasias são a base dos mecanismos de 
evitação de contato, que podem ter um funcionamento patológico 
(Ginger e Ginger, 1995; Perls et al., 1997). 
 
• Ciências Naturais versus Pensamento Existencial 
 
 
• A Idade Moderna (1453-1789) na Europa foi a época do pensamento 
sobre o método na filosofia e ciências naturais (química, física, 
astronomia, biologia). A filosofia se preocupava com questões 
gnosiológicas e cientificistas. O modo de pensar as questões consistia em 
instituir um princípio, postulado ou preposição como ponto de partida e, 
de dedução em dedução, construir um sistema complexo de definições, 
conceitos e conclusões verdadeiras. A filosofia realiza dedução racional e 
pretende chegar a um universal. Formam-se sistemas complexos de 
conceitos gerais e abstrações que contribuíram para a constituição da 
forma metafísica ocidental de pensar. 
• A ciência moderna exclui todo e qualquer tipo de participação subjetiva 
no processo de investigação e de experimentação. Sua pretensão é obter 
objetividade absoluta para formular hipóteses, executar experimentos, 
elaborar teorias, procedimentos e leis gerais. Sua metodologia busca 
esclarecer as causas dos fatos. O determinismo é aspecto fundamental da 
metodologia cientifico - natural, pois com ele é possível determinar o 
“controle” e a “previsibilidade” da realidade. Para se construir como 
ciência objetiva, vários setores do conhecimento buscaram a 
inexorabilidade da causa-efeito-linear. Afinal, sabendo determinadas 
causas e seus respectivos efeitos, é possível medir e controlar com 
exatidão os fatos que conduzem ao “real” e a “verdade”. 
• O método experimental, a formulação de leis deterministas, a 
mensuração e estabelecimento de leis gerais e universais garantem 
49 
 
resultados verdadeiros, reais e inquestionáveis. Por um lado, as ciências 
naturais tornam-se as únicas fontes de conhecimento críveis. Por outro, 
grande detentora da “verdade” e do poder, donde se deduz que ciência = 
verdade = controle = poder. O ser humano passa a crer que somente o 
método cientifico - experimental das ciências naturais estipulam aquilo 
que pode ser considerado rigoroso, confiável, criterioso, real e 
verdadeiro. Tal positivismo científico e a confiança absoluta nas ciências 
naturais pretendem estabelecer o único modelo de obtenção do 
conhecimento considerado cem por cento verdadeiro e confiável. 
• Somente o agir por intermédio da objetividade absoluta e desvio da 
subjetividade, orientadas pela lei de causa-efeito-linear gera o 
conhecimento indiscutível, verdadeiro que é expresso por intermédio de 
leis válidas para absolutamente todos os campos das ciências. A ciênciamoderna ocidental tem como fundamento que o mundo consiste em uma 
reunião de entes completamente naturais (inclusive o homem). Para 
investigá-los diretamente é preciso: ontologias regionais (física, biologia, 
química, etc.), objetividade completa (sempre já estabelecida), 
observação dos fatos por intermédio da percepção sensorial, busca de 
comprovações, pensamento calculador, relação causa-efeito-linear, 
universalidade e determinismo na seqüência dos fatos com o objetivo, 
mensurar, prever, controlar e dominar a natureza. 
• O desenvolvimento da filosofia e das ciências naturais fizeram com que a 
psicologia abordasse a psyché de outra maneira. O psicólogo francês 
Théodule-Armand Ribot (1839-1916 d. C.), a partir do estudo dos 
métodos experimentais, analisou um grande número de peculiaridades 
herdadas. Dedicou especial atenção ao elemento psicológico da vida 
mental, ignorando todo fator espiritual ou não material do ser humano. A 
psicologia iria se ocupar com a descrição e classificação e elaboração das 
leis e condições que os regem. A psiquiatria já nessa época conhecia, 
descrevia e classificava sintomas, elaborava diagnósticos e prognósticos. 
Pesquisava procedimentos terapêuticos e discutia resultados. 
• As ciências iam se tornando independe da filosofia a partir do século 
XVIII. A psicologia enquanto ciência se separou da filosofia no final do 
50 
 
século XIX. O primeiro laboratório psicológico foi fundado 
pelo fisiólogo alemão Wilhelm Wundt (1832-1920 d. C.) em 1879 
em Leipzig, na Alemanha. Seu interesse se havia transferido do 
funcionamento do corpo humano para os processos mais elementares de 
percepção e a velocidade dos processos mentais mais simples. Em seu 
laboratório Wundt dedicou-se a criar uma base verdadeiramente 
científica para a nova ciência. 
• Assim realizava experimentos para levantar dados sistemáticos e 
objetivos que poderiam ser replicados por outros pesquisadores. Para 
poder permanecer fiel a seu ideal científico, Wundt se dedicou 
principalmente ao estudo de reações simples a estímulos realizados sob 
condições controladas. Nela o indivíduo explora sistematicamente seus 
próprios pensamentos e sensações a fim de ganhar informações sobre 
determinadas experiências sensoriais Seu método de trabalho seria 
chamado de estruturalismo. Seu objeto de estudo era a estrutura 
consciente da mente e do comportamento, sobretudo as sensações. As 
principais críticas levantadas contra o Estruturalismo foram: 
ser reducionista, elementarista e ser mentalista. 
• Para William James (1842-1910 d.C.) o estudo dos processos 
conscientes não se limitava a uma descrição de elementos, conteúdos e 
estruturas. A mente consciente é, para ele, um constante fluxo, uma 
característica da mente em constante interação com o meio ambiente. Por 
isso sua atenção estava mais voltada para a função dos processos mentais 
conscientes. Na psicologia, a seu entender, deveria haver espaço para as 
emoções, a vontade, os valores, as experiências religiosas e místicas - 
enfim, tudo o que faz cada ser humano único. Foi denominada de 
psicologia funcionalista, pois se preocupava com as funções da atividade 
mental e dos processos internos. Investigou a consciência e seus 
elementos, a função e utilidade dos processos mentais enquanto atividade 
biológica, mas sem desconsiderar o meio ambiente e a experiência. 
• Uma importante reação ao funcionalismo e ao comportamentismo 
nascente foi a psicologia da gestalt ou da forma, representada por Max 
Wertheimer (1880-1943 d. C.), Kurt Koffka (1886-1941 d. 
51 
 
C.) e Wolfgang Köhler (1887-1967 d.C.). Principalmente dedicada ao 
estudo dos processos de percepção, essa corrente da psicologia defende 
que os fenômenos psíquicos só podem ser compreendidos, se forem 
vistos como um todo e não através da divisão em simples elementos 
perceptuais. A palavra gestalt significa "forma", "formato", 
"configuração" ou ainda "todo", "cerne". 
• Com Pavlov (1849-1936 d. C.) e Watson (1878-1958 d. C.) a 
perspectiva comportamentalista procura explicar o comportamento pelo 
estudo de relações funcionais interdependentes entre eventos ambientais 
(estímulos) e fisiológicos (respostas). A atenção do pesquisador é assim 
dirigida para as condições ambientais em que determinado indivíduo 
enquanto organismo se encontra, para a reação desse indivíduo a essas 
condições, para as conseqüências que essa reação lhe traz e para os 
efeitos que essas conseqüências produzem. 
• Os adeptos dessa corrente entendem o comportamento como uma relação 
interativa de transformação mútua entre o organismo e o ambiente que o 
cerca na qual os padrões de conduta são naturalmente selecionados em 
função de seu valor adaptativo. O comportamento geralmente é definido 
por meio das unidades analíticas respostas e estímulos investigados pelos 
métodos utilizados pela ciência natural chamada Análise do 
Comportamento. Historicamente, a observação e descrição do 
comportamento fez oposição ao uso do método de introspecção. 
• Segundo a perspectiva psicodinâmica (psicanálise) o comportamento é 
movido e motivado por uma série de forças internas, que buscam 
dissolver a tensão existente entre os instintos, as pulsões e as 
necessidades internas de um lado e as exigências sociais de outro. O 
objetivo do comportamento é assim a diminuição dessa tensão interna. A 
perspectiva psicodinâmica teve sua origem nos trabalhos do 
médico vienense Sigmund Freud (1856-1939 d. C.) com pacientes 
psiquiátricos, mas ele acreditava serem esses princípios válidos também 
para o comportamento normal. 
• O modelo freudiano é notoriamente reconhecido por enfatizar que a 
natureza humana não é sempre racional e que as ações podem ser 
52 
 
motivadas por fatores não acessíveis à consciência. Além disso, Freud 
dava muita importância à infância, como uma fase importantíssima na 
formação da personalidade. A teoria original de Freud, que foi 
posteriormente ampliada por vários autores mais recentes e influenciou 
fortemente muitas áreas da psicologia, tem sua origem não em 
experimentos científicos, mas na capacidade de observação de um 
homem criativo, inflamado pela idéia de descobrir os mistérios mais 
profundos do ser humano. 
• As ciências do espírito teriam como objeto o homem e o comportamento 
humano; para o filosofo Wilhelm Dilthey (1833-1911 d.C.) é possível, 
diante do mundo humano, adotar uma atitude de "compreensão pelo 
interior", ao passo que, diante do mundo da natureza, essa via de 
compreensão estaria completamente fechada. Os meios necessários à 
compreensão do mundo histórico-social podem ser, dessa maneira, 
tirados da própria experiência psicológica, e a psicologia, deste ponto de 
vista, é a primeira e mais elementar das ciências do espírito. A 
experiência imediata e vivida na qualidade de realidade unitária 
(Erlebnis) seria o meio a permitir a apreensão da realidade histórica e 
humana sob suas formas concreta e viva. 
• Por intermédio de discussões fenomenológicas, compreensivas e 
hermenêuticas, pensadores analisavam as estruturas do modelo ocidental 
de pensar, teorizar, investigar, formular regras e legislar conhecimentos. 
Surge então o pensamento existencial é um termo aplicado a uma escola 
de filósofos dos séculos XIX e XX que, apesar de possuir profundas 
diferenças em termos de doutrinas, partilhavam a crença que o 
pensamento filosófico começa com o sujeito humano, não meramente o 
sujeito pensante, mas as suas ações, sentimentos e a vivência de um ser 
humano individual. No pensamento existencial, o ponto de partida do 
indivíduo é caracterizado pelo que se tem designado por "atitude 
existencial", ou uma sensação de desorientação e confusão face a um 
mundo aparentemente sem sentido e absurdo. Muitos filósofos do 
pensamento existencial também viam as filosofias acadêmicas e 
sistematizadas, no estilo e conteúdo, como sendo muito abstratase 
53 
 
longínquas das experiências humanas concretas. Reunindo as sínteses do 
pensamento de cada um desses filósofos podemos listar os postulados 
principais dessa corrente filosófica que são: 
• 1) A primeira é o ser humano enquanto indivíduo, e não com as teorias 
gerais sobre o homem. Há uma preocupação com o sentido ou o objetivo 
das vidas humanas, mais que com verdades científicas ou metafísicas 
sobre o universo. Assim, a experiência interior ou subjetiva - e aí está a 
influência da fenomenologia - é considerada mais importante do que a 
verdade "objetiva", um fundamento igual à da filosofia oriental. 
• 2) O homem não foi planejado por alguém para uma finalidade, como os 
objetos que o próprio homem cria, mediante um projeto. O homem se faz 
em sua própria existência. 
• 3) O mundo, como nós o conhecemos, é irracional e absurdo, ou pelo 
menos está além de nossa total compreensão; nenhuma explicação final 
pode ser dada para o fato de ele ser da maneira que é; 
• 4) A falta de sentido, a liberdade conseqüente da indeterminação, a 
ameaça permanente de sofrimento, da origem à ansiedade, à descrença 
em si mesmo e ao desespero; há uma ênfase na liberdade dos indivíduos 
como a sua propriedade humana distintiva mais importante, da qual não 
pode fugir. 
• A Fenomenologia, Filosofia Existencial e Existencialismo trataram dos 
seguintes eixos que fundamentavam a Filosofia Racional, a Ciência 
Natural e também a forma cotidiana do homem pensar a vida e o mundo: 
universalidade e singularidade, corpo e mente, finitude e infinitude, 
subjetividade e objetividade, liberdade e determinismo, possibilidade e 
necessidade, ser do homem enquanto existência (o cotidiano de ter que 
dar conta de ser) e não como puro pensar ou subjetividade separada do 
mundo objetivo, etc. 
 
 
 
 
 
54 
 
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• WILKINSON, Philip; PHILIP, Neil. Mitologia. Rio de Janeiro: Jorge 
Zahar Editor, 2009.psychein ("soprar"), é uma palavra 
ambígua que significava originalmente "alento" e posteriormente, 
"sopro“, “vento”, “brisa”. Dado que o alento é uma das 
características da vida, a expressão "psiquê" era utilizada como um 
sinônimo de vida e por fim, como sinônimo de alma, considerada o 
princípio e o sopro da vida. É o sopro que anima e vivifica o corpo. 
• Outro significado encontrado para psiquê era borboleta, que 
simbolizava o espírito imortal. Na mitologia grega, a personificação 
da alma (psiquê) é representada por uma mulher com asas de 
borboleta. Segundo as crenças gregas populares, quando alguém 
morria, o espírito saia do corpo com uma forma de borboleta. Com a 
invasão do Império Romano, o termo grego psyché foi traduzido 
para o latim, anima. Posteriormente, se tornou alma em português. 
• Esse clássico e significativo mito que inspirou a origem da palavra 
psic(o)- + -logia, não é uma referência básica, apenas pelo 
significado restrito (literal) de psychein e sim porque a trama e os 
personagens de sua narrativa envolvem os principais conceitos da 
lida da psicologia tais como: emoção, capacidade de amar, resolução 
de tarefas e problemas, etc. (Dorsch, 2001; Galimberti, 2010). 
• Exemplos de mitos gregos e a psicologia: 
 
 
6 
 
Mito de Eros e Psiquê em (Kury, 2009) 
Mito de Édipo em (Kury, 2009; Wilkinson & Philip, 2009) 
Mito de Narciso em (Kury, 2009). 
 
Herança dos mitos gregos e o pensar atual 
 
• Universalização das épocas, lugares, povos e culturas onde todos 
são submetidos à mesma explicação. 
• Determinismo fatalista do “destino”. 
• Naturalização dos fenômenos. 
• Essencialismo das características do ser e das situações. 
• A causa A sempre resulta no efeito B 
• Impossibilidade de escolha e mudança. 
 
Características acima, em oposição ao pensamento existencial, resultam em: 
 
• Ao invés de universalizar: especificar. 
• Ao invés de massificar: particularizar em seu contexto existencial 
inter-relacional. 
• Ao invés de determinar fatalisticamente o ser: perceber 
possibilidades de escolhas. 
• Ao invés de naturalizar: nada surge pronto e está definitivamente 
acabado. Compreender a construção, o processo e a mudança ao 
longo do tempo. 
• Ao invés de essencializar: perceber a especificidade e 
complexidade de cada ser e situação. Identificar a capacidade do 
nada de ser ao vir-a-ser em constante possibilidade de mudança. 
• Ao invés de somente uma explicação: perceber a complexidade 
das situações. 
• Ao invés de não-escolha: perceber possibilidades de escolhas com 
responsabilidade. 
 
7 
 
Exemplos de mitos explicando a sexualidade 
 
Mito de Hermafrodito em (Kury, 2009) 
Mito do Andrógino Platônico em (Platão, 2011a) 
 
• Com o objetivo de organizar-se socialmente, o ser humano definiu 
o que era a sexualidade humana. Elas foram posteriormente 
essencializadas, naturalizadas e universalizada (Butler apud 
Antunes, 2010). 
• Construção do seguinte sistema, considerado mais adequado, até 
os dias atuais: 
 
Pênis = Identidade de Gênero Masculina Compulsória = Heterossexualidade Compulsória 
Vagina = Identidade de Gênero Feminina Compulsória = Heterossexualidade Compulsória 
 
Diferenças básicas entre os mitos gregos e a filosofia grega 
 
• Por volta do final do século VII a. C. a recém-surgida filosofia 
grega, percebendo as contradições e limitações dos mitos, foi 
reformulando e racionalizando as narrativas míticas, 
transformando-as numa outra coisa, numa explicação 
inteiramente nova e diferente. 
• O mito pretendia narrar como as coisas eram ou tinham sido no 
passado imemorial, longínquo e fabuloso, voltando-se para o que 
era antes que tudo existisse tal como existe no presente. 
• A filosofia, ao contrário, preocupa-se em explicar como e por que, 
no passado, no presente e no futuro (isto é, na totalidade do 
tempo), as coisas são como são. 
• O mito narrava a origem através de genealogias e rivalidades ou 
alianças entre forças divinas sobrenaturais e personalizadas, 
enquanto a filosofia, ao contrário, explica a produção natural das 
coisas por elementos e causas naturais e impessoais. 
8 
 
• O mito falava em Urano, Ponto e Gaia; a filosofia fala em céu, 
mar e terra. O mito narra a origem dos seres celestes (os astros), 
terrestres (plantas, animais, homens) e marinhos pelos casamentos 
de Gaia com Urano e Ponto. 
• A filosofia explica o surgimento desses seres por composição, 
combinação e separação dos quatro elementos - úmido, seco, 
quente e frio, ou água, terra, fogo e ar. 
• O mito não se importava com contradições, com o fabuloso e o 
incompreensível, não só porque esses eram traços próprios da 
narrativa mítica, como também porque a confiança e a crença no 
mito vinham da autoridade religiosa do narrador. 
• A filosofia, ao contrário, não admite contradições, fabulação e 
coisas incompreensíveis, mas exige que a explicação seja 
coerente, lógica e racional; além disso, a autoridade da explicação 
não vem da pessoa do filósofo, mas da razão, que é a mesma em 
todos os seres humanos (Chauí, 2012: 45-46). 
 
Condições para o aparecimento da filosofia grega 
 
 Viagens marítimas 
 Invenção do calendário 
 Invenção da moeda 
 Surgimento da vida Urbana (pólis). 
 Invenção da escrita Alfabética 
 Invenção da política (Chauí, 2012). 
 
Características da filosofia 
 A filosofia não é um “eu acho que” ou um “eu gosto de”. Não é 
pesquisa de mercado para conhecer preferências dos consumidores e 
criar uma propaganda. 
 A filosofia trabalha com enunciados precisos e rigorosos, busca 
encadeamentos lógicos entre os enunciados, opera com conceitos ou 
9 
 
idéias obtidos por procedimentos de demonstração e prova, exige a 
fundamentação racional do que é enunciado e pensado. Somente 
assim a reflexão filosófica pode fazer com que nossa experiência 
cotidiana, nossas crenças e opiniões alcancem uma visão crítica de si 
mesmas (Chauí, 2004). 
 O conhecimento filosófico é um trabalho intelectual. É sistemático 
porque não se contenta em obter respostas para as questões 
colocadas, mas exige que as próprias questões sejam válidas. 
 Em segundo lugar, que as respostas sejam verdadeiras, estejam 
relacionadas entre si, esclareçam umas às outras, formem conjuntos 
coerentes de idéias e significações, sejam provadas e demonstradas 
racionalmente (Chauí, 2002). 
 Ao filosofar, colocamos o mundo entre parênteses, questionando 
nossos “pré-conceitos”. Uma atitude filosófica implica fazermos as 
seguintes perguntas ao objeto a ser estudado: 
 O que é? Busca encontrar uma definição para o objeto. 
 Como é? Busca a estrutura de relações e o funcionamento do objeto. 
 Por que é? Busca encontrar a origem e as causas da existência do 
objeto. 
 Para que é? Busca qual é finalidade do objeto (Chauí, 2012). 
 
O que perguntavam os primeiros filósofos? 
 
 Por que do diferente surge outro diferente? Do dia a noite? Do 
inverno a primavera? 
 Por que tudo muda? Um dia luminoso e ensolarado, se torna sombrio 
e coberto de nuvens? 
 Por que o que parecia uno se torna múltiplo? De uma gata, nasce um 
monte de gatinhos? 
 Por que as coisas se tornam oposto do que eram? A água quente se 
torna fria? 
 Por que tudo parece se repetir? Depois do dia vem a noite? Depois da 
noite vem o dia? 
10 
 
 Por que nada permanece idêntico a si mesmo? 
 De onde vêm os seres? Para onde vão quando desaparecem? 
 Por que tudo existe? De onde surgiu? Qual é a razão de ser? 
 Quais são as forças originárias que agem nesse processo? (Chauí, 
2012; Reale e Antiseri, 1990a). 
 
Nascimento da filosofia grega 
 
 A filosofia antiga grega teve início no século VI a.C. e se estendeu 
até a decadência do império romano no século V d.C. Os primeiros 
filósofos gregos, geralmente chamados de pré-socráticos, dedicaram-
se a especulações sobre a constituição e a origem do mundo. O principal intuito desses filósofos era descobrir um elemento 
primordial, eterno e imutável que fosse a matéria básica de todas as 
coisas (arché). Essa substância imutável era chamada de physis 
(palavra grega cuja tradução literal seria natureza, mas que na 
concepção dos primeiros filósofos compreendia a totalidade dos 
seres, inclusive entidades divinas). 
 A questão da essência material imutável foi a primeira feição 
assumida por uma inquietação que percorreu praticamente toda a 
filosofia grega. Essa inquietação pode ser traduzida na seguinte 
pergunta: existe uma realidade imutável por trás das mudanças 
caóticas dos fenômenos naturais? (Bornheim, 1994). 
 
Principais filósofos europeus e suas concepções de psyché 
 
 Tales de Mileto (cerca de 625 – 558 a.C.) foi o primeiro filósofo 
ocidental de que se tem notícia. Ele dizia que o princípio de todas as 
coisas é a água, sendo talvez levado a formar essa opinião por ter 
observado que o alimento de todas as coisas é úmido e que o próprio 
calor é gerado e alimentado pela umidade. Ora, aquilo de que se 
originam todas as coisas é o princípio delas. Daí lhe veio essa opinião 
e também a de que as sementes de todas as coisas são naturalmente 
11 
 
úmidas e de ter origem na água a natureza das coisas úmidas (Nicola, 
2005; Reale e Antiseri, 1990a). 
 Atribui-se a Tales a afirmação de que "todas as coisas estão cheias de 
deuses", o que talvez pode ser associado à idéia de que o imã tem 
vida porque move o ferro (Aristóteles, 2011). Essa afirmação 
representa não um retorno à concepções míticas, mas simplesmente a 
idéia de que o universo é dotado de animação, de que a matéria é viva 
(hilozoísmo do grego hyle, matéria, e zoe, vida). Os hilozoístas 
consideram que toda a realidade, inclusive a inerte, está dotada 
de sensibilidade e, portanto, animada por um princípio ativo 
(Abbagnano, 2007). 
 
 Para Anaximandro de Mileto (cerca de 610 – 547 a.C), o 
princípio das coisas - o arché - não era algo visível; era uma 
substância etérea, infinita. Ele tinha um argumento contra Tales: o ar 
é frio, a água é úmida e o fogo é quente. E essas coisas são 
antagônicas entre si. Portanto o elemento primordial não poderia ser 
um dos elementos visíveis, teria que ser um elemento neutro, 
indeterminado (apeíron), que está presente em tudo, mas está 
invisível. O apeíron seria uma “massa geradora” dos seres, contendo 
em si todos os elementos contrários. 
 Do ilimitado surgem inúmeros mundos e estabelece-se a 
multiplicidade; a gênese das coisas a partir do ilimitado é explicada 
por meio da separação dos contrários em conseqüência do 
movimento eterno. Para Anaximandro o princípio das coisas - o arché 
- não era algo visível; era uma substância etérea, infinita. Chamou a 
essa substância de apeíron (indeterminado, infinito) (Reale e Antiseri, 
1990a). 
 
 Anaxímenes de Mileto (cerca de 570—526 a.C.). Ele pensava 
que a origem de todas as coisas teria de ser o ar ou o vapor. 
Anaxímenes conhecia claro, a teoria da água de Tales. Mas de onde 
vem a água? Anaxímenes acreditava que a água seria ar condensado. 
12 
 
Acreditava também que o fogo seria ar rarefeito. De acordo com 
Anaxímenes, por conseguinte, o ar "pneuma" constituiria a origem da 
terra, da água e do fogo. 
 Os três filósofos de Mileto acreditavam na existência de uma 
substância básica única, que seria a origem de todas as coisas. No 
entanto, isso deixava sem solução o problema da mudança. Como 
poderia uma substância se transformar repentinamente em outra 
coisa? A partir de cerca de 500 a.C. quem se interessou por essa 
questão foi um grupo de filósofos da colônia grega de Eléia, no sul da 
Itália, por isso conhecidos como eleatas (Reale e Antiseri, 1990a). 
 
 Parmênides de Eléia (cerca de 530/515 - 460 a.C.). “Nada nasce 
do nada e nada do que existe se transforma em nada”. Com isso quis 
dizer que “tudo o que existe sempre existiu”. 
 Sobre as transformações que se pode observar na natureza: “Achava 
que não seriam mudanças reais”. De acordo com ele, nenhum objeto 
poderia se transformar em algo diferente do que era. 
 Parmênides de Eléia defendeu que a perene mutação das coisas não 
passa de uma ilusão dos sentidos, pois a razão revelaria que o Ser é 
único, imutável e eterno. 
 Quando se viu forçado a escolher entre confiar nos sentidos ou na 
razão, escolheu a razão. Essa inabalável crença na razão humana 
recebeu o nome de racionalismo. Um racionalista é alguém que 
acredita que a razão humana é a fonte primária de nosso 
conhecimento do mundo (Reale e Antiseri, 1990a). 
 Verdade e opinião: a contradição posta por Parmênides entre verdade 
(alétheia) e opinião (doxa) tornaria-se um tema clássico do 
pensamento ocidental. Opinião é a crença que se baseia em dados 
sensíveis e perceptíveis, mesmo quando esses parecem ser certos e 
evidentes; verdade é a convicção baseada em argumentações 
racionais, mesmo quando essas argumentações parecem em total 
oposição às evidencias sensíveis (Nicola, 2005). 
 
13 
 
 Um contemporâneo de Parmênides foi Heráclito de Éfeso (cerca 
de 540 - 476 a.C.), que defendia que a própria essência das coisas é 
mudança e a transformação, (simbolizada pelo fogo e/ou moeda), e 
seriam vãos os esforços para buscar uma realidade imutável. 
 Tudo está em fluxo e movimento constante, nada permanece (phánta 
reî). Por conseguinte, “não entramos duas vezes no mesmo rio”. 
Quando entro no rio pela segunda vez, nem eu nem o rio somos os 
mesmos. Além disso, Heráclito afirmava que todos têm lógos 
(pensamento, razão, inteligência, explicação, cálculo, medida, 
avaliação, razão, causa, necessidade, discurso), mas só os despertos o 
sabem. 
 Parmênides e Heráclito defendiam dois pontos principais 
diametralmente opostos (Pré-Socráticos, 1979). 
 
 Coube ao siciliano Empédocles de Agrigento (cerca de 490 - 
430 a.C.) indicar a saída desse dilema. Não é possível que a fonte da 
Natureza seja um único “elemento”. Empédocles acreditava que a 
Natureza consistiria de quatro elementos, ou “raízes”, como os 
denominou. Essas quatro raízes seriam a terra, o ar, o fogo e a água. 
 Todas as coisas seriam misturas de terra, ar, fogo e água, mas em 
proporções variadas. Assim as diferentes coisas que existem seriam 
os processos naturais gerados pela aproximação e à separação desses 
quatro elementos. Empédocles pensava que haveria duas forças 
diferentes atuando na Natureza. Ele as chamou de amor e discórdia. 
Amor uniria as coisas, a discórdia as separaria (Reale e Antiseri, 
1990a). 
 
 Para Demócrito de Abdera (cerca de 460 – 370 a.C), as 
transformações que se podem observar na natureza não significavam 
que algo realmente se transformava. Ele acreditava que todas as 
coisas, inclusive a alma, eram formadas por uma infinidade de 
"pedrinhas minúsculas, invisíveis, cada uma delas sendo eterna, 
14 
 
imutável e indivisível". A alma forma uma unidade com o intelecto. A 
estas unidades mínimas deu o nome de átomos (não divisível). 
 Átomo significa indivisível, cada coisa que existe é formada por uma 
infinidade dessas unidades indivisíveis. Exemplo: se um corpo – de 
uma árvore ou animal, morre e se decompõe, seus átomos se 
espalham e podem ser reaproveitados para dar origem a outros 
corpos. 
 Demócrito ainda inicia a corrente de pensamento determinista de 
causa-efeito na filosofia. Conhecendo o processo, se conhecem os 
resultados (Nicola, 2005; Reale e Antiseri, 1990a). 
 
 Pitágoras de Samos (cerca de 570 – 500 C.) defendia uma 
doutrina com ênfase na metafísica e na filosofia dos números e da 
música como essência de tudo que existe e também da 
própria Divindade. 
 Pitágoras percorreu por 30 anos o Egito, Babilônia, Síria, Fenícia e 
talvez a Índia e a Pérsia, onde acumulou ecléticos 
conhecimentos: astronomia, matemática, 
ciência, filosofia, misticismo e religião. Ele foi contemporâneode Tales de Mileto, Buda, Confúcio e Lao-Tsé. 
 Ele tinha a crença na transmigração das almas ou metempsicose (do 
grego: meta: mudança + en: em + psiquê: alma) é o termo genérico 
para transmigração da alma, de um corpo para outro, seja este do 
mesmo tipo de ser vivo ou não. O processo de libertação da alma 
seria resultante de um esforço basicamente intelectual. A purificação 
resultaria de um trabalho intelectual, que descobre a estrutura 
numérica das coisas e torna, assim, a alma como uma unidade 
harmônica (Spinelli, 2003). 
 Pitágoras de Samos também foi influenciado pelo Orfismo, que era 
uma espécie de religião de mistérios no antigo mundo grego que foi 
difundido a partir dos séculos VII e VI a.C. Caracterizava 
as almas humanas como divinas e imortais, mas condenadas a viver 
15 
 
(por um período) em um círculo penoso de sucessivas encarnações 
por meio da metempsicose ou transmigração de almas. 
 As teogonias órficas são trabalhos genealógicos como a Teogonia de 
Hesíodo, mas os detalhes são diferentes. O relato principal é: 
Dionísio (na sua encarnação de Zagreus) é o filho de Zeus e 
Perséfone; ele foi assassinado e fervido pelos Titãs. Zeus lançou um 
raio nestes e Hermes salvou o coração de Zagreus. 
 As cinzas resultantes geraram a humanidade pecaminosa, composta 
dos corpos dos Titãs e de Dionísio. A alma do homem (fator 
dionisíaco) é, portanto, divina, enquanto o corpo (fator titânico) 
aprisiona a alma. Declarava-se que a alma retornaria repetidamente à 
vida, atada à roda do renascimento (Galimberti, 2010; Kury, 2009). 
 Para Pitágoras de Samos a alma (imortal e presente em cada ser vivo) 
é constituída de éter, o quinto elemento, uma substância material, mas 
muito sutil e invisível. 
 A alma tem três componentes. 
 O coração é a sede da emoção; o cérebro, do intelecto e da mente. 
 Também o pensamento é constituído de éter. 
 A alma não é necessariamente controlada pela mente racional. 
 A alma sobrevive ao corpo. 
 Os sonhos são mensagens enviadas pelas almas dos mortos. Os 
animais também sonham. 
 O rito religioso estabelece um contato com as almas. 
 A alma tende ao bem, mas o homem é em si um ser inquieto (Nicola, 
2005:24-25). 
 A teoria de Demócrito de Abdera representou o ápice da filosofia 
da physis, mas também o seu esgotamento. As transformações 
sociopolíticas, especialmente em Atenas, já impunham novas 
demandas aos sábios da época. As populações das cidades começam a 
crescer. A democracia ateniense solicitava novas habilidades 
intelectuais, sobretudo a capacidade de persuadir. É nesse momento 
que se destacam os filósofos que se dedicam justamente a ensinar 
à retórica e as técnicas de persuasão – os sofistas (Chauí, 2012). 
16 
 
 Enquanto os filósofos naturalistas (physis) procuraram responder à 
seguinte questão: "O que é a natureza ou a realidade última das 
coisas? 
 
 Para os sofistas a experiência individual é o único critério real da 
verdade. Não existem leis eternas e verdades objetivas, somente 
opiniões. Mas a relatividade de todo o juízo não deve levar ao 
derrotismo: o livre choque de opiniões (dialética) seleciona sempre a 
melhor solução, a mais útil. Por isso, mesmo não existindo qualquer 
verdade, a tarefa educativa do filósofo permanece essencial. 
 Como todo sofista, Protágoras (483-410 a.C.) sustentava que o 
homem é a medida de todas as coisas. Acreditava na inexistência de 
uma verdade objetiva válida, mas afirmava também a necessidade do 
estudo e da educação, na medida em que, se não existem proposições 
verdadeiras em absoluto, deve-se saber diferenciar entre as opiniões 
melhores e piores, mais ou menos úteis no indivíduo e na sociedade. 
A tarefa do sofista abrange, portanto, também um aspecto construtivo 
e socialmente e socialmente fecundo ao encaminhar os cidadãos para 
os valores e as opiniões mais adequadas a determinada situação 
(Platão, 2007). 
 
 As três teses defendidas por Górgias (485-380 a.C.) estão entre as 
mais radicais dentro da tradição filosófica. Nada existe; mesmo se 
algo existisse sobre isso nada poderia ser sabido; mesmo se se 
pudesse saber algo, o conhecimento acerca disso não poderia ser 
comunicado a outros: mesmo que pudesse ser comunicado, não 
poderia ser compreendido. Górgias não acreditava absolutamente nas 
teses que defendia, pois era capaz, desde que solicitado, de inventar 
argumentos que provavam a tese contrária, transformando o 
verdadeiro em falso e vice-versa. É como se ele dissesse que não 
existe uma verdade indiscutível, mas somente opiniões; não existe 
nenhum lógos, nenhuma explicação definitiva e inopinável, mas 
17 
 
somente retórica e persuasão, sedução intelectual (Pré-Socráticos 
1979). 
 Fenomenismo: em filosofia, o termo fenômeno indica o que é 
aparente em uma coisa, em contraposição ao que ela é em si mesma. 
Chama-se de fenomenismo a idéia de que o conhecimento humano 
jamais pode levar em consideração a realidade de modo absoluto e 
objetivo, mas somente perceber suas aparências – ou seja, exatamente 
os fenômenos. Os sofistas lançaram a doutrina fenomenista, 
conferindo a esta um forte significado subjetivista, relativista e 
cético: não existem verdades e tampouco afirmações universais, tudo 
depende do sujeito e da situação que ele se encontra (Nicola, 2005). 
 
 Pirro de Élis (360-275 a.C.), um dos principais filósofos céticos, 
seguia uma linha de raciocínio parecida com os sofistas. Os 
princípios de sua obra são expressos, em primeiro lugar, pela palavra 
acatalepsia, que define a impossibilidade de se conhecer a própria 
natureza das coisas. Para ele qualquer afirmação pode ser 
contraditada por argumentos igualmente válidos. Ou seja, a cada 
afirmação pode-se contrapor outra contraditória, mas com base 
igualmente coerente. Qualquer que seja a opinião de alguém, a 
opinião contrária é tão inteligente e competente para julgar quanto à 
primeira. É necessário preservar uma atitude de suspensão intelectual 
(epoché). 
 Ou seja, nenhuma afirmação pode ser considerada melhor que outra. 
Sobre a realidade, podemos apenas responder que não sabemos nada. 
Sabemos apenas de sua aparência, mas somos ignorantes quanto a sua 
substância íntima. O mesmo objeto aparece diferentemente a 
diferentes pessoas, e assim é impossível saber qual aparição é a 
correta. Não podemos ter certeza de nada, mesmo as afirmações mais 
triviais. Epoché é o termo grego utilizado por Pirro e pelos céticos 
para denominar a dúvida, a necessária suspensão de juízo que 
caracteriza sua posição: nem aceitar, nem rejeitar; nem afirmar, nem 
negar. Diferente da epoché fenomenológica a cética é um 
18 
 
procedimento destrutivo cuja conclusão é a afasia, o silêncio (Chauí, 
2003; Nicola, 2005). 
 
 Sócrates (469 – 399 a. C.) procura responder às seguintes questões: 
“O que é a natureza ou realidade última do homem?”, ou seja, “o que 
é a essência do homem?” 
 Para Sócrates a alma se apresenta como um substância específica 
imaterial (= espiritual), não composta (= simples), essencialmente 
distinta do corpo material. 
 A alma tendo a capacidade de exercer um comportamento ético é 
dotada de faculdades distintas e hierarquizadas: sentido, vontade 
dotada de liberdade e inteligência. 
 A alma é simples porque é indivisível, diferente do corpo que se 
divide em partes, já a alma é dotada de movimento próprio e de 
conhecimento. 
 Para Sócrates a alma é causadora do movimento, por um poder não 
recebido de fora. Cada corpo movido de fora é inanimado. O corpo 
movido de dentro é animado, pois que o movimento é a natureza da 
alma (Platão, 2007; Reale e Antiseri, 1990a). 
 Num primeiro argumento da imortalidade com base em sua natureza, 
alegou Sócrates, que, por ser espiritualidade e simples, em tal estado, 
a alma não pode corromper-se. Em sendo incorruptível, decorre ser 
imortal. Não se pode desfazer, nem mesmo após amorte do corpo. 
Efetivamente, a simplicidade tem por efeito formal excluir a 
corrupção, pois que a corrupção supõe a composição de partes 
 Toda a alma é imortal, porque aquilo que se move a si mesmo é 
imortal. O que move uma coisa e é por outra movida, anula-se uma 
vez terminado o movimento. Somente o que a si mesmo se move, 
nunca saindo de si, jamais acabará de mover-se e é para as demais 
coisas que se movem fonte do início do movimento. O início é algo 
que não se formou, sendo evidente que tudo que se forma, forma-se 
de um princípio. Este princípio de nada proveio, pois que, e proviesse 
de uma outra coisa, não seria princípio (Platão, 2011b; Nicola, 2005). 
19 
 
 Outra prova da imortalidade da alma a partir de sua mesma natureza, 
considera-a indestrutível por ação a agir sobre ela a partir do exterior. 
Ponderou Sócrates que, sendo a alma simples, nenhuma causa 
consegue destruí-la. 
 Segundo Sócrates, a alma é perfeita, pois pode obter a "ciência" ou o 
"conhecimento", ao passo que o "vício" seria a privação de ciência ou 
conhecimento, ou seja, a "ignorância." Assim, à pergunta "o que é 
o homem?", não se pode responder que é o seu corpo, mas sim que é 
"aquilo que se serve do corpo". Mas "o que se serve do corpo é 
a psyché, a alma (= a inteligência)", de modo que a conclusão é 
inevitável: "A alma nos ordena conhecer aquele que nos adverte: 
“Conhece-te a ti mesmo”, conforme nos lembra Sócrates sobre a 
inscrição encontrada no Oráculo de Delfos (Abbagnano, 2007; Reale 
e Antiseri, 1990a; Sócrates, 1979). 
 
 Muitas das idéias de Sócrates em relação à alma, eram 
compartilhadas por Platão (cerca de 428 – 348 a. C.) que era seu 
discípulo. 
 Ele também elaborou uma teoria gnosiológica, ou seja, uma teoria do 
conhecimento. Segundo seu autor, antes de nascer, a alma de 
cada pessoa vivia em uma estrela, onde se localizam as Idéias. 
 Quando uma pessoa nasce, sua alma é "jogada" da estrela para a 
Terra e o impacto que ocorre faz com que esqueça o que viu na 
estrela. Mas, ao ver um objeto aparecer de diferentes formas (como as 
diferentes árvores que se pode ver), a alma se recorda da Idéia 
daquele objeto que foi visto na estrela. Tal recordação, em Platão, 
chama-se anamnesis (Platão, 2011b; Reale e Antiseri, 1990a). 
 A alma humana enquanto perfeita participa do mundo perfeito das 
idéias, porém este formalismo só é reconhecível na experiência 
sensível. Apesar de todos terem a alma perfeita, nem todos chegavam 
à contemplação absoluta do mundo das idéias. 
 O homem para Platão era dividido em corpo e alma. O corpo era a 
matéria e a alma era o imaterial e o divino que o homem possuía. 
20 
 
Enquanto o corpo está em constante mudança de aparência, a alma 
não muda nunca. Desde quando nascemos, temos a alma perfeita, 
porém não sabemos. As verdades essenciais estão inscritas na alma 
eternamente, porém, ao nascermos, nós as esquecemos, pois a alma é 
aprisionada no corpo. Em síntese, para o filosofo, o homem era uma 
alma racional habitando um corpo mortal (Abbagnano, 2007; Platão, 
1979). 
 Platão acreditava que existiam três espécies de virtudes baseadas 
na alma, que corresponderiam aos estamentos da pólis: 
 A primeira virtude era a da sabedoria, deveria ser a cabeça do Estado, 
ou seja, o governante, pois possui caráter de ouro e utiliza a razão. 
 A segunda espécie de virtude é a coragem, deveria ser o peito do 
Estado, isto é, os soldados ou guardiões da pólis, pois sua alma de 
prata é imbuída de vontade. E, por fim, a terceira virtude, 
a temperança, que deveria ser o baixo-ventre do Estado, ou os 
trabalhadores, pois sua alma de bronze orienta-se pelo desejo das 
coisas sensíveis (Platão, 2011b). 
 Para Platão a alma é divida em três partes: 
 1) Racional: cabeça; esta tem que controlar as outras duas partes. Sua 
virtude é a sabedoria ou prudência (phrónesis). 
 2) Irascível: tórax; parte da impetuosidade, dos sentimentos. Sua 
virtude é a coragem (andreía). 
 3) Concupiscente: baixo ventre; apetite, desejo, mesmo carnal 
(sexual), ligado à libido. Sua virtude é a moderação ou temperança 
(sophrosýne). 
 Esse estreito vínculo com o corpo, que se renova a cada ciclo vital 
segundo o principio da metempsicose, impede que a alma realize 
plenamente a própria natureza espiritual. É o motivo pelo qual o 
filósofo deseja morrer, ou seja, separar-se da prisão corpórea. 
 Platão acreditava que a alma depois da morte reencarnava em outro 
corpo (metempsicose), mas a alma que se ocupava com a filosofia e 
com o Bem, esta era privilegiada com a morte do corpo. A ela era 
concedida o privilégio de passar o resto dos seus tempos em 
21 
 
companhia dos deuses. Por meio da relação de sua alma com a Alma 
do Mundo, o homem tem acesso ao mundo das Idéias e aspira ao 
conhecimento e às idéias do Bem e da Justiça (Platão, 1979). 
 
 Aristóteles (384 – 322 a.C.) era discípulo de Platão, que por sua 
vez foi de Sócrates. Aristóteles compartilhava das mesmas idéias 
sobre a alma, expostas pelos dois filósofos anteriores. Ele considera 
que a Psicologia é a teoria da alma e baseia-se nos conceitos de alma 
(psyché) e intelecto (noûs). A alma é a forma primordial de um corpo 
que possui vida em potência, sendo a essência do corpo. A alma está 
para o corpo assim como a visão está para os olhos. O intelecto, por 
sua vez, não se restringe a uma relação específica com o corpo; sua 
atividade vai além dele. 
 O organismo, uma vez desenvolvido, recebe a forma que lhe 
possibilitará perfeição maior, fazendo passar suas potências a ato. 
Essa forma é alma. Ela faz com que vegetem, cresçam e se 
reproduzam os animais e plantas e também faz com que os animais 
sintam (Abbagnano, 2007; Aristóteles, 2011). 
 No homem, a alma, além de suas características vegetativas e 
sensitivas, há também a característica da inteligência, que é capaz de 
apreender as essências de modo independente da condição orgânica. 
 Aristóteles considerava que somente a parte intelectiva da alma era 
separável do corpo. É substância, isto é, realidade no sentido forte do 
termo, e princípio independente de operações, isto é, causa. Todos os 
seres são compostos de uma matéria – corpo e possuem uma alma, 
uma organização que é justamente aquilo que ao se unir ao corpo lhe 
dá a vida – forma (Piccino, 1990). 
 A matéria é potência, a forma é ato e todo o ser animado é composto 
por essas duas coisas; mas enquanto o corpo não é o ato da alma, a 
alma é atividade de um corpo determinado, isto é, a realização da 
potência própria desse corpo. Ela não existe nem sem o corpo nem 
como corpo. Tudo aquilo que se transforma não faz senão passar para 
o ato aquilo que já possui em potência. A potência indica a 
22 
 
possibilidade por parte da matéria de assumir determinada forma. O 
ato indica a realização dessa possibilidade. A potência está para a 
matéria como o ato está para a forma (Aristóteles, 1979; Reale e 
Antiseri, 1990a). 
 Aristóteles estabelece níveis diferentes para o funcionamento da 
alma: 
 Alma vegetativa (nutrição, reprodução e crescimento): existente nos 
vegetais, animais e no homem. 
 Alma sensitiva (percepção e sensação): existente nos animais e no 
homem. 
 Alma locomotora: responsável pelo movimento nos animais e no 
homem. 
 Alma intelectual: responsável pelas funções intelectivas: existente 
nos homens. É separável do corpo. É substância, isto é, realidade no 
sentido forte do termo, e princípio independente de operações, isto é, 
causa (Abbagnano, 2007; Piccino, 1990). 
 
 Epicuro de Samos (cerca de 341-271 a. C.) defendia que das 
estrelas à alma, tudo é formado de átomos, sendo, porém de 
diferentes naturezas. Dizia que os átomos são de qualidades finitas, 
de quantidades infinitas e sujeitos a infinitas combinações. 
 A morte física seria o fim do corpo (e do indivíduo), que era 
entendido como somatório de carne e alma, peladesintegração 
completa (alma e corpo) dos átomos que o constituem. Desta forma, 
os átomos, eternos e indestrutíveis, estariam livres para constituir 
outros corpos. (Abbagnano, 2007). 
 
 Zenão de Cítio (cerca de 334 -262 a. C.) acreditava que a 
substância primária no Universo vinha do fogo, passava pelo estado 
de ar, e depois tornava-se água: a parte mais concentrada tornava-se 
terra e a menos concentrada tornava-se ar novamente, rarefazendo-se 
de novo em fogo. 
23 
 
 As almas individuais faziam parte do mesmo fogo como a alma-
mundo do Universo. Seguindo Heráclito, Zenão adotou a visão de 
que o Universo passou por ciclos regulares de formação e destruição 
(Nicola, 2005). 
 Já estamos na era cristã. O império Romano já havia dominado a 
Grécia e grande parte da Europa. O cristianismo começava a se 
expandir. As questões sobre alma continuam, tais como: quais 
relações existem entre corpo e alma? A alma depende do corpo ou é 
dele desvinculada? Como se dá a atuação da alma sobre o corpo? O 
que ela lhe confere? (Piccino, 1990). 
 
 Galeno (130 – 200 d.C.) era médico e filósofo. Seus pontos de vista 
dominaram a medicina européia por mais de mil anos. Sua fisiologia, 
por exemplo, é baseada em idéias aristotélicas da natureza, 
movimento, causa e efeito e com a alma como o princípio vital, como 
nas idéias de Platão. Distinguiu entre a alma 
concupiscível (localizada no fígado), alma irascível (no coração) e 
a alma racional (no cérebro) (Reale e Antiseri, 1990). 
 
 Plotino (204 – 270 d. C.) defendia que Deus (Uno) quando pensa a 
si mesmo emana o intelecto (Espírito) que é a sua representação. O 
intelecto quando pensa em si cria a alma (do mundo e do homem) que 
é a representação do intelecto. 
 Na seqüência de importância das derivações Deus está em primeiro 
lugar, o intelecto em segundo, a alma em terceiro. Em seguida 
aparece o mundo físico, criado pela alma e que é composto de 
matéria . 
 A alma inicialmente cria a matéria para depois dar forma a essa 
matéria. A alma dá forma à matéria iluminando-a. O mundo físico é, 
portanto formas criadas pela alma. Esse processo se chama hipóstase. 
No processo de crescimento espiritual a alma (o homem) escolhendo 
o caminho de retorno a Deus refaz em sentido inverso, o percurso das 
emanações (Nicola, 2005; Reale e Antiseri, 1990a). 
24 
 
 Para examinar a natureza de algo, é preciso considerá-lo em sua é 
pureza. Para examinar o que é a alma é necessário olhar para si 
mesmo retirando-se na própria interioridade. A alma é reduzida ao 
movimento de introspecção, reflexão sobre si mesma. Dessa maneira 
pode ver a sabedoria e a justiça. 
 Tal ato prescinde do corpo e de tudo aquilo que o corpo se relaciona – 
as coisas, o mundo e os outros homens. Graças a Plotino a alma 
também começa a ser entendida como consciência – definida de 
início como a reflexão sobre a interioridade, a confissão como 
reconhecimento da realidade íntima (Abbagnano, 2007). 
 Na Idade Média (476 – 1453 d. C.), ocorreu um intenso sincretismo 
entre o conhecimento clássico e as crenças religiosas, como resultado 
da expansão do cristianismo. De fato, uma das principais 
preocupações dos filósofos medievais foi a de fornecer 
argumentações racionais, espelhadas nas contribuições dos gregos, 
para justificar as chamadas verdades reveladas da Igreja Cristã e da 
Religião Islâmica, tais como a da existência de Deus, a imortalidade 
da alma etc. 
 
 Agostinho (354 – 470 d.C.) o tempo não tem existência per se e só 
pode ser apreendido por nossa alma por meio de uma atividade 
chamada de "distensão da alma" (em latim: distentio animi). A 
distensão da alma, grosso modo, nada mais é do que a compreensão 
dos três tempos; pretérito, presente e futuro na alma, de modo que 
seja possível lembrar do passado, viver o presente e prever o futuro. 
Agostinho afirma que a alma é quem pode medir o tempo e essa 
"medição" atesta a existência do tempo apenas em caráter 
psicológico. 
 O homem é definido como uma alma que se serve de um 
corpo. Agostinho mantém esse conceito com todas as conseqüências 
lógicas que ele comporta. Assim o verdadeiro conhecimento não 
seria a apreensão de objetos exteriores ao sujeito, devido a sua 
variabilidade, e sim, a descoberta de regras imutáveis, como o 
25 
 
princípio ético segundo o qual é necessário fazer o bem e evitar o mal 
(Nicola, 2005). 
 O homem, feito a semelhança de Deus, desdobra-se em 
correspondência com a Trindade. As expressões dessa 
correspondência encontram-se na alma humana: a própria alma (Pai), 
a razão (Filho) e a fé ou vontade (Espírito Santo). 
 O pecado é segundo Agostinho, uma transgressão da lei divina, na 
medida em que a alma foi criada por Deus para reger o corpo, e o 
homem, fazendo mal uso do livre arbítrio, inverte essa relação, 
subordinando a alma ao corpo e caindo na concupiscência e na 
ignorância (Agostinho, 1979). 
 
 Partindo de um conceito aristotélico, Tomás de Aquino (1225- 
1274 d.C.) definiu o ser humano como uma unidade formada por dois 
elementos distintos: a matéria primeira (potencialidade) e a forma 
substancial (o princípio realizador). Esses dois princípios se unem na 
realidade do corpo e da alma no ser humano. Ninguém pode existir na 
ausência desses dois elementos. 
 A alma vegetativa, que vem primeiro, quando o embrião vive como 
uma planta, corrompe-se e é sucedida por uma alma mais perfeita, 
que é ao mesmo tempo nutritiva e sensitiva, quando o embrião vive 
uma vida animal; quando ela se corrompe, é sucedida pela alma 
racional induzida do exterior. Já que a alma se une ao corpo como sua 
forma, ela não se une a um corpo que não seja aquele do qual ela é 
propriamente o ato. A alma é agora o ato de um corpo orgânico 
(Aquino, 1979). 
 No homem existe uma alma espiritual - unida com o corpo, mas 
transcendendo-o - porquanto além das atividades vegetativa e 
sensitiva, que são materiais, se manifestam nele também atividades 
espirituais, como o ato do intelecto e o ato da vontade. 
 A vontade não pode ser senão a faculdade de um princípio imaterial, 
espiritual, ou seja, da alma racional, que pelo fato de ser ima3terial, 
26 
 
isto é, espiritual, não é composta de partes e, por conseguinte, é 
imortal (Abbagnano, 2007; Reale e Antiseri, 1990a). 
 
 Para Marcílio Ficino (1443 – 1499 d. C.) a alma tem uma 
existência intermediária. Ela é como um espelho da divindade. O seu 
lugar é o terceiro no ordenamento universal. Acima estão Deus e o 
mundo angélico. Abaixo a matéria e as qualidades físicas. Mesmo 
aderindo ao corpo a alma é imortal. Pela sua natureza intermediária, a 
alma pode conhecer tudo (Nicola, 2005). 
 
 Giordano Bruno (1548 – 1600 d. C.) pregava que a alma é 
intrínseca aos entes naturais, como o timoneiro é ao navio. Ela é a 
forma e a causa dos entes. O mundo é, no seu conjunto, um ser 
dotado de alma, é verdadeiramente um grande animal. 
 Quem nega a alma do mundo diminui o Criador. O problema está no 
modo como a alma se une à matéria. A alma se une à matéria como a 
beleza se une aos corpos. 
 Posto que são dotados de uma forma, todos os objetos da natureza 
possuem alma. Não é a matéria em si que é animada. Mas todo o 
objeto dotado de uma forma. Cada ente possui uma estrutura interna, 
um princípio individual que guia seu movimento. 
 Anaxágoras tinha razão de afirmar que tudo está em tudo. Tudo no 
mundo ou é animal ou é inanimado. Isso é demonstrável pela 
propriedade de certos fármacos influírem sobre o espírito. 
 Os magos acreditam com razão, que os ossos retêm alguma coisa do 
indivíduo. Existe uma alma de cada coisa e do mundo no seu 
conjunto. 
 A alma, como forma de todas as coisas, plasma a matéria. A matéria é 
única; constitui os objetos, assumindo cada vez uma forma diferente. 
A matéria também, como a alma, é uma substancia imutável em si. 
 Erram os Aristotélicos(os sofistas) ao distinguir o ser do indivíduo e 
ao considerar o indivíduo um composto de matéria e forma. Isso leva 
a temer a morte (Nicola, 2005: 171-173). 
27 
 
 
 Para René Descartes (1596-1650 d. C.) o cientista não devia 
simplesmente confiar nas habilidades intelectuais. Ele deve ter um 
método que garanta a legitimidade dos resultados. 
 Para o filósofo, deve-se duvidar das afirmações que não sejam 
intuitivamente evidentes. Para tornar a dúvida mais drástica, imagina 
um gênio maligno que confunde suas percepções. O objetivo da 
dúvida não é negar a existência de qualquer verdade, mas extirpar 
proposições tão simples quanto inomináveis (Descartes, 2011). 
 A prática da dúvida vai contra a “normalidade” psíquica, pois os 
hábitos mentais formados na vida cotidiana pressionam em sentido 
contrário. Deve-se duvidar até dos princípios científicos (Nicola, 
2005; Reale e Antiseri, 1990b). 
 Existe algo de que não se possa duvidar? Depois de ter duvidado de 
tudo, só uma coisa permanece indiscutível: não se pode duvidar de 
que está duvidando. Posto que a dúvida é um pensamento, não se 
pode duvidar de sermos seres pensantes. 
 “Cogito, ergo sum”. “Penso, logo existo”. Para o filósofo essa 
afirmação é absolutamente certa. O fato de pensar apenas afirma que 
somos seres pensantes, mas não ainda como indivíduos dotados de 
corpo. A dúvida demonstra a existência de uma Res congitans 
(substância pensante) que não é o corpo. Antes de iniciar a prática da 
dúvida, a sensação de existir como corpo parecia uma certeza. 
 A existência do corpo foi colocada em dúvida, assim como a 
percepção. Somente o pensamento não pode deixar de existir 
(Abbagnano, 2007; Chauí, 2012; Descartes, 2011). 
 Além da substância pensante (res cogitans), não extensa no espaço, 
existe também a material (o mundo, os objetos, a matéria, o corpo 
que hospeda a mente?) O senso comum afirma a existência da 
realidade corpórea sem a necessidade de confirmação. 
 Porém, para Descarte, essa consideração não pode ser levada em 
conta, pois essas percepções necessitam ser submetidas à prova da 
dúvida. 
28 
 
 As percepções parecem ser causadas por alguma coisa exterior a nós 
mesmos que não é mental. Deus parece nos fornecer essas percepções 
e que o mundo extenso não exista. Mas não pode existir um deus 
enganador, portanto a matéria extensa (res extensa) realmente existe 
(Descartes, 1979). 
 Para Descartes a essência da alma é o pensamento e a esse da matéria 
é a extensão. 
 A conexão entre a alma e o corpo se dá no cérebro por meio da 
glândula pineal. Esta por sua vez, estabelece a comunicação entre a 
substância material e espiritual. 
 A alma passa a ser entendida como consciência e substância pensante. 
Tal divisão entre alma e corpo levou mais adiante a necessidade de 
uma dirigida ao psíquico, a psicologia (Piccino, 1990). 
 A partir de então surgiu na filosofia, de forma bem demarcada, uma 
corrente que privilegiava o corpo e outra que privilegiava a mente. 
Explicitam-se os dualismos: idealismo versus materialismo; 
racionalismo versus empirismo; subjetividade versus engrenagem; 
pensamento versus máquina; consciência versus físico; espírito 
versus matéria; cógito versus objetividade; interioridade versus 
exterioridade (Chauí, 2012). 
 
• Pascal (1623-1662 d.C.) acreditava que o cristianismo poderia permitir 
uma compreensão verdadeira do homem. Propõe a autopsicologia: por 
meio da religião católica o homem pode conhecer a si mesmo. 
• Ele não acreditava em um princípio básico que seria a base de 
sustentação de todo o conhecimento que se quisesse estabelecer. Não 
acreditava em princípios universais que serviriam para explicar tudo a 
partir dos quais qualquer tipo de conhecimento pudesse ser construído. 
Defendia que cada conhecimento requer princípios específicos (Piccino, 
1990). 
• Pascal nos mostra que o homem tem vários bens, mas ele concentra a sua 
felicidade “em não ficar quieto”, ele não acha prazer naquilo que possui, 
sendo necessário buscar sempre mais. Em suma, é nisto que consiste o 
29 
 
divertimento: em fugir de si mesmo, em lutar incessantemente para 
enganar-se a si mesmo e fazer de conta que está tudo bem. O homem 
corre de si mesmo, mas no final das contas vê que a sua corrida foi vã; 
“as misérias da vida humana criaram tudo isso: como eles viram isso, 
escolheram o divertimento”. Sem ele, haveria o tédio, e este nos levaria a 
buscar um meio mais sólido para sair dele. 
• O divertimento, o divertissement, é fuga diante da visão lúcida e 
consciente da miséria humana, é aturdimento que nos faz divagar e 
chegar inadvertidamente à morte. O divertimento é fuga de nós mesmos, 
de nossa miséria, mas é ele próprio a maior de nossas misérias, porque 
nos proíbe pensar a nós mesmos; “sem ele, desembocaríamos na náusea, 
e esta nos impeliria a procurar um meio mais seguro para dela sair; ao 
contrário, o divertimento nos faz chegar à morte sem que disso nos 
apercebamos, conforme já dito (Reale, 1990 b) 
 
• Para Espinosa (1632 – 1677 d.C.), só uma substância pode existir 
(Monismo). Tal substância deve ser Deus. A matéria e o espírito não 
devem ser considerados substâncias, mas sim atributos (manifestações) 
da única substância. Sendo única, tal substância, não admite nada fora de 
si mesma e, portanto, deve compreender o mundo inteiro. Espinosa 
defende que Deus não é separado do universo, mas sim coincide com ele. 
Seu raciocínio é panteísta e imanentista (Espinosa, 1979). 
• No homem não há senão uma entidade, vista interiormente como mente, 
e exteriormente como matéria (corpo). O que existe na realidade é uma 
mistura inseparável. A mente e o corpo não agem um sobre o outro, 
porque não há outro. O processo “mental” e interior corresponde em cada 
estágio ao processo “material” e externo. A ordem e conexão das idéias é 
a mesma que a ordem e conexão das coisas. 
• O corpo não pode determinar que a mente pense; nem pode a mente 
determinar que o corpo fique em movimento ou em repouso, ou em 
qualquer outro estado. A decisão da mente e o desejo e determinação do 
corpo são uma só coisa. Pois não existem dois processos nem duas 
entidades. Não há senão um processo visto interiormente como 
30 
 
pensamento e exteriormente como movimento (Abbagnano, 2007; Chauí, 
2012; Nicola, 2005). 
 
• Para Leibniz (1646-1716 d. C.) deve-se negar o atomismo e afirmar a 
mônada como elemento constitutivo do real. Ou seja, uma substância 
simples, não divisível, de natureza espiritual, um centro de atividade, um 
ponto de vida, uma átomo metafísico e imaterial. Não é matéria, mas sim 
energia. Força viva no estado puro. Torna vivas e operantes as leis físicas 
da natureza. A descoberta do microscópio no século XVII revelou a 
existência de mundos vivos em cada partícula de matéria. 
• A mônada possui uma vida interna e é capaz de conectar-se com as outras 
mônadas. Não existe nada no universo que não possa ser entendido pela 
mente humana. Cada mônada é um microcosmo, ou seja, um espelho de 
todo o universo. Ela sintetiza toda história do universo, pois contém 
todas as suas leis. Como um átomo espiritual, possui todas as 
características da espiritualidade: percebe, conhece, apetece, deseja 
(Nicola, 2005). 
• Observando bem, não existe nada na natureza que seja causal, acessório, 
inútil ou confuso. Cada vivente possui uma mônada dominante: a alma. 
“Enteléquia” é o estado perfeito de um ente que alcançou seu fim. 
Espírito e corpo são comparáveis a dois relógios sincronizados. Por 
meio de uma relação de perfeita sincronia e causa-efeito, o ato só 
acontece somente depois do pensamento (Leibniz II, 1979). 
• Se os racionalistas priorizavam o modelo matemático, a filosofia 
antagônica – o empirismo – enfatizava os métodos indutivos das ciências 
experimentais. 
 
• Locke (1632-1704 d. C.) defendia que a hipótese dos princípios inatosé 
antes de tudo inútil. Para os cartesianos, inatas devem ser aquelas idéias 
consideradas universalmente como verdadeiras. Para Locke não existe 
nenhuma verdade universal. A investigação experimental demonstra a 
inexistência de uma moral inata. Ao nascer a mente está vazia, 
desprovida de qualquer conteúdo. Todo conhecimento nasce da 
31 
 
experiência do mundo externo e da reflexão interior. Ele se reduz a 
percepção. Os conceitos gerais formam por abstração, a partir da 
percepção. Nenhum conceito geral é inato. O que foi adquirido há muito 
tempo pelo hábito tende a ser confundido como inato (Locke, 1979). 
 
• Berkeley (1685-1753 d. C.) sustentava que a existência da matéria não 
é sustentável nem no plano lógico, nem no plano experimental. Leva às 
ultimas conseqüências o princípio defendido pelo empirismo de que o ser 
das coisas consiste em serem percebidas. O filósofo demonstra a 
impossibilidade da existência de uma realidade material autônoma da 
mente que percebe. 
• O fato de que as pessoas percebem mais ou menos as mesmas coisas não 
demonstraria a existência de uma referência material das percepções, 
mas somente a glória de Deus, que sincroniza as mentes dos homens a 
receber as mesmas percepções. Deus é mente infinita, tudo continua a 
existir, mesmo quando não são percebidas (Nicola, 2005). 
 
• Hume (1711-1776 d. C.) pergunta: o que é substância? Um feixe de 
percepções. Hume exemplifica dizendo que todo o objeto que é preto, 
mia, move-se, é peludo e tem bigodes, decide chamar de gato. Isso 
facilita a comunicação, pois decidiu-se convencionalmente que todo 
mundo que fale de gatos, entende-se a mesma qualidade de coisas 
sensíveis. Isso não deve levar a crer, como postulavam os primeiros 
metafísicos (Aristóteles), uma felinidade. Ou seja, uma substância (do 
latim sub-stare, ficar embaixo) inerente a todos os gatos, sempre e 
exclusivamente. Não presente em tudo o que não é gato. 
• O termo hábito indica uma tendência, típica da psiquê humana, a reagir 
de forma constante e sem uma adequada reflexão racional diante de 
eventos repetitivos. O nexo habitudiário é obviamente muito fraco, 
porque descreve uma instintiva disposição do sujeito de julgar algo, sem 
reais motivos lógicos ou necessários. Apesar disso, segundo Hume, o 
hábito é um dos processos intelectivos é o fundamento psicológico de 
algumas falsas crenças – por exemplo, a existência de relações de causa-
32 
 
efeito. Se nunca tivéssemos visto um choque entre duas bolas de bilhar 
seriamos incapazes de prever seu movimento (Nicola, 2005). 
 
• Ettienne Bonnot ou Abade de Condillac (1715-1780 d.C.) 
afirmava que o conhecimento limita-se ao sentir e às operações de 
transformação realizadas pela mente sobre os conteúdos da percepção. 
As capacidades psicológicas que denominamos inteligência, memória, 
atenção, juízo, não requerem a presença de um princípio particular ou 
especial. No exercício de um único sentido já estão compreendidas todas 
as faculdades da alma. A percepção nunca é um processo passivo e 
estático, mas possui um dinamismo interno, uma forma de inteligência 
inconsciente (Nicola, 2005). 
 
• Kant (1724-1804 d. C.) afirma que o ato cognitivo não é a adequação da 
mente ao objeto conhecido. Ao contrário, são os esquemas mentais já 
presentes na mente que determinam o que podemos conhecer do objeto. 
Esses esquemas funcionam como um filtro selecionando as modalidades 
da realidade que podem ser acolhidas pela mente; são como uma espécie 
de óculos que se interpõem entre a mente e o mundo. Daí resulta um 
programa de investigação inovador: no centro da filosofia do 
conhecimento devem ser postas essas formas a priori da mente, 
universais e necessárias (Kant, 2009). 
• Aristóteles estabeleceu um sistema de categorias para definir o modo de 
ser dos entes. Essas são substância, qualidade, quantidade, relação, 
tempo, lugar, relação com o ambiente, ação em ato e ação sofrida. Kant 
concebeu que a mente já carrega algumas categorias a priori que 
permitem que o conhecimento aconteça: a) quantidade: unidade, 
pluralidade, totalidade; b) modalidade: possibilidade-impossibilidade, 
existência-não-existencia e contingência-necessidade; c) inerência-
subsitência, causalidade-dependência e comunidade; d) realidade, 
negação e limitação (Piccino, 1990). 
• Sensação é um efeito do objeto sobre os sentidos. Fenômeno é o produto 
de uma intuição sensorial. Em todo o fenômeno existe uma matéria, dada 
33 
 
pelo objeto, e uma forma, presente no sujeito. As formas pelas quais o 
sujeito organiza a matéria fenomênica são a priori, precedem qualquer 
experiência sensorial. Exemplo: esse corpo tem peso (juízo sintético a 
priori, antes da experiência). Esse corpo é muito pesado (juízo sintético a 
posteriori, após experiência) (Nicola, 2005). 
 
• Fichte (1762-1814 d. C.) denomina o Eu o pronome com que todo o 
indivíduo designa a si mesmo, tornou-se objeto de reflexão filosófica a 
partir de Descartes, que adotou o fenômeno da consciência de si como 
definição do homem. Por esse termo, Fichte entende uma atividade 
absoluta, livre, incondicionada, de alguma maneira divina, com base na 
qual todo indivíduo cria a si mesmo. Para não-Eu Fichte entende, por 
exclusão, tudo aquilo que o Eu distingue de si mesmo: os objetos, o 
mundo no seu conjunto, os outros seres humanos. Também o corpo do 
sujeito, sede do Eu, deve ser entendido como autoconsciência, faz parte 
do não-Eu. Ser um indivíduo significa recriar-se a todo o momento, 
estabelecendo, por oposição antitética ao mundo inteiro, aquilo que se é 
(Nicola, 2005; Reale e Antiseri, 1990c). 
 
• Schopenhauer (1788-1860 d. C.) defendia que tudo o que sabemos do 
mundo é puro fenômeno, ou seja, aparência, ilusão, fantasia. Essa é a 
verdade que se deve extrair da doutrina de Kant, acreditava 
Schopenhauer. Qualquer objeto do conhecimento é sempre condicionado 
e determinado pelos esquemas radicados na mente do sujeito: o espaço, o 
tempo, a relação de causa-efeito. Isso significa que todo o conhecimento 
é sempre e essencialmente uma construção mental. Uma representação 
somente em relação ao indivíduo que conhece. 
• É uma intuição, uma representação mental; termo que Schopenhauer 
utiliza em sentido negativo, como oposto de objetivação: toda 
representação é sempre subjetiva e ilusória, alude ao mundo, mas ao 
mesmo tempo esconde o verdadeiro e incognoscível aspecto das coisas. 
Uma prova disso está no sonho, pois não é possível estabelecer com 
exatidão uma distinção entre ilusões oníricas e as percepções cotidianas. 
34 
 
A conclusão é marcada pelo máximo ceticismo gnosiológico (referente à 
possibilidade de conhecimento): todas as nossas convicções são 
subjetivas, não existe objetividade, nem mesmo no campo científico. O 
mundo inteiro no seu conjunto, mesmo que nos pareça estável, real e 
independente de nós, é somente uma totalidade de representações 
mentais e pessoais. 
• Schopenhauer ainda apontou o mecanismo de sublimação (transformação 
da energia sexual em atividades superiores, especialmente as artes) que 
será utilizado por Sigmund Freud (1856-1939). Para Schopenhauer o 
único objeto no universo inteiro que pode ser conhecido, em toda a sua 
objetivação e realidade efetiva pelo homem, é seu próprio corpo. De fato, 
não temos dele um conhecimento fenomênico, não o percebemos por 
meio dos sentidos como um objeto de fora, mas vivemo-lo de dentro. 
Ser, sentir-se um corpo vivente, é para o homem o único conhecimento 
númeno possível (ou seja, verdadeiro, essencial, objetivo, não 
fenomênico) (Schopenhauer, 1979 e 2007). 
 
• Sob uma perspectiva teológica, Kierkegaard (1813-1855 d. C.) 
encontra sua posição f ilosófica ao insurgir -se contra 
posições aristotélicas remanescentes na filosofia, o que faz 
opondo-se à fi losofia de Hegel (1770-1831 d.C.). 
Kierkegaard não só rejeitou o determinismo lógicode Hegel 
(tudo está logicamente predeterminado para acontecer) c omo 
sustentou a importância suprema do indivíduo e das suas 
escolhas lógicas ou i lógicas. 
• Kierkegaard contribuiu com a idéia original do pensamento 
existencial de que não existe qualquer predeterminação com 
respeito ao homem, e que esta indeterminação e li berdade 
levam o homem a uma permanente angústia. 
• Segundo Kierkegaard, o homem tem diante de si várias 
opções possíveis, é inteiramente livre, não se conforma a um 
pré-determinismo lógico, ao qual, segundo Hegel, estão 
35 
 
submetidos todos os fatos e também as ações humanas. A 
verdade não é encontrada através do raciocínio lógico, mas 
segundo a paixão que é colocada na afirmação e sustentação 
dos fatos: a verdade é subje tividade. A conseqüência de ser 
a verdade subjetiva é que a liberdade torna -se ilimitada. 
Conseqüentemente não se pode, também, fazer qualquer 
afirmativa sobre o homem. 
• O pensamento fundamental de Kierkegaard, e que veio a se 
consti tuir em linha mestra do pensamento existencial , é este: 
inexiste um projeto básico, para o homem verdadeiro, uma 
essência definidora do homem porque cada um se define a si 
mesmo e assim é uma verdade para si. Daí o moto conhecido 
que sintet iza o pensamento existencial : "no homem, a 
existência precede a essência" 
• No caminho da vida há várias direções, vários tipos de vid a 
a escolher, dentro de três escolhas fundamentais: o modo de 
vida estético, do indivíduo que não busca senão gozar a vida 
em cada momento; o modo ético, do indiví duo que é 
maquinalmente correto com a família e devotado ao 
trabalho, e o modo religioso dent ro de uma consciência de 
fé. 
• A liberdade, segundo ele, gera no homem a angústia que 
pode levá-lo, de várias formas, ao desespero então, cada 
decisão é um risco, o que deixa a pessoa mergulhada na 
incerteza, pressionada por uma decisão que se torna 
angustiante. Como no modo de vida estético, ele escolhe 
fugir dessa angústia e do desespero através do prazer e de 
buscar a inconsciência de quem ele é. Outra forma de fug a é 
ignorar o próprio eu, tornar -se um autômato, apegar -se a um 
papel, como no modo de vida é tico (Giles, 1989; Kierkegaard, 
1979 e 2010). 
36 
 
• Nietzsche (1844-1900 d. C.) defendeu que a grandeza do homem grego 
– e com ela a grandeza da humanidade – teve fim quando a filosofia 
substituiu a tragédia. Enquanto essa última representava a vida na sua 
crua realidade, sem mascarar evidência de um homem dominado por 
forças incontroláveis a ele superiores. A partir de Sócrates prevaleceu 
uma atitude de fuga em relação à vida, uma patologia do espírito, cujos 
sintomas são o medo e a insegurança psicológica, unidos ao absurdo 
desejo de encontrar uma explicação racional para qualquer evento, de 
modo a esterilizar a vitalidade do mundo e dos instintos por meio do uso 
constante e absoluto da razão (Giles, 1989; Reale e Antiseri, 1990c). 
• Invertendo a ordem tradicional de valores, Nietzsche identifica na morte 
de Sócrates, no seu desejo de morrer, o primeiro e mais evidente sintoma 
dessa milenar doença (a filosofia), que deprime o homem ocidental. A 
expectativa da perfeição num outro mundo levou os homens a 
desvalorizarem e a suportarem as imperfeições desse mundo. Em vez de 
lutarem para se tornarem perfeitos aqui, colocam a confiança num futuro 
distante, numa vida além. O anúncio da morte de Deus, o núcleo da 
reflexão de Nietzsche, indica o progressivo desaparecimento na cultura 
do homem moderno de todas as filosofias, religiões ou ideologias que no 
passado exerciam a tarefa de iludí-lo e consolá-lo (Nicola, 2005; 
Nietzsche, 1979). 
• A necessidade de Deus já desapareceu da consciência do homem 
moderno. Deus está morto, pois os homens o mataram. As explicações 
cientificas e iluministas tomaram seu lugar. Aquele que é capaz de 
suportar psicologicamente esse evento, não necessita mais de ilusões 
tranqüilizadoras porque com o espírito dionisíaco aceita a vida com seu 
caos intrínseco e ausência de sentido. Para Nietzsche Dionísio representa 
vida, força vital, saúde, instinto, escuridão e embriaguez. Já Apolo 
representa morte, racionalidade, doença, intelecto, luz, imobilidade e 
sonho (LeFranc, 2005). 
• Segundo Nietzsche, o niilismo passivo, ou niilismo incompleto é a 
negação do desperdício da força vital na esperança vã de uma 
recompensa ou de um sentido para a vida; opondo-se frontalmente a 
37 
 
autores socráticos e, obviamente, à moral cristã, nega que a vida deva ser 
regida por qualquer tipo de padrão moral tendo em vista um mundo 
superior, pois isso faz com que o homem minta a si próprio, falsifique-se, 
enquanto vive a vida fixado numa mentira. Assim no niilismo não se 
promove a criação de qualquer tipo de valores, já que ela é considerada 
uma atitude negativa. 
• Niilismo ativo ou niilismo-completo propõe uma atitude mais ativa: 
renegando os valores metafísicos, redireciona a sua força vital para a 
destruição da moral. No entanto, após essa destruição, tudo cai no vazio: 
a vida é desprovida de qualquer sentido, reina o absurdo e o niilista não 
pode ver outra alternativa senão esperar pela morte (ou provocá-la). No 
entanto, esse final não é, para Nietzsche, o fim último do niilismo: no 
momento em que o homem nega os valores de Deus, deve aprender a 
ver-se como criador de valores e no momento em que entende que não há 
nada de eterno após a vida, deve aprender a ver a vida como um eterno 
retorno, sem o qual o niilismo seria sempre um ciclo incompleto 
(Nietzsche, 2009). 
• As doutrinas éticas do passado sempre viram nos valores morais um 
sistema absoluto e universal independentemente do período histórico e 
da localização geográfica. A hipótese genealógica de Nietzsche sugere, 
ao contrário, a possibilidade de desenvolver uma história de valores 
morais identificando o seu nascimento em condições histórico-sociais 
específicas. O efeito é obviamente uma relativização dos próprios 
valores, capaz de revelar o conteúdo humano (demasiado humano, no 
dizer de Nietzsche) que está na sua base. Ou seja, o homem criou os 
valores que o regem, os naturalizou, esqueceu disso e acredita que eles 
sempre existiram como algo fixo, sólido e imutável (Nietzsche, 2009). 
• Para Nietzsche, matar Deus significa liberta-se das cadeias do mundo 
sobrenatural, ser capaz de viver falsas esperanças (a imortalidade da 
alma, o Paraíso), aceitando com alegria a vida na sua totalidade, 
incluindo a morte. Isso significa ficar preso a terra, o Super-Homem 
(novo homem) é aquele que, longe de querer entender o significado do 
mundo, consegue impor ao mundo os seus significados. Como 
38 
 
Protágoras, Nietzsche também afirma que o homem é a medida de todas 
as coisas, porque dele, da sua vontade de potência, cada coisa adquire um 
sentido. Daí surgem as características do Super-Homem que está além da 
racionalidade, despreza todo valor ético, vive num mundo dionisíaco, 
reconhece o engano inerente a todas as filosofias, percebe o tempo como 
eterno retorno (Nietzsche, 1999). 
• A teoria do eterno retorno de Nietzsche era fazer com que os homens 
pensassem que ao morrerem, retornariam ao exato momento de seu 
nascimento e tudo o que passou seria exatamente repetido infinitas vezes. 
Nietzsche acreditava que se pensássemos na vida tendo como referência 
esse "eterno retorno", seríamos muito mais responsáveis nas escolhas de 
nossos atos, porque saberíamos que cada ato, cada palavra, cada ação, 
assim como a ausência delas, seria repetida pela eternidade. Seu intuito 
era que o homem enxergasse assim a vida para que a vivesse da forma 
mais plena possível. Assim, Nietzsche coloca a seguinte pergunta: essa 
vida, assim como você a vive hoje, seria digna de ser repetida por toda 
eternidade? (Nietzsche, 1979). 
 
• Segundo Husserl (1859-1938 d. C.), é preciso lutar contra

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