Prévia do material em texto
Aula 4 O recalque O recalque é o mecanismo de defesa do eu que impede a manifestação de forças pulsionais na consciência, mantendo essas representações no inconsciente – defesa do eu contra representações dolorosas. É acionado no inconsciente pelo eu para que não surja lembranças dolorosas. Recalque – Conflito Psíquico O recalque é o mecanismo da neurose e através desse mecanismo que divide o sujeito onde parte se torna inconsciente, porque ele não tem consciência plena de suas escolhas. Através dos mecanismos, surge sintomas – o efeito do recalque gera um sintoma neurótico - causando dualidade na consciência. Neurose Neurose é o efeito do mecanismo do eu – os sintomas neuróticos são considerados expressões sofisticadas do material reprimido. Nem sempre o recalque consegue manter esses conteúdos fora da consciência - dessa forma é permitido que se manifestem de forma distorcida, por meio dos mecanismos de deslocamento e condensação - Freud interpreta os mecanismos como metáfora e metonímia. Os sintomas neuróticos são se construir através dessa falha do recalque. As formações do inconsciente: • Sonhos; via régia • Chistes; piadas sem tensão • Atos falhos; “não quis dizer isso” O recalque está intimamente ligado ao complexo de édipo - desejo infantil não vivenciado. O desejo proibido é afastado da consciência e ativo no inconsciente – esse processo gera uma tensão, configurando a base do conflito neurótico. Recalque > vivência edipiana > origem dos conteúdos recalcados. A Clínica da Fantasia • Inconsciente: núcleo; • Pulsão: renúncia; • Desejo: censurado; • Recalque – Fantasia: investimento • =Sintomas. A fantasia se instala para dar conta da falta, do desejo que não pode ser consumado, investido assim na fantasia. Início da vida psíquica e a relação com o outro o desenvolvimento psíquico com uma afirmação primitiva (bejahung). A pulsão é uma energia sexual constantemente forte no psiquismo, buscando prazer, mas encontrando barreiras que impedem a satisfação plena. Sendo assim, o recalque como um mecanismo de defesa, quando a pulão encontra essas barreiras ele entra em cena separando da consciência o conteúdo considerado inapropriado. A falta experimentada pelo sujeito gera o desejo. Freud conceitua a fantasia como uma “realização de desejo” onde os desejos insatisfeitos constituem a força motriz das fantasias. Sintoma: lugar simbólico a ser escutado – na escuta dos sintomas que conseguimos constituir a origem dos sintomas e do sofrimento do sujeito. Sintomas histéricos A histeria é compreendida como uma forma específica de subjetivação - é vista como um modo de inserção nos laços sociais, estruturando por uma fantasia inconsciente orientando o sujeito na sua experiência de vida. O sujeito histérico experimenta uma sexualidade excessivamente corporal, onde o corpo é sexualizado, mas o próprio sexo é evitado, refletindo em um paradoxo em que a excitação libidinal se desloca a outras partes do corpo, manifestando sintomas somáticos. Prazer > Diferenciação da Sexualidade na Infância > Trauma. A sexualidade histérica se baseia na produção de sinais sexuais – deseja que o ato sexual fracasse mantendo o desejo sempre insatisfeito. Portanto, esse estado de insatisfação fantasmática é uma defesa inconsciente contra o gozo pleno e avassalador. Sintomas Obsessivos A neurose obsessiva tem seu sofrimento centrado nos pensamentos, caracterizando-se por ruminações incessantes, dúvidas paralisantes e rituais compulsivos que funcionam como defesa contra a angústia do desejo. Desligamento do desejo > Antecipação do sofrimento (desvio do desejo). O encontro com a sexualidade é vivido de forma traumática, de prazer excessivo. Quando o prazer é trazido a consciência, gera sentimentos de culpa e autorrecriminação - em forma de defesa o sujeito desloca emoções para uma ideia ou preocupação substitutiva. A formação dos sintomas obsessivos ocorre por meio do deslocamento do afeto – tornando o recalque mais frágil em comparação à histeria. A dúvida é uma característica central na neurose obsessiva. Freud compara... • Neurose obsessiva: o sujeito acredita em suas próprias autorrecriminações; • Paranoia: o sujeito projeta a culpa em outra pessoa ou força externa. A tentativa de anular o desejo - estratégia obsessiva Controle do desejo: sujeito tenta reduzir seu desejo ao atender de maneira solícita a tudo que lhe é pedido; Ou se opõe aos pedidos dos outros, criando a ilusão de que está anulando o desejo. • Não suporta o lugar da falta; • Sempre desfaz do desejo do outro. Evita a vivência plena do desejo, mantendo suspensão - o desejo causa angústia. Aula 5 A psicose O principal estudo de Freud sobre as psicoses é o famoso Caso Schreber. Histórico Primeira crise aos 42 anos, quando recebeu a nomeação de um cargo. Segunda crise com 51 anos, quando recebe outra nomeação maior – cargo jurista. Perseguição Acreditava que Deus o perseguia. Sentia sensações de mutilação física e “raios de Deus” atravessando seu corpo com a intenção de testar sua sanidade - delírios e sensações corporais. Transformação em mulher Aceitou sua transformação em mulher como uma missão divina de salvar a humanidade – censurou o pensamento de ser mulher e ser copulado. As Lições do Caso Schreber Houve uma exteriorização de um desejo homossexual não concebido. Freud analisou os delírios considerando como uma tentativa de religar a libido no mundo externo. Lacan propõe que, na psicose, o delírio visa restaurar a função do significante ausente, como a metáfora paterna – reorganiza algo que não havia sido aceito. O delírio é uma forma lógica subjetiva do sujeito. A metáfora paterna vem para dar uma contingência para o sujeito e uma contenção diante da falta, ou seja, o delírio coloca o sujeito diante de seu conflito e mostra que sua falta tem solução. O conflito na psicose é externo, onde se coloca na figura do grande outro. Significante que diz respeito a história do sujeito. O que se trata a alucinação... Interrupção da cadeia significante e a emergência de significantes no real, rompendo a continuidade simbólica e criando um novo tipo de percepção - é um discurso do sujeito, não algo externo se ligando ao sujeito. Para Lacan, a psicose é o resultado de uma exclusão estrutural de um significante central, que compromete o laço com a realidade. Paranoia Quinet, em 2009 introduz o conceito de retenção, explicando a fixação com um significante mestre na paranoia – o sujeito é a relação de um significante com outro significante. Na paranoia, a recriminação é regada ou projetada para projetada no outro, resultando no delírio persecutório - algo que surge como intruso. O significante do gozo é retido, enquanto o da lei é foracluída, levando a uma percepção distorcida da realidade – o significante da retenção, se torna o significante-mestre, estabelecendo um ponto fixo de referência. A paranoia é uma forma de se colocar no laço social. Preso somente a significante em que todos estão remetidos – apenas a uma significação. Esquizofrênia Tem o corpo fragmentado devido à regressão autoerótica, resultando em uma distorção na percepção de si mesmo – corpo fragmentado, regredido. Imaginário Retorno ao autoerotismo, dispersão da imagem sentido, imagem do corpo, despedaçado e eu fragmentado. Real Dispersão do gozo. Simbólico Dispersão, não há mais um significante/ Outro fragmentado. Há uma ausência do S1, o significante-mestre, que organiza a cadeia significante e permite a construção de um discurso coerente – a ausência do S1 leva à dispersão dos significados e à falta de um eixo central que organiza o pensamento e a linguagem. Não há uma linguagem coerente, mas sim fragmentada – regredido a paranoia.Melancolia É uma tristeza estrutural, em contraste com a depressão neurótica, que é transitória e associada a eventos específicos. O melancólico se identifica como um objeto perdido, levando a sentimentos de culpa e autodepreciação. Há uma perca de libido que é muito mais profunda e desestruturante que o luto comum. Freud em 1885 descreveu a melancolia... • Amnésia sexual: perca total de desejo; • Neurastenia: intensa perca de vitalidade, acompanhada de um cansaço extremo e um esgotamento físico e psíquico persistente. • Angústia: não há um mecanismo que economize a angústia, ela se manifesta de maneira crua e direta. • Mania (estado): pode se transformar em mania, mas essa transformação não significa mudança estrutural. Lacan sugere que ocorre um “furo no psiquismo” ou uma falha estrutural que interrompe o encadeamento de associações psíquicas. Esse vazio no simbólico resulta em perda de libido, anestesia sexual e sensação de aniquilação subjetiva. Envolve delírios de ruína em que o sujeito sente que tudo está perdido e sem sentido, acompanhados de extrema culpa. Aula 6 A perversão - forma de entrar no laço social Gera mal-estar por confrontar afetos inconscientes que evitamos reconhecer – estudar a perversão exige enfrentar resistências internas e culturais. Destaca a plasticidade pulsional da infância e ausência de um objeto físico para a libido. O recalque opera, mas o sujeito não renúncia a satisfação pulsional – a perversão está no negativo da neurose e sua satisfação se encontra clara no consciente. O sujeito não cede ao recalque, ele sustenta seu desejo para além da lei e moralidade. O perverso assume o papel ativo em relação ao desejo do outro, buscando colocar-se como objeto para sustentar ou desafiar a lei e o gozo. A Estrutura Perversa na Dialética Edipiana 1. O complexo de édipo estrutura o psíquico, inserindo rivalidade entre a criança e o pai; 2. A criança reconhece que o amor materno não é exclusivo, gerando reorganização afetiva; 3. O perverso admite sua castração, mas nega sua falta no campo simbólico; 4. O sujeito permanece preso a uma falta que não pode ser simbolizada, mantendo a ilusão de completude. Não acolhe a falta, sempre é encobrido assim prevalece seu desejo. O desafio constante à autoridade do outro e a recusa à castração estruturam a dinâmica da perversão. Lacan destaca a falta no outro como o ponto central da perversão, base da estruturação do sujeito. A identificação ao falo da mãe mantém o desejo perverso fixado no gozo infantil. Perversos...desafiam a castração e a autoridade do outro, a transgressão constante e os desafios são os principais mecanismos de defesa e reflete a recusa em aceitar qualquer lei além daquela imposta pelo desejo do sujeito. Entre a Neurose e a Perversão Diagnóstico diferencial: perversão, neurose obsessiva e histeria compartilham traços estruturais, já a transgressão no perverso é distinta. • O perverso desafia a lei do pai, já o neurótico lida com o objeto fálico. • O perverso recusa a lei do desejo do outro e estabelece sua lei de desejo, sendo assim somente sua lei é válida e não se submete ao desejo do outro. • O perverso necessita de um cúmplice para validar seu ato e sustentar sua economia de gozo, o olhar do outro é essencial para a prática perversa – confirma a transgressão e mantém a ilusão do fantasma perverso. • O terceiro elemento é essencial para garantir o gozo e a repetição do ato. Transgressão Ultrapassar um limite, quebrar uma regra ou desobedecer uma lei/norma. Desafia e ultrapassa para provocar o outro e extrair satisfação disso. A Mãe Fálica A perversão se estrutura pela identificação fálica, sustentada pela cumplicidade libidinal da mãe e a complacência silenciosa do pai. A mãe atua respondendo as demandas da criança, mantendo sua atividade libidinal e encorajando a transgressão. O pai assume postura passiva e transfere autoridade para a mãe > Gera confusão nos limites da lei e autoridade, uma vez que a palavra do pai é suplementada pela mãe. A criança internaliza a figura da mãe fálica e isso estrutura seu desejo – orientado pela imagem da mãe, afetando suas relações futuras, podendo buscar essa figura em outros homens. Fetiche Representa a ausência, funciona como um memorial simbólico que tenta encobrir a falta, mas paradoxalmente destaca ainda mais a presença desse vazio. Carrega uma dupla função: 1. Nega simbolicamente a castração; 2. Afirma sua presença. Criando duas realidades opostas ao sujeito.