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ARTIGO MARTHA WILIAN VICENTE DE ALMEIDA EUCILENE GUSMÃO DE LARA O VALOR DO BRINCAR: SIGNIFICADOS E APRENDIZAGENS NA PRIMEIRA INFÂNCIA LUCAS DO RIO VERDE - MT 2025 2 O VALOR DO BRINCAR: SIGNIFICADOS E APRENDIZAGENS NA PRIMEIRA INFÂNCIA RESUMO este artigo tem como objetivo analisar a relevância das brincadeiras na Educação Infantil sob uma abordagem participativa, enfatizando o papel ativo da criança no processo de aprendizagem e desenvolvimento integral. Fundamentado nas teorias de Emmi Pikler, Jean Piaget, Lev Vygotsky e Henri Wallon, o estudo destaca que o brincar é uma experiência essencial para o desenvolvimento físico, emocional, social e cognitivo da criança. A pesquisa, de caráter bibliográfico e descritivo, busca compreender como o educador pode atuar como mediador, favorecendo um ambiente de respeito, acolhimento e autonomia, em que a criança seja protagonista de suas descobertas. Pikler (1979) contribui com a compreensão do movimento livre e da observação atenta do adulto, reforçando a importância de um vínculo afetivo e de um espaço seguro para a ação espontânea da criança. Conclui-se que o brincar, quando valorizado pedagogicamente, favorece a aprendizagem significativa e o fortalecimento das relações sociais e afetivas, tornando-se um instrumento essencial no processo educativo. Palavras-chave: Educação Infantil. Brincadeiras. Abordagem Participativa. Desenvolvimento Integral. Emmi Pikler. 3 1 INTRODUÇÃO A Educação Infantil constitui o primeiro espaço institucional de convivência social da criança e, portanto, deve ser um ambiente que favoreça o desenvolvimento integral, o respeito à individualidade e a construção de vínculos afetivos significativos. Nessa etapa, o brincar assume papel central, não apenas como um meio de entretenimento, mas como a principal linguagem pela qual a criança expressa emoções, estabelece relações, explora o ambiente e constrói conhecimento. O brincar é, portanto, um direito e uma necessidade básica da infância, devendo estar presente em todas as práticas pedagógicas. Sob a ótica da abordagem participativa, compreende-se que a criança é protagonista ativa de seu processo de aprendizagem, capaz de participar das decisões cotidianas e das experiências que a envolvem. Essa concepção se alinha ao pensamento de Emmi Pikler, cuja teoria enfatiza o respeito ao ritmo individual da criança, a liberdade de movimento e a importância das relações afetivas estáveis e seguras. Para Pikler (1979), o educador deve adotar uma postura de observador sensível, garantindo à criança autonomia para agir, explorar e descobrir, sem a imposição de intervenções que limitem sua iniciativa. O brincar livre e espontâneo é, nessa perspectiva, um instrumento de aprendizagem e um caminho para o desenvolvimento emocional e cognitivo. Ao considerar as contribuições de Piaget, Vygotsky e Wallon, é possível compreender que o brincar não ocorre de forma isolada, mas como um fenômeno social, interativo e simbólico. Para Piaget (1975), o jogo representa um estágio essencial na construção do pensamento infantil, enquanto Vygotsky (1998) destaca o papel da interação social e da mediação na aprendizagem. Wallon (1989), por sua vez, ressalta a unidade entre o movimento, a emoção e o pensamento, reconhecendo o 4 corpo como meio de expressão e conhecimento. Assim, a ludicidade constitui um eixo estruturante das práticas educativas, pois integra dimensões cognitivas, afetivas e sociais. Esta pesquisa, de caráter exploratório e descritivo, busca compreender a relevância das brincadeiras na Educação Infantil a partir de uma abordagem participativa, propondo reflexões sobre o papel do educador como mediador e parceiro da criança no processo de descoberta. Por meio de levantamento bibliográfico, pretende-se analisar como o brincar contribui para o desenvolvimento integral, fortalecendo a autonomia, a criatividade e a formação de vínculos afetivos e sociais. Desse modo, reafirma-se que brincar é aprender, e que toda prática pedagógica comprometida com a infância deve reconhecer o lúdico como um espaço de participação, liberdade e crescimento. 5 2 DESENVOLVIMENTO 2.1 Definição e importância da brincadeira O ato de brincar constitui-se como uma das principais formas de expressão, comunicação e aprendizagem na infância. Por meio das brincadeiras, a criança desenvolve sua autonomia, exercita a imaginação, amplia suas capacidades cognitivas, motoras e afetivas, além de construir relações sociais significativas. O brincar é, portanto, uma linguagem natural e espontânea, por meio da qual a criança interpreta o mundo, experimenta papéis sociais e dá sentido às suas vivências cotidianas. De acordo com Emmi Pikler (1979), o brincar é um processo ativo e autônomo que emerge da curiosidade e do interesse genuíno da criança. A autora defende que, quando o adulto respeita o ritmo individual e oferece um ambiente seguro e rico em possibilidades, a criança torna-se protagonista do próprio desenvolvimento. A liberdade de movimento e a autonomia para explorar o espaço e os objetos permitem que a aprendizagem ocorra de forma participativa, prazerosa e significativa. Assim, a função do educador não é dirigir a brincadeira, mas observar com sensibilidade, apoiar e valorizar as descobertas que a criança realiza por si mesma. O brincar participativo propõe uma relação dialógica entre adulto e criança, na qual o professor atua como parceiro, mediador e coaprendiz. Nessa perspectiva, o educador acolhe as iniciativas infantis, escuta suas intenções e planeja o ambiente de maneira a favorecer experiências de cooperação, liberdade e respeito mútuo. Essa abordagem reforça o princípio de que o brincar é também um ato de participação, no qual a criança exerce sua voz, faz escolhas e desenvolve senso de pertencimento ao grupo. Além disso, conforme Vygotsky (1998), o brincar constitui um espaço privilegiado de desenvolvimento, pois nele a criança opera na chamada “zona de desenvolvimento 6 proximal”, ou seja, vai além do que conseguiria realizar sozinha, impulsionada pela interação com o outro. De forma complementar, Piaget (1975) destaca que o jogo é uma atividade essencial para a construção da inteligência, permitindo à criança assimilar e acomodar novas experiências. Já Wallon (1989) ressalta a importância do movimento e da emoção como elementos integradores do desenvolvimento infantil, ambos fortemente presentes nas brincadeiras. Assim, o brincar não se limita a um momento de lazer, mas assume um papel formativo e estruturante. Ao brincar, a criança aprende a conviver, a respeitar regras, a expressar emoções e a lidar com desafios, exercitando competências cognitivas e socioemocionais essenciais. As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI, 2010) reforçam essa visão ao apontar os direitos de aprendizagem — conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se — como fundamentos da prática pedagógica. O papel do professor, portanto, é o de possibilitar experiências ricas e variadas, valorizando o brincar como eixo central do currículo e reconhecendo sua potência educativa. Ao incorporar as brincadeiras tradicionais e contemporâneas, o educador promove o diálogo entre a cultura infantil e a cultura social mais ampla, contribuindo para a formação integral da criança. Nesse sentido, o brincar deixa de ser visto como um simples passatempo e se consolida como instrumento de aprendizagem, socialização e desenvolvimento humano. 2.2 O brincar e a abordagem de Emmi Pikler na prática educativa A abordagem desenvolvida por Emmi Pikler propõeuma concepção inovadora de cuidado e educação na primeira infância, baseada no respeito profundo pela criança e em sua capacidade natural de se desenvolver de forma autônoma. Para Pikler, cada 7 criança possui um ritmo próprio de evolução, que deve ser observado e valorizado pelo educador. Essa visão rompe com práticas tradicionais e diretivas, nas quais o adulto assume o controle das ações, e coloca a criança no centro do processo educativo — como sujeito ativo, competente e participativo. No contexto da Educação Infantil, a proposta pikleriana destaca a importância do movimento livre, da autonomia nas ações e do vínculo afetivo estável entre adulto e criança. O brincar, nesse sentido, não é algo imposto ou estruturado, mas uma manifestação espontânea de curiosidade e prazer. O ambiente educativo deve ser planejado de modo a oferecer segurança emocional e espaços ricos em possibilidades, permitindo que as crianças escolham seus brinquedos, experimentem novas posturas e explorem os materiais de acordo com seus interesses e necessidades. Segundo Pikler (1979), a qualidade da interação entre educador e criança é fundamental para o desenvolvimento saudável. O educador deve observar atentamente, sem intervir de forma excessiva, confiando nas capacidades da criança de explorar e aprender por conta própria. Essa observação sensível permite compreender o que a criança expressa em suas ações, gestos e olhares, possibilitando uma intervenção pedagógica mais significativa, centrada na escuta e na valorização de sua individualidade. A abordagem participativa inspirada em Pikler também reconhece o brincar como um espaço de relação e diálogo. Ao brincar livremente, a criança constrói uma narrativa própria sobre o mundo, experimenta papéis sociais e estabelece vínculos afetivos com seus pares e educadores. Esse processo contribui para o desenvolvimento da autoconfiança, da autonomia e da identidade, aspectos essenciais na formação integral do sujeito. Além disso, o educador pikleriano compreende que o cuidado cotidiano — trocar, alimentar, acolher, confortar — também é educativo. Durante essas ações, a criança 8 participa ativamente, sendo convidada a colaborar e a comunicar suas intenções. Essa participação fortalece o vínculo e dá à criança a sensação de pertencimento e respeito. A afetividade, portanto, torna-se a base sobre a qual o brincar se desenvolve e se transforma em aprendizagem. A prática educativa baseada na filosofia de Emmi Pikler implica repensar o papel do professor como mediador de experiências. Não se trata de propor atividades prontas, mas de criar condições para que a criança explore o ambiente com liberdade e segurança. A intencionalidade pedagógica está na organização do espaço, na qualidade do tempo oferecido e na atenção às relações que se estabelecem no cotidiano. Desse modo, o brincar na abordagem pikleriana não é apenas uma metodologia de ensino, mas uma forma de estar com a criança, respeitando sua natureza curiosa, criadora e participativa. Ao reconhecer o valor educativo das experiências espontâneas, o educador promove uma aprendizagem que nasce do prazer, da descoberta e da relação afetiva. 2.3 O papel do educador no contexto do brincar participativo O educador exerce um papel essencial no processo de desenvolvimento infantil, especialmente quando compreende o brincar como um instrumento de aprendizagem e expressão da criança. Na perspectiva participativa e inspirada em Emmi Pikler, o professor é visto como um mediador sensível, observador e parceiro ativo nas descobertas da criança, e não como um condutor que impõe ou determina o que ela deve fazer. Essa postura requer escuta atenta, respeito ao tempo individual e valorização da autonomia de cada criança no cotidiano educativo. 9 Para Pikler (1979), o papel do adulto é garantir um ambiente seguro, afetivo e estimulante, no qual a criança possa explorar, experimentar e criar a partir de suas próprias iniciativas. O educador precisa confiar nas competências da criança e permitir que ela conduza suas ações com liberdade, interferindo apenas quando necessário para garantir o bem-estar e a segurança. Essa relação de confiança e respeito mútuo fortalece o vínculo afetivo, fundamental para o desenvolvimento emocional e cognitivo. De acordo com Vygotsky (1998), o professor desempenha a função de mediador no processo de ensino-aprendizagem, atuando na chamada zona de desenvolvimento proximal, ou seja, o espaço entre o que a criança já consegue fazer sozinha e aquilo que pode realizar com o apoio do outro. Nesse contexto, o brincar é um meio potente de mediação, pois permite à criança vivenciar papéis sociais, enfrentar desafios e elaborar soluções por meio da interação com os colegas e com o educador. Por sua vez, Wallon (1989) enfatiza que o movimento e a emoção são elementos integradores do desenvolvimento, e que o educador deve considerar as dimensões afetivas e corporais nas situações de brincadeira. A escuta sensível, o olhar atento e o acolhimento das expressões da criança tornam-se práticas fundamentais para promover a aprendizagem significativa. Já Piaget (1975) destaca que o educador deve propor desafios adequados à idade e ao estágio de desenvolvimento, respeitando o processo de assimilação e acomodação que caracteriza a construção do conhecimento infantil. Na prática educativa, o papel do professor no brincar participativo envolve: Planejar ambientes ricos em possibilidades, com materiais acessíveis, variados e seguros; Observar sem intervir excessivamente, reconhecendo a importância da iniciativa infantil; 10 Favorecer a socialização, estimulando o diálogo, a cooperação e o respeito entre as crianças; Promover a escuta ativa, valorizando as ideias, sentimentos e criações infantis; Registrar e refletir sobre as observações, transformando-as em instrumentos de planejamento pedagógico. Segundo as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI, 2010), a função do educador é garantir experiências que possibilitem à criança conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se. Isso implica compreender o brincar como eixo estruturante da prática pedagógica e não como uma atividade complementar. O professor precisa reconhecer que, nas brincadeiras, as crianças constroem saberes sobre si mesmas, sobre o outro e sobre o mundo, desenvolvendo autonomia, criatividade e pensamento crítico. Desse modo, o educador torna-se um agente facilitador da aprendizagem e do desenvolvimento integral, criando condições para que o brincar seja vivido em sua plenitude — como espaço de liberdade, expressão e participação. Essa postura, inspirada na filosofia pikleriana, reafirma a ideia de que o ato de brincar é também um ato de educar e de cuidar, no qual se entrelaçam o afeto, a escuta e o respeito pela infância. 2.4 O ambiente educativo e a organização do espaço na perspectiva de Emmi Pikler Na concepção de Emmi Pikler, o ambiente educativo desempenha um papel essencial no desenvolvimento infantil, sendo compreendido como um “terceiro educador” — ao lado da família e do professor. O espaço, cuidadosamente planejado, deve proporcionar segurança, liberdade e oportunidades de descoberta, de modo que a criança possa agir com autonomia e explorar o mundo ao seu redor de forma 11 espontânea e prazerosa. A organização do ambiente, portanto, não é neutra: ela reflete concepções pedagógicas e influencia diretamente o modo como a criança brinca, se movimenta e se relaciona. Pikler (1979) enfatiza que um espaço adequado é aquele que oferece liberdade de movimento e condições de exploração autônoma, sem que o adulto precise constantemente direcionar ou intervir. O ambiente deve convidar a criançaa agir por iniciativa própria, estimulando sua curiosidade e criatividade. Para isso, é fundamental que os materiais estejam ao alcance das crianças e que os objetos sejam seguros, variados e desafiadores na medida certa. Nessa perspectiva, o ambiente é vivo, dinâmico e comunicativo, sendo constantemente reorganizado conforme as observações e necessidades das crianças. O educador atua como um cuidador atento, observando as interações e adequando o espaço para favorecer novas descobertas. Essa prática requer sensibilidade e escuta, pois cada modificação no ambiente deve partir da compreensão das manifestações e interesses das crianças. O espaço físico, na abordagem pikleriana, deve possibilitar o livre movimento, a exploração sensorial, a interação social e o brincar espontâneo. Isso inclui áreas amplas para que o bebê e a criança pequena possam rolar, engatinhar, caminhar e testar suas habilidades motoras, bem como cantos específicos para o faz de conta, a manipulação de objetos, a leitura e o descanso. O ambiente externo, como pátios e jardins, também é valorizado por oferecer experiências diretas com a natureza e oportunidades de aprendizagem ativa. De acordo com Lóczy (1984), instituição criada por Pikler em Budapeste, o espaço educativo deve promover tranquilidade, previsibilidade e liberdade, aspectos fundamentais para o desenvolvimento da confiança e da autonomia. Essa organização cuidadosa do ambiente contribui para a formação de vínculos afetivos estáveis, pois 12 transmite à criança a sensação de que o mundo é um lugar seguro e confiável para se explorar. Além do espaço físico, o ambiente relacional é igualmente importante. A forma como o educador interage com as crianças, o tom de voz, o ritmo das atividades e a disposição para acolher e escutar compõem um ambiente emocional que influencia diretamente o brincar e o aprender. Um espaço afetivamente seguro encoraja a criança a se arriscar, experimentar e se expressar livremente, sem medo de errar. A organização do tempo também faz parte desse ambiente educativo. Rotinas claras e flexíveis favorecem o sentimento de pertencimento e segurança, permitindo que a criança antecipe as ações e se sinta protagonista do seu dia. Essa previsibilidade, longe de ser rígida, estrutura o cotidiano e dá espaço à espontaneidade do brincar. Portanto, o ambiente educativo, na perspectiva de Emmi Pikler, não é apenas um cenário onde ocorrem as aprendizagens, mas um agente ativo na formação da criança. Ele comunica valores, incentiva o movimento, promove a autonomia e estimula a curiosidade natural da infância. O professor, ao planejar e organizar esse espaço com intencionalidade pedagógica e sensibilidade estética, contribui para que o brincar se torne uma experiência de liberdade, descoberta e alegria — base de todo o processo educativo. 2.5 A afetividade e o vínculo como pilares do brincar participativo A afetividade é um dos elementos fundamentais no processo educativo e está intrinsecamente relacionada ao ato de brincar. Na perspectiva participativa e inspirada em Emmi Pikler, o vínculo afetivo constitui a base de todas as interações significativas, influenciando diretamente o desenvolvimento emocional, social e cognitivo da criança. 13 Através das relações de confiança e respeito, a criança se sente segura para explorar, se expressar e aprender, pois sabe que é acolhida e valorizada pelo adulto que a acompanha. Segundo Pikler (1979), o desenvolvimento saudável da criança depende da qualidade das relações estabelecidas com o adulto. Essa relação deve ser construída sobre a base da confiança mútua, da escuta sensível e da previsibilidade das ações. Quando o educador estabelece um contato atencioso e coerente, transmitindo segurança e empatia, cria-se um ambiente emocionalmente estável que favorece o brincar livre e o desenvolvimento da autonomia. O vínculo afetivo, portanto, não se limita ao campo das emoções, mas constitui uma dimensão pedagógica essencial. A criança aprende a partir das experiências vividas com o outro, e o educador, ao demonstrar respeito, paciência e cuidado, se torna um modelo de relação humana. O ato de cuidar — trocar, alimentar, consolar, brincar — é, ao mesmo tempo, educativo e afetivo, pois carrega uma intencionalidade formadora que comunica amor, pertencimento e segurança. Para Wallon (1989), a afetividade é indissociável do desenvolvimento intelectual e motor, sendo o primeiro vínculo com o mundo externo. O autor destaca que as emoções são o ponto de partida para a construção do pensamento e da ação. Assim, um ambiente educativo que valoriza o afeto e o vínculo favorece a expressão emocional, o equilíbrio e o desenvolvimento global da criança. De acordo com Vygotsky (1998), o aprendizado ocorre nas relações sociais mediadas, e o educador desempenha papel essencial como mediador afetivo e cognitivo. Na brincadeira, essa mediação se concretiza de maneira natural e prazerosa, pois o educador que participa e observa com sensibilidade estabelece uma conexão empática que amplia a zona de desenvolvimento proximal da criança. A confiança 14 construída nesse vínculo possibilita que a criança se arrisque mais, explore com liberdade e aprenda com maior significado. A afetividade também se manifesta nas relações entre as próprias crianças. O brincar coletivo oferece oportunidades de cooperação, empatia e solidariedade. Ao compartilhar brinquedos, combinar regras e resolver conflitos, as crianças aprendem a lidar com emoções diversas, desenvolvendo habilidades sociais importantes como o respeito, a escuta e a negociação. O professor participativo, inspirado na filosofia pikleriana, reconhece o afeto como um eixo estruturante da prática pedagógica. Ele compreende que educar é um ato de presença, de olhar e de cuidado, e que o vínculo construído com cada criança é o alicerce que sustenta a aprendizagem e o desenvolvimento. Dessa forma, o brincar torna-se não apenas um momento de prazer, mas também de encontro, de escuta e de partilha — um espaço onde se constrói a confiança, o pertencimento e a humanidade. Conclui-se, portanto, que a afetividade e o vínculo não são elementos acessórios no processo educativo, mas pilares que sustentam o brincar participativo e a aprendizagem significativa. O cuidado sensível e o respeito à individualidade de cada criança são condições indispensáveis para que o brincar cumpra sua função formadora, integrando emoção, pensamento e ação em um processo contínuo de descoberta e crescimento. A presente pesquisa tem como propósito analisar a importância das brincadeiras na Educação Infantil sob a perspectiva participativa, compreendendo o brincar como um direito fundamental e um meio de desenvolvimento integral da criança. O ato de brincar é reconhecido como a principal linguagem da infância, pela qual a criança explora o mundo, expressa emoções, comunica-se, constrói saberes e estabelece vínculos afetivos e sociais. Nessa perspectiva, o brincar não é apenas um instrumento 15 pedagógico, mas um modo de ser e estar no mundo, que deve ser valorizado e intencionalmente promovido nas práticas educativas. Inspirada na abordagem participativa e nas contribuições de Emmi Pikler, compreende-se que o desenvolvimento infantil ocorre de forma mais plena quando a criança é respeitada em seu ritmo, em sua autonomia e em suas iniciativas espontâneas. Pikler defende que o brincar livre e o movimento autônomo permitem que a criança descubra suas capacidades e desenvolva confiança em si mesma, desde que o adulto exerça um papel de observador sensível, oferecendo um ambiente seguro e afetuoso para suas experiências. Essa visão complementa as teorias de Piaget, Vygotsky e Wallon, que ressaltam a importância das interações sociais,da ludicidade e das vivências corporais na construção do conhecimento. Assim, este estudo busca discutir o papel do brincar no processo de ensino- aprendizagem e na formação social, afetiva e cognitiva das crianças pequenas, destacando como as práticas pedagógicas podem favorecer uma aprendizagem significativa, pautada na escuta, na participação e no respeito às singularidades infantis. A pesquisa, de caráter exploratório e descritivo, fundamenta-se em levantamento bibliográfico e na análise teórica de autores que abordam o brincar como elemento essencial da infância e como estratégia educativa que humaniza e potencializa o desenvolvimento. 16 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente artigo buscou evidenciar a importância do brincar na Educação Infantil sob uma perspectiva participativa, à luz dos princípios de Emmi Pikler e de outros teóricos que compreenderam a infância como uma fase singular, repleta de descobertas, afetos e interações significativas. Ao longo da pesquisa, foi possível constatar que o brincar é muito mais do que uma atividade espontânea: é uma forma de expressão, comunicação e aprendizagem, na qual a criança se apropria do mundo, constrói significados e desenvolve múltiplas competências cognitivas, emocionais, motoras e sociais. A abordagem participativa, inspirada na filosofia de Pikler, destaca a importância do cuidado respeitoso e do olhar sensível do educador como mediador do processo educativo. Nesse contexto, o brincar é compreendido como um espaço de liberdade e confiança, onde a criança é protagonista de suas próprias descobertas. O educador, ao adotar uma postura de observador atento e de parceiro ativo, cria condições para que a criança se desenvolva de maneira autônoma, segura e confiante, fortalecendo vínculos afetivos que se tornam a base de toda aprendizagem significativa. Autores como Vygotsky, Piaget, Wallon e Kishimoto reforçam a relevância das interações sociais e das experiências lúdicas como mediadoras do desenvolvimento infantil. O brincar proporciona à criança a oportunidade de experimentar papéis, resolver conflitos, expressar emoções e elaborar hipóteses sobre o mundo, tornando-se um instrumento pedagógico indispensável à formação integral do sujeito. A reflexão sobre a prática pedagógica evidencia que é dever da escola e dos profissionais da Educação Infantil garantir tempos, espaços e materiais que promovam o brincar livre, criativo e inclusivo. A ludicidade deve estar presente em todas as dimensões da rotina escolar, não apenas como atividade complementar, mas como eixo estruturante do currículo. 17 Portanto, conclui-se que o brincar participativo constitui um caminho pedagógico essencial para a construção de uma infância plena e significativa. Sob a ótica pikleriana, educar é cuidar com respeito, é permitir que a criança explore e experimente o mundo à sua maneira, com autonomia e segurança. A afetividade, o vínculo e o olhar atento do educador são elementos que transformam o brincar em um processo de desenvolvimento humano integral, em que aprender e viver se tornam experiências inseparáveis. Assim, reafirma-se que o brincar não é apenas um direito, mas um modo de ser, existir e aprender — um ato de liberdade, de imaginação e de afeto que deve ser garantido e valorizado em todas as práticas educativas da infância. 18 REFERÊNCIAS 1 ARCE, Alessandra; DUARTE, Newton (orgs.). Brincar e aprender: uma perspectiva histórico-cultural da educação infantil. Campinas, SP: Autores Associados, 2016. 2 BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília: MEC, 2018. Disponível em: https://basenacionalcomum.mec.gov.br. Acesso em: 18 out. 2025. 3 KISHIMOTO, Tizuko Morchida. Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação. 10. ed. São Paulo: Cortez, 2021. 4 OLIVEIRA, Marta Kohl de. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento – um processo sócio-histórico. São Paulo: Scipione, 2019. 5 PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação. Rio de Janeiro: LTC, 2014. 6 PIKLER, Emmi. Educar os três primeiros anos: a experiência de Lóczy. São Paulo: Paz e Terra, 2018. 7 RIBEIRO, Ana Lúcia; SOUZA, Maria da Conceição. Os jogos e as brincadeiras na educação infantil. Serra: Faculdade Multivix, 2011. Disponível em: http://serra.multivix.edu.br/wp-content/uploads/2013/04/jogos_educacao_infantil.pdf. Acesso em: 18 out. 2025. 8 VYGOTSKY, Lev Semionovitch. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2018. 9 WALLON, Henri. A evolução psicológica da criança. São Paulo: Martins Fontes, 2007. anos: a experiência de Lóczy. São Paulo: Paz e Terra, 2018. RIBEIRO, Ana Lúcia; SOUZA, Maria da Conceição. Os jogos e as brincadeiras na educação infantil. Serra: Faculdade Multivix, 2011. Disponível em: http://serra.multivix.edu.br/wp-content/uploads/2013/04/jogos_educacao_infantil.pdf . Acesso em: 18 out. 2025. http://serra.multivix.edu.br/wp-content/uploads/2013/04/jogos_educacao_infantil.pdf 19 VYGOTSKY, Lev Semionovitch. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2018. WALLON, Henri. A evolução psicológica da criança. São Paulo: Martins Fontes, 2007.