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FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA 3 Objetivo da disciplina 3 Objetivos específicos 3 Habilidades e competências a serem alcançadas 3 Ementa da disciplina 3 1. FITOTERÁPICOS COM PAPEL NO EMAGRECIMENTO E NA LIPODISTROFIA GINOIDE (“CELULITE”) 5 Fitoterápicos com papel no emagrecimento 5 2. FITOTERÁPICOS NA SAÚDE DA PELE, CABELOS E UNHAS 21 Fitoterápicos no combate à acne vulgar 22 Fitoterápicos com ação na saúde da pele, cabelos e unhas 26 3. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 29 3 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA Profa. Dra. Audrey Yule Coqueiro Objetivo da disciplina Discutir os fitoterápicos com papel em questões estéticas, como emagrecimento, saúde de pele, cabelo e unhas. Objetivos específicos Apresentar os principais fitoterápicos com algum papel em questões estéticas, incluindo seus mecanismos de ação, possíveis formas de administração e posologia. Habilidades e competências a serem alcançadas Compreender os principais fitoterápicos com ação em questões estéticas e como aplica-los na prática. Ementa da disciplina A disciplina aborda os fitoterápicos com papel em questões estéticas (ex.: emagrecimento, saúde de pele, cabelo e unhas), explanando sobre os seus mecanismos de ação, bem como formas viáveis de administração (como infusão, decocção, fórmula magistral, tintura etc.) e posologia (quanto, quando e como prescrever). As informações incluídas são baseadas em evidências científicas bem consolidadas e órgãos de renome na área de Nutrição e Fitoterapia. 5 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA 1. FITOTERÁPICOS COM PAPEL NO EMAGRECIMENTO E NA LIPODISTROFIA GINOIDE (“CELULITE”) A fitoterapia é uma área que tem ganhado muito destaque nos dias atuais, sendo aplicada pelos mais diversos profissionais de saúde, desde nutricionistas a médicos. Apesar de muito discutida no contexto de doenças, pois tende a apresentar menos efeitos colaterais que medicamentos, a fitoterapia também passou a ser vista sob o olhar da estética, podendo ser uma interessante ferramenta no emagrecimento e promoção de saúde de cabelos, unhas e pele. Na presente seção, discutiremos os fitoterápicos vinculados ao emagrecimento e à lipodistrofia ginoide (“celulite”), bem como seus mecanismos de ação, possíveis formas de administração e posologia. Fitoterápicos com papel no emagrecimento 6 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA Camellia sinensis (chá verde) O chá verde é um dos fitoterápicos mais estudados e utilizados a nível mundial, sendo vinculado à longevidade apresentada pela população asiática, em especial a população japonesa (diversos estudos pontuando essa correlação já foram publicados). Diversos são os princípios ativos presentes neste fitoterápico, como as epigalocatequinas, epicatequinas e catequinas, as quais são atribuídos seus efeitos de saúde. Não obstante, o chá verde apresenta cafeína na sua composição, a qual, por si só, já é atrelada ao emagrecimento. Evidências indicam que os princípios ativos e compostos do chá verde induzem a lipólise via ativação da lipase hormônio sensível (LHS) e por meio de vias induzidas por norepinefrina, bem como estimulam a beta-oxidação. Vale relembrar que a lipólise trata-se da "quebra" de lipídios, ao passo que a beta- oxidação consiste na sua efetiva utilização como fonte de energia na mitocôndria. Fica claro, portanto, que não basta apenas induzir lipólise para promover o emagrecimento, sendo necessária também a indução da beta-oxidação. Interessantemente, ambos os processos são induzidos pela Camellia sinensis, tornando este um dos principais fitoterápicos utilizados no contexto do emagrecimento. Além destes, outros mecanismos já foram propostos, como inibição do acúmulo de lipídios durante a adipogênese pela redução da expressão de fatores de transcrição C/EBPα e PPARγ, apoptose de adipócitos, redução da diferenciação e proliferação de adipócitos, "amarronzamento" de adipócitos (conversão parcial do tecido adiposo branco em bege), aumento do gasto energético total, redução da absorção intestinal de lipídios, aumento da excreção fecal de lipídios, ativação de vias de sinalização como AMPK/PKA, inibição da via do NF-κB, demonstrando papel anti- inflamatório (lembre-se que a 7 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA obesidade trata-se de um quadro inflamatório crônico de baixo grau) etc. Evidências ainda indicam papel do chá verde na prevenção e tratamento de diabetes, dislipidemias, hipertensão arterial sistêmica e síndrome metabólica – condições usualmente presentes em quadros de obesidade. A parte utilizada deste fitoterápico são as folhas, podendo- se fazer infusão destas. Recomenda- se a utilização de 2 gramas da droga vegetal (1 colher de sobremesa) para cada 150 ml de água, devendo-se ingerir o chá de 3 a 4 vezes ao dia. Vale salientar que, por conter cafeína, não se deve ofertar o chá verde próximo do horário de sono, nem para indivíduos com insônia, ansiedade, estresse excessivo, síndrome do pânico, hiperatividade, transtornos psicológicos, doenças cardiovasculares, hipertensão arterial sistêmica e afins. Caso seja prescrita a fórmula magistral da Camellia sinensis, sugere-se a oferta de 300 a 600 mg ao dia do extrato seco padronizado em 50% de polifenóis. Pode-se formular em cápsulas ou sachês. Deve-se considerar que as cápsulas não devem ser transparentes (sugere-se a utilização de cápsulas de clorofila) e que um excipiente interessante é a celulose microcristalina, podendo-se solicitar à farmácia que não utilize lactose como excipiente. Estas observações – cápsula de clorofila e Q.S.P. celulose microcristalina, sem adição de lactose – devem ser incluídas na prescrição da fórmula magistral que será entregue pelo paciente na farmácia de manipulação. Aventa-se, ainda, que nas cápsulas cabem cerca de 600 mg de fitoterápicos, ou seja, se forem incluídos muitos fitoterápicos em uma mesma fórmula, que ultrapassem 600 mg, a farmácia terá que distribuir uma dose em várias cápsulas, o que pode trazer desconforto ao paciente (ter que ingerir muitas cápsulas de uma vez só). Assim, pode-se formular em sachês, porém, a maior parte dos fitoterápicos apresenta sabor amargo e desagradável ao paladar. Considerando estas questões, deve- se discutir com o paciente qual a sua preferência – cápsulas ou sachês. Finalmente, estudos indicam que o uso de chá verde por períodos prolongados ou em quantidades excessivas pode ser hepatotóxico, devendo-se evitar utilizar esse fitoterápico para pacientes que já tenham desordens hepáticas significativas ou de forma crônica. De um modo geral, todo fitoterápico deve ser aplicado na forma de 8 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA rodízio, evitando seu uso prolongado, o qual pode trazer efeitos colaterais. Ilex paraguariensis (erva mate) e Paullinia cupana (guaraná) Figura: Erva Mate in natura Figura: Guaraná in natura A semelhança do chá verde, a erva mate e o guaraná também apresentam em sua composição a cafeína, a qual está vinculada à indução da lipólise via síntese de catecolaminas, ativação de receptores adrenérgicos, aumento da concentração de AMPc e, finalmente, estímulo da atividade da lipase hormônio sensível (LHS). A erva mate apresenta ainda outras xantinas, além da cafeína, como a teobromina e a teofilina, bem como saponinas (principalmente as derivadas do ácido ursólico), taninos, polifenóis, flavonoides (ex.: quercetina, rutina e kaempferol), sendo que um dos seus princípios ativos mais presentes é o ácido clorogênico. Evidências apontam que o conteúdo de polifenóis da ervamate chega a ser superior a do chá verde. É atribuído a esse fitoterápico o papel de redução do apetite e do consumo alimentar via aumento do neuropeptídeo Y, além da indução da termogênese, papel diurético, hipoglicemiante, hipolipidemiante e anti-inflamatório. O guaraná é uma excelente fonte de cafeína e também de teobromina e teofilina, além de conter princípios ativos chamados guaraninas. Estudos indicam que o uso do guaraná modula genes anti- adipogênicos (Wnt10b, Wnt3a, Wnt1, Gata3 e Dlk1) e pró- adipogênicos (Cebpα, Pparγ and Creb1), atribuindo a esse fitoterápico papel redutor da 9 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA adipogênese. Outras evidências indicam que o guaraná estimula a biogênese mitocondrial e aumenta o metabolismo energético via estímulo da expressão de Pgc1α, Creb1, Ampka1, Nrf1, Nrf2 e Sirt1 no músculo e no tecido adiposo marrom. De um modo geral, evidências indicam que ambos os fitoterápicos – erva mate e guaraná – têm efeito no emagrecimento por induzir a lipólise e aumentar o gasto energético total, favorecendo a perda de peso. Estes efeitos são atribuídos aos seus princípios ativos e compostos, incluindo a própria cafeína. O chá de erva mate é feito por meio da infusão das folhas, utilizando de 5 a 10 gramas da erva por dia, devendo-se fracionar essa quantidade em xícaras de 150 ml de água, de acordo com a tolerância do paciente (o chá de erva mate é amargo, sendo que alguns pacientes só toleram com uma maior diluição). Caso seja prescrito por meio de fórmula magistral, deve-se ofertar entre 100 a 400 mg por dia do extrato seco padronizado em 0,1 a 3,0% de ácido clorogênico ou em 3 a 10% de cafeína. Ainda pode-se prescrever a erva mate por tintura, na concentração de 1:10, usando-se 30 gotas três vezes ao dia. O pó das sementes de guaraná pode ser diluído em água e usado diariamente na quantidade de 0,5 a 2 gramas. Pode-se ainda prescrever a fórmula magistral utilizando-se de 250 a 750 mg por dia do extrato seco padronizado em 5% de cafeína. É importante lembrar que estes dois fitoterápicos são ricos em cafeína (sendo este composto, inclusive, uma das formas de padronização deles), logo, deve-se evitar prescrevê-los à noite ou para pacientes com transtornos psicológicos e cardiovasculares, tal como pontuado no tópico sobre chá verde. Ressalta-se ainda que ambos têm gosto amargo, devendo-se ter cautela com o uso do chá ou do sachê para pacientes com paladar mais sensível. Cinnamomum spp – C. cassia, C. verum, C. zeylanicum, C. burmanni – (canela), Zingiber officinale (gengibre), Citrus spp – C. sinensis, C. aurantium, C. bergamia, C. paradisi – (laranja amarga) e Capsicum spp (pimenta vermelha) Todos os fitoterápicos listados são considerados como 10 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA termogênicos, haja vista que aumentam o gasto energético total, bem como favorecem os processos de lipólise e beta-oxidação. Alguns, ainda, estão vinculados com redução da absorção intestinal de gorduras e açúcares, modulando a glicemia e o perfil lipídico (é o caso da canela e do gengibre). O interessante destes fitoterápicos é que eles não contêm cafeína, podendo ser utilizados para indivíduos que não possam consumir este composto por algum motivo. Vale salientar que o gengibre não deve ser utilizado por pacientes com distúrbios na coagulação, em uso de anticoagulantes ou hipertensos. A canela, além de seu papel termogênico e anti-obesogênico, está vinculada à modulação da glicemia, melhora da sensibilidade à insulina nos tecidos adiposo e muscular, melhora da disfunção das células beta-pancreáticas e outros, sendo vastamente utilizada como coadjuvante no tratamento do diabetes. Alguns estudos ainda pontuam que a canela poderia reduzir o apetite e o consumo alimentar por retardar o esvaziamento gástrico. Alguns dos princípios ativos presentes na canela são: aldeído cinâmico, eugenol, cineol, cinemaldeído, taninos e mucilagens. Algumas das vias metabólicas moduladas pela canela são: PPARs, AMPK, PI3K/IRS-1, RBP4-GLUT4, e ERK/JNK/p38MAPK, TRPA1- grelina, Nrf2, PTP1B e α-amilase. Aparentemente, a canela também tem a capacidade de suprimir a via do NF-κB, atuando como um anti- inflamatório. Evidências recentes ainda pontuam que o papel observado pelo uso da canela poderia ser atribuído à sua ação na composição da microbiota intestinal e na otimização da barreira intestinal via aumento da expressão de peptídeos antimicrobianos e das tight junctions, reduzindo a permeabilidade intestinal. O gengibre é um fitoterápico muito versátil que, além de seu papel termogênico e anti- obesogênico, tem papel imunomodulador e é utilizado para atenuar náusea, enjoo e vômito (inclusive na gravidez) e dispepsia. Além de ajudar a reduzir o peso e a gordura corporal, estudos 11 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA demonstram papel do gengibre na redução das circunferências de cintura e de quadril, bem como em parâmetros glicídicos (glicemia, insulinemia) e lipídicos (colesterol total e triglicerídeos). Os principais princípios ativos do gengibre são os gingerois, shogaols, cineol, alfa- pimeno, limoneno, entre outros. A laranja amarga e demais espécies do gênero Citrus spp têm potencial termogênico graças a seus princípios ativos, em especial a sinefrina. Também apresenta outros princípios ativos, como limoneno, hesperidina, naringina, naringenina, octopamina, hodermina, tiramina e N- metiltiramina. Aparentemente, algumas das vias moduladas pelos princípios ativos do gênero Citrus spp são: AMPK, PPAR e NF-κB (parece ter papel anti-inflamatório), bem como aparenta ter papel hipoglicemiante, hipolipidemiante, termogênico, redutor do peso e da gordura corporal, sendo, inclusive, compreendido como o melhor substituto à efedrina. O gênero Capsicum spp é reconhecido pela presença de capsinoides, capsaicinas e piperina, além da presença de carotenoides. Estes compostos, especialmente os primeiros, estão vinculados ao aumento da termogênese, ao "amarronzamento" do tecido adiposo branco, à redução da adipogênese, à apoptose de adipócitos, à modulação do metabolismo glicídico e lipídico, à redução do apetite e indução da saciedade, favorecendo o processo de emagrecimento. Em razão disso, as pimentas são vastamente utilizadas na estética, não somente para emagrecimento, mas também para atenuação da lipodistrofia ginoide (“celulite”), e até mesmo na nutrição esportiva, com intuito de favorecer a performance física. Algumas das vias metabólicas moduladas pelas pimentas são: UCP 1 e 2, PGC1α, PPARα, PPARδ, C/EBPβ, SIRT1, AMPc, lipase hormônio sensível (LHS), carnitina palmitoil-transferase Iα (CPTIα) e a redução da atividade da ácido graxo sintase (AGS). Tal como a canela, aparentemente, parte dos efeitos atribuídos às pimentas está vinculado à modulação da composição da microbiota intestinal promovido pelas capsaicinas via aumento de microrganismos que produzem ácidos graxos de cadeia curta, como butirato, e redução de microrganismos que produzem lipopolissacarídeo (LPS) – fator que induz inflamação e é característico de bactérias gram negativas. 12 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA Vale pontuar que todos os fitoterápicos apresentados até o momento podem ser utilizados como recursos pré-treino, de modo a favorecer o gasto energético durante o exercício físico e otimizar o desempenho. Para indivíduos com alguma contraindicação ao uso da cafeína, sugere-se a utilização dos fitoterápicos deste tópico – canela, gengibre, laranja amarga e pimenta. Outra recomendação importante é iniciar a prescrição com doses baixas,de modo a acompanhar a tolerância do paciente. Mais uma vez, ressalta-se que não adianta induzir lipólise sem a indução da beta-oxidação. Neste sentido, considerando que a maior parte dos fitoterápicos induz apenas lipólise, deve-se utilizar do exercício físico, de dietas hipocalóricas ou até mesmo de outras estratégias de emagrecimento (ex.: jejum intermitente) para estimular a beta- oxidação, que trata-se da efetiva utilização de lipídios como fonte de energia na mitocôndria. O chá de canela é feito por meio de decocção de cerca de 2 gramas da casca (2 colheres de sobremesa) para cada 150 ml de água, devendo- se ingerir de 2 a 6 vezes ao dia, de acordo com a tolerância do paciente. Caso seja utilizado o pó da casca de canela, deve-se usar de 500 mg a 6 gramas ao dia. Se este fitoterápico for prescrito por fórmula magistral, recomenda-se o uso de 500 mg do extrato seco padronizado em 50% de polifenóis, duas vezes ao dia. Se for prescrito por meio de tintura, sugere-se de 5 a 10 ml ao dia. O chá de gengibre é feito a partir da decocção do rizoma, usando cerca de 1 grama (1 colher de chá) para cada 150 ml de água, de 2 a 4 vezes ao dia. Caso utilize-se o pó do rizoma, deve-se ingerir de 1 a 2 gramas do pó por dia. Se a prescrição for via fórmula magistral, aconselha-se ofertar 500 mg do extrato seco padronizado em 5% de gingeróis, duas vezes ao dia. Se for prescrito por meio de tintura, recomenda-se de 2 a 10 ml ao dia. O chá de laranja amarga (Citrus aurantium) é feito por meio de maceração das folhas, usando-se de 1 a 2 gramas (1 a 2 colheres de chá) em 150 ml de água, uma a duas vezes ao dia. A laranja amarga é reconhecida pelo seu papel ansiolítico e calmante, muitas vezes sendo prescrita antes do período de sono. Caso seja prescrita por fórmula magistral, pode-se usar duas padronizações diferentes do extrato – em 6% ou em 30% de sinefrina. Se for utilizado o extrato a 6% de sinefrina, recomenda-se a dose de 200 a 600 mg, duas vezes ao 13 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA dia. Se for utilizado o extrato a 30% de sinefrina, sugere-se a dose de 100 a 200 mg, duas vezes ao dia. Ainda é possível prescrever a Citrus sinensis, ao invés da Citrus aurantium, sendo recomendada a ingestão de 400 a 500 mg do extrato seco padronizado em 90% de bioflavonóides da Citrus sinensis. A pimenta vermelha pode ser prescrita como fórmula magistral com duas padronizações diferentes – a 40% de capsinoides, devendo-se ofertar de 5 a 10 mg por dia ou a 2% de capsaicina, devendo-se ofertar 300 mg por dia. Ressalta-se que a prescrição não precisa conter apenas um fitoterápico, podendo-se agregar mais de um, tanto na fórmula magistral e tintura, quanto no chá. Uma ideia interessante, por exemplo, é fazer a decocção da canela e do gengibre juntos e utilizar a água da decocção para fazer a infusão das folhas de laranja amarga. Desse modo, em um mesmo chá, haverá a mistura de três fitoterápicos com potencial termogênico – canela, gengibre e laranja amarga. É válido mencionar que vários outros fitoterápicos têm papel no emagrecimento, podendo ser utilizados em casos de sobrepeso e obesidade. Estes fitoterápicos serão abordados de forma mais aprofundada na apostila de Fitoterapia na Obesidade. O Quadro 1 apresenta a posologia recomendada de cada um dos fitoterápicos acima descritos (com fins de emagrecimento). Quadro 1. Formas de administração e posologia dos fitoterápicos com papel no emagrecimento. Nome popular Nome científico Parte usada Doses Padronização do ESP Chá verde Camellia sinensis Folhas Infusão: 2 g da droga vegetal (1 colher de sobremesa) em 150 mL de água (3 a 4 xícaras/dia) ESP: 300 a 600 mg/dia 50% de polifenóis Erva mate Ilex paraguariensis Folhas Infusão: 5 a 10 g da erva/dia (fracionar em xícaras de 150mL) ESP: 100 a 400 mg/dia Tintura (1:10): 30 gotas 3 vezes/dia 0,1 a 3,0% de ácido clorogênico e/ou 3 a 10% de cafeína 14 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA Guaraná Paullinia cupana Sementes Sementes em pó: 0,5 a 2 g/dia ESP: 250 a 750 mg/dia 5% de cafeína Canela Cinnamomum spp C. cassia, C. verum /C. zeylanicum, C. burmanni Casca Decocção: 2g (2 colheres de sobremesa) para cada 150mL de água, 2 a 6 vezes/dia Pó: 500 mg a 6 g/dia ESP: 500 mg 2 vezes/dia Tintura: 5 a 10 ml/dia 50% de polifenóis Gengibre Zingiber officinale Rizoma Decocção: 1 g (1 colher de chá) para 150mL de água 2 a 4 vezes ao dia Pó: 1 a 2 g/dia ESP: 500 mg, duas vezes ao dia Tintura: 2 a 10 mL ao dia 5% gingeróis Laranja amarga Citrus spp C. sinensis, aurantium, bergamia, paradisi Fruto ou casca Citrus aurantium ESP 6%: 200 – 600 mg, 2x/dia ESP 30%: 100 – 200mg, 2x/dia Maceração das flores: 1 a 2 g em 150 ml Citrus sinensis 90% em bioflavonóides Citrus aurantium: 6% – 30% sinefrina Citrus sinensis: 90% em bioflavonóides Pimenta Capsicum spp Fruto ESP: 5 a 10 mg/dia Capsifen® (extrato padronizado a 2% capsaicina): 300 mg/dia 40% de capsinóides Legenda: ESP – extrato seco padronizado.Fitoterápicos na atenuação da lipodistrofia ginoide Lipodistrofia ginoide é o nome científico dado à celulite, um distúrbio estético que acomete a grande maioria das mulheres (por questões hormonais e pelo próprio arranjo da derme ser diferente entre homens e mulheres). Apesar de parecer simples e comum, a fisiopatologia da lipodistrofia ginoide é bastante complexa, envolvendo o acúmulo de gordura, que compromete a circulação sanguínea e linfática, causando edema e inflamação. Em razão disso, é comum que pacientes 15 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA com lipodistrofia ginoide, principalmente nos estágios mais avançados, sintam dor no local da "celulite", por causa da inflamação. Não obstante, pelo prejuízo no fluxo sanguíneo, o local da "celulite" pode ser mais frio e mais azulado do que outros locais do corpo, que não sejam afetados pelo problema. Além da aplicação de estratégias nutricionais, pode-se incluir fitoterápicos para auxiliar na perda de gordura (como os listados no tópico anterior), para evitar a retenção hídrica e anti- inflamatórios. Os principais fitoterápicos com fins de atenuar a retenção hídrica são: Hibiscus sabdariffa (hibisco), Taraxacum officinale (dente de leão), Echinodorus macrophyllus (chapéu de couro) e Equisetum arvense (cavalinha). O hibisco, além de ser diurético, está vinculado à redução do peso corporal, redução da absorção intestinal de lipídios, indução da beta-oxidação, inibição do acúmulo de lipídios, supressão da adipogênese, inibição da hiperplasia de adipócitos e indução da apoptose de adipócitos maduros, principalmente por meio de modulação das vias PPARγ e C/EBPα, além de papel modulador da glicemia, do perfil lipídico (LDL, HDL, colesterol total e triglicerídeos) e da pressão arterial. Os principais princípios bioativos do hibisco são: ácidos orgânicos, antocianinas, flavonoides e ácidos fenólicos, como ácido cítrico, ácido hibisco, delfinidina, cianidina, quercetina, luteolina, ácido clorogênico, ácido elágico, ácido coumarínico, ácido ferúlico e ácido cafeico. O chá de hibisco se faz por meio da infusão do cálice, devendo-se utilizar 3 gramas (1 colher de sopa) para cada 150 ml de água e ingerir de 2 a 4 vezes ao dia. Se for prescrita por fórmula magistral, deve-se ofertar 100 mg do extrato seco padronizado em 2% de ácido cítrico e no mínimo 1% de polifenóis, de duas a três vezes ao dia. Caso use-se tintura, recomenda-se a quantidade de 1,5 ml 3 vezes ao dia, totalizando cerca de 4,5 ml diariamente. O dente de leão, além do papel diurético, apresenta papel anti- inflamatório (inibiçãoda via do NF- κB) e antioxidante, sendo, inclusive, estudado no contexto de doenças, como o câncer e o diabetes (modulação da glicemia e da atividade das células beta- pancreáticas). Os principais princípios ativos do dente de leão são: ácido chicórico, taraxasterol, 16 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA ácido clorogênico e sesquiterpeno lactonas. O chá de dente de leão é feito por meio de decocção de toda a planta, cerca de 3 a 4 gramas (3 a 4 colheres de chá), em 150 ml de água, devendo-se consumir de 1 a 3 vezes ao dia. Se for utilizado o pó, recomenda-se de 1 a 2,5 gramas ao dia. O chapéu de couro, além de diurético, tem papel imunomodulador, com potente ação anti-inflamatória, via modulação de citocinas (TNF-α e IL-1β), prostaglandinas e migração de células imunológicas, como neutrófilos, sendo que algumas das vias de sinalização moduladas por este fitoterápico são: CKCL1/KC, LTB4 e PGE2. Estas ações são desempenhadas especialmente pelos flavonoides presentes no chapéu de couro. O chá de chapéu de couro é feito por meio de infusão das folhas, cerca de 1 grama (1 colher de chá) em 150 ml de água, de 1 a 3 xícaras ao dia. À cavalinha, além de ação diurética, tem sido atribuída ação antibacteriana, antioxidante e anti- inflamatória, sendo estudada também no contexto de doenças, como no diabetes e no câncer. Parte dos efeitos atribuídos à cavalinha são realizados através da modulação de vias moleculares, como a ativação da SIRT1 e supressão do NF-κB. Apesar de não ser esclarecido na literatura, pelo fato de ter papel antibacteriano, a cavalinha poderia ter impacto na composição da microbiota. O chá de cavalinha é feito por meio de infusão de 3 gramas (1 colher de sopa) das partes aéreas em 150 ml de água, devendo- se de 2 a 4 xícaras ao dia. Vale lembrar que não se deve utilizar chás diuréticos muito próximo ao horário de sono, para não prejudica-lo. Não obstante, não se deve prescrever para pacientes que já usem diurético, que tenham problemas renais (ex.: doença renal crônica e insuficiência renal), que tenham alterações na pressão arterial (ex.: hipotensão) ou doenças cardiovasculares (ex.: insuficiência renal). Finalmente, também não devem ser utilizados em casos de diarreia. Considerando que a fisiopatologia da lipodistrofia ginoide também envolve inflamação, fitoterápicos com potencial anti-inflamatório poderiam ser interessante, por exemplo: Taraxacum officinale (dente de leão), Echinodorus macrophyllus chapéu de couro), Equisetum arvense (cavalinha) – fitoterápicos muito versáteis na celulite, que além de diuréticos são 17 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA anti-inflamatórios – Curcuma longa (cúrcuma), Achyrocline satureioides (macela), Arctium lappa (Bardana), Salix alba (salgueiro), entre outros (consultar o anexo 1 da RDC 10 da ANVISA). A cúrcuma é vastamente reconhecida por seu papel anti- inflamatório por meio da modulação de citocinas e da atividade de células imunológicas, sendo estudada nos mais diversos contextos, seja em doenças (ex.: doenças hepáticas, doenças cardiovasculares, doenças inflamatórias intestinais, artrite, pancreatite, diabetes e câncer) ou na estética (emagrecimento, celulite, saúde da pele, cabelos e unhas). Seus efeitos são atribuídos principalmente à presença de princípios ativos chamados de curcuminas e de curcuminóides. O chá de cúrcuma é feito a partir da decocção do rizoma, cerca de 1,5 gramas (3 colheres de café) em 150 ml de água, devendo-se consumir de uma a duas vezes ao dia. Caso se use o pó, deve-se consumir de 7,5 a 15 gramas ao dia, ao passo que se for utilizado fresco, deve-se ingerir de 30 a 60 gramas diariamente. Se o objetivo for utilizar na forma de tintura, recomenda-se de 20 a 60 gotas por dia. Caso seja utilizado o extrato seco padronizado, deve-se ofertar 300 a 600 mg do extrato seco padronizado em 95% de curcuminóides. A macela, além de anti- inflamatória, também é indicada para má digestão, cólicas e como um sedativo leve. O chá de macela é feito por meio da infusão de 1,5 gramas (1/2 colher de sopa) das sumidades floridas em 150 ml de água, devendo-se utilizar 4 xícaras ao dia. Além destas propriedades, evidências indicam que a Achyrocline satureioides é antisséptica, antioxidante, e hipocolesterolêmica, sendo investigada no contexto do câncer, da dermatite (importante papel na estética), de dislipidemias e de doenças cardiovasculares. Seus efeitos biológicos são atribuídos à presença de flavonoides, como luteolina, antocianinas, isoflavonas, quercetina, 3-O-metil-quercetina e achyrobichalcone (nome em inglês), sendo o último um metabólico exclusivo desta planta. A bardana tem sido utilizada com fins terapêuticos na Europa, América do Norte e Ásia por centenas de anos. As raízes, sementes e folhas têm sido estudadas por serem tão utilizadas na medicina tradicional chinesa. Na atualidade, a bardana é utilizada até mesmo para questões estéticas, melhorando a textura e qualidade da 18 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA pele, bem como atenuando o eczema e a acne vulgar. Além disso, seu potencial antioxidante, anti- inflamatório e antidiabético tem chamado a atenção nos mais diversos contextos, como no câncer, diabetes, alergias, inflamações e, até mesmo, na AIDS. Alguns dos compostos bioativos presentes na bardana, aos quais atribuem-se os efeitos de saúde, são taninos, ácido cafeico, arctiina, arctigenina, ácido clorogênico, beta-sitosterol e diarctigenina, além de diversos nutrientes e prebióticos, como a inulina. O chá de bardana é feito por meio de decocção das raízes, cerca de 2,5 gramas (2,5 colheres de chá) em 150 ml de água, devendo-se utilizar de 2 a 3 xícaras ao dia. O chá também serve para dispepsia e artrite, haja vista que tem papel anti-inflamatório. Se for prescrito o extrato seco, sugere-se 1 a 2 gramas ao dia. O salgueiro é usado no tratamento de inflamação crônica e aguda, infecção, dor e febre. O seu principal composto é a salicina, a qual é precursora do ácido acetilsalicílico, um agente com potencial ação anti-inflamatória. Outros compostos fenólicos do salgueiro são: ácido salicílico, salidroside, saligenina, tremulodina, salicoilsalicina, salicortina e tremulacina. O chá de salgueiro é feito pela infusão da casca do caule: 3 gramas (1 colher de sopa) do fitoterápico para 150 ml de água, devendo-se ofertar de 2 a 3 vezes ao dia. O chá também pode ser utilizado em caso de gripes, resfriados e dor. Não se recomenda a utilização com maracujá e noz moscada e deve ser utilizado com cautela quando há uso de anticoagulantes, corticoides e anti- inflamatórios não estereoidais. Para atenuar a lipodistrofia ginoide, sugere-se associar os fitoterápicos para atenuar retenção hídrica, anti-inflamatórios e com potencial em favorecer o emagrecimento. Por exemplo, pode- se utilizar chá verde, hibisco e cúrcuma. O Quadro 2 apresenta a posologia recomendada de cada um dos fitoterápicos com papel na atenuação da lipodistrofia ginoide. Quadro 2. Formas de administração e posologia dos fitoterápicos com papel na lipodistrofia ginoide. Nome popular Nome científico Parte usada Doses Padronização do ESP 19 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA Hibisco Hibiscus sabdariffa Cálice Infusão: 3 g (1 colher de sopa), 2 – 4 x/dia ESP: 100 mg, 2 – 3 x/dia Tintura: 1,5mL, 3 x/dia 2% de ácido cítrico e mínimo de 1% de polifenóis Dente de Leão Taraxacum officinale Toda a planta (parte aérea florida e raiz) Decocção: 3 – 4 g (3 – 4 colheres de chá) em 150 ml de água, 1 a 3 x/dia Pó: 1 a 2,5 g/dia - Chapéu de couro Echinodorus macrophyllusFolhas Infusão: 1 g (1 colher de chá) em 150 ml de água, de 1 a 3 xícaras ao dia - Cavalinha Equisetum arvense Partes aéreas Infusão: 3 g (1 colher de sopa) em 150 ml de água, de 2 a 4 xícaras ao dia - Cúrcuma Curcuma longa Rizoma Decocção: 1 a 3 g em 150mL de água 2 a 3 vezes/dia Pó: 7,5 a 15 g ao dia Fresco: 30 a 60 g/dia ESP: 300 a 600 mg/dia Tintura: 20 a 60 gotas/dia 95% curcuminóides Macela Achyrocline satureioides Sumidades floridas 1,5 g (1/2 colher de sopa) em 150 ml de água, 4 xícaras ao dia - Bardana Arctium lappa Raiz Decocção: 2,5 g (2,5 colheres de chá) em 150 ml de água, de 2 a 3 xícaras ao dia ou 40 g das raízes por litro de água Extrato seco: 1 a 2 g ao dia - Salgueiro Salix alba Casca do caule Infusão: 3 g (1 colher de sopa) em 150 ml de água, de 2 a 3 vezes ao dia - Legenda: ESP – extrato seco padronizado. 21 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA 2. FITOTERÁPICOS NA SAÚDE DA PELE, CABELOS E UNHAS Apesar de parecer uma ferramenta nova, ganhando espaço nos consultórios, ambulatórios e hospitais, a fitoterapia é uma das ciências mais antigas que existem. Iniciou-se desde os primórdios, quando o homem passou a utilizar plantas com fins medicinais. Na atualidade, há uma distinção didática entre a fitoterapia tradicional e popular (aquela que passou de geração em geração, com conhecimento mais prático, porém empírico) e a fitoterapia científica, a qual é baseada em achados de artigos científicos. Interessantemente, a fitoterapia científica estuda justamente os fitoterápicos reconhecidos para determinados fins na fitoterapia tradicional e popular, verificando se estas hipóteses têm respaldo científico. Como os fitoterápicos tendem a ter menos efeitos colaterais que os medicamentos, muito se debate sobre o uso destes em diversas doenças, de modo a evitar o uso excessivo de fármacos. Além do contexto saúde e doença, a fitoterapia tem ganhado espaço na estética, haja vista o potencial de alguns fitoterápicos no emagrecimento e atenuação de 22 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA celulite, bem como na saúde da pele, cabelos e unhas. Discutir o papel dos fitoterápicos na pele, cabelos e unhas é justamente o papel desta segunda seção. Fitoterápicos no combate à acne vulgar A fisiopatologia da acne vulgar é complexa, envolvendo produção excessiva de sebo, disbiose cutânea (excesso de Propionibacterium acnes), inflamação, prejuízo do processo de destoxificação e eliminação de toxinas, constipação e disbiose intestinal (situações que prejudicam a eliminação de toxinas), entre outros fatores. A produção excessiva de sebo pode ser agravada pelo quadro de hiperinsulinemia, estimulado pelo consumo excessivo de carboidratos de alto índice glicêmico, que causa hiperglicemia e, como resultado, aumento da produção e liberação de insulina. Em razão disso, é comum reduzir o consumo destes alimentos (carboidratos de alto índice glicêmico) para pacientes com muita tendência à acne vulgar. Não obstante, deve-se investigar possíveis alterações glicídicas nestes pacientes (ex.: hiperglicemia, hiperinsulinemia, hemoglobina glicada elevada, resistência à insulina, índices HOMA etc.) Em caso de alterações no metabolismo glicídico, pode-se utilizar, juntamente com as estratégias nutricionais, os fitoterápicos que podem modular a glicemia e insulinemia, como Cinnamomum spp (canela), Gymnema sylvestre (gimnema), Trigonella foenum-graecum (feno greco), Bauhinia forficata (pata de vaca), Momordica charantia (melão de São Caetano), Garcinia cambogia (garcinea) etc. Estes fitoterápicos modulam a atividade das células beta-pancreáticas, a relação da insulina com o seu receptor, a cascata de translocação do GLUT-4 à membrana plasmática, vias moleculares associadas à captação e utilização de carboidratos, bem como enzimas associadas à digestão e à absorção intestinal de carboidratos, resultando em controle de parâmetros glicídicos, como 23 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA hiperglicemia, hiperinsulinemia e resistência à insulina. A Gymnema sylvestre, popularmente conhecida como gimnema, é um fitoterápico com potente ação hipoglicemiante, sendo utilizado vastamente na resistência à insulina e no diabetes. A parte utilizada é a folha, podendo-se prescrever o extrato seco padronizado em 75% de ácido gimnêmico, na dose de 50 a 100 mg duas vezes ao dia. A Trigonella foenum-graecum, popularmente conhecida como feno grego, é também utilizada no tratamento de distúrbios glicídicos e lipídicos, sendo que a parte utilizada é a semente. Caso seja prescrita via fórmula magistral, recomenda-se a oferta de 300 mg do extrato seco padronizado em 50% de fenosídeo duas vezes ao dia. Ressalta-se que, em determinadas regiões, o feno greco é bastante oneroso, podendo encarecer significativamente a fórmula magistral. A Bauhinia forficata, popularmente chamada de pata de vaca em razão do seu formato, é um recurso utilizado no tratamento de diabetes e resistência à insulina há muitos anos, tendo seu uso fundamentado na fitoterapia tradicional e popular. Vale salientar que estudos científicos demonstram que há respaldo na ciência para a utilização da pata de vaca no contexto do diabetes e demais alterações do metabolismo glicídico, sendo, portanto, comprovada pela fitoterapia científica. O chá de pata de vaca é feito por meio da infusão das folhas (~ 3 gramas = 1 colher de sopa em 150 ml de água), devendo- se consumir de 2 a 3 xícaras por dia. Caso se use esse fitoterápico em pó, recomenda-se a dose de 400 mg duas vezes ao dia, ao passo que se for usado o extrato seco sugere-se 250 mg uma vez ao dia. Ressalta-se que ainda não há consenso sobre a padronização do extrato seco de pata de vaca. Ainda há a opção de utilizar a tintura, devendo-se ofertar 30 a 40 gotas três vezes ao dia. A Momordica charantia, vulgarmente chamada de Melão de São Caetano, também encontra respaldo científico para sua utilização no diabetes tipo 2 e na resistência à insulina, demonstrando papel na modulação da atividade das células beta- pancreáticas, secreção e utilização de insulina e controle da hiperglicemia. Além disso, demonstra papel antioxidante, antibacteriano, antiviral, anti- helmintíco, imunomodulador, anti- inflamatório, anti-tumoral, anti- 24 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA mutagênico e outros. Logo, por mais de um mecanismo de ação (hipoglicemiante, anti-inflamatório e antibacteriano), o Melão de São Caetano poderia atenuar a acne vulgar. Seus efeitos são decorrentes da presença de princípios ativos, como flavonoides, triterpenos e saponinas. Pode-se prescrever esse fitoterápico por meio de fórmula magistral usando 500 mg do extrato seco padronizado em 10% de charantina duas vezes ao dia. A Garcinia cambogia, conhecida popularmente como garcínea, é vastamente utilizada no tratamento da obesidade, pois favorece o emagrecimento e controla o apetite e a vontade de consumir doces, o que também é benéfico para pacientes diabéticos. Aparentemente, este fitoterápico ainda modula a glicemia e a ação da insulina, sendo bastante utilizado no contexto do diabetes. A garcínea pode ser prescrita na forma de extrato seco (300 a 450 mg 1 a 2 x ao dia), na forma de pó (500 mg 3 x ao dia) e na forma de tintura (30 a 60 gotas, 2 a 4 x ao dia). Outra causa comum de acne vulgar é a disbiose em vários compartimentos corpóreos, não somente na pele. É frequente encontrar pacientes com acne vulgar que relatem constipação intestinal e sinais/sintomas de disbiose intestinal e/ou candidíase vaginal de repetição e sinais/sintomasde disbiose vaginal. Isso porque as microbiotas tendem a influenciar umas as outras, isto é, a microbiota intestinal pode modular a microbiota vaginal e vice-versa. Não obstante, a constipação intestinal pode agravar a acne vulgar, haja vista que há prejuízo na eliminação de toxinas. Alguns fitoterápicos podem ser utilizados como coadjuvantes no tratamento de disbiose, como canela, pimenta, cavalinha e cúrcuma (apresentados na seção anterior). Não obstante, outros podem ser utilizados para melhorar a saúde intestinal e como coadjuvantes no tratamento de constipação intestinal, como alcachofra, alecrim, sene e cáscara sagrada (fitoterápicos apresentados na apostila de Fitoterapia no Sistema Digestório). Se a disbiose e constipação intestinal foram parte da causa da acne vulgar do paciente, pode-se utilizar também estes fitoterápicos. A inflamação é também um dos pilares da fisiopatologia da acne vulgar. Neste sentido, pode-se utilizar fitoterápicos com potencial anti-inflamatório para lidar com este problema estético, como cúrcuma, macela (usada também na 25 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA dermatite), bardana (usada no tratamento de acne, bem como na melhora da hidratação e textura da pele), chapéu de couro, dente de leão e cavalinha (além de anti- inflamatórios são diuréticos, favorecendo a eliminação de toxinas). O prejuízo nos processos de destoxificação pode resultar no acúmulo de toxinas e agravamento da acne vulgar. Neste contexto, pode-se utilizar fitoterápicos diuréticos para favorecer a eliminação de toxinas, bem como fitoterápicos hepatoprotetores, haja vista que o fígado é o principal órgão envolvido no metabolismo e destoxificação de toxinas. Um potente hepatoprotetor é o cardo mariano, cujo nome científico é Silybum marianum, do qual usa-se a semente, podendo-se prescrever o extrato seco padronizado em 75 a 80% de similarina (de 150 a 600 mg/dia). O Quadro 3 apresenta a posologia recomendada de cada um dos fitoterápicos com papel na atenuação da acne vulgar. Quadro 3. Formas de administração e posologia dos fitoterápicos com papel na acne vulgar. Nome popular Nome científico Parte usada Doses Padronização do ESP Gimnema Gymnema sylvestre Folhas ESP: 50 a 100 mg, 2 x/dia 75% de ácido gimnêmico Feno Greco Trigonella foenum- graecum Sementes ESP: 300 mg, 2 x/dia 50% de fenosídeo Pata de Vaca Bauhinia forficata Folhas Infusão: 3 g (1 colher de sopa) em 150 ml de água, 2 – 3 xícaras/dia Pó: 400 mg duas vezes ao dia Extrato seco: 250 mg uma vez ao dia Tintura: 30 a 40 gotas três vezes ao dia - Melão de São Caetano Momordica charantia Fruto ESP: 500 mg, 2 vezes ao dia 10% de charantina Garcinea Garcinia camboja Polpa do fruto e casca Extrato seco: 300 – 450mg, 1-2x/dia Pó: 500 mg, 3x/dia Tintura: 30-60 gotas, 2- 4x/dia - Cardo Mariano Silybum marianum Semente ESP: 150 – 600 mg/dia 75% a 80% de silimarina 26 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA Legenda: ESP – extrato seco padronizado. Fitoterápicos com ação na saúde da pele, cabelos e unhas Estudos indicam que a ingestão de luteína e zeaxantina confere fotoproteção à pele, atenuando o envelhecimento cutâneo, bem como melhorando aspectos como textura e hidratação da pele. Por seu papel antioxidante, evidências demonstram que a luteína e a zeaxantina atenuam a peroxidação lipídica e estudos experimentais com ratos demonstram menor dano e maior fotoproteção em ratos suplementados com luteína e zeaxantina e expostos à radiação UV. Além destes compostos estarem presentes em diversos alimentos de coloração vermelha, laranja, amarela, roxa e verde (ex.: manga, mamão, laranja, milho, batata-doce e couve), alguns fitoterápicos também os apresentam em sua composição, como as pimentas e a cúrcuma, podendo ser utilizados com fins de fotoproteção, prevenção do envelhecimento cutâneo e melhora da saúde da pele. Outro recurso bastante utilizado para favorecer a saúde da pele é o cacau e seus flavonóis. Karim et al. (2016) demonstraram que o uso de produtos à base de cacau, como géis, pode reduzir a progressão de rugas após apenas três semanas de uso. Mesmo que não seja de uso tópico, mas sim via suplementação oral, o consumo de flavonóis do cacau parece atenuar o eritrema induzido por radiação UV, aumentar a fotoproteção, aumentar o fluxo sanguíneo na derme e a sua hidratação em mulheres que receberam 326 mg/dia de flavonóis do cacau ricos em catequinas e epicatequinas durante 12 semanas, em estudo realizado por Heinrich et al. (2006). Resultados semelhantes foram obtidos por Yoon et al. (2016) ao suplementar 320 mg/dia de flavonóis do cacau para mulheres com rugas visíveis, em que se observou melhora da elasticidade da pele e a atenuação do agravamento das rugas. Com base nestes estudos, é possível observar que a inclusão do cacau na dieta ou a prescrição de seus flavonóis parece melhorar a saúde da pele, a fotoproteção e atenuar o desenvolvimento de rugas. O resveratrol e as uvas também têm se mostrado compostos com potencial ação de melhorar parâmetros da pele e, até mesmo, atenuar o quadro de melasma. Uma alternativa pode ser a utilização da semente do fitoterápico Vitis vinífera, isto é, a semente de uva, o qual se recomenda a prescrição do extrato seco padronizado em 80 a 27 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA 85% de proantocianidinas (100 a 500 mg/dia) ou a tintura (50 a 100 gotas, 1 a 3 x por dia). Efeitos semelhantes são observados com o uso de Camellia sinensis (chá verde), inclusive no quadro de melasma, e de Punica granatum (romã), a qual utilizam-se o fruto e a casca. Pode-se prescrever o chá de romã, o qual é feito por meio de infusão 1 a 2 g (1 a 2 colheres de chá) em 150 ml de água, o pó de romã 750 a 1.500 mg/dia, o extrato seco 200 a 600 mg/dia e, finalmente, a tintura 2 ml, 2 x ao dia. No que se refere à ação nos cabelos, evidências interessantes são obtidas usando-se Curcuma longa (cúrcuma), Vitis vinífera (uva) e Rosmarinus officinalis (alecrim), os quais parecem atenuar a queda de cabelo, podendo ser utilizados no tratamento de alopecia, especialmente à androgênica, haja vista que são capazes de modular a atividade da enzima 5-alfa-redutase. Não obstante, evidências também demonstram papel destes fitoterápicos na alopecia areata (também observa-se efeito da Punica granatum) e no eflúvio telógeno (também observa-se efeito da Boswellia serrata). Em relação às unhas, alguns fitoterápicos com papel antifúngico, anti-inflamatório e imunomodulador poderiam auxiliar no tratamento de micoses presentes nas unhas, é o caso da canela, da cúrcuma, da romã, da uva, do chá verde, do gengibre, do alho, entre outros. Acerca do alho, cujo nome científico é Allium sativum, usa-se o bulbo e recomenda-se a ingestão de 2 a 5 g de alho cru por dia, de 0,5 a 1,5 g do pó por dia, de 2 a 5 mg do óleo de alho por dia, de 2 a 4 ml da tintura até 3 vezes ao dia ou, finalmente, de 300 a 1.000 mg do extrato seco/dia. 29 FITOTERAPIA APLICADA À ESTÉTICA 3. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Resolução - RDC Nº 10, de 9 de março de 2010. Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Resolução - RDC Nº 26, de 13 de maio de 2014. Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Resolução - RDC N° 267, de 22 de setembro de 2005. Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Resolução - RDC n°219, de 22 de dezembro de 2006. Brasil. Conselho Federal de Nutricionistas (CFN). Resolução – CFN nº680, de 19 de janeirode 2021. Pujol, A.P. Nutrição aplicada à estética. 2ª Ed. Rubio. 2019. Mahan, L.K.; Escott-Stump, S.; Raymond, J.L. 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