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A EPIDEMIOLOGIA E SUAS VERTENTES Profª Amelia Vaz Processo saúde-doença O profissional da área da saúde é aquele capaz de explicar o não aparente, o indizível em um primeiro contato com o ser doente. Ao compreender que o corpo humano não é um produto genérico isolado, pois existe em relação com outros seres em um dado contexto social, cultural e político, entendem que, para cuidar da pessoa, faz-se necessário considerar algumas questões pertinentes ao vínculo saúde-doença-adoecimento-sociedade: as condições de vida impostas e os estilos de vida escolhidos pelos próprios indivíduos ou não Processo saúde-doença Uma nova maneira de pensar a saúde e a doença deve incluir explicações para os achados universais de que a mortalidade e a morbidade obedecem a um gradiente, que atravessa as classes socioeconômicas, de modo que menores rendas ou status social estão associados a uma pior condição em termos de saúde. Tal evidência constitui-se em um indicativo de que os determinantes da saúde estão localizados fora do sistema de assistência à saúde. Desta maneira, o Processo Saúde Doença, está diretamente atrelado à forma como o ser humano, no decorrer de sua existência, foi se apropriando da natureza para transformá-la, buscando o atendimento às suas necessidades.(GUALDA e BERGAMASCO, As relações entre determinantes sociais e saúde Consistem em estabelecer uma hierarquia de determinações entre fatores mais distais, sociais, econômicos e políticos e mais proximais relacionados diretamente ao modo de vida, sendo distintos os fatores que afetam a situação de saúde de grupos e de pessoas. Vários modelos foram propostos para estudar os determinantes sociais o adotado pela CNDSS é o modelo de Dahlgren e Whitehead que: inclui os DSS dispostos em diferentes camadas, desde uma camada mais próxima dos determinantes individuais até uma camada distal, onde se situam os macrodeterminantes. Os estudos epidemiológicos Costumam lidar com uma quantidade relativamente grande de variáveis e a elaboração de modelos teóricos que hierarquizem a suposta relação entre as variáveis é recomendada para que os pesquisadores tenham convicção do papel de cada variável estudada na determinação do desfecho em estudo. Aplicando bons métodos e desenhos epidemiológicos, trabalhando com dados de qualidade e, principalmente, analisando a complexidade dos resultados, poderemos oferecer bases para o conhecimento da saúde da coletividade, bem como a identificação de necessidades de intervenção ou ações coletivas. O desenho de pesquisa deve ser tal que: Responda satisfatoriamente a uma pergunta de pesquisa. Especificamente no campo da gestão pública, há vários exemplos sobre tipos de questões de pesquisa: podem estar associadas à elaboração de diagnóstico sobre uma situação específica, seja social, seja de organização da burocracia estatal, à formulação de um projeto de intervenção para atacar um problema diagnosticado, à implementação do programa já formulado ou aos impactos de uma intervenção estatal já realizada. Três aspectos com os quais o pesquisador precisa lidar: 1º)ter conhecimento a respeito das discussões teóricas sobre o objeto que se pretende estudar; 2º) ter clareza sobre a relevância da pergunta que se pretende responder; 3º) adotar procedimentos válidos que respondam àquela pergunta e que sejam aceitos pelos pares. Todas essas fases se relacionam e a ordem e a divisão apresentadas aqui são apenas didáticas, sem nenhuma pretensão de que sejam seguidas exatamente ao longo de um trabalho científico, nem que não se sobreponham. A EPIDEMIOLOGIAE AS CIÊNCIAS SOCIAIS Desde sua constituição como disciplina científica, no início do século XIX, buscou nas ciências sociais, também nascentes, elementos teóricos, metodológicos e conceituais que lhe permitissem dar conta de uma dupla tarefa, divididas em: a antropologia visando o estudo da diversidade cultural e da dimensão simbólica da vida social; a ciência política, centrada nos temas do poder e a sociologia, voltada para o estudo das relações em sociedade. Por um lado, produzir conhecimentos científicos acerca da distribuição e determinação do processo saúde-doença em populações humanas e, por outro, fornecer subsídios aos serviços de saúde para o controle de doenças e agravos à saúde. O papel primordial da epidemiologia no campo mais amplo da saúde coletiva Em um Informe Epidemiológico do SUS, Maurício Lima Barreto assim se referia ao papel primordial da epidemiologia no campo mais amplo da Saúde Coletiva: "a investigação epidemiológica, ao mover-se entre as sociedades (epidemiologia social) e as moléculas (epidemiologia molecular), se por um lado, demonstra a amplitude da tarefa do epidemiologista, demonstra também ser uma das disciplinas mais bem preparadas para compreender o ser humano em suas múltiplas dimensões". Entre as utilidades mais citadas da epidemiologia, estão: Analisar a situação de saúde; Identificar perfis e fatores de risco; Proceder à avaliação epidemiológica de serviços; Entender a causalidade dos agravos à saúde; Descrever o espectro clínico das doenças e sua história natural; Avaliar o quanto os serviços de saúde respondem aos problemas e às necessidades das populações; Testar a eficácia, a efetividade e o impacto de estratégias de intervenção, bem como a qualidade, acesso e disponibilidade dos serviços de saúde para controlar, prevenir e tratar os agravos de saúde na comunidade; Identificar fatores de risco de uma doença e grupos de indivíduos que apresentam maior risco de serem atingidos por determinado agravo; Definir os modos de transmissão; Identificar e explicar os padrões de distribuição geográfica das doenças; Estabelecer os métodos e estratégias de controle dos agravos à saúde; Estabelecer medidas preventivas; Auxiliar o planejamento e desenvolvimento dos serviços de saúde; Gerar dados para a administração e avaliação de serviços de saúde; Estabelecer critérios para a Vigilância em Saúde Epidemiologia nos serviços de saúde Brasil, novas perspectivas vêm se abrindo a partir da informatização e da disponibilidade bastante atualizadas de dados de mortalidade e de internações hospitalares oferecidas por órgãos da administração federal e de alguns estados e municípios. Da mesma forma, vêm se empregando alguns esforços para compreender esses diagnósticos de saúde à luz das condições de vida, pretendendo, dessa forma, atribuir a historicidade e contextualização necessárias para orientar, concretamente, a definição das estratégias e prioridades em saúde. A EPIDEMIOLOGIA NA ESFERA DA PROMOÇÃO DA SAÚDE A epidemiologia exerce importante papel ao se preocupar não apenas com o controle de doenças e de seus vetores, mas, sobretudo, com a melhoria da saúde da população. Os estudos que privilegiam temáticas da saúde pública, em geral, estão frequentemente interessados em investigar o modo pelo qual as condições sociais influenciam e determinam o processo saúde-doença das populações, o que tem gerado uma forte articulação entre a epidemiologia e as ciências sociais. É assim que se constrói um ramo epidemiológico denominado por alguns estudiosos como epidemiologia social. A epidemiologia social Tem como foco principal o estudo do modo pelo qual a sociedade e os diferentes modos de organização social influenciam a saúde e o bem-estar dos indivíduos e dos grupos sociais, possibilitando a incorporação de suas experiências societárias, para a melhor compreensão de como, onde e porque se dão as desigualdades na saúde. A importância da epidemiologia para o SUS (Sistema Único de Saúde) A epidemiologia é uma das áreas fundamentais na elaboração das estratégias públicas de combate e prevenção às patologias que acometem a sociedade brasileira. O processo de reformulação institucional no qual o SUS tem passado nos últimos anos necessariamente deve dispor de estatísticas epidemiológicas que permitam a descentralização dos serviços e consequentementeuma abordagem mais efetiva junto à comunidade. O processo de consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) A atuação setorizada e particularizada da Epidemiologia, manifestada na abordagem da Vigilância Epidemiológica de algumas enfermidades transmissíveis, contrapõe-se, hoje, a um enfoque mais globalizante, sendo a lógica epidemiológica de definição de perfis de saúde-doença na população utilizada como parâmetro em documentos oficiais para o processo de gestão do SUS. Paralelamente a isto, a consolidação do Centro Nacional de Epidemiologia (CENEPI). como órgão de nível central, coordenador das ações de Epidemiologia no Sistema Nacional de Saúde do País, dentre outras repercussões, tem provocado maior presença da Epidemiologia nos níveis estadual e municipal, explicitando um compromisso efetivo com a descentralização das ações. DESCRIÇÃO E A COMPREENSÃO DO PROCESSO SAÚDE-DOENÇA Certamente, hoje, encontram-se enriquecidas pelas trocas e influências mútuas entre a epidemiologia e as ciências socais. Entretanto, resta ainda aos pesquisadores da área de saúde coletiva a luta pela obtenção de respostas sociais mais eficazes, eficientes e efetivas, que tomem por base o conhecimento até aqui acumulado e representem novos desafios no que concerne à busca constante de melhores condições de vida para nossa população. OS DADOS QUE A EPIDEMIOLOGIA OFERECE AO SUS São de extrema importância dentro das políticas de saúde descentralizadas, uma vez que as estatísticas locais permitem identificar populações e fatores de risco e combatê-los de maneira mais efetiva. Por exemplo, a pulverização de inseticidas contra mosquitos da dengue é conveniente apenas em regiões com altos índices pluviométricos e de clima quente, esses dados porém, são levantados apenas com dados locais. Para o Brasil, e inclusive para o mundo, um exemplo bem-sucedido de um programa de Vigilância Epidemiológica é o Programa Nacional de Imunização (PNI). Como se afirma no documento do Ministério da Saúde. “Os bons resultados das imunizações, no Brasil, devem ser atribuídos à abnegação dos vacinadores e a uma política de saúde que se sobrepôs às ideologias dos diferentes governos desde 1973”. Mas esse programa não existiria sem a contribuição da epidemiologia para: mostrar evidências do problema. No caso do PNI para idosos, os dados foram relevantes para mostrar que apesar da morbidade por enfermidades infecciosas reduzir-se com a idade, a gravidade e consequências mortais aumentam; identificar a eficácia da vacinação. Eficácia da vacinação contra Influenza População Eficácia Adultos saudáveis e a maioria das crianças 80% a 100% Idosos institucionalizados 30% a 40% Idosos não institucionalizados 58% Renal crônico 66% Transplante renal 18% a 93% Hemodiálise 25% a 100% O Sistema de Vigilância Epidemiológica da Influenza (SVE/FLU), implantado no Brasil desde o ano 2000, tem como objetivos: monitoramento das cepas virais que circulam nas regiões brasileiras, resposta a situações inusitadas, avaliação do impacto da vacinação, acompanhamento da tendência de morbidade e de mortalidade associadas à enfermidade e produção e disseminação de informações epidemiológica Epidemiologia deve participar de todas as etapas do processo, desde a discussão sobre os sistemas de informações, identificando as variáveis mais pertinentes, às formas de análise, passando pela etapa da interpretação, voltada para a avaliação e a ação. Em todo esse processo, é importante buscar contribuições e estabelecer articulações com outras disciplinas, como a Clínica, a Administração, o Planejamento e as Ciências Sociais, efetivando, assim, o princípio da multidisciplinaridade. O estudo da epidemiologia nutricional É um parte da ciência epidemiológica, que estuda indivíduo ou população, a base científica em que a nutrição se apoia para explicar a ocorrência e distribuição de doenças e sua relação com a dieta. Pessoas ou famílias consideradas em risco alimentar ou nutricional são aquelas que não estão conseguindo atender as suas necessidades alimentares. A epidemiologia ambiental Divisão da epidemiologia preocupada em determinar como as exposições ambientais afetam a saúde humana. Este campo procura entender como vários fatores de risco externos podem predispor ou proteger contra doenças, enfermidades, lesões, anormalidades no desenvolvimento ou morte utiliza informações sobre fatores de risco existentes (físicos, químicos, biológicos, mecânicos, ergonômicos e psicossociais); as características especiais do ambiente que interferem no padrão de saúde da população; as pessoas expostas; e os efeitos adversos à saúde. VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICO “Conjunto de ações que proporciona o conhecimento, a detecção ou prevenção de qualquer mudança nos fatores determinantes e condicionantes de saúde individual ou coletiva, com a finalidade de recomendar e adotar as medidas de prevenção e controle das doenças ou agravos". São funções da vigilância epidemiológica: Coleta de dados; Processamento de dados coletados; Análise e interpretação dos dados processados; Recomendação das medidas de controle apropriadas; Promoção das ações de controle indicadas; Avaliação da eficácia e efetividade das medidas adotadas; Divulgação de informações pertinentes. NOTIFICAÇÃO É a comunicação da ocorrência de determinada doença ou agravo à saúde, feita à autoridade sanitária por profissionais de saúde ou qualquer cidadão, para fins de adoção de medidas de intervenção pertinentes. Historicamente, a notificação compulsória tem sido a principal fonte da vigilância epidemiológica a partir da qual, na maioria das vezes, se desencadeia o processo informação-decisão-ação. A NOTIFICAÇÃO DEVE SEGUIR UM PROCESSO DINÂMICO Dada a natureza específica de cada doença ou agravo à saúde, variável em função das mudanças no perfil epidemiológico, dos resultados obtidos com as ações de controle e da disponibilidade de novos conhecimentos científicos e tecnológicos. As normas de notificação devem adequar-se no tempo e no espaço, às características de distribuição das doenças consideradas, ao conteúdo de informação requerido, aos critérios de definição de casos, à periodicidade da transmissão dos dados, às modalidades de notificação indicadas e a representatividade das fontes de notificação. FORTALECIMENTO DAS CAPACIDADES BÁSICAS EM PONTOS DE ENTRADA INDICADORES OMS O Brasil vem trabalhando RSI , como Estado Parte do MERCOSUL, utilizando os instrumentos de avaliação de capacidades básicas de vigilância e resposta em pontos de entrada (portos e aeroportos) definidos em conjunto pelos países que compõem o bloco.