Prévia do material em texto
ASPECTOS SÓCIO-HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO FÍSICA AULA 3 Prof. Riqueldi Straub Lise 2 CONVERSA INICIAL Nesta aula, vamos tratar de cinco temas principais, são eles: o Brasil do século XIX; a Educação Física higienista; eugenia e Educação Física; Educação Física na ditadura civil-militar; e, por fim, a Educação Física após a ditadura civil-militar. Para entender a trajetória da Educação Física no Brasil, é preciso antes compreender o contexto político e social do país naquele momento – segunda metade do século XIX – e de que maneira esse contexto interferiu na concepção e na disseminação das práticas físicas e da Educação Física. Não restam dúvidas de que os movimentos ginásticos, já popularizados na Europa, tiveram profunda influência na reorientação da mentalidade da sociedade brasileira em relação aos exercícios físicos. TEMA 1 – O BRASIL DO SÉCULO XIX Na segunda metade do século XIX, o Brasil ainda era um país com características agrárias, no qual o sistema escravagista ainda vigorava. Vale aqui ressaltar que os movimentos ginásticos europeus se disseminaram principalmente em ambientes urbanos. Dessa maneira, é possível afirmar que não existia no Brasil uma cultura das práticas físicas, muito pelo contrário, tais práticas eram consideradas um ofício dos escravos. Naquele período, a grande metrópole brasileira era a cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, cidade mais importante com um contingente populacional de aproximadamente 400 mil habitantes. Nesse sentido, vale aqui um alerta: todas as considerações acerca deste período se referem à cidade do Rio de Janeiro. Vamos perceber, ao longo desta aula, que as condições sanitárias do Rio de Janeiro eram muito precárias e o estabelecimento de reformas urbanas criou um ambiente propício para o início das práticas físicas no Brasil. 1.1 Rio de Janeiro, a cidade febril Após a proclamação da Independência do Brasil, em 1822, passou-se a viver o Brasil Imperial, sob a figura do imperador Dom Pedro I. Nessa sociedade brasileira do final do XIX, havia um forte preconceito em relação às atividades que exigiam esforço muscular, exposição ao sol, banhos de mar, sem mencionar a inexistência de hábitos esportivos no país. O esforço muscular era eminentemente relegado apenas aos escravizados, o que, 3 consequentemente, dificultava o gosto das classes mais altas pela atividade física. Somado a isso, a área central do Rio de Janeiro era o epicentro da crise de moradias, devido à elevada concentração demográfica – que se intensifica após a abolição da escravatura. Sem saneamento, todos os dejetos eram jogados nas calçadas e no mar. Por esse motivo, os banhos de mar não figuravam como um programa interessante, visto que não se tratava de uma área da cidade glamourosa. Muito pelo contrário: apenas as pessoas menos abastadas economicamente andavam pelas redondezas da praia. As obras da cidade eram exclusivas para a burguesia, deixando a população comum sob condições péssimas de saneamento e saúde: eram constantes as contaminações por epidemias de cólera, febre amarela e gripe; havia grande falta de higiene; além de a apropriação de hábitos europeus não ser compatível com as condições climáticas brasileiras. Diante dessas circunstâncias, a cidade se via ameaçada pelas epidemias e pelas tentativas de controle dos higienistas e do poder público, que buscavam a transformação do espaço da cidade, incidindo diretamente sobre as moradias populares. Tal incidência acarretou a resistência da população aos novos hábitos, por meio da conservação das tradições populares. TEMA 2 – A EDUCAÇÃO FÍSICA HIGIENISTA A Educação Física higienista, proveniente dos movimentos ginásticos europeus (especificamente, o Método Démeny – parte Movimento Ginástico Francês), tinha como objetivos principais a formação de jovens saudáveis, fortes, robustos e disciplinados. Essa Educação Física estava pautada em um prestigioso discurso médico, que agora exaltava as qualidades das práticas físicas enquanto um fator de manutenção e melhora das condições de saúde da população brasileira. A inclusão da Educação Física como disciplina obrigatória nas escolas em conjunto com uma série de medidas de caráter sanitário pretendia produzir uma sociedade com indivíduos sem vícios, fortes, mais produtivos e prontos para a ação. Fica então evidenciado que a Educação Física tinha um enfoque voltado para a manutenção da saúde, e seus instrutores eram majoritariamente militares influenciados por um discurso médico. 4 2.1 Medicina higienista e a Educação Física A Ginástica nas escolas foi implantada no final do século XVIII e início do XIX na Europa. Como era o começo da sociedade capitalista (Revolução Industrial), os exercícios físicos eram fator primordial, já que o trabalho começou a ser vendido como mercadoria. Nesse sentido, entre os fins do século XIX e início do século XX, a higiene surge como reflexo da preocupação que as elites tinham com o corpo do trabalhador. O Movimento Higienista ou Sanitarista surge, portanto, com o ideal cujo eixo era a preocupação com a saúde da população; a defesa da saúde pública; o ensino de novos hábitos higiênicos; e a valorização da população como um bem, um recurso principal da nação. Por meio da educação, formar-se-ia uma cultura brasileira e um povo mais saudável. Os objetivos do higienismo centravam-se, assim, na formação do homem forte, saudável e adestrado; utilizando como mediador a figura dos instrutores físicos, que eram militares, influenciados por médicos higienistas. Para tanto, deu-se ênfase na saúde nas aulas de Educação Física, nas quais destacavam-se os movimentos ginásticos. Na Europa, já em 1800, se estabeleceram formas distintas de encarar os exercícios físicos. Como vimos na aula anterior, quatro países desenvolveram as primeiras sistematizações de métodos ginásticos: França, Suécia, Alemanha e Inglaterra. O uso da ginástica buscava corrigir vícios posturais oriundos das atitudes adotadas no trabalho, bem como de ordem disciplinar (a docilização dos corpos). Assim, é possível inferir a relevância da Educação Física no Movimento Higienista, que também trazia a preocupação em enfatizar o que é o “físico” e para que serve. A grande valorização da Educação Física no Brasil começou em 1882, quando Rui Barbosa – na época deputado – pregou a obrigatoriedade da ginástica nas escolas. Sob a relação entre Higienismo e Educação Física, o professor/instrutor seria, portanto, agente de saneamento público, produzindo uma sociedade sem doenças e vícios, com indivíduos fortes prontos para a ação. No que se refere aos aspectos básicos desenvolvidos pela Educação Física, podemos mencionar: 5 1. Educação orgânica (nutrição): isto é, a quantidade de trabalho e o tipo de alimentação absorvida, pensando o corpo de forma similar a um motor, com órgãos restituindo mecanicamente a energia recebida; 2. Educação psicomotora (habilidades): isto é, desenvolver a destreza, velocidade, agilidade, força e resistência; 3. Educação do caráter (valores morais): isto é, desenvolver sabedoria, precisão, generosidade e bondade, de modo que as ações sejam úteis e não apenas boas; 4. Educação intelectual (compreensão e discernimento): isto é, a capacidade de refletir sobre os valores morais e, efetivamente, transformar as ações em tanto boas quanto úteis. Todos esses aspectos se coadunam ao cenário do Rio de Janeiro da Belle Époque – momento de várias influências inglesas e francesas, incluindo os esportes. Diante de todo o cenário de falta de saneamento e alta concentração demográfica, dois personagens se destacam nas ações: o prefeito Pereira Passos e o médico higienista Oswaldo Cruz. Contava-se com duas ações concomitantes liderada por Passo e Cruz, respectivamente: o projetourbano e o controle de doenças. Por volta de 1902, o prefeito Pereira Passos lançou o “bota-abaixo”, que consistia em transformar a capital do Brasil em cartão postal, por meio da demolição dos cortiços e habitações coletivas, que eram foco de epidemia e desordem. Com a demolição dessas moradias, a população que ali habitava (ex-escravizados e pessoas de pouco poder aquisitivo) foi obrigada a procurar abrigo nos morros – surgiam aí as primeiras favelas. Enquanto isso, Oswaldo Cruz procurava sanear a cidade, combatendo a varíola e a febre amarela. Mas, já depreciada por conta do poder aquisitivo e pelas desapropriações, a população se revoltou contra a obrigatoriedade da vacina, dando início a um momento marcante na História: a Revolta da Vacina. A Revolta da Vacina (1904) consistiu em um enfrentamento durante quatro dias entre os populares e os policiais. A população gritava “abaixo à vacina!”, assaltava companhias de gás e roubava fios telefônicos. A Revolta foi o desaguar de uma série de frustrações que se agravaram quando oposicionistas divulgaram o boato de que a vacina não estaria imunizando, mas sim provocando a doença. 6 Essa compreensão médica, baseada na Medicina Social de índole higiênica, tentava a reorganização familiar, criticando a estrutura familiar monárquica – considerada incapaz de educar os filhos. Um fator importante era que havia o temor de uma revolta para reorganizar a monarquia. TEMA 3 – EUGENIA E EDUCAÇÃO FÍSICA O objetivo da eugenia era estudar a influência da herança genética nas qualidades físicas e mentais dos indivíduos. O grande precursor dessa linha de estudos na Europa foi Francis Galton. Em 1865, Galton defendeu a hereditariedade das qualidades mentais, assim como das físicas. Já em 1869, Galton passou a defender a necessidade de melhorar as qualidades naturais dos homens. (Gois Junior; Garcia, 2011, p. 247) Havia nesse período um pensamento de que os problemas brasileiros residiam em um povo fraco, e que essa não era uma situação definitiva. Assim, os projetos eugenistas de melhoria do povo ou da raça tinham dois pilares: 1) educação e saúde; 2) melhora genética da população. 3.1 A ciência da melhoria da espécie Enquanto o higienismo preconizava a manutenção da saúde da população sob a criação de hábitos mais saudáveis e higiênicos; o eugenismo, que se apresenta no Brasil na década de 1920, visava à melhoria hereditária da população. O eugenismo permanece estudando as medidas socioeconômicas, sanitárias e educacionais, assim como o higienismo. Todavia, o ideal eugênico é mais contundente, na medida em que toma posse de tais informações para compreender quais delas podem influenciar física e mentalmente o desenvolvimento de qualidades hereditárias. Ou seja, estamos falando de controle não só do meio, mas também genético. A esse tipo de intervenção, chamamos “profilaxia social”, isto é, uma limpeza social da população, cujas propostas eram: 1. Impedir a procriação de portadores de doenças hereditárias; 2. Eliminar os portadores de problemas físicos; 3. Também os com problemas mentais incapacitantes. É importante mencionar que o eugenismo ganha força no Brasil após a Revolução de 1930, em que Getúlio Vargas assume a presidência da república. O que seria um governo provisório culmina com o Estado Novo (1937 a 1945). 7 Vargas apresentava um alinhamento ideológico a Adolf Hitler (Alemanha) e Benito Mussolini (Itália), promovendo políticas autoritárias e progressistas. Esse totalitarismo trouxe uma maior inserção eugênica, com o intuito de desenvolver uma identidade nacional brasileira. No que tange à Educação Física, a eugenia é apresentada peculiarmente como a ciência do aperfeiçoamento físico e moral. Mas o que o exercício físico tem a ver com uma profilaxia social? Com base na teoria do uso e desuso (ou hereditariedade dos caracteres adquiridos) de Lamarck, acreditava-se na transmutação por influências externas; juntamente com a ideia de seleção natural de Charles Darwin. Assim, a prática de atividades físicas regulares somada a hábitos saudáveis (higiênicos) poderiam contribuir para a evolução física da população brasileira – contando com certo auxílio profilático, que não permitia a reprodução das pessoas com deficiências. A essa perspectiva, podemos somar o papel da mulher, cuja prática regular de exercícios físicos propiciaria, por meio da gravidez, uma nova geração forte, um exército poderoso e, portanto, uma nação soberana. Inevitavelmente, toda essa iniciativa brasileira estava atrelada à construção de uma raça brasileira, em prol da coesão social, da unidade racial e do otimismo da nação. Havia uma recusa às teorias climáticas e raciais que determinavam o fracasso e a incivilidade da nação brasileira. O ideal eugênico teve seu fim após a Segunda Guerra Mundial, mas ainda permaneceria enraizado no Brasil. TEMA 4 – EDUCAÇÃO FÍSICA NO PERÍODO DA DITADURA CIVIL-MILITAR Após as primeiras décadas republicanas, surge o Estado Novo, cujo principal referencial foi Getúlio Vargas. Nesse período (décadas de 1940 e 1950), ainda permaneciam os ideais higienistas e eugenistas, mas o principal fator ligado à Educação Física era o nacionalismo. Eram comuns grandes manifestações públicas exaltando os valores da pátria. Também foram construídos grandes monumentos públicos (voltados ao esporte). Em 1964, o presidente João Goulart foi deposto. Os militares tomaram o poder. Reforçando o patriotismo, os militares usavam as competições esportivas como meio de unir o povo. Segundo os opositores ao regime militarista, o esporte era considerado o “ópio do povo”, um fator alienante. Nesse período, intensificou- 8 se a construção de estádios de futebol nas grandes capitais brasileiras (os “elefantes brancos”). A Educação Física passou a ter um caráter eminentemente tecnicista, no qual somente os mais habilidosos eram valorizados. 4.1 Esporte tecnicista O período de Ditadura Militar no Brasil afetou a sociedade de várias formas e em vários meios, como o midiático e o esportivo. Os anos posteriores ao golpe, ocorrido em março de 1964, constituíram um marco na história política e social nacional e, durante a época, implantaram-se rígidas mudanças institucionais, além da repreensão de adversários políticos do governo e da própria população, o que caracterizou os governos militares entre 1964 e 1985. Almeida (2009) ressalta que o Regime Militar no Brasil pode ser dividido em pelo menos três períodos: o primeiro, que vai de março de 1964 a dezembro de 1968; o segundo, de dezembro de 1968 a 1979; e o último, de 1979 a 1985. Segundo o autor, no primeiro período, o regime que acaba de se instalar buscava consolidação. Nesse sentido, já era possível perceber restrições quanto à liberdade de expressão da população, todavia, ainda havia uma pequena tolerância a posicionamentos de oposição. É com a promulgação do Ato Institucional de número 5 (AI-5), em dezembro de 1968, que o regime começava a endurecer. As prisões, torturas e mortes tiveram início no segundo momento da ditadura, cujos principais alvos eram estudantes e jornalistas, visto sua ferrenha oposição. Foi quando a imprensa também se calou, sob o risco de sofrer as consequências de sua manifestação política – como empastelamento das redações. Na terceira fase da Ditadura Militar, é possível perceber, ainda segundo Almeida (2009), indícios do enfraquecimento da política totalitária militar. Passou-se a contar com a anistia aos presos e exilados políticos, bem como com a retomada da autonomia da mídia, o que se concretiza, de fato, com a eleição de Tancredo Neves para a presidência do Brasil, em 1985. Esta classificação não é oficial historicamente, mas serve como um guia de como se sucedeu cada etapa da Ditadura Militar e quais eram suas principais características. 9Após o estabelecimento do Regime Militar, o país passou por um período chamado “milagre econômico”, entre 1969 a 1973, que basicamente denotava o amplo crescimento da economia brasileira. Concomitantemente a tal crescimento, os estudantes começam a se manifestar – exemplo: a passeata dos “100 mil”. Os militares, por sua vez, faziam uso do esporte para unir a população. Um elemento presente até os dias atuais é a concepção do que os militares fizeram uso político do esporte. Realmente, houve esse uso. Todavia, não podemos acreditar que isso aconteça apenas em regimes totalitários ou autoritários: o mesmo acontece em regimes democráticos. Muito possivelmente, essa construção de um imaginário referente aos usos do esporte esteja relacionada à construção de estádios (os “elefantes brancos”) e à conquista do tricampeonato mundial de futebol (1970), após uma participação apática em 1966. A Copa do Mundo de Futebol de 1970 foi um marco importante dos anos de ditadura. Envolta por polêmicas quanto à escalação de jogadores partidários ao regime, em detrimento dos atletas contrários, havia a menção à priorização do esporte de alto rendimento. Essa perspectiva se expande para a Educação Física escolar. O modelo de Educação Física pautado em esportes teve seu auge na década de 1970. A grande problemática do período se refere, em essência, a dois fatores preponderantes. O primeiro deles diz respeito à perspectiva tecnicista, isto é, buscava-se enfatizar a perfeição técnica no aprendizado dos alunos. O segundo diz respeito ao fato de que o esporte passou a ser sinônimo da Educação Física, na medida em que era o conteúdo dominante nas aulas. Na década de 1980, o ensino da Educação Física começou a ser sutilmente revisto, sendo reestruturado somente na década de 1990. TEMA 5 – EDUCAÇÃO FÍSICA APÓS A DITADURA CIVIL-MILITAR Com o final da ditadura militar no início dos anos 1980, surgiram novas tendências para pensar a Educação Física no Brasil. Estas novas abordagens pretendiam romper com o modelo tecnicista vigente durante o período militar, tendo em vista que a Educação Física, ao priorizar a aprendizagem dos esportes e valorizar os talentos, não promovia o aprendizado daqueles alunos menos talentosos, sendo considerada, portanto, como uma disciplina segregadora. Essas novas abordagens pretendiam pensar uma nova Educação 10 Física brasileira, inclusiva e valorizando outras atividades, como a dança, a capoeira ou elementos das culturas regionais. Os esportes, segundo essas novas tendências, continuariam a fazer parte dos currículos da Educação Física, porém, um esporte com caráter inclusivo e reflexivo e não mais o esporte pelo esporte. 5.1 A abertura política Nas décadas de 1980 e 1990, houve uma reformulação da Educação Física. Se no decorrer da Ditadura Militar, a prioridade era o esporte técnico, neste período, a prática reflexiva ganha espaço, com o surgimento de novas abordagens rompendo com o modelo tecnicista vigente até então. Nesse sentido, contou-se com a proposta do fim da primazia dos esportes na escola, buscando a inclusão de novos conteúdos na grade curricular da Educação Física, entre eles dança, lutas e práticas regionais. Junto à abertura política que se consolidava, novas teorias da Educação Física começaram a surgir: a) 1983: Vitor Marinho de Oliveira, O que é Educação Física; b) 1983: João Paulo Medina, E Educação Física cuida do corpo e... Mente; c) 1984: Kátia Brandão Cavalcanti Esporte para todos: um discurso ideológico. Para Vitor Marinho de Oliveira, os discursos oriundos das ciências humanas deveriam balizar as práticas da Educação Física, pois o esporte é um reprodutor da situação social. Oliveira tece, em essência, uma crítica ao período militar, em que a Educação Física desenvolvia apenas o esporte, destacando que o esporte é um dos conteúdos da Educação Física. Para João Paulo Medina, por sua vez, a Educação Física precisa entrar em crise. Isto é, a ideia de crise repousa na perspectiva de objeto de estudo em que os profissionais poderiam se respaldar, reforçando, assim como afirmava Vitor Marinho de Oliveira, a importância do contato com as ciências humanas. Para Kátia Brandão Cavalcanti, ao refletir sobre a Ditadura Militar, o esporte, ao ser pensado para as massas, procurava reproduzir a competitividade do mercado e estava sendo utilizado como meio de conformação entre indivíduo e sociedade. 11 Diante do exposto, podemos perceber que a abertura política propiciou uma série de críticas e reflexões referentes ao desenvolvimento da Educação Física, sobretudo no que tange à escola e sua relação com o esporte. Para além dos autores mencionados, no pós-Ditadura Militar, surgiram, também, propostas para o ensino da Educação Física, buscando opções ao modelo que estava até então vigente. A esse respeito, podemos identificar quatro propostas. • Proposta tradicional: esta proposta se refere à “educação do físico”, em que a preocupação fundamental era com o biológico e a busca por desenvolver ritmo padronizado, corpo disciplinado, ausência da ludicidade e exacerbação do individualismo; • Proposta desenvolvimentista: o desenvolvimentismo possui Go Tani como o grande preconizador. Segundo essa perspectiva, a Educação Física precisa compreender os processos de desenvolvimento dos seres humanos. Com base nessa ideia, há a proposição de uma fundamentação teórica para crianças de 4 a 14 anos, a fim de caracterizar a progressão normal no crescimento físico, desenvolvimento fisiológico, motor, cognitivo e afetivo-social. Habilidades básicas ou padrões fundamentais do movimento também devem ser pensados; • Proposta construtivista: esta proposta é baseada em Jean Piaget e tem João Batista Freire como um de seus autores. Para Piaget, a aprendizagem do construtivismo acontece por contínuas ultrapassagens das elaborações sucessivas, que levam à ênfase nas atividades que favoreçam a espontaneidade da criança – sob o lema de que toda “verdade” deve ser reconstruída pelo aluno. Isto é, as brincadeiras do mundo infantil devem ser levadas para a Educação Física. Freire não fala da existência de padrões de movimento, mas de “esquemas motores”. Para ele, é na linguagem da ação que a criança aprende os gestos e as manipulações dos materiais – o que o autor chama de ação corporal; • Proposta crítico-superadora: refere-se ao livro conhecido como coletivo de autores. Esta proposta entende a escola como democrática, laica e unitária. A cultura corporal é entendida como a soma entre o referencial teórico e o conteúdo e a forma do conhecimento; devendo 12 ser configurada com temas como jogo, esporte, ginástica, danças e outros. Deve-se prezar pela ludicidade das práticas. Para o Coletivo de Autores (1992), cultura corporal é o conhecimento entendido com base na expressão corporal como forma de linguagem, associada às manifestações de atividades corporais denominadas jogos e brincadeiras, esporte, jogo, dança e ginástica. • Proposta crítico-emancipadora: educação como um processo, no qual devem acontecer “ações comunicativas”; isto é, o aluno deve ser levado a pensar e a discutir. Na Educação Física, esse aprendizado não pode ficar restrito ao movimento (calado), mas refuncionalizar o movimento, a fim de que seja possível a superação das situações-problema. Todas as propostas, de modo geral, à exceção da tradicional, buscam o alinhamento ao pensamento crítico, aproximando-se das disciplinas de cunho social, pretendendo um equilíbrio entre teoria e prática, biológico e social. NA PRÁTICA Ao refazer a trajetória da Educação Física no Brasil, podemos notar que esta disciplina se desenvolveu principalmente ao longo do século XX, porém, esse desenvolvimento foi propiciado pelo seu caráter utilitário, ou seja, sempre esteve alinhado com as pretensões dos poderesinstituídos. No período higienista, o objetivo da Educação Física era formar cidadãos saudáveis e fortes, que fossem capazes de trabalhar nas fábricas que emergiam naquele período. Na fase eugênica, o objetivo era formar e selecionar cidadãos fortes para uma espécie de melhora racial do brasileiro. Já no período militar, a Educação Física adquiriu um caráter tecnicista e que incentivava as competições, a disciplina e o nacionalismo, formando cidadãos com características militarizadas. Somente após a década de 1980, com o fim da Ditadura Militar, a atuação dos educadores físicos adquiriu um caráter mais crítico, assumindo definitivamente seu lugar social. 13 FINALIZANDO Nesta aula, você pôde compreender um pouco mais sobre os processos históricos que culminaram com o estabelecimento da Educação Física no Brasil. Você foi capaz de perceber que, durante esta trajetória, a Educação Física adquiriu vários sentidos diferentes? Você notou que a partir do século XX, mesmo em contextos distintos, a Educação Física era considerada elemento fundamental na formação do cidadão brasileiro? Depois de reunir esses conhecimentos e compreender determinados contextos, você está apto a refletir criticamente sobre as condições da Educação Física na atualidade. 14 REFERÊNCIAS CASTELLANI FILHO, L. Educação Física no Brasil – a história que não se conta. Campinas: Papirus, 1991. COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do Ensino de Educação Física. São Paulo: Cortez, 1992. GÓIS, E. J.; GARCIA, A. B. A eugenia em periódicos da educação física brasileira (1930-1940). R. da Educação Física/UEM, Maringá, v. 22, n. 2, p. 247-254, 2011. SOARES, C. L. Educação Física: raízes europeias e Brasil. Campinas: Autores Associados, 1994.