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EPIDEMIOLOGIA E PROCESSO SAÚDE-DOENÇA AULA 5 Profª Ivana Maria Saes Busato 2 CONVERSA INICIAL As aplicações da epidemiologia são norteadas por níveis de determinação da doença, agravo ou evento, da molecular até a etnoepidemiologia, com destaque para epidemiologia clínica. Nesta etapa, será estudada a aplicabilidade da epidemiologia na farmacoepidemiologia visando compreender os efeitos benéficos e adversos dos medicamentos em grandes populações utilizando-se do método epidemiológico, o processo de produção de fármacos e vacinas, e o papel do farmacêutico. Vamos estudar a epidemiologia aplicada à atenção básica para análise de situação de saúde de territórios, como porta de entrada para o Sistema Único de Saúde. A aplicação da epidemiologia em serviços hospitalares é apresentada na epidemiologia hospitalar. Finalizaremos estudando a causalidade em saúde para entender como podemos passar de uma associação observada para um veredito mais assertivo em relação às causas. TEMA 1 – EPIDEMIOLOGIA APLICADA POR NÍVEIS DE DETERMINAÇÃO A epidemiologia aplicada é estudada por meio de diferentes planos, interligado com a multicausalidade da ocorrência de doença/agravo/evento, considerando que a saúde é um conjunto complexo de eventos que se organizam em diferentes níveis, do molecular ao social (Busato, 2016). A epidemiologia ambiental e epidemiologia social, que estudamos em conteúdos anteriores, tem uma interface com a saúde única; assim, vamos desbravar a epidemiologia molecular e genética inicialmente. 1.1 Epidemiologia molecular, genética A epidemiologia molecular tem sua aplicabilidade na identificação de moléculas com capacidade de acumular informação sobre eventos de saúde que ocorrem no organismo, genericamente chamados de biomarcadores (Busato, 2016). Conforme explicado em Busato (2016, p. 105), o monitoramento de biomarcadores permite uma compreensão detalhada dos eventos biológicos envolvidos na etiopatogênese das doenças e reforça a importância na identificação precoce de eventos 3 associados à história natural da doença e na determinação mais precisa de indivíduos ou grupos de risco. [...] A caracterização de linhagens por tipagem molecular, como instrumento adicional para as investigações epidemiológicas, é um meio para se entender melhor os mecanismos que influenciam a dinâmica de transmissão e a identificação dos fatores de risco em uma comunidade. Essas técnicas estão a serviço da epidemiologia para ajudar a responder como a doença se distribui em relação à pessoa, ao espaço e ao tempo, quais são os determinantes de risco para ocorrência de doenças e quais fatores determinam manifestações clínicas e evoluções diferentes para uma mesma doença. Nesse plano são utilizados desenhos de estudo em geral observacionais, descritivos e analíticos, e, em alguns casos específicos, os estudos de intervenção. Wünsch Filho e Gattás (2001), em estudo do conhecimento da biologia molecular aplicado nos estudos epidemiológicos, em especial no estudo de biomarcadores na história natural do câncer, apontam que será necessária a aproximação de epidemiologistas e biólogos moleculares, procurando compatibilizar linguagens e métodos de pesquisa que são distintos. Cabe destacar a importância da biomedicina no processo da biologia molécula no estudo das interações bioquímicas celulares entre os vários sistemas da célula, desde a relação entre o DNA, o RNA e a síntese de proteínas, e o modo como essas interações são reguladas. As técnicas de epidemiologia molecular devem sofrer adaptações nos desenhos epidemiológicos para ajustá-los à logística de coleta de material biológico, com uma transição dos experimentos laboratoriais e a epidemiologia de base populacional, caracterizar a variabilidade intra e interindividual dos biomarcadores, avaliar a viabilidade do uso de determinado marcador nas condições de pesquisa de campo e otimizar o uso de biomarcadores (Wünsch Filho, Gattás; 2001). A epidemiologia genética é o “estudo da etiologia, distribuição e controle de uma doença em grupos de familiares e dos determinantes genéticos de uma doença nas populações” (Busato, 2016, p. 105). Busato (2016, p. 106) explica que as principais “finalidades da epidemiologia genética estão na identificação de fatores genéticos de risco envolvidos na patologia em estudo e a quantificação do seu impacto na ocorrência da população em geral”. Epidemiologia genética é entendida como a ciência que trata com a etiologia, distribuição e controle de doenças em grupos de familiares 4 ou com as causas genéticas das doenças nas populações, admitindo o conceito de genético em sentido amplo, o que inclui tanto as heranças biológicas quanto culturais (Gonçalves; Gonçalves; 1990) Os avanços tecnológicos permitiram examinar o genoma humano em detalhes de forma econômica e de grande escala. A análise genética moderna necessita integração com o conhecimento sobre outros aspectos relacionados com os riscos individuais e populacionais. Nesse sentido, o mapeamento do genoma humano e os avanços das tecnologias moleculares tornam ainda mais importantes as aplicações da epidemiologia genética. 1.2 Epidemiologia clínica e etnoepidemiologia A epidemiologia clínica compõe os elementos essenciais da epidemiologia. Segundo em Fletcher (2021, p. 3), a epidemiologia clínica “é a ciência que faz predições sobre pacientes individuais, objetiva desenvolver e aplicar métodos de observação clínica que conduzam a conclusões válidas, evitando uma interpretação equivocada por erros sistemáticos ou pelo acaso”. Na década de 60 percebeu-se a necessidade do desenvolvimento de técnicas avaliativas das inovações tecnológicas que ocorrem no diagnóstico, prevenção e tratamento. Diante dessa necessidade, a pesquisa clínica juntou-se aos demais elementos epidemiológicos e metodológico da epidemiologia na busca das evidências clínicas baseadas em evidências científicas. As evidências clínicas geradas pelas pesquisas clínico-epidemiológicas e o aumento das opções de diagnóstico, tratamento e prevenção geradas por essas pesquisas têm gerado necessidade do clínico em escolher as melhores evidências para prática clínica, surgindo na medicina o elo entre a boa pesquisa científica e a prática clínica, com a Medicina Baseada em Evidência – MBE, tradução do inglês Evidence-Based Medicine. A epidemiologia clínica é uma abordagem importante para obter o tipo de informação de que os clínicos necessitam para tomar boas decisões no cuidado com o paciente (Fletcher, 2021). Todos os profissionais de saúde realizam a epidemiologia clínica no cuidado das pessoas, nutricionistas, enfermeiros, biomédicos, farmacêuticos, médicos, cirurgião-dentista, fisioterapeutas, gerontólogos, entre outros, por isso vale ressaltar a importância de se manter atualizado sobre mas melhores práticas clínicas de sua área. 5 Saiba mais O Centro Cochrane do Brasil utiliza os níveis e graus de cientificidade para indicar as pesquisas com maior evidência científica na tomada de decisão no cuidados de saúde do paciente. Consulte a homepage do Centro Cochrane do Brasil acessando o link a seguir: CENTRO COCHRANE DO BRASIL. Disponível em: . Acesso em: 31 jan. 2023. O Ministério da Saúde mantém o Portal Saúde Baseado em Evidência, em parceria com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, para o desenvolvimento de uma biblioteca eletrônica com o objetivo de aprimorar o exercício dos trabalhadores da saúde por meio do acesso a conteúdos cientificamente fundamentados, na perspectiva de melhor atender à população. Os sete níveis de evidência científica, segundo Galvão (2007, p. 1), apontam a qualidade da evidência, iniciando a partir da melhor qualidadeque traz a melhor evidência: • Nível 1 – as evidências são provenientes de revisão sistemática ou metanálise de todos relevantes ensaios clínicos randomizados controlados ou oriundos de diretrizes clínicas baseadas em revisões sistemáticas de ensaios clínicos randomizados controlados. • Nível 2 – as evidências derivadas de pelo menos um ensaio clínico randomizado controlado bem delineado; • Nível 3 – evidências obtidas de ensaios clínicos bem delineados sem randomização; • Nível 4 – evidências provenientes de estudos de coorte e de caso-controle bem delineados; • Nível 5 – evidências originárias de revisão sistemática de estudos descritivos e qualitativos; • Nível 6 – evidências derivadas de um único estudo descritivo ou qualitativo. • Nível 7 – evidências oriundas de opinião de autoridades e/ou relatório de comitês de especialistas. A etnoepidemiologia aplica os métodos epidemiológicos à pesquisa transcultural em saúde, buscando explicações baseadas na abordagem de risco nos elementos necessários ao entendimento das formas de adoecer ou de se sentir doente, podendo resultar em uma maior contribuição para o conhecimento 6 acerca das possibilidades de promoção da saúde (Fernandes, 2003). Almeida- Filho (2020) aponta que a etnoepidemiologia faz parte do movimento de saúde coletiva na América Latina para integrar a perspectiva epidemiológica com a das ciências sociais, sociologia e antropologia médica em particular, o que suscita a necessidade de situar os problemas de saúde em seu contexto sócio-histórico, cultural, político e econômico. A autora Fernandes (2003) ainda explica que a etnoepidemiologia pode oferecer sustentação teórico-metodológica, reservada às especificidades de cada objeto estudado, para a construção de novas abordagens para o estudo da relação saúde-doença, no estudo das diversidades étnicas e culturais como fatores de risco, de proteção ou fatores prognósticos para moléstias e outros problemas de saúde; nos estudos de modelos comunitários de distribuição e ocorrência de doença em populações, ou seja, estudos interessados na ocorrência e prevenção de moléstia em grupos, populações e culturas; e no estudo da prática científica epidemiológica com a aplicação de métodos antropológicos. TEMA 2 – FARMACOEPIDEMIOLOGIA A farmacoepidemiologia é a ciência que estuda o uso e o efeito dos medicamentos em grande número de pessoas com base no método epidemiológico, utilizando-se dos conhecimentos da farmacocinétrica e farmacodinâmica para prever o efeito medicamentoso no paciente. Castro (2009) aponta que essa ciência provém do conhecimento bastante antigo dos efeitos adversos dos medicamentos. Podemos complementar que a “utilização dos efeitos dos medicamentos nas populações partiu da necessidade de avaliar os efeitos inesperados dos medicamentos, introduzidos pela farmacoterapia” (Hartzema; Martini, 2019, p. 1) A farmacoepidemiologia detecta riscos associados ao uso generalizado de medicamentos e sua efetividade e emprega conceitos da farmacologia clínica e da epidemiologia, destacando os estudos da segurança dos fármacos na etapa de pós-comercialização e estudos de utilização de medicamentos (OMS, 2005). Hartzema e Martini (2019, p. 1) destacam que a farmacoepidemiologia contribui de forma significativa para o conhecimento base do farmacêutico. E apontam a importância da participação dos farmacêuticos na notificação de 7 efeitos adversos e nos estudos de utilização de medicamentos para a qualidade de vida. No Brasil, a Lei n. 5.991, de 17 de dezembro de 1973 diz que o medicamento é “produto farmacêutico, tecnicamente obtido ou elaborado, com finalidade profilática, curativa, paliativa ou para fins de diagnóstico” (Brasil, 1973). Em Brasil (2015, p. 69) indica-se que os estudos de utilização dos medicamentos visam à melhoria da qualidade de uso dos medicamentos mediante o progresso do nível de conhecimento sobre eles, a partir da identificação de problemas relacionados à sua utilização, além de fatores que condicionam a sua má utilização. Castro (2009, p. 147) aponta que o medicamento, após a comercialização, amplia a sua faixa de usuários e passa a ser usado por populações potencialmente diferentes daquelas em que foi testado, como crianças, idosos, pacientes portadores de comorbidades, além de pacientes em diferentes estágios da doença e uso do medicamento para tratar outras doenças. A farmacoepidemiologia “utiliza os dados demográficos e de morbimortalidade, e tem potencialidade de estudar esses novos usos do medicamento, permitindo conhecer sua eficácia e segurança” (Brasil, 2015a). A OMS (2005, p. 15) descreve o processo de avaliação de medicamento: incluindo três passos complementares. Primeiro, a avaliação dos benefícios dos medicamentos, por exemplo, a avaliação quantitativa e qualitativa de sua eficácia. Eficácia (ou atividade intrínseca) é a capacidade de o fármaco fazer efeito. Está relacionada ao efeito esperado do fármaco na terapêutica. Em segundo lugar, inclui o estudo do risco dos medicamentos, tanto em estudos controlados quanto em condições normais de cuidado. E, terceiro, é preciso levar em conta a avaliação do impacto dos tratamentos na história natural das doenças na sociedade. Dada a complexidade da vigilância do comportamento do fármaco no mercado, foram desenvolvidos os sistemas de farmacovigilância, os quais incluem um conjunto de práticas e atividades de detecção de efeitos indesejáveis. A OMS (2005) aponta que a “farmacovigilância é um dos componentes da farmacoepidemiologia, tem a responsabilidade de detecção, avaliação, compreensão e prevenção dos efeitos adversos ou qualquer outro problema 8 relacionado com medicamento”. Todas as pessoas que utilizam medicamentos estão sujeitas a sofrer alguma reação adversa. Conforme a OMS, reação adversa pode ser definida como qualquer reação ou resposta que seja prejudicial e não intencional após a administração de um medicamento. Tal resposta se manifesta após a administração em doses usuais para profilaxia, diagnóstico ou tratamento. Atualmente, encontramos os termos efeito adverso e reação adversa, que são utilizados como sinônimos, ainda que para os especialistas eles possam ser vistos de formas diferentes: • Reação adversa: está associado ao paciente, ou seja, é a manifestação de uma reação no paciente; • Efeito adverso: está associado ao medicamento, ou seja, é o que o medicamento causa. Quando falamos em efeito adverso, podemos atribuir como causa a dose, o intervalo de administração ou a via de administração, pois se trata de qualquer efeito desfavorável associado ao uso do medicamento. Assim, podemos dizer que um medicamento, quando administrado em dosagem superior à recomendada, irá causar um efeito adverso indesejado e não uma reação adversa. 2.1 Desenvolvimento de medicamentos e imunobiológicos A Lei n. 6.360/1976 regula as ações relativas à cadeia do medicamento, "desde a fabricação até a propaganda, determina a transmissão à autoridade sanitária competente dos acidentes ou reações nocivas, define produto alterado, adulterado ou impróprio para consumo e tipifica as infrações" (Brasil, 1976). O medicamento é desenvolvido com base em pesquisas pré-clínicas e clínicas. Além disso, são realizados estudos pós-comercialização, por exemplo: • Estudos pré-clínicos (estudos realizados em animais) – sua finalidade básica é estabelecer parâmetros e características farmacológicas, toxicológicas (efeitos por doses elevadas e efeitos sobre diferentes órgãos) e farmacocinéticos. • Estudos clínicos (estudos realizados em humanos) – subdividem-se em quatro fases basicamente pelo tipo e quantidade de pacientes que participam e o objetivo: 9 • Fase I (estudos clínicos de farmacocinética e segurança); • Fase II (estudos clínicos deeficácia); • Fase III (estudos clínicos multicêntricos); e • Fase IV (pós-comercialização com estudos clínicos. Vacinas são preparações biológicas que fornecem imunidade adquirida ativa para uma doença específica. O seu processo de desenvolvimento é demorado, caro e associado a riscos elevados (Souto, 2020). O processo de produção vacinal segue as fases de um estudo clínico, com etapas pré-clínicas, realizadas em laboratórios, em geral, em modelos animais, objetivando avaliação de dose e toxicidade nesta população. Os ensaios clínicos, em humanos, são divididos em três etapas. Os estudos de fase 1 visam avaliar a segurança do produto, enquanto os de fase 2 avaliam segurança, dose e frequência de administração, bem como sua imunogenicidade. Os de fase 3 têm como desfecho principal a avaliação de eficácia do produto, por meio de ensaios clínicos controlados, randomizados, envolvendo milhares de voluntários. Após a publicação científica desses dados, a vacina candidata é submetida à avaliação pelas agências reguladoras para posterior produção e distribuição. Por fim, os estudos de fase 4, ou de pós-licenciamento, estimam os efeitos e eventos adversos após a utilização da vacina em larga escala na população alvo. Cada etapa desse processo dura em média vários meses a anos, Lima, Almeida e Kfouri (2021) afirmam que a redução de todo o processo a um período de 12 a 18 meses foi inédito na história da epidemiologia. Como a vacina contra Sars-Cov-2 foi produzida de forma célere? O primeiro ponto foi a disponibilização rápida do sequenciamento genético do vírus para comunidade científica, o grande investimento financeiro de recursos tanto público como privado, a evolução das técnicas de ensaios clínicos, as diferentes tecnologias de produção de vacinas foram desenvolvidas concomitantemente. Lima, Almeida e Kfouri (2021) destacam que cerca de 175 equipes de pesquisa em todo o mundo estudaram as diversas plataformas de vacinas, além dos programas de desenvolvimento de vacinas que são continuadamente atualizados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), com projetos oriundos de fontes públicas e privada. 10 TEMA 3 – EPIDEMIOLOGIA NA ATENÇÃO BÁSICA DE SAÚDE A epidemiologia aplicada na análise da situação de saúde indica as principais prioridades de saúde determinadas da população no território, formando um painel de indicadores capazes de refletir os determinantes e condicionantes do processo saúde-doença para atuação da atenção básica, necessários para planejamento local. A Política Nacional de Atenção Básica conceitua Atenção Básica (Portaria n. 2.436, de 21 de setembro de 2017) como: conjunto de ações de saúde individuais, familiares e coletivas que envolvem promoção, prevenção, proteção, diagnóstico, tratamento, reabilitação, redução de danos, cuidados paliativos e vigilância em saúde, desenvolvida por meio de práticas de cuidado integrado e gestão qualificada, realizada com equipe multiprofissional e dirigida à população em território definido, sobre as quais as equipes assumem responsabilidade sanitária. (Brasil, 2017, art 2º) Para a atenção básica realizar a análise da situação de saúde do território de sua responsabilidade, especialmente da estratégia de saúde da família, a epidemiologia é utilizada para descrição da doença na comunidade, na identificação de grupos vulneráveis e na avaliação de serviços e programas de saúde, além de analisar as desigualdades em saúde, aprofundar a territorialização, buscando conhecer o meio ambiente, o processo de urbanização, saneamento básico, infraestrutura, acesso à serviços públicos, entre outros que possam constituir determinantes e condicionantes do processo saúde-doença. A Política Nacional de Atenção Básica indica a responsabilidade sanitária de toda a equipe, que envolve “práticas e processos de trabalho voltados para a vigilância da situação de saúde da população, com análises que subsidiem o planejamento, estabelecimento de prioridades e estratégias, monitoramento e avaliação das ações de saúde pública” (Brasil, 2017). A equipe da atenção básica é composta por equipe multiprofissional, em especial agentes comunitários de saúde, equipe de enfermagem, enfermeiro, médico, equipe da odontologia, cirurgião-dentista, além das equipes de apoio, como farmacêuticos, nutricionistas, fisioterapeutas, orientador físico, assistentes sociais, entre outros. A Portaria n. 2.436/2017 também determina que é obrigação de todos os profissionais na atenção básica a realização de “busca ativa e notificação de 11 doenças e agravos de notificação compulsória, bem como outras doenças, agravos, surtos, acidentes, violências, situações sanitárias e ambientais de importância local” (Brasil, 2017). No art. 4º da Portaria n. 2.436/2017, é reafirmado que a Saúde da Família é estratégia prioritária para expansão e consolidação da Atenção Básica. Na sua operacionalização, conceitua a Equipe de Saúde da Família (eSF) estratégia de expansão, qualificação e consolidação da Atenção Básica, por favorecer uma reorientação do processo de trabalho com maior potencial de ampliar a resolutividade e impactar na situação de saúde das pessoas e coletividades, além de propiciar uma importante relação custo-efetividade (Brasil, 2017). Todos os profissionais da atenção básica desenvolvem territorialização e levantamento de informações epidemiológicas do território da Unidade Básica de Saúde, com destaque para agente comunitário de saúde e agente de endemias que são a ligação entre a comunidade e demais profissionais da equipe. A enfermagem atua em diversas áreas na atenção básica do ponto de vista da epidemiologia, e a coordenação de cargos técnicos da Vigilância Epidemiológica direciona a equipe multidisciplinar (Almeida, Lopes, 2019). A Política Nacional de Atenção Básica (Portaria n. 2436/17) define diversas funções para enfermeiros, porém destacamos algumas, que estão bem direcionadas para epidemiologia na atenção básica, realizar e/ou supervisionar acolhimento com escuta qualificada e classificação de risco, de acordo com protocolos estabelecidos e realizar estratificação de risco e elaborar plano de cuidados para as pessoas que possuem condições crônicas no território, junto aos demais membros da equipe; realizar atividades em grupo e encaminhar, quando necessário, usuários a outros serviços, conforme fluxo estabelecido pela rede local. No contexto da epidemiologia na atenção básica não se pode negar sua importância na promoção da saúde e na prevenção da doença. A promoção da saúde representa uma estratégia capaz de enfrentar os múltiplos problemas de saúde que afetam as populações, abrangendo uma concepção ampla do processo saúde-doença e de seus determinantes e propondo a articulação de saberes técnicos e populares e a mobilização de recursos institucionais e comunitários, públicos e privados (Buss; Carvalho, 2009). 12 Em 2002, o Ministério da Saúde elaborou o documento intitulado “Política Nacional de Promoção da Saúde”. Em 2006, priorizou os seguintes eixos: “alimentação saudável; práticas corporais/ atividade física; tabagismo; álcool e outras drogas; acidentes de trânsito; cultura da paz, e desenvolvimento sustentável” (Brasil, 2015b). O Programa Nacional de Imunização (PNI), criado em 1973, é considerado um dos mais importantes para a saúde pública no Brasil, principalmente da qualidade da prestação de serviços. A vacinação é vista como uma ação de prevenção de doenças imunopreveníveis, executada preferencialmente nos serviços de atenção básica. TEMA 4 – EPIDEMIOLOGIA HOSPITALAR A epidemiologia hospitalar ganhou força com a publicação realizada pelo Ministério da Saúde com a “Portaria GM n. 2529, de 23 de novembro de 2004, quando instituiu o Subsistema Nacional de Vigilância Epidemiológica em Âmbito Hospitalar, integradoao Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica” (Brasil, 2004). Essa portaria foi revogada pela Portaria n. 2.254, de 5 de agosto de 2010, porém deve-se conhecer as deliberações da portaria de 2004 pelas inovações trazidas na epidemiologia hospitalar. O Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica foi instituído pela Lei n. 6.259/1975 e define no art. 1º: Ministério da Saúde coordenará as ações relacionadas com o controle das doenças transmissíveis, orientando sua execução inclusive quanto à vigilância epidemiológica, à aplicação da notificação compulsória, ao programa de imunizações e ao atendimento de agravos coletivos à saúde, bem como os decorrentes de calamidade pública. (Brasil, 1975) A finalidade da criação do subsistema é o “aperfeiçoamento da vigilância epidemiológica na ampliação da rede de notificação e investigação de agravos, em especial doenças transmissíveis, com aumento da sensibilidade e da oportunidade na detecção de doenças de notificação compulsória” (Brasil, 2004). O objetivo da vigilância epidemiológica em âmbito hospitalar é detectar e investigar doenças de notificação compulsória atendidas no hospital. O art. 3º da Portaria GM n. 2.529/2004 aponta as responsabilidades dos estabelecimentos hospitalares no Subsistema Nacional de Vigilância Epidemiológica em âmbito Hospitalar: preencher a Ficha Individual de Notificação quando da ocorrência de agravo inusitado à saúde e de surtos, encaminhando-a de acordo com o fluxo 13 estabelecido, e Ficha de Notificação para a notificação negativa encaminhando- as de acordo com o fluxo estabelecido. (Brasil, 2004) Foi estabelecida uma “Rede Nacional de Hospitais de Referência para o Subsistema Nacional de Vigilância Epidemiológica em Âmbito Hospitalar nos hospitais de referência no Brasil”, apresentado no art. 8º Portaria GM/n. 2.529/2004 (Brasil, 2004). A Portaria aponta que esses hospitais recebem um “incentivo financeiro específico, e a instituição da rede de hospitais de referência serve de apoio para o planejamento das ações de vigilância e o planejamento e gestão hospitalar” (Brasil, 2004). A Portaria n. 1/SVS, de 17 de janeiro de 2005, “aprovou o Regulamento para a implantação do Subsistema Nacional de Vigilância Epidemiológica em âmbito Hospitalar, integrando o Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica, referente aos fluxos para a qualificação dos hospitais” (Brasil, 2005). A Portaria n. 2.254, de 5 de agosto de 2010, que revogou a Portaria GM n.2.529/2004, retoma o estabelecimento da vigilância epidemiológica em âmbito hospitalar, definindo as competências para a União, os Estados, o Distrito Federal, os Municípios, e estabelece os critérios para a qualificação das unidades hospitalares de referência nacional, além de definir o escopo das atividades a serem desenvolvidas pelos Núcleos Hospitalares de Epidemiologia. (Brasil, 2010). Essa portaria, em seu art. 2º, define que a vigilância epidemiológica hospitalar deve ocorrer “por meio do Núcleo Hospitalar de Epidemiologia (NHE), unidade operacional responsável pelo desenvolvimento das atividades de vigilância epidemiológica no ambiente hospitalar” (Brasil, 2010). No anexo I, item 4, da Portaria n. 2.254/2010 (Brasil, 2010), é determinado que os NHE devem desenvolver atividades prioritárias na detecção, a notificação e a investigação dos agravos, articulação com a Rede Nacional de Alerta e Resposta às Emergências em Saúde Pública (Rede CIEVS). Destaca-se, também, a detecção de óbitos de mulheres em idade fértil, de óbitos maternos declarados, de óbitos infantis e fetais, de óbitos por doença infecciosa e por causa mal definida. Há necessidade de integração das atividades entre o Núcleo Epidemiológico Hospitalar com a Gerência de Riscos e a Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH), entendendo que o Programa de Controle de 14 Infecções Hospitalares (PCIH) é um conjunto de ações que visam a redução máxima possível da incidência e da gravidade das infecções hospitalares, executada pela Comissão de Controle de Infecção Hospitalar. Considera-se infecção hospitalar a “infecção adquirida durante a hospitalização e que não estava presente ou em período de incubação por ocasião da admissão do paciente, são diagnosticadas, em geral, ‘a partir de 48 horas’ após a internação” (Brasil, 1998). Vale destacar que a Portaria MS n. 2616/1998 define que o Programa de Controle de Infecções Hospitalares é composto por uma comissão, a qual é um órgão de assessoria à autoridade máxima da instituição, e a ela diretamente subordinada. A criação do Programa de Controle de Infecções Hospitalares (PCIH) com a Portaria MS n. 2616/1998 definiu a estrutura mínima e o funcionamento da CCIH, cabe à CCIH a execução das ações do PCIH, lembrando que PCIH é um “conjunto de ações desenvolvidas com vistas a reduzir ao máximo possível a incidência e a gravidade das infecções hospitalares” (Brasil, 1998). Quem compõe a Comissão de Controle de Infecções Hospitalares – CCIH? Profissionais da área de saúde, de nível superior, formalmente designados e nomeados pela Direção do hospital. Como os componentes se organizam? Agrupam-se em dois tipos: membros consultores e membros executores. Membros consultores deverão incluir representantes dos seguintes serviços: médico (clínico e cirúrgico), enfermagem, farmácia, laboratório de microbiologia e administração Saiba mais Em instituições com número igual ou menor que 70 leitos, a CCIH pode ser composta apenas por 01 (um) médico e 01 (um) enfermeiro. Os membros executores, por sua vez, representam o Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH) são os responsáveis diretos pela execução das ações do PCIH. É recomendável que pelo menos 1 (um) membro executor seja um profissional de enfermagem. No mínimo, deve conter dois técnicos de nível superior da área da saúde para cada 200 (duzentos) leitos ou fração deste número, com carga horária diária mínima de seis horas, para o enfermeiro, e quatro horas para o médico. Além de duas horas de trabalho diárias, para cada 10 (dez) leitos destinados aos 15 pacientes críticos (terapia intensiva adulto, pediátrico e neonatal; berçário de alto risco; queimados; transplantes de órgãos; hemato-oncológicos; e Síndrome da Imunodeficiência Adquirida). Quem é o presidente? O presidente da CCIH poderá ser qualquer um de seus membros, indicado pela Direção. São atribuições dos núcleos epidemiológicos hospitalares a busca ativa de pacientes com doença, agravos de notificação compulsória e óbitos; participação em investigação de surtos; a consolidação, análise e divulgação da informação; a realização de estudos epidemiológicos; uso de indicadores para avaliação das ações de vigilância epidemiológica; participação em atividades de imunização; a investigação epidemiológica das doenças, eventos e agravos e de óbitos; validar as autorizações de internação hospitalar (AIH) cujo código da Classificação Internacional de Doenças (CID) indique tratar-se de internação por doença de notificação compulsória; entre outros. TEMA 5 – CAUSALIDADE EM SAÚDE A causa em epidemiologia é o evento, condição ou característica que precede a condição de saúde e sem os quais ela não teria ocorrido ou teria ocorrido tardiamente. A exposição mostra a quantidade ou intensidade de um fator de risco ao qual o indivíduo ou grupo está ou esteve sujeito. o conhecimento sobre a causalidade em saúde como estratégia metodológica para identificação da associação entre supostas causas (fatores de risco) e seus efeitos sobre a saúde (desfechos). A causalidade é demonstrada por meio da associação entre causa e efeito. A existência de uma dependência estatística entre dois ou mais eventos, características ou outras variáveis mostra a associação. Uma associação ocorre quando a probabilidade da ocorrência de um evento ou característicavaria em função da ocorrência ou não de um ou mais eventos, ou da presença ou não de uma ou mais características. A associação pode ser positiva se a causa e o efeito têm o mesmo sentido, por exemplo, aumentam concomitantemente, ou pode ser negativa, indicando sentidos opostos entre os eventos, quando um aumenta o outro diminui. Assim, podemos afirmar que associação é a relação estatística entre dois eventos, usualmente entre uma variável explicativa, explanatória ou independente (fator de exposição ou fator de risco) e o desfecho em saúde, variável dependente ou 16 resposta, a variável que será explicada, buscando-se a explicação de sua ocorrência. Nem toda associação estatística é uma associação causal. Para sabermos se uma associação estatística pode ser uma indicação de causalidade em epidemiologia, devemos verificar se determinadas condições ou critérios foram atendidos. A discussão de causa na epidemiologia é realizada por meio de modelos, que são maneiras de pensar a realidade e expressam nossa imaginação sobre como o mundo deve funcionar. Foram diversos os modelos de causalidade já descritos. 5.1 Modelos de causas únicas Inicialmente vieram os postulados de Henle, em 1840, existindo poucos relatos de seus estudos. Esse postulado foi expandido por Koch, em 1890, que são conhecidos por postulados de Henle-Koch, ou somente postulados de Koch. Os postulados de Koch contribuíram enormemente para o conceito de causalidade. Antes de Koch, acreditava-se que muitas bactérias diferentes causassem qualquer doença. A aplicação de seus postulados ajudou a trazer ordem ao caos (Fletcher, 2021) Os postulados de Koch têm como base principal que um único agente infeccioso causa uma determinada doença infecciosa, ou seja, a ocorrência de uma doença existe na presença de determinado microrganismo, agente causal. Esse modelo foi fruto da revolução microbiana. Os postulados são explicados em quatro pontos: 1. Associação constante – o agente causal (microrganismo) deve estar sempre presente nas lesões de hospedeiros doentes; 2. Cultura pura – o agente causal deve ser isolado e cultivado numa cultura; 3. Reprodução dos sintomas – o agente causal, quando isolado, deve reproduzir os mesmos sintomas quando inoculado em um hospedeiro sadio; 4. Reisolamento – o agente causal pode ser isolado novamente do hospedeiro, inoculado artificialmente e corresponder, em todas as suas características, com o isolado das lesões. 17 5.2 Modelos de causas múltiplas Com a transição epidemiológica e a importância crescente das doenças não infecciosas, a partir do século XX, as associações causais dessas doenças não possibilitavam explicação por meio do modelo dos postulados de Koch, havendo necessidade de outros modelos para preencher essa dificuldade. Foi necessário compreender a “rede de causalidade”, que acontece quando muitos fatores agem em conjunto para causar uma doença (Fletcher, 2021). Uma rede de causalidade é bem compreendida em doenças crônicas degenerativas, como doenças cardiovasculares e câncer, mas também é a base para o desenvolvimento de doenças infecciosas, em que a presença do microrganismo é uma causa necessária para a doença ocorrer, mas não necessariamente suficiente. A Aids não pode ocorrer sem exposição ao HIV, mas a exposição ao vírus não resulta necessariamente na doença. (Fletcher, 2021, p. 206) Em 1965, Hill propôs um novo modelo, usado para diferenciar as associações causais das não causais, chamado de Critérios de Causalidade de Hill. O modelo de Hill indica nove critérios para avaliação da causalidade. A força de associação mostra que, quanto mais forte for a associação encontrada entre causa e efeito, maior é possibilidade de se tratar de uma relação causal. A consistência ou replicação consiste em confirmar que a relação causal acontece, o gradiente biológico traz o aspecto da presença de uma curva dose-resposta, ou seja, aumento de uma causa aumenta o efeito. O critério da especificidade é avaliado por meio da confirmação de uma causa específica para determinado efeito. A coerência ocorre quando os achados da associação encontrada não entram em conflito com o conhecimento da história natural da doença. A evidência experimental tem o poder de comprovar a causalidade, mas conflita com preceitos éticos de experimentos com humanos, dificultando a realização de estudos experimentais. Outro critério que deve ser analisado, apontado por Hill, está na temporalidade entre a ocorrência de causa e efeito: a causa deve ser sempre anterior ao efeito. A analogia indica que efeitos podem ser produzidos por causas que sejam análogas entre si, e por fim a plausibilidade existe quando é possível inferir causalidade diante do conhecimento vigente. Uma doença em geral não está associada exclusivamente a uma única causa. Rothman, em 1986, propôs um outro modelo de causalidade no qual um certo fenômeno (doença, por exemplo) não é explicado por um único fator (causa 18 única), mas sim por uma constelação de fatores, que são as causas componentes, que agem de forma conjunta para a produção de determinado efeito. Algumas causas componentes, quando estão presentes nas causas suficientes, são chamadas causas necessárias. Isso introduz o conceito de causa suficiente, que consiste numa constelação mínima de causas componentes para provocar uma doença. Para a ocorrência de determinada doença, podem existir diversos conjuntos de causas suficientes. NA PRÁTICA Analise as funções de sua futura profissão e destaque em cada ponto da epidemiologia aplicada que estudada quais serão suas atribuições e as possíveis contribuições no desenvolvimento da epidemiologia aplicada. FINALIZANDO O estudo da causalidade mostrou que não é simples determinar causa/efeito. As aplicações da epidemiologia estudadas mostram que, em todas as profissões de saúde, seja no cuidado direto ao paciente, na gestão e atuação em serviços de saúde, ou ainda na pesquisa e desenvolvimento de fármacos e vacinas, é essencial a utilização do raciocínio epidemiológico para a melhoria na qualidade de vida das pessoas. 19 REFERÊNCIAS ALMEIDA, M. C.; LOPES, M. B. L. Atuação do enfermeiro na atenção básica de saúde. Revista de Saúde Dom Alberto, v. 4, n. 1, p. 169-186, 17 jun. 2019. ALMEIDA-FILHO, N. de. Etnoepidemiología y salud mental: perspectivas desde América Latina. Salud Colectiva, v. 16, p. e2786, 2020. BRASIL. Lei N. 5.991, de 17 de dezembro de 1973. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 19 dez. 1973. _____. Lei N. 6.259, de 30 de outubro de 1975. Diário Oficial da União, Brasília, Poder Legislativo, Brasília, DF, 31 out. 1975. _____. 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