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ASPECTOS SÓCIO-HISTÓRICOS 
DA EDUCAÇÃO FÍSICA 
AULA 3 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Riqueldi Straub Lise 
 
 
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CONVERSA INICIAL 
Nesta aula, vamos tratar de cinco temas principais, são eles: o Brasil do 
século XIX; a Educação Física higienista; eugenia e Educação Física; 
Educação Física na ditadura civil-militar; e, por fim, a Educação Física após a 
ditadura civil-militar. Para entender a trajetória da Educação Física no Brasil, é 
preciso antes compreender o contexto político e social do país naquele 
momento – segunda metade do século XIX – e de que maneira esse contexto 
interferiu na concepção e na disseminação das práticas físicas e da Educação 
Física. Não restam dúvidas de que os movimentos ginásticos, já popularizados 
na Europa, tiveram profunda influência na reorientação da mentalidade da 
sociedade brasileira em relação aos exercícios físicos. 
TEMA 1 – O BRASIL DO SÉCULO XIX 
Na segunda metade do século XIX, o Brasil ainda era um país com 
características agrárias, no qual o sistema escravagista ainda vigorava. Vale 
aqui ressaltar que os movimentos ginásticos europeus se disseminaram 
principalmente em ambientes urbanos. Dessa maneira, é possível afirmar que 
não existia no Brasil uma cultura das práticas físicas, muito pelo contrário, tais 
práticas eram consideradas um ofício dos escravos. Naquele período, a grande 
metrópole brasileira era a cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, 
cidade mais importante com um contingente populacional de aproximadamente 
400 mil habitantes. Nesse sentido, vale aqui um alerta: todas as considerações 
acerca deste período se referem à cidade do Rio de Janeiro. Vamos perceber, 
ao longo desta aula, que as condições sanitárias do Rio de Janeiro eram muito 
precárias e o estabelecimento de reformas urbanas criou um ambiente propício 
para o início das práticas físicas no Brasil. 
1.1 Rio de Janeiro, a cidade febril 
Após a proclamação da Independência do Brasil, em 1822, passou-se a 
viver o Brasil Imperial, sob a figura do imperador Dom Pedro I. Nessa 
sociedade brasileira do final do XIX, havia um forte preconceito em relação às 
atividades que exigiam esforço muscular, exposição ao sol, banhos de mar, 
sem mencionar a inexistência de hábitos esportivos no país. O esforço 
muscular era eminentemente relegado apenas aos escravizados, o que, 
 
 
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consequentemente, dificultava o gosto das classes mais altas pela atividade 
física. Somado a isso, a área central do Rio de Janeiro era o epicentro da crise 
de moradias, devido à elevada concentração demográfica – que se intensifica 
após a abolição da escravatura. Sem saneamento, todos os dejetos eram 
jogados nas calçadas e no mar. Por esse motivo, os banhos de mar não 
figuravam como um programa interessante, visto que não se tratava de uma 
área da cidade glamourosa. Muito pelo contrário: apenas as pessoas menos 
abastadas economicamente andavam pelas redondezas da praia. 
As obras da cidade eram exclusivas para a burguesia, deixando a 
população comum sob condições péssimas de saneamento e saúde: eram 
constantes as contaminações por epidemias de cólera, febre amarela e gripe; 
havia grande falta de higiene; além de a apropriação de hábitos europeus não 
ser compatível com as condições climáticas brasileiras. 
Diante dessas circunstâncias, a cidade se via ameaçada pelas 
epidemias e pelas tentativas de controle dos higienistas e do poder público, 
que buscavam a transformação do espaço da cidade, incidindo diretamente 
sobre as moradias populares. Tal incidência acarretou a resistência da 
população aos novos hábitos, por meio da conservação das tradições 
populares. 
TEMA 2 – A EDUCAÇÃO FÍSICA HIGIENISTA 
A Educação Física higienista, proveniente dos movimentos ginásticos 
europeus (especificamente, o Método Démeny – parte Movimento Ginástico 
Francês), tinha como objetivos principais a formação de jovens saudáveis, 
fortes, robustos e disciplinados. Essa Educação Física estava pautada em um 
prestigioso discurso médico, que agora exaltava as qualidades das práticas 
físicas enquanto um fator de manutenção e melhora das condições de saúde 
da população brasileira. A inclusão da Educação Física como disciplina 
obrigatória nas escolas em conjunto com uma série de medidas de caráter 
sanitário pretendia produzir uma sociedade com indivíduos sem vícios, fortes, 
mais produtivos e prontos para a ação. Fica então evidenciado que a Educação 
Física tinha um enfoque voltado para a manutenção da saúde, e seus 
instrutores eram majoritariamente militares influenciados por um discurso 
médico. 
 
 
 
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2.1 Medicina higienista e a Educação Física 
A Ginástica nas escolas foi implantada no final do século XVIII e início 
do XIX na Europa. Como era o começo da sociedade capitalista (Revolução 
Industrial), os exercícios físicos eram fator primordial, já que o trabalho 
começou a ser vendido como mercadoria. Nesse sentido, entre os fins do 
século XIX e início do século XX, a higiene surge como reflexo da preocupação 
que as elites tinham com o corpo do trabalhador. 
O Movimento Higienista ou Sanitarista surge, portanto, com o ideal cujo 
eixo era a preocupação com a saúde da população; a defesa da saúde pública; 
o ensino de novos hábitos higiênicos; e a valorização da população como um 
bem, um recurso principal da nação. Por meio da educação, formar-se-ia uma 
cultura brasileira e um povo mais saudável. Os objetivos do higienismo 
centravam-se, assim, na formação do homem forte, saudável e adestrado; 
utilizando como mediador a figura dos instrutores físicos, que eram militares, 
influenciados por médicos higienistas. 
Para tanto, deu-se ênfase na saúde nas aulas de Educação Física, nas 
quais destacavam-se os movimentos ginásticos. Na Europa, já em 1800, se 
estabeleceram formas distintas de encarar os exercícios físicos. Como vimos 
na aula anterior, quatro países desenvolveram as primeiras sistematizações de 
métodos ginásticos: França, Suécia, Alemanha e Inglaterra. O uso da ginástica 
buscava corrigir vícios posturais oriundos das atitudes adotadas no trabalho, 
bem como de ordem disciplinar (a docilização dos corpos). Assim, é possível 
inferir a relevância da Educação Física no Movimento Higienista, que também 
trazia a preocupação em enfatizar o que é o “físico” e para que serve. 
A grande valorização da Educação Física no Brasil começou em 1882, 
quando Rui Barbosa – na época deputado – pregou a obrigatoriedade da 
ginástica nas escolas. Sob a relação entre Higienismo e Educação Física, o 
professor/instrutor seria, portanto, agente de saneamento público, produzindo 
uma sociedade sem doenças e vícios, com indivíduos fortes prontos para a 
ação. 
No que se refere aos aspectos básicos desenvolvidos pela Educação 
Física, podemos mencionar: 
 
 
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1. Educação orgânica (nutrição): isto é, a quantidade de trabalho e o tipo 
de alimentação absorvida, pensando o corpo de forma similar a um 
motor, com órgãos restituindo mecanicamente a energia recebida; 
2. Educação psicomotora (habilidades): isto é, desenvolver a destreza, 
velocidade, agilidade, força e resistência; 
3. Educação do caráter (valores morais): isto é, desenvolver sabedoria, 
precisão, generosidade e bondade, de modo que as ações sejam úteis e 
não apenas boas; 
4. Educação intelectual (compreensão e discernimento): isto é, a 
capacidade de refletir sobre os valores morais e, efetivamente, 
transformar as ações em tanto boas quanto úteis. 
Todos esses aspectos se coadunam ao cenário do Rio de Janeiro da 
Belle Époque – momento de várias influências inglesas e francesas, incluindo 
os esportes. 
Diante de todo o cenário de falta de saneamento e alta concentração 
demográfica, dois personagens se destacam nas ações: o prefeito Pereira 
Passos e o médico higienista Oswaldo Cruz. Contava-se com duas ações 
concomitantes liderada por Passo e Cruz, respectivamente: o projetourbano e 
o controle de doenças. 
Por volta de 1902, o prefeito Pereira Passos lançou o “bota-abaixo”, que 
consistia em transformar a capital do Brasil em cartão postal, por meio da 
demolição dos cortiços e habitações coletivas, que eram foco de epidemia e 
desordem. Com a demolição dessas moradias, a população que ali habitava 
(ex-escravizados e pessoas de pouco poder aquisitivo) foi obrigada a procurar 
abrigo nos morros – surgiam aí as primeiras favelas. 
Enquanto isso, Oswaldo Cruz procurava sanear a cidade, combatendo a 
varíola e a febre amarela. Mas, já depreciada por conta do poder aquisitivo e 
pelas desapropriações, a população se revoltou contra a obrigatoriedade da 
vacina, dando início a um momento marcante na História: a Revolta da Vacina. 
A Revolta da Vacina (1904) consistiu em um enfrentamento durante 
quatro dias entre os populares e os policiais. A população gritava “abaixo à 
vacina!”, assaltava companhias de gás e roubava fios telefônicos. A Revolta foi 
o desaguar de uma série de frustrações que se agravaram quando 
oposicionistas divulgaram o boato de que a vacina não estaria imunizando, 
mas sim provocando a doença. 
 
 
6 
Essa compreensão médica, baseada na Medicina Social de índole 
higiênica, tentava a reorganização familiar, criticando a estrutura familiar 
monárquica – considerada incapaz de educar os filhos. Um fator importante era 
que havia o temor de uma revolta para reorganizar a monarquia. 
TEMA 3 – EUGENIA E EDUCAÇÃO FÍSICA 
O objetivo da eugenia era estudar a influência da herança genética 
nas qualidades físicas e mentais dos indivíduos. O grande precursor 
dessa linha de estudos na Europa foi Francis Galton. Em 1865, 
Galton defendeu a hereditariedade das qualidades mentais, assim 
como das físicas. Já em 1869, Galton passou a defender a 
necessidade de melhorar as qualidades naturais dos homens. (Gois 
Junior; Garcia, 2011, p. 247) 
Havia nesse período um pensamento de que os problemas brasileiros 
residiam em um povo fraco, e que essa não era uma situação definitiva. Assim, 
os projetos eugenistas de melhoria do povo ou da raça tinham dois pilares: 1) 
educação e saúde; 2) melhora genética da população. 
3.1 A ciência da melhoria da espécie 
Enquanto o higienismo preconizava a manutenção da saúde da 
população sob a criação de hábitos mais saudáveis e higiênicos; o eugenismo, 
que se apresenta no Brasil na década de 1920, visava à melhoria hereditária 
da população. O eugenismo permanece estudando as medidas 
socioeconômicas, sanitárias e educacionais, assim como o higienismo. 
Todavia, o ideal eugênico é mais contundente, na medida em que toma posse 
de tais informações para compreender quais delas podem influenciar física e 
mentalmente o desenvolvimento de qualidades hereditárias. Ou seja, estamos 
falando de controle não só do meio, mas também genético. A esse tipo de 
intervenção, chamamos “profilaxia social”, isto é, uma limpeza social da 
população, cujas propostas eram: 
1. Impedir a procriação de portadores de doenças hereditárias; 
2. Eliminar os portadores de problemas físicos; 
3. Também os com problemas mentais incapacitantes. 
É importante mencionar que o eugenismo ganha força no Brasil após a 
Revolução de 1930, em que Getúlio Vargas assume a presidência da república. 
O que seria um governo provisório culmina com o Estado Novo (1937 a 1945). 
 
 
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Vargas apresentava um alinhamento ideológico a Adolf Hitler (Alemanha) e 
Benito Mussolini (Itália), promovendo políticas autoritárias e progressistas. 
Esse totalitarismo trouxe uma maior inserção eugênica, com o intuito de 
desenvolver uma identidade nacional brasileira. 
No que tange à Educação Física, a eugenia é apresentada 
peculiarmente como a ciência do aperfeiçoamento físico e moral. Mas o que o 
exercício físico tem a ver com uma profilaxia social? 
Com base na teoria do uso e desuso (ou hereditariedade dos caracteres 
adquiridos) de Lamarck, acreditava-se na transmutação por influências 
externas; juntamente com a ideia de seleção natural de Charles Darwin. Assim, 
a prática de atividades físicas regulares somada a hábitos saudáveis 
(higiênicos) poderiam contribuir para a evolução física da população brasileira – 
contando com certo auxílio profilático, que não permitia a reprodução das 
pessoas com deficiências. A essa perspectiva, podemos somar o papel da 
mulher, cuja prática regular de exercícios físicos propiciaria, por meio da 
gravidez, uma nova geração forte, um exército poderoso e, portanto, uma 
nação soberana. 
Inevitavelmente, toda essa iniciativa brasileira estava atrelada à 
construção de uma raça brasileira, em prol da coesão social, da unidade racial 
e do otimismo da nação. Havia uma recusa às teorias climáticas e raciais que 
determinavam o fracasso e a incivilidade da nação brasileira. 
O ideal eugênico teve seu fim após a Segunda Guerra Mundial, mas 
ainda permaneceria enraizado no Brasil. 
TEMA 4 – EDUCAÇÃO FÍSICA NO PERÍODO DA DITADURA CIVIL-MILITAR 
Após as primeiras décadas republicanas, surge o Estado Novo, cujo 
principal referencial foi Getúlio Vargas. Nesse período (décadas de 1940 e 
1950), ainda permaneciam os ideais higienistas e eugenistas, mas o principal 
fator ligado à Educação Física era o nacionalismo. Eram comuns grandes 
manifestações públicas exaltando os valores da pátria. Também foram 
construídos grandes monumentos públicos (voltados ao esporte). Em 1964, o 
presidente João Goulart foi deposto. Os militares tomaram o poder. Reforçando 
o patriotismo, os militares usavam as competições esportivas como meio de 
unir o povo. Segundo os opositores ao regime militarista, o esporte era 
considerado o “ópio do povo”, um fator alienante. Nesse período, intensificou-
 
 
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se a construção de estádios de futebol nas grandes capitais brasileiras (os 
“elefantes brancos”). A Educação Física passou a ter um caráter 
eminentemente tecnicista, no qual somente os mais habilidosos eram 
valorizados. 
4.1 Esporte tecnicista 
 O período de Ditadura Militar no Brasil afetou a sociedade de várias 
formas e em vários meios, como o midiático e o esportivo. Os anos posteriores 
ao golpe, ocorrido em março de 1964, constituíram um marco na história 
política e social nacional e, durante a época, implantaram-se rígidas mudanças 
institucionais, além da repreensão de adversários políticos do governo e da 
própria população, o que caracterizou os governos militares entre 1964 e 1985. 
Almeida (2009) ressalta que o Regime Militar no Brasil pode ser dividido 
em pelo menos três períodos: o primeiro, que vai de março de 1964 a 
dezembro de 1968; o segundo, de dezembro de 1968 a 1979; e o último, de 
1979 a 1985. 
Segundo o autor, no primeiro período, o regime que acaba de se instalar 
buscava consolidação. Nesse sentido, já era possível perceber restrições 
quanto à liberdade de expressão da população, todavia, ainda havia uma 
pequena tolerância a posicionamentos de oposição. 
É com a promulgação do Ato Institucional de número 5 (AI-5), em 
dezembro de 1968, que o regime começava a endurecer. As prisões, torturas e 
mortes tiveram início no segundo momento da ditadura, cujos principais alvos 
eram estudantes e jornalistas, visto sua ferrenha oposição. Foi quando a 
imprensa também se calou, sob o risco de sofrer as consequências de sua 
manifestação política – como empastelamento das redações. 
Na terceira fase da Ditadura Militar, é possível perceber, ainda segundo 
Almeida (2009), indícios do enfraquecimento da política totalitária militar. 
Passou-se a contar com a anistia aos presos e exilados políticos, bem como 
com a retomada da autonomia da mídia, o que se concretiza, de fato, com a 
eleição de Tancredo Neves para a presidência do Brasil, em 1985. 
Esta classificação não é oficial historicamente, mas serve como um guia 
de como se sucedeu cada etapa da Ditadura Militar e quais eram suas 
principais características. 
 
 
9Após o estabelecimento do Regime Militar, o país passou por um 
período chamado “milagre econômico”, entre 1969 a 1973, que basicamente 
denotava o amplo crescimento da economia brasileira. Concomitantemente a 
tal crescimento, os estudantes começam a se manifestar – exemplo: a 
passeata dos “100 mil”. Os militares, por sua vez, faziam uso do esporte para 
unir a população. Um elemento presente até os dias atuais é a concepção do 
que os militares fizeram uso político do esporte. Realmente, houve esse uso. 
Todavia, não podemos acreditar que isso aconteça apenas em regimes 
totalitários ou autoritários: o mesmo acontece em regimes democráticos. Muito 
possivelmente, essa construção de um imaginário referente aos usos do 
esporte esteja relacionada à construção de estádios (os “elefantes brancos”) e 
à conquista do tricampeonato mundial de futebol (1970), após uma participação 
apática em 1966. 
A Copa do Mundo de Futebol de 1970 foi um marco importante dos anos 
de ditadura. Envolta por polêmicas quanto à escalação de jogadores partidários 
ao regime, em detrimento dos atletas contrários, havia a menção à priorização 
do esporte de alto rendimento. Essa perspectiva se expande para a Educação 
Física escolar. 
O modelo de Educação Física pautado em esportes teve seu auge na 
década de 1970. A grande problemática do período se refere, em essência, a 
dois fatores preponderantes. O primeiro deles diz respeito à perspectiva 
tecnicista, isto é, buscava-se enfatizar a perfeição técnica no aprendizado dos 
alunos. O segundo diz respeito ao fato de que o esporte passou a ser sinônimo 
da Educação Física, na medida em que era o conteúdo dominante nas aulas. 
Na década de 1980, o ensino da Educação Física começou a ser 
sutilmente revisto, sendo reestruturado somente na década de 1990. 
TEMA 5 – EDUCAÇÃO FÍSICA APÓS A DITADURA CIVIL-MILITAR 
Com o final da ditadura militar no início dos anos 1980, surgiram novas 
tendências para pensar a Educação Física no Brasil. Estas novas abordagens 
pretendiam romper com o modelo tecnicista vigente durante o período militar, 
tendo em vista que a Educação Física, ao priorizar a aprendizagem dos 
esportes e valorizar os talentos, não promovia o aprendizado daqueles alunos 
menos talentosos, sendo considerada, portanto, como uma disciplina 
segregadora. Essas novas abordagens pretendiam pensar uma nova Educação 
 
 
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Física brasileira, inclusiva e valorizando outras atividades, como a dança, a 
capoeira ou elementos das culturas regionais. Os esportes, segundo essas 
novas tendências, continuariam a fazer parte dos currículos da Educação 
Física, porém, um esporte com caráter inclusivo e reflexivo e não mais o 
esporte pelo esporte. 
5.1 A abertura política 
Nas décadas de 1980 e 1990, houve uma reformulação da Educação 
Física. Se no decorrer da Ditadura Militar, a prioridade era o esporte técnico, 
neste período, a prática reflexiva ganha espaço, com o surgimento de novas 
abordagens rompendo com o modelo tecnicista vigente até então. Nesse 
sentido, contou-se com a proposta do fim da primazia dos esportes na escola, 
buscando a inclusão de novos conteúdos na grade curricular da Educação 
Física, entre eles dança, lutas e práticas regionais. 
Junto à abertura política que se consolidava, novas teorias da Educação 
Física começaram a surgir: 
a) 1983: Vitor Marinho de Oliveira, O que é Educação Física; 
b) 1983: João Paulo Medina, E Educação Física cuida do corpo e... Mente; 
c) 1984: Kátia Brandão Cavalcanti Esporte para todos: um discurso 
ideológico. 
Para Vitor Marinho de Oliveira, os discursos oriundos das ciências 
humanas deveriam balizar as práticas da Educação Física, pois o esporte é um 
reprodutor da situação social. Oliveira tece, em essência, uma crítica ao 
período militar, em que a Educação Física desenvolvia apenas o esporte, 
destacando que o esporte é um dos conteúdos da Educação Física. 
Para João Paulo Medina, por sua vez, a Educação Física precisa entrar 
em crise. Isto é, a ideia de crise repousa na perspectiva de objeto de estudo 
em que os profissionais poderiam se respaldar, reforçando, assim como 
afirmava Vitor Marinho de Oliveira, a importância do contato com as ciências 
humanas. 
Para Kátia Brandão Cavalcanti, ao refletir sobre a Ditadura Militar, o 
esporte, ao ser pensado para as massas, procurava reproduzir a 
competitividade do mercado e estava sendo utilizado como meio de 
conformação entre indivíduo e sociedade. 
 
 
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Diante do exposto, podemos perceber que a abertura política propiciou 
uma série de críticas e reflexões referentes ao desenvolvimento da Educação 
Física, sobretudo no que tange à escola e sua relação com o esporte. 
Para além dos autores mencionados, no pós-Ditadura Militar, surgiram, 
também, propostas para o ensino da Educação Física, buscando opções ao 
modelo que estava até então vigente. A esse respeito, podemos identificar 
quatro propostas. 
• Proposta tradicional: esta proposta se refere à “educação do físico”, 
em que a preocupação fundamental era com o biológico e a busca por 
desenvolver ritmo padronizado, corpo disciplinado, ausência da 
ludicidade e exacerbação do individualismo; 
• Proposta desenvolvimentista: o desenvolvimentismo possui Go Tani 
como o grande preconizador. Segundo essa perspectiva, a Educação 
Física precisa compreender os processos de desenvolvimento dos seres 
humanos. Com base nessa ideia, há a proposição de uma 
fundamentação teórica para crianças de 4 a 14 anos, a fim de 
caracterizar a progressão normal no crescimento físico, desenvolvimento 
fisiológico, motor, cognitivo e afetivo-social. Habilidades básicas ou 
padrões fundamentais do movimento também devem ser pensados; 
• Proposta construtivista: esta proposta é baseada em Jean Piaget e 
tem João Batista Freire como um de seus autores. Para Piaget, a 
aprendizagem do construtivismo acontece por contínuas ultrapassagens 
das elaborações sucessivas, que levam à ênfase nas atividades que 
favoreçam a espontaneidade da criança – sob o lema de que toda 
“verdade” deve ser reconstruída pelo aluno. Isto é, as brincadeiras do 
mundo infantil devem ser levadas para a Educação Física. 
Freire não fala da existência de padrões de movimento, mas de 
“esquemas motores”. Para ele, é na linguagem da ação que a criança 
aprende os gestos e as manipulações dos materiais – o que o autor 
chama de ação corporal; 
• Proposta crítico-superadora: refere-se ao livro conhecido como 
coletivo de autores. Esta proposta entende a escola como democrática, 
laica e unitária. A cultura corporal é entendida como a soma entre o 
referencial teórico e o conteúdo e a forma do conhecimento; devendo 
 
 
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ser configurada com temas como jogo, esporte, ginástica, danças e 
outros. Deve-se prezar pela ludicidade das práticas. 
Para o Coletivo de Autores (1992), cultura corporal é o conhecimento 
entendido com base na expressão corporal como forma de linguagem, 
associada às manifestações de atividades corporais denominadas jogos e 
brincadeiras, esporte, jogo, dança e ginástica. 
• Proposta crítico-emancipadora: educação como um processo, no qual 
devem acontecer “ações comunicativas”; isto é, o aluno deve ser levado 
a pensar e a discutir. 
Na Educação Física, esse aprendizado não pode ficar restrito ao 
movimento (calado), mas refuncionalizar o movimento, a fim de que seja 
possível a superação das situações-problema. Todas as propostas, de modo 
geral, à exceção da tradicional, buscam o alinhamento ao pensamento crítico, 
aproximando-se das disciplinas de cunho social, pretendendo um equilíbrio 
entre teoria e prática, biológico e social. 
NA PRÁTICA 
Ao refazer a trajetória da Educação Física no Brasil, podemos notar que 
esta disciplina se desenvolveu principalmente ao longo do século XX, porém, 
esse desenvolvimento foi propiciado pelo seu caráter utilitário, ou seja, sempre 
esteve alinhado com as pretensões dos poderesinstituídos. No período 
higienista, o objetivo da Educação Física era formar cidadãos saudáveis e 
fortes, que fossem capazes de trabalhar nas fábricas que emergiam naquele 
período. Na fase eugênica, o objetivo era formar e selecionar cidadãos fortes 
para uma espécie de melhora racial do brasileiro. Já no período militar, a 
Educação Física adquiriu um caráter tecnicista e que incentivava as 
competições, a disciplina e o nacionalismo, formando cidadãos com 
características militarizadas. Somente após a década de 1980, com o fim da 
Ditadura Militar, a atuação dos educadores físicos adquiriu um caráter mais 
crítico, assumindo definitivamente seu lugar social. 
 
 
 
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FINALIZANDO 
Nesta aula, você pôde compreender um pouco mais sobre os processos 
históricos que culminaram com o estabelecimento da Educação Física no 
Brasil. Você foi capaz de perceber que, durante esta trajetória, a Educação 
Física adquiriu vários sentidos diferentes? Você notou que a partir do século 
XX, mesmo em contextos distintos, a Educação Física era considerada 
elemento fundamental na formação do cidadão brasileiro? Depois de reunir 
esses conhecimentos e compreender determinados contextos, você está apto a 
refletir criticamente sobre as condições da Educação Física na atualidade. 
 
 
 
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REFERÊNCIAS 
CASTELLANI FILHO, L. Educação Física no Brasil – a história que não se 
conta. Campinas: Papirus, 1991. 
COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do Ensino de Educação Física. São 
Paulo: Cortez, 1992. 
GÓIS, E. J.; GARCIA, A. B. A eugenia em periódicos da educação física 
brasileira (1930-1940). R. da Educação Física/UEM, Maringá, v. 22, n. 2, p. 
247-254, 2011. 
SOARES, C. L. Educação Física: raízes europeias e Brasil. Campinas: 
Autores Associados, 1994.

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