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a igualdade no pensamento de dworkin

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1 
 
UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE 
FACULDADE DE DIREITO 
 
 
 
 
 
 
MARCOS PAULO FALCONE PATULLO 
 
 
 
 
 
 
 
A IGUALDADE NO PENSAMENTO DE RONALD DWORKIN 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SÃO PAULO 
2009 
 
 
 
 
2 
 
UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE 
FACULDADE DE DIREITO 
 
 
 
 
 
 
 
A IGUALDADE NO PENSAMENTO DE RONALD DWORKIN 
 
 
 
 
 
Dissertação de Mestrado apresentada à Banca Examinadora 
da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana 
Mackenzie como exigência para a obtenção do grau de 
Mestre em Direito Político e Econômico. 
 
 
 
 
ORIENTADOR: Professor Doutor Hélcio Ribeiro 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SÃO PAULO 
2009 
 
 
 
3 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
P322i Patullo, Marcos Paulo Falcone. 
 A igualdade no pensamento de Ronald Dworkin / Marcos Paulo 
 Falcone Patullo – 2009. 
 210 f. ; 30 cm. 
 
 Dissertação (Mestrado em Direito Político e Econômico) – 
 Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2010. 
 Bibliografia: f. 203-210. 
 
 1. Igualdade de recursos. 2. Liberdade. 3. Comunidade liberal. 
 4. Direito. 5. Moralidade. I. Título. 
 
 
 
 
4 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“a guerra é o tema lancinante da filosofia política, e a 
paz, o da filosofia do direito”. 
 Paul Ricoeur 
 
 
 
5 
 
AGRADECIMENTOS 
 
 
Aos meus pais, pelo exemplo de vida, amor e carinho. 
 
Ao Professor Hélcio Ribeiro, pelo incentivo em fazer o mestrado pela Faculdade 
de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie e por toda a sua dedicação 
no decorrer da orientação. 
 
Aos meus amigos e familiares, pelo fundamental apoio nos momentos difíceis, e 
por compartilharem minhas alegrias. 
 
A toda a equipe do Vilhena Silva Advogados Associados, que na luta pela 
concretização do direito à saúde, contribui para a aplicação prática dos 
conhecimentos adquiridos durante o curso de mestrado. 
 
À CAPES, pelo apoio e incentivo financeiro, essenciais para o desenvolvimento 
do presente trabalho. 
 
À Luiza, amor da minha vida, companheira de mais de 10 anos, por completar 
minha existência. 
 
 
 
 
6 
 
 
RESUMO 
 
 
O estudo da filosofia política de Dworkin, especialmente a sua concepção de 
“igualdade de recursos”, é essencial para a apreensão de seu pensamento 
jurídico. Sem dúvida, a teoria “Direito como Integridade” utiliza alguns 
conceitos, tais como a personificação da comunidade, interpretativismo e 
construtivismo, que pressupõem conceitos políticos basilares do liberalismo 
dworkiniano. Quando Dworkin sustenta que o intérprete deve perquirir a 
interpretação que mostre a lei “sob a sua melhor luz”, ele tenciona que os 
juristas têm o dever de fazê-la a melhor em termos igualitários. Assim, é muito 
importante compreender como a igualdade de recursos é desenvolvida como a 
concretização do direito que todo cidadão possui em uma democracia liberal de 
ser tratado com igual respeito e consideração, bem como a concepção 
dworkiniana de liberdade e comunidade, para após proceder à análise de sua 
filosofia do direito. Finalmente, após conectar o liberalismo igualitário 
dworkiniano e sua teoria jurídica, mister verificar como a filosofia de Dworkin 
pode ser aplicada à sociedade brasileira, que é marcada pela pobreza e exclusão 
social. 
 
Palavras-Chave: Igualdade de Recursos – Liberdade – Comunidade liberal – 
Direito – Moralidade 
 
 
 
 
7 
 
ABSTRACT 
 
The study of Dworkin’s political philosophy, specially his conception of 
“equality of resources”, is essential for the apprehension of his legal thought. 
Indeed, his “Law as Integrity” theory uses some concepts, like the 
personification of the community, interpretativism and constructivism, which 
presupposes some background political concepts of dworkinian liberalism. In 
fact, when Dworkin defends that the interpret must pursue the interpretation that 
shows law “in its best light”, he means that jurists’ duty is to make it the best in 
terms of equality. Thus, it is very important to understand how equality of 
resources is developed as the concretization of the right every citizen has in a 
liberal democracy of being treated with equal concern and respect, as well as 
Dworkin’s conception of liberty and liberal community, for then proceeding to 
his jurisprudence. Finally, after connecting dworkinian egalitarian liberalism 
and his legal theory, it’s imperative to see how Dworkin’s philosophy can be 
applied to the Brazilian society, which is marked by poverty and social 
exclusion. 
 
 
Key-Words – Equality of Resources – Liberty – Liberal Community – Law - 
Morality 
 
 
 
 
8 
 
 
SUMÁRIO 
 
Introdução 11 
 
Capítulo I – O Conteúdo Normativo do Princípio Igualitário Abstrato 18 
1.1. A evolução da idéia de igualdade no pensamento dworkinano 19 
1.2. A igualdade de bem-estar e a crítica de DWORKIN 22 
1.2.1. A igualdade de bem-estar como tentativa de fundamentação do 23 
 princípio da igualdade 
1.2.1.1. As teorias da igualdade de bem-estar relacionadas com o sucesso 24 
1.2.1.1.1. Igualdade de sucesso e as preferências humanas (políticas, 25 
impessoais e pessoais) 
1.2.1.1.2. A igualdade de satisfação (equality of enjoyment) e as 32 
teorias objetivas da igualdade de bem-estar 
1.3. O equalisandum dworkiniano: a igualdade de recursos 34 
1.3.1. Igualdade na propriedade privada de recursos 37 
1.3.2. A construção do mercado igualitário a partir do exemplo contractual 40 
1.3.2.1. O leilão igualitário fictício como modelo avaliativo das 43 
Instituições reais 
1.3.2.2. O leilão sensível à ambição e insensível às circunstâncias: 45 
sorte, deficiências e seguro hipotético 
1.3.2.3. O leilão insensível à dotação: o problema das deficiências 48 
1.3.2.4.. O leilão insensível à dotação II: a questão da sorte genética 53 
 
 
 
9 
 
1.4. A concretização do seguro hipotético: o sistema tributário redistributivo 56 
 
Capítulo II – Igualdade de Recursos e Liberdade 65 
2.1. Direito à Liberdade ou Direito a Liberdades? 66 
2.2. Como (re)conciliar a igualdade e a liberdade? 68 
2.2.1. A estratégia dos interesses 68 
2.2.2. A estratégia constitutiva: a liberdade como pressuposto da igualdade 70 
2.2.2.1. O princípios e subprincípios que regem os direitos de liberdade 72 
2.3. A questão do deficit de recursos e de liberdade 76 
2.4. A crítica de Amartya Sem ao Liberalismo Dworkiniano 78 
2.4.1. A resposta de Dworkin 83 
 
Capítulo III – Comunidade e Ética no pensamento dworkiniano 87 
3.1. Os argumentos pelo perfeccionismo moral 89 
3.1.1. O argumento majoritário 90 
3.1.2. O argumento paternalista 91 
3.1.3. O argumento do interesse pessoal 93 
3.1.4. O argumento do Comunistarismo Republicano Cívico 95 
3.2. O republicanismo cívico liberal de DWORKIN: a comunidade liberal 97 
3.3. Comunidade e boa-vida 99 
3.3.1. O conceito de boa-vida (The Good Life) 100 
3.3.1.1. O “Modelo do Impacto” e a Ética Utilitarista 100 
3.3.1.2. Igualdade de recursos e boa-vida: o “Modelo do Desafio” 102 
 
 
 
10 
 
3.3.1.2.1.Descartes e o surgimento do conceito de subjetividade humana 102 
3.3.1.2.2. O Modelo do Desafio: a justiça como métrica do viver bem 104 
3.4. As dimensões da dignidade humana 107 
 
Capítulo IV – A Filosofiado Direito Dworkiniana 111 
4.1. O positivismo jurídico 112 
4.1.1. HART e o Conceito de Direito 112 
4.1.2. A interpretação do direito nas doutrinas positivistas: um paralelo 118 
entre HART e KELSEN 
4.2. O Direito como Integridade 125 
4.2.1. A limitação estrutural da teoria de Herbert Hart 125 
4.2.2. A integridade como ideal político e a sua manifestação no Direito 131 
4.2.3. A interpretação construtivista dworkiniana 133 
4.2.3.1. Razão Prática e o Construtivismo Político 134 
4.2.3.2. A atitude interpretativa e a definição do Direito como 137 
objeto interpretativo 
4.3. Ceticismo, Coerência e a Tese da Resposta Certa 145 
4.3.1. O predomínio e declínio do Ceticismo na teoria política normativa 146 
4.3.2. O Ceticismo no Direito e a crítica dworkiniana 151 
4.3.3. Integridade e Coerência 154 
4.3.3.1. A crítica de HABERMAS ao “princípio monológico” 157 
de DWORKIN 
 
 
 
 
11 
 
4.3.3.2. A crítica de RICOEUR: a falta de uma teoria da argumentação 160 
no pensamento dworkiniano 
4.3.4. Uma leitura da “tese da resposta certa”: o dever buscar 162 
 a melhor solução 
 
Capítulo V – O Pensamento Dworkiniano e a Interpretação da 169 
Constituição Federal de 1988 
5.1. A Colocação do Problema Prático 170 
5.2. Uma questão interpretativa 174 
5.3. A Crise do Estado Social e o Direito à Saúde 180 
5.3.1. O problema da governabilidade 182 
5.4. A importância de se recorrer à Teoria Política Normativa 185 
5.4.1. O liberalismo igualitário e o Estado brasileiro 187 
5.4.2. A solução divergente 190 
 
Conclusão 196 
 
Referências Bibliográficas 203 
 
 
 
11 
 
INTRODUÇÃO 
 
 Qual é a importância da teoria política1 para o Direito? Esse é, sem dúvida 
alguma, um dos temas mais instigantes da filosofia do direito, e que permeia 
todo o pensamento jusfilosófico de DWORKIN. 
 Por muitos anos, por conta da preocupação cientificista do positivismo 
jurídico, houve certo distanciamento da filosofia jurídica e da teoria política 
normativa. Com efeito, o dogma positivista segundo o qual “a validade de uma 
norma do direito positivo é independente da validade de uma norma de justiça2” 
é tido como uma verdade axiomática no ensino do direito, notadamente nas 
universidades brasileiras. Por essa razão, inclusive, o estudo da filosofia do 
direito muitas vezes se limita à análise da crítica positivista às doutrinas 
jusnaturalistas, sem, no entanto, abordar a tradição jusfilosófica que ora se 
pretende expor. 
 Na presente dissertação, assim, analisar o pensamento dworkiniano, com 
enfoque em sua teoria liberal-igualitária. Ao fazê-lo, no entanto, tem-se como 
meta ressaltar o papel e a relevância dos principais valores constitutivos da 
teoria política liberal3, nomeadamente, a igualdade, a liberdade e a fraternidade, 
para a interpretação e justificação racional do Direito. 
 
1
 Utiliza-se, aqui, o termo “teoria política”, “teoria política normativa” ou mesmo filosofia política como “um 
ramo da filosofia moral que parte da descoberta, ou aplicação, de noções morais na esfera das relações políticas”, 
in BERLIN, Isaiah. Estudos sobre a Humanidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 228. Não se 
pretende, nesse sentido, contrapor Política e Moral, mas sim conferir àquele termo o significado que lhe foi 
atribuído pelos filósofos, como RAWLS e HABERMAS, que compõem o que ABBAGNANO denomina de 
“renascimento da filosofia prática”, posto que “voltaram a empenhar o discurso filosófico nos grandes temas da 
liberdade e da justiça. E isso segundo um modelo criativo-normativo de filosofia P., voltando a responsabilizar 
os filósofos em relação às instituições fundamentais de uma sociedade organizada, ou seja, a engajar-se na 
“construção de mundos habitáveis, por via de razões”, cf. ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 
Edição revista e ampliada. 5.ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 906. 
2
 KELSEN, Hans. O problema da Justiça. Tradução: João Baptista Machado. São Paulo: Martins Fontes, 2003, 
p. 11. 
3
 O termo “Liberalismo” não é de fácil conceituação. Tradicionalmente, em termos políticos, a partir da 
exposição de filósofos como MILL, o liberalismo é tido como uma doutrina individualista, e que prima pela 
prevalência da liberdade sobre a igualdade. Trata-se, portanto, de uma visão extremamente conservadora e que 
predomina, mormente, na Europa e no Brasil. Já na tradição norte-americana, especialmente a partir da década 
de 1970, com a publicação de “A Theory of Justice”, houve o desenvolvimento da teoria liberal com uma 
 
 
 
12 
 
Mas qual a razão da escolha, entre esses três ideais fundadores do 
liberalismo, da igualdade? A igualdade é, sem dúvida, um valor político muito 
caro para a República Federativa do Brasil, e integra o conteúdo normativo dos 
princípios constitucionais fundamentais previstos no artigo 1.º da Constituição 
Federal. Outrossim, a igualdade está prevista, como direito fundamental, no 
artigo 5.º, caput, da Lei Maior, o que apenas corrobora a sua importância para a 
ordem jurídica pátria. Em que pese a relevância política e jurídica desse ideal, 
não foi conferido ao mesmo o destaque teórico que lhe é devido. 
De fato, quase a totalidade dos publicistas pátrios que se debruçaram 
sobre o tema, limitaram à análise do conteúdo “jurídico” do princípio da 
isonomia. Talvez a melhor obra sobre a igualdade que foi produzida no direito 
brasileiro foi escrita por Celso Antônio Bandeira de MELLO4, na qual, define-se 
o “conteúdo político-ideológico” da igualdade com a seguinte definição: “a Lei 
não deve ser fonte de privilégios ou perseguições, mas instrumento regulador da 
vida social5”. Embora louvável a preocupação de MELLO com a igualdade, 
verifica-se que a mencionada definição nada mais faz do que uma definição 
“formal” da igualdade, sendo certo que nada de “político-ideológico” se extrai 
da definição supra senão a repetição a idéia, expressa no artigo 5.º, caput, da 
Constituição6, de que a lei não pode estabelecer discriminações ilógicas e deve 
buscar a proteção dos direitos necessários à ordenação da vida social. 
O erro cometido por MELLO, qual seja, o de buscar na própria lei a 
definição da igualdade, é cometido pela imensa maioria dos constitucionalistas, 
 
preocupação igualitária. Em contraposição ao conservadorismo de outrora, o liberalismo passa a ser concebido, 
por RAWLS, como “a resposta mais funcional à exigência atual de uma “sociedade bem organizada”, baseada na 
justiça e no pluralismo”. É nesse contexto que se insere o pensamento dworkiniano e, por conseguinte, é com 
esse conteúdo semântico que se utilizará o termo “Liberalismo” na presente dissertação. 
4
 MELLO, Celso Antônio Bandeira. Conteúdo Jurídico do Princípio da Igualdade. 3.ª ed. 14. ª Tiragem. São 
Paulo: Malheiros. 
5
 Idem. Ibidem. p.10. 
6
 “Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos 
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à 
propriedade(...)” 
 
 
 
13 
 
e tem a sua origem na tradição juspositivista que domina o ensino do direito no 
Brasil. 
A definição do conteúdo valorativo do princípio igualitário não é 
apreendido mediante análise do texto constitucional. Para tanto, há a 
necessidade de se recorrer à teoria política normativa. Aliás, esse ramo do 
conhecimento é de fundamental importância para a análise do direito 
constitucional de uma forma geral, o que levou, inclusive, DWORKIN a 
afirmar, expressamente, que nenhum constitucionalista, atualmente, pode 
ignorara leitura de “A Theory of Justice” de JOHN RAWLS 7. 
A igualdade, substancialmente compreendida, deve ser perquirida na 
teoria política normativa. A esse respeito, todavia, a justiça rawlsiana representa 
um corte teórico extremamente relevante, eis que, conforme dito, representa 
uma releitura dos pressupostos da teoria liberal, a partir de uma visão igualitária. 
Pode-se afirmar, com toda certeza, que RAWLS foi um dos pensadores que mais 
influenciou o pensamento dworkiniano. Em um de seus mais recentes livros, 
DWORKIN “confessa” que existem muitos pontos comuns entre a sua teoria 
filosófica e o pensamento rawlsiano. Mais do que isso: DWORKIN considera 
tamanha a importância de John RAWLS para a filosofia moderna que chega a 
compará-lo com a importância que o próprio KANT possui para a Filosofia8. 
Essa característica do pensamento dworkiniano, qual seja, a sua “raiz 
rawlsiana”, não foi devidamente explorada pelos juristas. Com efeito, 
DWORKIN é sempre apresentado pelos estudiosos do direito como um 
jusfilósofo anti-positivista. No entanto, o alicerce político-normativo de seu 
 
7
 “Professor Rawls of Harvard, for example, has published an abstract and complex book about justice which no 
constitutional lawyer will be able to ignore (A Theory of Justice, 1972) There is no need for lawyers to play a 
passive role in the development of a theory of moral rights against the state, however, any more than they have 
passive in the development of legal sociology and legal economics. They must recognize that law is no more 
independent from philosophy than it is from other disciplines. DWORKIN, Ronald. Taking Rights Seriously. 
Cambridge: Harvard University Press, 1977, p. 149. 
8
 DWORKIN, Ronald. Justice in Robes. Cambridge: The Belknap Press of Harvard University Press, 2006, p. 
261. 
 
 
 
14 
 
pensamento jurídico é deixado de lado. E, nesse sentido, a melhor forma de 
analisar a contribuição do liberalismo igualitário dworkiniano para seu 
pensamento jurídico é através da análise da igualdade. 
Assim, a escolha pela “igualdade no pensamento de Ronald Dworkin” foi 
motivada tanto pela possibilidade de aprofundamento no estudo desse ideal 
político, quanto pela apreensão da essência do pensamento dworkiniano, que é, 
hodiernamente, um dos mais relevantes no meio acadêmico. 
Ronald DWORKIN nasceu em 1931, em Worcester, Massachusetts, e 
graduou-se direito na Faculdade de Direito de Havard, na década de 1950. Foi 
assessor, entre 1957-58, do Juiz Learned Hand na United States Court of 
Appeals. Após, tornou-se membro do New York bar e associado do escritório de 
advocacia Sullivan and Cromwell entre 1958-62. Academicamente, sua carreira 
iniciou-se em 1962, na Faculdade de Direito de Yale. Posteriormente, em 1969, 
foi indicado para a cadeira de Filosofia do Direito de Oxford, como sucessor de 
HERBERT HART, onde permaneceu até 1998. Além de Oxford, DWORKIN 
também lecionou nas faculdades de direito de Harvard, Cornell e Princeton, 
além de ser professor convidado da University College London desde 1984. 
Atualmente, DWORKIN leciona Filosofia do Direito na New York University 
School of Law 9. 
Seu primeiro artigo foi publicado no Journal of Philosophy em 1963 e 
versava a respeito da discricionariedade judicial. Em seguida, outros artigos 
foram escritos, sendo neles identificável uma tese anti-utilitarista (que emergia 
na filosofia política norte-americana) e uma forte influência do pensamento de 
JOHN RAWLS. Foi, no entanto, com a publicação, no University of Chicago Law 
Review do artigo “Is Law a System of Rules?”, em 1968, na qual critica o 
 
9
 GUEST, Stephen. Profiles in legal theory: Ronal Dworkin. California: Stanford University Press, 1991, p. 
01-02. 
 
 
 
 
15 
 
pensamento de HART, que o autor norte-americano ficou conhecido no mundo 
jurídico. 
DWORKIN tem, outrossim grande influência das escolas Britânica e 
norte-americana. Com efeito, no ano de 1952, quando o Professor HERBERT 
HART tornou-se titular da cadeira de filosofia do direito na Universidade de 
Oxford, o estudo e desenvolvimento da filosofia do direito, bem como a teoria 
política, estavam em crise na Inglaterra. Na década de 1950 foram publicadas de 
algumas obras10 cujo principal foco era o rigor metodológico, e que motivaram o 
surgimento de grandes discussões a respeito da filosofia jurídica. Todavia, foi 
em 1961, com a publicação de “O Conceito de Direito” (The Concept of Law), 
de HERBERT L.A.HART, que a Jurisprudência britânica ganhou a claridade e rigor 
lingüístico e metodológico necessários para o seu pleno desenvolvimento. 
Já nos Estados Unidos, o desenvolvimento da argumentação jurídica se 
dava a partir da prática dos tribunais, o que é, até hoje, uma marcante 
característica da Jurisprudência norte-americana. DWORKIN, como dito, 
iniciou a sua produção científica na década de 1960, em plena ocorrência da 
Guerra do Vietnã e do Movimento pelos Direitos Civis. Duas questões, portanto, 
emergiam desses fatos históricos: a questão da legitimidade da atuação estatal, e, 
relacionado a esta, a da inviolabilidade dos direitos individuais. Ambos os temas 
têm presença marcante na filosofia dworkiniana, uma vez que tratar a todos os 
cidadãos com “igual respeito e consideração” é a condição sine qua non para a 
legitimidade substantiva do governo democrático, o que exige o reconhecimento 
de certos direitos fundamentais que são invioláveis pela atuação estatal. 
A presente dissertação visa examinar, a partir da igualdade, o pensamento 
dworkiniano, tanto no seu aspecto político-normativo, quanto a sua filosofia do 
 
10
 Dentre elas, Stephen Guest cita The Vocabulary of Politics (1953), de T.D. Weldon; The Province and 
Function of Law(1946), de Julius Stone; Law and Social Change in Contermporary Britain (1951) e Legal 
Theory (1967), de Wolfgang Friedman; e, finalmente, Introduction to Jurisprudence (1959), de Dennis Lloyd. 
Cf. GUEST, op cit., p.03. 
 
 
 
16 
 
Ddireito. Nesse sentido, o Capítulo 01 será dedicado à exposição pormenorizada 
da “igualdade de recursos” dworkiniana, conceito essencial para o entendimento 
dos demais temas que serão abordados nos Capítulos subseqüentes. Após, no 
Capítulo 02, enfocar-se-á a principal característica do liberalismo igualitário 
dworkinano: a compreensão da igualdade e da liberdade como ideais políticos 
complementares, e não conflitivos. Conforme será visto, DWORKIN sustenta 
que esses valores políticos interagem de uma forma peculiar e que não entram 
genuinamente em conflito. Nesse Capítulo, ainda, será analisada a crítica que 
SEN tece a DWORKIN e a importância da mesma para a compreensão do 
presente objeto de estudo. 
Por sua vez, o Capítulo 03 será reservado ao estudo do conceito 
dworkiniano de comunidade liberal e de boa-vida. O entendimento da teoria 
“Direito como Integridade” deve começar pela idéia de Republicanismo Cívico 
Liberal que DWORKIN expõe no Capítulo 05 de “Sovereign Virtue”, sendo 
certo que a concepção de “comunidade personificada” é de importância impar 
para a doutrina dworkiniana. O fechamento da teoria política de DWORKIN se 
dará com o estudo da questão do viver bem, e, finalmente, com as dimensões da 
dignidade da pessoa humana, composta pelos princípios da responsabilidade 
individual e do valor intrínseco da pessoa humana. 
A partir do Capítulo 04, o foco da dissertação passa a ser a teoria do 
direito dworkiniana, a qual tentar-se-á analisar com vistas ao que foi exposto nos 
três primeiros Capítulos. Pretende-se, na verdade, mostrar a importância da 
compreensão do pensamento ético-político de DWORKIN para a correta 
apreensão de sua teoria do direito. De fato, a filosofia política exerceum papel 
decisivo no desenvolvimento do pensamento jurídico de DWORKIN, tanto na 
definição dos conceitos interpretativos, como, especialmente, no entendimento 
da one right answer thesis. 
 
 
 
17 
 
Passa-se, no Capítulo 05, da abstração para a concretude, visto que, a 
partir da análise de um problema concreto, qual seja, a questão do fornecimento 
gratuito, pelo Estado, de medicamentos de alto custo, far-se-á uma leitura do 
artigo 196 da Constituição Federal à luz do pensamento dworkiniano. Objetiva-
se, com isso, demonstrar como as filosofias política e jurídica de DWORKIN 
podem contribuir para a interpretação do direito brasileiro, desde que a mesma 
seja usada com critério, mediante a feitura das mitigações necessárias à 
adaptação do pensamento dworkiniano para o caso brasileiro. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
18 
 
CAPÍTULO I 
O CONTEÚDO NORMATIVO DO 
PRINCÍPIO IGUALITÁRIO ABSTRATO 
 
 A igualdade é um valor fundamental na teoria de dworkiniana. Sem 
dúvida, o autor norte-americano dedica boa parte de sua obra a defender uma 
interpretação extensiva da cláusula de igual proteção contida na Constituição 
Americana, a qual representa, para ele, o texto legal que insere o princípio 
igualitário abstrato na vida política norte-americana. Nesse sentido, visando 
definir o conteúdo normativo desse princípio, DWORKIN constrói uma teoria 
geral da igualdade, em especial na obra “Sovereign Virtue”. Se no âmbito da 
teoria do direito DWORKIN pode ser considerado um “pós-positivista”, 
politicamente, seu pensamento se insere na mesma linha da filosofia rawlsiana, 
ou seja, como um liberal igualitário, visto que defende a conciliação (e não o 
conflito) entre a igualdade e a liberdade. 
No aludido livro, DWORKIN ressalta a importância que a igualdade tem 
para legitimar um governo democrático, defendendo que o Estado tem o dever 
de demonstrar igual consideração (equal concern) para com todos os cidadãos 
que estão sob o seu domínio, aos quais invoca lealdade11. Considerando a 
importância legitimadora da igualdade, DWORKIN pretende oferecer uma 
concepção igualitária que fortaleça esse ideal, que perdeu importância nas 
doutrinas liberais a partir do século XIX. 
 Mas o que pode fazer da igualdade um ideal político atraente? Em 
primeiro lugar, cumpre salientar que DWORKIN não é defensor de uma 
igualdade indiscriminada. Pelo contrário, ele se preocupa em rechaçar, logo na 
Introdução de “Sovereign Virtue”, a concepção da igualdade indiscriminada 
 
11
 DWORKIN, Ronald. Sovereign Virtue: the theory and practice of equality. Massachusetts: Harvard 
University Press, 2000, p. 1. 
 
 
 
19 
 
defendida pela “velha esquerda12”, a qual sequer pode ser considerada, segundo 
ele, como um ideal político genuíno13. Embora DWORKIN não mencione 
expressamente, a crítica ao que denomina “velha esquerda” é dirigida à teoria 
marxista. É deveras controverso se o marxismo pode ser propriamente 
considerado uma teoria da justiça. Com efeito, o problema da Justiça não era 
uma preocupação de MARX, eis que a idéia que permeia a sua filosofia é a de 
que “com a chegada do comunismo iriam desaparecer (...) as ‘circunstâncias da 
justiça’. A escassez e os conflitos seriam reduzidos, ao ponto de tornar 
desnecessária qualquer apelação à justiça14”. 
Por essa razão, DWORKIN desconsidera o marxismo como fonte de um 
ideal igualitário, eis que, para o filósofo norte-americano, o princípio da 
igualdade deve ser complexo e dotado de diversos critérios definidores das 
situações em que se deve prezar pela igualdade, e daquelas em que o próprio 
tratamento igualitário pode ser injusto. A “igualdade de recursos” dworkiniana 
(equality of resources), visa elaborar um ideal igualitário dotado da 
complexidade que falta à “igualdade indiscriminada marxista”, e parte de uma 
crítica das teorias da igualdade de bem estar 
 
1.1. A EVOLUÇÃO DA IDÉIA DE IGUALDADE NO PENSAMENTO 
DWORKINANO 
 A igualdade é mencionada por DWORKIN em diversos de seus escritos, 
mas ganhou relevância teoria em “Taking Rights Seriously”, onde DWORKIN, 
 
12
 Ressalte-se, desde já, que DWORKIN não prima pela precisão técnica do vocabulário que utiliza, o que 
representa, inclusive, uma dificuldade que o seu leitor deve superar, já que não são incomuns as inovações 
terminológicas no decorrer de sua obra. 
13
 DWORKIN. Sovereign…, op. cit., p. 02. 
14
 “Marx simplemente se desentendía de las cuestiones de la justicia, porque pensaba que con la llegada del 
comunismo iban a desaparecer (lo que Hume o Rawls llamaron) las “circunstancias de la justitcia”. La escasez 
y los conflictos se iban a ver reducidos, hasta el punto de tornar innecesaria cualquier apelación a la justicia”. 
GARGARELLA, Roberto. Las teorias de la justicia después de Rawls: un breve manual de filosofia 
política. Barcelona: Paidós, 1999, p. 106. Gargarella menciona, ainda, autores como Richard Miller, que 
sustentam que Marx tinha uma verdadeira aversão à justiça, e outros como Zayid Husami, que entendem que o 
filósofo alemão possuía, implicitamente, uma teoria da justiça. 
 
 
 
20 
 
no capítulo 12, define o conceito de “equal concern and respect”. Argumenta 
que quando se afirma que um governo tem o dever de tratar a todos com “equal 
concern and respect”, pode-se ter em mente duas interpretações possíveis. A 
primeira é no sentido de que o conteúdo abstrato do direito a “igual respeito e 
consideração” manifesta-se como um direito a “equal treatment” (tratamento 
igualitário), ou seja, “(direito) à mesma distribuição de bens e oportunidades que 
foi ou é dada a qualquer outra pessoa15”. Outra interpretação possível é que 
“equal concern” acarreta o direito a “treatment as an equal” (tratamento como 
um igual), que diz respeito ao direito a “igual respeito e consideração nas 
decisões políticas acerca da forma como esses bens e oportunidades deverão ser 
distribuídos 16”. Essa distinção entre equal treatment e treatment as an equal é 
sutil, mas de vital importância. 
Equal treatment, segundo a definição proposta por DWORKIN, diz 
respeito a uma igualdade à mesma parcela de recursos a que foi dada aos demais 
indivíduos, o que dá margens à “igualdade indiscriminada” defendida pela 
“velha esquerda” e, conforme visto acima, é tão criticada por DWORKIN. Por 
sua vez, o direito a tratamento “como um igual” (treatment as an equal) deve 
ser visto como um direito de fundamental importância para a concepção liberal 
de igualdade, eis que atribui ao governo o dever de considerar as circunstâncias 
pessoais de cada indivíduo quando da tomada da decisão política que 
determinará a distribuição de recursos na sociedade, o que significa, por 
exemplo, que o governo tem que levar em consideração as deficiências (físicas, 
mentais, etc) que determinados indivíduos têm para definir a política tributária 
que será adotada17. 
 
15
 “(right) to the same distribution of goods and opportunities as anyone else has or is given”. DWORKIN. 
Taking…, op. cit., pp. 272-273. 
16
“equal concern and respect in the political decision about how these goods and opportunities are to be 
distributed”. Idem. Ibidem. p. 273. 
17
 Essa é, inclusive, uma preocupação que já se encontra na teoria liberalismo igualitário de JOHN RAWLS e 
que será colocada em evidência por DWORKIN. Nesse sentido, cf. RAWLS, John. A Theory of Justice. 
Revised Edition. Cambridge, Massachusetts: The Belknap Press of Havard University Press, 1999, pp. 86 e ss. e 
 
 
 
21 
 
 DWORKIN foi criticado pela demasiada abstração com a qual definiu o 
direito à igualdade, conforme podemos observar nos comentários que PAUL 
GAFFNEY tece à teoria do direitode dworkiniana, no sentido de que é muito 
difícil se extrair um programa político da definição formal que DWORKIN faz 
da igualdade, mostrando-se surpreso com o fato de que o autor norte-americano 
não se esforçou em dar contornos mais concretos à sua concepção de igualdade: 
“Inacreditavelmente, Dworkin não dedica muita energia para essa questão, 
apesar de sua centralidade 18”. 
Realmente, tendo em vista apenas a forma como DWORKIN define a 
igualdade em “Taking Rights Seriously”, que é seu livro de maior destaque, a 
crítica feita por GAFFNEY é pertinente. Todavia, em escritos posteriores à 
aludida obra, DWORKIN refinou a sua concepção de igualdade, dando à mesma 
contorno mais concreto. Sem embargos, no artigo “Why Liberals Should Care 
about Equality?”, que atualmente encontra-se publicado em “A Matter of 
Principle”, DWORKIN refere-se a uma concepção de “igualdade de recursos”, 
introduzindo a idéia de que uma teoria da igualdade, enquanto ideal genuíno do 
Estado Liberal, deve respeitar as “escolhas autênticas” dos indivíduos e 
neutralizar as circunstâncias naturais19. 
No entanto, foram nos artigos “What is equality? Part I: equality of 
welfare” e “What is equality? Part II: equality of resources”, publicados 
originalmente na revista “Philosophy and public affairs” em 1981, e que hoje 
compõem o livro “Sovereign Virtue”, que DWORKIN desenvolveu por 
completo a sua defesa da igualdade de recursos. 
 
VITA, Álvaro de. O liberalismo igualitário: sociedade democrática e justiça internacional. São Paulo: 
Martins Fontes, 2008, pp.114 e ss. 
18
 “Incredibly, Dworkin does not devote too much energy to this question, despite its centrality”. GAFFNEY, 
Paul. Ronald Dworkin on law as integrity: rights and principles of adjudication. New York: Mellen 
University Press, 1996, p. 108. 
19
 DWORKIN, Ronald. A Matter of Principle. Cambridge: Harvard University Press, 1985, pp. 205 e ss. 
 
 
 
22 
 
Outrossim, em seu livro mais recente, denominado “Is democracy 
possible here?”, DWORKIN faz menção a dois princípios éticos que 
fundamentam a sua teoria liberal, que comporiam as dimensões da dignidade da 
pessoa humana20, demonstrando que esses princípios devem constituir uma base 
comum (common ground) para a discussão dos assuntos políticos de maior 
relevância na sociedade americana. Esse assunto será abordado no Capítulo III. 
Por ora, cumpre analisar a forma como DWORKIN elabora a defesa da 
igualdade de recursos a partir de uma crítica de uma concepção igualitária que 
coloca o bem-estar como parâmetro igualitário. 
 
1.2. A IGUALDADE DE BEM-ESTAR E A CRÍTICA DE DWORKIN 
Existem várias concepções políticas igualitárias, sendo este termo 
“igualdade” utilizado por diversos autores para defender modelos distributivos 
divergentes. Visando esclarecer esse problema, SEN defende que as doutrinas 
igualitárias devem buscar a resposta à pergunta “igualdade de quê” (equality of 
what?), visto que em cada uma das teorias igualitaristas “a igualdade é buscada 
em algum espaço – um espaço que considera como tendo um papel central nessa 
teoria”21. Assim, todas as doutrinas que defendem uma espécie de igualdade que 
considera relevante acabam por aceitar uma desigualdade em algum 
determinado espaço, considerado de somenos importância. Nesse sentido, 
defender a igualdade significa definir alguma espécie de igualdade que deva 
prevalecer sobre as demais, de modo que “proponentes do igualitarismo não 
podem portanto simplesmente se dizer igualitários, devem apontar em que 
 
20
 DWORKIN, Ronald. Is democracy possible here? Principles for a new political debate. Oxford: Princeton 
University Press, 2006, p. 09 e ss. 
21
 SEN, Amartya. Desigualdade reexaminada. 2.ª Ed. Tradução: Ricardo Doninelli Mendes. Rio de Janeiro: 
Record, 2008, p. 44. 
 
 
 
23 
 
dimensão (isto é, espaço) uma sociedade de iguais busca a igualdade entre as 
pessoas”22. 
 A resposta à pergunta “igualdade de quê” pode ser considerada um marco 
teórico na doutrina dworkiniana, visto que é a partir da separação entre 
“doutrinas da igualdade de bem-estar” e “igualdade de recursos” que ele 
constrói o conteúdo normativo do princípio igualitário. Nesse diapasão, 
DWORKIN reserva um capítulo inteiro de “Sovereign Virtue” para analisar (e 
desconstruir) a igualdade de bem-estar (equality of welfare), para posteriormente 
expor a sua teoria da igualdade de recursos. 
 
1.2.1. A IGUALDADE DE BEM-ESTAR COMO TENTATIVA DE FUNDAMENTAÇÃO DO 
PRINCÍPIO DA IGUALDADE 
As doutrinas da igualdade de bem-estar concebem o princípio igualitário a 
partir de uma racionalidade econômica, contemplando os recursos sociais de 
acordo com sua capacidade de produção de bem-estar para os indivíduos23. 
Nesse contexto, a igualdade de bem-estar está relacionada com a forma de 
distribuição desses bens para que as pessoas tenham igual bem-estar em sua vida 
social considerada como um todo. Tendo isso em vista, a questão que 
DWORKIN coloca é se a igualdade em bem-estar deve ser um objetivo a ser 
alcançado por um governo comprometido com o princípio abstrato da 
igualdade24. 
 No entanto, preliminarmente à discussão da igualdade de bem-estar, 
DWORKIN propõe uma classificação da mesma a partir de três grandes grupos. 
 
22
 FERRAZ, Octávio Luiz Motta. Justiça distributiva para formigas e cigarras. Novos estud. - CEBRAP 
[online]. 2007, n.77 [cited 2009-12-16], pp. 243-253.Disponível em : <http://www.scielo.br /scielo. php? 
script=sci_arttext&pid=S0101-33002007000100013&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0101-3300. doi: 
10.1590/S0101-33002007000100013. Acesso em 17.12.2009. 
23
 Para Dworkin, a produção de bem estar era vista, pelos economistas, como a principal característica dos 
recursos sociais, cf.DWORKIN. Sovereign..., op. cit., p. 14. 
24
 Idem. Ibidem. p. 15. 
 
 
 
24 
 
O primeiro grupo ele denomina de “teorias do sucesso” (success theories)25” do 
bem-estar, às quais estariam relacionadas com o êxito dos indivíduos na 
comunidade26. Já o segundo grupo da classificação proposta por DWORKIN 
contém as denominadas “teorias do estado de consciência”, segundo as quais “a 
distribuição deve tentar objetivar igualar as pessoas, na medida do possível, em 
algum aspecto ou qualidade de sua vida consciente27”. Dessa modo, as teorias do 
estado de consciência estão relacionadas com a quantidade de prazer e de 
desprazer (igualdade de satisfação) que um indivíduo sentirá em sua existência. 
Por fim, DWORKIN menciona as teorias objetivas do bem-estar, que requerem 
a construção de parâmetros objetivos para a mensuração do bem-estar na 
sociedade. 
 
1.2.1.1. As teorias da igualdade de bem-estar relacionadas com o sucesso 
 A igualdade de bem-estar, na modalidade ora em exame, relaciona-se com 
o sucesso ou êxito que uma pessoa atinge na sociedade no decorrer de sua vida. 
DWORKIN inicia a discussão acerca das “teorias do sucesso” do bem-estar para 
verificar se o “sucesso” deve ser um parâmetro na elaboração de uma teoria 
geral da igualdade, ou seja, se a igualdade, em sua substância, exige que o 
Estado atue de forma a igualar os indivíduos quanto ao êxito, considerado este 
em suas mais diversas formas. Nesse contexto, DWORKIN questiona: “se (...) 
nós podemos alcançar a igualdade de bem-estar em alguma dessas concepções, 
 
25
 Jussara Simões, na edição brasileira do livro Virtude Soberana, publicada pela editora Martins Fontes, sugere a 
tradução dessa expressão como “teorias bem sucedidas do bem-estar”, mas eu preferi por não adotar essa 
tradução e manter a expressão consoante se encontrano original em inglês. 
26
 Cumpre salientar que DWORKIN relaciona o êxito de uma pessoa a três fatores, a saber, às preferências 
políticas, pessoas e impessoais do indivíduo. Assim, para aqueles que defendem irrestritamente que a igualdade 
de bem-estar é uma questão de êxito, os bens sociais devem ser distribuídos de forma a que as pessoas consigam 
ter sucesso de forma equânime em suas mais diversas preferências (políticas, pessoais ou impessoais). Já outras 
teorias mais restritas podem limitar a igualdade de bem-estar na modalidade êxito a cada uma dessas 
preferenciais. Cada um desses fatores será oportunamente conceituado e relacionado com a igualdade de bem-
estar, de modo a que esta distinção fique mais clara. 
27
“distribution should attempt to leave people as equal as possible in some aspect or quality of their conscious 
life” (tradução do autor). DWORKIN. Sovereign..., op. cit., p. 18. 
 
 
 
25 
 
seria desejável, em nome da igualdade, que isso realmente seja feito?28”. 
Visando responder a essa pergunta, DWORKIN faz uma análise das teorias do 
sucesso da igualdade de bem-estar em suas mais diversas facetas, 
nomeadamente, considerando as preferências políticas, impessoais e pessoais 
dos indivíduos e relacionando-as com uma possível teoria geral da igualdade. 
 
1.2.1.1.1. Igualdade de sucesso e as preferências humanas (políticas, 
impessoais e pessoais) 
 Uma das formas que DWORKIN considera relevante para ser tratada 
como igualdade de sucesso diz respeito às preferências políticas dos cidadãos. 
A pergunta que se faz é se o ideal da igualdade, em seu grau mais abstrato, exige 
que as pessoas sejam niveladas com relação ao sucesso obtido em suas 
preferências políticas. Mas o que DWORKIN quer dizer por “preferência 
política”? Para o filósofo norte-americano, o termo preferência política (political 
preference) pode ser utilizado com um sentido mais amplo e um mais restrito, 
mas sempre estará relacionada com preferências a respeito de “como, na 
comunidade, os bens, recursos e oportunidades devem ser distribuídos para os 
outros29”, ou seja, diz respeito às diversas formas de distribuição dos bens 
sociais e oportunidades no seio social, em decorrência das decisões políticas 
tomadas na comunidade. 
 Não se pode ignorar, todavia, que toda decisão política é contestável e 
desagradará, via de regra, algum grupo social. Assim, caso o ideal da igualdade 
abranja uma cláusula de igual sucesso em preferências políticas, cada grupo que 
se sentir afetado negativamente por uma decisão política teria o direito a uma 
compensação recursal por isto. Todavia, para DWORKIN, a igualdade não 
 
28
 “If (…) we could achieve equality of welfare in some of these conceptions, would it be desirable, in the name 
of equality, to do so?”. DWORKIN. Sovereign…, op. cit., p. 21. 
29
“how the goods, resources, and opportunities of the community should be distributed to others.”. Idem. 
Ibidem. p. 17. 
 
 
 
26 
 
acarreta o direito a uma compensação àqueles prejudicados por uma decisão 
tomada coletivamente, pois considera que a questão da distribuição dos bens 
sociais não pode ser vinculada ao existo em uma decisão política, por tratar-se 
de uma questão de justiça. Com efeito, DWORKIN reconhece que existem 
divergências políticas em uma sociedade e que sempre alguém será prejudicado 
pela escolha de uma política pública em detrimento de outra, mas conclui que a 
igualdade, abstratamente, não exigem uma compensação para tanto, posto que a 
distribuição dos recursos sociais deve ser feita de acordo com parâmetros de 
justiça distributiva. Nesse sentido, pode-se concluir que DWORKIN não trata a 
igualdade como uma questão preferência política, mas como uma questão de 
justiça: 
(...) uma boa sociedade é aquela que trata a concepção de igualdade 
que a sociedade endossa não apenas como preferências que algumas 
pessoas possam ter, e, assim, como uma fonte de realização que possa 
ser negada a alguns e que deva ser, posteriormente, compensada de 
outras formas, mas como uma questão de justiça que deve ser aceita 
por todos porque está certa. Uma sociedade desse tipo não 
compensará pessoas por terem preferências que suas instituições 
políticas fundamentais declararem que é errado que elas as tenham30. 
 
 O sucesso ou insucesso em uma preferência política, nesse contexto, 
relaciona-se com o bem-estar individual, e não com a igualdade propriamente 
dita. A igualdade não determina, por conseguinte, que as pessoas sejam 
igualadas em sucesso em preferência política. 
Mas o bem-estar de uma pessoa na sociedade não diz respeito apenas às 
suas preferências políticas, já que existem outras duas espécies de preferências 
que podem ser levadas em conta para quantificar o mesmo. A primeira delas são 
as preferências impessoais, quer dizer, aquelas relacionadas com fatos 
 
30
 “(...) a good society is one that treats the conception of equality that society endorses, not simply as a 
preference some people might have, and therefore as a source of fulfillment others might be denied who should 
then be compensated in other ways, but as a matter of justice that should be accepted by everyone because it is 
right. Such a society will not compensate people for having preferences that its fundamental political institutions 
declare it is wrong for them to have.” DWORKIN. Sovereign..., op. cit., p. 23. 
 
 
 
27 
 
exteriores ao indivíduo e ao seu meio relacional31, como por exemplo, o apreço 
pelo avanço científico, ou pelo desenvolvimento do esporte, etc. São todas 
preferências que não estão diretamente relacionadas com a vida de quem as têm. 
Seria compensável, assim, um eventual insucesso em uma preferência 
impessoal? 
No entendimento de DWORKIN, uma eventual compensação financeira 
em virtude da frustração de uma preferência impessoal não só não se justifica à 
luz da igualdade como, também, a frustra32. Sem embargo, as o insucesso em 
uma preferência impessoal, embora seja um fato externo ao indivíduo, apenas 
gera uma perda de bem-estar, afetada pela subjetividade inerente à mesma, que 
não pode ser quantificada objetivamente para uma compensação recursal. 
Assim, a igualdade de sucesso, compreendida como sucesso nas 
preferências políticas dos indivíduos, ou como sucesso em atingir as 
preferências impessoais não constitui argumento suficiente para, invocando o 
ideal da igualdade, se pleitear uma compensação por eventual frustração. 
DWORKIN analisa, então, se a igualdade de bem-estar entendida como 
obtenção de sucesso nas preferências pessoais dos indivíduos pode ser 
considerado um ideal político forte, no sentido de fundamentar o dever do 
Estado de tratar a todos como iguais em bem-estar e constituir uma circunstância 
pessoal que possa, em nome da igualdade, justificar que uma reparação 
(financeira ou de alguma outra ordem) por parte do Estado em caso de 
desigualdade. 
 A igualdade de sucesso nas preferências pessoais significa que o Estado 
tem o dever de promover uma política distributiva de modo que os indivíduos 
obtenham igual êxito em suas circunstâncias pessoais, consideradas em seu 
próprio ponto de vista, ou seja, de acordo com o seu próprio ponto de vista. 
 
31
 DWORKIN. Sovereign…, op. cit., p. 17. 
32
 Idem. Ibidem.p. 27. 
 
 
 
28 
 
Nesse diapasão, essa forma de igualdade exige que o indivíduo faça um juízo 
valorativo sobre a sua própria vida sob dois enfoques diferentes: o êxito seu 
relativo e êxito total33. Por êxito relativo de um indivíduo DWORKIN considera 
o sucesso na realização das metas que ele fixou para a sua vida, de modo a fazê-
la uma vida que tenha valor aos seus próprios olhos. O importante, no êxito 
relativo,é o sucesso em atingir os objetivos pessoais que uma pessoa escolheu 
com a ambição de fazer algo relevante na sua existência enquanto ser humano34. 
 Ora, a igualdade de sucesso relativo em preferências pessoais está 
claramente fundamentada no direito que cada um tem de escolher o melhor para 
sua vida e no dever de fazê-lo da melhor maneira possível, utilizando os bens de 
forma instrumental para atingir ao sucesso em suas preferências pessoais e, 
conseqüentemente, produzir bem-estar. Mas, sob o prisma da igualdade, decorre 
daí, novamente, uma dificuldade: o subjetivismo. De fato, as pessoas valoram o 
seu sucesso (ou fracasso) pessoal de formas diferentes, utilizando critérios 
diferentes. Por exemplo, imagine-se dois escritores que não se conhecem e que 
têm como objetivo escrever uma obra de sucesso. Ocorre, então, que cada um 
escreveu um romance, os quais venderam um milhão de cópias cada. É possível 
afirmar positivamente que os escritores atingiram seus objetivos? Será que os 
dois escritores imaginários considerarão que seus livros são um sucesso a ponto 
de satisfazer uma preferência pessoal? Não necessariamente. 
Pode ocorrer que um escritor fique extremamente feliz e satisfeito com 
relação à vendagem de seu livro, mas que o outro escritor ache que sua obra foi 
um fracasso, pois, exigente que é, acha merecia ter vendido mais cópias. Agora 
a pergunta fundamental: será possível, invocando-se a igualdade, sustentar que o 
 
33
 DWORKIN. Sovereign..., op. cit., p. 28. 
34
 Idem. Ibidem. p. 30-31. 
 
 
 
29 
 
escritor que considerou sua obra um fracasso mereça receber mais recursos do 
que o escritor que se considerou bem sucedido? Evidente que não35. 
 Outra dificuldade concernente ao sucesso pessoal relativo (ou seja, aquele 
relacionado com os objetivos que cada um traçou para si) é que esse critério de 
igualdade determinaria uma distribuição de recursos de uma pessoa para outra 
por razões que ambas valoram de forma diferente, ou melhor, nas palavras de 
DWORKIN: 
dinheiro é dado para uma pessoa e não para outra, ou tirado de uma e 
dado para outra, com o objetivo de se alcançar a igualdade em relação 
a algum valor que alguns valoram mais do que outros e que alguns 
valoram muito pouco, ao custo da desigualdade em algo que outros 
atribuem um maior valor36. 
 
Dessa forma, DWORKIN considera injusta a distribuição de recurso sob 
um critério que seja meramente subjetivo, ou seja, que considera apenas o que 
cada pessoa escolhe para si, já que cada indivíduo pode valorar de forma diversa 
o que é importante para sua vida. Assim, o sucesso relativo não pode ser 
utilizado como critério para uma teoria geral da igualdade. Mas com relação às 
preferências pessoais, deve ser considerado ainda o êxito absoluto, ou seja, o 
êxito considerando não com relação às escolhas pessoais do indivíduo, mas a 
sua vida como um todo. 
 Qual o critério para se avaliar o sucesso (ou insucesso) da vida de um 
indivíduo? Da mesma forma como no sucesso relativo, o critério deverá ser o 
próprio indivíduo, pois, conforme explica DWORKIN, é ele quem, avaliando a 
sua vida como um todo, dirá se conseguiu fazer algo de valioso de sua 
 
35
 Em “Sovereign Virtue”, DWORKIN utiliza um exemplo parecido e expressa a mesma opinião. Cf. 
DWORKIN. Sovereign…, op. cit., p. 31 e ss. 
36
“money is given to one rather than another, or taken from one for another, in order to achieve equality in a 
respect some value more than others and some value very little indeed, at the cost of inequality in what some 
value more” Idem. Ibidem. p. 31. 
 
 
 
30 
 
existência37. Assim, o indivíduo é o parâmetro se as suas preferências pessoais 
foram atingidas ou não. Aqui ocorre o mesmo problema de subjetividade 
observado com relação à igualdade de êxito relativo. DWORKIN demonstra, 
através de exemplos utilizando pessoas fictícias, denominadas “Jack” e “Jill”, 
que as concepções políticas, o humor, ou mesmo as convicções filosóficas 
podem influenciar na avaliação que uma pessoa tem de sua própria vida38. 
DWORKIN pressupõe uma situação hipotética em que “Jack” e “Jill”, embora 
tenham vidas parecidas, avaliam de maneira oposta os valores que conseguiram 
agregar na sua existência, não pelo fato objetivo de suas vidas serem diferentes, 
mas porque possuem concepções de vida diversas39. Nesse contexto, conclui o 
DWORKIN: 
As diferenças nos julgamentos pessoais acerca do quão bem suas 
vidas vão, consideradas no geral, são antes diferenças em suas vidas, 
do que apenas diferenças em suas crenças, apenas quando constituem 
diferenças em realização, e não em fantasia ou convicção, o que é, 
acredito, uma questão de mensuração pessoal do sucesso ou fracasso 
em face de algum padrão que estabeleça o que deveria ter sido, e não 
apenas o que poderia ter sido. A comparação importante e pertinente 
aqui me parece que é essa. Quanto mais as pessoas possam 
razoavelmente se lamentar de não ter feito alguma coisa de suas vidas, 
menos sucesso terão tido em suas vidas consideradas no todo40. 
 
 DWORKIN, portanto, sustenta que a igualdade não comporta, para fins de 
redistribuição de bens na sociedade, argumentos puramente subjetivos acerca do 
sucesso/insucesso total do indivíduo. Portanto, a idéia que percorre a crítica de 
DWORKIN para as teorias da igualdade de bem-estar é a de que “nós não 
 
37
 DWORKIN. Sovereign..., op. cit., p. 32. 
38
 DWORKIN coloca diversas hipóteses envolvendo esses personagens, e conclui que a subjetividade que 
envolve as diferentes avaliações do sucesso/insucesso da vida de pessoas com recursos semelhantes não pode 
servir de argumento para que a transferência de recursos de uma para outra. Cf. Idem. Ibidem. p. 36. 
39
 Idem. Ibidem. p. 38. 
40
 “Differences in people’s judgments about how well their lives are going overall are differences in their lives, 
rather than simply differences in their beliefs, only when they are differences not in fantasy or conviction but in 
fulfillment, which is, I take it, a matter of measuring personal success or failure against some standard of what 
should have been, not merely of what conceivably might have been. The important and presently pertinent, 
comparison seems to me this. The more people can reasonably regret not having done something with their 
lives, the less overall success their lives have had (grifei)”. Idem. Ibidem. p. 38. 
 
 
 
31 
 
podemos igualar as pessoas apenas segundo os seus próprios critérios sobre o 
que é o sucesso geral de uma vida41”. Mas como, então, se pode avaliar 
objetivamente a vida de um indivíduo? 
Com essa finalidade, DWORKIN introduz a noção de lamentação 
razoável (reasonable regret), sustentando que uma pessoa somente pode 
fundamentar o insucesso de sua vida como um todo se não possuir o que 
razoavelmente ela teria direito a ter em uma sociedade comprometida com o 
princípio igualitário. Com isso, DWORKIN afasta, por exemplo, a hipótese de 
um indivíduo sustentar que sua vida é um insucesso (e que por isso merece uma 
compensação de recursos) porque ele não conseguiu ser o melhor jogador de 
futebol do mundo, porque ninguém pode, razoavelmente, pretender tanto. A 
pessoa pode até ter a ambição de ser o melhor jogador, mas não pode dizer que é 
um fracasso somente por não ter conseguido esse objetivo42. Portanto, 
DWORKIN sustenta que, para que a igualdade de êxito absoluto tenha algum 
atrativo enquanto ideal político, deve ser compreendida a partir do conceito de 
lamentação razoável. Todavia, o que pode ser considerada uma lamentação 
razoável? 
 O conceito de lamentação razoável tem a função de inserir um critério 
objetivo para a avaliação da igualdade de êxito. No entanto,assevera 
DWORKIN que dizer que uma pessoa somente pode se lamentar daquilo que ela 
razoavelmente poderia ter durante sua vida não está vinculado com o seu bem-
estar, mas com a distribuição de recursos na sociedade. Nesse sentido, conclui 
que “a métrica da lamentação razoável para determinar o sucesso geral faz 
suposições acerca de qual distribuição é justa, sobre a distribuição que cada 
 
41
 “we cannot make people equal on the criterion of their own judgment of overall success alone”. GUEST, op. 
cit., p. 261. 
42
 DWORKIN desenvolve esse mesmo raciocínio, mas com exemplos diferentes, em Sovereign..., op. cit, p. 39 e 
ss. 
 
 
 
32 
 
pessoa tem direito43”. Nesse diapasão, a inserção da idéia de lamentação 
razoável é vista por DWORKIN como possível somente “com o uso de algum 
esquema de distribuição justa dos recursos, no qual o julgamento acerca do 
sucesso geral não está incluído44”. 
Seguindo essa linha de raciocínio, a lamentação razoável conexiona-se 
com a justiça distributiva entendida enquanto igualdade nos recursos, e não com 
a igualdade de bem-estar, de modo que a igualdade de êxito não pode ser visto 
como um ideal atrativo de forma independente, já que, para que ganhe contornos 
objetivos, depende de um conceito que está relacionado com a igualdade de 
recursos. Portanto, DWORKIN deriva a igualdade de recursos exatamente da 
impossibilidade de se construir uma concepção da igualdade de bem-estar 
independente, o que leva à conclusão de que a essência da igualdade não está no 
bem-estar, mas em uma teoria da distribuição de igualitária de recursos. 
 
1.2.1.1.2. A igualdade de satisfação (equality of enjoyment) e as teorias 
objetivas da igualdade de bem-estar 
Existem, no entanto, duas tentativas de vincular a igualdade ao bem-estar 
sem utilizar a idéia de igualdade de êxito. A primeira delas diz que a produção 
de bem-estar na sociedade não está relacionada com o êxito, mas com a 
quantidade de prazer e desprazer que o indivíduo sente no decorrer de sua vida. 
Assim, retira-se o êxito do centro da teoria da igualdade e coloca-se a satisfação, 
que é um estado de consciência e, assim, relaciona-se com as preferências 
humanas (assim como a igualdade de êxito). Da mesma forma que na igualdade 
de êxito, a igualdade de satisfação também depende das preferências (políticas, 
impessoais, pessoais relativas e pessoais absolutas). DWORKIN atenta, todavia, 
 
43
 “the reasonable-regret metric for determining overall success makes assumptions about what distribution is 
fair, about the distribution to which people are entitled” (grifei). DWORKIN. Sovereign, op. cit., p. 41. 
44
 GUEST, op. cit., p. 262. 
 
 
 
33 
 
que com relação às preferências políticas, às preferências impessoais, e às 
preferências pessoais relativas, as objeções são as mesmas que foram feitas à 
igualdade de êxito45. No entanto, o argumento muda de figura quanto às 
preferências pessoais absolutas, ou seja, quanto à avaliação que o indivíduo faz 
do prazer que sentiu na sua vida como um todo. A argumentação dworkiniana 
contra a igualdade de satisfação proveniente das preferências pessoais absolutas 
dos indivíduos leva em conta a própria essência desse ideal: DWORKIN 
considera que a satisfação não pode servir de critério para a distribuição de 
recursos, e nem a vincula, para tanto, à idéia de lamentação razoável, ou seja, o 
próprio binômio prazer/desprazer, que é algo inerentemente subjetivo 
(sentimental, portanto) não pode ser inserido no conteúdo abstrato do princípio 
igualitário46. 
 Por fim, DWORKIN desconstrói as teorias “objetivas” da igualdade de 
bem-estar, que pretendem vincular a análise do que as pessoas podem 
razoavelmente lamentar em suas vidas a fatores objetivos, ou seja, externos ao 
indivíduo, sustentando que o Estado deve atuar de modo a igualar a quantidade 
de lamentação que as pessoas têm durante a vida. Há, com relação a essa teoria, 
a mesma dificuldade enfrentada pelas teorias “subjetivas” anteriormente 
analisadas, vez que uma pessoa somente pode se lamentar do que ela teria 
direito a ter recebido e, logo, se o Estado deve atuar de modo a igualar os 
indivíduos nesse sentido, ele deverá basear-se em uma teoria independente de 
distribuição de recursos, pois somente dessa forma pode ser feita uma avaliação 
do que cada um tem direito a receber47. 
 Cumpre, derradeiramente, salientar que DWORKIN pretende afastar 
qualquer possibilidade de a igualdade de bem-estar seja considerada em uma 
teoria geral da igualdade, e, para tanto, rejeita até a possibilidade de uma 
 
45
 Vide, acima, os argumentos utilizados por DWORKIN para objetar as preferências políticas e impessoais. 
46
 DWORKIN. Sovereign..., op. cit., p. 44-45. 
47
 Idem. Ibidem. p. 46. 
 
 
 
34 
 
eventual junção das teorias anteriormente analisadas no que elas têm de melhor. 
Para o filósofo igualitário, a sua crítica às teorias da igualdade de bem-estar tem 
um caráter mais amplo, de modo a rejeitar qualquer possibilidade de utilização 
do bem-estar para fins de distribuição. Nesse sentido DWORKIN conclui: 
Nós não achamos qualquer razão para sustentar a idéia de que a 
comunidade deva aceitar o objetivo de fazer as pessoas mais iguais em 
qualquer dessas diferentes formas, mesmo quando isso poderia ser 
feito sem prejudicar nenhuma outra pessoa. Se isto é assim, então é 
implausível que ela deva aceitar o objetivo de fazer as pessoas mais 
iguais de alguma forma composta ou compromissada entre essas 
diferentes formas. Combinações e permutas são apropriadas quando 
um conjunto de objetivos ou princípios concorrentes, cada um dos 
quais com uma atração independente, não podem ser satisfeitos de 
uma vez só. Elas não são apropriadas quando nenhum objetivo ou 
princípio demonstrou que tenha um atrativo independente, nem como 
uma teoria da igualdade48. 
 
 DWORKIN não identifica, portanto, o ideal da igualdade com a 
quantidade de bem-estar que o indivíduo sente no decorrer de sua vida, 
rejeitando qualquer possibilidade de fundamentação desse princípio em 
qualquer das teorias da igualdade de bem-estar, ou mesmo de algum teoria que 
resulte da fusão de todas as teorias citadas. 
 
1.3. O EQUALISANDUM DWORKINIANO: A IGUALDADE DE 
RECURSOS 
DWORKIN, consoante o exposto, nega peremptoriamente as teorias da 
igualdade de bem-estar, sustentando que elas não oferecem um argumento 
normativo robusto para o ideal igualitário. Mas qual seria a alternativa teórica 
 
48
 “We found no reason to support the idea that a community should accept the goal of making people more 
equal in any of these different ways even when it could do so without damage to any of the others. If that is so 
then it is unlikely that it should accept the goal of making people more equal in some way that is composite or 
compromise among these different ways. Combinations and trade-offs are appropriate when a set of competing 
goals or principles, each of which has independent appeal, cannot all be satisfied at once. They are not 
appropriate when no goal or principle has been shown to have independent appeal, at least as a theory of 
equality, at all”. DWORKIN. Sovereign…, op. cit., p. 48. 
 
 
 
35 
 
para as concepções igualitária do bem-estar? A concepção política rival da 
igualdade de bem-estar, e que DWORKIN pretende defender, é a igualdade de 
recursos (equality of resources), que, segundo o autor norte-americano, é a 
teoria da igualdade que está na base do liberalismo norte-americano49. 
Para fins introdutórios, cumpre observar o liberalismo dworkiniano é, por 
excelência, uma teoria que preza pela tolerância liberal e,portanto, defende que 
“o Estado deve ser neutro perante as diferentes concepções de boa vida esposada 
pelos indivíduos50”. A análise da filosofia política de DWORKIN exige que 
tenhamos em mente que ele possui a mesma preocupação normativa que JOHN 
RAWLS: construir uma teoria normativa que apresente uma justificativa para a 
ação individual, mas que preserve o pluralismo moral na sociedade liberal. Com 
efeito, ao afirmar que “a justiça é a primeira virtude das instituições sociais51”, 
RAWLS direciona a virtude da justiça que, para os antigos era uma disposição 
de caráter, para as instituições sociais, ou melhor, para a estrutura básica da 
sociedade. Nesse sentido, a teoria política passa a ter a função de construir 
valores políticos que servirão de base para a disposição da estrutura básica da 
sociedade, com a finalidade de fazer com que o Estado concretize o ideal 
abstrato da igualdade, que para DWORKIN é a virtude do soberano: tratar os 
membros da comunidade com igual respeito e consideração (equal concern and 
respect). 
Nesse contexto, em sua artigo “Liberalism”, atualmente publicado em “A 
Matter of Principle”, DWORKIN identifica a existência de duas espécies de 
liberalismo: uma delas baseada no ceticismo moral e que não tem um 
compromisso igualitário, visto que não oferece qualquer argumento contra o 
 
49
 DWORKIN é, essencialmente, um autor polêmico e é, por isso, muito criticado. Uma das principais 
características de seu pensamento é, exatamente, a pretensão de identificá-lo com a prática norte-americana. 
Dada a inexistência de um consenso na sociedade estadunidense sobre a igualdade, não há como se identificar a 
igualdade de recursos como amplamente aceita nos Estados Unidos. 
50
 TAYLOR, Charles. Argumentos Filosóficos. Tradução: Adail Ubirajara Sobral. 1.ª ed. São Paulo: Loyola, 
2000, p. 198. 
51
 “Justice is the first virtue of social institutions (…)”.RAWLS. Theory…, op. cit., p. 03. 
 
 
 
36 
 
utilitarismo ou contra as desigualdades econômicas, e outra comprometida com 
uma moralidade igualitária, no sentido de que o governo tem o dever de tratar as 
pessoas com igual respeito e consideração52. Há, de fato, um traço comum entre 
as duas formas de liberalismo citadas, que é a rejeição da imposição de uma 
moralidade privada por parte do governo, princípio esse que é a base para 
qualquer teoria liberal. Todavia, o liberalismo baseado na igualdade tem uma 
dimensão econômica que confere ao mercado a função de fazer com que cada 
indivíduo, no decorrer de sua vida, utilize uma parcela igualitária dos recursos 
sociais53. 
Isso não significa, no entanto, que o governo deva perquirir uma 
igualdade indiscriminada entre os cidadãos, ou seja, um governo comprometido 
com a igualdade não deve fazer com que os indivíduos tenham, em cada 
momento de sua vida, parcelas idênticas dos recursos sociais. Pelo contrário, o 
fato de pessoas com vidas (e ambições) diferentes ter recursos desiguais é 
inerente à igualdade de recursos. Todavia, e aqui já dá para ter uma noção da 
essência da teoria igualitária de DWORKIN, as desigualdades toleráveis por 
uma sociedade liberal que adota a igualdade de recursos como princípio 
fundamental devem ser aquelas resultantes as escolhas individuais, e não das 
diferenças circunstanciais naturais (talentos, deficiências, classe social, raça, 
etc). Nesse contexto, DWORKIN sustenta que o montante de recursos de cada 
pessoa na sociedade deve refletir o custo da vida que o indivíduo escolheu levar 
para a sociedade, e esse cálculo deve ser feito por intermédio do mercado54. 
DWORKIN reconhece que sua teoria igualitária é extremamente abstrata 
e que a identificação prática das desigualdades provenientes das escolhas 
individuais e daquelas resultantes das circunstancias é difícil55. Todavia, a 
 
52
 DWORKIN. A Matter..., op. cit., p. 205. 
53
 Idem. Ibidem. p. 206. 
54
 Idem. Ibidem. p. 207. 
55
 Idem. Ibidem. p. 208. 
 
 
 
37 
 
elaboração de uma teoria normativa da igualdade de recursos, bem como a 
construção de um mercado igualitário hipotético pode servir de guia 
contrafactual para a conformação das instituições reais. É nesse contexto que o 
filósofo norte-americano desenvolve a sua teoria igualitária. 
 
 1.3.1. IGUALDADE NA PROPRIEDADE PRIVADA DE RECURSOS 
 O primeiro marco teórico que DWORKIN traça para desenvolver o seu 
conceito de igualdade de recursos é limitá-la, inicialmente, à propriedade 
privada de recursos, ignorando, por ora, a igualdade de poder político ou a 
igualdade de propriedade de recursos públicos56. A idéia central da qual 
DWORKIN parte para elaborar o conteúdo substantivo da igualdade de recursos 
é do conceito de mercado. 
 O mercado econômico, sem dúvida, é um conceito que exerce um papel 
de destaque na teoria dworkiniana. Aliás, as instituições de mercado guardam 
uma relação de estreita afinidade com o “liberalismo de princípios”, em especial 
nas teorias de JOHN RAWLS e DWORKIN, muito embora estes autores não 
tenham definido expressamente um arranjo institucional econômico da 
sociedade democrática57. No entanto, tais instituições não são valoradas pelos 
filósofos igualitários em virtude de sua eficiência econômica, mas “por razões 
de justiça”, ou seja, por serem “mais consistentes com as liberdades iguais e 
com a igualdade eqüitativa de oportunidades58”. Nesse sentido, pode-se 
observar que, na teoria de RAWLS, os dois princípios de justiça possuem 
prioridade léxica sobre o princípio da eficiência, bem como que o igualitarismo 
 
56DWORKIN entende que a análise do conteúdo do ideal igualitário a partir da propriedade privada de recursos 
não compromete a compreensão do mesmo, de modo que essa “simplificação” ajuda no estudo da igualdade de 
recursos. 
57
 VITA, Álvaro de. Justiça Liberal: argumentos liberais contra o neoliberalismo. Rio de Janeiro: Paz e 
Terra, 1993, p. 75. 
58
 Idem. Ibidem. p.77. Na realidade, a idéia em destaque não é necessariamente o fato de o mercado ser 
compatível com as liberdades iguais ou com a igualdade eqüitativa de oportunidades, mas a compatibilidade e a 
importância do mercado para a construção de uma teoria da igualdade, seja ela qual for. 
 
 
 
38 
 
dworkiniano valoriza, antes da eficiência distributiva, o fato de o mercado ser 
um mecanismo de distribuição eqüitativa dos recursos na sociedade59. Dessa 
forma: 
Tanto para a teoria de Rawls como para a de Dworkin, portanto, o 
mercado é primariamente valorizado como uma condição necessária 
(...) à liberdade individual e à igualdade e somente secundariamente 
como meio para promover a prosperidade, a utilidade e a eficiência. A 
prosperidade é colocada em seu devido lugar, isto é, no de um 
objetivo instrumental àquele que o liberalismo vê como o valor 
humano fundamental, a autonomia individual: a capacidade de os 
indivíduos escolherem e realizarem em suas vidas os objetivos e fins 
que julguem valiosos60. 
 
DWORKIN demonstra que o papel do mercado, na teoria política do 
século XVIII, que atualmente é denominada de liberalismo clássico, era visto 
como um mecanismo a ser utilizado pela sociedade para atingir finalidades 
sociais, estando sempre relacionado com as idéias de prosperidade, eficiência e 
utilidade. Nesse contexto político, a defesa do mercado se baseava em 
argumentos de política (arguments of policy), exatamente por pelos ganhos que 
proporciona para a sociedade. No entanto, ao mesmo tempo, o mercado era 
visto, sob o ponto de vista valorativo, como um mecanismo de defesa da 
liberdade individual, ou seja, como uma garantia ou instrumento de 
desenvolvimento do direito de liberdade do indivíduo na sociedade61. Assim, 
enquanto que do pontode vista político o mercado estava relacionado com a 
eficiência econômica, sob o prisma princípiológico (ou seja, que diz respeito aos 
direitos individuais), o mercado era tido como um protetor da liberdade 
individual. 
 É exatamente pelo modo como DWORKIN desenvolve a idéia de 
mercado que a sua doutrina política começa a se desenvolver como liberalismo 
 
59
 VITA. Justiça..., op. cit., p. 77 e p. 79. 
60
 Idem. Ibidem. p. 80. 
61
 DWORKIN. Sovereign..., op. cit., p. 66. 
 
 
 
39 
 
igualitário. Com efeito, ele atenta para o fato de os filósofos liberais clássicos 
defendem uma suposta oposição entre a igualdade, e um lado, e a liberdade e 
eficiência, de outro, propondo sempre mecanismos de sopesamentos e 
concessões entre esses valores62. Trata-se, portanto, de uma visão que opõe a 
liberdade e a igualdade, compreendendo esta como um valor antagônico àquela. 
DWORKIN faz uma interpretação diferente da relação entre o mercado e os 
valores expressos pela igualdade e a liberdade, propondo que a teoria geral da 
igualdade de recursos seja construída a partir do mercado econômico, que 
passaria a figurar como figura central na igualdade de recursos. Assim as 
instituições de mercado , enquanto instrumentos reguladores de preços dos bens 
e serviços que serão comercializados na sociedade, são de fundamental 
importância para o desenvolvimento da teoria da igualdade63. 
 Evidentemente, DWORKIN não pretende defender que o mercado exerce, 
na realidade fática, um papel igualitário. Pelo contrário, o filósofo norte-
americano reconhece que o mercado, na forma como se desenvolveu 
historicamente nas sociedades capitalistas, em especial nos Estados Unidos, 
gerou enormes desigualdades. Aliás, DWORKIN afirma diversas vezes que a 
sociedade norte-americana é extremamente desigual64. No entanto, o filósofo 
igualitário pretende sustentar que, normativamente, o mercado é extremamente 
importante, uma vez que “somente o mercado pode medir o que uma pessoa 
adquiriu para si mediante a identificação do custo de oportunidade que isso 
causa aos demais65”. O grande entrave para que o mercado atue de forma a 
produzir justiça, para DWORKIN, diz respeito à distribuição inicial de recursos: 
somente com a justeza na distribuição recursal será possível que o mercado, 
 
62
 DWORKIN. Sovereign..., op. cit., p. 66. 
63
 Idem. Ibidem. p. 66. 
64
 Vide, por exemplo o Capítulo 08 de Sovereign Virtue, op. cit., pp. 307-319. 
65
“On my view a market in goods and service is indispensable to justice because only a market can measure 
what one person has taken for himself by identifying the opportunity cost to others of his having it(…)” 
BURLEY, Justine [ed]. Dworkin and his critics: with replies by Dworkin. Malden: Blackwell Publishing, 
2004, p. 342. O trecho citado refere-se a uma resposta de Dworkin a uma crítica feita por Cohen. 
 
 
 
40 
 
atuando de forma livre, produza resultados justos. Certamente, na prática, nunca 
será possível uma sociedade atingir essa situação ótima, na qual há uma 
distribuição igualitária de recursos, mas a construção normativa de tal situação é 
extremamente relevante, para que possamos avaliar a instituições reais e 
modificá-las para a aproximação de uma situação justa. 
 Nesse contexto, cumpre salientar que DWORKIN não possui uma visão 
idealizada do mercado, mas sim pretende construir uma teoria igualitária 
abstrata e complexa, a partir de um mecanismo hipotético de mercado 
igualitário, visando à reforma das instituições reais. O enfoque de DWORKIN, 
assim, embora normativo, tem uma finalidade prática, característica que permeia 
todo o pensamento dworkiniano. 
 
1.3.2. A CONSTRUÇÃO DO MERCADO IGUALITÁRIO A PARTIR DO EXEMPLO 
CONTRACTUAL 
 A idéia de um mercado igualitário, que exerce um papel central na 
igualdade de recursos, é desenvolvida por DWORKIN a partir de uma situação 
fictícia, contrafactual, na qual náufragos (imigrantes) se encontram em uma ilha 
deserta abundante em recursos. A convivência dos indivíduos (imigrantes) nessa 
primitiva sociedade que eles agora formam obedece a duas condições essenciais: 
i) eles reconhecem que ninguém tem, a priori, direito a qualquer dos recursos 
encontrados na ilha deserta; e ii) há ampla aceitação do princípio segundo ao 
qual esses recursos deverão ser distribuídos igualitariamente entre eles. Há, 
portanto, uma situação em que uma nova sociedade irá começar a partir dessa 
distribuição de recursos, na qual todos os indivíduos concorrerão e influenciarão 
de forma igualitária66. O problema, agora, é o seguinte: como realizar uma 
 
66
 DWORKIN. Sovereign..., op. cit., pp. 66-67. 
 
 
 
41 
 
distribuição que não seja feita de forma arbitrária e na qual todos os indivíduos 
fiquem satisfeitos com o montante de recursos que receber? 
 DWORKIN propõe que a satisfação dos imigrantes com o montante de 
recursos recebidos seja mensurada pelo teste da inveja (envy test), que determina 
que “nenhuma divisão de recursos é uma divisão igualitária se, uma vez 
completa, qualquer imigrante preferir o montante de recursos de outro ao seu 
próprio montante67”. Assim, tal divisão deve ser feita até que, ao final, cada 
imigrante esteja satisfeito com a quantidade e qualidade dos recursos que 
recebeu, de tal sorte que, se for proposta uma troca entre os montantes por eles 
recebidos, nenhum dos imigrantes aceite. Existem, no entanto, diversas formas 
de se alcançar essa distribuição igualitária (como por exemplo o sorteio, ou a 
tentativa), mas a maioria desses mecanismos, embora possam resultar em 
montantes igualitários de recursos, podem ser manipulados de modo a gerar 
injustiças. Imagine, por exemplo, se os imigrantes chegassem a um acordo no 
sentido de a distribuição dos recursos deverá ser feita por sorteios, até que se 
alcance distribuição igualitária dos mesmos. Todavia, antes de se realizar o 
sorteio, os imigrantes descobrem uma ilha vizinha, abundante em um 
determinado recurso (e.g., melancia), e lhes propõe a troca de todos os bens da 
ilha por melancias, o que é aceito pela maioria. Imagine, agora, que um dos 
imigrantes odeie melancia. Chegaremos, com isso, na situação em que o sorteio 
resultará em uma distribuição igualitária, mas não justa, vez que o indivíduo que 
odeia melancias nunca ficará satisfeito68. E qual poderá ser o seu argumento para 
se opor à distribuição feita na ilha? Um argumento consistente poderia ser no 
sentido de que os recursos inicialmente encontrados na ilha não fossem trocados 
com a outra ilha com a utilização de critérios arbitrários. Com isso, DWORKIN 
pretende demonstrar a necessidade de se formular um mecanismo distributivo 
 
67
“no division of resources is an equal division if, once the division is complete, any immigrant would prefer 
someone else’s bundle of resources to his own bundle” Idem. Ibidem. p. 67. 
68
 DWORKIN. Sovereign..., op. cit., p. 67-68. DWORKIN utiliza um exemplo muito semelhante. 
 
 
 
42 
 
que permitisse a partilha dos recursos de forma igualitária e não-arbitrária, 
reconhecendo, assim, que o teste da inveja não é satisfeito com qualquer espécie 
de distribuição, exigindo algum mecanismo mais complexo para a partilha dos 
recursos sociais. 
 Visando, portanto, encontrar um critério não-arbitrário para a divisão 
equitativa dos recursos na sociedade primitiva estabelecida na ilha, DWORKIN 
propõe que a mesma seja feita através de um leilão, no qual os habitantes teriam 
conchas que serviriam como moeda de troca pelos bens a serem leiloados. 
Segundo a descrição feita por DWORKIN, o leilão deveria ser presidido por um 
leiloeiro (escolhido entre os habitantes

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