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PSIQUÊ, SUBJETIVIDADE, INTERESUBJETIVIDADE & PSICOLOGIA
Da psyché mitológica grega ao pensamento existencialista
Compilação e estudo de textos: Psicólogo Doutor Pedro Paulo Sammarco Antunes
Introdução
Antes de iniciar esse estudo, é importante fazer alguns esclarecimentos introdutórios.
Como psicólogos, nossa abordagem clínica se utiliza do método fenomenológico. Nossa
visão do ser humano se baseia no pensamento existencial da filosofia. Portanto,
considerando que o objeto de estudo da psicologia é a psyché (psiquê), esse texto
procura compreender seu conceito desde sua na mitologia grega, e sua trajetória até a
Idade Contemporânea. Veremos partes de pensamentos de cerca trinta e seis
importantes filósofos europeus, que trataram sobre o tema da psyché. Nosso destino
final será como a psiquê era compreendida pelo filósofo alemão Edmund Husserl (1859-
1938), um dos mais importantes estudiosos do método fenomenológico.
Para isso, inicialmente será abordada como funcionava a maneira mitológica grega de
pensar. Em seguida serão mostrados alguns exemplos de mitos gregos, presentes na
psicologia. Depois, a passagem da forma mitológica para a forma filosófica de pensar
na Grécia antiga.
A partir de então, veremos os primeiros filósofos gregos e como o conceito de psyché
foi abordado por cada um deles. Seguiremos pelos filósofos europeus da Idade Antiga,
Média, Moderna e Contemporânea, que abordaram esse tema. Destacarei de cada
filósofo somente os aspectos referentes aos conceitos relativos à alma, método
fenomenológico e pensamento existencial. Suas filosofias são muito ricas, porém não
faz parte do nosso objetivo, estudá-las por inteiro. Ao longo do tempo, houve
modificações no conceito original de psyché que se transformou em anima, alma,
espírito, consciência, substância pensante, cógito, pensamento, sujeito, mente,
subjetividade. Em Husserl se tornou consciência intencional. Para iniciar nosso longo
estudo, uma pequena contextualização da Grécia da época.
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Períodos históricos da Grécia Antiga
Grécia Antiga é o termo geralmente usado para descrever o
mundo grego e áreas próximas (tais como Chipre, Turquia, sul
da Itália, da França e costa do mar Egeu, além de assentamentos
gregos no litoral de outros países, como o Egito). Tradicionalmente,
a Grécia Antiga abrange desde 1 100 a.C. (período posterior
à invasão dórica) até à dominação romana em 146 a.C.
Pré-Homérico (2000 - 1 100 a.C.) — período caracterizado pela
penetração de povos indo-europeus na Grécia: aqueus (2000 - 1 200
a.C.), eólios (1700 a.C.) e Jônios (1700 a.C.); civilização
minóica continua prosperar (3000 - 1 400 a.C.) e a civilização
micênica é formada (1600 - 1 200 a.C.); dóricos invadem a Hélade
no final do período (1 200 a.C.) (Pedro, 2005; Piletti, 2006).
Homérico ou Idade Média Grega (1100 - 800 a.C.) — período
marcado pela ruralização, ausência de escrita e formação dos genos;
período da criação das obras de Homero (VIII a. C. - VIII a.
C.), Ilíada e Odisséia (Homero, 2005; 2000; Pedro, 2005).
Arcaico (800 - 500 a.C.) — Há a formação da pólis, a colonização
grega, o aparecimento do alfabeto fonético além de progresso
econômico com a expansão da divisão do trabalho, do comércio e da
indústria (Braik., 2006; Levi, 2008).
Clássico ou Século de Péricles (500 - 338 a.C.) — período marcado
pelo divisão bipolar da Grécia sob a égide de duas potências: Esparta
(com a Liga do Peloponeso) e Atenas (com a Liga de Delos). Além
disso, ocorreram nesse período as famosas Guerras Médicas e
a Guerra do Peloponeso que decidiram os rumos políticos da
Grécia. No final do período Tebas assume o controle político da
Grécia. No entanto, este poder logo lhe é tomado pela expansão
macedônica que termina com a anexação grega em 338
a.C. sob Filipe II da Macedônia (Coltrim, 1999; Pedro, 2005).
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Helenístico (338 - 146 a.C.) — fase marcada pela crise da pólis,
conquista do Império Aquemênida e expansão cultural helenística
(Pedro, 2005).
Algumas definições de mito grego
A palavra mito vem do grego, mythos e deriva de dois verbos mytheyo
(contar, narrar, falar alguma coisa para alguém) e mytheo (conversar, contar,
designar).
É uma narrativa de caráter simbólico, relacionada a uma dada cultura. O
mito procura explicar a realidade, os fenômenos naturais, as origens do
Mundo e do Homem por meio de deuses, semideuses, monstros e heróis
(Wilkinson e Philip, 2009).
Quem narra o mito geralmente é o poeta-rapsódo. Acredita-se que ele tem a
autoridade para isso, pois recebeu dos deuses a revelação de todos os
acontecimentos passados e a origem de todos os seres.
O mito narra a origem das coisas por meio de lutas, alianças e relações
sexuais entre forças sobrenaturais que governam o mundo e o destino dos
homens. Os mitos sobre a origem do mundo são genealogias, diz-se que
são cosmogonias e teogonias.
Cosmogonia (do grego κοσμογονία; κόσμος "universo" e -γονία
"nascimento") é o termo que abrange as diversas lendas e teorias sobre as
origens do universo de acordo com
as religiões, mitologias e ciências através da história.
Teogonia (em grego, Θεογονία [theos, deus + genea, origem]), também
conhecida por Genealogia dos Deuses, é um poema mitológico em 1022
versos escrito por Hesíodo no séc. VIII a.C., no qual o narrador é o próprio
poeta.
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O poema se constitui no mito cosmogônico (descrição da origem do mundo)
dos gregos, que se desenvolve com geração sucessiva dos deuses e na parte
final, com o envolvimento destes com os homens originando assim
os heróis. Nesse mito, as divindades representam fenômenos ou aspectos
básicos da natureza humana, expressando assim as idéias dos primeiros
gregos sobre a constituição do universo.
O mito é considerado sagrado, pois é fruto da revelação divina. Logo é
incontestável e inquestionável (Chauí, 2012).
Mitos Gregos
"Mitos de origem" ou "mitos de criação", na mitologia grega, são termos
alusivos à intenção de fazer com que o universo torne-se compreensível e
com que a origem do mundo seja explicada.
Além de ser o mais famoso, o relato mais coerente e mais bem estruturado
sobre o começo das coisas, a Teogonia de Hesíodo (VIII a. C. – VIII a. C.)
também é vista como didático, onde tudo se inicia com o Caos: o vazio
primitivo e escuro que precede toda a existência. A progressiva gênese do
universo da desordem (caos) para a ordem (cosmos) presidida
por Zeus começa com os elementos fundamentais e se desenvolve por seis
gerações sucessivas de deuses: No início Caos (ou vazio primitivo)
e Gaia (a terra) conviviam com Tártaro (a escuridão primeva) e Eros (a
atração amorosa) daí sendo gerados (assexuadamente) Hemera (o
dia), Nix (a noite), Urano (o céu) e Ponto (a água primordial).
Na segunda geração, Urano e Gaia geraram os Titãs, gigantes dos quais
destacam-se Cronos (o tempo), Oceano (a água doce), Temis (a
Lei), Mnemósine (a memória) e vários monstros míticos. Na terceira
geração, Cronos assume o poder e inadvertidamente dá origem
a Afrodite (amor sensual), relacionando a noite (Nix) com Tânato (a morte),
Hipno (o sono) e Oniro (os sonhos). Ponto origina Forcis, pai de monstros
como Górgona, Equidna e Esfinge e Nereu (o mais antigo deus do mar), pai
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das Nereidas. Oceano dá vida às Ninfas dos ventos Métis (sabedoria) e
Hélios (o sol) e Ceo gera entre outros Hécate (a dádiva/magia).
Numa última etapa, Zeus destrona Cronos seu pai, altura em que é inserida a
lenda de Prometeu, dito filho de Jápeto. Mas, para consolidar seu poder,
Zeus teria ainda que lutar e derrotar Tífon, filho de Gaia e Tártaro. Daí até o
seu final, o poema trata do relacionamento dos deuses com os homens
(Hesíodo, 1991; Vernant, 2000; Wilkinson & Philip, 2009).
Mitos Gregos e a Psicologia
• Psyché ou Psiquê: do gregoa preposição
que leva a considerar os resultados dos processos perceptivos como
descrições objetivas do mundo e os conteúdos ordinários da mente como
verdades óbvias. Ao contrário, é preciso assumir uma atitude
fenomenológica, desinibida, desinteressada e crítica, em primeiro lugar
em relação aos hábitos mentais do próprio sujeito. A fenomenologia, com
efeito, não se apresenta como um novo sistema filosófico, mas como um
método aplicável aos mais diferentes campos do conhecimento. É um
exercício que o sujeito realiza sobre si mesmo com o fim de levar as
idéias lógicas, os conceitos e as leis à clareza e distinção do ponto de
vista gnosiológico (Husserl, 2006).
• A prática da epoché fenomenológica consiste em suspensão do juízo, que
caracteriza a atitude dos céticos antigos; consiste em não aceitar nem
refutar, em não afirmar nem negar. Na filosofia contemporânea, com
Husserl e a filosofia fenomenológica em geral, a epoché
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tem finalidade diferente: a contemplação desinteressada, ou seja, uma
atitude desvinculada de qualquer interesse natural ou psicológico na
existência das coisas do mundo ou do próprio mundo na sua totalidade.
Além disso, permite voltar às próprias coisas, ou seja, ao fenômeno,
entendido não como pura aparência em contraposição a uma hipotética
coisa em si, mas como manifestação originária de uma realidade de
consciência (Husserl, 2008).
• A fenomenologia nasceu no interior do vasto movimento filosófico que
nas primeiras décadas do século XX pretendeu reagir ao Positivismo.
Basicamente, a característica essencial do positivismo é a devoção à
ciência, vista como único guia da vida individual e social, única moral e
única religião possível. O escopo final do método fenomenológico, de
fato é apreender e estudar de modo subjetivo todas as expressões da
consciência que o Positivismo excluía a priori da área da pesquisa
cientifica. O apelo de Husserl para fazer a epoché – colocando entre
parênteses todos os hábitos, pré-juizos, as convicções ingênuas e as
considerações obvias – não se propõe a ser um processo exclusivamente
destrutivo (Nicola, 2005).
• Ao contrário da epoché cética, a fenomenológica não pretende
demonstrar a inexistência de uma verdade qualquer, mas, ao contrário,
demonstrar que o exercício da dúvida metodológica e a suspensão de
todo saber positivo já adquirido são instrumentos de higiene mental. O
pesquisador fenomenológico deve esvaziar a mente de tudo o que é
fictício, desnecessário, casual e pessoal, para se colocar na condição de
um espectador ingênuo e desinteressado. Depois assim de ter se libertado
de uma parte de si mesmo, por meio de um trabalho demorado e árduo,
será capaz de analisar com a devida objetividade o mundo e os
fenômenos da consciência e do espírito (Depraz, 2008).
• As ciências exatas nada dizem sobre o homem enquanto ser espiritual e
livre. As ciências humanas simulam as ciências exatas, transformando o
espírito em objeto, tratando como um fenômeno natural. Ambas reduzem
o mundo a uma série de fatos. A ciência tende a excluir todo fator de
subjetividade. Mas a fuga da subjetividade afasta o cientista do mundo-
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da- vida, o único verdadeiro e real. Qualquer teoria adquire significado
somente em certa situação e em relação à vida. Uma nova ciência deveria
estudar espiritualidade segundo seus princípios (subjetividade,
inclusive). O divórcio entre ciência e mundo-da-vida produziu a crise da
civilização européia, construiu o seu destino sobre a ciência (Husserl,
2011).
• O cógito da fenomenologia husserliana não é o mesmo
do cógito cartesiano, pois este funcionava como reduto solipsista, isolado
e independente do mundo. A consciência fenomenológica é a consciência
da experiência vivida do sujeito, cuja atitude perante o fenômeno deve
ser distinta da atitude natural, ou seja, daquela que não distingue a
percepção do percebido. É intrínseco à fenomenologia que nossa atitude
perante os fenômenos seja livre de preconceitos. Husserl identifica dois
momentos da intencionalidade. No primeiro, no ato noético, percebemos
o fenômeno, dotando-lhe de sentido; depois, o preenchemos de
significação, tornando-se o fenômeno noema (Dartigues, 1992).
• Com isso, ele afasta-se do psicologismo, que não diferencia esses dois
momentos da atividade intencional. Para Husserl a intencionalidade é a
forma “apropriada de ser da consciência”, é nesse sentido que se diz que
“não há consciência que não esteja em ato, dirigida para um determinado
objeto”. É a consciência sempre intencionada a algo. A proposta
husserliana de intencionalidade torna-se inovadora no tocante, não só
pela crítica ao psicologismo, mas também em dar uma nova conotação
ao termo. O “fenômeno psíquico” se estabeleça não como conteúdo, mas
sim como ação (Husserl, 1979).
• Segundo Heiddeger (1889-1976 d.C.), seu maior intuito foi elaborar
uma análise da existência, buscando esclarecer o sentido do ser,
relacionando este com conceitos como Dasein (o "ser-aí"), morte,
angústia, temporalidade, finitude, abertura, entre outros. Desde a Grécia
Antiga, o Ser tem sido entendido como coisa, atemporal, eterno e
imutável. Diferente dessa tradição, ele faz a indagação sobre o Ser
partindo da existência concreta, entendendo este como um participante
do mundo, que está mediado por seu passado e orientado para seu futuro.
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Constatou que o sentido do ser está relacionado com o tempo, pois
somos seres temporais.
• Quando nascemos, chegamos num ambiente histórico e temporal que já
possui uma trajetória encaminhada, que não escolhemos, mas que nela
somos lançados. O "ser-aí" não é uma consciência separada do mundo,
mas está numa situação e toma conhecimento de um mundo que ele
próprio não criou, mas onde se encontra inserido. Além da herança
biológica, cada pessoa recebe também uma herança cultural, que
depende do tempo e local onde nasceu.
• A angústia, por ser um modo do existencial da disposição que singulariza
o homem, é considerada por Heidegger como disposição fundamental
porque além do caráter de singularização da existência do homem, ela
abre para ele a possibilidade de sair da decadência e de se apropriar de
seu ser (autenticidade). A angústia desperta para a morte, enquanto dado
temporal mais significativo da existência, e revela a finitude da
existência humana. O fato de o homem ter um fim, que ele morre e que
sua existência acaba, remete a um outro conceito fundamental (ser-para-
morte) de Heidegger. O filósofo afirma que a morte é uma possibilidade
presente constantemente, e não distante. Esta possibilidade (a morte) é a
última que o homem realiza; que enquanto ela chega falta ao homem
alguma coisa, algo que ainda será.
• Ou seja, a vida humana só se torna um todo por intermédio da morte.
Perceber-se mortal faz com que o homem viva autenticamente ou não?
Em suma, ser para-a-morte é ser angustiado, pois “a angústia é uma
forma privilegiada de abertura, pois ela não permite que o ser fique
quieto e alienado no seu mundo impessoal. A angústia coloca o homem
diante do nada, isto é, ao não sentido dos projetos humanos e da própria
existência. Existir autenticamente exige, então, coragem para enfrentar a
realidade própria do não-ser e sentir a angústia do ser que caminha para a
morte. Existência autêntica implica aceitar a sua própria finitude. Viver
autenticamente é reconhecer-se ser-para-a-morte e a partir disso, diante
das possibilidades para as quais ela nos abre, projetar e construir a nossa
vida a partir dessa constatação. Portanto, a morte deve ser vivida como
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experiência antecipadora, isto é, deve ser vivida no dia a dia de nossa
existência. Todas as nossas ações devem ter em vista, como horizonte,
essa possibilidade, a mais própria do Dasein. (Mallmann, 2009).
• Sartre (1905 – 1980 d. C.) leva o indeterminismo existencial às suasmais radicais consequências. Porém, para Aristóteles, e muitos outros
filósofos, a essência de ser humano era ser racional. Mas para Sartre, a
pessoa deve produzir sua própria essência. A existência precede a
essência. Como seres conscientes, estamos sempre querendo preencher o
“vir a ser” que na realidade é a verdadeira “essência” do nosso ser
consciente. Queremos nos transformar em coisas em vez de permanecer
perpetuamente num estado em que as possibilidades, que estão sempre
irrealizadas.
• O homem passa toda sua existência em um processo de devir. Estamos
sempre abertos às novas possibilidades de reinvenção partindo de um
determinado contexto existencial possível. Sartre chamou isso de
facticidade. Ela diz respeito às resistências e objetos que a liberdade
necessariamente se defronta quando cria nova situação (Perdigão, 1995).
• Como exemplo de facticidade, podemos pensar no sexo biológico,
família, país, cidade, cultura, época e condição socioeconômica que
nascemos. As condições impostas pela facticidade conjugadas ao
significado dado pela liberdade se combinam para criar uma nova
situação. Sartre defende que não importa o que foi feito do indivíduo, e
sim o que o indivíduo faz com aquilo que foi feito dele. A resistência é
intrínseca à liberdade e ao humano.
• No entender de Sartre estamos condenados à liberdade. Cada ato
contribui para definir como nos apresentamos ao mundo. Em qualquer
momento podemos começar a agir de modo diferente e desenhar um
retrato diferente de nós mesmos. Há sempre uma possibilidade de
mudança, de começar a fazer um tipo diferente de escolha. Temos o
poder de nos transformar indefinidamente, tendo sempre como ponto de
partida, nossa facticidade. Não há nenhuma “essência” determinada que
oriente a priori, o comportamento de ninguém (Sartre, 2005).
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• Sartre acreditava que não há nenhum deus e, portanto, não há qualquer
plano divino que determine o que deve acontecer. Não há um sentido ou
propósito último inerente à vida humana, ela é absurda. Isto significa que
o indivíduo foi jogado de fato na existência sem nenhuma razão real para
ser. Simplesmente descobrimos que existimos e temos então que decidir
o que fazer de nós mesmos. O homem não é mais do que aquilo que ele
faz de si mesmo. Se não há nenhum deus, não há nenhum padrão
objetivo de valores (Giles, 1989). Ou seja, somos nós mesmos que
criamos os valores e as convenções sociais que irão estabelecer o
funcionamento social e nos “governar”.
• Consequentemente, devemos estabelecer ou inventar, a partir da
liberdade e facticidade nossos próprios valores particulares. Tal é o
primeiro princípio do existencialismo ateu de Sartre. Sem diretrizes
absolutas, nós devemos sofrer a agonia de nossa tomada de decisão e a
angústia de suas consequências. A angústia é, então, a consciência da
própria liberdade e a consciência da imprevisibilidade última do nosso
comportamento.
• Sartre define como “má fé” a tentativa de fugir da angústia fingindo que
não somos livres. Tentamos nos convencer que as nossas atitudes e ações
são determinadas pela nossa personalidade, horóscopo, situação ou por
qualquer outra coisa fora de nós mesmos. Segundo Sartre, nenhum
motivo ou resolução passada determina o que fazemos agora. Cada
momento requer uma escolha nova ou renovada. Mesmo que não
fizermos nada, uma escolha já está sendo realizada: o não agir. Negar a
liberdade é uma tomada de posição covarde, a fim de fugir da angústia da
escolha, e achar o repouso e a segurança na confortável ilusão de ser uma
essência acabada. Portanto, o existencialismo se contrapõe ao
essencialismo, à medida que defende que não somos determinados. Para
esta corrente filosófica, podemos nos reinventar a cada momento
(Abbagnano, 2007; Bornheim, 2000; Chauí, 2003; Perdigão, 1995).
• Merleau-Ponty (1908-1961) defendia que não há separação e sim
coexistência. Somos unidade única, duplicidade una e unidade ambígua.
O conceito de experiência ainda define que somos consciência entre
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aquilo que foi denominado de espírito e o que foi denominado de
matéria. Para Merleau-Ponty (2006) o corpo não é um objeto. Quer se
trate do corpo de alguém quer se trate do próprio corpo. O único modo
de conhecê-lo é vivenciando seu próprio drama e aquilo que lhe
atravessa confundindo-se com ele (Abbagnano, 2007).
• No plano pré-reflexivo somos vivência; no plano perceptivo, somos
experiência. Ora nos percebemos mais corpo, ora nos percebemos mais
mente (conhecida também na filosofia como alma ou espírito). Nosso
corpo nos situa, é uma forma de ser e estar no mundo. Percebemos a tudo
e a todos. A cultura nos constitui, assim como a constituímos. Nosso
corpo nos compõe, assim como subjetivamente, compomos nosso corpo.
Não temos como nos separar dele.
• Por meio do corpo alcançamos o mundo. Somos o nosso corpo no
mundo. Nosso corpo é condição necessária para percebemos nosso
campo de presença no mundo. O corpo nos situa, limita e demarca
tornando possível a relação com outros corpos. A subjetividade está tanto
no corpo, como na própria mente. Ou seja, somos nosso corpo com os
outros corpos no mundo. Percebemos nosso corpo não apenas como um
objeto localizado no espaço. O corpo é a condição necessária para
perceber, sendo esse, o campo de presença no mundo. Ele nos situa, pois
nos relaciona com o espaço, tempo e outros seres. Ao mesmo tempo nos
limita. Tal limite demarca, tornando possível a relação com o outro. Por
meio dele desenvolvemos posturas.
• Para Merleau-Ponty, é a história de cada um que nos constitui. Só somos
quem somos, pois fomos o que fomos. O tempo é uma dimensão do
nosso ser. O tempo está no nosso corpo; ele nos situa em relação ao
passado pela memória, presente pela vivência e futuro pela imaginação.
Para o autor, o que nos limita nos faz compreender o outro. Ser eu, me
possibilita compreender o não-eu. Ser finito nos faz aspirar ao eterno.
Assumir que morremos nos permite viver melhor (Chauí, 2003; Merleau-
Ponty, 2006).
• Conforme já dissemos, Merleau-Ponty foi influenciado pelo
existencialismo que diz que o homem não foi planejado por alguém para
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uma finalidade, como os objetos que o próprio homem cria. O homem se
faz em sua própria existência. Não havendo tal essência, todos são iguais
e igualmente livres para se fazerem em relação a determinado contexto.
Afirma o primado da existência sobre a essência. Não há afirmações
gerais e verdadeiras sobre o que os homens devem ser.
• Camus (1913 - 1960) defendia que o ser humano tem consciência,
portanto sente que a vida tem sentido. Porém, o homem sabe que o
universo como um todo não tem sentido. A vida é uma contradição. Para
viver bem é preciso superar essa contradição. Pode-se fazer isto
aceitando a falta de sentido da existência. Logo, a vida será mais bem
vivida se não tiver sentido. Partindo do pressuposto que não há sentido, a
humanidade cria sentidos para si (Camus, 2004).
• Rogers (1902 – 1987) em seus estudos, passaram a ter como base novas
formas de atendimento psicoterapêutico. Essas, por sua vez, eram muito
diferentes das abordagens convencionais da psicologia acadêmica.
Alguns de seus métodos dividiram opiniões, como é o caso do método
não-diretivo. Sua abordagem foi denominada de centrada na pessoa.
• Este método consiste em permitir que o paciente “direcione” as consultas
psicoterapêuticas conforme as suas próprias reflexões e conclusões. O
profissional não o orienta a seguir um determinado caminho. É o próprio
paciente que, através da livre expressão pessoal, tece a sua trajetória para
as verdades que tanto procura. O psicólogo trabalha com o paciente a
partir das descobertas feitas por ele.
• Para isso, ele também estudou o “clima” apropriado para o atendimento.
Rogers acreditava que o paciente se sentiria livre para se expressar em
um ambientecaloroso. Ele compartilharia os seus sentimentos sem
preocupações, não importando quão absurdos ou não-convencionais
fossem, contanto que estivesse inserido em um clima permissivo. Não
importa o que é dito durante as sessões, o psicólogo o aceita como ele é.
• Toda pessoa tem capacidade de encontrar maneiras de suprir as suas
necessidades físicas e emocionais. A abordagem de Carl Rogers acredita
que, em razão dessa característica comum a todos os seres humanos, as
pessoas possuem uma tendência natural à atualização. De acordo com o
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psicólogo, quando uma pessoa vive experiências cujos significados são
confusos ou incoerentes conforme a sua percepção, ocorre uma
contradição. Essa dissonância pode indicar que a pessoa não está em
contato com a sua verdadeira natureza. A empatia é um fator
indispensável para qualquer atendimento psicológico. O profissional
deve tentar compreender as questões problemáticas trazidas pelo paciente
a partir das percepções dele. Não se trata de se colocar no lugar do outro
com exatidão. É, na verdade, procurar se aproximar da percepção do
paciente para aprofundar a avaliação dos seus incômodos.
• A pessoa que está em congruência com o seu ser é genuína e não tem
razões para disfarçar sentimentos perante situações ou outros indivíduos.
Ela pratica a autoaceitação e amor-próprio diariamente, mesmo quando
se depara com seus defeitos e falhas. Caso contrário, não conseguiria
estar em contato com a sua verdadeira essência.
• A aceitação incondicional positiva nada mais é que a aceitação
incondicional da personalidade. O psicólogo deve aceitar os pacientes
como eles são e recebê-los com afetividade independente de suas queixas
emocionais. Não cabe a ele fazer julgamentos ou críticas a respeito de
quem o paciente é. Assim, dois resultados do acompanhamento
psicológico rogeriano são esperados: a aceitação de si mesmo e a dos
outros. Do mesmo modo, os pacientes precisam ter a mesma postura
consigo mesmos e os outros. A atitude de pressionar uma pessoa para
agir de uma determinada maneira é errada, pois faz com que ela se afaste
de sua verdadeira essência (Rogers, 1997; Rogers e Stevens, 1991).
• Para Perls (1893 – 1970) o gestalt-terapeuta utiliza-se de dois pontos
básicos para apoio na prática clínica: a abordagem dialógica e o método
fenomenológico. A postura dialógica tem importância devido ao
estabelecimento de vínculo entre terapeuta e cliente. Esta confiança,
conhecida também como o espaço do “entre”, permite ao cliente se
derramar em um ambiente de compreensão, expondo seus conflitos,
mágoas, expectativas e sua forma de enxergar o mundo e a si mesmo.
• O outro ponto de apoio no manejo clínico desta abordagem é o método
fenomenológico. Fenomenologia significa “estudo dos fenômenos”, isto
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é, daquilo que é dado à consciência. Consciência, para a Fenomenologia,
é muito mais do que apontava até então a psicologia, que a via como um
lugar onde, de alguma maneira já se tem os conceitos conhecidos e
estabelecidos. Consciência é sempre consciência de alguma coisa.
• Este conceito é conhecido como conceito de Intencionalidade, formulado
por Husserl, pai da fenomenologia. Nada pode ser descrito sem levar em
conta o olhar do sujeito, sua intencionalidade. Não existe como estudar a
consciência separada do objeto ou do mundo, assim a consciência é
sempre situacional.
• A fenomenologia pretende explorar a intuição, evitando estabelecer
qualquer hipótese, exaltando a singularidade do outro em sua inteireza,
sem reduzi-lo a conceitos e teorias, mas sem cair em um descuido para
com sua experiência. Para aprender a realidade do paciente, o
psicoterapeuta deve suspender o próprio julgamento e a experiência
pessoal à respeito das coisas (suspensão fenomenológica).
• Esta base indica que o psicoterapeuta, precisa valorizar a experiência
presente, dando conta do que está acontecendo na situação, com ele
mesmo e com o ambiente. Quanto menos confiança tivermos em nós
mesmos, quanto menos contato tivermos com nós mesmos e com o
mundo, maior será o nosso desejo de controle”. Não é uma postura
passiva, mas aproveitar a situação da melhor forma possível, visando ao
desenvolvimento da awareness, que significa tomada de consciência de
si, dentro da experiência presente. A awareness é o ponto central de todo
o processo de restauração do equilíbrio e de autorregulação do
organismo.
• O psicoterapeuta recebe seu cliente com olhar fenomenológico e aguarda
o aparecer de elementos em sua fala e em sua postura e reações corporais
que podem num determinado momento, mostras a possibilidade de
intervenção. A Gestalt-terapia compreende que a consciência é um
evento focalizado no presente, no aqui-e-agora, isto significa que: para
perceber melhor um fenômeno 'dentro' ou 'fora' de mim mesmo, devo
estar concentrado em minhas funções de contato, na relação "ser-no-
mundo". Conforme já dito, esse fluxo de consciência é conceituado em
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Gestalt-terapia como "awareness". Quando tal fluxo é interrompido
significa que a consciência deixou de focalizar sua percepção sensorial
atual para focalizar também uma fantasia, antecipando o futuro ou
lembrando o passado. Tais fantasias são a base dos mecanismos de
evitação de contato, que podem ter um funcionamento patológico
(Ginger e Ginger, 1995; Perls et al., 1997).
• Ciências Naturais versus Pensamento Existencial
• A Idade Moderna (1453-1789) na Europa foi a época do pensamento
sobre o método na filosofia e ciências naturais (química, física,
astronomia, biologia). A filosofia se preocupava com questões
gnosiológicas e cientificistas. O modo de pensar as questões consistia em
instituir um princípio, postulado ou preposição como ponto de partida e,
de dedução em dedução, construir um sistema complexo de definições,
conceitos e conclusões verdadeiras. A filosofia realiza dedução racional e
pretende chegar a um universal. Formam-se sistemas complexos de
conceitos gerais e abstrações que contribuíram para a constituição da
forma metafísica ocidental de pensar.
• A ciência moderna exclui todo e qualquer tipo de participação subjetiva
no processo de investigação e de experimentação. Sua pretensão é obter
objetividade absoluta para formular hipóteses, executar experimentos,
elaborar teorias, procedimentos e leis gerais. Sua metodologia busca
esclarecer as causas dos fatos. O determinismo é aspecto fundamental da
metodologia cientifico - natural, pois com ele é possível determinar o
“controle” e a “previsibilidade” da realidade. Para se construir como
ciência objetiva, vários setores do conhecimento buscaram a
inexorabilidade da causa-efeito-linear. Afinal, sabendo determinadas
causas e seus respectivos efeitos, é possível medir e controlar com
exatidão os fatos que conduzem ao “real” e a “verdade”.
• O método experimental, a formulação de leis deterministas, a
mensuração e estabelecimento de leis gerais e universais garantem
49
resultados verdadeiros, reais e inquestionáveis. Por um lado, as ciências
naturais tornam-se as únicas fontes de conhecimento críveis. Por outro,
grande detentora da “verdade” e do poder, donde se deduz que ciência =
verdade = controle = poder. O ser humano passa a crer que somente o
método cientifico - experimental das ciências naturais estipulam aquilo
que pode ser considerado rigoroso, confiável, criterioso, real e
verdadeiro. Tal positivismo científico e a confiança absoluta nas ciências
naturais pretendem estabelecer o único modelo de obtenção do
conhecimento considerado cem por cento verdadeiro e confiável.
• Somente o agir por intermédio da objetividade absoluta e desvio da
subjetividade, orientadas pela lei de causa-efeito-linear gera o
conhecimento indiscutível, verdadeiro que é expresso por intermédio de
leis válidas para absolutamente todos os campos das ciências. A ciênciamoderna ocidental tem como fundamento que o mundo consiste em uma
reunião de entes completamente naturais (inclusive o homem). Para
investigá-los diretamente é preciso: ontologias regionais (física, biologia,
química, etc.), objetividade completa (sempre já estabelecida),
observação dos fatos por intermédio da percepção sensorial, busca de
comprovações, pensamento calculador, relação causa-efeito-linear,
universalidade e determinismo na seqüência dos fatos com o objetivo,
mensurar, prever, controlar e dominar a natureza.
• O desenvolvimento da filosofia e das ciências naturais fizeram com que a
psicologia abordasse a psyché de outra maneira. O psicólogo francês
Théodule-Armand Ribot (1839-1916 d. C.), a partir do estudo dos
métodos experimentais, analisou um grande número de peculiaridades
herdadas. Dedicou especial atenção ao elemento psicológico da vida
mental, ignorando todo fator espiritual ou não material do ser humano. A
psicologia iria se ocupar com a descrição e classificação e elaboração das
leis e condições que os regem. A psiquiatria já nessa época conhecia,
descrevia e classificava sintomas, elaborava diagnósticos e prognósticos.
Pesquisava procedimentos terapêuticos e discutia resultados.
• As ciências iam se tornando independe da filosofia a partir do século
XVIII. A psicologia enquanto ciência se separou da filosofia no final do
50
século XIX. O primeiro laboratório psicológico foi fundado
pelo fisiólogo alemão Wilhelm Wundt (1832-1920 d. C.) em 1879
em Leipzig, na Alemanha. Seu interesse se havia transferido do
funcionamento do corpo humano para os processos mais elementares de
percepção e a velocidade dos processos mentais mais simples. Em seu
laboratório Wundt dedicou-se a criar uma base verdadeiramente
científica para a nova ciência.
• Assim realizava experimentos para levantar dados sistemáticos e
objetivos que poderiam ser replicados por outros pesquisadores. Para
poder permanecer fiel a seu ideal científico, Wundt se dedicou
principalmente ao estudo de reações simples a estímulos realizados sob
condições controladas. Nela o indivíduo explora sistematicamente seus
próprios pensamentos e sensações a fim de ganhar informações sobre
determinadas experiências sensoriais Seu método de trabalho seria
chamado de estruturalismo. Seu objeto de estudo era a estrutura
consciente da mente e do comportamento, sobretudo as sensações. As
principais críticas levantadas contra o Estruturalismo foram:
ser reducionista, elementarista e ser mentalista.
• Para William James (1842-1910 d.C.) o estudo dos processos
conscientes não se limitava a uma descrição de elementos, conteúdos e
estruturas. A mente consciente é, para ele, um constante fluxo, uma
característica da mente em constante interação com o meio ambiente. Por
isso sua atenção estava mais voltada para a função dos processos mentais
conscientes. Na psicologia, a seu entender, deveria haver espaço para as
emoções, a vontade, os valores, as experiências religiosas e místicas -
enfim, tudo o que faz cada ser humano único. Foi denominada de
psicologia funcionalista, pois se preocupava com as funções da atividade
mental e dos processos internos. Investigou a consciência e seus
elementos, a função e utilidade dos processos mentais enquanto atividade
biológica, mas sem desconsiderar o meio ambiente e a experiência.
• Uma importante reação ao funcionalismo e ao comportamentismo
nascente foi a psicologia da gestalt ou da forma, representada por Max
Wertheimer (1880-1943 d. C.), Kurt Koffka (1886-1941 d.
51
C.) e Wolfgang Köhler (1887-1967 d.C.). Principalmente dedicada ao
estudo dos processos de percepção, essa corrente da psicologia defende
que os fenômenos psíquicos só podem ser compreendidos, se forem
vistos como um todo e não através da divisão em simples elementos
perceptuais. A palavra gestalt significa "forma", "formato",
"configuração" ou ainda "todo", "cerne".
• Com Pavlov (1849-1936 d. C.) e Watson (1878-1958 d. C.) a
perspectiva comportamentalista procura explicar o comportamento pelo
estudo de relações funcionais interdependentes entre eventos ambientais
(estímulos) e fisiológicos (respostas). A atenção do pesquisador é assim
dirigida para as condições ambientais em que determinado indivíduo
enquanto organismo se encontra, para a reação desse indivíduo a essas
condições, para as conseqüências que essa reação lhe traz e para os
efeitos que essas conseqüências produzem.
• Os adeptos dessa corrente entendem o comportamento como uma relação
interativa de transformação mútua entre o organismo e o ambiente que o
cerca na qual os padrões de conduta são naturalmente selecionados em
função de seu valor adaptativo. O comportamento geralmente é definido
por meio das unidades analíticas respostas e estímulos investigados pelos
métodos utilizados pela ciência natural chamada Análise do
Comportamento. Historicamente, a observação e descrição do
comportamento fez oposição ao uso do método de introspecção.
• Segundo a perspectiva psicodinâmica (psicanálise) o comportamento é
movido e motivado por uma série de forças internas, que buscam
dissolver a tensão existente entre os instintos, as pulsões e as
necessidades internas de um lado e as exigências sociais de outro. O
objetivo do comportamento é assim a diminuição dessa tensão interna. A
perspectiva psicodinâmica teve sua origem nos trabalhos do
médico vienense Sigmund Freud (1856-1939 d. C.) com pacientes
psiquiátricos, mas ele acreditava serem esses princípios válidos também
para o comportamento normal.
• O modelo freudiano é notoriamente reconhecido por enfatizar que a
natureza humana não é sempre racional e que as ações podem ser
52
motivadas por fatores não acessíveis à consciência. Além disso, Freud
dava muita importância à infância, como uma fase importantíssima na
formação da personalidade. A teoria original de Freud, que foi
posteriormente ampliada por vários autores mais recentes e influenciou
fortemente muitas áreas da psicologia, tem sua origem não em
experimentos científicos, mas na capacidade de observação de um
homem criativo, inflamado pela idéia de descobrir os mistérios mais
profundos do ser humano.
• As ciências do espírito teriam como objeto o homem e o comportamento
humano; para o filosofo Wilhelm Dilthey (1833-1911 d.C.) é possível,
diante do mundo humano, adotar uma atitude de "compreensão pelo
interior", ao passo que, diante do mundo da natureza, essa via de
compreensão estaria completamente fechada. Os meios necessários à
compreensão do mundo histórico-social podem ser, dessa maneira,
tirados da própria experiência psicológica, e a psicologia, deste ponto de
vista, é a primeira e mais elementar das ciências do espírito. A
experiência imediata e vivida na qualidade de realidade unitária
(Erlebnis) seria o meio a permitir a apreensão da realidade histórica e
humana sob suas formas concreta e viva.
• Por intermédio de discussões fenomenológicas, compreensivas e
hermenêuticas, pensadores analisavam as estruturas do modelo ocidental
de pensar, teorizar, investigar, formular regras e legislar conhecimentos.
Surge então o pensamento existencial é um termo aplicado a uma escola
de filósofos dos séculos XIX e XX que, apesar de possuir profundas
diferenças em termos de doutrinas, partilhavam a crença que o
pensamento filosófico começa com o sujeito humano, não meramente o
sujeito pensante, mas as suas ações, sentimentos e a vivência de um ser
humano individual. No pensamento existencial, o ponto de partida do
indivíduo é caracterizado pelo que se tem designado por "atitude
existencial", ou uma sensação de desorientação e confusão face a um
mundo aparentemente sem sentido e absurdo. Muitos filósofos do
pensamento existencial também viam as filosofias acadêmicas e
sistematizadas, no estilo e conteúdo, como sendo muito abstratase
53
longínquas das experiências humanas concretas. Reunindo as sínteses do
pensamento de cada um desses filósofos podemos listar os postulados
principais dessa corrente filosófica que são:
• 1) A primeira é o ser humano enquanto indivíduo, e não com as teorias
gerais sobre o homem. Há uma preocupação com o sentido ou o objetivo
das vidas humanas, mais que com verdades científicas ou metafísicas
sobre o universo. Assim, a experiência interior ou subjetiva - e aí está a
influência da fenomenologia - é considerada mais importante do que a
verdade "objetiva", um fundamento igual à da filosofia oriental.
• 2) O homem não foi planejado por alguém para uma finalidade, como os
objetos que o próprio homem cria, mediante um projeto. O homem se faz
em sua própria existência.
• 3) O mundo, como nós o conhecemos, é irracional e absurdo, ou pelo
menos está além de nossa total compreensão; nenhuma explicação final
pode ser dada para o fato de ele ser da maneira que é;
• 4) A falta de sentido, a liberdade conseqüente da indeterminação, a
ameaça permanente de sofrimento, da origem à ansiedade, à descrença
em si mesmo e ao desespero; há uma ênfase na liberdade dos indivíduos
como a sua propriedade humana distintiva mais importante, da qual não
pode fugir.
• A Fenomenologia, Filosofia Existencial e Existencialismo trataram dos
seguintes eixos que fundamentavam a Filosofia Racional, a Ciência
Natural e também a forma cotidiana do homem pensar a vida e o mundo:
universalidade e singularidade, corpo e mente, finitude e infinitude,
subjetividade e objetividade, liberdade e determinismo, possibilidade e
necessidade, ser do homem enquanto existência (o cotidiano de ter que
dar conta de ser) e não como puro pensar ou subjetividade separada do
mundo objetivo, etc.
54
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Zahar Editor, 2009.psychein ("soprar"), é uma palavra
ambígua que significava originalmente "alento" e posteriormente,
"sopro“, “vento”, “brisa”. Dado que o alento é uma das
características da vida, a expressão "psiquê" era utilizada como um
sinônimo de vida e por fim, como sinônimo de alma, considerada o
princípio e o sopro da vida. É o sopro que anima e vivifica o corpo.
• Outro significado encontrado para psiquê era borboleta, que
simbolizava o espírito imortal. Na mitologia grega, a personificação
da alma (psiquê) é representada por uma mulher com asas de
borboleta. Segundo as crenças gregas populares, quando alguém
morria, o espírito saia do corpo com uma forma de borboleta. Com a
invasão do Império Romano, o termo grego psyché foi traduzido
para o latim, anima. Posteriormente, se tornou alma em português.
• Esse clássico e significativo mito que inspirou a origem da palavra
psic(o)- + -logia, não é uma referência básica, apenas pelo
significado restrito (literal) de psychein e sim porque a trama e os
personagens de sua narrativa envolvem os principais conceitos da
lida da psicologia tais como: emoção, capacidade de amar, resolução
de tarefas e problemas, etc. (Dorsch, 2001; Galimberti, 2010).
• Exemplos de mitos gregos e a psicologia:
6
Mito de Eros e Psiquê em (Kury, 2009)
Mito de Édipo em (Kury, 2009; Wilkinson & Philip, 2009)
Mito de Narciso em (Kury, 2009).
Herança dos mitos gregos e o pensar atual
• Universalização das épocas, lugares, povos e culturas onde todos
são submetidos à mesma explicação.
• Determinismo fatalista do “destino”.
• Naturalização dos fenômenos.
• Essencialismo das características do ser e das situações.
• A causa A sempre resulta no efeito B
• Impossibilidade de escolha e mudança.
Características acima, em oposição ao pensamento existencial, resultam em:
• Ao invés de universalizar: especificar.
• Ao invés de massificar: particularizar em seu contexto existencial
inter-relacional.
• Ao invés de determinar fatalisticamente o ser: perceber
possibilidades de escolhas.
• Ao invés de naturalizar: nada surge pronto e está definitivamente
acabado. Compreender a construção, o processo e a mudança ao
longo do tempo.
• Ao invés de essencializar: perceber a especificidade e
complexidade de cada ser e situação. Identificar a capacidade do
nada de ser ao vir-a-ser em constante possibilidade de mudança.
• Ao invés de somente uma explicação: perceber a complexidade
das situações.
• Ao invés de não-escolha: perceber possibilidades de escolhas com
responsabilidade.
7
Exemplos de mitos explicando a sexualidade
Mito de Hermafrodito em (Kury, 2009)
Mito do Andrógino Platônico em (Platão, 2011a)
• Com o objetivo de organizar-se socialmente, o ser humano definiu
o que era a sexualidade humana. Elas foram posteriormente
essencializadas, naturalizadas e universalizada (Butler apud
Antunes, 2010).
• Construção do seguinte sistema, considerado mais adequado, até
os dias atuais:
Pênis = Identidade de Gênero Masculina Compulsória = Heterossexualidade Compulsória
Vagina = Identidade de Gênero Feminina Compulsória = Heterossexualidade Compulsória
Diferenças básicas entre os mitos gregos e a filosofia grega
• Por volta do final do século VII a. C. a recém-surgida filosofia
grega, percebendo as contradições e limitações dos mitos, foi
reformulando e racionalizando as narrativas míticas,
transformando-as numa outra coisa, numa explicação
inteiramente nova e diferente.
• O mito pretendia narrar como as coisas eram ou tinham sido no
passado imemorial, longínquo e fabuloso, voltando-se para o que
era antes que tudo existisse tal como existe no presente.
• A filosofia, ao contrário, preocupa-se em explicar como e por que,
no passado, no presente e no futuro (isto é, na totalidade do
tempo), as coisas são como são.
• O mito narrava a origem através de genealogias e rivalidades ou
alianças entre forças divinas sobrenaturais e personalizadas,
enquanto a filosofia, ao contrário, explica a produção natural das
coisas por elementos e causas naturais e impessoais.
8
• O mito falava em Urano, Ponto e Gaia; a filosofia fala em céu,
mar e terra. O mito narra a origem dos seres celestes (os astros),
terrestres (plantas, animais, homens) e marinhos pelos casamentos
de Gaia com Urano e Ponto.
• A filosofia explica o surgimento desses seres por composição,
combinação e separação dos quatro elementos - úmido, seco,
quente e frio, ou água, terra, fogo e ar.
• O mito não se importava com contradições, com o fabuloso e o
incompreensível, não só porque esses eram traços próprios da
narrativa mítica, como também porque a confiança e a crença no
mito vinham da autoridade religiosa do narrador.
• A filosofia, ao contrário, não admite contradições, fabulação e
coisas incompreensíveis, mas exige que a explicação seja
coerente, lógica e racional; além disso, a autoridade da explicação
não vem da pessoa do filósofo, mas da razão, que é a mesma em
todos os seres humanos (Chauí, 2012: 45-46).
Condições para o aparecimento da filosofia grega
Viagens marítimas
Invenção do calendário
Invenção da moeda
Surgimento da vida Urbana (pólis).
Invenção da escrita Alfabética
Invenção da política (Chauí, 2012).
Características da filosofia
A filosofia não é um “eu acho que” ou um “eu gosto de”. Não é
pesquisa de mercado para conhecer preferências dos consumidores e
criar uma propaganda.
A filosofia trabalha com enunciados precisos e rigorosos, busca
encadeamentos lógicos entre os enunciados, opera com conceitos ou
9
idéias obtidos por procedimentos de demonstração e prova, exige a
fundamentação racional do que é enunciado e pensado. Somente
assim a reflexão filosófica pode fazer com que nossa experiência
cotidiana, nossas crenças e opiniões alcancem uma visão crítica de si
mesmas (Chauí, 2004).
O conhecimento filosófico é um trabalho intelectual. É sistemático
porque não se contenta em obter respostas para as questões
colocadas, mas exige que as próprias questões sejam válidas.
Em segundo lugar, que as respostas sejam verdadeiras, estejam
relacionadas entre si, esclareçam umas às outras, formem conjuntos
coerentes de idéias e significações, sejam provadas e demonstradas
racionalmente (Chauí, 2002).
Ao filosofar, colocamos o mundo entre parênteses, questionando
nossos “pré-conceitos”. Uma atitude filosófica implica fazermos as
seguintes perguntas ao objeto a ser estudado:
O que é? Busca encontrar uma definição para o objeto.
Como é? Busca a estrutura de relações e o funcionamento do objeto.
Por que é? Busca encontrar a origem e as causas da existência do
objeto.
Para que é? Busca qual é finalidade do objeto (Chauí, 2012).
O que perguntavam os primeiros filósofos?
Por que do diferente surge outro diferente? Do dia a noite? Do
inverno a primavera?
Por que tudo muda? Um dia luminoso e ensolarado, se torna sombrio
e coberto de nuvens?
Por que o que parecia uno se torna múltiplo? De uma gata, nasce um
monte de gatinhos?
Por que as coisas se tornam oposto do que eram? A água quente se
torna fria?
Por que tudo parece se repetir? Depois do dia vem a noite? Depois da
noite vem o dia?
10
Por que nada permanece idêntico a si mesmo?
De onde vêm os seres? Para onde vão quando desaparecem?
Por que tudo existe? De onde surgiu? Qual é a razão de ser?
Quais são as forças originárias que agem nesse processo? (Chauí,
2012; Reale e Antiseri, 1990a).
Nascimento da filosofia grega
A filosofia antiga grega teve início no século VI a.C. e se estendeu
até a decadência do império romano no século V d.C. Os primeiros
filósofos gregos, geralmente chamados de pré-socráticos, dedicaram-
se a especulações sobre a constituição e a origem do mundo. O principal intuito desses filósofos era descobrir um elemento
primordial, eterno e imutável que fosse a matéria básica de todas as
coisas (arché). Essa substância imutável era chamada de physis
(palavra grega cuja tradução literal seria natureza, mas que na
concepção dos primeiros filósofos compreendia a totalidade dos
seres, inclusive entidades divinas).
A questão da essência material imutável foi a primeira feição
assumida por uma inquietação que percorreu praticamente toda a
filosofia grega. Essa inquietação pode ser traduzida na seguinte
pergunta: existe uma realidade imutável por trás das mudanças
caóticas dos fenômenos naturais? (Bornheim, 1994).
Principais filósofos europeus e suas concepções de psyché
Tales de Mileto (cerca de 625 – 558 a.C.) foi o primeiro filósofo
ocidental de que se tem notícia. Ele dizia que o princípio de todas as
coisas é a água, sendo talvez levado a formar essa opinião por ter
observado que o alimento de todas as coisas é úmido e que o próprio
calor é gerado e alimentado pela umidade. Ora, aquilo de que se
originam todas as coisas é o princípio delas. Daí lhe veio essa opinião
e também a de que as sementes de todas as coisas são naturalmente
11
úmidas e de ter origem na água a natureza das coisas úmidas (Nicola,
2005; Reale e Antiseri, 1990a).
Atribui-se a Tales a afirmação de que "todas as coisas estão cheias de
deuses", o que talvez pode ser associado à idéia de que o imã tem
vida porque move o ferro (Aristóteles, 2011). Essa afirmação
representa não um retorno à concepções míticas, mas simplesmente a
idéia de que o universo é dotado de animação, de que a matéria é viva
(hilozoísmo do grego hyle, matéria, e zoe, vida). Os hilozoístas
consideram que toda a realidade, inclusive a inerte, está dotada
de sensibilidade e, portanto, animada por um princípio ativo
(Abbagnano, 2007).
Para Anaximandro de Mileto (cerca de 610 – 547 a.C), o
princípio das coisas - o arché - não era algo visível; era uma
substância etérea, infinita. Ele tinha um argumento contra Tales: o ar
é frio, a água é úmida e o fogo é quente. E essas coisas são
antagônicas entre si. Portanto o elemento primordial não poderia ser
um dos elementos visíveis, teria que ser um elemento neutro,
indeterminado (apeíron), que está presente em tudo, mas está
invisível. O apeíron seria uma “massa geradora” dos seres, contendo
em si todos os elementos contrários.
Do ilimitado surgem inúmeros mundos e estabelece-se a
multiplicidade; a gênese das coisas a partir do ilimitado é explicada
por meio da separação dos contrários em conseqüência do
movimento eterno. Para Anaximandro o princípio das coisas - o arché
- não era algo visível; era uma substância etérea, infinita. Chamou a
essa substância de apeíron (indeterminado, infinito) (Reale e Antiseri,
1990a).
Anaxímenes de Mileto (cerca de 570—526 a.C.). Ele pensava
que a origem de todas as coisas teria de ser o ar ou o vapor.
Anaxímenes conhecia claro, a teoria da água de Tales. Mas de onde
vem a água? Anaxímenes acreditava que a água seria ar condensado.
12
Acreditava também que o fogo seria ar rarefeito. De acordo com
Anaxímenes, por conseguinte, o ar "pneuma" constituiria a origem da
terra, da água e do fogo.
Os três filósofos de Mileto acreditavam na existência de uma
substância básica única, que seria a origem de todas as coisas. No
entanto, isso deixava sem solução o problema da mudança. Como
poderia uma substância se transformar repentinamente em outra
coisa? A partir de cerca de 500 a.C. quem se interessou por essa
questão foi um grupo de filósofos da colônia grega de Eléia, no sul da
Itália, por isso conhecidos como eleatas (Reale e Antiseri, 1990a).
Parmênides de Eléia (cerca de 530/515 - 460 a.C.). “Nada nasce
do nada e nada do que existe se transforma em nada”. Com isso quis
dizer que “tudo o que existe sempre existiu”.
Sobre as transformações que se pode observar na natureza: “Achava
que não seriam mudanças reais”. De acordo com ele, nenhum objeto
poderia se transformar em algo diferente do que era.
Parmênides de Eléia defendeu que a perene mutação das coisas não
passa de uma ilusão dos sentidos, pois a razão revelaria que o Ser é
único, imutável e eterno.
Quando se viu forçado a escolher entre confiar nos sentidos ou na
razão, escolheu a razão. Essa inabalável crença na razão humana
recebeu o nome de racionalismo. Um racionalista é alguém que
acredita que a razão humana é a fonte primária de nosso
conhecimento do mundo (Reale e Antiseri, 1990a).
Verdade e opinião: a contradição posta por Parmênides entre verdade
(alétheia) e opinião (doxa) tornaria-se um tema clássico do
pensamento ocidental. Opinião é a crença que se baseia em dados
sensíveis e perceptíveis, mesmo quando esses parecem ser certos e
evidentes; verdade é a convicção baseada em argumentações
racionais, mesmo quando essas argumentações parecem em total
oposição às evidencias sensíveis (Nicola, 2005).
13
Um contemporâneo de Parmênides foi Heráclito de Éfeso (cerca
de 540 - 476 a.C.), que defendia que a própria essência das coisas é
mudança e a transformação, (simbolizada pelo fogo e/ou moeda), e
seriam vãos os esforços para buscar uma realidade imutável.
Tudo está em fluxo e movimento constante, nada permanece (phánta
reî). Por conseguinte, “não entramos duas vezes no mesmo rio”.
Quando entro no rio pela segunda vez, nem eu nem o rio somos os
mesmos. Além disso, Heráclito afirmava que todos têm lógos
(pensamento, razão, inteligência, explicação, cálculo, medida,
avaliação, razão, causa, necessidade, discurso), mas só os despertos o
sabem.
Parmênides e Heráclito defendiam dois pontos principais
diametralmente opostos (Pré-Socráticos, 1979).
Coube ao siciliano Empédocles de Agrigento (cerca de 490 -
430 a.C.) indicar a saída desse dilema. Não é possível que a fonte da
Natureza seja um único “elemento”. Empédocles acreditava que a
Natureza consistiria de quatro elementos, ou “raízes”, como os
denominou. Essas quatro raízes seriam a terra, o ar, o fogo e a água.
Todas as coisas seriam misturas de terra, ar, fogo e água, mas em
proporções variadas. Assim as diferentes coisas que existem seriam
os processos naturais gerados pela aproximação e à separação desses
quatro elementos. Empédocles pensava que haveria duas forças
diferentes atuando na Natureza. Ele as chamou de amor e discórdia.
Amor uniria as coisas, a discórdia as separaria (Reale e Antiseri,
1990a).
Para Demócrito de Abdera (cerca de 460 – 370 a.C), as
transformações que se podem observar na natureza não significavam
que algo realmente se transformava. Ele acreditava que todas as
coisas, inclusive a alma, eram formadas por uma infinidade de
"pedrinhas minúsculas, invisíveis, cada uma delas sendo eterna,
14
imutável e indivisível". A alma forma uma unidade com o intelecto. A
estas unidades mínimas deu o nome de átomos (não divisível).
Átomo significa indivisível, cada coisa que existe é formada por uma
infinidade dessas unidades indivisíveis. Exemplo: se um corpo – de
uma árvore ou animal, morre e se decompõe, seus átomos se
espalham e podem ser reaproveitados para dar origem a outros
corpos.
Demócrito ainda inicia a corrente de pensamento determinista de
causa-efeito na filosofia. Conhecendo o processo, se conhecem os
resultados (Nicola, 2005; Reale e Antiseri, 1990a).
Pitágoras de Samos (cerca de 570 – 500 C.) defendia uma
doutrina com ênfase na metafísica e na filosofia dos números e da
música como essência de tudo que existe e também da
própria Divindade.
Pitágoras percorreu por 30 anos o Egito, Babilônia, Síria, Fenícia e
talvez a Índia e a Pérsia, onde acumulou ecléticos
conhecimentos: astronomia, matemática,
ciência, filosofia, misticismo e religião. Ele foi contemporâneode Tales de Mileto, Buda, Confúcio e Lao-Tsé.
Ele tinha a crença na transmigração das almas ou metempsicose (do
grego: meta: mudança + en: em + psiquê: alma) é o termo genérico
para transmigração da alma, de um corpo para outro, seja este do
mesmo tipo de ser vivo ou não. O processo de libertação da alma
seria resultante de um esforço basicamente intelectual. A purificação
resultaria de um trabalho intelectual, que descobre a estrutura
numérica das coisas e torna, assim, a alma como uma unidade
harmônica (Spinelli, 2003).
Pitágoras de Samos também foi influenciado pelo Orfismo, que era
uma espécie de religião de mistérios no antigo mundo grego que foi
difundido a partir dos séculos VII e VI a.C. Caracterizava
as almas humanas como divinas e imortais, mas condenadas a viver
15
(por um período) em um círculo penoso de sucessivas encarnações
por meio da metempsicose ou transmigração de almas.
As teogonias órficas são trabalhos genealógicos como a Teogonia de
Hesíodo, mas os detalhes são diferentes. O relato principal é:
Dionísio (na sua encarnação de Zagreus) é o filho de Zeus e
Perséfone; ele foi assassinado e fervido pelos Titãs. Zeus lançou um
raio nestes e Hermes salvou o coração de Zagreus.
As cinzas resultantes geraram a humanidade pecaminosa, composta
dos corpos dos Titãs e de Dionísio. A alma do homem (fator
dionisíaco) é, portanto, divina, enquanto o corpo (fator titânico)
aprisiona a alma. Declarava-se que a alma retornaria repetidamente à
vida, atada à roda do renascimento (Galimberti, 2010; Kury, 2009).
Para Pitágoras de Samos a alma (imortal e presente em cada ser vivo)
é constituída de éter, o quinto elemento, uma substância material, mas
muito sutil e invisível.
A alma tem três componentes.
O coração é a sede da emoção; o cérebro, do intelecto e da mente.
Também o pensamento é constituído de éter.
A alma não é necessariamente controlada pela mente racional.
A alma sobrevive ao corpo.
Os sonhos são mensagens enviadas pelas almas dos mortos. Os
animais também sonham.
O rito religioso estabelece um contato com as almas.
A alma tende ao bem, mas o homem é em si um ser inquieto (Nicola,
2005:24-25).
A teoria de Demócrito de Abdera representou o ápice da filosofia
da physis, mas também o seu esgotamento. As transformações
sociopolíticas, especialmente em Atenas, já impunham novas
demandas aos sábios da época. As populações das cidades começam a
crescer. A democracia ateniense solicitava novas habilidades
intelectuais, sobretudo a capacidade de persuadir. É nesse momento
que se destacam os filósofos que se dedicam justamente a ensinar
à retórica e as técnicas de persuasão – os sofistas (Chauí, 2012).
16
Enquanto os filósofos naturalistas (physis) procuraram responder à
seguinte questão: "O que é a natureza ou a realidade última das
coisas?
Para os sofistas a experiência individual é o único critério real da
verdade. Não existem leis eternas e verdades objetivas, somente
opiniões. Mas a relatividade de todo o juízo não deve levar ao
derrotismo: o livre choque de opiniões (dialética) seleciona sempre a
melhor solução, a mais útil. Por isso, mesmo não existindo qualquer
verdade, a tarefa educativa do filósofo permanece essencial.
Como todo sofista, Protágoras (483-410 a.C.) sustentava que o
homem é a medida de todas as coisas. Acreditava na inexistência de
uma verdade objetiva válida, mas afirmava também a necessidade do
estudo e da educação, na medida em que, se não existem proposições
verdadeiras em absoluto, deve-se saber diferenciar entre as opiniões
melhores e piores, mais ou menos úteis no indivíduo e na sociedade.
A tarefa do sofista abrange, portanto, também um aspecto construtivo
e socialmente e socialmente fecundo ao encaminhar os cidadãos para
os valores e as opiniões mais adequadas a determinada situação
(Platão, 2007).
As três teses defendidas por Górgias (485-380 a.C.) estão entre as
mais radicais dentro da tradição filosófica. Nada existe; mesmo se
algo existisse sobre isso nada poderia ser sabido; mesmo se se
pudesse saber algo, o conhecimento acerca disso não poderia ser
comunicado a outros: mesmo que pudesse ser comunicado, não
poderia ser compreendido. Górgias não acreditava absolutamente nas
teses que defendia, pois era capaz, desde que solicitado, de inventar
argumentos que provavam a tese contrária, transformando o
verdadeiro em falso e vice-versa. É como se ele dissesse que não
existe uma verdade indiscutível, mas somente opiniões; não existe
nenhum lógos, nenhuma explicação definitiva e inopinável, mas
17
somente retórica e persuasão, sedução intelectual (Pré-Socráticos
1979).
Fenomenismo: em filosofia, o termo fenômeno indica o que é
aparente em uma coisa, em contraposição ao que ela é em si mesma.
Chama-se de fenomenismo a idéia de que o conhecimento humano
jamais pode levar em consideração a realidade de modo absoluto e
objetivo, mas somente perceber suas aparências – ou seja, exatamente
os fenômenos. Os sofistas lançaram a doutrina fenomenista,
conferindo a esta um forte significado subjetivista, relativista e
cético: não existem verdades e tampouco afirmações universais, tudo
depende do sujeito e da situação que ele se encontra (Nicola, 2005).
Pirro de Élis (360-275 a.C.), um dos principais filósofos céticos,
seguia uma linha de raciocínio parecida com os sofistas. Os
princípios de sua obra são expressos, em primeiro lugar, pela palavra
acatalepsia, que define a impossibilidade de se conhecer a própria
natureza das coisas. Para ele qualquer afirmação pode ser
contraditada por argumentos igualmente válidos. Ou seja, a cada
afirmação pode-se contrapor outra contraditória, mas com base
igualmente coerente. Qualquer que seja a opinião de alguém, a
opinião contrária é tão inteligente e competente para julgar quanto à
primeira. É necessário preservar uma atitude de suspensão intelectual
(epoché).
Ou seja, nenhuma afirmação pode ser considerada melhor que outra.
Sobre a realidade, podemos apenas responder que não sabemos nada.
Sabemos apenas de sua aparência, mas somos ignorantes quanto a sua
substância íntima. O mesmo objeto aparece diferentemente a
diferentes pessoas, e assim é impossível saber qual aparição é a
correta. Não podemos ter certeza de nada, mesmo as afirmações mais
triviais. Epoché é o termo grego utilizado por Pirro e pelos céticos
para denominar a dúvida, a necessária suspensão de juízo que
caracteriza sua posição: nem aceitar, nem rejeitar; nem afirmar, nem
negar. Diferente da epoché fenomenológica a cética é um
18
procedimento destrutivo cuja conclusão é a afasia, o silêncio (Chauí,
2003; Nicola, 2005).
Sócrates (469 – 399 a. C.) procura responder às seguintes questões:
“O que é a natureza ou realidade última do homem?”, ou seja, “o que
é a essência do homem?”
Para Sócrates a alma se apresenta como um substância específica
imaterial (= espiritual), não composta (= simples), essencialmente
distinta do corpo material.
A alma tendo a capacidade de exercer um comportamento ético é
dotada de faculdades distintas e hierarquizadas: sentido, vontade
dotada de liberdade e inteligência.
A alma é simples porque é indivisível, diferente do corpo que se
divide em partes, já a alma é dotada de movimento próprio e de
conhecimento.
Para Sócrates a alma é causadora do movimento, por um poder não
recebido de fora. Cada corpo movido de fora é inanimado. O corpo
movido de dentro é animado, pois que o movimento é a natureza da
alma (Platão, 2007; Reale e Antiseri, 1990a).
Num primeiro argumento da imortalidade com base em sua natureza,
alegou Sócrates, que, por ser espiritualidade e simples, em tal estado,
a alma não pode corromper-se. Em sendo incorruptível, decorre ser
imortal. Não se pode desfazer, nem mesmo após amorte do corpo.
Efetivamente, a simplicidade tem por efeito formal excluir a
corrupção, pois que a corrupção supõe a composição de partes
Toda a alma é imortal, porque aquilo que se move a si mesmo é
imortal. O que move uma coisa e é por outra movida, anula-se uma
vez terminado o movimento. Somente o que a si mesmo se move,
nunca saindo de si, jamais acabará de mover-se e é para as demais
coisas que se movem fonte do início do movimento. O início é algo
que não se formou, sendo evidente que tudo que se forma, forma-se
de um princípio. Este princípio de nada proveio, pois que, e proviesse
de uma outra coisa, não seria princípio (Platão, 2011b; Nicola, 2005).
19
Outra prova da imortalidade da alma a partir de sua mesma natureza,
considera-a indestrutível por ação a agir sobre ela a partir do exterior.
Ponderou Sócrates que, sendo a alma simples, nenhuma causa
consegue destruí-la.
Segundo Sócrates, a alma é perfeita, pois pode obter a "ciência" ou o
"conhecimento", ao passo que o "vício" seria a privação de ciência ou
conhecimento, ou seja, a "ignorância." Assim, à pergunta "o que é
o homem?", não se pode responder que é o seu corpo, mas sim que é
"aquilo que se serve do corpo". Mas "o que se serve do corpo é
a psyché, a alma (= a inteligência)", de modo que a conclusão é
inevitável: "A alma nos ordena conhecer aquele que nos adverte:
“Conhece-te a ti mesmo”, conforme nos lembra Sócrates sobre a
inscrição encontrada no Oráculo de Delfos (Abbagnano, 2007; Reale
e Antiseri, 1990a; Sócrates, 1979).
Muitas das idéias de Sócrates em relação à alma, eram
compartilhadas por Platão (cerca de 428 – 348 a. C.) que era seu
discípulo.
Ele também elaborou uma teoria gnosiológica, ou seja, uma teoria do
conhecimento. Segundo seu autor, antes de nascer, a alma de
cada pessoa vivia em uma estrela, onde se localizam as Idéias.
Quando uma pessoa nasce, sua alma é "jogada" da estrela para a
Terra e o impacto que ocorre faz com que esqueça o que viu na
estrela. Mas, ao ver um objeto aparecer de diferentes formas (como as
diferentes árvores que se pode ver), a alma se recorda da Idéia
daquele objeto que foi visto na estrela. Tal recordação, em Platão,
chama-se anamnesis (Platão, 2011b; Reale e Antiseri, 1990a).
A alma humana enquanto perfeita participa do mundo perfeito das
idéias, porém este formalismo só é reconhecível na experiência
sensível. Apesar de todos terem a alma perfeita, nem todos chegavam
à contemplação absoluta do mundo das idéias.
O homem para Platão era dividido em corpo e alma. O corpo era a
matéria e a alma era o imaterial e o divino que o homem possuía.
20
Enquanto o corpo está em constante mudança de aparência, a alma
não muda nunca. Desde quando nascemos, temos a alma perfeita,
porém não sabemos. As verdades essenciais estão inscritas na alma
eternamente, porém, ao nascermos, nós as esquecemos, pois a alma é
aprisionada no corpo. Em síntese, para o filosofo, o homem era uma
alma racional habitando um corpo mortal (Abbagnano, 2007; Platão,
1979).
Platão acreditava que existiam três espécies de virtudes baseadas
na alma, que corresponderiam aos estamentos da pólis:
A primeira virtude era a da sabedoria, deveria ser a cabeça do Estado,
ou seja, o governante, pois possui caráter de ouro e utiliza a razão.
A segunda espécie de virtude é a coragem, deveria ser o peito do
Estado, isto é, os soldados ou guardiões da pólis, pois sua alma de
prata é imbuída de vontade. E, por fim, a terceira virtude,
a temperança, que deveria ser o baixo-ventre do Estado, ou os
trabalhadores, pois sua alma de bronze orienta-se pelo desejo das
coisas sensíveis (Platão, 2011b).
Para Platão a alma é divida em três partes:
1) Racional: cabeça; esta tem que controlar as outras duas partes. Sua
virtude é a sabedoria ou prudência (phrónesis).
2) Irascível: tórax; parte da impetuosidade, dos sentimentos. Sua
virtude é a coragem (andreía).
3) Concupiscente: baixo ventre; apetite, desejo, mesmo carnal
(sexual), ligado à libido. Sua virtude é a moderação ou temperança
(sophrosýne).
Esse estreito vínculo com o corpo, que se renova a cada ciclo vital
segundo o principio da metempsicose, impede que a alma realize
plenamente a própria natureza espiritual. É o motivo pelo qual o
filósofo deseja morrer, ou seja, separar-se da prisão corpórea.
Platão acreditava que a alma depois da morte reencarnava em outro
corpo (metempsicose), mas a alma que se ocupava com a filosofia e
com o Bem, esta era privilegiada com a morte do corpo. A ela era
concedida o privilégio de passar o resto dos seus tempos em
21
companhia dos deuses. Por meio da relação de sua alma com a Alma
do Mundo, o homem tem acesso ao mundo das Idéias e aspira ao
conhecimento e às idéias do Bem e da Justiça (Platão, 1979).
Aristóteles (384 – 322 a.C.) era discípulo de Platão, que por sua
vez foi de Sócrates. Aristóteles compartilhava das mesmas idéias
sobre a alma, expostas pelos dois filósofos anteriores. Ele considera
que a Psicologia é a teoria da alma e baseia-se nos conceitos de alma
(psyché) e intelecto (noûs). A alma é a forma primordial de um corpo
que possui vida em potência, sendo a essência do corpo. A alma está
para o corpo assim como a visão está para os olhos. O intelecto, por
sua vez, não se restringe a uma relação específica com o corpo; sua
atividade vai além dele.
O organismo, uma vez desenvolvido, recebe a forma que lhe
possibilitará perfeição maior, fazendo passar suas potências a ato.
Essa forma é alma. Ela faz com que vegetem, cresçam e se
reproduzam os animais e plantas e também faz com que os animais
sintam (Abbagnano, 2007; Aristóteles, 2011).
No homem, a alma, além de suas características vegetativas e
sensitivas, há também a característica da inteligência, que é capaz de
apreender as essências de modo independente da condição orgânica.
Aristóteles considerava que somente a parte intelectiva da alma era
separável do corpo. É substância, isto é, realidade no sentido forte do
termo, e princípio independente de operações, isto é, causa. Todos os
seres são compostos de uma matéria – corpo e possuem uma alma,
uma organização que é justamente aquilo que ao se unir ao corpo lhe
dá a vida – forma (Piccino, 1990).
A matéria é potência, a forma é ato e todo o ser animado é composto
por essas duas coisas; mas enquanto o corpo não é o ato da alma, a
alma é atividade de um corpo determinado, isto é, a realização da
potência própria desse corpo. Ela não existe nem sem o corpo nem
como corpo. Tudo aquilo que se transforma não faz senão passar para
o ato aquilo que já possui em potência. A potência indica a
22
possibilidade por parte da matéria de assumir determinada forma. O
ato indica a realização dessa possibilidade. A potência está para a
matéria como o ato está para a forma (Aristóteles, 1979; Reale e
Antiseri, 1990a).
Aristóteles estabelece níveis diferentes para o funcionamento da
alma:
Alma vegetativa (nutrição, reprodução e crescimento): existente nos
vegetais, animais e no homem.
Alma sensitiva (percepção e sensação): existente nos animais e no
homem.
Alma locomotora: responsável pelo movimento nos animais e no
homem.
Alma intelectual: responsável pelas funções intelectivas: existente
nos homens. É separável do corpo. É substância, isto é, realidade no
sentido forte do termo, e princípio independente de operações, isto é,
causa (Abbagnano, 2007; Piccino, 1990).
Epicuro de Samos (cerca de 341-271 a. C.) defendia que das
estrelas à alma, tudo é formado de átomos, sendo, porém de
diferentes naturezas. Dizia que os átomos são de qualidades finitas,
de quantidades infinitas e sujeitos a infinitas combinações.
A morte física seria o fim do corpo (e do indivíduo), que era
entendido como somatório de carne e alma, peladesintegração
completa (alma e corpo) dos átomos que o constituem. Desta forma,
os átomos, eternos e indestrutíveis, estariam livres para constituir
outros corpos. (Abbagnano, 2007).
Zenão de Cítio (cerca de 334 -262 a. C.) acreditava que a
substância primária no Universo vinha do fogo, passava pelo estado
de ar, e depois tornava-se água: a parte mais concentrada tornava-se
terra e a menos concentrada tornava-se ar novamente, rarefazendo-se
de novo em fogo.
23
As almas individuais faziam parte do mesmo fogo como a alma-
mundo do Universo. Seguindo Heráclito, Zenão adotou a visão de
que o Universo passou por ciclos regulares de formação e destruição
(Nicola, 2005).
Já estamos na era cristã. O império Romano já havia dominado a
Grécia e grande parte da Europa. O cristianismo começava a se
expandir. As questões sobre alma continuam, tais como: quais
relações existem entre corpo e alma? A alma depende do corpo ou é
dele desvinculada? Como se dá a atuação da alma sobre o corpo? O
que ela lhe confere? (Piccino, 1990).
Galeno (130 – 200 d.C.) era médico e filósofo. Seus pontos de vista
dominaram a medicina européia por mais de mil anos. Sua fisiologia,
por exemplo, é baseada em idéias aristotélicas da natureza,
movimento, causa e efeito e com a alma como o princípio vital, como
nas idéias de Platão. Distinguiu entre a alma
concupiscível (localizada no fígado), alma irascível (no coração) e
a alma racional (no cérebro) (Reale e Antiseri, 1990).
Plotino (204 – 270 d. C.) defendia que Deus (Uno) quando pensa a
si mesmo emana o intelecto (Espírito) que é a sua representação. O
intelecto quando pensa em si cria a alma (do mundo e do homem) que
é a representação do intelecto.
Na seqüência de importância das derivações Deus está em primeiro
lugar, o intelecto em segundo, a alma em terceiro. Em seguida
aparece o mundo físico, criado pela alma e que é composto de
matéria .
A alma inicialmente cria a matéria para depois dar forma a essa
matéria. A alma dá forma à matéria iluminando-a. O mundo físico é,
portanto formas criadas pela alma. Esse processo se chama hipóstase.
No processo de crescimento espiritual a alma (o homem) escolhendo
o caminho de retorno a Deus refaz em sentido inverso, o percurso das
emanações (Nicola, 2005; Reale e Antiseri, 1990a).
24
Para examinar a natureza de algo, é preciso considerá-lo em sua é
pureza. Para examinar o que é a alma é necessário olhar para si
mesmo retirando-se na própria interioridade. A alma é reduzida ao
movimento de introspecção, reflexão sobre si mesma. Dessa maneira
pode ver a sabedoria e a justiça.
Tal ato prescinde do corpo e de tudo aquilo que o corpo se relaciona –
as coisas, o mundo e os outros homens. Graças a Plotino a alma
também começa a ser entendida como consciência – definida de
início como a reflexão sobre a interioridade, a confissão como
reconhecimento da realidade íntima (Abbagnano, 2007).
Na Idade Média (476 – 1453 d. C.), ocorreu um intenso sincretismo
entre o conhecimento clássico e as crenças religiosas, como resultado
da expansão do cristianismo. De fato, uma das principais
preocupações dos filósofos medievais foi a de fornecer
argumentações racionais, espelhadas nas contribuições dos gregos,
para justificar as chamadas verdades reveladas da Igreja Cristã e da
Religião Islâmica, tais como a da existência de Deus, a imortalidade
da alma etc.
Agostinho (354 – 470 d.C.) o tempo não tem existência per se e só
pode ser apreendido por nossa alma por meio de uma atividade
chamada de "distensão da alma" (em latim: distentio animi). A
distensão da alma, grosso modo, nada mais é do que a compreensão
dos três tempos; pretérito, presente e futuro na alma, de modo que
seja possível lembrar do passado, viver o presente e prever o futuro.
Agostinho afirma que a alma é quem pode medir o tempo e essa
"medição" atesta a existência do tempo apenas em caráter
psicológico.
O homem é definido como uma alma que se serve de um
corpo. Agostinho mantém esse conceito com todas as conseqüências
lógicas que ele comporta. Assim o verdadeiro conhecimento não
seria a apreensão de objetos exteriores ao sujeito, devido a sua
variabilidade, e sim, a descoberta de regras imutáveis, como o
25
princípio ético segundo o qual é necessário fazer o bem e evitar o mal
(Nicola, 2005).
O homem, feito a semelhança de Deus, desdobra-se em
correspondência com a Trindade. As expressões dessa
correspondência encontram-se na alma humana: a própria alma (Pai),
a razão (Filho) e a fé ou vontade (Espírito Santo).
O pecado é segundo Agostinho, uma transgressão da lei divina, na
medida em que a alma foi criada por Deus para reger o corpo, e o
homem, fazendo mal uso do livre arbítrio, inverte essa relação,
subordinando a alma ao corpo e caindo na concupiscência e na
ignorância (Agostinho, 1979).
Partindo de um conceito aristotélico, Tomás de Aquino (1225-
1274 d.C.) definiu o ser humano como uma unidade formada por dois
elementos distintos: a matéria primeira (potencialidade) e a forma
substancial (o princípio realizador). Esses dois princípios se unem na
realidade do corpo e da alma no ser humano. Ninguém pode existir na
ausência desses dois elementos.
A alma vegetativa, que vem primeiro, quando o embrião vive como
uma planta, corrompe-se e é sucedida por uma alma mais perfeita,
que é ao mesmo tempo nutritiva e sensitiva, quando o embrião vive
uma vida animal; quando ela se corrompe, é sucedida pela alma
racional induzida do exterior. Já que a alma se une ao corpo como sua
forma, ela não se une a um corpo que não seja aquele do qual ela é
propriamente o ato. A alma é agora o ato de um corpo orgânico
(Aquino, 1979).
No homem existe uma alma espiritual - unida com o corpo, mas
transcendendo-o - porquanto além das atividades vegetativa e
sensitiva, que são materiais, se manifestam nele também atividades
espirituais, como o ato do intelecto e o ato da vontade.
A vontade não pode ser senão a faculdade de um princípio imaterial,
espiritual, ou seja, da alma racional, que pelo fato de ser ima3terial,
26
isto é, espiritual, não é composta de partes e, por conseguinte, é
imortal (Abbagnano, 2007; Reale e Antiseri, 1990a).
Para Marcílio Ficino (1443 – 1499 d. C.) a alma tem uma
existência intermediária. Ela é como um espelho da divindade. O seu
lugar é o terceiro no ordenamento universal. Acima estão Deus e o
mundo angélico. Abaixo a matéria e as qualidades físicas. Mesmo
aderindo ao corpo a alma é imortal. Pela sua natureza intermediária, a
alma pode conhecer tudo (Nicola, 2005).
Giordano Bruno (1548 – 1600 d. C.) pregava que a alma é
intrínseca aos entes naturais, como o timoneiro é ao navio. Ela é a
forma e a causa dos entes. O mundo é, no seu conjunto, um ser
dotado de alma, é verdadeiramente um grande animal.
Quem nega a alma do mundo diminui o Criador. O problema está no
modo como a alma se une à matéria. A alma se une à matéria como a
beleza se une aos corpos.
Posto que são dotados de uma forma, todos os objetos da natureza
possuem alma. Não é a matéria em si que é animada. Mas todo o
objeto dotado de uma forma. Cada ente possui uma estrutura interna,
um princípio individual que guia seu movimento.
Anaxágoras tinha razão de afirmar que tudo está em tudo. Tudo no
mundo ou é animal ou é inanimado. Isso é demonstrável pela
propriedade de certos fármacos influírem sobre o espírito.
Os magos acreditam com razão, que os ossos retêm alguma coisa do
indivíduo. Existe uma alma de cada coisa e do mundo no seu
conjunto.
A alma, como forma de todas as coisas, plasma a matéria. A matéria é
única; constitui os objetos, assumindo cada vez uma forma diferente.
A matéria também, como a alma, é uma substancia imutável em si.
Erram os Aristotélicos(os sofistas) ao distinguir o ser do indivíduo e
ao considerar o indivíduo um composto de matéria e forma. Isso leva
a temer a morte (Nicola, 2005: 171-173).
27
Para René Descartes (1596-1650 d. C.) o cientista não devia
simplesmente confiar nas habilidades intelectuais. Ele deve ter um
método que garanta a legitimidade dos resultados.
Para o filósofo, deve-se duvidar das afirmações que não sejam
intuitivamente evidentes. Para tornar a dúvida mais drástica, imagina
um gênio maligno que confunde suas percepções. O objetivo da
dúvida não é negar a existência de qualquer verdade, mas extirpar
proposições tão simples quanto inomináveis (Descartes, 2011).
A prática da dúvida vai contra a “normalidade” psíquica, pois os
hábitos mentais formados na vida cotidiana pressionam em sentido
contrário. Deve-se duvidar até dos princípios científicos (Nicola,
2005; Reale e Antiseri, 1990b).
Existe algo de que não se possa duvidar? Depois de ter duvidado de
tudo, só uma coisa permanece indiscutível: não se pode duvidar de
que está duvidando. Posto que a dúvida é um pensamento, não se
pode duvidar de sermos seres pensantes.
“Cogito, ergo sum”. “Penso, logo existo”. Para o filósofo essa
afirmação é absolutamente certa. O fato de pensar apenas afirma que
somos seres pensantes, mas não ainda como indivíduos dotados de
corpo. A dúvida demonstra a existência de uma Res congitans
(substância pensante) que não é o corpo. Antes de iniciar a prática da
dúvida, a sensação de existir como corpo parecia uma certeza.
A existência do corpo foi colocada em dúvida, assim como a
percepção. Somente o pensamento não pode deixar de existir
(Abbagnano, 2007; Chauí, 2012; Descartes, 2011).
Além da substância pensante (res cogitans), não extensa no espaço,
existe também a material (o mundo, os objetos, a matéria, o corpo
que hospeda a mente?) O senso comum afirma a existência da
realidade corpórea sem a necessidade de confirmação.
Porém, para Descarte, essa consideração não pode ser levada em
conta, pois essas percepções necessitam ser submetidas à prova da
dúvida.
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As percepções parecem ser causadas por alguma coisa exterior a nós
mesmos que não é mental. Deus parece nos fornecer essas percepções
e que o mundo extenso não exista. Mas não pode existir um deus
enganador, portanto a matéria extensa (res extensa) realmente existe
(Descartes, 1979).
Para Descartes a essência da alma é o pensamento e a esse da matéria
é a extensão.
A conexão entre a alma e o corpo se dá no cérebro por meio da
glândula pineal. Esta por sua vez, estabelece a comunicação entre a
substância material e espiritual.
A alma passa a ser entendida como consciência e substância pensante.
Tal divisão entre alma e corpo levou mais adiante a necessidade de
uma dirigida ao psíquico, a psicologia (Piccino, 1990).
A partir de então surgiu na filosofia, de forma bem demarcada, uma
corrente que privilegiava o corpo e outra que privilegiava a mente.
Explicitam-se os dualismos: idealismo versus materialismo;
racionalismo versus empirismo; subjetividade versus engrenagem;
pensamento versus máquina; consciência versus físico; espírito
versus matéria; cógito versus objetividade; interioridade versus
exterioridade (Chauí, 2012).
• Pascal (1623-1662 d.C.) acreditava que o cristianismo poderia permitir
uma compreensão verdadeira do homem. Propõe a autopsicologia: por
meio da religião católica o homem pode conhecer a si mesmo.
• Ele não acreditava em um princípio básico que seria a base de
sustentação de todo o conhecimento que se quisesse estabelecer. Não
acreditava em princípios universais que serviriam para explicar tudo a
partir dos quais qualquer tipo de conhecimento pudesse ser construído.
Defendia que cada conhecimento requer princípios específicos (Piccino,
1990).
• Pascal nos mostra que o homem tem vários bens, mas ele concentra a sua
felicidade “em não ficar quieto”, ele não acha prazer naquilo que possui,
sendo necessário buscar sempre mais. Em suma, é nisto que consiste o
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divertimento: em fugir de si mesmo, em lutar incessantemente para
enganar-se a si mesmo e fazer de conta que está tudo bem. O homem
corre de si mesmo, mas no final das contas vê que a sua corrida foi vã;
“as misérias da vida humana criaram tudo isso: como eles viram isso,
escolheram o divertimento”. Sem ele, haveria o tédio, e este nos levaria a
buscar um meio mais sólido para sair dele.
• O divertimento, o divertissement, é fuga diante da visão lúcida e
consciente da miséria humana, é aturdimento que nos faz divagar e
chegar inadvertidamente à morte. O divertimento é fuga de nós mesmos,
de nossa miséria, mas é ele próprio a maior de nossas misérias, porque
nos proíbe pensar a nós mesmos; “sem ele, desembocaríamos na náusea,
e esta nos impeliria a procurar um meio mais seguro para dela sair; ao
contrário, o divertimento nos faz chegar à morte sem que disso nos
apercebamos, conforme já dito (Reale, 1990 b)
• Para Espinosa (1632 – 1677 d.C.), só uma substância pode existir
(Monismo). Tal substância deve ser Deus. A matéria e o espírito não
devem ser considerados substâncias, mas sim atributos (manifestações)
da única substância. Sendo única, tal substância, não admite nada fora de
si mesma e, portanto, deve compreender o mundo inteiro. Espinosa
defende que Deus não é separado do universo, mas sim coincide com ele.
Seu raciocínio é panteísta e imanentista (Espinosa, 1979).
• No homem não há senão uma entidade, vista interiormente como mente,
e exteriormente como matéria (corpo). O que existe na realidade é uma
mistura inseparável. A mente e o corpo não agem um sobre o outro,
porque não há outro. O processo “mental” e interior corresponde em cada
estágio ao processo “material” e externo. A ordem e conexão das idéias é
a mesma que a ordem e conexão das coisas.
• O corpo não pode determinar que a mente pense; nem pode a mente
determinar que o corpo fique em movimento ou em repouso, ou em
qualquer outro estado. A decisão da mente e o desejo e determinação do
corpo são uma só coisa. Pois não existem dois processos nem duas
entidades. Não há senão um processo visto interiormente como
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pensamento e exteriormente como movimento (Abbagnano, 2007; Chauí,
2012; Nicola, 2005).
• Para Leibniz (1646-1716 d. C.) deve-se negar o atomismo e afirmar a
mônada como elemento constitutivo do real. Ou seja, uma substância
simples, não divisível, de natureza espiritual, um centro de atividade, um
ponto de vida, uma átomo metafísico e imaterial. Não é matéria, mas sim
energia. Força viva no estado puro. Torna vivas e operantes as leis físicas
da natureza. A descoberta do microscópio no século XVII revelou a
existência de mundos vivos em cada partícula de matéria.
• A mônada possui uma vida interna e é capaz de conectar-se com as outras
mônadas. Não existe nada no universo que não possa ser entendido pela
mente humana. Cada mônada é um microcosmo, ou seja, um espelho de
todo o universo. Ela sintetiza toda história do universo, pois contém
todas as suas leis. Como um átomo espiritual, possui todas as
características da espiritualidade: percebe, conhece, apetece, deseja
(Nicola, 2005).
• Observando bem, não existe nada na natureza que seja causal, acessório,
inútil ou confuso. Cada vivente possui uma mônada dominante: a alma.
“Enteléquia” é o estado perfeito de um ente que alcançou seu fim.
Espírito e corpo são comparáveis a dois relógios sincronizados. Por
meio de uma relação de perfeita sincronia e causa-efeito, o ato só
acontece somente depois do pensamento (Leibniz II, 1979).
• Se os racionalistas priorizavam o modelo matemático, a filosofia
antagônica – o empirismo – enfatizava os métodos indutivos das ciências
experimentais.
• Locke (1632-1704 d. C.) defendia que a hipótese dos princípios inatosé
antes de tudo inútil. Para os cartesianos, inatas devem ser aquelas idéias
consideradas universalmente como verdadeiras. Para Locke não existe
nenhuma verdade universal. A investigação experimental demonstra a
inexistência de uma moral inata. Ao nascer a mente está vazia,
desprovida de qualquer conteúdo. Todo conhecimento nasce da
31
experiência do mundo externo e da reflexão interior. Ele se reduz a
percepção. Os conceitos gerais formam por abstração, a partir da
percepção. Nenhum conceito geral é inato. O que foi adquirido há muito
tempo pelo hábito tende a ser confundido como inato (Locke, 1979).
• Berkeley (1685-1753 d. C.) sustentava que a existência da matéria não
é sustentável nem no plano lógico, nem no plano experimental. Leva às
ultimas conseqüências o princípio defendido pelo empirismo de que o ser
das coisas consiste em serem percebidas. O filósofo demonstra a
impossibilidade da existência de uma realidade material autônoma da
mente que percebe.
• O fato de que as pessoas percebem mais ou menos as mesmas coisas não
demonstraria a existência de uma referência material das percepções,
mas somente a glória de Deus, que sincroniza as mentes dos homens a
receber as mesmas percepções. Deus é mente infinita, tudo continua a
existir, mesmo quando não são percebidas (Nicola, 2005).
• Hume (1711-1776 d. C.) pergunta: o que é substância? Um feixe de
percepções. Hume exemplifica dizendo que todo o objeto que é preto,
mia, move-se, é peludo e tem bigodes, decide chamar de gato. Isso
facilita a comunicação, pois decidiu-se convencionalmente que todo
mundo que fale de gatos, entende-se a mesma qualidade de coisas
sensíveis. Isso não deve levar a crer, como postulavam os primeiros
metafísicos (Aristóteles), uma felinidade. Ou seja, uma substância (do
latim sub-stare, ficar embaixo) inerente a todos os gatos, sempre e
exclusivamente. Não presente em tudo o que não é gato.
• O termo hábito indica uma tendência, típica da psiquê humana, a reagir
de forma constante e sem uma adequada reflexão racional diante de
eventos repetitivos. O nexo habitudiário é obviamente muito fraco,
porque descreve uma instintiva disposição do sujeito de julgar algo, sem
reais motivos lógicos ou necessários. Apesar disso, segundo Hume, o
hábito é um dos processos intelectivos é o fundamento psicológico de
algumas falsas crenças – por exemplo, a existência de relações de causa-
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efeito. Se nunca tivéssemos visto um choque entre duas bolas de bilhar
seriamos incapazes de prever seu movimento (Nicola, 2005).
• Ettienne Bonnot ou Abade de Condillac (1715-1780 d.C.)
afirmava que o conhecimento limita-se ao sentir e às operações de
transformação realizadas pela mente sobre os conteúdos da percepção.
As capacidades psicológicas que denominamos inteligência, memória,
atenção, juízo, não requerem a presença de um princípio particular ou
especial. No exercício de um único sentido já estão compreendidas todas
as faculdades da alma. A percepção nunca é um processo passivo e
estático, mas possui um dinamismo interno, uma forma de inteligência
inconsciente (Nicola, 2005).
• Kant (1724-1804 d. C.) afirma que o ato cognitivo não é a adequação da
mente ao objeto conhecido. Ao contrário, são os esquemas mentais já
presentes na mente que determinam o que podemos conhecer do objeto.
Esses esquemas funcionam como um filtro selecionando as modalidades
da realidade que podem ser acolhidas pela mente; são como uma espécie
de óculos que se interpõem entre a mente e o mundo. Daí resulta um
programa de investigação inovador: no centro da filosofia do
conhecimento devem ser postas essas formas a priori da mente,
universais e necessárias (Kant, 2009).
• Aristóteles estabeleceu um sistema de categorias para definir o modo de
ser dos entes. Essas são substância, qualidade, quantidade, relação,
tempo, lugar, relação com o ambiente, ação em ato e ação sofrida. Kant
concebeu que a mente já carrega algumas categorias a priori que
permitem que o conhecimento aconteça: a) quantidade: unidade,
pluralidade, totalidade; b) modalidade: possibilidade-impossibilidade,
existência-não-existencia e contingência-necessidade; c) inerência-
subsitência, causalidade-dependência e comunidade; d) realidade,
negação e limitação (Piccino, 1990).
• Sensação é um efeito do objeto sobre os sentidos. Fenômeno é o produto
de uma intuição sensorial. Em todo o fenômeno existe uma matéria, dada
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pelo objeto, e uma forma, presente no sujeito. As formas pelas quais o
sujeito organiza a matéria fenomênica são a priori, precedem qualquer
experiência sensorial. Exemplo: esse corpo tem peso (juízo sintético a
priori, antes da experiência). Esse corpo é muito pesado (juízo sintético a
posteriori, após experiência) (Nicola, 2005).
• Fichte (1762-1814 d. C.) denomina o Eu o pronome com que todo o
indivíduo designa a si mesmo, tornou-se objeto de reflexão filosófica a
partir de Descartes, que adotou o fenômeno da consciência de si como
definição do homem. Por esse termo, Fichte entende uma atividade
absoluta, livre, incondicionada, de alguma maneira divina, com base na
qual todo indivíduo cria a si mesmo. Para não-Eu Fichte entende, por
exclusão, tudo aquilo que o Eu distingue de si mesmo: os objetos, o
mundo no seu conjunto, os outros seres humanos. Também o corpo do
sujeito, sede do Eu, deve ser entendido como autoconsciência, faz parte
do não-Eu. Ser um indivíduo significa recriar-se a todo o momento,
estabelecendo, por oposição antitética ao mundo inteiro, aquilo que se é
(Nicola, 2005; Reale e Antiseri, 1990c).
• Schopenhauer (1788-1860 d. C.) defendia que tudo o que sabemos do
mundo é puro fenômeno, ou seja, aparência, ilusão, fantasia. Essa é a
verdade que se deve extrair da doutrina de Kant, acreditava
Schopenhauer. Qualquer objeto do conhecimento é sempre condicionado
e determinado pelos esquemas radicados na mente do sujeito: o espaço, o
tempo, a relação de causa-efeito. Isso significa que todo o conhecimento
é sempre e essencialmente uma construção mental. Uma representação
somente em relação ao indivíduo que conhece.
• É uma intuição, uma representação mental; termo que Schopenhauer
utiliza em sentido negativo, como oposto de objetivação: toda
representação é sempre subjetiva e ilusória, alude ao mundo, mas ao
mesmo tempo esconde o verdadeiro e incognoscível aspecto das coisas.
Uma prova disso está no sonho, pois não é possível estabelecer com
exatidão uma distinção entre ilusões oníricas e as percepções cotidianas.
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A conclusão é marcada pelo máximo ceticismo gnosiológico (referente à
possibilidade de conhecimento): todas as nossas convicções são
subjetivas, não existe objetividade, nem mesmo no campo científico. O
mundo inteiro no seu conjunto, mesmo que nos pareça estável, real e
independente de nós, é somente uma totalidade de representações
mentais e pessoais.
• Schopenhauer ainda apontou o mecanismo de sublimação (transformação
da energia sexual em atividades superiores, especialmente as artes) que
será utilizado por Sigmund Freud (1856-1939). Para Schopenhauer o
único objeto no universo inteiro que pode ser conhecido, em toda a sua
objetivação e realidade efetiva pelo homem, é seu próprio corpo. De fato,
não temos dele um conhecimento fenomênico, não o percebemos por
meio dos sentidos como um objeto de fora, mas vivemo-lo de dentro.
Ser, sentir-se um corpo vivente, é para o homem o único conhecimento
númeno possível (ou seja, verdadeiro, essencial, objetivo, não
fenomênico) (Schopenhauer, 1979 e 2007).
• Sob uma perspectiva teológica, Kierkegaard (1813-1855 d. C.)
encontra sua posição f ilosófica ao insurgir -se contra
posições aristotélicas remanescentes na filosofia, o que faz
opondo-se à fi losofia de Hegel (1770-1831 d.C.).
Kierkegaard não só rejeitou o determinismo lógicode Hegel
(tudo está logicamente predeterminado para acontecer) c omo
sustentou a importância suprema do indivíduo e das suas
escolhas lógicas ou i lógicas.
• Kierkegaard contribuiu com a idéia original do pensamento
existencial de que não existe qualquer predeterminação com
respeito ao homem, e que esta indeterminação e li berdade
levam o homem a uma permanente angústia.
• Segundo Kierkegaard, o homem tem diante de si várias
opções possíveis, é inteiramente livre, não se conforma a um
pré-determinismo lógico, ao qual, segundo Hegel, estão
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submetidos todos os fatos e também as ações humanas. A
verdade não é encontrada através do raciocínio lógico, mas
segundo a paixão que é colocada na afirmação e sustentação
dos fatos: a verdade é subje tividade. A conseqüência de ser
a verdade subjetiva é que a liberdade torna -se ilimitada.
Conseqüentemente não se pode, também, fazer qualquer
afirmativa sobre o homem.
• O pensamento fundamental de Kierkegaard, e que veio a se
consti tuir em linha mestra do pensamento existencial , é este:
inexiste um projeto básico, para o homem verdadeiro, uma
essência definidora do homem porque cada um se define a si
mesmo e assim é uma verdade para si. Daí o moto conhecido
que sintet iza o pensamento existencial : "no homem, a
existência precede a essência"
• No caminho da vida há várias direções, vários tipos de vid a
a escolher, dentro de três escolhas fundamentais: o modo de
vida estético, do indivíduo que não busca senão gozar a vida
em cada momento; o modo ético, do indiví duo que é
maquinalmente correto com a família e devotado ao
trabalho, e o modo religioso dent ro de uma consciência de
fé.
• A liberdade, segundo ele, gera no homem a angústia que
pode levá-lo, de várias formas, ao desespero então, cada
decisão é um risco, o que deixa a pessoa mergulhada na
incerteza, pressionada por uma decisão que se torna
angustiante. Como no modo de vida estético, ele escolhe
fugir dessa angústia e do desespero através do prazer e de
buscar a inconsciência de quem ele é. Outra forma de fug a é
ignorar o próprio eu, tornar -se um autômato, apegar -se a um
papel, como no modo de vida é tico (Giles, 1989; Kierkegaard,
1979 e 2010).
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• Nietzsche (1844-1900 d. C.) defendeu que a grandeza do homem grego
– e com ela a grandeza da humanidade – teve fim quando a filosofia
substituiu a tragédia. Enquanto essa última representava a vida na sua
crua realidade, sem mascarar evidência de um homem dominado por
forças incontroláveis a ele superiores. A partir de Sócrates prevaleceu
uma atitude de fuga em relação à vida, uma patologia do espírito, cujos
sintomas são o medo e a insegurança psicológica, unidos ao absurdo
desejo de encontrar uma explicação racional para qualquer evento, de
modo a esterilizar a vitalidade do mundo e dos instintos por meio do uso
constante e absoluto da razão (Giles, 1989; Reale e Antiseri, 1990c).
• Invertendo a ordem tradicional de valores, Nietzsche identifica na morte
de Sócrates, no seu desejo de morrer, o primeiro e mais evidente sintoma
dessa milenar doença (a filosofia), que deprime o homem ocidental. A
expectativa da perfeição num outro mundo levou os homens a
desvalorizarem e a suportarem as imperfeições desse mundo. Em vez de
lutarem para se tornarem perfeitos aqui, colocam a confiança num futuro
distante, numa vida além. O anúncio da morte de Deus, o núcleo da
reflexão de Nietzsche, indica o progressivo desaparecimento na cultura
do homem moderno de todas as filosofias, religiões ou ideologias que no
passado exerciam a tarefa de iludí-lo e consolá-lo (Nicola, 2005;
Nietzsche, 1979).
• A necessidade de Deus já desapareceu da consciência do homem
moderno. Deus está morto, pois os homens o mataram. As explicações
cientificas e iluministas tomaram seu lugar. Aquele que é capaz de
suportar psicologicamente esse evento, não necessita mais de ilusões
tranqüilizadoras porque com o espírito dionisíaco aceita a vida com seu
caos intrínseco e ausência de sentido. Para Nietzsche Dionísio representa
vida, força vital, saúde, instinto, escuridão e embriaguez. Já Apolo
representa morte, racionalidade, doença, intelecto, luz, imobilidade e
sonho (LeFranc, 2005).
• Segundo Nietzsche, o niilismo passivo, ou niilismo incompleto é a
negação do desperdício da força vital na esperança vã de uma
recompensa ou de um sentido para a vida; opondo-se frontalmente a
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autores socráticos e, obviamente, à moral cristã, nega que a vida deva ser
regida por qualquer tipo de padrão moral tendo em vista um mundo
superior, pois isso faz com que o homem minta a si próprio, falsifique-se,
enquanto vive a vida fixado numa mentira. Assim no niilismo não se
promove a criação de qualquer tipo de valores, já que ela é considerada
uma atitude negativa.
• Niilismo ativo ou niilismo-completo propõe uma atitude mais ativa:
renegando os valores metafísicos, redireciona a sua força vital para a
destruição da moral. No entanto, após essa destruição, tudo cai no vazio:
a vida é desprovida de qualquer sentido, reina o absurdo e o niilista não
pode ver outra alternativa senão esperar pela morte (ou provocá-la). No
entanto, esse final não é, para Nietzsche, o fim último do niilismo: no
momento em que o homem nega os valores de Deus, deve aprender a
ver-se como criador de valores e no momento em que entende que não há
nada de eterno após a vida, deve aprender a ver a vida como um eterno
retorno, sem o qual o niilismo seria sempre um ciclo incompleto
(Nietzsche, 2009).
• As doutrinas éticas do passado sempre viram nos valores morais um
sistema absoluto e universal independentemente do período histórico e
da localização geográfica. A hipótese genealógica de Nietzsche sugere,
ao contrário, a possibilidade de desenvolver uma história de valores
morais identificando o seu nascimento em condições histórico-sociais
específicas. O efeito é obviamente uma relativização dos próprios
valores, capaz de revelar o conteúdo humano (demasiado humano, no
dizer de Nietzsche) que está na sua base. Ou seja, o homem criou os
valores que o regem, os naturalizou, esqueceu disso e acredita que eles
sempre existiram como algo fixo, sólido e imutável (Nietzsche, 2009).
• Para Nietzsche, matar Deus significa liberta-se das cadeias do mundo
sobrenatural, ser capaz de viver falsas esperanças (a imortalidade da
alma, o Paraíso), aceitando com alegria a vida na sua totalidade,
incluindo a morte. Isso significa ficar preso a terra, o Super-Homem
(novo homem) é aquele que, longe de querer entender o significado do
mundo, consegue impor ao mundo os seus significados. Como
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Protágoras, Nietzsche também afirma que o homem é a medida de todas
as coisas, porque dele, da sua vontade de potência, cada coisa adquire um
sentido. Daí surgem as características do Super-Homem que está além da
racionalidade, despreza todo valor ético, vive num mundo dionisíaco,
reconhece o engano inerente a todas as filosofias, percebe o tempo como
eterno retorno (Nietzsche, 1999).
• A teoria do eterno retorno de Nietzsche era fazer com que os homens
pensassem que ao morrerem, retornariam ao exato momento de seu
nascimento e tudo o que passou seria exatamente repetido infinitas vezes.
Nietzsche acreditava que se pensássemos na vida tendo como referência
esse "eterno retorno", seríamos muito mais responsáveis nas escolhas de
nossos atos, porque saberíamos que cada ato, cada palavra, cada ação,
assim como a ausência delas, seria repetida pela eternidade. Seu intuito
era que o homem enxergasse assim a vida para que a vivesse da forma
mais plena possível. Assim, Nietzsche coloca a seguinte pergunta: essa
vida, assim como você a vive hoje, seria digna de ser repetida por toda
eternidade? (Nietzsche, 1979).
• Segundo Husserl (1859-1938 d. C.), é preciso lutar contra