Prévia do material em texto
70 A evolução psicológica da criança do. Para alguns, o jogo pode provocar remorsos. Para a maio- ria, contudo, foi sem dúvida o sentimento da permissão que Capítulo 6 acabou predominando sobre o da proibição e ele aumenta As disciplinas mentais bastante prazer de jogar. Permitir-se jogar, quando parece ser hora para isso, não é reconhecer-se digno de uma trégua que suspende por um tempo as imposições, obrigações, ne- cessidades e disciplinas habituais da existência? Entre 6 e 7 anos torna-se possível retirar a criança de suas ocupações espontâneas para fazê-la dedicar-se a outras. Outrora, trabalho produtivo e até o da fábrica já começavam WALLON, Aenri A para ela, como ainda acontece em alguns países coloniais. Aqui, são as disciplinas da escola que se tornam aplicáveis. Fontes Supõem, inevitavelmente, uma capacidade correspondente de autodisciplina. Com efeito, a atividade mais elementar não conhece ou- tra disciplina senão a das necessidades externas; está exclusi- vamente sob controle das circunstâncias atuais. Em caso de defasagem entre uma reação e as exigências da situação, a conduta muda, até realizar um ajuste satisfatório. É por isso que não há automatismo ou reflexo, por mais fixos que pare- çam, que não tenham sido determinados por estímulos apro- ORIGINAL priados e que não sejam modificáveis na mesma medida. É arbitrário distinguir respostas do organismo de suas condi- MAURO ções externas. Contudo, quanto mais sua estrutura se compli- ca, mais elas podem se diversificar de acordo com as circuns- tâncias. Ao mesmo tempo que sua diferenciação se acentua, o campo da excitação se amplia e refina. A excitação elementar XEROX UEMG dá lugar a um conjunto que torna mais precisa sua significa- ção. Os índices complementares e discriminadores da signifi- cação podem ser impressões atuais mas também OS vestígios Biblioteca "Prof. Raymunde Fernandes" Faculdade de Educação / FaE / UEMG72 A evolução psicológica da criança 73 As atividades da criança e sua evolução mental de impressões e de condutas anteriores. A própria significa- traditório da criança, alternadamente absorta no que faz a pon- ção pode depender do instante presente ou de uma eventuali- to de parecer alheia, insensível ao que a rodeia, e depois en- dade mais ou menos diferida, que implique a previsão. Dessa ganchando-se aos incidentes mais insignificantes e sem ne- forma, as metas poderão se descolar da situação presente. nhuma lembrança aparente do instante precedente. Mas, sob Aliás, seus motivos estão longe de estar exclusivamente no uma enxurrada de distrações, um mesmo tema pode persistir meio físico. De inspiração social ou ideológica, podem estar e se manifestar, seja por suas repetições intermitentes, seja em conflito com a situação material do momento. misturando-se àqueles que se seguem e contaminando-os de Assim, as disciplinas da ação sofrem uma espécie de in- maneira mais ou menos coerente. teriorização e seu aparelho funcional adquire tamanha com- Segundo as observações de Ch. Bühler, de 3 a 4 anos a plexidade que, em muitos casos, pode parecer que sua ativi- quantidade de distrações durante uma mesma brincadeira é dade, ou melhor, suas diversas atividades se exercem indepen- de 12,4 em média; entre 5 e 6 anos, não passa de 6,4. Será dentemente das circunstâncias ou por elas mesmas. Como vi- porque a capacidade de retorno à ocupação inicial é maior nas mos, o brincar já corresponde ao exercício das funções por crianças menores? Muito pelo contrário, a duração da brinca- elas mesmas. Quanto à independência em relação às circuns- deira aumenta nos mais velhos, ao mesmo tempo que decres- tâncias, ela ainda é apenas a substituição das necessidades ce o número de distrações. Portanto, o que está em questão é atuais por necessidades fundadas em antecipações ou conven- a capacidade de resistir a elas. A persistência do tema em meio ções. Com efeito, na criança as funções em via de emergência às distrações mais numerosas também é algo a destacar. De- são exercidas primeiramente sem outro objeto senão elas mes- nota, não propriamente um poder ativo, mas um poder de mas. Mas chega o momento em que poderão subordinar-se a inércia, cujos efeitos não são contrariados, longe disso, pela motivos que lhes são heterogêneos; é anúncio da idade do instabilidade concomitante. estudo e algo novo surge no comportamento. O sentido dessa evolução ganha destaque por outra, em É sua inércia que a caracteriza na época dos puros exercí- parte conexa a ela. Ao mesmo tempo que a duração das brin- cios funcionais. A criança fica totalmente tomada por suas cadeiras aumenta, Ch. Bühler nota que os temas de interesse ocupações do momento e não tem sobre elas nenhum poder ou de prazer a que a criança reage precisam pertencer cada nem de mudança nem de fixação. Disso resultam dois efeitos vez menos a circunstâncias atuais. E esse progresso apresenta contrários, mas que podem ser simultâneos: a perseveração e graus. Léontiev nota que a criança de 8 a 9 anos só é capaz de a instabilidade. A atividade que se apossou dela prossegue fe- perseguir metas mais ou menos distantes com a condição de chada sobre si mesma, repetindo-se ou se esgotando em seus estar sustentada por estímulos sensoriais que demarcam seu próprios detalhes, mas sem se estender a outros domínios esforço com símbolos concretos. Pouco a pouco, estes vão dei- salvo por digressão fortuita ou rotineira. Ela só se transforma xando de ser indispensáveis entre 10 e 13 anos. Simultanea- por substituição, seja porque, tendo perdido interesse dada a mente, desenvolve-se a aptidão para a reflexão abstrata. E a sua monotonia, deixa o campo livre para a primeira que apa- isso se soma a diminuição concomitante da perseveração e da recer, seja porque uma ligação acidental faz com que ela se instabilidade, a aptidão para prosseguir por mais tempo numa aliene totalmente em outra, ou ainda porque, subitamente, mesma atividade, uma dependência menor em relação ao cede ao atrativo de uma circunstância imprevista, de uma es- atual e ao concreto, o uso de símbolos que dão acesso a um timulação surpreendente ou sedutora. Donde aspecto con- pensamento mais capaz de abstração.74 A evolução psicológica da criança 75 As atividades da criança e sua evolução mental Se cada impressão que se produz na periferia da retina As causas da instabilidade mental própria da criança são provocasse reflexo dos glóbulos oculares que deve levá-la variadas. Inicialmente, sua capacidade de acomodação é in- para a fóvea, a visão ficaria enlouquecida entre perpétuas va- consistente, imprecisa e lábil. Caso se trate de atos motores, cilações. É em todos OS estágios e em todos OS domínios da sua conformação tônica, que lhes dá início e acompanha seu atividade nervosa que há controle das reações corresponden- desenvolvimento, muitas vezes permanece difusa, descontí- tes por instâncias superiores e, conforme a oportunidade, uti- nua, fraquejando diante do obstáculo ou do esforço sustenta- lização ou inibição. Mas esse edifício de disciplinas só pode se do. A acomodação perceptiva rapidamente relaxa, não conse- realizar gradualmente na criança, pois exige ao mesmo tempo gue acompanhar o objeto em suas variações e vai de um para a conclusão das estruturas anatômicas e a aprendizagem dos outro. As atitudes, que são o suporte visível das intenções, das efeitos que podem ser tirados delas. Donde o desaparecimen- disposições que se tornaram iminentes, não conseguem per- to muito lento na criança de sua instabilidade e de sua ativi- durar e podem se transformar instantaneamente. Para essas dade disparatada. escapadelas podem contribuir fases de relaxamento que cor- Mas, diante das incitações exteriores que suscitam e respondem a certos ritmos funcionais, cujas repercussões so- mantêm as relações concretas com o ambiente, movimen- bre comportamento são bem mais perceptíveis na criança tos e OS atos resultantes também têm sua regulação própria. que no adulto. Como curso das representações e da conduta Desenvolvem-se e se encadeiam segundo ritmos mais ou me- não seria, ele também, afetado por essas intermitências e es- nos aparentes, cujo grau mais elementar parece ser o simples ses tropeços? retorno de elementos semelhantes. Certas lesões do sistema Intervêm, além desses, outros fatores que deslocam o tem- nervoso, que parecem destruir as conexões de centros situa- po todo interesse da criança, como a incontinência de suas dos nas regiões subcorticais do cérebro, têm por efeito provo- reações quando surge um estímulo apropriado. Nenhuma orien- car a repetição incoercível, até seu esgotamento gradual, do tação psíquica tem seqüência, nem mesmo na execução do ato mesmo gesto, da mesma palavra ou da mesma sílaba, como mais simples, ao passo que toda excitação sensorial suscita o se eles não pudessem ser suspensos sem a intervenção ativa reflexo correspondente, todo incidente uma reação de curiosi- de funções inibidoras. São as chamadas palicinesia e palilalia. dade, toda mudança um sentimento novo. Em graus diversos, é A iteração, a prolongação, a perseveração teriam, pois, algo de isso que acontece com as crianças pequenas. É verdade que automático. Embora tenham efeitos contrários à instabilidade períodos refratários, em que, ao contrário, elas parecem ausen- causada por estimulações externas, também sua redução su- tes e inacessíveis, se alternam com esses períodos de hiperpro- põe capacidades inibitórias. O mesmo se aplica a atos em que sexia. Mas isso apenas confirma ainda mais a falta de unidade a simples repetição dá lugar à rotina e que, uma vez começa- das influências que ainda determinam sua conduta. Elas obstam dos, têm de ir até o fim, ainda que sejam visivelmente contrá- umas às outras em vez de estarem coordenadas e, se necessá- rios ao desejo do sujeito e cheguem até a lhe causar uma es- rio, suspensas ou reprimidas. De repente, a atividade extero- pécie de exasperação. É um fato observado na criança peque- ceptiva é totalmente substituída por uma espécie de ruminação na; é fácil verificá-lo no cachorro, fazendo-o reproduzir, até interoceptiva, assim como em outros momentos um gesto pu- deixá-lo furioso, mas inevitavelmente, o mesmo ato com a aju- ramente ocasional toma o lugar da imobilidade que um esforço da do mesmo sinal. É encontrado, aliás, nos diferentes níveis da concentrado de observação exigiria. atividade psíquica e pode servir para avaliar a capacidade de con- 376 77 A evolução psicológica da criança As atividades da criança e sua evolução mental trole sobre os automatismos e o autocontrole. Esta é outra tável, mas seria impossível sem o uso de algumas referências aquisição que só se dá com a idade; seus resultados podem va- fixas. Pois, para opor a atual intenção ao ato mental que tende riar muito conforme indivíduos. a continuar inutilmente, para distinguir no que tende a se A inibição também intervém para suprimir que pode atualizar a porção oportuna e só ela, para confrontar com as haver de inútil num ato, para selecionar OS gestos que se ajus- impressões presentes objetos que não o são e para substituir, tam a seu fim. Todo movimento é primitivamente generaliza- se necessário, uma pelas outras, são precisos suportes ou subs- do, global. Sua localização e sua espacialização graduais têm titutos, ou seja, instrumentos simbólicos, sejam eles imagens, decerto por condição fundamental a maturação gradual dos signos ou palavras. Não são eles por certo que definem pen- centros nervosos. Mas a aprendizagem também é necessária. samento, mas são únicos meios pelos quais este último pode Banal e espontânea para atos correntes, pode exigir tentati- se definir e proteger-se das adulterações ou das confusões. Eis vas assíduas e restrições penosas para gestos técnicos. A por que há concomitância entre sua resistência à perseveração discriminação também pode operar no plano mental. Sabe-se ou à instabilidade, sua dependência menor em relação ao atual que Pavlov explica a diferenciação dos reflexos condicionados e ao concreto, seu maior rigor ou continuidade de orientação e por zonas de excitação e de inibição que se delimitariam reci- progressos da representação simbólica. procamente no córtex cerebral. Quanto mais especializado se torna o estímulo, mais se estenderia a zona de inibição em detrimento da zona estimulada. A dificuldade de criar re- Às disciplinas que regulam a ação segundo suas formas e flexo aumenta com a seletividade do estímulo, ou seja, com o seus níveis, a linguagem comum e a da psicologia costumam encolhimento de sua sede. Entre um simples som de sino e superpor a "atenção" como uma capacidade que pode lhes um timbre ou uma altura determinados do som, há uma mar- dar a eficácia desejável. É a palavra "atenção!" que em geral gem que o animal percorre com dificuldade crescente. É a um entra nas advertências, nas exortações ou nas ordens, para processo análogo de discriminação, fundada na inibição do mobilizar ao máximo as energias, para prevenir uma possível que não pertence especificamente ao tema atual do pensa- falha ou corrigir um erro efetivo. Deveria causar surpresa o mento, que provavelmente se deve a redução progressiva das fato de que a teoria tenha tentado lhe dar um conteúdo passí- difluências que se observam nas manifestações intelectuais da vel de definição? No entanto, com grande freqüência a defini- criança. Por muito tempo ela não consegue extrair das cir- ção foi puramente tautológica ou antropomórfica. Por exem- cunstâncias parasitas a única característica que importa para a plo, quando a tentativa de exprimir que a atenção pode agre- situação presente. Por muito tempo exibe curtos-circuitos en- gar aos efeitos da atividade mental resulta em rejeitar sucessi- tre sua inspiração e uma imagem ou uma idéia próximas, pro- vamente, como insuficientemente adequadas, as noções de ximidade cuja justificativa, aliás, pode escapar ao entendi- maior intensidade, maior clareza, maior constância e em ado- mento do adulto. tar a de "atentividade". Ou então quando a atenção é identifi- Assim, a contaminação não se dá apenas entre um tema cada a um poder capaz de intervir sempre que preciso e da anterior e o que se segue, mas também entre tudo que uma maneira necessária. operação mental pode ativar simultaneamente. Deve-se fazer O que parece estar o mais imediatamente implicado na uma delimitação entre que convém e que não convém. Ela atenção, ao menos na atenção "voluntária", é esforço. Mas pode ser mais ou menos rigorosa, mais ou menos segura e es- também ele tem de ser definido. É conhecido o papel que o 478 A evolução psicológica da criança As atividades da criança e sua evolução mental 79 esforço desempenha numa filosofia como a de Maine de Bi- ran. que traduz a oposição do Eu às realidades exteriores e Ademais, seria inútil contrapor à teoria central uma teoria pe- alheias; é sua realização e sua tomada de consciência efetivas. riférica. As manifestações e as condições do esforço podem Só pode ser de origem central. Caso chegue a mobilizar ener- parecer mais periféricas ou mais centrais de acordo com a na- gias fisiológicas, não decorre delas, mas é; poder-se-ia dizer, tureza da tarefa. Mas, como esforço é o aumento de gasto de anterior a elas. Sua fonte se confundiria com que há de mais energia que o objeto exige da função para que ela continue íntimo no ser psíquico. eficaz, que ele representa é um equilíbrio, uma relação entre Essa hipótese, no entanto, é desmentida pela experiên- esses dois termos, sem preponderância ou prioridade de um cia. O esforço é observável num simples músculo desligado sobre o outro. de suas conexões nervosas: a contração que nele provoca uma Segundo a fórmula de J.-B. Morgan, "o esforço consiste descarga elétrica é tanto mais violenta quanto mais resistência numa resposta imediata a um estímulo de O fracas- encontra. Em outros casos, a medula é a única região do sis- so pode ser superado ou não. O esforço comporta portanto tema nervoso a que ele concerne: por exemplo, quando au- um risco, que pode ter certa influência no desenvolvimento menta bruscamente a resistência encontrada para erguer um funcional da criança. Ao estimular a função, ajuda em seu peso, seu tempo de latência não ultrapassa de um reflexo crescimento, mas, levando-a a fracassar, provoca logo a auto- medular. Um ato que exige a intervenção de centros nervosos desconfiança, que pode se traduzir no desinteresse do aluno situados em regiões mais elevadas evidentemente só ultra- vadio ou num sentimento de inferioridade. Quanto àqueles passará obstáculo com a participação desses centros. E as- que preconizam esforço pelo esforço, parecem ser vítimas sim esforço vai se elevar de grau em grau até alcançar da de um complexo que lembra bastante, por sua projeção sobre atividade intelectual. Se ele nunca está despojado de alguma outrem, que psicanalistas denominam complexo de cas- manifestação somática é evidentemente porque não existe tração, em que a obsessão com a incapacidade pessoal geral- ação, mesmo que abstrata, que seja alheia às reações corpo- mente provoca a vontade de que OS outros fracassem. Por isso, rais. A imobilidade de que pode vir acompanhada a medita- poderia ser transmitido de pais para filhos em algumas famí- ção mental é o resultado de uma inibição, muitas vezes inten- lias (Louba). Na escola, tampouco deixa de ser perigoso. sa, dos centros de onde poderiam surgir distrações motoras, Na criança, a capacidade de esforço se desenvolve a partir sensoriais, ideativas, e que são a sede de uma resistência tanto dos atos que concernem aos situados mais abaixo; é mais temível quanto mais árdua vai se tornando a reflexão. bem mais tardia e continua precária por muito tempo quando Mas a inibição está longe de suprimir toda manifestação físi- são atos que envolvem as funções mais elevadas, em particular ca. A meditação vem acompanhada de modificações circula- as que têm por sustentação necessária as atitudes, cuja consis- tórias, respiratórias e também de tensões musculares que se tência só se afirma lentamente, e aquelas cuja inibição se torna traduzem por alterações da mímica, de atitudes, por gestos, preponderante. As manifestações do esforço são primeiro es- cuja sucessão certamente não reflete apenas curso dos pen- porádicas e imprevisíveis. Como é habitual nos primórdios de samentos, mas de certa forma suporta seu ritmo, suas mu- uma função, seu determinismo não parece ser rigoroso e cons- danças de direção, seus momentos de concentração, de pau- sa, de-retomada. tante; com efeito, seus estimulantes normais podem em certos momentos não provocá-lo, sem dúvida porque sistema de Longe de ser centrífugo, esforço deve sua intensidade suas condições suficientes ainda depende, em maior ou menor às dificuldades que objeto ou a tarefa impõem à função. medida, das circunstâncias. Também pode como que se isolar 580 A evolução psicológica da criança As atividades da criança e sua evolução mental 81 no conjunto do comportamento. Alguns de seus desencadea- evoluem. Mas, ao mesmo tempo que recrutam e assimilam ob- mentos localizados, momentaneamente irredutíveis, de apa- rência ilógica, lembram as reações obstinadas e herméticas ob- servações, reminiscências, reflexões, permanecem fechadas, servadas na demência precoce ou esquizofrenia. O indispensá- no sentido de que não permitem a entrada de motivos, sejam vel dinamismo das ligações funcionais, que a doença compro- de que origem forem, sensorial ou ideativa, que não pareçam estar subordinados à ação da qual elas são OS efeitos moven- mete ou abole, ainda é intermitente na criança. tes ou que poderiam suplantá-la. Nas formas de atividade com objetos ou temas múlti- plos, poderíamos crer que eles apenas se justapõem ou alter- A atenção teria ainda poder de distribuir a atividade nam. Na verdade, sua independência mútua é só aparente. psíquica por seus objetivos e também no tempo. Mas, se há constelação, é uma constelação aberta. Tomemos a No que concerne ao conteúdo mental, poderia produ- "atenção do motorista: seu campo parece se dila- zir dois efeitos contrários. Concentrá-lo num único e mesmo tar tanto quanto pode, e, apesar da automatização que tende objeto, mantido, enquanto ela durar, com exclusão de qualquer a unificar as manobras comuns da condução, as impressões outro, no campo das operações em curso. Ou abrir esse campo imprevistas e em geral simultâneas com significação própria para objetos ou incitações múltiplos e até eventuais. No pri- ou sem qualquer utilidade são demasiadas para que possam meiro caso, trata-se do que Ribot chamava monoideísmo e que se fundir. Ao contrário, é importante que elas estejam bem hoje se descreve como focalização da consciência; no segundo distinguidas entre si; portanto, o esforço é de discriminação e caso, atenções ditas distribuídas, borboleteantes, alternantes, de seleção. No entanto, sua significação, por mais diversa que expectantes etc. Esses vários modos de atividade psíquica cor- seja para cada uma, tem uma mesma fonte, que é a preocupa- respondem a aptidões ou conjuntos de aptidões diversamente ção de dirigir evitando acidentes; e é num conjunto bem distribuídas conforme OS indivíduos, a um treinamento funcio- amarrado de automatismos pouco numerosos que desembo- nal divergente e, no mesmo indivíduo, a atitudes mentais opos- cam suas indicações. Portanto, a ação sempre agrupa em cons- tas. Contudo, a contradição não é entre duas formas brutas de telações apropriadas as circunstâncias que lhe são úteis, mas a atividade que não teriam nada em comum, mas entre exigên- natureza da tarefa, neste caso, exige que, em vez de se consti- cias, entre estruturas de ações diferentemente orientadas. tuir, como em circuito fechado, pela evocação exclusiva de Como já notado faz tempo, não há, não pode haver mo- elementos bem selecionados, as constelações sejam efeito noideísmo quando a mente trabalha. Por mais restrito que seu de uma receptividade voltada para qualquer imprevisto. campo de operações possa parecer objetivamente, as intui- Ou então tomemos a "atenção borboleteante" própria ções e pontos de vista se renovam necessariamente en- do porteiro de hotel. Nesse caso, as tarefas podem ser tão va- quanto sua atividade durar. Essa renovação não tem outra al- riadas quanto as impressões colhidas e a atividade irá se espa- ternativa senão exigir a evocação de elementos ou de idéias lhar em afazeres diversos entre si. No entanto, não devem estranhas ao primeiro conteúdo da consciência, ou melhor, às suspender nem por um instante sequer a aptidão de vigiar primeiras constelações que combinavam com OS dados do pro- tudo o que possa acontecer. E é disso que essas ocupações blema tudo o que parecia poder contribuir para sua solução. disparatadas recebem sua unidade. Cada uma está limitada e Por modificação recíproca desses dados iniciais e do material controlada em seu desenvolvimento pela obrigação que go- que responde, de várias fontes, a seu apelo, as constelações verna todas elas: ocupar-se de tudo, responder a todos. Trata- 6 Biblic Fernandes'82 A evolução psicológica da criança As atividades da criança e sua evolução mental 83 se também aqui de constelações abertas, mas com emaranha- fingem evitar um tapa e, ante a resposta do adulto a suas gra- mento ou alternância das réplicas que eventualidades de todo cinhas, tentam prever entre suas ameaças quais as simuladas tipo podem exigir simultaneamente. e quais as verdadeiras. A excitação que lhes causam essas ten- Será preciso assinalar a lenta e às vezes penosa apren- tativas de previsão pode ser avaliada pelas gargalhadas. Um dizagem que a criança terá de fazer dessas disciplinas? Em- pouco mais tarde, brincam de esconde-esconde: dado o sinal bora aconteça de ela ficar totalmente absorta em sua ocupa- combinado, devem exercer sua vigilância sobre todos OS es- ção e, por conseguinte, como que insensibilizada para tudo conderijos, identificados ou não, de onde possam de repente que não for essa ocupação, não se trata de focalização ati- surgir seus jovens parceiros. A significação funcional dessa di- va. Pois também acontece de ela se distrair totalmente por versão ficará clara se notarmos OS erros cometidos pelas crian- um incidente qualquer ou por seu brusco desinteresse. Falta ças muito pequenas ou pelos principiantes, que saem corren- a sua concentração uma zona marginal, a um só tempo de do sucessivamente atrás de qualquer um que apareça, em vez proteção ou de alerta e de ligação latente com outras ativi- de guardar o pique, ou seja, ainda não sabem subordinar cada dades, que, de concorrentes, poderiam eventualmente vir a impulso particular de defesa ao objetivo essencial da partida e se tornar confluentes. Nada lhe permite situar a atual entre à visão total de suas possíveis peripécias. as outras, nem, por conseguinte, substituí-las entre si inten- cionalmente. As exigências da escola, tão mal suportadas às vezes, mostram OS difíceis progressos da focalização na crian- ça. Quanto trabalho lhe dá conseguir afastar-se do que está fa- Em parte, é decerto artificial distinguir a distribuição da zendo para se acomodar a outra tarefa e para se dedicar exclu- atividade psíquica por seus objetivos e no tempo. A resistên- cia às distrações ou diversões possíveis durante toda a tarefa sivamente a ela sem incluir elementos estranhos. É a passos não seria possível sem uma capacidade de ligação, ou muito lentos que ela deixa de ser refratária às tarefas impostas. menos desenvolvida conforme as espécies ou OS indivíduos, Sua cara atenta, que lhe dá a aparência de alguém pron- entre OS sucessivos momentos de uma mesma ação. Seja qual to para perceber cada detalhe dos mínimos incidentes que for seu substrato, ou melhor, sem dúvida, seus substratos ele- surjam a sua volta, tampouco deve iludir. É uma verdadeira mentares ritmos, por exemplo, de raiz fisiológica e frondes- dispersão, sem vigilância propriamente dita. É a ocasião que cência afetiva ou mnêmica, prescrições dinâmicas com base decide as reações; entre elas não há nem orientação nem ati- em atitudes efetivas ou condicionais -, essa ligação é uma an- tude comuns, e elas são a negação de uma conduta, por me- tecipação do que será, mais ou menos à maneira de um com- nos definida que seja. As condições atuais do trabalho escolar passo musical. Por outro lado, a orientação expectante das raramente oferecem meios de exercer essa receptividade in- constelações abertas, voltadas para o que pode, para que vai definidamente aberta e de verificar em que medida ela pode vir, supõe o porvir. Um porvir que não está incluído no desen- ser dirigida. As brincadeiras suprem essa falta. Mas mostram volvimento de um automatismo ou na aspiração de um dese- por quanto tempo a assimilação do imprevisto fica limitada jo, mas que, ao contrário, impõe-lhes uma suspensão, uma es- por uma atividade que não se afasta de seu objetivo. Inicial- pera, uma incerteza, e que contrapõe ao tempo íntimo as even- mente, imprevisto assimilável é apenas da ordem do conhe- tualidades imprevistas do tempo externo. cido, do esperado, só que entremeado de fingimentos: como Contudo, embora tempo esteja implicado, sob essas OS divertimentos que pequeninos tanto solicitam, quando duas formas essenciais de duração vivida e de iminência alheia, 784 A evolução psicológica da criança As atividades da criança e sua evolução mental 85 nos atos de concentração e de vigilância, aqui, ele ainda não é demora máxima é de 10 segundos para o rato, de 25 para o o que rege sua distribuição. Mas há casos em que é ele que impõe sua disciplina. Por exemplo, na atividade diferida e na quati, de 5 minutos para cão, de 25 para a criança. Na expe- atividade condicionada: no primeiro caso, o adiamento incide riência em que a criança de 13 a 16 meses tem de escolher a sobre a própria reação e, no segundo, sobre a satisfação ou a caixa que contém uma guloseima, o número de erros equivale realização, que são objetivos da ação. aproximadamente ao de acertos depois de um espaço de tem- A ação diferida comporta vários graus e sem dúvida uti- po de 13 a 17 segundos e, um mês mais tarde, depois de um liza, em cada um, meios que não são necessariamente idênti- espaço de tempo de 25 segundos. A maior porcentagem de Foi estudada comparativamente no animal e na criança. escolhas corretas é, na primeira série, de 88% depois de 3 a 7 Para obtê-la no animal, W. S. Hunter testou com ratos, quatis segundos e, na segunda série, de 82% depois de 8 a 12 segun- e fox terriers a necessidade de liberdade e a evitação de im- dos. Na criança, portanto, a idade acarreta um progresso mui- pressões desagradáveis. O animal é mantido num comparti- to rápido. No entanto, não é difícil constatar que a equivalência mento com três saídas, sendo que uma delas lhe permite sair dessas experiências só pode ser aproximativa. No caso dos e as outras duas lhe valem uma descarga elétrica; a primeira está indicada por uma lâmpada que se acende por um ins- animais e da criança que ainda não fala, tendências negativas tante; depois disso o animal fica impedido de reagir por um ou.positivas é que são ativadas, e o resultado tem de ser uma escolha. Para as crianças de 2 anos e meio a 8, a experiência tempo-espera que é medido. Com cães, A. C. Walton empre- gou a fome, tendo animal que escolher entre dois, três e é mera instrução e não tem qualquer interesse intrínseco. Até no caso de reações realmente análogas, o mecanismo não mesmo quatro compartimentos, o que está indicado pelo acendimento de uma lâmpada contém alimentos. Os resulta- parece uniforme. W. S. Hunter chamava a atenção para a ati- dos sempre apresentam certa irregularidade; ela diminui se o tude do animal e sua orientação inicial. A manutenção da atitu- animal está mais faminto; se estiver com menos fome, desa- de durante todo o espaço de tempo explicaria a reação diferi- nimará mais rápido. da. Mas, em suas experiências com o cão, A. C. Walton empe- Com uma menininha entre 13 e 16 meses, que ainda não nhou-se em modificar a atitude do animal durante o espaço fala, mas em quem já aparecem certas expressões vocais, W. S. de tempo com chamados, apitos, a apresentação de um peda- Hunter coloca um objeto em sua mão, pega-o de volta, colo- ço de carne, e a proporção das escolhas corretas não se modi- ficou. Contudo, segundo Hunter, no quati que estaria em ca-o em uma das três caixas com tampa alinhadas diante dela e, depois de ter coberto seus olhos por um tempo variável, questão seria a atitude conservada. Ao contrário, deve-se ad- mitir a intervenção de um fator interno no rato, no e na anota número de vezes em que ela vai diretamente para a criança. De ordem cinestésica também, esse fator não visível caixa onde está o objeto. Outra prova com crianças de 2 anos seria comparável, na criança pelo menos, a uma forma pri- e meio, de 6 e de 8 anos: dá-lhes a instrução de ir apertar um botão perto de uma lâmpada que brilhou por um instante; a meira de linguagem, a uma linguagem não-verbal. Embora a denominação "linguagem" não pareça convir quando o fato primeira vez, a criança sai antes de a lâmpada apagar, depois os espaços de tempo aumentam. primitivo não é troca, mas impressão íntima, é provável que, Essas experiências evidenciaram diferenças considerá- com efeito, um movimento executado deixe sobreviver algo veis entre as espécies animais e entre a criança e o animal. A dele mesmo que lhe permita ser repetido ou simplesmente reimaginado e que, inversamente, um movimento imaginado86 A evolução psicológica da criança As atividades da criança e sua evolução mental 87 e que foi mais ou menos esboçado numa intenção, numa ati- tude, possa sobreviver por certo tempo em estado latente. Faz de sensibilizar o circuito correspondente e de constituir assim parte da experiência cotidiana essa capacidade de reencon- uma dessas vigilâncias parciais cuja persistência às vezes é per- trar mentalmente OS traços motores e espaciais de atos ante- cebida naquele que dorme. É certo que essas vigilâncias po- riormente realizados sem ter prestado uma atenção particular dem tender ao automatismo, mas automatismo logo desa- a eles. Não menos freqüente é o fato de sentir a presença la- parece se seu motivo psíquico desaparecer. Constituem ver- tente de um movimento que foi imaginado sem ter sido exe- dadeiras condutas a serviço, seja de instruções, seja de inte- cutado e que permanece sensível na atividade atual, como uma resses mais espontâneos. espécie de vibração mais ou menos imperiosa, mais ou menos É a existência de um sinal e não a medida da duração en- importuna. quanto tal que pode explicar reações a termo. Experiências Mas a reação diferida dessas experiências conserva algo sobre a intuição de duração pura¹ mostraram-nos, com efeito, de mais elementar ainda. No lugar de uma restrição mecâni- que ela continua sendo muito imprecisa em todas as idades ca como essa, o obstáculo à realização imediata pode, na ver- da infância, mesmo quando não excede alguns segundos. No dade, ser uma inibição psicofisiológica, e o período de latên- entanto, pareceria que tentar avaliá-la consiste em lhe dar cer- cia pode ir muito além daquele em que o ato em potência to conteúdo e, para além de um espaço de tempo muito curto, continua sendo sentido. Muitas vezes ele parece totalmente esse conteúdo se torna inoperante. Mas, embora único pro- esquecido e será preciso uma circunstância propícia, uma cir- cedimento eficaz seja o de que o espaço de tempo esteja mar- cunstância-sinal para que se realize. Por vezes essa circuns- cado por uma circunstância ou uma impressão dada, essa con- tância está associada desde começo com sua formulação dição não parece suficiente, pois é muito precoce: estudo mental. É como se fosse seu índice essencial, diante do qual a dos animais e o das crianças muito pequenas mostram que a lembrança do momento em que a formulação foi feita pode- ligação de uma reação útil ou que exprime necessidades es- ria até ser abolida. A simples reação diferida torna-se então senciais a uma incitação que foi concomitante a sua estimula- reação a termo. ção específica é um fato de ordem extremamente geral e pri- Essas reações a longo prazo, sem lembrança da instrução mitiva, cujo aparecimento precede em muito o das reações a recebida, eram um dos exercícios preferidos que hipnotiza- termo. É essa ligação que rege a antecipação da reação sobre dores faziam seus clientes executarem. Chegou-se a levantar evento plenamente realizado e que tem um papel tão impor- a questão da irresponsabilidade atribuível a atos que tinham tante nas relações do indivíduo com o meio. Está baseada sido ordenados a seus autores em estado de hipnose. Infeliz- num simples encontro, às vezes completamente fortuito, de mente, é difícil reconhecer um valor experimental para o hip- circunstâncias, e seu mecanismo não é comparável à organi- notismo, em que tantas fraudes se misturaram com tantas in- zação das condutas que só podem ser observadas a partir da genuidades. A sugestão a termo foi contudo utilizada, não sem idade em que começa a escolaridade. resultado, com crianças pequenas, em particular no caso de A ligação entre o sinal e o ato pressupõe, pois, uma or- enurese noturna. Sua finalidade, então, é fazer com que as dem, uma escolha, uma sensação de valores, que podem ser sensações esfincterianas que antecedem a micção tornem-se um sinal suficiente para levantar o obstáculo que o entorpeci- mento do sono opõe às funções motoras. Trata-se sem dúvida 1. Pesquisas feitas com a colaboração de Cemielnitzki e cujos resultados serão publicados futuramente.88 A evolução psicológica da criança As atividades da criança e sua evolução mental 89 de vários níveis, que podem chocar-se em maior ou menor para se afastar do objeto cobiçado ou afastá-lo de si, para con- medida com resistências e dar, em diversos graus, a impressão tornar o obstáculo, só se encontra no topo da escala animal, da coação ou da adesão, mas que exigem uma solidariedade nos antropóides. Afastar-se provisoriamente do objetivo a fim minimamente coerente, minimamente extensiva entre mo- de alcançá-lo não seria concebível sem uma estreita ligação e mentos e entre motivos da vida psíquica. O sinal pode ser uma espécie de unidade pragmática entre esses dois atos de de espécie íntima: seja porque se limita a sublinhar que tal ati- direção momentaneamente contrária. Pela maneira como vidade será seguida de outra, mas com certo caráter de obri- fato se dá, pareceria que essa ligação é de ordem espacial, que gação, seja porque responde a imperativos ou a indicações da essa unidade é a de uma constelação, de uma "estrutura" per- sensibilidade afetiva. Pode também ser identificado a aconte- ceptivo-motora que surgiria entre o animal e sua presa, fa- cimentos, a conjunturas externas. Contudo, é indispensável zendo-o captar, sob a pressão de seu desejo, a topografia dos que a linguagem venha acrescentar a essas relações ainda gestos que lhe permitirão apossar-se dela. Intuição global e si- concretas, que subordinam estritamente a ação às circunstân- multânea de posições que o ato, ao ser executado, deverá tor- cias vividas, relações menos pessoais, mais objetivas, mais li- nar sucessivas. vremente evocáveis, ou substituir aquelas por essas. As refe- Portanto, parecem ser necessárias duas condições, que rências que ela oferece à ação são as únicas que a tornam ca- sem dúvida se confundem: a capacidade de agrupar, em fun- paz de entrar em harmonia com contextos cronológicos de elaboração social e de premeditar e realizar sincronismos ou ção do objeto, o conjunto das posições que podem levar a ele ou permitem trazê-lo para si; e a de percorrê-las, uma por vez, sucessões que não sejam simplesmente dados e impostos pelo sem esquecer o conjunto e o objetivo. É evidentemente no curso das coisas. Serve-lhe, por fim, de intermediário para campo visual que as constelações são traçadas. Mas o campo com as diversas motivações que pode receber da sociedade. visual é apenas uma abstração se separarmos dele OS movi- Com efeito, a atividade da criança vai deixando pouco a pou- mentos da cabeça e dos olhos por meio dos quais ele não deixa CO de estar exclusivamente dominada pelas ocupações ou so- licitações do instante presente. Pode comportar adiamentos, de ser explorado, ou mesmo se distinguirmos dele os gestos úteis que são a perpétua conseqüência das impressões visuais. reservas para o futuro, projetos. No plano da vida concreta e da ação elementar, as unidades não são sensoriais ou motoras, são unidades sensório-moto- ras. Não existem impressões sensoriais que se produzam por A atividade condicionada é um outro aspecto dessa com- si sós, sem virem acompanhadas de atitudes ou de movimen- plicação crescente. Não é nos reflexos de mesmo nome que tos, isto é, de reações apropriadas. São essas unidades sensó- ela se origina, pois único efeito deles é transferir a eficiência rio-motoras que servem de ponto de partida ou de elementos específica de certas incitações para outras, até então indeter- para combinações que vão se tornando progressivamente mais minadas. Sua forma elementar seria, antes, o "desvio". Mas, vastas e ao mesmo tempo mais modificáveis segundo as cir- entre sua forma elementar, que já pode ser observada no ani- cunstâncias. É sobre elas que incide o poder que animal tem mal, e seus graus posteriores, não há necessariamente identi- de criar constelações. A sucessão dos movimentos exige ape- dade de fatores. Pode exigir novos fatores quando seu alcance nas uma constelação correspondente e sua manutenção pelo e sua complexidade aumentam. tempo que for necessário. Grande quantidade de experiências já demonstrou que, A dimensão dessa capacidade muda com a espécie, a raça a não ser que haja rotinas anteriormente adquiridas, a aptidão e OS indivíduos, e talvez em certa medida com treino ou a 1090 A evolução psicológica da criança As atividades da criança e sua evolução mental 91 aprendizagem. Desenvolve-se na criança com a idade. Mas, restrita a si mesma, seus limites continuam estreitos, pois sua atos se ordenam e se combinam, para concorrerem todos jun- extensão não pode ultrapassar a de uma intuição de certo tos a resultados dos quais são OS meios, sem que cada um tire modo instantânea e puramente concreta. Só é ultrapassada algum benefício. Logo, porém, seu encadeamento não é mais no momento em que surge a fala. Então, a diferença de com- possível sem a evocação de circunstâncias inatuais e sem ra- portamento entre a criança e o macaco mais inteligente fica ciocínios mais ou menos implícitos, que pressupõem substi- claramente marcada e nunca mais deixa de se acentuar. É cer- tutos-imagens ou palavras e discursos interiores, ou seja, a to que a linguagem não é a primeira causa dessa rápida evolu- linguagem. Ao mesmo tempo, a ação condicionada está se- ção. Ela mesma é na verdade resultado de uma mudança que meada de situações em que tem de se misturar com a de ou- se dá em vários campos ao mesmo tempo. Suas alterações ou trem. Só pode tentar assimilá-la por uma espécie de conversa sua abolição no afásico vêm, com efeito, acompanhadas de em que pontos de vista são comparados. Essas delibera- outras desordens, difíceis de explicar pelo desaparecimento da ções, essa casuística da ação exigem a linguagem, cujo papel linguagem interior, pois parecem depender de condições mais pode se tornar mais preponderante ainda. Pois, com o passar primitivas, das quais a própria linguagem dependeria. Trata- do tempo, acaba ganhando a aparência de uma razão sufi- se em particular da incapacidade, não de identificar as posi- ciente. Um ato pode procurar sua justificação numa simples ções realmente ocupadas pelos objetos no espaço, mas de rea- fórmula, independentemente de qualquer satisfação, de qual- lizar posições semelhantes, mesmo com o modelo debaixo quer interesse atual ou por vir. É sabido quanto a criança de dos olhos, como se espaço em potência em nossos atos fos- 6 a 8 anos pode ser sentenciosa e quanto também são se de um nível superior ao espaço atestado apenas pelas im- aqueles cuja vida moral é simples. É certo que a sentença, por pressões ou reações sensório-motoras. mais pregnante que seja a formulação de que se reveste, não É do primeiro que parece depender gradualmente, acres- retira sua força tão-somente da linguagem. Faz do ato não mais centando a si cada vez novas condições, a realização de uma o meio de certas realizações utilitárias, mas o de certo confor- ordem qualquer: ordem de uma série e também ordem das sí- mismo. A ação continua sendo condicionada porque tira seu labas na palavra, das palavras na oração, das orações na frase. valor, não de si mesma, mas da concordância com uma sabe- O afásico não consegue mais controlar essa ordem, a criança doria superindividual da qual é instrumento. Munida dessa aprende lentamente a usá-la, do mais simples para o mais com- investidura todo-poderosa, cuja fonte, aliás, às vezes escapa a plexo: palavra com sílaba geminada, palavra-frase, frase com quem a ela se submete, a formulação verbal desempenha um palavras simplesmente justapostas, oração-frase, frase com sin- papel importante na elaboração das condutas abstratas que taxe complexa e com proposições diversamente coordenadas gradualmente vão se misturando às condutas imediatamente entre si. Uma simples intuição inicial das relações não é mais motivadas da criança ou as substituem. suficiente. Também aqui é preciso uma constelação aberta. Ela não se abre mais sobre imprevisto, mas sobre seus próprios Acima da ação que responde à intuição simultânea do desenvolvimentos, cuja condução pode apresentar dificulda- objetivo e dos meios, acima da simples obediência e da sim- des, pois, cada um por sua vez, eles têm de se inventar suces- ples sugestão em que ainda é imediata a ligação entre a inci- sivamente a si mesmos, sem romper o fio do conjunto. tação e o ato, a dependência habitual e essencial que a A conduta da criança revela progressos paralelos. Em vez criança se encontra em relação ao meio faz com que se edifi- de se seguirem uns aos outros por simples justaposição, seus quem condutas cujos termos sucessivos são distintos e des- contínuos entre si. Se a ação pode se distribuir sem se rom- Biblioteca "Prof. Raymundo Nonato Fernandes" Faculdade de Educação / FaE / UEMG92 A evolução psicológica da criança per, isso se deve, parece, a certas disposições psíquicas que, Capítulo 7 ao mesmo tempo, tornam a linguagem possível. Mas de efei- to a linguagem não tarda a se tornar fator. Aliás, é freqüente As alternâncias funcionais que, na evolução mental, a causalidade seja assim transferi- da, partilhada, ou se torne recíproca. Em particular, como de- monstram as disciplinas mentais, há um entretecer perpétuo das condições de substrato orgânico com condições de subs- trato social. O desenvolvimento da criança não se dá por simples adi- ção de progressos que ocorreriam sempre no mesmo sentido. Apresenta oscilações, cujos mecanismos já examinamos em parte¹: manifestações antecipadas de uma função, devidas a um feliz concurso de circunstâncias, e regressões explicadas pela elaboração ainda insuficiente de seus fatores subjetivos; recuo de seus resultados, caso devam ser obtidos num plano de atividades com estruturas e condições mais complexas; eclipse de seus efeitos por funções mais recentes e que pare- cem querer confiscar todo campo da atividade antes de se integrar a ele. Mas não há apenas oscilações por falta. Certas alternâncias têm uma importância funcional: fluxo e refluxo que sucessivamente submergem novos territórios e fazem emergir novas formações da vida mental. As diferentes idades entre as quais a evolução psíquica da criança pode ser decomposta foram contrapostas como fa- ses de orientação centrípeta ou centrífuga, voltadas para a edi- ficação cada vez maior do próprio sujeito ou para o estabeleci- mento de suas relações com exterior, para a assimilação ou para a diferenciação funcional e a adaptação objetiva. Mas, sob 1. Ver parte I, cap. 2. 12