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REGISTRO DE TÍTULOS E DOCUMENTOS Gabriel Bonesi Ferreira Finalidade do registro de títulos e documentos Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Interpretar os princípios inerentes aos registros públicos. Resumir as diferentes razões para registrar documentos. Descrever o procedimento necessário para registrar um título ou documento. Introdução Os registros públicos são regidos por regras e princípios, uma vez que são uma atividade pública, mas exercida em caráter privado. Existem princípios específicos dos registros públicos e que servem para a solução de conflitos, para nortearem a criação de novas regras, entre outras funções. O registro público exerce um papel relevante social, garantindo a segurança jurídica, a fé pública e a autenticidade de documentos, por meio da publicidade registral, por isso, existem diversas razões para o registro de um documento. O procedimento de registro não é, porém, idêntico a todas as serventias de registro, pois existem particularidades inerentes à atividade de cada uma dessas serventias. Neste capítulo, você vai ler sobre os princípios inerentes aos registros públicos, a finalidade e a importância para se realizar o registro de docu- mentos, bem como o procedimento de registro de títulos, documentos e papéis nos registros de títulos e documentos. 1 Princípios dos registros públicos Os princípios são uma espécie de norma jurídica de caráter mais amplo que podem se concretizar em vários graus de aplicabilidade de acordo com as situações fáticas e jurídicas, por isso, possuem a característica de normas jurídicas de otimização (CANOTILHO, 1993). Os princípios possuem uma dupla função: balizar sua própria aplicação, por meio da ponderação entre eles em suas aplicações no caso concreto, e a aplicabilidade das variadas normas, bem como possuem a função de normas de condutas impositivas em casos específicos. Em razão dessa multifuncionali- dade — ora como ratio legis (função argumentativa ou retórica), ora como lex (norma de conduta) —, são relevantes na solução de conflitos e como base para a aplicabilidade das regras. Assim, de modo geral, os princípios são bastante relevantes no sistema de normas jurídicas contemporâneo. A atividade registral, por ser uma espécie de atividade pública, é regulamentada pelo Estado por meio de diversas espécies de normas legais e infralegais, entre as quais estão incluídos os princípios. Os princípios aplicáveis aos registros públicos são trazidos tanto pela Lei de Cartórios (Lei nº. 8.935, de 18 de novembro de 1994) (BRASIL, 1994) quanto pela Lei de Registros Públicos (Lei nº. 6.015, de 31 de dezembro de 1973) (BRASIL, 1973). Esses princípios balizarão a aplicação das normas registrais em suas aplicabilidades pelos operadores do Direito, na interpretação, no próprio desenvolvimento e na atualização de suas normas gerais e regras. Assim, esses princípios possuem um papel de integração e harmonização interna do ordenamento jurídico, bem como podem até mesmo funcionar como normas de conduta frente a uma situação fática, quando inexistem regras espe- cíficas que determinam impositivamente uma conduta ou outra. Nem sempre, os princípios registrais decorrem de um artigo expresso da lei, na realidade, decorrem muito mais de enunciados e diferentes normas situadas de maneira difusa entre diversos dispositivos e leis (LOUREIRO, 2017). Loureiro (2017) aponta três finalidades principais dos princípios registrais: função informadora ou integradora; função científica; função aplicativa. A função informadora ou integradora expressa que os princípios registrais funcionam como modelos e paradigmas para a edição e criação de novas leis Finalidade do registro de títulos e documentos2 pelo legislador, que devem assegurar que estas se integrem harmonicamente ao sistema jurídico. Desse modo, os princípios se apresentam como paradig- mas que permitem um desenvolvimento harmônico e coerente das normas e regras registrais e servem como ferramentas paradigmáticas para a alteração dessas regras, o que ocorre com as alterações das relações sociais que acabam exigindo atualizações das regras vigentes. A função científica refere-se à utilidade dos princípios para a análise das alterações legislativas, servindo como parâmetros aos doutrinadores e juristas na compreensão das alterações das leis, na análise de seus avanços e nos retrocessos. Os princípios possuem a função estruturante, de alicerce de novas leis e, como tal, servem para a análise das novas leis e da racionalidade lógica de suas construções. Em razão da função aplicativa, os princípios registrais mostram-se como ferramentas para a interpretação das demais normas jurídicas, propiciando meios para a interpretação das leis e solução de conflitos. Possibilitam ainda uma visão unitária do Direito Registral e um meio para a tomada de decisão em casos de omissão ou contradição de regras. Os princípios registrais, portanto, desempenham uma função específica em relação aos registros públicos, o que não significa que os notários e regis- tradores não estejam submetidos a outros princípios. Esses outros princípios decorrem, por exemplo, do fato de exercerem uma atividade pública e, por isso, estarem sujeitos aos princípios gerais da Administração Pública previstos no art. 37 da Constituição Federal (BRASIL, 1988) ou, ainda, a outros princípios específicos de cada uma das atividades notariais ou registrais. A existência de múltiplos princípios aplicáveis aos registros não significa a exclusão ou antinomia entre os princípios. Os princípios coexistem no sistema jurídico de normas. A coexistência de diversos princípios pode gerar conflitos entre eles, quando a sua aplicabilidade ao caso concreto é resolvida pela ponderação e pelo sopesamento, a partir da situação fática e dos princípios aplicáveis. Ao contrário, a convivência de regras é antinômica: ou são válidas e aplicáveis ou são inválidas e inaplicáveis a um determinado caso concreto. Isso faz com que a coexistência de duas regras válidas a um mesmo caso não seja possível, tendo em vista que a aplicabilidade de uma exclui a aplicabilidade da outra (CANOTILHO, 1993). 3Finalidade do registro de títulos e documentos Os princípios analisados a seguir se aplicam a todos os registros públicos, de modo mais ou menos constante, a depender de cada espécie de registro, de modo que essa relação não compreende os princípios específicos a apenas um dos serviços de registro. Isso posto, passemos à análise de cada um desses princípios: Princípio da obrigatoriedade — Todos os registros públicos são, em regra, obrigatórios. Na Lei de Registros Públicos, existe apenas uma hipótese, pre- vista em seu art. 124 (BRASIL, 1973), que impõe a pena de multa pela falta de matrícula dos documentos necessários ao registro de jornais, ofi cinas impressoras, empresas de radiodifusão e agências de notícias. Desse modo, a principal forma de sanção à falta de registro obrigatório e, portanto, ao princípio da obrigatoriedade é indireta àquele que estava obrigado a registrar o documento. A sanção é a não produção dos efeitos jurídicos esperados de um ato ou negócio jurídico, isto é, o interessado não obtém os efeitos e benefícios do registro, como autenticidade, segurança jurídica, fé pública do registro e oponibilidade perante terceiros. A Lei de Registros Públicos (art. 127, VII) (BRASIL, 1973) prevê apenas uma forma de registro facultativo para a mera conservação de documentos. Princípio da rogação ou instância — Segundo esse princípio, o registrador não pode agir de ofício, somente pode realizar o registro mediante provoca- ção. O registro pode ocorrer a requerimento escrito ou verbal do interessado, mediante ordem judicial específi ca, ou ainda por requerimento do Ministério Público, nos casos específi cos da lei. Em regra, o requerimento é verbal e é acompanhado do título em que se pretendedo registro, à exceção de averba- ções e cancelamentos específi cos que devem ocorrer por escrito, com fi rma reconhecida, relacionadas ao registro de imóveis (art. 246, § 1º, da Lei nº. 6.015/1973) (BRASIL, 1973). Existem exceções aos princípios da obrigatoriedade e da rogação ou instância: para a averbação de nomes de logradouros, decretada pelo Poder Público (art. 167, II, nº. 13, da Lei nº. 6.015/1973) (BRASIL, 1973); retificação ou averbação de registro nas hipóteses do art. 213, I, da Lei nº. 6.015/1973 (BRASIL, 1973), como omissão ou erro cometido na transposição de qualquer elemento do título, indicação ou atualização de confrontação, alteração de denominação de logradouro público comprovada por documento oficial, entre outras hipóteses. Finalidade do registro de títulos e documentos4 Princípio da legalidade — O princípio da legalidade tem um duplo aspecto. O primeiro é a obrigatoriedade de respeito das leis pelo registrador, que somente pode agir de acordo com o que a lei prescreve, assim, não pode agir além dos limites legais ou em sua omissão. O outro aspecto refere-se ao controle de legalidade e tem como objetivo impedir o registro de títulos inválidos, inefi - cazes ou imperfeitos. Desse modo, cabe ao registrador analisar a obediência aos requisitos formais e legais do título executivo antes de registrá-lo; essa análise é chamada de exame de qualifi cação (LOUREIRO, 2017). O controle de legalidade visa garantir a segurança jurídica e a validade do título e do registro. Inclusive, se houver alguma exigência necessária para a perfectibilizar o título, o registrador deve exigi-la (art. 198 da Lei nº. 6.015/1973) (BRASIL, 1973). Princípio da prioridade — No momento do protocolo, todos os títulos devem receber um número de ordem de acordo com a sequência de sua apresentação. Essa sequência de apresentação é importante, pois, segundo o princípio da prioridade, o registro deve obedecer à sequência temporal demarcada no ato de apresentação do título. Esse princípio tem especial importância ao direito de preferência dos direitos reais. Princípio da especialidade — Esse princípio determina que, para o registro, o documento ou título deve descrever precisamente um direito. A descrição deve ser individualizada e observar um tipo específi co de direito relativo a uma espécie determinada de objeto contratual. Esse princípio está relacionado à própria teoria dos contratos e dos negócios jurídicos, que exigem que seus objetos sejam certos, determinados ou determináveis. Princípio da continuidade — Pelo princípio da continuidade, os registros devem obedecer a uma cronologia lógica, assim, não pode haver lacunas ou interrupções na corrente registral. Desse modo, não pode haver um registro sobre o qual dependa registro anterior. Princípio da presunção de veracidade ou da legitimidade — O registro confere ao negócio ou ato a presunção de veracidade. Essa presunção decorre da análise dos requisitos formais do negócio ou documento pelo registrador. A presunção de veracidade é do registro, pois o seu conteúdo pode vir a ser inva- lidado perante o juízo competente, o que consequentemente invalida o registro. Princípio da fé pública — Esse princípio garante a validade do negócio jurídico perante terceiros e protege o terceiro de boa-fé, que realizou deter- 5Finalidade do registro de títulos e documentos minado ato ou negócio jurídico com base no que diz o registro público sobre a existência do direito registrado ou a inexistência de direito por ausência de registro ou pelo cancelamento do registro. Princípio da tipicidade — Os títulos registráveis em cada uma das serventias de registro devem ser aqueles legalmente previstos. Caso o título ou docu- mento não seja expressamente atribuído a nenhum ofício, será registrável nos registros de títulos e documentos (art. 127, parágrafo único, da Lei nº. 6.015/1973) (BRASIL, 1973). Princípio da territorialidade — Todos os serviços de registro estão limitados a circunscrições territoriais específi cas. A competência territorial dos diversos serviços de registro é defi nida de modos distintos, por exemplo, pelo local onde o bem está localizado (registro de imóveis), domicílio das partes (registro de títulos e documentos), entre outros critérios, a depender do registro e da serventia específi ca. 2 Finalidades e razões para o registro de documento Os registros públicos, em geral, possuem basicamente três fi nalidades: a publicidade registral; a segurança jurídica; a fé pública. Essas finalidades são conceitos distintos, mas, quando se trata de registro público, estão extremamente interligadas. O aumento da complexidade das sociedades e dos negócios jurídicos foi, aos poucos, exigindo um sistema mais complexo e mais sofisticado para garantir a publicidade e segurança de situações jurídicas específicas. Tais medidas visam à maior segurança dos negócios e atos da vida social, tendo em vista a interligação entre diversos direitos. A rede negocial e a interligação de direitos fizeram perceber que diversos ne- gócios jurídicos, mesmo que privados, possuem reverberações e consequências jurídicas às partes e também a terceiros. Por isso, o Poder Público, por meio de suas instituições, passou a participar, de algum modo, desses negócios jurídicos, tanto para atestar a sua validade quanto para garantir a sua eficácia e os seus efeitos perante terceiros. Finalidade do registro de títulos e documentos6 O art. 221 do Código Civil (BRASIL, 2002) privilegia a validade do ins- trumento particular, garantindo a sua plena eficácia na administração dos bens e como meio de prova de qualquer valor entre as partes. O inciso III do art. 784 do Código de Processo Civil de 2015 (BRASIL, 2015) reconhece o documento particular assinado pelo devedor e por duas testemunhas como título executivo extrajudicial, portanto, passível de processo de execução imediata, sem a necessidade de processo de conhecimento. São diversos os exemplos que demonstram como a legislação brasileira privilegia os instrumentos particulares e os contratos particulares, sem a neces- sidade de participação do Poder Público, para as suas validades e seus efeitos jurídicos. Obrigar a participação do Estado em todas as relações jurídicas seria absolutamente inaplicável, principalmente em um País como o Brasil, com flagrantes diferenças regionais, sociais e econômicas. Além disso, é inviável do ponto de vista administrativo, tendo em vista que seria necessária uma grande rede de instituições governamentais para tanto. Contudo, diversos negócios jurídicos particulares podem gerar efeitos perante terceiros. Em razão disso, o Estado intervém nos negócios jurídicos para esses efeitos ganharem publicidade e serem passíveis de conhecimento aos demais membros da sociedade, o que garante segurança jurídica no mundo negocial e estabilidade das relações sociais. O art. 221 do Código Civil (BRASIL, 2002) prevê também que, apesar de os instrumentos particulares terem validade perante as partes, somente terão efeitos sobre terceiros quando submetidos ao registro público. Os registros de títulos e documentos se inserem nesse contexto para a garantia dos efeitos dos instrumentos particulares perante terceiros. Conforme Loureiro (2017, p. 439), a principal função dessa serventia é: [...] dar publicidade aos direitos pessoais ou obrigacionais, notadamente à circulação desses direitos [...]. O que se registra não são exatamente os títulos, documentos e instrumentos privados considerados como suportes e sim os direitos, atos ou relações jurídicas neles contidos. Assim, as principais vantagens do registro nessas serventias são a pu- blicidade dos títulos e documentos e a consequente validade de direitos e obrigações ali transcritas perante terceiros. Outra função igualmente relevante é o registro de documentos para fins de conservação, ou seja, é possível levar a registro nessa serventia extrajudicial qualquer documentopara meros efeitos de conservação, evitando a perda ou a deterioração desse documento. 7Finalidade do registro de títulos e documentos Loureiro (2017) aponta que, por uma questão histórica, foi atribuído ao primeiro serviço de registro de títulos e documentos do Brasil, criado no Rio de Janeiro em 1871, a função do registro de documentos para fins de conservação e perpetuidade. De modo diverso, nos demais países de notariado latino, a função de conservação de documentos particulares por meio de sua transcrição em livro de notas é uma função típica do notário. O registro público em geral, realizado pelos notários ou pelos diversos serviços de registro, possui em si a função de conservação e perpetuidade. Porém, a particularidade dos registros de títulos e documentos é a possibilidade de registro de qualquer documento para fins de conservação, até mesmo de documentos que devem ser registrados ou escriturados em outras serventias, com a ressalva de que, nesses casos, o registro não terá os mesmos efeitos, servindo apenas para a conservação e prova da existência de documento e data do registro. Com isso, a principal função dos registros de títulos e documentos não é constituir, extinguir ou modificar direito, mas garantir a oponibilidade perante terceiros, isto é, com a constituição de qualquer instrumento particular regis- trável nos registros de títulos e documentos, os direitos e as obrigações são com ele constituídos. Contudo, esses direitos terão validade apenas entre as partes até que sejam levados a registro. Após o ato registral, os documentos e títulos ganham efeitos para fins de prova em processo judicial, como também a oponibilidade desses direitos erga omnes, perante terceiros. Os arts. 128 e 129 da Lei nº. 6.015/1973 (BRASIL, 1973) preveem os títulos registráveis nessas serventias. Além desses documentos, podem ser registrados quaisquer outros documentos para fins de conservação ou mesmo de documentos não registráveis em outros serviços para fins de oponibilidade perante terceiros. Assim, em resumo, o registro de um documento em um ofício de títulos e documentos tem como principais funções a conservação do conteúdo con- signado e a sua eficácia perante terceiros, o que inclui tanto a oponibilidade erga omnes quanto a garantia dos efeitos do negócio particular em relação a terceiros. A eficácia perante terceiros ocorre em razão da publicidade registral, que possui três regras ou efeitos básicos (LOUREIRO, 2017, p. 463): Finalidade do registro de títulos e documentos8 a cognoscibilidade legal — significa a presunção de conhecimento do conteúdo registrado a qualquer interessado; a possibilidade de conhecimento efetivo da informação registrada — qualquer pessoa interessada que comparece à serventia de registro terá acesso à informação que busca e que se encontra registrada; a produção de efeitos jurídicos significativos — a publicidade já produz efeitos e consequências de direito material, gerando a oponibilidade e a eficácia do documento ou título registrado perante terceiros, além de garantir a presunção de autenticidade de seu conteúdo, a prova da data do documento, entre outros efeitos. Podemos citar alguns exemplos de casos em que o registro se mostra vantajoso às partes, além de garantir efeitos perante terceiros, o que evidencia as vantagens e os próprios efeitos do registro. Imaginemos que uma pessoa não teve a sua paterni- dade reconhecida com o seu nascimento. Passados vários anos, seu pai fornece uma declaração escrita de próprio punho e com reconhecimento de firma alegando a existência da paternidade. Para garantir a conservação do documento no qual consta a declaração, evitando a sua perda e deterioração, o interessado pode registrá-lo no registro de títulos e documentos, tendo em vista que essa serventia tem a competência de realizar o registro facultativo de documentos apenas para fins de sua conservação (art. 127, VII, da Lei nº. 6.015/1973) (BRASIL, 1973). Nesse caso, apesar de essa declaração não ser um elemento que constitui a pa- ternidade, uma vez que esta somente pode ser reconhecida nos registros civis de pessoas naturais ou por meio de ação judicial, o documento serve como início de prova material para requerer o reconhecimento da paternidade, bem como faz prova da data de assinatura do documento e do próprio documento, evitando que, mesmo que o original se deteriore, ainda possa ser usado como meio de prova. A paternidade sabidamente não gera apenas efeitos da ordem afetiva, mas dela também decorrem efeitos financeiros, sejam alimentares ou sucessórios. Nesse caso, podemos constatar tanto o caráter supletivo dos registros de títulos e documentos, uma vez que o documento não gera os efeitos práticos e efetivos do reconhecimento da paternidade, quanto os efeitos de conservação e comprovação da data de assinatura do documento, evitando qualquer alegação de simulação quanto à data ou da própria existência do documento. 9Finalidade do registro de títulos e documentos A união estável é reconhecida pelo Código Civil como uma unidade fa- miliar. Às relações patrimoniais desse tipo de relação, aplica-se, em regra, o regime de comunhão parcial de bens (arts. 1.723 e 1.735 do Código Civil) (BRASIL, 2002). A alteração do regime de bens aplicável a esse tipo de união somente pode ser feita por contrato escrito entre as partes, que, para a sua plena validade, pode ser realizado por instrumento particular, que deve ser registrado no registro de títulos e documentos. Imaginemos uma situação em que um dos conviventes, em união estável, é processado para o pagamento de uma dívida. O credor pede a penhora de metade de um bem que se encontra em nome do outro convivente, alegando que ambos vivem em união estável e, portanto, o bem adquirido durante a constância da união estável é de propriedade de ambos, tendo em vista que, para essa modalidade de união, aplicam-se as regras da comunhão parcial de bens. Um modo de evitar a penhora seria a comprovação da data de início da união por meio de um pacto de união estável registrada, sob o fundamento de que a aquisição do bem ocorreu antes da união, não tendo a sua propriedade comungada pelos conviventes, ou ainda por meio de prova de que o regime de bens dos conviventes é outro, da separação total de bens, o que somente pode ocorrer de modo pactual. No segundo caso, a opção por outro regime de bens somente teria efeitos perante terceiros por meio do registro público, apesar de ter plenos efeitos entre os conviventes em caso de eventual separação. O art. 226, § 3º, da Constituição Federal (BRASIL, 1988) reconheceu a união estável como uma forma regular de família, acabando com a discussão sobre o lócus da união estável: se no direito das obrigações ou no Direito de Família, colocando-a definitivamente no âmbito do Direito de Família. O regime de bens da união estável, caso não formalizada, é o mesmo da comunhão parcial de bens. A formalização da união estável pode ocorrer por escritura pública realizada pelos tabeliães de notas ou por meio de instrumento particular registrável nos registros de títulos e documentos. Finalidade do registro de títulos e documentos10 A existência da formalização da união estável é vantajosa aos companheiros, uma vez que é possível estipular o regime de bens diverso do da comunhão parcial, estipular a titularidade dos bens adquiridos antes da união, entre outros aspectos. O documento faz prova jurídica da união do casal para diversos aspectos, como financiamentos de veículos ou bens imóveis, a inclusão do companheiro no grupo familiar de plano de saúde, além de facilitar o reconhecimento dessa condição em caso de pedido de pensão por morte junto ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) ou mesmo como beneficiário em planos de previdência privada, entre outras hipóteses. 3 Procedimento de registro nos registros de títulos e documentos O procedimento de registro nos registros detítulos e documentos é bastante simplifi cado e ocorre a pedido verbal e com a apresentação do título e docu- mento a ser registrado. Após a sua apresentação, é realizado o protocolo, que deverá conter as seguintes informações: [...] a data de sua apresentação, sob o número de ordem que se seguir imedia- tamente, a natureza do instrumento, a espécie de lançamento a fazer (registro integral ou resumido, ou averbação), o nome do apresentante, reproduzindo-se as declarações relativas ao número de ordem, à data, e à espécie de lança- mento a fazer no corpo do título, do documento ou do papel (art. 146 da Lei nº. 6.015/1973) (BRASIL, 1973, documento on-line). Ceneviva (2010) assevera que o protocolo do título — a sua apresentação — é um direito do cidadão que não pode ser negado sob nenhuma hipótese, nem mesmo por alguma exigência fiscal ou dúvida, salvo para simples exame de viabilidade de registro e cálculos dos emolumentos (art. 12, caput, parágrafo único, Lei nº. 6.015/1973) (BRASIL, 1973). Os registros podem ser feitos sob a espécie de registro integral, resumido ou averbação, o que irá influenciar o livro em que será registrada cada uma dessas espécies, como disciplina o art. 132 da Lei nº. 6.015/1973 (BRASIL, 1973). Após o protocolo ser realizado, o documento apresentado deve ser registrado ou averbado no livro devido. Após o registro ou a averbação serem lavrados, devem ser declarados no corpo de título, documento ou papel o número de 11Finalidade do registro de títulos e documentos ordem e a data do procedimento no livro competente, com a rubrica do oficial ou do servidor designado por ele em todas as folhas do título, documento ou papel (art. 147, caput, Lei nº. 6.015/1973) (BRASIL, 1973). A lei diz que o lançamento deve ocorrer em seguida, isto é, de imediato, logo após o protocolo. O art. 148 da Lei nº. 6.015/1973 (BRASIL, 1973) estabelece o procedimento para o registro de documentos em língua estrangeira. Quando se pretende apenas a conservação ou perpetuidade de documento, título ou papel escrito em língua estrangeira, a legislação permite que tais documentos possam ser registrados no original. Contudo, para produzir efeitos no Brasil, inclusive em relação a terceiros, devem obrigatoriamente ser traduzidos para o português, e o original e a sua tradução devem ser registrados. Para efeitos registrais, a tradução deve obrigatoriamente ser realizada por tradutor público juramentado; mesmo que o oficial de registro compreenda e seja versado na língua estrangeira do documento, é obrigatória a sua tradução por tradutor público juramentado (CENEVIVA, 2010). O art. 149 da Lei de Registros Públicos estabelece ainda que: Art. 149 Depois de concluídos os lançamentos nos livros respectivos, será feita, nas anotações do protocolo, referência ao número de ordem sob o qual tiver sido feito o registro, ou a averbação, no livro respectivo, datando e rubricando, em seguida, o oficial ou os servidores referidos no art. 142, § 1º (BRASIL, 1973, documento on-line). A anotação é o ato do registrador que visa à plena satisfação das funções do registro, de modo a deixar a informação disponível a qualquer interessado. Trata-se de um ato que deve ser realizado de ofício, fazendo parte do procedimento de registro do título ou documento após lançamento do registro nos livros específicos (CENEVIVA, 2010). Após o lançamento, deve ser feita a anotação remissiva no protocolo para que futuramente a serventia possa certificar qualquer alteração futura dos registros. Trata-se de anotações cruzadas nos livros, ou seja, no livro de registro, ocorre a anotação do protocolo e, no livro de protocolo, é feita a remissão ao livro de registro, o que visa estabelecer um vínculo cronológico sucessivo de registro para o caso de alterações do documento registrado, como, por exemplo, no caso de averbações. Inclusive, quando um interessado solicitar a certidão de um documento registrado, na certidão, o oficial de registro deve Finalidade do registro de títulos e documentos12 obrigatoriamente mencionar as alterações posteriores que tenham ocorrido após o registro original, sob pena de responsabilização civil e penal (art. 21, caput, da Lei nº. 6.015/1973) (BRASIL, 1973). O registro dos documentos deve obedecer ao princípio da prioridade, de modo que os registros devem ser realizados em ordem cronológica, de acordo com o protocolo, um seguido do outro, do mesmo modo que futuros registros e averbações (art. 151, caput, da Lei nº. 6.015/1973) (BRASIL, 1973). O princípio de prioridade é aplicável a todos os registros e objetiva justamente criar uma cadência lógica entre os registros anteriores e posteriores, além de garantir o direito indiferenciado dos apresentantes, que têm conhecimento que os registros serão de acordo com a ordem de protocolo. No caso de apresentação de vários documentos em uma oportunidade, todos deverão receber uma numeração individual, mas, se forem de natureza idêntica para os lançamentos da mesma espécie, serão lançados no protocolo englobadamente (art. 150, caput, Lei nº. 6.015/1973) (BRASIL, 1973). Em regra, o registro nos registros de títulos e documentos deve ocorrer no mesmo dia, e os atos para o registro são sucessivos e devem ocorrer tão logo o documento seja apresentado. Ao final do expediente diário, o oficial de registro deve lavrar um termo de encerramento datado e assinado, incluindo os números de protocolo dos títulos cujos registros foram adiados e os motivos do adiamento (art. 154 da Lei nº. 6.015/1973) (BRASIL, 1973). Por esse motivo — ao contrário, por exemplo, do registro de imóveis, para o qual a lei confere o prazo de 30 dias para a realização, principalmente para que o exame de qualificação seja profundo —, o exame de qualificação do documento ou do título apresentado no registro de títulos e documentos é sumário, “[...] pois o que se inscreve não é o negócio jurídico consubstanciado no instrumento ou documento, mas simplesmente o título” (LOUREIRO, 2017, p. 484). Isso não significa a total ausência de critérios ou de exame de qualificação, ainda que sumário, tendo em vista o art. 156 da Lei nº. 6.015/1973: “Art. 156 O oficial deverá recusar registro a título e a documento que não se revistam das formalidades legais” (BRASIL, 1973, documento on-line). Essa análise é exclusivamente dos requisitos extrínsecos e dos requisitos formais do negócio, como quando constatados: incapacidade absoluta de uma das partes; ilicitude do objeto; documento estrangeiro desacompanhado de tradução; ausência de assinatura de uma das partes quando se trata de negócio jurídico bilateral; 13Finalidade do registro de títulos e documentos ausência de certidões tributárias, quando a lei exige. O parágrafo único do art. 156 da Lei de Registros Públicos (BRASIL, 1973) complementa que, se houver suspeita de falsificação do documento, o oficial pode sobrestar o registro, após o seu protocolo, e notificar o apresentante dessa circunstância. Caso o apresentante insista na realização do registro, o oficial de registro deve fazê-lo, incluindo nota da suspeita de falsificação, podendo submeter a dúvida ao juízo competente ou notificar o apresentante para assistir ao ato do registro e mencionar nesse ato as suas últimas alegações aduzidas. A escolha de qualquer das opções é de exclusivo critério do registrador. Caso o registrador opte pelo processo de dúvida, deve submeter a questão ao juiz corregedor, assim, esse processo terá natureza administrativa. Desse modo, apesar de existir a possibilidade de registro de qualquer documento para fins de conservação nos registros de títulos e documentos, não se trata efetivamente de qualquer documento, mas daqueles que respei- tem ao menos os pressupostos extrínsecos, pois o ato do registro, ainda que para fins de conservação, pode causar insegurança jurídica e confusões nas relações sociais. O registro de documentos falsos, ilegais e clandestinos registrados,mesmo que para fins de conservação, não pode ser aceito, posto que esses documentos podem vir a ser utilizados como meios de fraudar a lei e lesar terceiros, o que não pode ser legitimado pelos princípios mais gerais do Direito. Inclusive, sobre isso, “[...] as normas da[s] Corregedoria[s] são claras quanto à vedação de registro de título, documento ou papel que não se revista das formalidades legais exigíveis” (LOUREIRO, 2017, p. 484). Sobre a responsabilidade dos oficiais quanto à análise dos pressupostos para registro de documento, o art. 157 da Lei de Registros públicos prevê: Art. 157 O oficial, salvo quando agir de má-fé, devidamente comprovada, não será responsável pelos danos decorrentes da anulação do registro, ou da averbação, por vício intrínseco ou extrínseco do documento, título ou papel, mas, tão-somente, pelos erros ou vícios no processo de registro (BRASIL, 1973, documento on-line). Finalidade do registro de títulos e documentos14 Desse modo, mesmo nos casos em que um documento venha a ser anulado ou necessite de averbação, o registrador de títulos e documentos não deve ser responsabilizado, salvo se tenha agido de má-fé; a má-fé deve ser comprovada, assim, o mero fato da anulação ou averbação do documento não gera a presun- ção de má-fé do registrador. Porém, o registrador pode ser responsabilizado por erros ou vícios do processo de registro em si. Tendo em vista as disposições legais que incluem até mesmo um exame sumário do documento a ser registrado pelo registrador de títulos e documentos, seria incabível a sua responsabilização pelos vícios intrínsecos, que são aqueles relacionados à substância ou ao conteúdo do documento. O vício extrínseco é aquele vício externo não essencial, que pode ser imperceptível ao registrador. BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF, 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 6 maio 2020. BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Lei n. 6.015, de 31 de dezembro de 1973. Dispõe sobre os registros públicos e dá outras providências. Brasília, DF, 1973. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L6015compilada.htm. Acesso em: 6 maio 2020. BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Lei n. 8.935, de 18 de novembro de 1994. Regulamenta o art. 236 da Constituição Federal, dispondo sobre serviços notariais e de registro (Lei dos Cartórios). Brasília, DF, 1994. Disponível em: http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/LEIS/L8935.htm. Acesso em: 6 maio 2020. BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Brasília, DF, 2002. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ leis/2002/l10406.htm. Acesso em: 6 maio 2020. BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Có- digo de Processo Civil. Brasília, DF, 2015. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm. Acesso em: 6 maio 2020. CANOTILHO, J. J. G. Direito constitucional. 6. ed. rev. Coimbra: Almedina, 1993. CENEVIVA, W. Lei dos registros públicos comentada. 20. ed. São Paulo: Saraiva, 2010. LOUREIRO, L. G. Registros públicos: teoria e prática. 8. ed. Salvador: Juspodivm, 2017. 15Finalidade do registro de títulos e documentos Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Finalidade do registro de títulos e documentos16