Prévia do material em texto
Autor: Prof. Flávio Celso Müller Martin Colaboradores: Prof. Fábio Ricardo Brandão dos Santos Profa. Tânia Sandroni Administração Estratégica Professor conteudista: Flávio Celso Müller Martin Bacharel em Comunicação Social pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) de São Paulo, pós-graduado em Marketing de Serviços pela Universidade Paulista (UNIP) e mestre em Administração pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Profissional de marketing, possui vinte anos de experiência executiva em empresas nacionais e multinacionais dos ramos de embalagens, equipamentos, gráfico, financeiro e de serviços. © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) M379a Martin, Flávio Celso Müller. Administração Estratégica / Flávio Celso Müller Martin. – São Paulo: Editora Sol, 2022. 152 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ISSN 1517-9230. 1. Análise. 2. Estratégia. 3. Perspectiva. I. Título. CDU 65.012.2 U515.31 – 22 Prof. Dr. João Carlos Di Genio Reitor Profa. Sandra Miessa Reitora em Exercício Profa. Dra. Marilia Ancona Lopez Vice-Reitora de Graduação Profa. Dra. Marina Ancona Lopez Soligo Vice-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Claudia Meucci Andreatini Vice-Reitora de Administração Prof. Dr. Paschoal Laercio Armonia Vice-Reitor de Extensão Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento e Finanças Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora de Unidades do Interior Unip Interativa Profa. Elisabete Brihy Prof. Marcelo Vannini Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar Prof. Ivan Daliberto Frugoli Material Didático Comissão editorial: Profa. Dra. Christiane Mazur Doi Profa. Dra. Angélica L. Carlini Profa. Dra. Ronilda Ribeiro Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista Profa. Deise Alcantara Carreiro Projeto gráfico: Prof. Alexandre Ponzetto Revisão: Vitor Andrade Lucas Ricardi Sumário Administração Estratégica APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................7 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................7 Unidade I 1 CASO DA IBM .......................................................................................................................................................9 2 ENTENDENDO O QUE É A ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA ............................................................ 12 2.1 Evolução histórica da estratégia .................................................................................................... 14 2.1.1 Período de 1900 a 1950 ....................................................................................................................... 19 2.1.2 A matriz produto/mercado de Ansoff ............................................................................................ 21 2.1.3 Período das décadas de 1950 e 1960 ............................................................................................. 24 2.1.4 Matriz BCG ................................................................................................................................................ 25 2.1.5 Matriz GE/McKinsey ............................................................................................................................... 29 2.1.6 Michael Porter e estratégia ................................................................................................................. 32 2.1.7 Década de 1980 em diante ................................................................................................................. 39 2.1.8 Mintzberg e estratégia .......................................................................................................................... 40 2.1.9 A vantagem competitiva de Ghemawat e Rivkin ..................................................................... 43 2.2 O processo de administração estratégica ................................................................................... 45 2.3 Níveis de decisão estratégica .......................................................................................................... 46 Unidade II 3 ANÁLISE DO AMBIENTE EXTERNO E DO AMBIENTE INTERNO ...................................................... 53 3.1 Análise do Ambiente Externo .......................................................................................................... 53 3.2 Análise do Ambiente Interno ........................................................................................................... 59 4 A INTEGRAÇÃO DAS ANÁLISES – SWOT ................................................................................................. 62 Unidade III 5 CASO HAVAIANAS ........................................................................................................................................... 69 5.1 Formulação estratégica de nível corporativo ........................................................................... 76 5.1.1 Estratégia de crescimento ................................................................................................................... 76 5.1.2 Estratégia de estabilidade ................................................................................................................... 80 5.1.3 Estratégia de retração ........................................................................................................................... 81 5.2 Formulação estratégica de nível de negócio ............................................................................ 82 5.2.1 Liderança de custo ................................................................................................................................. 82 5.2.2 Diferenciação ............................................................................................................................................ 85 5.2.3 Foco .............................................................................................................................................................. 86 5.3 Formulação estratégica de nível funcional................................................................................ 89 5.3.1 Estratégia de RH ...................................................................................................................................... 89 5.3.2 Estratégia de vendas/marketing ....................................................................................................... 90 5.3.3 Estratégia de produção/operação .................................................................................................... 95 5.3.4 Outras estratégias funcionais ............................................................................................................ 97 6 CAMPOS E ARMAS DA COMPETIÇÃO: NOVO MODELO DE ESTRATÉGIA ................................... 97 6.1 Campos de competição ..................................................................................................................... 98 6.2 Armas de competição .......................................................................................................................102 Unidade IV 7 CASO MASTERCARD .....................................................................................................................................113 7.1 Implementação das estratégias ....................................................................................................115 7.2 Balanced Scorecard (BSC) ...............................................................................................................121mercados não há muita dificuldade em negociar com fornecedores ou canais de distribuição, pois já atendem normalmente as empresas existentes e não vão evitar um novo cliente. Porém, há casos em que os players atuais exercem poder sobre fornecedores ou distribuidores; assim, forma-se uma barreira. Seja por lealdade, seja por pressão econômica, fornecedores-chave e atacadistas/varejistas podem ser exigentes além da conta com o entrante. Essa situação é típica no setor de produtos militares como armas, aeronaves e veículos, com as empresas atuais pressionando seus fornecedores a adotar contratos de exclusividade, atrapalhando novos entrantes. Em outra situação, fornecedores de autopeças no mercado japonês são ferozmente leais aos fabricantes como Toyota e Honda, e é difícil obter sua atenção. • Curva de experiência: quem atua há mais tempo no mercado detém a vantagem da experiência consolidada. Sua força de trabalho está treinada e operando há tempos. O know-how oriundo da experiência é utilizado de maneira corriqueira. Muitas vezes, isso é uma barreira para um novo entrante. Imagine o problema de uma nova empresa para entrar no mercado de relógios de luxo, por exemplo. O nível de experiência e precisão exigido para a força de trabalho (praticamente artesãos) pode dificultar enormemente uma nova empresa nesse ramo. Claro que isso pode ser evitado ao se adquirir uma empresa já estabelecida: compra-se junto a curva de experiência acumulada. A Volvo, tradicional montadora de automóveis sueca reconhecida mundialmente pelo know-how em segurança automotiva, foi comprada pela Geely, grande fabricante chinesa de automóveis, por US$ 1,8 bilhão há aproximadamente dez anos. Foi uma maneira eficiente de entrar em mercados que reagiam mal aos produtos Geely. De maneira análoga, a Lenovo, multinacional chinesa de tecnologia, comprou a unidade de negócio de computadores pessoais da IBM em 2005 (já comentamos sobre a venda pela IBM anteriormente) e depois comprou a unidade de negócios de servidores, também da IBM. Essa compra trouxe, entre outros benefícios mais tangíveis, curva de experiência em projetar, fabricar e vender hardware de computadores em escala mundial. • Marco legal: trata-se de uma barreira imposta por governos locais que podem fazer restrições a novos entrantes (normalmente estrangeiros). Podem ser de ordem fiscal (impostos, inclusive de importação), exigência de documentações, proteção de patentes e exigência de contrapartidas. Depois estudaremos como o governo chinês exige contrapartidas para empresas estrangeiras se instalarem na China. • Diferenciação: quando os produtos atuais apresentam características exclusivas e de alta percepção de valor, pode ocorrer a inibição de esforços para novos entrantes, uma vez que o terreno está fortemente defendido em termos de percepção. Nem mesmo milionários sauditas 36 Unidade I pensam em investir no ramo de automóveis de alto luxo. Rolls-Royce, Bentley e Maserati têm altíssima percepção de valor. Essas são as barreiras mais comuns, mas pode haver muito mais em casos específicos. De qualquer forma, se há muitas barreiras de entrada, a capacidade competitiva de quem já está no setor é alta, pois os riscos de um concorrente novo aparecer dividindo mercado são bem baixos. A terceira força é a ameaça de produtos substitutos e também envolve a possibilidade, mas nesse caso não é de um novo concorrente no seu mercado, e sim de um produto ou serviço que possa tornar seu produto obsoleto ou sem atrativos. Por exemplo, locomotivas a vapor foram fabricadas até meados do século XX, sendo substituídas por locomotivas a diesel ou elétricas. Os fabricantes que não mapearam a ameaça de substituição certamente perderam mercado. Você deve lembrar dos aparelhos toca-discos, que já foram uma indústria enorme em todo o mundo. Foram substituídos pela tecnologia do CD. Alguns fabricantes de toca-discos quebraram por isso (outros migraram para a nova tecnologia, claro). O CD foi substituído pela tecnologia de música MP3 com players de todos os preços (e a pirataria de MP3 depois quebrou a indústria fonográfica em larga escala). Agora a música é ouvida principalmente em smartphones através de aplicativos gratuitos (com anúncios) ou pagos. Em outro ramo, o Uber substituiu o táxi tradicional – nesse caso, acabaram dividindo mercado. Veja que empresas devem estar atentas a uma força competitiva que pode levá-las à falência: a possibilidade de um know-how inovador pode tornar seu negócio obsoleto. A) B) C) Figura 17 – Toca-discos, CD player e MP3 player Disponível em: A) https://bit.ly/3wv5mZs; B) https://bit.ly/3NjN2ta; C) https://bit.ly/3sCEF3G. Acesso em: 16 maio 2022. 37 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA O poder de barganha de fornecedores, a quarta força, é de simples compreensão: manda quem é mais forte, obedece quem é mais fraco. Se uma empresa depende de alguns fornecedores expressivos e mais fortes, certamente esses fornecedores vão ser exigentes nas negociações e não vão dar descontos, prazos de pagamento e outras vantagens. Por outro lado, se a mesma empresa tiver outros fornecedores mais fracos, a negociação passa a ser vantajosa para a empresa. Esse é o poder de barganha: o conjunto de fatores que dá maior ou menor poder numa negociação comercial. Imagine o Carrefour, uma das maiores redes de varejo do país, negociando com um pequeno laticínio mineiro: certamente vai exigir descontos, prazos etc. Por outro lado, ao negociar com a Nestlé, o poder de barganha muda, alterando-se a capacidade competitiva e a rentabilidade. Fornecedor forte Produtor fraco Fornecedor fraco Produtor forte Impõe condições comerciais Impõe condições comerciais Figura 18 – Poder de barganha de fornecedores A quinta força, poder de barganha dos clientes, é exatamente igual, mas em outro sentido, pois guarda relação com os clientes da empresa. O mais forte continua mandando na negociação. Imagine de novo o pequeno laticínio mineiro do exemplo anterior. Na negociação com o Carrefour, ele perde competitividade, mas na negociação com mercadinhos de cidades próximas talvez ele tenha mais poder de barganha. Pense no mercadinho de bairro lidando com sua freguesia da vizinhança: se não houver muitos outros mercadinhos, ele impõe preços. Ou será que o único posto de gasolina numa pequena cidade não aproveita para aplicar preços altos? Veja como o poder de barganha dos clientes também pode afetar a competitividade e, consequentemente, a rentabilidade de uma empresa. Produtor forte Cliente fraco Produtor fraco Cliente forte Impõe condições comerciais Impõe condições comerciais Figura 19 – Poder de barganha de clientes Outra contribuição inestimável de Porter é o modelo de estratégias genéricas, que propõe a escolha entre três estratégias para obter desempenho acima da média dos concorrentes. 38 Unidade I Quadro 4 – Estratégias genéricas de Porter Vantagem estratégica Unicidade observada pelo cliente Posição de baixo custo Al vo e st ra té gi co N o âm bi to de to da a in dú st ria Diferenciação Liderança em custo Ap en as u m se gm en to Foco Adaptado de: Porter (1999). • A primeira é a estratégia competitiva de liderança em custo, fruto da capacidade de ter custos menores que os concorrentes. São várias possibilidades: maior economia de escala, maior eficiência produtiva, menor necessidade de investimentos mercadológicos etc. O preço final mais baixo que a concorrência é o ponto focal, desde que seja sustentável e rentável. Por exemplo, há uma rede brasileira de fast-food árabe chamada Habib´s com mais de quatrocentos restaurantes no Brasil cuja estratégia de custo é pública há décadas. O desenho institucional da empresa é voltado para a verticalização, ou seja, a empresa é dona dos principais fornecedores (pão sírio e pão de hambúrguer, sorvete, queijos, serviços de telemarketing etc.). Isso resulta em eficiência operacional com custos muito menores que qualquerconcorrente. Além disso, essa liderança em custos é repassada aos clientes, pois o menu dos restaurantes oferece preços realmente baixos. Saiba mais Há vários estudos de caso sobre o Habib’s. Leia a reportagem a seguir: MENDES, A. et al. O sucesso do Habib’s no Brasil. BH1, 12 abr. 2018. Disponível em: https://bit.ly/3Nh7cDR. Acesso em: 16 maio 2022. • A estratégia competitiva de diferenciação é baseada na opção de oferecer ao mercado produtos diferenciados o suficiente para cobrar mais caro que os concorrentes e, com isso, obter maior rentabilidade. É fruto do investimento constante em qualidade, pesquisa, marketing e tecnologia para ter e manter a diferenciação. Por exemplo, a Apple oferece desde 2007 o iPhone, smartphone com alta percepção de valor e com preço sempre mais alto que os concorrentes. Não tenha dúvida que a rentabilidade unitária do iPhone é mais alta que a dos concorrentes. Preço premium normalmente significa rentabilidade premium. Provavelmente, para a maioria das pessoas, o iPhone não vale o que custa. Todavia, para uma parcela de clientes fiéis, o produto tem características únicas que justificam o alto preço. • A estratégia competitiva de foco se traduz em selecionar um segmento (ou nicho, dependendo do tamanho) de mercado com necessidades específicas e se diferenciar para atender da melhor 39 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA maneira possível. A ideia é oferecer algo único e liderar esse segmento/nicho. Ou seja, a empresa escolhe um segmento específico e faz o melhor produto possível, praticamente inviabilizando a concorrência. Em uma terceira contribuição, na década de 1990 Porter ampliou o escopo das vantagens competitivas das nações para uma visão macroeconômica e geográfica que analisava as forças e fraquezas de Estados nacionais como parte da análise da atuação de organizações multinacionais: estratégia empresarial aplicada à geopolítica através do uso de indicadores de competitividade. O livro The Competitive Advantage of Nations (1990) foi amplamente utilizado como base para planejamento de muitas empresas internacionalizadas e também por vários governos para atrair investidores, inclusive com a consultoria do próprio Michael Porter. 2.1.7 Década de 1980 em diante Andrews (apud GHEMAWAT, 2002, p. 41) argumenta que toda organização, suas divisões e mesmo funcionários devem ter um conjunto claramente definido de propósitos ou metas que a faz se mover numa direção deliberadamente escolhida e previne que vá para direções indesejadas. Nesse âmbito, em 1981 Andrews estabeleceu as bases para a criação da análise SWOT, ferramenta que compara pontos fortes e fracos de uma organização com as ameaças e oportunidades do ambiente externo. A expressão SWOT é um acrônimo formado pelas seguintes palavras: strenghts (pontos fortes); weaknesses (pontos fracos); opportunities (oportunidades); e threats (ameaças). As teorias contemporâneas partem de um ponto em comum: a competição cria a necessidade de estratégias, que têm uma parte visível pelo mercado e outra de caráter sigiloso. Com efeito, Ohmae (1982) propõe a metáfora do iceberg: a parte visível da estratégia (produtos, canais de distribuição, preços etc.) é o topo acima da linha d´água, e a parte sigilosa (processos, fornecedores, patentes, custos) é a enorme massa do iceberg submersa. A essência da formulação da estratégia reside nas escolhas feitas para a organização serem diferentes dos outros players do mercado, e essas escolhas são parcialmente visíveis. Figura 20 – Parte visível de um iceberg acima d’água Disponível em: https://bit.ly/3sDuFYf. Acesso em: 16 maio 2022. 40 Unidade I O fato de a estratégia ser conhecida pelo mercado não significa que seja fácil copiá-la: imagine uma rede de fast-food que queira copiar a estratégia de custo do Habib´s. Lembrete A estratégia de menor custo do Habib´s é pública e consiste na verticalização dos fornecedores principais. Para copiar essa estratégia, o pretenso concorrente precisaria comprar (ou criar) seus próprios fornecedores e, ao mesmo tempo, oferecer produtos com preço bem baixo. Não é viável sob o ponto de vista de retorno do investimento. Até ter massa crítica de faturamento e rentabilidade, certamente teria muitos anos de prejuízo. Além da face visível, essa estratégia tem uma face sigilosa: qual é realmente o custo do produto? Quais processos garantem qualidade razoável com custo baixo? E assim por diante. Lembrete Lembre-se da estratégia de cópia da Record. Não adianta copiar a estratégia: é preciso reproduzir todos os elementos constitutivos da organização, e isso é impossível. Chaffee (1985) analisa as teorias de estratégia e as agrupa em três modelos de estratégia: o linear, o adaptativo e o interpretativo. A estratégia linear tem uma perspectiva funcional por ser metódica, sequencial e por ser baseada em um planejamento formal com análises estruturadas, sendo característica de empresas de médio e grande porte. A estratégia adaptativa se ajusta ao ambiente competitivo e é multifacetada com ajustes e mudanças, sendo mais comum em empresas de pequeno e médio porte com visão mais avançada. Já a estratégia interpretativa tem caráter informal e deriva do contexto, sendo mais comum em empresas de pequeno porte. Peter Drucker aprimorou suas ideias sobre estratégia na década de 1990 e abraçou um escopo mais amplo: Estratégia é uma perspectiva, uma maneira como a empresa responde às seguintes perguntas: O que é nossa empresa? Qual é a sua missão? O que ela deveria ser? Quais deveriam ser seus objetivos, sua relação com o mercado, com seus recursos, com a criatividade, com o lucro, a formação pessoal e a responsabilidade social? (DRUCKER, 1994, p. 98). 2.1.8 Mintzberg e estratégia Mintzberg (1987) discute cinco significados ou dimensões para entender o conceito de estratégia: plano, pretexto, padrão, posição e perspectiva. 41 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA • Plano: a estratégia é um guia ou curso de ação para lidar com a situação, é feito antes de agir e é desenvolvido racionalmente. Muitas vezes, é documentado formalmente. Nessa dimensão, entende-se que estratégia é um plano unificado, abrangente e integrado, apresentando objetivos e as formas de atingi-los. • Pretexto: a estratégia é um movimento intencional, como um truque ou manobra que visa sobrepujar um concorrente. É derivado de condições dinâmicas da competição e tem funções táticas. A empresa ilude a concorrência com movimentos que dão falsa percepção. • Estratégia como padrão: a estratégia é um fluxo rotineiro de ações. Após algum tempo seguindo uma estratégia, a empresa adota como rotina algumas ações que se provaram eficientes. O comportamento constante das áreas gera resultados. Se um conjunto de ações repetidamente traz os resultados esperados, a tendência é que vire comportamento padrão. • Estratégia como posição: a estratégia é a maneira como a organização se posiciona no meio competitivo. É a busca de um posicionamento vantajoso para crescer através das oportunidades e para se manter ou se defender diante das ameaças. Define como a organização é percebida pelo ambiente competitivo. • Estratégia como perspectiva: a estratégia é uma abstração que está na mente dos líderes que as concebem, e é difundida coletivamente em função de valores, ideologias e cultura uniformes. É uma forma de ver o mundo, a competição e o mercado, interpretar as visões, projetar o futuro da organização e atuar para atingir os objetivos. Mintzberg, Ahlstrand e Lampel (2000) denominam as estratégias pretendidas que foram realizadas como estratégias deliberadas. Porém, nem todas as estratégias conseguem ser realizadas. Estas são, na visão dos autores, estratégias não realizadas. Por fim, há estratégias que surgem em função de uma contingência ou situação não prevista e que são realizadas mesmo que não tenham sido planejadas antecipadamente. Trata-se de estratégias emergentes. Estratégia pretendida Estratégia realizada Estratégianão realizada Estratégia emergente Estratégia deliberada Figura 21 – Estratégias deliberadas e emergentes Fonte: Mintzberg, Ahlstrand e Lampel (2000, p. 26). Veja a lógica dos autores: • As estratégias pretendidas dificilmente serão 100% convertidas em estratégias deliberadas. Sempre ocorrerão fatos imprevistos para converter em estratégias não realizadas. 42 Unidade I • As estratégias realizadas dificilmente serão fruto 100% da estratégia deliberada. Assim, a estratégia realizada é naturalmente um mix de estratégias deliberadas e estratégias emergentes. Sempre ocorrerão fatos imprevistos para a aplicação de estratégias emergentes. Por mais que se planeje, a realidade sempre exerce influência. O que realmente ocorre nas organizações é uma combinação do planejado com ações que foram realizadas, mas não foram planejadas. Como exemplo, imagine uma torrefadora de cafés de qualidade (preço premium) que estabelece para os próximos anos uma estratégia de crescimento por aquisição de outras torrefadoras de qualidade, tendo por objetivo adquirir ao menos duas por ano. Essa é a estratégia pretendida. Porém, no decorrer do período, surge a oportunidade de adquirir a melhor rede de cafeterias premium do país, o que não estava planejado, mas que pode agregar muito valor à operação como um todo. Decide-se comprar a rede e também outra torrefadora. A estratégia pretendida não foi 100% implementada (compra de duas torrefadoras virou compra de uma), e uma estratégia emergente acabou sendo executada (verticalizou um canal de distribuição). Veja que essa empresa adaptou sua linha de ação em função de uma oportunidade que surgiu e que foi aproveitada. A seguir, destaca-se outro exemplo interessante. Exemplo de aplicação Na década de 1990, Flávio era gerente de marketing de uma das maiores empresas gráficas do Brasil (na época), a IBF Formulários. Os produtos eram para o mercado B2B: formulários contínuos pré-impressos para computador, talões de cheques, passagens aéreas etc. A empresa era composta de várias gráficas regionais que foram compradas pelos controladores ao longo dos anos, cada uma com sua marca conhecida localmente. Havia unidades em Curitiba, São Bernardo, São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza etc. Os controladores contrataram um executivo de renome no mercado gráfico, que desenvolveu várias estratégias para consolidar as unidades em uma só marca nova: Indústria Brasileira de Formulários (IBF). Após dois anos padronizando procedimentos industriais, comerciais e financeiros para que a estrutura fosse de uma só empresa com várias unidades industriais trabalhando em conjunto, o marketing começou a atuar com mais força. A marca nova não era reconhecida pelos clientes, pois ainda havia a força da imagem residual da marca regional anterior que os atendia. Uma das tarefas de Flávio como gerente de marketing era divulgar e consolidar a imagem da marca IBF, e as estratégias de comunicação foram desenvolvidas nesse sentido. Portanto, havia uma estratégia pretendida. Algumas partes dessa estratégia acabaram não dando certo (estratégia não realizada), e outras, envolvendo propaganda e relacionamento com imprensa, foram executadas (estratégia deliberada). Porém, surgiu uma oportunidade única de ser o patrocinador oficial de um time de futebol, o São Paulo. Por força das circunstâncias, o antigo patrocinador rompeu o contrato e, mesmo fora dos planos traçados, entrou em negociação, pois o clube daria uma enorme visibilidade à marca. Foi a estratégia emergente que, junto da estratégia deliberada, resultou na estratégia realizada. Uma vez que o São Paulo venceu vários campeonatos na época, a visibilidade da marca IBF nas camisetas foi expressiva e os objetivos de reconhecimento da nova marca foram atingidos. Foi uma rara ocasião de patrocínio esportivo em time de futebol de primeira linha feito por empresa que não atuava no mercado de consumo, e sim no mercado corporativo. 43 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA 2.1.9 A vantagem competitiva de Ghemawat e Rivkin Ghemawat e Rivkin (2006) aprofundaram os conceitos de vantagem competitiva a partir das estratégias genéricas de Porter (1986). Os autores definem vantagem competitiva como criação de valor superior aos concorrentes diretos, considerando a diferença entre a disposição a pagar e o custo de oportunidade da empresa. É um pensamento econométrico que ajuda a pensar sobre as vantagens competitivas. • Disposição a pagar: é o valor monetário que em média os clientes aceitam pagar pelo produto ou serviço. Claro que há grande elasticidade: a cerveja gelada na praia durante o verão tem um valor diferente da mesma marca de cerveja no supermercado. O que interessa na discussão é o conceito da média, e não os valores absolutos. • Custo de oportunidade da empresa: é o mínimo valor monetário em média que a empresa aceita para comercializar o produto. Abaixo desse valor, não há condições de negócio. Também encontramos natural elasticidade: a coleção de verão da loja feminina tem um valor mais alto no lançamento, e mais baixo na hora de liquidar o estoque. Mais uma vez, vamos focar no conceito, e não nos valores absolutos. $ Competidor médio da indústria Competidor com diferenciação Competidor com baixo custo Competidor com dupla vantagem Máxima disposição a pagar Custo de oportunidade Figura 22 – Vantagem competitiva Fonte: Ghemawat e Rivkin (2006, p. 8). Tendo em mente os conceitos de máxima disposição a pagar e custo de oportunidade, verificamos que, comparando com a média do ramo (competidor médio da indústria no gráfico): 44 Unidade I • A empresa que optar pela estratégia de diferenciação terá um custo de oportunidade um pouco maior, mas em compensação a disposição a pagar será muito maior. Ou seja, é mais caro trabalhar a diferenciação, mas a possível margem de lucro é bem maior. • A empresa que optar pela estratégia de baixo custo terá um custo de oportunidade consideravelmente menor, o que compensa a disposição a pagar um pouco menos. Ou seja, perseguir o baixo custo gera menor percepção de valor por parte do cliente. Contudo, a margem de lucro pode compensar, pois o volume de vendas é bem maior. • A empresa que optar pela estratégia de foco (chamada pelos autores de dupla vantagem) terá um custo de oportunidade um pouco menor e uma disposição a pagar um pouco maior. Entendendo que essas diferenças gráficas são conceituais, e não de valores absolutos, podemos inferir que: • Todas as estratégias podem se constituir em vantagem competitiva, mas somente o efeito conjunto causado pelas estratégias concorrentes é que pode determinar qual a mais vantajosa. Assim, se estamos nos baseando em comparação com a média do ramo, basta que vários competidores persigam a mesma estratégia para alterar a média. Por exemplo, se vários perseguirem a estratégia de custo baixo, forçosamente a média da indústria será menor nas duas variáveis (disposição a pagar e custo de oportunidade), privilegiando quem adota a diferenciação. Por outro lado, se vários adotarem diferenciação, a média da indústria subirá, privilegiando o baixo custo. • A empresa que realmente se posicionar bem à frente dos competidores em uma das estratégias terá vantagem competitiva substancial. A Apple, com o iPhone, conseguiu ser realmente líder em diferenciação por uma década, justificando preços bem mais altos e rentabilidade espetacular. Nos últimos anos, o esforço constante em desenvolvimento de produto e marketing da Samsung, e de outros players, vem conseguindo diminuir a distância de diferenciação com o iPhone. Tanto é assim que nos dois últimos lançamentos (iPhone X, em 2018, e iPhone 11, em 2019) não se verificou um estrondoso sucesso de vendas nas primeiras 24 horas, fato que aconteceu em todos os lançamentos de iPhone anteriores. O produto continua sendo um grande sucesso, mas os diferenciais competitivos atuais estão perdendo força. Desse modo, fica claro que mesmo estratégias vencedoras não são garantiade sucesso ao longo do tempo: é preciso evoluir e adaptar. Assim, o conceito contemporâneo de vantagem competitiva envolve a necessidade de criar mais valor para os clientes que os concorrentes e de forma sustentável ao longo do tempo. O fato é que tanto a organização quanto os concorrentes se esforçam para oferecer valor aos clientes, criando um ambiente de competição. A estratégia de cada um é que vai diferenciá-los através de vantagens competitivas únicas. 45 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA ConcorrentesOrganização Clientes Valor Valor Estratégia Competição Figura 23 – Estratégia e competição Fonte: Sobral e Peci (2013, p. 207). 2.2 O processo de administração estratégica Há uma sequência lógica de passos para a execução do processo, incluindo planejar, implementar e controlar. Por planejar, entende-se fazer um diagnóstico da situação atual da empresa, analisar dados internos e externos e formular a estratégia a ser adotada. Implementar significa executar as ações previstas com eficiência e eficácia. Controlar, por sua vez, significa avaliar os resultados obtidos em comparação com o planejado e propor correção de rumo quando necessário. Como se trata de um processo, ocorre a retroalimentação das informações coletadas no controle de volta para a etapa de planejamento, reiniciando o ciclo. Em um fluxo mais detalhado, temos: Análise ambiental Análise interna Diagnóstico da situação atual Formulação estratégica Implementação estratégica Controle estratégico Figura 24 – Processo de administração estratégica Fonte: Sobral e Peci (2013, p. 207). 46 Unidade I Vamos verificar cada etapa. • Diagnóstico da situação atual: avaliação da coerência e adequação de missão, visão, valores, objetivos e estratégias da empresa em função da situação atual. Quanto maior a coerência e adequação, melhor terão sido definidos esses itens no passado. Assim, há vantagens no processo quando a organização já vier de um histórico de administração estratégica, pois o ponto de partida está mais claro e definido. • Análise ambiental e análise interna: levantamento de dados e informações sobre o ambiente externo e interno da empresa. O foco é ter subsídios para enfrentar ameaças e identificar oportunidades. É preciso identificar os fatores que possam afetar a competitividade. Iremos discuti-los depois. • Formulação estratégica: definição de objetivos e meios para atingi-los. Estudaremos neste livro-texto a diferença de formulação nos níveis corporativo, de negócio e funcional. • Implementação estratégica: realização das ações definidas buscando atingir os objetivos. É necessário direcionar os recursos da organização para consecução das atividades. Discutiremos o impacto da estrutura organizacional e da capacidade de liderança na implementação, bem como algumas ferramentas metodológicas. • Controle estratégico: acompanhamento e monitoração das atividades avaliando resultados vis-à-vis objetivos. Esse sistema deve contar com indicadores de desempenho e processos de acompanhamento. Faz parte a avaliação da necessidade de corrigir as atividades ou até mesmo os objetivos. 2.3 Níveis de decisão estratégica Sobral e Peci (2013) definem como três os níveis de decisão estratégica, deixando claro que há variações e adaptações no mundo corporativo. Estratégia de nível corporativo Estratégia de nível de negócio Estratégia de nível funcional Marketing P&D Operações Finanças Recursos humanos Corporação Unidade de negócio Unidade de negócio Unidade de negócio Figura 25 – Níveis de decisão estratégica Fonte: Sobral e Peci (2013, p. 212). 47 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA A estratégia de nível corporativo é responsabilidade da cúpula organizacional (normalmente um conselho de administração ou equivalente) e tem foco nos interesses e objetivos das organizações que atuam em várias unidades de negócios. Essa estratégia alinha as unidades de negócios e articula sinergia nas operações para beneficiar a organização como um todo. Com foco no longo prazo, é nesse nível de decisão estratégica que ocorre a definição dos negócios mais atrativos e a correspondente alocação de recursos disponíveis. Estabelecidas as prioridades, a organização pode investir para aproveitar oportunidades e para reduzir o risco de ameaças. Por exemplo, comprar ou vender operações produtivas, fazer fusões com outras organizações ou mesmo realizar joint-ventures. Veja o exemplo do Grupo Votorantim, multinacional brasileira de controle familiar com operações em mais de vinte países. Suas unidades de negócios estão nos setores de cimento, celulose, mineração, siderurgia, energia e outros. A estratégia de nível corporativo em 2017 levou a empresa a vender o controle acionário da unidade de negócios Votorantim Siderurgia para outra organização, a ArcelorMittal, permanecendo no negócio somente como acionista. Os recursos financeiros dessa venda foram direcionados para outras unidades de negócio, fortalecendo posições estratégicas do grupo e sem abandonar o negócio de siderurgia. A estratégia de nível de negócio desdobra um conjunto de ações a partir da estratégia corporativa, tudo dentro de cada unidade de negócio. Ou seja, a unidade de negócio aplica suas próprias estratégias visando atender à estratégia corporativa. Também chamadas de estratégias competitivas por Porter (1986), as mais comuns são: liderança de custo, diferenciação e foco. A estratégia de nível funcional, como o próprio nome sugere, é aplicada em cada área funcional da organização: RH, vendas/marketing, produção/operações etc. Os responsáveis (normalmente diretorias ou gerências) desenvolvem estratégias restritas à sua área e alinhadas com as estratégias de negócio. Por exemplo, caso a estratégia de negócio de uma empresa seja voltada para liderança de custo, as áreas funcionais deverão formular estratégias voltadas para o atendimento desse quesito. Nesse caso, a área funcional de produção poderia focar em processos de alta escala de produção para reduzir custo unitário. 48 Unidade I Resumo A administração estratégica é um processo no qual ocorrem decisões e ações empresariais com foco na vantagem competitiva para atingir objetivos. Muito embora estratégia seja de conceito e aplicação milenar, sua aplicação empresarial começou somente no século XX, notadamente, a partir de 1950. Para entender a evolução histórica da estratégia, partimos da Grécia Antiga: a palavra strategía significava “a arte de ser general” para liderar exércitos e derrotar inimigos. Praticamente no mesmo período histórico, na China, um general e filósofo chamado Sun Tzu escreveu o livro A arte da guerra, cujos ensinamentos para derrotar um exército adversário são utilizados até hoje como metáforas para empresas enfrentarem estrategicamente a concorrência. Avançando no resgate histórico, Nicolau Maquiavel, filósofo e diplomata, escreveu em 1532 o livro O príncipe, que também contém ensinamentos de aplicação contemporânea, tanto em termos de estratégia quanto em termos de política. Três séculos após, em 1832, o general prussiano Carl Von Clausewitz publicou o livro Da guerra, que discute estratégia militar de forma ordenada e que permite estabelecer metáforas sobre a competição empresarial. Na primeira metade do século XX, como o volume de concorrência ainda era incipiente, a estratégia de ser melhor que o concorrente ainda não era uma necessidade, com exceção de alguns ramos como o automobilístico. Contudo, após o fim da Segunda Guerra, a estratégia começou a fazer parte do panorama empresarial não só pelo aumento da competição, mas também pela presença de ex-oficiais americanos tarimbados em estratégia militar trabalhando em muitas empresas americanas. A academia mapeou essa tendência e na década de 1950 Igor Ansoff criou a matriz Ansoff, também chamada de matriz produto/mercado, ferramenta que auxilia executivos a tomar decisões estratégicas até hoje. Ansoff postulava que estratégia só tinha aplicaçãopara empresas que queriam crescer. Hoje sabemos que estratégia não atende somente objetivos de crescimento, mas na época a observação de Ansoff ficou restrita a esse objetivo. A matriz Ansoff estabelece quatro possíveis estratégias: penetração de mercado, desenvolvimento de mercado, desenvolvimento de produto e diversificação. 49 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Na década de 1950, Drucker destacou que o negócio é determinado pelo cliente e suas necessidades. Assim, desenvolveu a APO (administração por objetivos). Chandler formulou as bases do planejamento estratégico, tendo uma contribuição posterior de Steiner, que definiu em etapas o modelo de planejamento estratégico. A década de 1960 viu surgir duas empresas de consultoria ligadas à estratégia: Boston Consulting Group (BCG) e McKinsey & Company, cada qual desenvolvendo ferramentas de análise utilizadas até hoje pelas empresas. As décadas de 1980 e 1990 são dominadas pelas ideias de Michael Porter: o modelo das cinco forças competitivas, o modelo de estratégias genéricas e a vantagem competitiva das nações. Finalizando o panorama histórico, da década de 1980 em diante, outros autores contribuíram para o avanço das ideias sobre estratégia e administração estratégica: Andrews fixou as bases para a criação da análise SWOT; Chaffee, os três modelos de estratégia: linear, adaptativo e interpretativo; Ohmae, a metáfora do iceberg; Mintzberg, as cinco dimensões da estratégia: plano, pretexto, padrão, posição e perspectiva; Mintzberg, junto com Ahlstrand e Lampel, a visão de estratégias deliberadas e emergentes; por fim, Ghemawat e Rivkin, a vantagem competitiva. 50 Unidade I Exercícios Questão 1. O ano de 2020 entra para a história como o ano em que a pandemia de coronavírus alterou o dia a dia dos cidadãos e das empresas. Muitos produtos apresentaram quedas nas vendas, e os administradores devem formular estratégias para reverter a situação. Uma importante ferramenta de análise está representada no quadro a seguir. Quadro 5 Alta Al to Participação relativa de mercado Baixa Ba ix o Cr es ci m en to d o m er ca do ? Estrela Vaca-leiteira Interrogação Abacaxi Disponível em: https://bit.ly/3FNZrmw. Acesso em: 16 maio 2022. Com base nas informações e nos seus conhecimentos, avalie as afirmativas. I – O quadro mostra uma representação da matriz BCG, em que são considerados quatro quadrantes, definidos por dois eixos: crescimento do mercado e participação relativa no mercado. II – Um produto que tenha baixa participação em um mercado em alto crescimento encaixa-se no quadrante “ponto de interrogação” por ser difícil dizer se ele conseguirá manter-se no mercado ou não. III – Um produto é considerado “abacaxi” quando, apesar da baixa participação de mercado, tem faturamento estável e perspectivas de crescimento. IV – Na matriz, o posicionamento de um produto é estático, por isso a análise realizada antes da pandemia ainda é válida. 51 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA É correto o que se afirma em: A) I e III, apenas. B) I e IV, apenas. C) I e II, apenas. D) I, II e III apenas. E) II e IV, apenas. Resposta correta: alternativa C. Análise da questão A imagem mostra a representação de uma matriz BCG, que considera dois eixos para avaliar a situação de um produto. O posicionamento não é estático, ele é determinado em dado momento. O produto considerado “abacaxi” não tem faturamento estável e pode não ter boas perspectivas. Questão 2 (Enade 2012, adaptada). Leia o texto a seguir. O franchising permite que o franqueador aumente sua base de atuação com maior intensidade do que seria possível se dependesse apenas de recursos próprios para instalar, operar e gerir novas unidades. O fenômeno ocorre porque o franqueador faz uso daquilo que os estadunidenses denominam O.P.M. (“other people’s money”, ou seja, “o dinheiro dos outros”), situação em que os franqueados bancam os custos de implantação, operação e de gestão das respectivas unidades. Em segundo lugar, o franchising reduz a necessidade de o franqueador recrutar, selecionar e contratar pessoal, em particular gerentes que sejam capazes de administrar essas novas unidades, muitas vezes geridas pelos próprios franqueados. Por meio do franchising, o franqueador pode, adicionalmente, ingressar em mercados nos quais dificilmente entraria se dependesse de seus recursos próprios, sejam financeiros ou humanos. Para isso, conta com a presença física e o conhecimento do franqueado sobre os hábitos e a cultura da região onde vive e trabalha. ARAÚJO, A. P. B. Franchising. Disponível em: http://www.biblioteca.sebrae.com.br. Acesso em: 17 jul. de 2012 (com adaptações). O quadro a seguir representa a matriz de componentes do vetor de crescimento, também conhecida como matriz produtos e mercados, de Igor Ansoff. 52 Unidade I Quadro 6 Penetração de mercado Desenvolvimento de produtos Desenvolvimento de mercado Diversificação Existentes Ex is te nt es Produtos Novos N ov os M er ca do s Suponha que uma empresa franqueadora do setor de lanchonetes deseje ampliar negócios sem modificar os princípios negociais habitualmente praticados. Com baser no texto e nos quatro quadrantes da matriz de componentes do vetor de crescimento apresentada, qual das alternativas de crescimento seria a mais pertinente ao caso? A) Desenvolvimento de produto e diversificação. B) Desenvolvimento de mercado e diversificação. C) Penetração de mercado e diversificação. D) Penetração de mercado e desenvolvimento de produto. E) Penetração de mercado e desenvolvimento de mercado. Resposta correta: alternativa E. Análise da questão No caso em estudo, a empresa não está buscando crescimento por meio da ampliação de portfólio de produtos, mas, sim, por meio da modificação e do desenvolvimento de produtos já existentes. A ampliação dos negócios está centrada: • na expansão do mercado pelo aumento de participação nos mercados existentes, o que indica penetração no mercado; • na expansão geográfica para os produtos fabricados pela empresa, o que indica desenvolvimento de mercado. 53 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Unidade II 3 ANÁLISE DO AMBIENTE EXTERNO E DO AMBIENTE INTERNO 3.1 Análise do Ambiente Externo As organizações devem monitorar os fatores relevantes do ambiente externo, uma vez que estes influenciam a performance empresarial sem que a própria organização tenha condições de influenciar o ambiente em troca. Em suma: os fatores que acontecem além dos muros da empresa afetam seus resultados, e a contrapartida é praticamente nula: a empresa afeta muito pouco (ou nada) esses fatores. O ambiente externo é incerto, e é preciso ter capacidade de resposta aos principais fatores. Veja como a taxa de juros ou do dólar afeta de diversas maneiras as organizações, e dificilmente as atividades dessas empresas irão afetar significativamente esses mesmos fatores. Uma indústria que tem muitos componentes importados sofrerá com a alta da taxa do dólar: as importações ficarão mais caras. Essa mesma indústria não afeta a taxa: basicamente, reage a ela. Claro que grandes players reúnem mais força para afetar fatores externos, mas mesmo assim a força do fator na empresa é sempre maior que a força contrária da empresa para afetar o fator externo. Por exemplo, o Bradesco, um dos dois maiores bancos do Brasil, é fortemente afetado pela taxa Selic do Banco Central (taxa de juros básica da economia), mas suas ações afetam comparativamente pouco a taxa em si. Agora, pense em fatores como: • Concorrência: o que os concorrentes são e o que fazem afeta a empresa. Observe a questão da capacidade produtiva: alguns concorrentes podem ter processos produtivos mais modernos e eficientes, o que reduz seus custos, enquanto outros têm processos defasados. E que tal o know-how? Alguns possuem patentes exclusivas e têm vantagens com isso. Se pensarmos na força comercial, alguns têm equipes de vendas fracas e sem coesão, enquanto outros têm um time maisafiado. Há inúmeros fatores ligados à concorrência que afetam a empresa. • Força dos canais de distribuição: alguns ramos de atividade apresentam canais de distribuição muito poderosos. Por exemplo, alimentos. A Nestlé tem razoável poder de negociação com uma grande rede como o Pão de Açúcar, mas um pequeno fabricante de chocolates não. Se o varejo é mais forte que o fornecedor, o poder de barganha é maior para o varejo. Esse fator deve sempre ser levado em consideração, como já vimos no modelo das cinco forças de Porter. A concentração observada em alguns ramos do varejo diz muito sobre a força deste nas negociações com fornecedores. Um varejo extremamente pulverizado no Brasil é o de material de construção. As maiores redes somadas não chegam a 15% do mercado. A revista Anamaco traz o ranking nacional das lojas de material de construção de 2020: 54 Unidade II — Leroy Merlin: 4,4%; — Telhanorte/Tumelero: 3,5%; — Sodimac: 2,9%; — C&C: 2,6%. Saiba mais É possível ler gratuitamente a revista. Consulte a referência a seguir: 21º RANKING nacional das lojas de material de construção. Revista Anamaco, a. 29, n. 315, 2020. Disponível em: https://bit.ly/3Lxl63L. Acesso em: 16 maio 2022. Lembrete O poder de barganha dos clientes afeta a capacidade competitiva da empresa. No caso de um fabricante de bens comercializados no varejo, esses canais de distribuição são os clientes e podem ter mais ou menos força que a empresa. • Ciclo econômico: como está a economia no ramo de atividade? Está em recessão, estabilidade ou crescimento? Esse fator afeta os investimentos futuros: será que vale a pena aumentar a produção e a força de vendas quando o ramo de atividade está com vendas caindo? Note que mesmo quando o país está em recessão alguns setores estão em crescimento. Na crise econômica gerada pelo coronavírus em 2020 a economia brasileira apresentou grande queda, mas o setor de entregas domiciliares cresceu de maneira significativa. • Legislação: leis e normas afetam empresas. Há leis que beneficiam somente empresas brasileiras, por exemplo. Há leis que inibem a comercialização de produtos como armas de fogo. Há normas da Vigilância Sanitária que aumentam o custo de operar restaurantes e lanchonetes. Vários setores têm um marco legal para atuar: telecomunicações, financeiro, brinquedos etc. Por exemplo, no Brasil a lei obriga os fabricantes de automóveis a vender seus produtos através de intermediários como concessionárias ou revendedoras. Ford, GM, Fiat e outros não podem vender carros zero km diretamente para pessoas físicas. Para pessoas jurídicas a lei permite. Assim, o dono de uma empresa só pode comprar seu carro pessoal numa concessionária da marca ou numa loja de automóveis. Já sua empresa pode comprar um carro de frota diretamente com o fabricante. Esse é o motivo pelo qual você acessa o site de uma montadora no Brasil, configura seu carro novo e obrigatoriamente precisa indicar uma concessionária para retirar o veículo. Num mundo com e-commerce tão difundido, essa lei antiga impede fabricantes de vender carros zero km diretamente às pessoas interessadas! 55 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA • Tecnologia: não se trata somente de computadores, e sim de know-how. Algumas empresas têm acesso mais fácil à tecnologia e podem ter vantagem. Por outro lado, há inovações desenvolvidas por pequenas empresas que as faz crescer vertiginosamente. Pense nas empresas inicialmente chamadas de startups, como Uber e Waze (já citadas). Outro exemplo é o de patentes de medicamentos. Patente é o direito de uso exclusivo de uma tecnologia ou invenção e tem prazo de validade variável por país. No ramo farmacêutico, as patentes protegem as empresas de cópias não autorizadas de medicamentos. Pois bem, a Pfizer, uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo, lançou em 1998 o Viagra, medicamento para disfunção erétil cuja patente já havia registrado anos antes. O sucesso foi tremendo e ninguém podia copiar, pois estava protegido pela patente em todos os países do mundo. Em 2001, as vendas do Viagra superaram US$ 1 bilhão, e nos anos seguintes não foi muito diferente. Durante anos, mais de 50% do lucro da Pfizer era resultado das vendas do Viagra (em alguns anos alcançou 60%). Porém, em 2010 a patente perdeu a validade no Brasil (nos EUA durou até 2012) e a concorrência entrou com tudo nesse mercado, copiando legalmente o princípio ativo do medicamento, derrubando as vendas do Viagra. Esses são apenas alguns exemplos. Há uma enorme quantidade de fatores externos que afetam (para o bem e para o mal) as empresas. E nem todos os fatores afetam todas as empresas: a alíquota de importação (taxa cobrada pelo governo para a entrada de produtos importados) de um componente qualquer só afeta as empresas ligadas a produtos que usam esse componente. Os governos nacionais, quando aumentam a alíquota de importação de algum produto, na prática, beneficiam as empresas instaladas no país que fabricam o mesmo tipo de produto, uma vez que o preço da versão importada vai aumentar. Scholes, Johnson e Whittington (2002) citam vários fatores que ajudam a pensar na influência possível do ambiente externo: Político – Estabilidade governamental – Política de impostos – Leis de comércio internacional – Políticas sociais Fatores econômicos – Ciclos de negócios – Tendência do PIB – Juros – Inflação – Taxa de desemprego – Política monetária – Receita per capita Fatores socioculturais – Distribuição de renda – Mobilidade social – Demografia populacional – Nível educacional – Hábitos de consumo – Mudanças no estilo de vida Fatores tecnológicos – Despesas do governo em pesquisa e desenvolvimento – Taxas de obsolescência – Rapidez de transferência tecnológica – Foco do governo e indústria em desenvolvimento tecnológico – Novas descobertas, patentes, direitos autorais etc. Legal – Leis de competição – Leis de empregabilidade – Saúde e segurança – Comercialização dos produtos Ambiental – Leis de proteção ambiental – Consumo de energia – Disposição do lixo Organização Que fatores afetam a organização? Quais fatores são mais importantes no presente? E no futuro? Figura 26 – Fatores externos que afetam as organizações Fonte: Scholes, Johnson e Whittington (2002, p. 68). 56 Unidade II Não ter informação sobre fatores externos relevantes pode ser fatal para as organizações. Sem informação não há planejamento! Certo e Peter (1993, p. 35) afirmam que análise do ambiente externo é “monitorar o ambiente organizacional para identificar os riscos e as oportunidades presentes e futuras que possam influenciar na capacidade da empresa em atingir objetivos”. Note que riscos e oportunidades se revelam no dia a dia do ambiente externo das empresas. Por exemplo, na década de 1990 houve um período de instabilidade da indústria automobilística brasileira e o governo brasileiro aprovou uma lei que reduzia o Imposto sobre Produtos Industriais (IPI) de carros com motor 1.0 para a insignificante taxa de 0,1%. Era uma redução brutal de imposto que permitia reduzir bastante o preço final do veículo. A única montadora no Brasil que tinha condições de aproveitar imediatamente essa redução era a Fiat, adaptando seu modelo Fiat Uno, que já era fabricado com motores maiores no Brasil, com um motor 1.0 que já existia e era usado pelo mesmo modelo na Itália. Em poucos meses a linha de montagem iniciou a fabricação do Fiat Mille, nome dado ao Uno com motor 1.0, com preço bem mais baixo que a concorrência. As outras montadoras não tinham projetos de motores 1.0 na mão e seus modelos eram mais pesados que o Uno, o que prejudicaria o desempenho com esse motor de menor potência. Assim, demoraram para poder aproveitar a oportunidade do imposto baixo e perderam muito mercado. Figura 27 – Fiat Uno Disponível em: https://bit.ly/37OpU6O. Acesso em: 16 maio 2022. Quer um exemplo contemporâneo de risco? Em 2020 a pandemia de coronavírus quebrou milhares de empresas que dependiam da circulação de pessoasnas ruas, como restaurantes, bares, mercadinhos e manufaturas em geral. Veja que interessante: o mesmo fator foi oportunidade para outras empresas, pois quem tinha bons processos de delivery por internet pôde crescer no mesmo período. Porter (1990), como vimos, propôs utilizar as vantagens competitivas das nações como parte das análises do ambiente externo. O chamado diamante de Porter permite buscar os motivos para algumas nações serem mais competitivas (e adequadas para investimentos da empresa) do que outras. 57 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Estratégia, estrutura e rivalidade da organização Indústrias relacionadas e de suporte Características específicas do país Características da demanda Figura 28 – Diamante de Porter Adaptada de: Porter (1990). O ponto de partida dessa análise é o conjunto de características específicas do país onde está instalada originalmente a empresa para depois analisar as características específicas dos países-alvo de investimento. Porter (1990) chama de base nacional o país de origem. Por exemplo, a base nacional do Bradesco é o Brasil, e suas operações externas estão localizadas nos EUA, Argentina, União Europeia etc. As características específicas do Brasil quanto ao setor bancário são, por exemplo: • Estágio avançado de automação bancária. O mercado bancário brasileiro é um dos mais avançados do mundo em tecnologia. As razões remontam ao período de altíssima inflação que o Brasil enfrentou entre as décadas de 1980 e 1990. As margens de lucro dos bancos eram muito mais altas que em qualquer lugar do mundo, e esses lucros foram investidos nas tecnologias emergentes da época para ganhar eficiência operacional e reduzir custos ao longo do tempo. Já se projetava que a fase de lucros fabulosos iria terminar em algum momento futuro (o que realmente aconteceu, muito embora permaneçam bem altos até hoje), então os principais bancos foram se preparando e as condições competitivas do setor se desenharam ao redor da tecnologia. Só como comparação, o mercado bancário americano sempre foi muito mais atrasado que o brasileiro. Até alguns poucos anos atrás, qualquer transferência de valores entre bancos nos EUA podia levar dias por não haver interconexão equivalente à brasileira. • Alta regulação governamental. As normas e regulações oficiais são barreiras de entrada para novos bancos. Ou seja, de certa maneira, há uma reserva de mercado no Brasil. Em contraposição, nas Ilhas Cayman é fácil criar um banco e começar a operar, pois a regulação é baixíssima. O Bradesco e outros bancos têm filial lá. • Taxas de juros compostos. O mercado bancário brasileiro utiliza a lucrativa modalidade de juros compostos para empréstimos e financiamentos, sendo que em vários países os juros são da modalidade simples, bem menos lucrativa. Usos e costumes diferem. 58 Unidade II Pense na diferença de leis trabalhistas de diversos países: nações que protegem muito os trabalhadores naturalmente geram o incentivo à automação. Os motivos para a Alemanha ser tão avançada em automação industrial é o alto custo de sua mão de obra. Outras diferenças podem ser: nível educacional, recursos naturais, infraestrutura de transportes, carga fiscal etc. São características específicas que devem ser levadas em consideração nas análises. A segunda ponta do diamante é denominada características da demanda. Como se comporta a demanda pelas categorias de produtos da organização? Por exemplo, os japoneses estão historicamente habituados a consumir alimentos e bebidas em porções/doses pequenas. Pense nas bandejas de um restaurante japonês e nos tamanhos das porções, que são variadas e servidas várias vezes. Pois bem, o mercado de embalagens de bebidas no Japão tem como característica volumes de conteúdo pequenos. Embalagens Tetra Pak de 80 ml são raras no mundo, mas vendem milhões de unidades no Japão. Sucos, cafés, leites aromatizados e saquês têm uma característica de demanda diferente da maioria dos países. Garrafinhas plásticas do tamanho de um Yakult são extremamente comuns no Japão, mas são raras em outros países. A terceira ponta do diamante é chamada de indústrias relacionadas e de suporte. Trata-se da cadeia de fornecedores de máquinas, equipamentos e matérias-primas necessários para determinado ramo, dos fornecedores de serviços correlatos, da infraestrutura de suporte a um ramo etc. A China é excelente em tecnologias de ponta como as de telecomunicações, pois tem um conjunto de organizações correlatas que se beneficiam mutuamente. Porém, a China não tem um só fabricante de microprocessadores de computador (ainda). É uma característica das industrias relacionadas. Ao analisar um país-alvo, uma organização deve levar em consideração a presença ou ausência dessa cadeia de fornecedores. A última ponta é composta de estratégia, estrutura e rivalidade. As características das estratégias e da infraestrutura do Estado e da rivalidade com outros Estados também estabelecem vantagem competitiva. A rivalidade entre Brasil e Argentina é histórica, e essa característica fez com que a indústria automobilística buscasse vantagens para se localizar no Mercosul – qual governo dá mais vantagens? A infraestrutura de transporte brasileira é ruim, pois depende do modal rodoviário, com estradas mal conservadas na maior parte do território. Compare com países da União Europeia ou com a China. As estratégias adotadas pelos Estados para atrair e manter negócios em seus territórios também devem ser ponderadas. Por exemplo, a estratégia que a China adotou muitos anos atrás para absorver know-how competitivo foi simples. Uma vez que a mão de obra chinesa era muito mais barata e as obrigações trabalhistas eram praticamente inexistentes, o que tornava a China um atraente local para manufatura, o governo instaurou uma regra restritiva para joint-ventures. Empresas estrangeiras que quisessem se instalar na China precisavam ter um sócio local, apontado pelo governo, que teria 50% do negócio – sem investir nada e sem interferir nas operações. O sócio seria um observador com livre acesso à empresa, e com uma equipe que faria o mesmo. Note que, mesmo parecendo um absurdo, foi aceito por milhares de empresas estrangeiras, que perceberam que o custo da operação era ótimo, compensava “dar de graça” 50% de participação. Essa estratégia do Estado gerou uma onda de aprendizado com custo “zero” e trouxe inúmeros benefícios para ambas as partes: Estado e empresas estrangeiras. 59 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA 3.2 Análise do Ambiente Interno Toda organização tem recursos à disposição. Sejam financeiros, humanos, produtivos ou mercadológicos, os recursos internos afetam a capacidade da empresa em competir no ambiente externo. Portanto, as empresas precisam analisar seus recursos e compará-los com os da concorrência, procurando identificar pontos fortes e fracos. • Os fatores que, cotejados com a concorrência, representam vantagem operacional são chamados de pontos fortes. Quais são as forças impulsoras internas que representam vantagem diante da concorrência? • Por outro lado, os pontos fracos são fatores que se traduzem em uma desvantagem operacional diante da concorrência, sendo limitações que restringem a atuação organizacional. Claro que nem tudo representa ponto forte ou fraco. Há os chamados pontos neutros, que são fatores em equilíbrio com a concorrência e não trazem nem vantagens nem desvantagens. Vamos listar alguns dos elementos internos que devem ser analisados e que podem ser pontos fortes ou fracos. Se forem neutros, não precisam ser citados na análise da empresa. • Participação de mercado: segundo Farris et al. (2007), é a porcentagem de um mercado atendido por determinada organização. Também chamada de market share (ou até mesmo share), indica quanto um produto/marca representa do total de vendas de mercado daquele mesmo tipo de produto. Por exemplo, Freitas (2020) afirma que a Ambev teve 59,4% do mercado brasileiro de cerveja em2019 somando todas as marcas. Ou seja, de cada 10 litros de cerveja vendidos, quase 6 litros eram de marcas da Ambev. Essa análise, quando feita com base histórica, permite conhecer a evolução dos produtos no mercado. • Canais de distribuição utilizados: Las Casas (2006) explica que os canais de distribuição existem para facilitar o processo de transferência de produtos e serviços do produtor ao consumidor. Trata-se dos meios utilizados na distribuição. Por exemplo, a Chocolates Garoto usa diversos canais como supermercados, padarias, lojas de doces, atacados etc. Essa análise é útil para encontrar possibilidades de distribuição. Se um concorrente distribui em determinado tipo de loja, vale a pena verificar as condições. • Linhas de produtos: quais são os produtos e serviços oferecidos ao mercado e como a empresa os agrupa? Por exemplo, a Nestlé tem chocolates, lácteos, cafés, cereais matinais etc. A Hering, por sua vez, tem as linhas (chamadas coleções) Hering, Hering Kids, Hering POP, Hering Intimates e Hering Pets. Essa análise permite comparar com as linhas dos concorrentes e localizar eventuais oportunidades não aproveitadas. 60 Unidade II • Programas de pesquisa: a empresa investe em P&D (pesquisa e desenvolvimento)? Não se trata necessariamente de laboratórios de alta tecnologia digital: laticínios normalmente têm um setor de engenharia de alimentos que testa componentes (como acidulantes, conservantes) e desenvolve produtos. Se investe, quais são as metas e quais as perspectivas? E os concorrentes? • Satisfação dos clientes: diversas empresas medem periodicamente o nível de satisfação de seus clientes. Pense nas pesquisas de satisfação que o varejo faz no caixa, ou nas pesquisas feitas após um atendimento por telefone ou internet. Sendo possível comparar com os concorrentes, pode-se perseguir mais qualidade verificando as ações tomadas pelos melhores do mercado. • Processos produtivos e operacionais: quão eficientes e eficazes são os processos que geram os produtos e serviços oferecidos? São automatizados e geram baixo custo unitário de produção? São artesanais e geram alta qualidade? Pense em fábricas de automóveis com robôs industriais que produzem com o mesmo nível de qualidade todos os produtos. Pense também em fábricas de automóveis com baixa (ou nenhuma) automação, mas com artesãos especializados fabricando as peças manualmente com altíssima qualidade. Saiba mais Na internet há diversos vídeos apresentando processos produtivos. O vídeo a seguir mostra um bom nível de automação com foco em redução de custo unitário: VOLKSWAGEN T-Cross 2020 – Linha de Produção em São José dos Pinhais. Paraná, 2019. 1 vídeo (4m27s). Publicado por Top Carros. Disponível em: https://bit.ly/3PqT3py. Acesso em: 16 maio 2022. O vídeo a seguir mostra uma produção de altíssima qualidade e exclusividade feita sem automação buscando diferencial de luxo. VEJA como é feita a produção dos carros mais luxuosos do mundo, Rolls-Royce. [s.l], 2020. 1 vídeo (3m54s). Publicado por Razed Cars. Disponível em: https://bit.ly/3li2rya. Acesso em: 16 maio 2022. • Recursos humanos: a qualificação das pessoas que trabalham na empresa pode ser um ponto forte (ou fraco). Tempo de experiência, habilidades, competências, comprometimento etc. são itens a serem analisados. Pense nos vendedores de uma joalheria de bom nível: certamente há um bom nível de qualificação. Agora compare com os vendedores de uma loja popular de bijuterias: a qualificação será outra. O ponto é que a qualificação deve estar alinhada com os objetivos da empresa. Comparações com a concorrência permitem verificar pontos fortes e fracos da estratégia de RH da empresa. 61 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA • Rentabilidade: quanto o negócio rende realmente? Note que não estamos falando de faturamento (também um fator a ser analisado), e sim de rentabilidade, que é uma medida da eficiência da empresa na alocação de recursos (SOLOMON, 1969). As empresas mais rentáveis de um ramo de atividade podem, ao longo do tempo, ganhar força para defender suas posições estratégicas e se distanciar mais ainda dos concorrentes. Menor rentabilidade significa menor poder de fogo contra os concorrentes. • Força dos sindicatos: a pressão sindical pode significar maiores custos de RH. Sindicatos fortes exercem maior influência nos custos de pessoal que sindicatos fracos. Como exemplo, veja a questão da vinda da Fiat para o Brasil na década de 1970. Na época, o polo fabril de veículos no Brasil era localizado em São Paulo, região do ABC (cidades de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul), onde os sindicatos de metalúrgicos eram muito fortes. Independentemente de sua crença política, você deve saber que o ex-presidente Lula foi líder sindical em São Bernardo. Pois bem, a montadora italiana Fiat, ao se instalar no Brasil, escolheu ficar longe da região, mesmo diante das facilidades apresentadas: existência de mão de obra treinada, centenas de fornecedores de autopeças por perto, dezenas de transportadoras de veículos à disposição etc. O motivo? A força dos sindicatos, que propunham greves e pediam aumento salarial com frequência. A Fiat escolheu a cidade mineira de Betim para instalar sua fábrica, local onde nem sequer havia sindicato de metalúrgicos ou equivalente, e arcou com o investimento de treinar mão de obra para iniciar a operação. Note que não se critica ou elogia a existência de sindicatos em geral: destaca-se a questão de custos associados à ação sindical e que esses custos devem ser levados em consideração nas análises. Sobral e Peci (2013) contribuem citando outros exemplos de fatores que podem ser analisados: • inovações tecnológicas; • reputação e imagem da marca; • grau de centralização; • capacidade laboratorial; • eficiência dos esforços promocionais; • canais de comunicação internos; • estrutura de desenvolvimento de novos produtos; • capacidade financeira/acesso a recursos financeiros; • qualificação de equipamentos; • nível de experiência da mão de obra; 62 Unidade II • grau de endividamento; • localização das instalações; • habilitações acadêmicas dos funcionários; • liquidez; • acesso às matérias-primas; • rotatividade dos trabalhadores; • solvabilidade; • produtividade e eficiência; • estrutura de custos; • satisfação no trabalho; • controle de qualidade; • absenteísmo; • cotação das ações. Portanto, a análise do ambiente interno consiste em examinar os recursos e capacidades da empresa que influenciam sua capacidade competitiva comparando-as com os mesmos recursos da concorrência e identificando se são pontos fortes, fracos ou neutros. 4 A INTEGRAÇÃO DAS ANÁLISES – SWOT Tendo em mãos as avaliações de dados internos e externos, uma das ferramentas mais utilizadas para integrá-las é a análise SWOT, muito usada desde a década de 1970, como já comentamos. A análise SWOT envolve os ambientes interno e externo da empresa, o modelo trata das forças e fraquezas em dimensões-chaves como desempenho e recursos financeiros, recursos humanos, instalações e capacidade de produção, participação de mercado, percepções do consumidor sobre a qualidade, preço e disponibilidade do produto, e comunicação organizacional (FERREL et al., 2000, p. 62). [...] a análise SWOT, proposta originalmente por Andrews em 1971, é a combinação da análise do ambiente (externa) e da análise interna. No entendimento dos diferentes componentes da SWOT e seus respectivos 63 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA conceitos, procuramos enfatizar dois níveis de impacto e consequente avaliação: a dimensão competitiva e as questões de natureza interna, como objetivos e rentabilidade. Assim, temos os seguintes conceitos: oportunidade é uma situação externa que dá à empresa a possibilidade de facilitar o alcance dos objetivos ou de melhorar sua posição competitiva e/ou sua rentabilidade; ameaça é uma situação externa que coloca a empresa diante de dificuldades para o alcancedos objetivos ou de perda de mercado e/ou redução de rentabilidade; ponto forte é uma característica interna ou um ativo que dá à empresa uma vantagem competitiva sobre seus concorrentes ou uma facilidade para o alcance dos objetivos (que podem incluir rentabilidade); ponto fraco é uma característica interna ou uma limitação em um ativo que coloca a empresa em situação de desvantagem em relação com seus concorrentes ou de dificuldade para o alcance dos objetivos (que podem incluir rentabilidade) (ROSSI; LUCE, 2002, p. 3). A lógica da aplicação consiste em comparar os fatores internos identificados como pontos fortes/fracos da organização com os fatores externos identificados como ameaças/oportunidades. Quadro 7 – Análise SWOT S O W T Ajuda In te rn a (o rg an iz aç ão ) Na conquista do objetivo Atrapalha Ex te rn a (a m bi en te ) Or ig em d o fa to r Forças Oportunidades Fraquezas Ameaças Disponível em: https://bit.ly/3MmFaXs. Acesso em: 16 maio 2022. Pontos fortes são as capacidades e características da empresa que contribuem positivamente em sua competitividade, enquanto pontos fracos são o oposto: contribuem negativamente nos resultados. Ambos são fruto da análise do ambiente interno. Churchill (2000) cita alguns exemplos de fatores que podem ser analisados como fortes ou fracos: • recursos financeiros; • reconhecimento de marca; • domínio tecnológico; 64 Unidade II • fidelidade à marca; • direção estratégica; • custos; • modernidade de instalações. Por sua vez, as oportunidades são os fatores externos que podem afetar positivamente a competitividade e resultados, e as ameaças são o oposto: fatores externos que podem contribuir negativamente. Ambos são fruto da análise do ambiente externo. Churchill (2000) acentua alguns exemplos de fatores que podem ser analisados como ameaças ou oportunidades: • força da concorrência; • taxa de crescimento do mercado; • leis e regulamentações; • barreiras comerciais internacionais; • novas tecnologias/know-how; • força dos canais de distribuição; • desejos e necessidades de clientes; • classe social (econômica) dos clientes. Para fazer a aplicação da análise, Tarapanoff e Gregolin (2001) recomendam que os fatores selecionados sejam classificados por ordem de importância, do mais alto ao mais baixo. Quadro 8 – Ordenação dos fatores para análise SWOT Pontos fortes Pontos fracos Ponto forte mais importante Ponto fraco mais importante Ponto forte menos importante Ponto fraco menos importante Oportunidades Ameaças Oportunidade mais importante Ameaça mais importante Oportunidade menos importante Ameaça menos importante Adaptado de: Tarapanoff e Gregolin (2001, p. 216). Com essa forma hierarquizada, a leitura fica fácil, pois o que tem mais relevância aparece primeiro. 65 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Resumo O processo de administração estratégica apresenta uma sequência lógica de passos: planejar, implementar e controlar. São três os níveis de decisão estratégica: nível corporativo, nível de negócio e nível funcional. Para iniciar o processo de administração estratégica, é preciso analisar os fatores que afetam a organização (fatores externos e internos), sendo necessário integrar essas análises para auxiliar a formulação da estratégia. As organizações devem monitorar os fatores relevantes do ambiente externo, uma vez que estes influenciam a performance empresarial sem que a própria organização tenha condições de influenciar o ambiente em troca. Em suma: os fatores que acontecem além dos muros da empresa afetam seus resultados, e a contrapartida é praticamente nula: a empresa afeta muito pouco (ou nada) esses fatores. Não ter informação sobre fatores externos relevantes pode ser fatal para as organizações. Sem informação não há planejamento. No entanto, toda organização tem recursos à disposição. Sejam financeiros, humanos, produtivos ou mercadológicos, os recursos internos afetam a capacidade da empresa em competir no ambiente externo. Portanto, as empresas precisam analisar seus recursos e compará-los com os da concorrência, procurando identificar pontos fortes e fracos. Tendo em mãos as avaliações de dados internos e externos, uma das ferramentas mais utilizadas para integrá-las é a análise SWOT, muito usada desde a década de 1970 A análise SWOT, portanto, é uma forma de integração. A lógica da aplicação consiste em comparar os fatores internos identificados como pontos fortes/fracos da organização com os fatores externos identificados como ameaças/oportunidades. 66 Unidade II Exercícios Questão 1. Um profissional de marketing da área de turismo ficou encarregado de construir a matriz SWOT de uma cidade do interior da Paraíba, Itabaiana, que tem como um dos seus atrativos o Parque Nacional Serra de Itabaiana. A imagem a seguir mostra uma das paisagens do local. Figura 29 – Parque Nacional Serra de Itabaiana Disponível em: https://bit.ly/3yFNVIc. Acesso em: 16 maio 2022. Com base no caso e nos seus conhecimentos, avalie as afirmativas. I – A análise SWOT busca garantir uma visão abrangente acerca dos fatores internos e externos que podem auxiliar ou prejudicar a venda de um produto. II – O atrativo “trilha no Parque Nacional Serra de Itabaiana” deve ser colocado no quadrante das ameaças, pois se trata de uma atividade que envolve riscos. III – A análise SWOT não pode ser utilizada no caso apresentado, pois o setor turístico oferece bens intangíveis. É correto o que se afirma somente em: A) I e II. B) I e III. C) I. D) II. E) II e III. Resposta correta: alternativa C. 67 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Análise da questão A análise SWOT considera pontos fortes e pontos fracos como fatores internos e oportunidades e ameaças como fatores externos. Ela pode ser usada para produtos tangíveis ou intangíveis. A trilha é um ponto forte. Questão 2 (Enade 2018, adaptada). Preocupado com a crise mundial na economia, o gerente comercial de uma empresa procurou mapear as contingências ambientais e os seus impactos na estratégia da organização para os próximos anos. Sua conclusão é a de que haverá redução na demanda por seu produto no mercado externo, com consequente redução nas exportações. Logo, ele está prevendo que, no curto prazo, a empresa terá que se adaptar a essa realidade a partir das seguintes ações: i. redução do quadro de funcionários; ii. redirecionamento da produção para o mercado interno; iii. otimização dos custos empresariais. Considerando essa situação hipotética, avalie as asserções a seguir e a relação proposta entre elas. I – As previsões do gerente comercial apontam para o contingenciamento dos recursos organizacionais em face de uma nova configuração global. Porque II – Em períodos de tensionamento da situação econômica mundial, o mapeamento das contingências ambientais deve considerar a natureza cíclica e pré-determinada dos períodos de crise. A respeito dessas asserções, assinale a opção correta: A) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a asserção II justifica a I. B) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a asserção II não justifica a I. C) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa. D) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira. E) As asserções I e II são proposições falsas. Resposta correta: alternativa C. 68 Unidade II Análise das asserções I – Asserção verdadeira. Justificativa: as alterações que ocorrem no ambiente externo à empresa devem influenciar as decisões tomadas no ambiente interno. Vale destacar que o ambiente é o contexto que envolve externamente a empresa, ou seja, refere-se à situação na qual uma organização está inserida. Considerando que toda organização faz intercâmbio com o ambiente, tudo o que ocorre no ambiente tem influência no que ocorre dentro da organização. Portanto, para que uma empresa tenha o desempenho esperado, ela deve fazer um mapeamento ambiental, a fim deencontrar o melhor posicionamento dentro do ambiente (CHIAVENATO, 2014). Pode-se dizer, então, que as organizações são sistemas abertos sujeitas às incertezas que provêm das contingências externas impostas pelo ambiente (CHIAVENATO, 2014). II – Asserção falsa. Justificativa: o mapeamento ambiental é feito para que se tenha uma visão de futuro do ambiente. Não é possível considerar que haja uma natureza cíclica para as contingências. 69 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Unidade III 5 CASO HAVAIANAS As sandálias Havaianas, produzidas pela empresa São Paulo Alpargatas, trazem um exemplo histórico de estratégias que se adaptam aos tempos, resultando em alguns fracassos e muitos sucessos. Gomes (2005) explica a evolução estratégica das Havaianas na forma de ondas. A primeira onda, que o autor denomina onda das commodities, durou de 1962 até 1994. Em 1962 a Alpargatas lançou um produto cuja inspiração era uma tradicional sandália de dedo japonesa chamada Zori, feita com tiras de tecido e sola de palha de arroz. A) B) Figura 30 – Sandálias japonesas Zori e sandálias Havaianas Disponível em: A) https://bit.ly/3yK3COD; B) https://bit.ly/3FRIAiH. Acesso em: 16 maio 2022. Ao desenvolver o produto, a empresa substituiu a palha da sola por um composto de borracha extremamente macio e durável, e simulou os grãos de arroz na textura da parte superior. Essa textura persiste até hoje. A agência de propaganda JW Thompson criou um slogan que resumia as qualidades do produto: “não deformam, não soltam as tiras e não têm cheiro”. E era verdade. Embora o design das sandálias Havaianas fosse de origem oriental, seu nome foi inspirado no Havaí, o paraíso do sol e do mar, onde os ricos e famosos norte-americanos na década de 1960 passavam suas férias. Esse nome era considerado ideal, já que o calçado era adequado para o uso em países de clima quente, pois deixava os pés descobertos, evitando o excesso de transpiração (SERRALVO; PRADO; LEAL, 2006, p. 9). 70 Unidade III Originalmente lançada para a classe média, em pouco tempo foi adotada pelas classes mais populares, pois era confortável e barata. Portanto, a Alpargatas adotou com sucesso a estratégia de menor custo de Porter (1986) através do binômio padronização e alta escala. A estratégia consistia em padronizar a oferta em um único modelo com tamanhos de pé diferentes fabricados massivamente, reduzindo o custo unitário de produção. Com o tempo, foram acrescentadas poucas cores nas tiras (verde, azul, amarelo e preto), sempre com foco em produção em massa. Nas décadas de 1970 e 1980, as Havaianas eram um produto barato e amplamente usado pelas classes C e D. Era bastante comum ver operários de construção, pedreiros, pintores e vendedores ambulantes usando-as para trabalhar. A distribuição feita através de atacados fazia o produto chegar a lojas populares em todo o Brasil, que vendiam o produto encostado em qualquer lugar. Era comum o uso de caixas de sabão (ou qualquer outra caixa de papelão velha) com tamanhos de pé e cores misturados. Os clientes procuravam e faziam o par que queriam. Feiras livres e camelôs vendiam sandálias Havaianas em grande quantidade. Entretanto, havia um problema. Mesmo tendo um diferencial único (a secreta formulação da borracha do solado e tiras que não deformava, não soltava as tiras e não retinha cheiro), a percepção geral era de produto “comoditizado” (massificado e não diferenciado pelo cliente) e extremamente popular. Para as classes A e B, as Havaianas estavam associadas à falta de elegância. Para o restante da população, eram um produto confiável e barato. Percebendo esse ponto fraco, a concorrência avançou ao longo da década de 1980 com sandálias (ou chinelos) de borracha com melhor imagem. Entretanto, em 1988, com o avanço dos concorrentes, a empresa teve uma forte queda nas vendas de 88 milhões de pares para 65 milhões de pares, com uma margem cada vez menor ao longo do tempo. Além disso, vale ressaltar que a empresa manteve por 32 anos o mesmo produto sem nenhuma inovação como também a classe média foi impactada pelo lançamento de produtos diferenciados como os chinelos Rider, da empresa Grendene. Em vista disso, o volume e a rentabilidade das sandálias Havaianas iniciaram um processo cíclico de declínio: o foco em redução de custos para aumento da rentabilidade fez com que o preço do produto fosse seu único diferencial no mercado, tendo como fim seu uso restrito às classes de menor poder aquisitivo. As pesquisas indicavam que a imagem das sandálias Havaianas era de um produto bom, confiável, porém o produto estava associado a um atestado de pobreza, sem apelo de charme e glamour (SERRALVO; PRADO; LEAL, 2006, p. 10). Na época, a Alpargatas percebeu que a estratégia de menor custo não mais trazia vantagem competitiva. Ao contrário, na prática o produto perdia volume de vendas ano após ano e a economia de escala estava perdendo eficiência, reduzindo, por conseguinte, as estreitas margens de lucro. Era necessário adotar outra estratégia. Gomes (2005) e Serralvo, Prado e Leal (2006) citam 1994 como o início da onda da redefinição da estratégia. Para isso, a Alpargatas teve por base pesquisas que indicavam que muitas pessoas das 71 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA classes A e B também usavam Havaianas, porém restringindo o uso para as próprias casas. Afinal de contas, eram confortáveis. Não era aceitável para a classe alta e média ser vista usando o produto nas ruas, praias e piscinas, pois o preconceito de imagem pobre dominava. Mas era aceitável usar Havaianas em casa, longe dos olhos dos pares sociais. Essa hipocrisia de fazer no ambiente privado o que não se faz em ambiente público por questões meramente sociais deu o ponto de partida para redefinir a estratégia. Podemos ver que a estratégia de diferenciação de Porter (1986) emergiu a partir daí. Sem abrir mão do produto básico e popular que continuava a vender dezenas de milhões de pares por ano (apesar da queda continuada de vendas), a decisão foi de lançar um novo produto, com nova embalagem, com distribuição e comunicação diferentes e com significativa alteração no preço (mais caro). Perceba que, nesse caso, também podemos citar a visão de Ansoff (1965) e afirmar que era uma estratégia de desenvolvimento de produtos. Foi o lançamento da linha Havaianas Top, em 1994, que simbolizou a segunda onda da marca. Sua proposta era reconquistar a classe média. Se as Havaianas Tradicionais tinham sempre duas cores – solado e tiras numa cor básica, palmilha branca –, as Top vinham monocromáticas, em cores da moda (GOMES, 2005, p. 3). Assim, a linha de produtos de Havaianas passou a ter duas opções: Tradicional, sem alterações nas políticas de produção e marketing, e Top, com 30% a mais na espessura da sola, cores diferentes e a marca Havaianas gravada em relevo na tira, além de outras ações estratégicas. Uma dessas ações dizia respeito à embalagem. Para ter baixo custo no produto final, a embalagem das Tradicionais era no máximo um saco de pano com barbante, isso quando não era vendida no varejo sem embalagem alguma com os pares amontoados em caixas de papelão de outros produtos, fazendo o cliente procurar o pé direito e esquerdo do mesmo tamanho. Já a Havaianas Top vinha em pares dentro de uma embalagem cartonada colorida e de bom gosto, diferenciando a oferta e a percepção de qualidade. Não era um produto de luxo, mas era perfeitamente aceitável pelas classes A e B. Outra ação foi a escolha de varejos não populares para vender a Top. O canal de distribuição tradicional das Havaianas, o atacado, abastecia feiras livres, mercadinhos, lojas de roupas populares, posto de gasolina etc. A Alpargatas não ofereceu a Havaianas Top aos atacados e focou a oferta diretamente no varejo de calçados masculinos e femininos, lojas de material esportivo, lojas de moda jovem em shoppings etc. A ideia era de mostrar ao público classe A e B que o novo produto não seria encontrado nos locais populares. A7.2.1 Perspectiva financeira ........................................................................................................................ 124 7.2.2 Perspectiva do cliente ........................................................................................................................ 126 7.2.3 Perspectiva de processos internos ................................................................................................ 127 7.2.4 Perspectiva de aprendizagem e crescimento ........................................................................... 128 7.3 Design Thinking ...................................................................................................................................128 7.4 Controle ..................................................................................................................................................133 8 APRENDIZADO ESTRATÉGICO ...................................................................................................................137 7 APRESENTAÇÃO Esta disciplina trata do processo estratégico para a formulação das estratégias organizacionais (corporativas, de negócios e funcionais) a partir de ferramentas e métodos de análise dos ambientes e informações relevantes que afetam o negócio. Trata da implementação das estratégias por meio da definição dos objetivos estratégicos e respectivos indicadores de desempenho, metas e planos de ação, bem como do controle e aprendizado do processo estratégico. Serão discutidos aspectos importantes, como níveis de decisão, estratégia versus estrutura, análise de ambiente competitivo, matriz BCG, formulação de estratégias, campos e armas de competição, Balanced Scorecard (BSC) entre outros. Para exemplificar o conteúdo abordado, serão estudados casos de empresas com descrição de estratégias. Bons estudos! INTRODUÇÃO Você certamente está observando as mudanças que ocorrem no mercado empresarial desde a virada do século. Há pequenas empresas que cresceram rapidamente e criaram um mercado próprio, a exemplo de Waze e Uber. • O Waze for criado em 2008 em Israel, cresceu rapidamente e foi comprado pelo Google em 2013 por quase 1 bilhão de dólares. É um modelo de negócios cujos principais inputs são dados gratuitamente pelos usuários quando usam o aplicativo, mostrando sua velocidade na via. Esses dados são consolidados e vendidos para anunciantes. Fonseca (2019) afirma que o Waze tem 115 milhões de usuários ativos em 185 países. • A Uber foi criada em 2009 na Califórnia, cresceu pelos EUA e cruzou o Atlântico, sendo lançada em Londres em 2012. O resto do mundo foi recebendo o serviço nos anos seguintes. Em 2019 abriu seu capital na Bolsa de Nova York e foi avaliada em US$ 82 bilhões, mesmo sem nunca ter registrado lucro. Parece um contrassenso, mas o valor de mercado de uma empresa tem muito a ver com as perspectivas de ganhos futuros – o que no caso da Uber é uma aposta bastante razoável. Houve também ramos de negócio tradicionais e centenários perdendo rapidamente relevância econômica, por exemplo, mídia impressa na forma de jornais e revistas. Ao longo do século XX, veículos de comunicação como jornais e revistas eram um grande negócio. A receita vinha das seguintes maneiras: venda de exemplares avulsos, assinatura e venda de espaço publicitário para anunciantes. Quanto maior a tiragem (número de exemplares), maior a receita de venda de exemplares e de anunciantes. A revista Veja chegou a ter 1 milhão de exemplares por semana, mas a recordista brasileira foi uma edição da revista Playboy, também da editora Abril, com 1,2 milhão em um mês. 8 Grandes jornais como O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo e O Globo eram vacas-leiteiras (vendiam muito) com edições diárias, sendo as dominicais um festival de anúncios. Todavia, conforme a internet foi se popularizando e os aplicativos de redes sociais foram se espraiando, os hábitos mudaram paulatinamente, assim, jornais e revistas perderam relevância, causando uma vertiginosa queda de tiragem. Várias publicações deixaram de existir, e as que sobreviveram reduziram bastante as tiragens e, por conseguinte, o faturamento. E o que dizer de segmentos de mercado sendo abandonados em um país, por exemplo, a Ford Caminhões? O fato é relevante, pois o Brasil depende muito do modal rodoviário para transporte de cargas (o modal ferroviário é incipiente pelo volume, e o aéreo é caro demais). Em 2019, a unidade de negócios da Ford que fabricava caminhões no Brasil foi fechada e a marca saiu do setor no país. O motivo principal foi a necessidade de altos investimentos para adequar os produtos às exigências legais do Proconve P8 (emissões de poluentes e adequação a testes mais rigorosos de consumo), além da existência de mercados mais promissores em outros países. Recentemente, muitas empresas líderes mundiais abandonaram seus negócios. No início deste século, a empresa finlandesa Nokia foi líder em celulares. Provavelmente você lembra de alguns modelos, pois eram extremamente comuns no Brasil. Por conta de decisões estratégicas equivocadas (que discutiremos neste livro-texto), quase faliu. Abandonou o ramo de celulares por vários anos e há pouco voltou ao mercado, porém sem grande representatividade. Observe que destacamos uma pequena parte das profundas mudanças no ambiente competitivo. O ambiente é turbulento e pode quebrar tanto empresas pequenas quanto organizações bem estruturadas. Por outro lado, é desafiador por permitir rápido crescimento. Cada vez mais fica claro que é preciso ter foco estratégico e olhos atentos para ameaças e oportunidades. Este livro-texto pretende contribuir para o aumento de seu conhecimento sobre esse foco estratégico tão necessário no mundo globalizado e competitivo em que vivemos. Serão acentuados vários exemplos para esclarecer aspectos teóricos, com tabelas, ilustrações e gráficos, a fim de facilitar seu aprendizado. 9 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Unidade I 1 CASO DA IBM A IBM é uma multinacional americana de informática. Como os mercados mudam com o tempo, a estratégia também deve ser adequada. A empresa foi líder mundial de fabricação de computadores de grande e médio porte durante décadas no último século. Hoje é uma das líderes mundiais de TI em nuvem. A IBM abandonou a fabricação de computadores que a fez famosa, ou seja, a estratégia mudou com o tempo. Figura 1 – Computadores IBM de grande porte Disponível em: https://bit.ly/3ldRr4z. Acesso em: 16 maio 2022. Fundada em 1911 por meio da fusão de três empresas, o nome original da IBM era CTR (Computing Tabulating Recording Company) e fabricava registradores mecânicos de tempo para máquinas industriais, instrumentos de aferição de peso, relógios e máquinas de cartões perfurados para tabulação (precursores dos computadores). Eram centenas de produtos das três empresas originais que eram vendidos somente para empresas, e não pessoas físicas. Em 1914, passou a fabricar caixas registradoras e outras máquinas, mantendo o foco inicial de atender empresas. Sua primeira filial fora dos EUA foi no Brasil, em 1917, onde vendia máquinas que tabulavam o censo demográfico de 1920. De fato, tem presença centenária no Brasil. 10 Unidade I Em 1924, a empresa mudou o nome para International Business Machines Corporation (IBM), utilizado até hoje. O novo nome estabelece claramente o foco em produzir máquinas que auxiliam negócios. 1924-1946 1947-1956 1956-1972 1972-present Figura 2 – Logotipos da IBM ao longo do tempo Disponível em: https://bit.ly/3yAfFhw. Acesso em: 16 maio 2022. Na década de 1930, a IBM lançou com sucesso vários modelos de calculadoras mecânicas. Na Segunda Guerra (1939-1945), criou novas calculadoras e colocou todas as fábricas americanas à disposição do governo americano para compensar a nacionalização da filial alemã pelo governo nazista, que utilizou suas máquinas de cartões perfurados e outros equipamentos no esforço de guerra contra osexposição do produto no ponto de venda também foi uma importante transformação. Foram projetados displays personalizados para mostrá-las de forma destacada. Foram desenvolvidos “Havaianeiros”, que deixavam a marca exposta, por cores e por tamanhos. Mostrar o produto é importante. O produto não basta ser bom, tem que parecer bom. Antes disso, as Havaianas eram vendidas em sacos misturados com produtos de limpeza que ficavam jogados no chão (SERRALVO; PRADO; LEAL, 2006, p. 11). 72 Unidade III O preço da Havaianas Top era mais alto e com rentabilidade maior. Porém, a lógica de preço relativo era a mesma da Havaianas Tradicional, que era considerada acessível para as classes C e D. Assim, o preço mais alto da Top também foi posicionado para ser acessível para as classes A e B. A comunicação também foi alterada. Antes, os anúncios focavam nas qualidades do produto (o slogan tradicional). Para a Havaianas Top, o foco mudou para quem usava o produto, no clássico formato testemunhal, mas de maneira leve e divertida. A mensagem era: as celebridades que apareciam usando Havaianas nos comerciais realmente as usavam no seu dia a dia na vida real. A atriz Malu Mader estrelou o primeiro comercial, que sempre seguiu uma linha de humor e descontração até os dias de hoje. Diversas pessoas conhecidas foram garotos-propaganda da marca, como Malu Mader, Vera Fisher, Carolina Ferraz, Deborah Secco, Luana Piovani, Priscila Fantin, Rodrigo Santoro, Marcos Palmeira, Raí, Reinaldo Gianechini, Fábio Assunção entre outros. Essa estratégia confere credibilidade à mensagem e à marca, tendo em vista que estes avalizavam a marca e o produto. Dessa forma, conseguiu-se mudar a imagem da marca de envelhecida e desgastada que ameaçava o crescimento no mercado brasileiro para moderna e charmosa (SERRALVO; PRADO; LEAL, 2006, p. 11). Os resultados foram ótimos. Em um ano, as Tradicionais recuperaram o volume de vendas e a Top atingiu as metas de vendas estabelecidas. É interessante perceber o efeito paralelo da comunicação: o prestigio das Havaianas Top de certa forma ajudou a reforçar as vendas das Havaianas Tradicionais. O público tradicional das classes C e D também tinha projeção nas celebridades, mesmo não comprando o produto mais caro. É um bom exemplo de comunicação eficiente, que traz um efeito guarda-chuva para a marca. Cabe ressaltar que a linha de comunicação de 1994 permanece a mesma até hoje. Sempre há celebridades como atores, atrizes e esportistas em situações de uso do produto, falando sobre o produto ou comprando o produto em cenas cheias de humor e descontração. Exemplos: há Cauã Reymond e seu cão Bolota, que só roía sandálias Havaianas; Rubinho Barrichello comprando o produto diante de uma vendedora que imita Galvão Bueno; Deborah Secco na praia usando o produto para atrair a atenção. Há cenas domésticas, na praia, na rua ou em lojas reforçando a ideia de que essas celebridades usam Havaianas no dia a dia. Lembrete Nas décadas de 1970 e 1980, as Havaianas eram um produto barato e amplamente usado pelas classes C e D. Era bastante comum ver operários de construção, pedreiros, pintores e vendedores ambulantes usando-as para trabalhar. 73 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Exemplo de aplicação A internet dá acesso a centenas de comerciais da Havaianas. Pesquise na internet digitando “comerciais havaianas” e observe. O sucesso das Havaianas Top incentivou a Alpargatas a desenvolver mais modelos, alguns em edição limitada e com preço alto. Por exemplo, para o réveillon do ano 2000, foi lançado um modelo que brilhava no escuro. Em 2001 foi lançada a Special Collection, com cristais e malhas de metal costuradas à mão por artesãos nordestinos. Em 2004 foi criada uma edição limitadíssima de Havaianas com acabamento em ouro com parceria da Joalheria H.Stern. Ao longo de todo esse tempo, houve modelos com preços e escalas de produção normais, como Floral, Fit, Baby e Flat. Serralvo, Prado e Leal (2006) denominam a terceira onda como internacionalização, que ocorreu a partir de 2001. A exportação começou em 1994 lentamente para alguns países vizinhos da América do Sul. Esse aprendizado gerou frutos, pois em 2001 as vendas externas começaram a crescer significativamente. O processo foi exatamente o oposto em relação aos acontecimentos no Brasil. Aqui, as sandálias Havaianas tinham como consumidores as classes mais baixas e depois foram subindo na pirâmide. Em contrapartida, no mercado internacional, principalmente o europeu e americano, a marca já entrou com um posicionamento superior, de qualidade e status. O público-alvo escolhido foi o que eles chamam de High End ou topo da pirâmide. Os países selecionados primeiramente foram França e Itália, por serem importantes referências de moda (SERRALVO; PRADO; LEAL, 2006, p. 12). Buscar novos clientes com o mesmo produto é a estratégia de desenvolvimento de mercado de Ansoff (1965). E, sob a ótica de Porter (1986), temos a estratégia competitiva de foco, pois no exterior houve a escolha do segmento High End com necessidades específicas e diferenciação. As ações mercadológicas e operacionais para a internacionalização foram muito bem-sucedidas. O lançamento em Paris foi na Galeria Lafayette, uma enorme loja de departamentos com público formador de opinião. Uma vez por ano a loja faz um evento tradicional temático, e em 2002 o tema foi América Latina. Foi negociado um espaço promocional com uma “minifábrica” de Havaianas para que as pessoas montassem seu par personalizado juntando solados e tiras de diversas cores. O preço: 30 euros. Veja a cotação do euro hoje, multiplique por 30 e veja que a escala de preço no exterior era muitíssimo superior aos preços praticados no Brasil. A cuidadosa seleção dos pontos de venda onde seriam vendidas as Havaianas fez com que grandes redes de varejo fossem bloqueadas. Wal Mart e Carrefour, por exemplo, ficaram de fora. Porém, lojas de alta moda foram escolhidas e a escala de preço chegou em alguns casos a 50 euros. Também foram usadas vending machines (máquinas de venda automática), que eram colocadas em locais de circulação do público High End como shoppings sofisticados e áreas comerciais com lojas de produtos de luxo. A marca e o produto, visivelmente presentes nesses locais, reforçavam a imagem de produto para um público selecionado. 74 Unidade III Figura 31 – Máquina de vendas Havaianas Disponível em: https://bit.ly/3LkVVRN. Acesso em: 16 maio 2022. A comunicação era focada em relações públicas e as ações com as revistas de moda europeias fizeram as Havaianas aparecerem em editoriais de moda sem custo de veiculação. A imagem trabalhada foi de status e de “ser fashion” para quem usasse as sandálias. Por exemplo, nos EUA, em 2003, as havaianas foram distribuídas gratuitamente para as celebridades que iriam ao Oscar e ao Grammy. Foi um trabalho de relações públicas muito bem coordenado, com excepcional relação custo-benefício. A mídia nacional e internacional noticiou o uso descolado das sandálias nos pés de Brad Pitt, Angelina Jolie e de dezenas de outras celebridades no tapete vermelho. Como mais um exemplo de uma ação promocional que reforça a imagem de produto descolado, em 2012 a Alpargatas criou um evento no Australia Day (dia da independência australiana) com a venda de mil pranchas infláveis em formato de sandália em uma grande praia e ampla divulgação para a imprensa. A marca apareceu gratuitamente em TVs, internet, revistas e jornais e reforçou a imagem positiva. A) B) Figura 32 – Ação promocional Havaianas na Austrália em 2012 Disponível em: A) https://bit.ly/3MnxHHL; B) https://bit.ly/3PrWo80. Acesso em: 16 maio 2022. 75 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Claro que esse sucesso todo não se traduziu em volume de vendas de milhões de pares no exterior. Eram volumes bem menores, porém altamente rentáveis. O principal benefício foi o reflexo dessa imagem de produto descolado no exterior nas vendas aqui no Brasil. Tudo o que aconteciana Europa (e depois nos EUA e em outros países) era informado para a mídia brasileira, com farta distribuição de press release com fotos e imagens. A área de relações públicas buscava imagens jornalísticas na Europa e nos EUA com pessoas usando Havaianas e as distribuía para a mídia, que muitas vezes publicava sem custo algum para a companhia. Observe a seguir uma foto de pessoas comuns com o presidente americano George W. Bush em 2005 e perceba a identificação dos pés usando as sandálias: Figura 33 – Havaianas na Casa Branca Disponível em: https://bit.ly/3LjBLHP. Acesso em: 16 maio 2022. Revistas, jornais e até a televisão noticiavam com razoável frequência celebridades estrangeiras usando o produto em festas, desfiles, restaurantes e casas noturnas de alto padrão. Era comum a mídia destacar que os preços eram muito mais altos que os brasileiros. A imagem de produto descolado alavancou as vendas no Brasil em volumes bem mais altos e permitiu adotar preços mais altos também (em menor escala, claro). Era possível usar a sandália dos famosos nacionais e estrangeiros pagando pouco. No Brasil as estratégias mercadológicas também envolvem ofertas diferenciadas do produto. É possível comprar lotes de no mínimo cem pares personalizados com o nome de noivos para festas de casamento, quando é usual tirar os calçados e ter acesso às sandálias para dançar na pista. De tempos em tempos se monta em algum shopping de luxo um quiosque com solados e tiras de várias cores e modelos separados, incentivando os compradores a customizar seu par (inclusive com miçangas, correntinhas etc.). Essas ações não geram grande volume, mas reforçam a imagem de produto moderno e descolado. Note que a estratégia mudou e se adaptou com o tempo. Hoje a Alpargatas continua com as Havaianas à venda no Brasil e no exterior com estratégias distintas e bem-sucedidas. 76 Unidade III Tendo em mãos o conjunto de análises de fatores internos e externos, faz-se necessário optar por um caminho estratégico adequado. Como já vimos, Sobral e Peci (2013) definem três níveis de decisão estratégica: nível corporativo, nível de negócio e nível funcional. Estudaremos esses aspectos a seguir. 5.1 Formulação estratégica de nível corporativo Esse nível é adequado para organizações estruturadas em unidades de negócios. A formulação estratégica visa obter sinergia entre os diversos negócios, aproveitando da melhor maneira as possibilidades de compartilhar atividades. Wright, Kroll e Parnell (2000) delimitam três tipos de estratégias corporativas: crescimento, estabilidade ou retração. Cada unidade de negócio deve adotar a mais adequada para que haja sinergia e complementariedade nos objetivos organizacionais. Assim, organizações podem ter unidades de negócio com estratégias de crescimento simultaneamente com outras adotando estratégias de retração ou estabilidade, balanceando os investimentos e maximizando os resultados gerais. 5.1.1 Estratégia de crescimento Adotada quando a unidade de negócio tem acesso a recursos suficientes para aumentar o volume de operações com benefícios superiores aos custos envolvidos. É o caso de mercados em fase de crescimento ou de concorrentes em situação vulnerável que não vão reagir à tomada de participação de mercado. Lembre-se que o início da discussão acadêmica sobre estratégia por Ansoff, na década de 1960, foi delimitada para estratégias de crescimento. Desde Ansoff, a teoria evoluiu e se desdobrou, mostrando que há várias maneiras específicas de crescer. Wright, Kroll e Parnell (2000) desdobram essa estratégia em diversos tipos: interno; integração horizontal; diversificação horizontal relacionada; diversificação horizontal não relacionada; integração vertical; fusões; e alianças estratégicas. • Interno: aumento de produção e vendas através da ampliação da força de trabalho. Ou seja, aumento da produtividade comercial e produtiva. Também chamado de crescimento orgânico. Exemplo: os esforços do McDonald’s em crescer no faturamento dentro da rede atual de restaurantes. Há calendário promocional, definição de ofertas, lançamento de produtos e eventos que atendem a essa necessidade. É, de certa forma, a estratégia mais comum para a maioria das empresas. • Integração horizontal: aquisição/fusão/criação de empresas que atuam no mesmo mercado. O crescimento se dá em vista da ampliação da capacidade produtiva/operacional. Nem sempre é comprar a empresa inteira, podendo se comprar só partes produtivas ou comerciais. Por exemplo, em 2008 o Banco Itaú comprou o Unibanco, e com isso cresceu tanto a base de clientes quanto a de agências. Claro que isso gerou sobreposição (agências bancárias muito próximas entre si), o que naturalmente levou a ajustes da rede através do fechamento de agências excedentes, demissão de funcionários em funções redundantes e transferência de clientes para outra agência. Naturalmente, uma percentagem de clientes não aceita e abandona a marca, mas uma percentagem maior 77 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA permanece. Isso gera crescimento do faturamento pela sinergia comercial das duas operações fundidas numa só, sem contar os ganhos de sinergia operacional da retaguarda, fazendo crescer a rentabilidade. Pense na grande quantidade de fusões e aquisições de empresas nos últimos anos. Muitas delas são do mesmo ramo. O mercado farmacêutico faz isso com frequência. Concorrente ConcorrenteEmpresa Integração horizontal Figura 34 – Compra de um concorrente Saiba mais A PWC (PricewaterhouseCoopers), rede de empresas de consultoria, auditoria e assessoria presente em mais de cem países, tem um site com dados e informações sobre fusões e aquisições no Brasil mês a mês. Vale a pena navegar e conhecer vários exemplos. PWC BRASIL. Fusões e aquisições. Busca por ano de divulgação. 2021. Disponível em: https://pwc.to/38q4gpX. Acesso em: 16 maio 2022. • Diversificação horizontal relacionada: a expressão “relacionada” no nome diferencia essa diversificação, que trata da aquisição/fusão/criação de empresas que atuam em outro mercado, mas que têm características complementares que permitem sinergia de operações. Ou seja, não é comprar um concorrente, e sim comprar (ou se fundir) com empresas de ramos correlatos. É possível comprar só partes produtivas ou comerciais. Por exemplo, a Weg, empresa brasileira líder mundial em vários setores ligados a soluções em motores elétricos, automação e tintas, em 2019 comprou a unidade de negócio de sistemas de armazenamento de energia por baterias da Northern Power Systems. É um novo negócio (baterias) com sinergia de operações com as outras unidades de negócio da Weg. Empresa relacionada ao ramo Empresa relacionada ao ramo Empresa Diversificação horizontal relacionada Figura 35 – Compra de uma empresa não concorrente, mas relacionada ao ramo 78 Unidade III Saiba mais A Weg é um excelente exemplo de empresa brasileira internacionalizada que adota estratégias muito bem-sucedidas. Possui fábricas em 12 países e representantes comerciais em mais de 130. São mais de 31 mil funcionários no mundo. Em 2019, teve faturamento líquido de R$ 13,3 bilhões, sendo quase 60% das vendas realizadas no exterior. E sua sede continua no mesmo lugar desde o início, no interior de Santa Catarina. Vale a pena navegar no site da empresa: Disponível em: https://bit.ly/3yI1Eys. Acesso em: 16 maio 2022. • Diversificação horizontal não relacionada: aquisição/fusão/criação de empresas que atuam em outro mercado sem qualquer relação com os mercados atendidos pelas unidades de negócio. É possível comprar só partes produtivas ou comerciais. Por exemplo, a empresa brasileira de suco de laranja Cutrale e o Banco Safra compraram em sociedade a empresa americana produtora de bananas Chiquita por US$ 1,3 bilhão em 2014. Outro exemplo é a Vivara, rede brasileira de joalherias com produtos de ouro, prata, óculos, relógios, perfumes e acessórios de couro, que em 2004 criou uma nova unidade de negócio: arede de lojas de móveis e decoração Etna. Veja que em ambos os casos o novo negócio não tem relação com os negócios correntes. Empresa não relacionada ao ramo Empresa não relacionada ao ramo Empresa Diversificação horizontal não relacionada Figura 36 – Compra de uma empresa sem relação com o ramo • Integração vertical: aquisição/fusão/criação de empresas que atuam ao longo da cadeia de suprimento/distribuição. É o caso de empresas que compram ou criam uma empresa que vai ser sua própria fornecedora de insumos, ou que vai distribuir seus produtos. Isso também é chamado de verticalização. É possível comprar só partes produtivas ou comerciais. Por exemplo, o Grupo Votorantim tinha em 2004 em sua unidade de negócios de papel e celulose um alto nível de integração vertical. Sua cadeia produtiva era assim: a VCP Florestal plantava e colhia eucaliptos, que os fornecia para a VCP Celulose, que transformava a matéria-prima em celulose de uso industrial, que o fornecia para a VCP Papel, que transformava a celulose em papel. Cada uma dessas empresas também vendia seus produtos para outras empresas fora do grupo. Completando, havia ainda a KSR, empresa do Grupo Votorantim que era distribuidora de papel no atacado. Hoje em dia essa configuração mudou com a adição de novos players no mercado. 79 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Fornecedor Distribuidor Empresa Integração vertical Figura 37 – Compra de fornecedor ou distribuidor • Fusões: união de duas ou mais empresas em uma nova para ganhar competitividade por sinergia e compartilhamento. Por exemplo, em 1999 as duas maiores cervejarias brasileiras, Antarctica e Brahma, se fundiram numa só empresa chamada Ambev, unificando as operações fabris e comerciais. Eram concorrentes que disputavam o mesmo mercado há mais de cem anos. No mesmo exemplo, em 2004 a Ambev se fundiu com a cervejaria belga Interbrew, formando uma nova empresa chamada Inbev. Em 2008 a Inbev se fundiu com a Anheuser-Busch, a maior cervejaria americana, tornando-se o maior fabricante de cerveja do mundo: a AB-Inbev. Brasserie Den Hoorn (Artois) 1366 Interbrew 1987 AmBev 1999 InBev 1999 Anheuser-Busch InBev N.V. 2008 Brasserie Piedboeuf 1853 Companhia Cervejaria Brahma 1888 Companhia Antarctica Paulista 1882 Anheuser-Busch 1860 Figura 38 – Fusões que formaram a AB-Inbev Disponível em: https://bit.ly/3FO6348. Acesso em: 16 maio 2022. • Alianças estratégicas: parcerias em que duas ou mais empresas diferentes cooperam entre si buscando vantagens competitivas em determinado negócio. Por exemplo, empresas de logística de localidades diferentes fazem parcerias entre si para aproveitar o retorno de caminhões vazios após fazer entregas em outros estados/cidades. O caminhão da empresa paulista A que sai de São Paulo para Manaus iria retornar vazio, mas a empresa amazonense B vende o frete de Manaus 80 Unidade III para São Paulo, gerando ganhos e redução de custos para ambas as empresas. Quando a parceria é institucionalizada e faz parte da estratégia de ambas as empresas, temos uma aliança estratégica. Outra parceria estratégica envolve as lojas de móveis e decoração Etna (que já comentamos) com o Grupo Pão de Açúcar, um dos líderes do ramo de supermercados e hipermercados no Brasil. A parceria consiste na abertura de espaço dentro dos hipermercados Extra e supermercados Pão de Açúcar para vender produtos das lojas Etna. No caso do Extra, uma grande área da loja contém várias gôndolas e prateleiras só para produtos Etna. Isso é denominado shop in shop ou loja dentro da loja. Não se pode confundir essa modalidade com as lojas que ficam além dos caixas do hipermercado (farmácias, lotéricas, cafés etc.). No caso da parceria com a Etna, o espaço é dentro da área de vendas do hipermercado e os produtos são pagos nos mesmos caixas, havendo um acerto de contas posterior entre as duas empresas. 5.1.2 Estratégia de estabilidade Também chamada de estratégia de manutenção, a estratégia de estabilidade é adotada quando os custos do crescimento da unidade de negócio forem maiores que os benefícios possíveis. É o caso de mercados maduros, com baixas taxas de crescimento e alta competição ou da existência de concorrentes fortes o suficiente para reagir a ações de crescimento. Na prática, trata-se de definir que os movimentos estratégicos não serão muito diferentes dos atuais, mantendo-se as operações como estão sem grandes alterações. Observação Essa estratégia pressupõe a escolha racional em manter as coisas como estão. Não se trata de ausência de estratégia como suposto por Ansoff. Pense nos restaurantes por quilo perto de regiões comerciais. A maioria, após conseguir se estabelecer com um volume suficiente de clientes por dia, dificilmente mudará suas atividades. Você provavelmente conhece empresas que atuam do mesmo modo ano após ano. Se a situação de mercado não se alterar, uma boa parte vai continuar existindo fazendo o que sempre fez. Contudo, há outros motivos além do conformismo para adotar essa estratégia. Por exemplo, o Grupo Votorantim atua nos setores de cimento, mineração, siderurgia, energia e outros. A unidade de negócio de cimento adota a maior parte das vezes essa estratégia, pois é um ramo pouco atrativo para novas empresas (preço comoditizado, altos investimentos para manutenção e bastante onerado pelo custo de distribuição) e a liderança em um mercado de crescimento razoavelmente estável garante uma posição confortável. Ou seja, não vale a pena investir para crescer nessa unidade de negócio, e o grupo utiliza seus recursos para investir nas outras unidades de negócios. Se fosse feita uma matriz BCG, a unidade de negócio de cimento seria certamente uma vaca-leiteira. 81 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Observação Na matriz BCG, vacas-leiteiras são produtos líderes cujo mercado apresenta baixa taxa de crescimento, o que não atrai novos entrantes. Ou seja, gera recursos “garantidos” e não exige muitos investimentos para se manter. 5.1.3 Estratégia de retração Também conhecida como estratégia de desinvestimento, a estratégia de retração é adotada quando a unidade de negócio tem desempenho abaixo do projetado e os custos de operação são superiores aos benefícios projetados. É o caso de mercados com poucas perspectivas de crescimento diante de concorrência com maior poder de fogo, ou de fatores externos que alteram a dinâmica do mercado, deixando-o pouco atrativo. Na prática, essa estratégia reduz as operações visando sair total ou parcialmente do mercado. Veja que o ponto é tentar converter os ativos em recursos para serem investidos em outros setores/negócios. Quando bem executada, a saída parcial reduz, naturalmente, o faturamento e ao menos procura manter os percentuais de rentabilidade por um prazo definido. Por exemplo, a crise econômica trazida pelo coronavírus fez com que vários negócios decidissem por reduzir suas operações. Redes de varejo fecharam parte das lojas, unidades fabris reduziram turnos ou encerraram linhas de produção etc. Na estratégia de desinvestimento está implícita a ideia de encerrar algumas ou todas as atividades da empresa. O desinvestimento parcial livra a empresa de suas partes menos convenientes ou menos importantes. É aplicável até quando há lucros positivos, mas por questões de estratégia é preferível concentrar a atenção em apenas uma parte das atividades atuais. Ocorre então uma especialização que, em alguns casos, é acompanhada por uma terceirização. Também existe desinvestimento quando a empresa faz uma substituição de produto ou serviço. Há nesse caso um desinvestimento com investimento simultâneo em outro negócio. O desinvestimento total é aplicável nos casos em que a empresa, mesmo tendo lucros positivos, mas baixos, nota que eles são decrescentes e sem opção aceitável de reversão das expectativas. Tipicamente são empresas que percebem que o ciclo de vida de seu produto ou do seu negócio está chegando ao fim, e que podem aindarecuperar parte dos investimentos feitos no passado e, eventualmente, obter um lucro. O desinvestimento total de apenas uma unidade estratégica de negócio (UEN) é aplicável até no caso de boas unidades, para concentrar recursos, ou atenção gerencial em outros negócios mais atrativos (ZACCARELLI; FISCHMANN, 1994, p. 16). 82 Unidade III Outras vezes, essa estratégia significa o abandono total do mercado. É o caso da Ford Caminhões, unidade de negócios da Ford no Brasil que encerrou suas operações em 2019. Veja que outras unidades de negócio da Ford Brasil (automóveis, serviços financeiros, jipes Troller etc.) continuaram a operar, cada uma com sua estratégia de nível corporativo. 5.2 Formulação estratégica de nível de negócio Cada unidade de negócio traça suas estratégias alinhadas com a estratégia corporativa. Porter (1986) as define como estratégias competitivas: liderança de custo, diferenciação e foco. 5.2.1 Liderança de custo Como vimos anteriormente, a liderança de custo define que as atividades da organização devem ter como preocupação obter o menor custo unitário de produção do mercado. Quem tem o menor custo obtém vantagens competitivas. A estratégia de liderança no custo total procura atingir o menor custo possível através da utilização de políticas e processos que orientem a companhia para suas atividades-fins. Esse tipo de estratégia exige que a empresa possua grande capacidade instalada para atender elevadas demandas, o que proporcionará economias de escala e reduções de custo em virtude da experiência adquirida. Ainda que os atributos de qualidade e atendimento ao cliente sejam importantes, o foco dessa estratégia é o custo baixo para conquistar os clientes sensíveis ao preço (ALVES; MAÑAS, 2008, p. 24). Ou seja, não é a qualidade superior do produto ou serviço o fator de atração, e sim um preço menor. Claro que a percepção de valor por parte do cliente deve ser positiva, uma vez que produtos percebidos como de qualidade ruim dificilmente terão vendas ao longo do tempo. Assim, o valor percebido deve ser maior que o custo percebido, e esse custo, na estratégia de liderança em custo, deve ser necessariamente menor que o da concorrência. Valor é aquilo que os compradores estão dispostos a pagar e o valor superior provém ou da oferta de preços mais baixos do que os da concorrência por benefícios equivalentes, ou do fornecimento singular que mais do que compensa um preço alto (PORTER, 1986, p. 13). Perseguir essa estratégia significa entender o conjunto de atributos essenciais para a oferta do produto ou serviço, abrindo mão dos atributos acessórios que aumentam o custo. Atributos essenciais são as características de um produto ou serviço que os clientes não abrem mão em hipótese alguma. Um atributo essencial de uma máquina produtiva para uma fábrica é confiabilidade: deve funcionar sem quebras por longos períodos. 83 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Por sua vez, atributos assessórios são as características que os clientes até podem apreciar, mas não fazem questão, ou características que não agregam valor algum. Um atributo assessório de uma máquina produtiva para uma fábrica pode ser a cor externa: não afeta em nada a produtividade, a não ser em casos específicos, em que a estética das máquinas for considerada essencial. Por exemplo, a rede Accor de hotéis tem uma unidade de negócios chamada Ibis Budget, composta de hotéis em localizações estrategicamente próximas a estações de metrô, ônibus e trens, com quartos básicos e limpos, normalmente sem restaurante (esqueça o café da manhã!), sem carregador de malas, com recepção funcionando em horário limitado, sem lavanderia etc. O foco é localização com limpeza e conforto básicos em troca de diárias mais baratas que a concorrência. Não há luxo, somente funcionalidade. Os atributos essenciais que a Accor oferece são localização e limpeza com conforto suficiente. Por considerar atributos acessórios, não oferece recepção 24 horas, serviços de carregador de mala, restaurante e lavanderia. Em troca, oferece preços mais baixos que os concorrentes, perseguindo a liderança em custo. Figura 39 – Hotel Ibis Budget em Hannover, Alemanha Disponível em: https://bit.ly/3yGiNrZ. Acesso em: 16 maio 2022. O ramo do turismo tem, em seus diversos mercados, empresas que perseguem essa estratégia. A Ryanair é uma companhia aérea irlandesa líder de baixo custo na Europa. A operação se restringe a um serviço standard de qualidade reduzida, sendo que qualquer item extra é pago à parte. Despacho de bagagem, bebidas e comidas (tanto na sala de espera quanto a bordo) e acesso a entretenimento (e internet) a bordo são oferecidos mediante pagamento, resultando numa tarifa de transporte atraentemente baixa. O foco é apenas o transporte aéreo. O atributo essencial que é ofertado é o transporte aéreo do ponto A para o ponto B em rotas e horários pré-definidos. 84 Unidade III Figura 40 – Aeronave da Ryanair Disponível em: https://bit.ly/3wjg32k. Acesso em: 16 maio 2022. Motéis como Motel 6 (EUA) são extremamente simples e limpos e atendem basicamente viajantes para pernoite ou estada curta. Motéis nos EUA são hotéis simples de beira de estrada, muitas vezes com as portas dos quartos voltadas diretamente para o estacionamento, e mesmo nesse segmento há maneiras eficientes de reduzir custos. A rede Motel 6 é considerada a mais barata da América, e ainda assim é recomendada em sites de avaliação, pois entrega qualidade básica de serviço. As unidades têm quartos de leiaute padronizado, com a menor área possível para ter razoável conforto, são administradas por franqueados (preferivelmente famílias) que executam todos os serviços, com poucos ou, de preferência, sem nenhum funcionário. Unidades com até dez quartos podem ser operadas por uma família com quatro pessoas, por exemplo, dispensando o custo de funcionários. Localizam-se perto de restaurantes, lanchonetes, cafeterias e lavanderias, uma vez que, por padrão, essas unidades não têm esses serviços. Os poucos serviços extras são todos pagos, como o acesso a internet. É um modelo de negócios focado no menor custo operacional possível, e o franqueador tem processos precisos de aferição da qualidade mínima aceitável. Figura 41 – Quarto do Motel 6, ao lado do Aeroporto de Los Angeles Disponível em: https://bit.ly/3PoK88d. Acesso em: 16 maio 2022. 85 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Observação Uma coisa é perseguir a estratégia de liderança em custo. Outra coisa é conseguir essa condição. Se vários players a perseguirem, somente um terá a vantagem competitiva, conseguindo menor custo que os outros. 5.2.2 Diferenciação Como já estudado, quando discutimos Michael Porter, na diferenciação as vantagens competitivas são oriundas da melhor percepção de valor dos clientes. Assim, o produto ou serviço cujos diferenciais agregarem maior percepção de valor estará num patamar competitivo vantajoso. Nesse caso, a preocupação da empresa está em determinar quais características exclusivas são mais bem percebidas pela clientela. A estratégia de diferenciação procura diferenciar a oferta da empresa dos concorrentes através da criação de um diferencial competitivo, que pode ocorrer sob as formas de marcas e atendimento personalizado, dentre outras dimensões. Essa estratégia não considera grandes volumes e preço baixo. Ao contrário, a estratégia de diferenciação busca atender um número menor de clientes de uma forma mais personalizada, o que inviabiliza a conquista de grande participação de mercado (ALVES; MAÑAS, 2008, p. 25). O que atrai é a característica diferente, que se traduz em percepção positiva. Percepção de qualidade superior, quando efetivamente sustentada pelo projeto do produto, normalmente é reforçada na comunicação para criar o diferencial. Pense em bebidas de qualidade comparadas com bebidas mais baratas. Não é só a qualidade em si que é comparável para criar a percepção de valor superior. Por exemplo, no Brasil a margarinaBecel há anos é considerada “amiga do coração” porque em sua composição há óleos vegetais com ômega 6, que é considerado por cardiologistas bom para o coração, pois contribui para manter um nível de colesterol saudável no sangue. É comum que esses cardiologistas sugiram para pacientes com alto colesterol que passem a consumir Becel. Essa informação sobre a fórmula do produto é insistentemente divulgada na estratégia de comunicação da marca, e anos atrás até mesmo propagandistas farmacêuticos foram usados para divulgar o produto com médicos. Outro exemplo de diferenciação é o da linha Ekos, da Natura, com produtos feitos de castanhas, andiroba, ucuuba, pitanga e outras matérias-primas naturais da Amazônia. As fórmulas de sabonetes, loções, desodorantes, xampus, hidratantes etc. são enriquecidas com manteigas e puros óleos extraídos de bioativos da Amazônia, e as embalagens têm o diferencial de serem feitas com plástico 100% reciclado. Tudo está alinhado com o posicionamento de empresa social e ambientalmente responsável. Em serviços, a diferenciação pode ser oferecida na forma de tempo extra, se esse tempo for percebido como valor. A Movida, empresa brasileira de locação de veículos com mais 110 mil carros na frota e mais 86 Unidade III de 190 pontos de atendimento, oferece a diária de 27 horas na devolução. São três horas de cortesia na diária de devolução, o que é valorizado principalmente para quem aluga carros em aeroportos e têm horários de voos que atrapalham a devolução padrão de veículos. No varejo, um bom exemplo de diferenciação é o Grupo CRM, detentor da fábrica e das lojas Kopenhagen e Brasil Cacau de Chocolates e sócio da joint-venture das lojas Lindt de chocolates no Brasil. A Kopenhagen era uma rede de lojas de padrão superior de chocolate fundada em 1928 e foi vendida para o Grupo CRM em 1996, que reforçou a aura de exclusividade e diferenciação e abriu mais lojas. Na época, era a fábrica de chocolates com lojas mais cara do mercado. Estrategicamente, o grupo criou uma rede de varejo de chocolates mais voltados para a classe média, a Brasil Cacau, em 2009. Assim, a empresa ficou na confortável posição de líder de diferenciação, com a Kopenhagen na faixa de preços top (não há concorrente relevante), e de player atuante da faixa de preços média, com a Brasil Cacau. Em 2014, num movimento surpreendente, se associou à Lindt, fabricante belga de chocolates de alta qualidade muito conhecida pelas classes A e B brasileira, e passou a ter lojas dessa marca no Brasil. Assim, o grupo blindou sua posição: maior rede de chocolates top importados e maior rede de chocolates top nacionais, tendo ainda uma rede atuante na faixa de preços médios. Figura 42 – Lindt: venda de chocolates finos Disponível em: https://bit.ly/3yGJgWo. Acesso em: 16 maio 2022. De qualquer modo, não basta criar um diferencial. É necessário que este seja percebido como algo de valor. 5.2.3 Foco A estratégia de foco, como citado anteriormente, está em escolher um pedaço do mercado e atendê-lo de modo tão superior que a concorrência fica bem para trás. Esse segmento de mercado tem um “dono”, e não vale a pena invadir seus domínios. Claro que para isso toda a operação deve 87 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA realmente entregar a performance superior que os clientes exigem. Note que, apesar de ter uma fórmula equivalente à de diferenciação, nessa estratégia o alvo é restrito a um segmento específico. Muitas vezes, por ser muito pequeno, é até um nicho de mercado. Vale a pena entender os conceitos de segmento e nicho de mercado. Lembra-se das aulas de geometria, quando estudamos que uma reta é a menor distância entre dois pontos? Um segmento de reta é qualquer pedaço dessa reta. Reta (mercado total) Segmento de reta (segmento do mercado) Figura 43 – Comparação de mercado e segmento de mercado Assim, em um dado mercado (de xampu, por exemplo), um segmento seria o mercado de xampu anticaspa, um pedaço específico do mercado com características próprias. Segmentar o mercado significa identificar grupos homogêneos com características semelhantes em determinado mercado heterogêneo. A segmentação pode ser feita segundo diversos critérios estabelecidos pela empresa, que podem ser geográficos (região, estado, cidade, vizinhança etc.), demográficos e socioeconômicos (sexo, idade, estado civil, escolaridade, renda, grupo étnico, profissão etc.), benefícios procurados (procura de benefícios específicos no produto, satisfação de necessidades etc.), comportamentais (comportamento de consumo, grau de uso do produto, lealdade à marca etc.) e psicográficos (valores, atitudes etc.) (LAS CASAS, 2017, p. 380). Quando falamos em nicho de mercado, estamos nos referindo a um pedaço bem mais específico e menor. Numa metáfora, ao entramos numa catedral (o mercado), há pequenas reentrâncias nas paredes com vasos, imagens e estátuas: são os nichos. Os segmentos são grupos maiores de consumidores, e nos anos iniciais da prática mercadológica era a forma mais recomendada para a divisão de mercados. No entanto, com o acirramento da concorrência e a sofisticação dos consumidores, que passaram a exigir produtos mais adaptados, eles começaram a encolher, formando nichos de mercados, isto é, um mercado menor e que ainda não tem as suas necessidades satisfeitas no todo ou em parte (LAS CASAS, 2017, p. 395). Sabendo dessas definições, a estratégia de foco visa dominar um nicho de mercado, conquistando liderança e inibindo outros competidores de atuar dentro dele. 88 Unidade III [...] a estratégia de enfoque procura atender um alvo específico com alta eficiência e, para que este objetivo seja atingido, todos os processos são definidos em conformidade com este tipo de estratégia. Isto ocorre porque a empresa entende que é possível atender com maior precisão as necessidades de um público-alvo mais específico do que procurar atender às necessidades da indústria como um todo (ALVES; MAÑAS, 2008, p. 25). Por exemplo, a British Motor Heritage Limited é uma empresa inglesa que, em 1975, comprou do fabricante inglês de automóveis Mini Morris todas as prensas e ferramentas para fazer carrocerias de dois modelos que iriam sair de linha. A intenção era fabricar peças de reposição de carroceria exatamente iguais às originais. Hoje a companhia tem prensas e ferramentas originais para oito modelos de carros de outras fabricantes inglesas que descontinuaram modelos ou que faliram (como Triumph, MGB, Austin-Healey). Os clientes são entusiastas desses modelos antigos que compram carros originais em mau estado para serem restaurados com peças exatamente iguais às originais, ou proprietários dos modelos que sofreram acidentes e precisam de peças de reposição. O negócio é especializado em peças de carroceria com certificado de originalidade e a concorrência não consegue atingir o mesmo padrão de qualidade. Uma carroceria completa de um Mini custa aproximadamente 12 mil libras esterlinas. A) B) C) Figura 44 – Automóveis ingleses Mini Morris, Triumph TR6 e Austin-Healey Sprite, cujas peças de carroceria são comercializadas pela British Motor Heritage Limited Disponível em: A) https://bit.ly/3wwpxWT; B) https://bit.ly/3Lkm3Mr; C) https://bit.ly/3whIVrz. Acesso em: 16 maio 2022. Saiba mais Conheça a história da British Motor Heritage Limited no site da empresa e veja os modelos de carros ingleses cujas peças de carroceria são comercializadas pela empresa (em inglês). Disponível em: http://www.bmh-ltd.com/index.htm. Acesso em: 16 maio 2022. 89 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA 5.3 Formulação estratégica de nível funcional Cada área funcional traça sua estratégia alinhada com a estratégia de nível de negócio. A estratégia de nível funcional, como o próprio nome sugere, é aplicada em cada área funcional da organização: RH, vendas/marketing, produção/operações. Os responsáveis (normalmente diretoria ou gerência) desenvolvem estratégias restritas a sua área e alinhadas com asestratégias de negócio. Por exemplo, caso a estratégia de negócio de uma empresa seja voltada para liderança de custo, as áreas funcionais deverão formular estratégias voltadas para o atendimento desse quesito. A área funcional de produção poderia focar em processos de alta escala de produção para reduzir custo unitário e assim atender a liderança em custo, nesse exemplo. 5.3.1 Estratégia de RH Devem ser derivadas da estratégia de nível de negócio, integrando a função do RH aos objetivos organizacionais. Chiavenato (2014) afirma que é necessária a tradução entre os objetivos e as características organizacionais em objetivos e estratégias de recursos humanos. O planejamento estratégico de gestão de pessoas é um processo de várias decisões convergentes a respeito dos talentos e das competências necessários para atingir os objetivos organizacionais, em determinado período. Trata-se de definir com antecipação quais são as características da força de trabalho necessárias para realização da ação organizacional futura (CHIAVENATO, 2014, p. 72). Segundo Dalmau e Tosta (2009), os subsistemas do RH devem alinhar a estratégia do RH com a da organização para facilitar a persecução dos objetivos organizacionais graças à sinergia das pessoas envolvidas. Quadro 9 – Integração do RH à estratégia organizacional Estratégia da organização Estratégia do RH Definição da visão e missão do negócio Definição da visão e missão do RH Análise do ambiente Análise do ambiente do RH Análise das capacidades Análise dos recursos humanos Definição de objetivos e políticas Definição dos objetivos/políticas do RH Elementos críticos Elementos críticos do RH Desenvolvimento da estratégia Desenvolvimento da estratégia do RH Adaptado de: Dalmau e Tosta (2009, p. 19). 90 Unidade III Para ocorrer esse alinhamento do RH estratégico, é preciso clareza no que a organização espera dos funcionários. Assim, é necessário: – Planejamento e dimensionamento das pessoas da organização: plano de sucessão, entendimento da performance dos colaboradores, adição ou redução no quadro de funcionários em relação ao mercado como um todo. – Definição das necessidades, das políticas e movimentação de pessoas: determinação de políticas de promoções, abertura de novas unidades, expansão, recrutamento externo ou interno, novos processos ou produtos. – Posicionamento em relação ao mercado de trabalho: entender sua posição no mercado de trabalho como um todo, seus concorrentes, o que eles oferecem como atrativo na contratação, seus pontos fracos e o perfil de profissional que eles procuram (DUTRA, 2002, p. 21). 5.3.2 Estratégia de vendas/marketing As estratégias mercadológicas são derivadas da estratégia de nível de negócio. Há várias abordagens, sendo a mais comum categorizar o planejamento em função dos 4 Ps, ferramentas à disposição das empresas para atingir objetivos mercadológicos: produto, preço, comunicação e distribuição (originalmente Product, Price, Promotion and Place). Também chamados de marketing mix, representam decisões que alguém na empresa deve tomar, independentemente de qual função/cargo desempenhe. O preço, por exemplo, é decidido por alguém, mesmo que fora da área funcional do marketing. O público-alvo das estratégias mercadológicas pode ser pessoa física ou pessoa jurídica. São chamados de mercado B2C (Business to Consumer), cujo alvo são pessoas físicas, e de mercado B2B (Business to Business), cujo alvo são pessoas jurídicas (empresas). No caso de pessoas físicas, o mais comum é definir seu público-alvo em função de diversas variáveis demográficas como sexo, idade e estado civil. Por sua vez, a classe econômica (antigamente chamada de classe social) tem um papel muito importante nessa definição. Mazzon e Kamakura (2016) propõem uma atualização do Critério Brasil de Classificação Econômica, metodologia de estratificação econômica utilizada há décadas no Brasil. De responsabilidade da Abep (Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa), estratifica (divide) em sete classes os domicílios urbanos e estima a renda média em cada um. Classe econômica é uma variável expressa nas classes A1, A2, B1, B2, C1, C2, D/E, sendo a classe A1 a mais alta e a classe D/E a mais baixa em termos de renda. Por meio de um questionário padronizado, é possível determinar a classe econômica do domicílio do respondente. Veja que o Critério Brasil não determina a classe da pessoa, e sim de seu domicílio. 91 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Tabela 1 – Classes econômicas e renda Estrato socioeconômico Renda média domiciliar A 23.345,11 B1 10.386,52 B2 5.363,19 C1 2.965,69 C2 1.691,44 D-E 708,19 Total 2.908,32 Fonte: Abep (2018, p. 3). O Critério Brasil é revisado periodicamente tanto em termos do questionário padronizado quanto em função da renda média estimada. Voltando aos 4 Ps, qualquer organização processa insumos e os transforma em produtos cujas características são definidas internamente (decisões de produto) para serem comunicadas aos clientes (decisões de comunicação) e, posteriormente, esses produtos são oferecidos por meio de canais de distribuição (decisões de distribuição) numa transação de troca de valores (decisões de preço). Decisões de produto são referentes àquilo que a organização oferece aos clientes para atender a suas necessidades/demandas. As estratégias envolvem decidir características (tamanho, peso, embalagem, durabilidade), benefícios (funcionais, de status), serviços adicionados (pós-venda, garantia, instalação, upgrades) e outros. Em marketing, um produto é um conjunto de atributos, tangíveis ou intangíveis, e é resultado de um processo de produção, com o objetivo de atender alguma demanda identificada pela pesquisa de marketing ou outra fonte de informação. Os tipos de produto são: bens físicos, serviços, eventos, pessoas, locais, organizações e ideias. O produto é um dos componentes do composto mercadológico (4 Ps) e é o mais importante, uma vez que todos os demais componentes (preço, praça e promoção) dependem diretamente da análise que o marketing faz sobre o posicionamento do produto. O que produzir e o que vender, o que acrescentar ou mudar, o que evoluir no produto, o que eliminar, bem como a análise do ciclo de vida do produto (CVP) e, ainda, quantos produtos a empresa deve ter em seu portfólio, são algumas das definições que a estratégia de produto deve apresentar. Assim, o resultado é que o consumidor optará pelo produto que considerar e levará em consideração aspectos tangíveis e intangíveis que são considerados pela área de marketing (LAS CASAS, 2017, p. 255). 92 Unidade III Por exemplo, a Apple adota como estratégia de produto oferecer a melhor experiência de usabilidade do mercado com design diferenciado e exclusivo. Não são necessariamente os equipamentos mais potentes em termos de processamento (muito embora existam na oferta de topo de linha), e sim de fazer com que o usuário se sinta gratificado com a facilidade de uso. Não é piada: qualquer pessoa letrada, mesmo sem experiência com dispositivos digitais, consegue aprender sozinha a usar um smartphone ou um computador da Apple. O mesmo não ocorre tão facilmente na concorrência. O projeto de interface está à frente da concorrência, embora o Android e a Microsoft estejam se aproximando. Outro motivo para essa vantagem competitiva é uma decisão de produto tomada em 2001: qualquer software, app, filme, música etc. para ser instalado ou usado num dispositivo Apple deve ser comprado na própria Apple (iTunes e AppStore). A empresa garante o conteúdo dos usuários e controla com mão de ferro as compatibilidades. Como o sistema operacional é da própria Apple, o ambiente de uso é 100% controlado pela empresa, pois não é possível instalar algo “de fora”. É um ecossistema completo que traz controle e garante faturamento. Essa estratégia de produto consegue certificar que a usabilidade segue padrões próprios cuidadosamente desenvolvidos para dar a sensação de gratificaçãoe facilidade. Nenhum concorrente controla o ambiente/ecossistema: é possível para instalar conteúdo sem aprovação da Android em smartphones Samsung, LG, Huawei etc. Decisões de preço envolvem tudo referente a custos de produção/operação, preços intermediários (que são os cobrados pelos canais de distribuição), preço final, descontos, prazos de pagamento, meios de pagamento etc. A estratégia de preços em marketing é uma das quatro variáveis do composto de marketing, ou mix de marketing. É uma parte fundamental de qualquer plano de marketing. O preço de venda de um produto é o valor que cobre os custos diretos na fabricação, bem como despesas variáveis, como impostos, comissões, e as despesas fixas alocadas de forma proporcional, que incluem aluguel, água, luz, telefone, salários, pró-labore e, ainda, a margem que consiga gerar um lucro líquido adequado (LAS CASAS, 2017, p. 604). Estratégias de preço comuns são estabelecer faixas de preço diferentes para produtos da linha. Por exemplo, pense na tabela de preços de uma barbearia: “Cabelo R$ 60, Barba R$ 50, Cabelo + Barba R$ 90”. Você certamente já viu tabelas equivalentes. Qual o motivo para cabelo e barba, juntos, custarem ao cliente R$ 20 a menos se ele fizesse em separado? Vamos comparar as duas operações – só cabelo ou barba versus cabelo e barba: 93 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Senta na cadeira Senta na cadeira Levanta da cadeira Levanta da cadeiraPaga Paga Cobre cliente com avental Cobre cliente com avental Corta cabelo ou faz barba Faz a barba Corta cabelo Tira avental do cliente Tira avental do cliente Separa ferramentas e materiais Separa ferramentas e materiais Cliente ClienteProfissional Profissional Figura 45 – Fluxo de operação de barbearia Há vantagens nesse fluxo operacional do serviço duplo. O tempo gasto com cliente sentando na cadeira e sendo coberto com o avental é otimizado, sendo feito uma só vez para dois serviços. Ocorre o mesmo para as tarefas de tirar avental, levantar da cadeira e pagar. O tempo otimizado reduz o custo unitário e, no caso, o preço final. No exemplo anterior dos produtos Apple, a estratégia de preço adotada no ecossistema iTunes/Appstore traz uma comissão de 15 a 30% cobrada para qualquer coisa que entre nos produtos da companhia. Quer instalar um game? De 15 a 30% do valor pago fica retido pela Apple, idem para filmes, serviços etc. A Apple ganha mesmo que não tenha produzido o produto/serviço: ela age como canal de distribuição cativo, uma vez que só a Apple pode vender conteúdo para seus produtos. Essa estratégia de preço explica os resultados excelentes ao longo dos anos até agora. Decisões de distribuição têm relação com os meios pelos quais os produtos ficam disponíveis para compra. A questão envolve processos logísticos de transporte e armazenagem, colocação no ponto de venda, negociação de espaços etc. Um canal de distribuição é o conjunto de empresas e indivíduos que, quando interligados, garantem que uma mercadoria chegará ao consumidor final. A estratégia de distribuição tem como missão garantir que essa interligação aconteça, de modo que a empresa tenha 94 Unidade III garantia de que seu produto chegue até o consumidor final dentro do prazo correto, com o preço justo e, ainda, com a qualidade desejada. A distribuição tem uma função logística, que diz respeito mais à circulação física do produto, e outra de marketing, que corresponde aos contatos e serviços e estratégias de comercialização que o envolvem. Os canais de distribuição não apenas garantem o fluxo físico das mercadorias, mas todos os envolvidos no processo da distribuição fazem parte do processo. Por uma série de outras atividades, como estimular a compra e levantar informações sobre os consumidores, eles contribuem para a definição de uma melhor estratégia de distribuição (LAS CASAS, 2017, p. 532). As estratégias de distribuição, portanto, visam otimizar o processo de distribuição dos produtos e serviços. Por exemplo, os salgadinhos industrializados Torcida eram distribuídos exclusivamente para atacadistas. A empresa fabricante não atendia nenhum varejo diretamente. A razão estratégica era que a equipe de vendas gerenciava grandes volumes concentrados em algumas centenas de atacados que atendiam todo o Brasil, podendo manter preços baixos. O varejo interessado comprava dos atacadistas em volumes menores. Veja que essa decisão maximizou não só a equipe de vendas, com também toda a logística de distribuição: grandes volumes direcionados para atacadistas em vez de menores volumes direcionados para dezenas de milhares de varejistas. Outro exemplo de estratégia de distribuição é a do Box 30, rede de quiosques de salgadinhos de propriedade do Habib´s, com lojas de tamanho bem pequeno em locais de alta circulação. Os produtos eram feitos na central de produção do grupo, congelados e transportados para os quiosques/lojas. O abastecimento era feito várias vezes por dia em pequenos caminhões refrigerados que ficam rodando o dia inteiro. A estratégia era não ter muito estoque dos congelados nos pontos de venda, pois é metro quadrado de custo alto. Assim, conforme o estoque do quiosque vai caindo ao longo do dia, um sistema automático faz o pedido para o caminhão mais próximo fazer o abastecimento do que falta. Veja a ideia: o custo de ter estoque em caminhões rodando era menor do que o custo de ter espaço físico no quiosque/loja que estavam instaladas em locais de alto movimento e com alto custo de metro quadrado de aluguel. Infelizmente, apesar dessa boa estratégia de distribuição, o Box 30 não deu certo por causa de falta de tráfego nas lojas. O problema foi de produto, e não de distribuição. Decisões de comunicação têm a ver com os meios e mensagens para que algo relevante seja comunicado ao mercado. O conceito de Comunicação Integrada de Marketing (IMC, integrated marketing communications) envolve a análise das funções estratégicas de cada atividade de comunicação, inclusive a sua integração com todos os processos da empresa para que a mensagem seja concisa e uniforme. O desafio é coordenar e alinhar todos os canais de comunicação com o objetivo claro de propagar uma única mensagem que seja coerente com sua missão e seus valores. Outra abordagem ligada ao assunto entende 95 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA que a comunicação tem um papel sinérgico e deve unir a comunicação institucional, a mercadológica e a interna, de modo que as três resultem em uma comunicação eficiente e harmônica. Todas as áreas tradicionais da comunicação, a saber, promoção de vendas, merchandising, relações públicas (RP), publicidade e propaganda, formam o composto de comunicação. Com essa sinergia, é possível que a comunicação organizacional seja eficiente e os resultados sejam alcançados. Por isso, a gestão de comunicação deve antecipar-se aos fatos para garantir o alinhamento com as estratégias da empresa (LAS CASAS, 2017, p. 639). A estratégia de comunicação, portanto, deve se preocupar em mapear diversos públicos para entregar adequadamente mensagens de interesse da empresa. Comentamos anteriormente sobre as sandálias Havaianas, e parte do case descrito envolveu estratégias de comunicação utilizando propaganda e relações públicas. Outro exemplo é a brasileira Natura, um dos três maiores grupos do mundo no segmento de beleza. A Natura atua com mais de duas mil consultoras (vendedoras de porta em porta) e lojas físicas no Brasil, além de Nova York e Paris. Nos últimos anos comprou a rede britânica The Body Shop e a americana Avon. Sua estratégia de comunicação é voltada para o conceito de “Bem Estar Bem”, cuja mensagem é focada nas relações harmoniosas que um indivíduo estabelece consigo mesmo, com os outros e com a natureza. Esse conceito é aplicado não só para os clientes, mas para o público interno também. Seus funcionários contam com saúde física (assistência médica e odontológica, checkup), saúde financeira ( segurode vida, auxílio-creche, empréstimo consignado), saúde emocional (licença-paternidade e maternidade, para acompanhamento de gestante) e saúde social (produtos com desconto, eventos frequentes com colaboradores e familiares, clube, academia). A matéria-prima natural vem em boa parte da Amazônia, com inclusão social e geração de renda para as comunidades ribeirinhas (cerca de 500 famílias) que produzem sementes e raízes de forma sustentável. Ou seja, a estratégia de comunicação está integrada às atividades operacionais do dia a dia. 5.3.3 Estratégia de produção/operação A função de converter insumos (inputs) em produtos (outputs) é de responsabilidade da área funcional produção/operação. Arranjos produtivos, rede de fornecedores (supply chain), escala de produção etc. são as ferramentas que o gestor da área detém para estabelecer suas estratégias. Um bom exemplo é o da fabricante de computadores Dell. Fundada em 1984, conseguiu se consolidar como a maior fabricante de computadores pessoais dos EUA em 1999. A estratégia foi de eliminar o estoque de componentes e de produtos acabados, bem como de eliminar o intermediário representado pelo varejo. Para entender, vamos observar o fluxo normal da indústria na época: 96 Unidade III Compra componentes Fabrica computadores Compra computadores Estoca computadores Vende computadores Compra computadores Estoca componentes Envia componentes comprados Paga Separa componentes comprados Fabricante padrão Varejo ClienteFornecedores Figura 46 – Fluxo normal de fornecimento de computadores Veja que os fabricantes da época compravam componentes (placas, memórias, monitores, teclados), estocavam e aí entravam em linha de produção. Os produtos acabados iam para o estoque aguardando os pedidos do varejo. Contrariando esse fluxo, a Dell eliminou etapas que representavam custo e com isso ganhou uma vantagem competitiva: Configura computador Produz computador Envia componentes comprados Recebe computador Envia computador pronto Paga Separa componentes comprados Paga Compra componentes Cliente FornecedoresDell Figura 47 – Fluxo de fornecimento de computadores Dell 97 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA O esquema funcionava assim: o cliente configurava o produto antes (no início por telefone 0800, depois por internet), pagava, e aí a Dell fabricava e enviava para o comprador. Note as vantagens dessa estratégia de produção: • Não há custo de estoque de componentes, pois só se compra o que já estiver vendido e pago antes. • Não há custo de estoque de produto acabado, pois os produtos já têm destino definido: o cliente que pagou. • Não há custo de margem do varejo, pois não há varejo envolvido. No fluxo normal da indústria, se o cliente pagava U$ 1,000 para o varejo, a indústria receberia algo com R$ 700, pois há margem de lucro do canal de distribuição. No fluxo da Dell, se o cliente pagava U$ 1,000, esse valor era 100% da Dell, pois não havia canal de distribuição intermediando a venda. Esse modelo trouxe para a Dell uma enorme vantagem competitiva, muito difícil de ser imitada pelos players existentes na época (HP, Compaq, IBM), pois todos já tinham processos estabelecidos baseados no fluxo normal, e o custo de mudança foi considerado proibitivo. Assim, o custo unitário de um computador Dell era menor que de todos os concorrentes, e o preço final era equivalente ao da concorrência. Resultado: maiores margens de lucro ao longo dos anos. 5.3.4 Outras estratégias funcionais Cada área funcional, além das citadas, deve contribuir com sua própria estratégia. Por exemplo, organizações com grande quantidade de maquinário de produção/operação precisam ter estratégias para a área funcional de manutenção. A área funcional de finanças precisa adotar estratégias de investimento de recursos líquidos, estratégias de funding e outras. O ponto é que cada área precisa ter estratégias funcionais alinhadas com a estratégia de nível de negócio. 6 CAMPOS E ARMAS DA COMPETIÇÃO: NOVO MODELO DE ESTRATÉGIA Contador (2008) postula que a definição da estratégia competitiva é resultado da escolha dos campos de competição para depois determinar as armas mais adequadas. Essa metáfora, explicitada num modelo replicável, é fortemente lastreada na lógica militar que historicamente formou a base do pensamento estratégico. Seu modelo é prático e replicável por qualquer empresa, seguindo essa lógica: campo da competição é relacionado ao que interessa ao cliente (custo, performance, benefícios etc.), enquanto arma da competição é o conjunto de meios que a organização utiliza para ter vantagem no campo selecionado (preço, qualidade). Pode-se entender como uma metáfora: se o campo de batalha é o mar, as armas deverão envolver embarcações. Claro que a aplicação é bem mais detalhada que isso, como veremos a seguir. 98 Unidade III O autor afirma que, no modelo campos e armas da competição (modelo CAC), uma boa estratégia exige a definição de um ou dois campos principais e um ou dois campos coadjuvantes. É vital que os campos não contradigam um ao outro (não dá para ter preço baixo e altíssima qualidade, por exemplo). A vantagem do CAC é que não há a obrigação de perseguir excelência em muitas áreas, bastando ser realmente boa nas armas que dão vantagem competitiva. Essa característica torna o modelo CAC especialmente atraente para a elaboração de planos de negócio voltados para empreendedorismo. Racionalmente, escolhe-se em qual campo se vai disputar o mercado, bem como com quais armas se buscará a excelência operacional. Isso facilita muito para empreendedores, pois naturalmente as armas serão adequadas ao perfil e expertise de cada um. De qualquer forma, o modelo CAC pode ser utilizado por qualquer tipo de empresa, seja nova, seja antiga. 6.1 Campos de competição O CAC tem dezesseis campos agrupados em cinco macrocampos: Quadro 10 – Campos de competição Macrocampo Campo Competição em preço Em menor preço Em guerra de preço Em promoção Condições de pagamento Competição em produto Em projeto Em qualidade Em variedade de modelos Em novos produtos Competição em prazo Menor prazo de cotação e negociação Menor prazo de entrega Competição em assistência Antes da venda Durante a venda Após a venda Competição em imagem Do produto, marca e empresa Preservacionista Cívica Adaptado de: Contador (2008, p. 16) e Da Costa et al. (2007). No macrocampo de competição em preço, a organização oferece produtos equivalentes a preços inferiores aos dos concorrentes. É uma forma antiga de competição, e parte de três hipóteses: os produtos concorrentes não são diferenciados (ou seja, são razoavelmente parecidos), os clientes são 99 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA sensíveis a preço e os clientes conhecem (ou pensam conhecer) os produtos de todos os ofertantes. Pode-se intuir que é necessário ter menores custos que os concorrentes, o que discutiremos quando tratarmos de armas de competição. Esse macrocampo é derivado da estratégia de liderança em custo. • No campo de competição “em menor preço”, feito de maneira sustentável, a empresa consistentemente persegue a oferta de preço mais baixo que a concorrência direta. Por exemplo, a rede de fast-food árabe Habib´s oferece produtos com custo unitário abaixo de R$ 1,00, bem mais baixos que qualquer concorrente. • Feito de maneira pontual, pois não é sustentável ao longo do tempo, o campo “guerras de preços” só é escolhido quando houver real liderança de custo. Trata-se de manter o preço menor que a concorrência mesmo diante da redução de preço de um deles, ou seja, não permitindo que outro tenha preço menor. Essa dinâmica é danosa se não for possível manter as operações com lucro muito baixo, ou mesmo possível prejuízo. • Também feito de maneira pontual, o campo “promoção” consiste em oferecer vantagens aos clientes por tempo determinado. Pode ocorrer redução de preço (liquidações), sorteio de prêmios etc. • O campo “condições de pagamento”traduz esforços consistentes em facilitar a transação como prazo de pagamento com ou sem juros, desconto por pagamento à vista, meios de pagamento (cartão de crédito, carnê de crediário, aplicativos) e outros. Já é possível perceber a aplicabilidade prática do modelo CAC, não é mesmo? Ao optar competir em preço, já está definido um rol de possibilidades de linhas de ação a serem tomadas. Cada player vai se adequar às suas características e conveniências. No macrocampo de competição em produto, a organização atrai clientes por meio da oferta de produtos diferenciados da concorrência. É possível perceber que esse macrocampo tem relação com a estratégia de diferenciação. • O campo “em projeto” se refere aos diferenciais obtidos no projeto do produto: performance, tamanho, vantagens, benefícios, design, embalagem etc. Assim, uma impressora a laser pode ter como vantagem o menor custo por página impressa, pois o projeto faz com que o consumo de toner seja o mais baixo do mercado. • O campo “em qualidade” tem relação com a qualidade percebida do produto por parte dos clientes. Há diferentes percepções de qualidade de produtos como eletrodomésticos, celulares, calçados. Ser líder em qualidade normalmente significa poder oferecer produtos com preços superiores à concorrência. Pense nos iPhones, Rolls-Royce, cursos em Harvard. • O campo “em variedade de modelos” tem referência à oferta da maior variedade de tipos, cores, sabores, modelos. Por exemplo, as sandálias Havaianas oferecem centenas de modelos e tipos divididos em kids, masculino e feminino. A Nespresso, divisão de máquinas e cafés em cápsulas 100 Unidade III da Nestlé, oferece praticamente uma centena de opções de sabores de cafés divididos em três tamanhos: Ristretto, Expresso e Lungo. Figura 48 – Loja Nespresso no Aeroporto de Amsterdã Disponível em: https://bit.ly/3FPWAJG. Acesso em: 16 maio 2022. • Quando se busca liderança no campo “em novos produtos”, a empresa consistentemente opta por ter alta frequência de lançamento de novos produtos ou modelos. A busca por novidades por parte do público é crescente, então é preciso ter políticas rigorosas de desenvolvimento de produtos. Quantos modelos de smartphone a Samsung lança por ano? Veja que um modelo (base) tem variações de tamanho de tela, de cores externas, de capacidade de memória etc. No macrocampo de competição em prazo, a organização atrai clientes por meio da oferta de produtos com os menores prazos de orçamento, de negociação e de entrega quando comparados com a concorrência. • Competir no campo “menor prazo de cotação e negociação” implica ser a empresa mais rápida para fazer orçamento e para negociar alternativas. Não basta prometer ser a mais rápida: é preciso cumprir. E, no caso de rapidez na cotação, muitas vezes é necessária a visita para avaliação técnica (como um profissional que avalia as condições de um piso para orçar sua troca). Essa etapa de visita técnica também deve ser a mais rápida para quem escolhe esse campo. • O campo “menor prazo de entrega” se traduz em deter operações logísticas mais eficientes que as da concorrência. Prometer o menor prazo para colocar o produto na mão do cliente (e cumprir sistematicamente) pode ser uma boa vantagem competitiva. Para competir no macrocampo de assistência, a empresa precisa prestar auxílio antes da venda, na utilização do produto e após a venda. • No campo “antes da venda”, o diferencial é prestar serviço na forma de informações sobre as características e especificações do produto. Facilitar o acesso a informações, comparações, localização da loja mais próxima e facilidades pode ser o diferencial para geração de negócios. No caso de o cliente ser uma empresa, esse campo implica ter assessores técnicos para auxiliar o cliente nas especificações e adequações do produto. 101 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA • O campo “durante a venda” envolve ser capaz de criar a melhor experiência de compra em comparação com os concorrentes. Atendimento superior, facilidade de acesso (inclusive estacionamento) e treinamento de pessoal de linha de frente fazem parte da melhor entrega de valor ao cliente. Veja como o McDonald´s facilita o processo de compra em alguns locais: é possível comprar pela internet ou por quiosques de autoatendimento e retirar no balcão sem passar na fila. E, se a fila do caixa for grande, um funcionário aborda os clientes e gera um pré-pedido para ser rapidamente finalizado só com pagamento no caixa, aumentando a velocidade de atendimento. Figura 49 – McDonald´s no Aeroporto de Singapura com terminais de autoatendimento Disponível em: https://bit.ly/3Nhbewe. Acesso em: 16 maio 2022. • Na competição no campo “após a venda”, o foco é fazer o cliente se sentir seguro para usar o produto e recomprá-lo no futuro. Assistência técnica perfeita, acesso a informações de uso e consumo, facilidades de troca ou devolução são maneiras importantes para se diferenciar. Quantas vezes as pessoas deixam de comprar algo por não terem confiança na assistência técnica? Na competição no macrocampo em imagem, o diferencial é a busca pela imagem superior em comparação com a concorrência. • No campo “do produto, marca e empresa”, o foco é na reputação do produto, da marca ou da própria organização. Vários estudos mostram que ser visto utilizando determinadas marcas se traduz em prestígio. Ou seja, a boa imagem do produto confere boa imagem ao usuário e o faz se sentir satisfeito. • No campo “preservacionista”, o diferencial é a imagem de empresa ambientalmente responsável. Veja o exemplo da Natura (já citada): o conjunto de ações efetivas de responsabilidade socioambiental ao longo dos anos traz uma imagem excelente que se reflete nos negócios. • Da Costa et al. (2007) ampliou o modelo CAC acrescentando o campo “cívica”, que aborda a liderança de imagem de empresa socialmente responsável. 102 Unidade III Lembrete O modelo CAC proposto por Contador (2008) prevê que a organização defina um ou dois campos de competição principais por unidade de negócio e um ou dois campos coadjuvantes, uma vez que é virtualmente impossível ter excelência em tudo. 6.2 Armas de competição Considerando o conteúdo estudado, a organização já definiu seus campos de competição, agora será preciso definir as armas. Arma de competição é um conjunto de técnicas, ferramentas e métodos que permite a obtenção de determinado resultado que pode ser percebido pelos clientes e ser causa de diferencial para a decisão destes, segundo Da Costa et al. (2007). As armas apresentam melhor desempenho se estiverem alocadas no campo de competição adequado. Na metáfora de guerra, uma metralhadora é uma arma com pouca adequação para um campo de batalha submarino, pois não há oxigênio para provocar o disparo e o meio aquoso reduz rapidamente a velocidade dos projéteis. E, mais uma vez, a organização deve realmente dominar em nível de excelência a quantidade limitada das armas que seleciona, podendo se dar ao luxo de não ter excelência na enorme quantidade de armas pouco prioritárias. Por exemplo, o McDonald´s precisa dominar profundamente as armas estudo de tempos e estudo de movimentos, pois o negócio de fast-food exige que os produtos sejam produzidos no menor tempo possível com racionalidade no processo. Saiba mais O filme indicado a seguir conta a história do McDonald’s e mostra como foi desenvolvida a racionalidade dos processos produtivos, entre outros fatos: FOME de poder. Direção: John Lee Hancock. EUA: The Weinstein Company, 2016. 115 min. Por outro lado, o McDonald´s não precisa ser tão excelente na arma realização de projetos comunitários, pois isso não agrega valor suficiente à operação. Tanto é assim que o calendário promocional do McDonald´s define somente um dia por ano para doar a renda das vendas de um único sanduíche do cardápio (McDia Feliz, com o sanduíche Big Mac) para a assistência social. Note que todos os outros produtos nesse dia continuam gerando receita,mas espertamente a ação social domina a ação. 103 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Figura 50 – McDia Feliz Disponível em: https://bit.ly/3woOqDG. Acesso em: 16 maio 2022. Arma da competição é um meio que a empresa utiliza para alcançar vantagem competitiva em um campo, como marketing, tecnologia da informação, automação do processo produtivo – contam-se às dezenas as armas da competição. Elas não interessam ao comprador: não adianta a ele conhecer o índice de rejeição; importa-lhe, sim, a qualidade do produto (CONTADOR, 2003, p. 23). Meirelles (2000) compilou 54 armas de competição possíveis para organizações fabricantes de produtos tangíveis: Quadro 11 – Armas de competição para produtos tangíveis Número Arma de competição 1 Estudo de movimentos 2 Estudo de tempos 3 Automação industrial 4 Estudos para redução do tempo de espera 5 Melhoramento contínuo do processo 6 Tamanho reduzido do lote de fabricação 7 Tempo reduzido da espera do lote em processos 8 Célula de manufatura 9 Operação Just in Time 10 MRP-I, MRP-II ou Kanban 11 Troca rápida de ferramentas 12 Logística interna ágil 13 Agilidade na reprogramação da produção 14 Máquinas flexíveis 104 Unidade III Número Arma de competição 15 Kaizen 16 CEP (controle estatístico do processo) 17 Matérias-primas/componentes com qualidade 18 Controle da qualidade total 19 Fornecimento no prazo 20 Desenvolvimento de fornecedores 21 Relacionamento cooperativo com fornecedores 22 Multi-habilidade da mão de obra 23 Treinamento da mão de obra fabril 24 Treinamento de pessoal técnico-administrativo 25 Treinamento para desenvolver espírito participativo 26 Distribuição de ganhos de produtividade/lucros 27 Estabilidade no emprego 28 Empowerment 29 Trabalho em equipe/decisões em grupo 30 Pagamento do salário acima do mercado 31 CCQ (círculos do controle da qualidade) 32 Tecnologias adequadas no processo produtivo 33 Tecnologias adequadas nos processos técnico-administrativos 34 Parcerias tecnológicas para processo produtivo 35 Parcerias tecnológicas para produto 36 Tecnologias inovadoras de processo 37 Organograma achatado 38 Despesas administrativas reduzidas 39 Sistemas de informação eficientes 40 SAC (serviço de atendimento ao cliente) 41 Venda direta ao consumidor ou franquia 42 Engenharia de produto atualizada e ágil 43 Engenharia concomitante ou simultânea 44 Agilidade na preparação de modelos, protótipos e ferramentas 45 Projeto de embalagem do produto 46 Utilização de materiais/componentes inovadores 47 Ampla rede de distribuição 48 Equipe de vendas agressiva 49 Pesquisa concorrencial: preço, qualidade e prazo 50 Vendas publicitárias elevadas 51 Telemarketing 52 Controle e combate à poluição ambiental 53 Reciclagem intensiva de resíduos 54 Realização de projetos comunitários Adaptado de: Meireles (2000). 105 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Lembre-se de que o modelo CAC prevê a escolha das armas mais adequadas e que a escolha é limitada a poucas, pois a ideia é dominar o manejo em nível de excelência. Assim, a empresa vai focar em ter excelência em poucas armas, não tendo de se esforçar especificamente nas outras: basta o básico delas. Claro que as armas não se restringem à lista que destacamos. Várias podem ser desdobradas em outras mais precisas em aplicação, e outras naturalmente podem ser criadas. Tanto é assim que Lopes (2002) compilou uma lista de quarenta armas voltadas para o ramo de serviços. Quadro 12 – Armas de competição para serviços Número Arma de competição 1 Arranjo físico 2 Parceria e desenvolvimento de fornecedores 3 Extranet e internet com fornecedores 4 Sistema de entrega de material Just in Time 5 Parceria com transportadoras ou frota própria 6 Tecnologia de processo adequada 7 Manutenção preventiva dos equipamentos 8 Sistema contábil e financeiro 9 SAC e relacionamento com cliente 10 Sistema de suprimentos 11 Extranet (internet com clientes) 12 Rede de computadores 13 Comunicação visual/forma de exposição dos produtos 14 Limpeza 15 Ambiente de trabalho (relações interpessoais) 16 Rapidez na execução do serviço (Just in Time) 17 Comunicação e informação (fone/fax/e-mail) 18 Disponibilidade de transporte público 19 Facilidade de acesso/estacionamento de veículos 20 Horário de atendimento 21 Localização privilegiada (cluster) 22 Gerente empreendedor 23 Normas e procedimentos 24 Treinamento, capacitação e desenvolvimento de pessoal 25 Relatórios gerenciais de eficiência 26 Segurança no trabalho 27 Estudos de tempo/métodos na oficina e no atendimento 28 Kaizen (melhorias contínuas) 29 Administração participativa 30 Cortesia e capacidade de encantar clientes 106 Unidade III Número Arma de competição 31 Pagamento de salários acima da média do mercado 32 Organização da empresa 33 Filantropia empresarial 34 Catálogos informativos 35 Telemarketing 36 Publicidade e propaganda 37 Despesas operacionais 38 Monitoramento da concorrência 39 Programa de fidelização dos clientes 40 Rapidez no atendimento Adaptado de: Lopes (2002). Contador (2003) reforça que é preciso alinhar as armas aos campos escolhidos. Ou seja, definir quais são as armas relevantes que permitem focar adequadamente os objetivos. Para isso, sugere a utilização da matriz de priorização das armas. A matriz criada por Contador e De Sordi (2004) realiza a classificação das armas por métodos estatísticos de atribuição de pesos. O resultado é uma lista de armas relevantes (classe A), armas neutras (classe B) e armas irrelevantes (classe C). Fica claro que armas irrelevantes, nessa avaliação, não contribuem para a vantagem competitiva e não devem ser motivo de preocupação. As armas neutras devem ser utilizadas de maneira protocolar, e as armas relevantes devem ser dominadas e usadas em grau de excelência. Cabe ressaltar que a grande vantagem do CAC é a possibilidade de escolher quais são os focos mais importantes de atuação para obter vantagem competitiva. Exemplo de aplicação O autor do modelo CAC criou uma simulação em computador que pode ser acessada livremente em: www.estrategiacac.com.br • Faça uma simulação da formulação de estratégia de um negócio com o CAC. • Entre no site indicado. • Leia a página inicial. • Clique em “Registrar e preencher” os dados, criando login e senha. • Clique em “Exemplos” e escolher um. • Siga os passos determinados pelo site. 107 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Da Costa et al. (2007) sugerem que para formular a estratégia deve-se seguir esses passos: 1 - Decidir o campo da competição que a empresa pretende conquistar e/ou manter sua vantagem competitiva – é o processo de formulação da estratégia de negócios (que está fora do escopo deste artigo). 2 - Identificar todas as atividades da empresa que constituem o conjunto de armas. 3 - Identificar as armas relevantes e as irrelevantes para o campo da competição escolhido: as relevantes são as dez ou doze primeiras do ranking obtido por meio da matriz de priorização das armas, e as irrelevantes são as últimas desse ranking (isso significa, por exemplo, que as armas relevantes para competir em preço são diferentes das armas para competir em prazo). 4 - Ampliar ao máximo a intensidade das armas relevantes e diminuir a intensidade das armas irrelevantes (para diminuir a intensidade de uma arma, a empresa deve cancelar os investimentos previstos para uma atividade e transferir parte dos recursos aplicados nessa atividade, principalmente pessoal, para as atividades relevantes). Uma das grandes vantagens de adotar o método CAC consiste na possibilidade de focar os recursos somente nas armas relevantes. Os recursos que seriam utilizados nas armas irrelevantes podem ser destinados para as armas relevantes, aumentando seu poder de fogo. Veja que após séculos de utilização de estratégia no campo militar, a metáfora continua sendo aplicada e com método. 108 Unidade III Resumo Após as análises, é preciso escolher um caminho estratégico adequadoAliados. Figura 3 – Máquina de cartões perfurados IBM Disponível em: https://bit.ly/3MepSUN. Acesso em: 16 maio 2022. Na década de 1950, a IBM lançou o primeiro computador de grande porte feito em linha de produção: o IBM 650. Foram cerca de 2 mil unidades em cinco anos. Ainda criou calculadoras eletrônicas programáveis (que pesavam 600 quilos e não tinham teclado, só cartões perfurados) e máquinas para contabilidade. Na década de 1960, a IBM tornou-se a maior fabricante de computadores de grande porte do mundo e também passou a fabricar máquinas de escrever elétricas. 11 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA A) C) B) D) Figura 4 – Máquina contábil IBM 632 (A); calculadora eletrônica programável IBM 604 (B); computador IBM 650 (C); máquina de escrever elétrica IBM Selectric (D) Disponível em: A) https://bit.ly/3liXVPT; B) https://bit.ly/3wPMchd; C) https://bit.ly/3Mmuxnw; D) https://bit.ly/3PnHOhG. Acesso em: 16 maio 2022. Anos depois, a IBM lançou o disquete flexível (originalmente de 8”), as máquinas automáticas de banco e o terminal de caixas de supermercados, destacados a seguir. A) C)B) Figura 5 Disponível em: A) https://bit.ly/3wsSe7e; B) https://bit.ly/3yFEVTn; C) https://bit.ly/3sDqifN. Acesso em: 16 maio 2022. Em 1981, a IBM lançou o primeiro modelo de computador pessoal feito em massa, o PC-XT, e passou a ser uma das maiores empresas do mundo. Fabricou vários modelos, inclusive de computadores portáteis (que pesavam 15 kg), com grande sucesso. 12 Unidade I A) B) Figura 6 – Computador IBM PC-XT e computador portátil IBM 5155 Disponível em: A) https://bit.ly/3sDwSTi; B) https://bit.ly/3N8XXFU. Acesso em: 16 maio 2022. Na década de 1990, a IBM começou a focar também em software; em 1997, um computador IBM venceu o campeão mundial de xadrez. Foi a primeira vez que um programa lógico venceu o raciocínio humano. Nos anos 2000, tudo mudou. Assim, a IBM começou a se desfazer das unidades de negócio de produtos físicos como hard disks (HDs), periféricos, computadores etc. Deixou de fabricar hardware após quase cem anos. O foco concentrou-se em serviços, patentes e desenvolvimento de tecnologia. Hoje, a empresa tem 350 mil funcionários no mundo e fatura mais de US$ 77 bilhões. Perceba a capacidade de adaptação ao ambiente de negócios da IBM. Antes mesmo de existirem estudos acadêmicos sobre estratégia, a IBM se adaptava e se reinventava, e foi objeto de estudo de várias contribuições acadêmicas. Sua reinvenção passou de grande produtora de ativos tangíveis (físicos/palpáveis como computadores) para grande produtora de ativos intangíveis (serviços não físicos como computação em nuvem, desenvolvimento de patentes e softwares). 2 ENTENDENDO O QUE É A ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Você consegue perceber a dinâmica competitiva de organizações no mercado? É fácil intuir a concorrência entre bancos como Bradesco, Itaú, Santander e outros. Mesmo sem trabalhar no ramo bancário, é possível ver o efeito de suas ações mercadológicas e operacionais: ofertas de abertura de conta-corrente, incentivo à compra de produtos financeiros e aplicativos que facilitam a vida do cliente são a parte visível da competição por pessoas físicas ou jurídicas. Recentemente, novos concorrentes menores surgiram, sobretudo, por meio de aplicativos: Nu Bank, PIC PAY, Banco Original etc., além do crescimento de corretoras como XP e Rico. Esses novos concorrentes passaram a tomar parte do mercado. Neste livro-texto, vamos discutir sobre a força competitiva de novos entrantes. Também é fácil perceber as movimentações no mercado automobilístico brasileiro. O VW Gol, que foi líder de mercado durante dezessete anos, perdeu a liderança em 2007 para o Fiat Palio. Atualmente, o Chevrolet Onix é o líder de mercado. 13 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA A) B) C) Figura 7 – VW Gol, Fiat Palio e Chevrolet Onix Disponível em: A) https://bit.ly/3lbRuOB; B) https://bit.ly/3N8Ymboc; C) https://bit.ly/3le25Z9. Acesso em: 16 maio 2022. O mercado automobilístico brasileiro oferece dezenas de modelos, entre nacionais e importados, e diversos produtos foram lançados e descontinuados ao longo do tempo em razão da forte concorrência. Um bom exemplo é o Ford Ecosport, lançado em 2003, que atuou sozinho no segmento utilitário esportivo compacto (SUV) por mais de dez anos. Por uma série de razões, a concorrência não entrou nesse segmento e as margens de lucro do Ecosport garantiram à Ford Brasil uma posição muito confortável no período. Porém, quando houve reação séria e os concorrentes lançaram produtos equivalentes, as vendas caíram e o Ecosport nunca mais voltou à liderança do segmento. Figura 8 – Ford Ecosport na época de liderança de mercado Disponível em: https://bit.ly/3PBGEzt. Acesso em: 16 maio 2022. A competição cria a necessidade de fazer as organizações serem melhores, mais eficientes e mais baratas que os concorrentes: o objetivo é que o cliente não escolha outra marca. É necessário que haja vantagens competitivas para permanecer no mercado – e para crescer, mais ainda. Nos exemplos anteriores, os novos players do mercado financeiro conseguiram apresentar à clientela algumas vantagens competitivas que as fizeram ganhar clientes dos bancos tradicionais. No caso do Ecosport, enquanto estava sozinho no segmento, não havia preocupação. Todavia, quando a concorrência se estabeleceu com vantagens competitivas (design, equipamentos, preço etc.), o Ecosport foi superado. É uma situação confortável não ter concorrentes. Estudaremos neste livro-texto um grande conglomerado industrial brasileiro que só existiu enquanto não tinha concorrência. 14 Unidade I De acordo com Ansoff (1965), a vantagem competitiva procura identificar propriedades específicas e combinações individuais de produtos e mercados que dão à empresa uma forte posição concorrencial. Numa outra definição: Uma vantagem competitiva sustentável ou sustentada ocorre quando uma empresa implementa uma estratégia de criação de valor da qual outras empresas são incapazes de duplicar os benefícios ou os mesmos são custosos de imitar (HITT; IRELAND; HOSKISSON, 1999, p. 5). Ou seja, para competir é necessário adotar estratégias que os concorrentes não tenham condições de copiar. Para adotar essas estratégias, é preciso entender a administração estratégica: Administração estratégica é um processo que consiste no conjunto de decisões e ações que visam proporcionar uma adequação competitivamente superior entre a organização e seu ambiente, de forma a permitir que ela alcance seus objetivos (SOBRAL; PECI, 2013, p. 206). Assim, a administração estratégica é um processo (ciclo entrada/processamento, saída e retroalimentação) em que há decisões empresariais (planejamento) e ações (implantação do planejado) com foco na vantagem competitiva para que objetivos sejam atingidos. 2.1 Evolução histórica da estratégia Na Grécia Antiga, período histórico compreendido entre os séculos XV e III a.C., a palavra strategía significava “a arte de ser general” liderando exércitos e derrotando inimigos. Você provavelmente assistiu a filmes ou leu livros sobre guerras e conflitos armados. Pois é exatamente esse o ponto de partida: a estratégia é necessária quando há competição! Quando exércitos se enfrentam, estão competindo por algo: terreno, recursos, poder etc. Quando empresas se enfrentam no mercado, estão competindo por algo também: o cliente. Figura 9 – Trincheira da Primeira Guerra Disponível em: https://bit.ly/3whbIfV. Acesso em: 16 maio 2022. 15 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Muito embora pareça estranho à primeira vista, sob o ponto de vista da teoria econômica, empresas que atuem de forma idêntica para atingir os mesmos clientes são redundantes: bastaria uma existir. Pense numa pequena cidade no agreste. Poucos habitantes, a maioria espalhada na região rural, baixa renda, uma única escola e um só mercadinho. Sob a ótica de utilidade econômica, não faz sentido abrir outro mercadinho, a não ser que o novoe desdobrado nos três níveis de decisão estratégica: nível corporativo, nível de negócio e nível funcional. A formulação estratégica de nível corporativo é adequada para organizações estruturadas em unidades de negócios e visa obter sinergia entre eles, otimizando as possibilidades de compartilhar atividades. São três tipos: crescimento, estabilidade ou retração. A estratégia de crescimento é adotada quando a unidade de negócio tem acesso a recursos suficientes para aumentar o volume de operações com benefícios superiores aos custos envolvidos. Pode ser do tipo interno, com aumento da produtividade comercial e produtiva; integração horizontal, através da aquisição, fusão ou criação de empresas que atuam no mesmo mercado; diversificação horizontal relacionada, através da aquisição, fusão ou criação de empresas que atuam em mercado complementar para aumentar a sinergia das operações; diversificação horizontal não relacionada, com aquisição, fusão ou criação de empresas que atuam em outro mercado sem qualquer relação com os mercados atendidos; integração vertical, via aquisição, fusão ou criação de empresas que atuam ao longo da cadeia de suprimento/distribuição; fusões, que consistem na união de duas ou mais empresas em uma nova ganhando competitividade por sinergia; e alianças estratégicas, parcerias em que duas ou mais empresas cooperam entre si buscando vantagens competitivas. A estratégia de estabilidade é adotada quando os custos do crescimento da unidade de negócio forem maiores que os benefícios possíveis. Ou seja, é melhor se manter como está sem grandes investimentos. A estratégia de retração é adotada quando a unidade de negócio tem desempenho abaixo do projetado e os custos de operação são superiores aos benefícios projetados. Assim, o melhor é reduzir o tamanho da operação. Na formulação estratégica de nível de negócio, cada unidade de negócio traça suas estratégias alinhadas com a estratégia corporativa. São chamadas de estratégias competitivas: liderança de custo, diferenciação e foco. A estratégia da liderança de custo define que as atividades da organização devem ter como preocupação obter o menor custo unitário de produção do mercado. Quem tem o menor custo obtém vantagens competitivas, 109 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA pois pode repassar a vantagem reduzindo o preço para atrair clientes ou pode manter o preço e ter maior margem de lucro comparado com os competidores. Na estratégia de diferenciação as vantagens competitivas são oriundas da melhor percepção de valor dos clientes. Assim, o produto ou serviço cujos diferenciais agregarem maior percepção de valor estará num patamar competitivo vantajoso. Na estratégia de foco o alvo é restrito a um segmento específico, em que se busca obter vantagem competitiva de maneira equivalente à diferenciação. A ideia é escolher um segmento (ou nicho, dependendo do tamanho) e focar esforços para dominar de maneira incontestável, desencorajando a concorrência. Descendo um nível na hierarquia, a estratégia de nível funcional é formulada por cada área (RH, marketing, produção etc.) procurando alinhamento com a estratégia de nível de negócio. Um novo modelo replicável para definir estratégias é denominado campos e armas da competição (CAC). Nesse modelo, campo da competição é relacionado ao que interessa ao cliente (custo, performance, benefícios), enquanto arma da competição é o conjunto de meios que a organização utiliza para ter vantagem no campo selecionado (preço, qualidade). 110 Unidade III Exercícios Questão 1. Considere o anúncio, lançado em 2012, em comemoração aos 90 anos da Semana de Arte Moderna, e analise as afirmativas. Na ocasião, a marca lançou também sandálias com temas de obras modernistas, como se vê na figura reproduzida na sequência. Figura 51 Disponível em: https://bit.ly/3ldAiYU. Acesso em: 26 fev. 2018. Figura 52 – Sandálias com temas dos pintores modernistas Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral Disponível em: https://bit.ly/3legg0f. Acesso em: 27 fev. 2018. 111 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA I – A criação das sandálias com temas dos pintores modernistas contraria o novo posicionamento adotado pela marca, pois não faz parte do universo cultural do público consumidor. II – A estratégia de dialogar com a arte brasileira do início do século XX atribui ao produto tons de modernidade e brasilidade. III – O caso das sandálias Havaianas é um exemplo de reposicionamento de marca no mercado. É correto o que se afirma em: A) I, II e III. B) II e III, apenas. C) I e III, apenas. D) III, apenas. E) II, apenas. Resposta correta: alternativa B. Análise da questão As sandálias Havaianas tiveram seu posicionamento alterado a partir da década de 1990, passando a atingir também as classes A e B. Questão 2. Acerca do modelo CAC (campos e armas de competição), avalie as afirmativas. I – As armas de competição são ferramentas que uma empresa pode utilizar para obter vantagem no seu campo. II – Segundo o modelo CAC, que parte de uma analogia com o universo militar, uma boa estratégia envolve a seleção de campos principais e de campos coadjuvantes. III – O modelo CAC considera campos agrupados em macrocampos como preço, produto, prazo, assistência e imagem. É correto o que se afirma em: 112 Unidade III A) I, II e III. B) I e II, apenas. C) II e III, apenas. D) I e III, apenas. E) I, apenas. Resposta correta: alternativa A. Análise da questão O modelo CAC visa à obtenção de vantagens competitivas. Parte de uma analogia com a guerra para propor que a empresa deve, primeiro, escolher os campos, principais e coadjuvantes, em que pode se destacar para depois escolher as armas. 113 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Unidade IV 7 CASO MASTERCARD Segundo Mano (2015), Ajay Banga é o CEO (Chief Executive Officer) mundial da Mastercard desde 2010. Nascido na Índia e naturalizado norte-americano, Banga está transformando a companhia numa empresa de tecnologia, abandonando aos poucos o modelo de negócios adotado há mais de cinquenta anos. Você talvez tenha um cartão de crédito. A ideia por trás desse produto financeiro é simples: o cliente compra em um estabelecimento credenciado para pagar em até trinta dias sem juros numa fatura que totaliza as compras do mês. Se o cliente atrasar o pagamento, ou se pagar um valor menor que o total faturado, fica devendo juros e taxas para pagar na próxima fatura. Um banco ou agente financeiro emite o cartão para o cliente após analisar o cadastro realizado. A análise de risco de crédito determina o limite mensal máximo que o cliente pode atingir em compras. Os estabelecimentos comerciais, para aceitar o cartão, devem ter previamente um contrato com uma empresa denominada tecnicamente acquirer (ou bandeira), que captura o valor da transação nas maquininhas (ou terminais de transação), as quais transmitem eletronicamente os dados para o emissor (o banco ou agente financeiro), que por sua vez verifica eletronicamente se está tudo em conformidade e libera a compra. Por meio das maquininhas ou de outro dispositivo habilitado como smartphones, tudo ocorre em segundos. As bandeiras mais conhecidas são Mastercard, Visa, American Express e Elo, mas há outras bandeiras regionais em todo o mundo. Seu papel é credenciar estabelecimentos comerciais para terem acesso às maquininhas e com isso viabilizar transações de compra. As lojas pagam uma comissão percentual sobre cada transação, além de outras possíveis taxas menos frequentes. Esse valor é o que remunera a rede acquirer. Assim, uma compra de R$ 100 terá uma taxa entre 2% e 7%, dependendo da negociação com a bandeira, e a loja receberá o valor líquido (menos a taxa) em um prazo que varia de 2 a 30 dias. No pior dos casos, a loja vende um produto de R$ 100 e recebe R$ 92 em trinta dias. E ainda assim pode ser um bom negócio para o varejo, tanto é que o ramo de compras por cartão cresce no mundo inteiro. Um detalhe importante é que, mesmo que o cliente nãopague a fatura, o estabelecimento comercial recebe os valores pactuados. O motivo é simples: quem assume o risco de crédito é o emissor. Tanto a bandeira quanto o lojista vão receber sua parte sem risco de inadimplência. Observe a atratividade no processo para um estabelecimento comercial: pode-se vender a crédito (inclusive parcelado, dependendo da bandeira e do contrato) sem assumir risco de inadimplência. Para isso, basta aceitar pagar de 2% a 7% da transação e assumir algumas taxas. 114 Unidade IV A loja ganha dinheiro ampliando suas vendas através da facilidade do cartão. O emissor ganha dinheiro quando o cliente atrasa o pagamento, ou quando paga um valor menor que o total da fatura (os juros de cartão de crédito são extremamente elevados). A bandeira ganha dinheiro cobrando as taxas de transação. Não é ao acaso que o modelo é bem-sucedido no mundo inteiro. Claro que esse modelo de negócio é mais complexo que a descrição resumida, mas serve para entender o papel das bandeiras Mastercard, Visa e Elo. Trata-se de redes que têm o papel de capturar transações no varejo, que pode ser uma barraca de cachorro-quente, um hotel cinco estrelas, uma lanchonete, McDonald’s etc. e são remuneradas por isso. A tecnologia vem mudando o panorama das bandeiras. O plástico do cartão sendo substituído por cartões virtuais, pagamento entre smartphones e transferência de valores eletrônicos em qualquer dispositivo naturalmente afetam o negócio. Além disso, a tecnologia cada vez mais barata incentiva a entrada de novos players no negócio, aumentando a concorrência. Se pensarmos nas forças competitivas de Porter, a força da ameaça de novos entrantes está afetando a competitividade dos players atuais de forma acentuada. O faturamento mundial da Mastercard em 2019 foi da ordem de US$ 16,9 bilhões, e o CEO Ajay Banga pretende mudar a operação e a estratégia. Mano (2015) aponta que uma das ações estratégicas foi criar o Mastercard Labs, um laboratório de inovação localizado em Dublin, Irlanda, com ramificações nos EUA e Singapura, que tem a missão de desenvolver novos meios eletrônicos de pagamento e novas aplicações que tragam inovação de processos. Por exemplo, foi feita uma parceria com a Whirlpool Corporation, maior fabricante de eletrodomésticos do mundo (faturamento de US$ 18 bilhões) e que no Brasil é dona da Brastemp e da Consul. Essa parceria é voltada para as lavanderias automáticas presentes em vários lugares do mundo (que no Brasil nunca deram certo), em que há uma série de máquinas de lavar/secar alinhadas numa loja e o cliente coloca sua roupa, pagando com cartão de crédito (ou dinheiro, dependendo do equipamento) na própria máquina e aguarda o ciclo completar para retirar a roupa da máquina. Você talvez já tenha visto isso em filmes. A parceria foi o desenvolvimento de um app para smartphone que reserva uma máquina a distância, evitando filas e permitindo o pagamento com cartões Mastercard. Figura 53 – Lavanderia automática em Paris Disponível em: https://bit.ly/3yI4t2m. Acesso em: 16 maio 2022. 115 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Outra ação é o investimento em startups promissoras em qualquer lugar do mundo, uma vez que trazem ideias inovadoras. Muitas delas usam a metodologia do Design Thinking em seus projetos. A visão estratégica da Mastercard para o longo prazo é a de substituir em maior escala o uso de papel-moeda, que é considerado por Banga o maior concorrente da companhia. Saiba mais Conheça mais sobre as soluções Mastercard para transações em: Disponível em: https://bit.ly/39TihN2. Acesso em: 16 maio 2022. 7.1 Implementação das estratégias Para reduzir o risco de insucesso na implementação, Porter (1999) sugeriu a aplicação de um conjunto de três testes para avaliar outros aspectos da estratégia. Quadro 13 – Testes da estratégia corporativa Testes Definição/Execução Teste da atratividade Procura avaliar qual o grau de atratividade do setor. Os setores escolhidos devem ser estruturalmente atrativos ou capazes de se tornar atrativos Teste do custo de entrada Procura determinar qual o custo de entrada no setor e qual a perspectiva de retorno pelos lucros futuros Teste da melhoria das condições Procura avaliar se a organização melhorará suas condições competitivas como um todo. A unidade de negócio deve ganhar vantagem competitiva a partir dos seus elos com a corporação ou vice-versa Fonte: Porter (1999, p. 27). A ideia de Porter é: se a estratégia elaborada for bem avaliada nos três testes, poderá ser executada. Segundo Sobral e Peci (2013), implementar a estratégia é uma das etapas mais complicadas do processo. Você certamente pode intuir que colocar em prática tudo o que foi planejado é uma tarefa difícil. Vamos dar um exemplo. No caso das Havaianas apresentado anteriormente, um aspecto operacional não foi discutido: a mudança da estratégia de produção em função da mudança da estratégia de nível de negócio. 116 Unidade IV Lembrete Em 1994, a Alpargatas adotou a estratégia de diferenciação de Porter (1986). Continuou vendendo dezenas de milhões de pares do produto básico e popular, mas lançou um novo produto, com nova embalagem, distribuição e comunicação diferentes e significativa alteração no preço – para maior. Coloque-se no lugar dos gerentes e supervisores de produção da Alpargatas naquela época. Durante anos, você se acostumou a produzir milhões de pares das Havaianas tradicional em grande escala. Eram dias a fio produzindo sandália branca tamanho 39, parava, mudava os moldes, passava a produzir por dias o tamanho 38 e assim por diante. O processo de estocagem era simples, pois os lotes de produção eram muito grandes e do mesmo modelo/tamanho. Em 1994, vem a ordem da diretoria: parte da capacidade produtiva vai perder escala, pois um novo modelo com solado diferente e várias cores vai entrar em linha, e serão alguns milhares de cada cor por tamanho em vez de centenas de milhares. E ainda será necessário embalar cada par em uma caixa cartonada colorida fazendo a marcação da cor e do tamanho. Ou seja, acabou a prática costumeira e agora é preciso ter outra estratégia de produção. O problema é que o ser humano, por padrão, é avesso a mudanças. A implementação dessa nova estratégia certamente deu trabalho na Alpargatas, pois é difícil mudar hábitos e práticas em andamento. E nem foi uma mudança tão grande assim, pois a maior parte do processo produtivo continuou voltada para os milhões das Havaianas tradicionais. Agora assuma o papel de funcionário da IBM, de qualquer setor, na época da mudança de negócio de venda de hardware para negócio de venda de serviços. Lembrete Nos anos 2000 a IBM deixou de fabricar hardware após quase cem anos e começou a focar sua operação em serviços. Por mais que tenha sido escalonada, a mudança foi profunda e alterou todos os parâmetros de trabalho. Setores inteiros foram eliminados, resultando em demissão ou realocação de pessoas. Áreas produtivas foram desativadas ou até mesmo vendidas (lembre-se que a chinesa Lenovo comprou a unidade de negócios de microcomputadores e depois a de servidores). Profissionais cuja expertise era valorizada perderam relevância. É natural que a implementação da estratégia tenha encontrado resistência de uma grande quantidade de funcionários acostumada com o jeito anterior de trabalhar. Esse é um dos motivos pelos quais excelentes estratégias públicas, criadas por governos de qualquer esfera, não dão certo pelos olhos da população. Os objetivos podem ser nobres, a estratégia e o planejamento podem ser excelentes, mas para executar mudanças o funcionalismo pode apresentar empecilhos. Não se trata de crítica aos funcionários públicos: isso ocorre também em organizações privadas, com a diferença de que nestas há mais liberdade para gerenciar funcionários. 117 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Para obter sucesso na implementação, é preciso que haja alinhamento entre os processos da organização e a estratégia. A quantidadede pessoas afetadas, para o bem e para o mal, pode ser muito representativa. E a qualificação pessoal e profissional dessas pessoas afeta o ritmo e a eficiência da implementação. Melo (2013) cita um estudo da Project Management Institute (PMI) com a publicação inglesa The Economist feito em 2013, em que 587 executivos globais seniores foram entrevistados para identificar os problemas oriundos das estratégias organizacionais. Foi utilizada a técnica de entrevista em profundidade sem revelar os nomes dos respondentes, garantindo confidencialidade. Destes, 88% reconheceram a importância dos resultados do plano estratégico, mas 44% admitiram não terem conseguido atingir os objetivos. Quanto à implementação, 61% destacaram que há problemas práticos para realizá-la. As causas, segundo o estudo, são claras. • 28% dos executivos sentiram falta de engajamento da alta cúpula no processo de implementação. Ou seja, é preciso que o topo organizacional seja mais atuante na alocação de recursos e na definição de prioridades das ações planejadas. • Somente 41% afirmaram ter pessoal qualificado para implementar as ações previstas. Assim, não deve haver só treinamento, mas processos de gestão de talentos na empresa. • 45% citaram a falta de maturidade para lidar com mudanças (o fator humano avesso a mudanças). • 29% apontaram a falta de recursos adequados. Assim, as teorias administrativas consolidadas podem contribuir para uma melhor experiência de implementação. Tópicos como estrutura organizacional, liderança, controle e outros devem dar suporte à estratégia escolhida. Noble (1999) pontua que enquanto a formulação da estratégia é feita nos mais altos níveis hierárquicos, a implementação acaba sendo responsabilidade direta dos níveis intermediários de gerências, e estes dependem da estrutura que a organização dispõe. Aqui cabe uma discussão interessante. A estrutura da organização define a estratégia ou a estratégia escolhida define a estrutura necessária? Muitos tendem a pensar que é necessário escolher uma estratégia adequada à estrutura da empresa. Contudo, isso é um fator limitante. Chandler (1962) afirmou que a estrutura seguiu a estratégia, por ter observado que o crescimento e a mudança de estratégia alteravam a estrutura das empresas. Chandler, ao perceber que em resposta a mudanças na tecnologia, renda, população [...], as empresas adotam diferentes padrões de crescimento (estratégias), expansão de volume, dispersão geográfica, integração vertical e diversificação, seguidos de alterações na maneira de organizarem-se (estrutura) – posto administrativo, escritório central, estrutura funcional e estrutura multidivisional – como meio de enfrentar os novos problemas 118 Unidade IV administrativos, formula a seguinte hipótese: a estrutura organizacional segue a estratégia de crescimento da firma, sendo os tipos mais complexos de estrutura resultado da concatenação de diversas estratégias básicas (SILVA, 1985, p. 36). Por exemplo, citamos anteriormente o caso da rede de joalherias Vivara, que criou uma nova unidade de negócios voltada para móveis e decorações, as lojas Etna. Se fossem depender da estrutura existente das joalherias, os controladores da Vivara jamais iriam se aventurar num ramo novo. Chandler (1962) analisou a evolução histórica das empresas americanas e verificou que no início as grandes corporações eram basicamente uma operação de fabricar e vender algo em um único lugar. Conforme as condições do ambiente se alteravam, ocorriam mudanças na estrutura. Alterações no ambiente Desempenho organizacional melhora Nova estratégia é reformulada Nova estrutura organizacional é estabelecida Novos problemas administrativos aparecem Desempenho organizacional diminui Figura 54 – Relacionamento estratégia-estrutura de Chandler Fonte: Almeida, Machado Neto e Giraldi (2006, p. 21). Ao crescerem, ocorreu uma expansão do volume de produção e vendas sem sair do ramo de negócio, alterando a estruturação de funções administrativas para disciplinar e controlar as operações de modo mais eficiente. Para crescer mais, essas organizações se expandem geograficamente (pela teoria de Ansoff, é estratégia de crescimento por desenvolvimento de mercado) no mesmo ramo de negócio e criam filiais, tanto produtivas quanto comerciais, o que as leva a alterar a estrutura com administração centralizada. Chandler (1962) ainda observou que, para essas corporações analisadas, o próximo passo para crescer foi a integração vertical, no mesmo ramo de negócio, criando (ou comprando) estruturas de fornecimento e operações de distribuição. Em termos de estrutura corporativa, essa mudança traz a necessidade de gerenciar diversas operações interdependentes através da organização por funções. O próximo caminho para crescer, na observação de Chandler (1962), foi diversificar e investir em novos ramos de negócio. Os motivos apontados são: declínio de negócios no ramo inicial, atratividade no novo ramo, oportunidades não prevista etc. Assim, os recursos disponíveis são alocados em novos ramos de atividade e com isso surgem novos problemas administrativos para serem resolvidos através da alteração da estrutura corporativa. Foi observado que era frequente a adoção de controle centralizado e operações descentralizadas, com executivos do escritório central definindo estratégias e acompanhando os resultados sem se envolver com aspectos operacionais. Veja que as observações de Ansoff fazem sentido nesse acompanhamento histórico, bem como as teorias de Wright, Kroll e Parnell (2000), discutidas anteriormente. 119 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA De qualquer modo, Chandler (1962) deixou claro que estratégia e estrutura organizacional devem estar alinhadas, e a estratégia é que vai definir a estrutura necessária. A estrutura organizacional determina características como cadeia de comando, amplitude de controle, cargos e departamentos, centralização de poder etc., as quais precisam ser adequadas à estratégia escolhida. A cadeia de comando tem relação com a distribuição de autoridade, indicando quem está subordinado a quem. Num exemplo padrão, uma cadeia de comando teria o presidente comandando diretores, que comandam gerentes e assim por diante. Um organograma tradicionalmente mostra a linha de comando. Presidência Diretor Gente e Gestão Analista Gestão Diretor Projetos Analista Comercial Líder Comercial Gerente Projetos Diretor Adm/Fin Analista Adm/Fin Diretor Marketing Analista Marketing Figura 55 – Exemplo de organograma Disponível em: https://bit.ly/3NfUHbM. Acesso em: 16 maio 2022. Amplitude de controle também é relacionada com a distribuição de autoridade e responsabilidade e estipula o número de subordinados que um chefe pode assumir com eficiência na supervisão. Com muitos subordinados, a amplitude de controle é grande, e quando há poucos subordinados a amplitude é pequena. Uma central de atendimento, hipoteticamente, poderia ter vinte atendentes por supervisor e quatro supervisores por gerente. Essa definição é parte da estrutura organizacional. Cargos e departamentos são parte da estrutura que realizam funções organizacionais. Os funcionários assumem esses cargos e suas respectivas tarefas. Um departamento de marketing, por exemplo, tem os cargos de gerente de marketing, gerente de produtos, assistente de marketing e assim por diante. Observação Cargo e função não são a mesma coisa. Mesmo sem ter um cargo de gerente de marketing, uma empresa tem funções de marketing que devem ser executadas por alguém. Por exemplo, alguém define as características dos produtos que serão produzidos, ou os veículos que receberão verba publicitária na forma de anúncios. 120 Unidade IV Centralização de poder é o quanto um cargo concentra o poder para tomar decisões. Quando há delegação de poder para subordinados, ocorre a descentralização do poder. Nesse instante, deve-se discutir o papel crucial da função de direção: liderare motivar os integrantes da organização. A direção é a função da administração relacionada com todas as atividades organizacionais, que envolvem a interação entre gestores e trabalhadores. Dirigir significa orientar os esforços individuais para um propósito comum. Trata-se de uma tarefa desafiadora, uma vez que busca a harmonia em uma relação intrinsecamente conflituosa: a compatibilidade entre os objetivos e interesses individuais com os objetivos e interesses da organização (SOBRAL; PECI, 2013, p. 304). Não confunda a função organizacional de direção com o nível hierárquico de diretoria. A função de direção é feita por qualquer gestor, de qualquer nível hierárquico. Supervisores de operação também lideram e motivam seus subordinados, por exemplo. Para transformar a estratégia em realidade, é preciso entender os estilos de liderança dos gestores, bem como os métodos utilizados para motivar os trabalhadores. Em última análise, busca-se o comprometimento dos funcionários com visão e estratégia. O terreno fértil para implementar a estratégia é a crença nos objetivos e valores associados. Isso traz como benefício uma onda de motivação. Bourgeois e Brodwin (1984) contribuem para a discussão através da classificação da implementação da estratégia em cinco modelos ordenados em função da profundidade de pensamento e complexidade de realização. • Modelo de comando: no mais comum dos modelos de implementação, os responsáveis pela decisão estratégica apresentam o resultado aos executivos de topo e, após aprovação, fazem os apontamentos necessários para colocar as coisas em prática e acompanham o andamento e os resultados. A equipe responsável não participa da implementação, somente faz as indicações necessárias. Muitas vezes, essas equipes que elaboram na estratégia são externas, na forma de consultoria. Outras vezes, trata-se simplesmente de uma decisão autocrática de como será a estratégia. Esse modelo discrimina pensadores e executantes. Ou seja, quem cria a estratégia não tem responsabilidade por executá-la, e quem a executa não participa da criação. • Modelo de mudança: a partir do desenho do modelo de comando (decisão estabelecida), a complexidade aumenta. A equipe responsável pela estratégia não só decide e obtém aprovação, como também planeja alterações estruturais que aumentem a chance de sucesso da implementação. Note que o ponto aqui é melhorar a implementação. Fazem parte dessas alterações mudanças de pessoal (realocação, promoção, demissão), mudança de processos, melhoria de sistemas de informação etc. É comum que esse modelo esteja amarrado com processos de remuneração 121 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA variável ou taxas de sucesso. Por ser mais complexo e envolver alterações da estrutura, tem um tempo de maturação maior. Esse modelo também discrimina pensadores e executantes. • Modelo colaborativo: como o próprio nome indica, esse modelo prevê um esquema participativo envolvendo os níveis de gestão (gerenciais) na tomada de decisão da estratégia e dos passos da implementação. A complexidade e profundidade aumentam bastante, pois é preciso ponderar diversos estilos e pontos de vista. Técnicas comuns como dinâmicas de grupo, brainstorming e discussões de grupo são utilizadas. Esse modelo é mais avançado, certamente, por incorporar as percepções e visões dos gestores, mas deve ser cuidadosamente conduzido para evitar influências políticas dos grupos de poder que normalmente surgem nas empresas. Também discrimina pensadores e executantes, muito embora a quantidade de pensadores aumente. • Modelo cultural: de alta complexidade, visa ter unicidade e identidade comum à estratégia. A premissa é criar cultura corporativa de decisões compartilhadas por todos os integrantes, não apenas o corpo gestor. O alto executivo na pirâmide hierárquica busca comprometer todos os funcionários e gestores com os objetivos e estratégias. Esse modelo não discrimina pensadores de executantes, uma vez que todos participam. • Modelo crescente: é o mais complexo, pois a elaboração e a implantação da estratégia vêm de baixo para cima. Ou seja, o incentivo à inovação é total, pois parte da premissa de que todos os funcionários e gestores podem contribuir no caminho futuro. A responsabilidade do topo da pirâmide é, além de assegurar o fluxo de informações constante, selecionar as melhores alternativas de estratégia que surgirem. Esse modelo também não discrimina pensadores de executantes. Observe que há várias alternativas para o desenvolvimento e a implementação da administração estratégica. Cada empresa, por força das circunstâncias, faz do seu jeito. O primeiro modelo, o de comando, é bastante comum por confiar na expertise de consultorias, mas é custoso. O último modelo, por outro lado, só pode ser feito se a empresa já tiver consolidada a ideia de participação conjunta nas decisões. Há várias ferramentas metodológicas que podem facilitar boa parte do processo de implementação, como o Balanced Scorecard e o Design Thinking. 7.2 Balanced Scorecard (BSC) Na década de 1980, várias organizações de grande porte foram prejudicadas pelo foco dos gestores no retorno em curto prazo. Isso ocorria por causa dos métodos adotados de remuneração variável. Os executivos poderiam receber bônus milionários se contentassem os acionistas através de grandes margens de lucro. Pagar mais aos executivos que trazem mais lucros não é a grande questão. O problema é que essa situação amarrava as decisões dos executivos no curto prazo, e não no longo prazo. Imagine uma grande corporação reduzindo brutalmente os custos através da oferta de produtos com menos qualidade, da troca de funcionários caros e experientes por novos funcionários baratos e inexperientes, da diminuição dos investimentos em novos produtos (pois só dariam lucro após anos) etc. 122 Unidade IV Na prática, essas organizações não estavam seguindo estratégias de longo prazo: estavam confinadas a estratégias de curto prazo que beneficiavam os executivos, e não os acionistas. Notícias da época mostram altos executivos recebendo milhões de dólares por terem, na verdade, travado as possibilidades futuras das empresas que dirigiam. É uma discussão clássica: autointeresse dos gestores versus interesses dos acionistas. Saiba mais O artigo indicado a seguir discute a estrutura de propriedade versus conflitos de interesse na alta gestão das empresas: SAITO, R.; SILVEIRA, A. M. Governança corporativa: custos de agência e estrutura de propriedade. Revista de Administração de Empresas – RAE, São Paulo, v. 48, n. 2, p. 79-86, abr./jun. 2008. Disponível em: https://bit.ly/3lhkfcI. Acesso em: 16 maio 2022. Em 1992, os teóricos acadêmicos Robert Kaplan e David Norton propuseram uma abordagem inovadora para reduzir os danos causados por executivos focados no autointeresse: o BSC. O ponto de partida para o desenvolvimento dessa ferramenta foi a conclusão de um estudo que indicava a inadequação dos métodos de avaliação do desempenho empresarial, pois eram baseados somente em indicadores contábeis/financeiros. Como o desempenho era medido apenas em indicadores financeiros, os executivos focavam no resultado de curto prazo para embolsar grandes bônus ao final do exercício. Saiba mais Como um exemplo brasileiro de ações de executivos focados no curto prazo embolsando bônus milionários, conheça o caso do rombo no Banco Nacional na década de 1990 em artigo publicado em jornal: PINTO, C. O rombo do Nacional. Folha de S. Paulo, 4 fev. 1996. Disponível em: https://bit.ly/37OEXxk. Acesso em: 16 maio 2022. Claro que após alguns anos o valor de mercado dessas organizações cairia, pois não havia estratégia de longo prazo. Ou, caso houvesse, a implantação era delimitada aos resultados de curto prazo que interessavam aos executivos. Muitos desses executivos acabavam sendo demitidos após alguns anos, com gordas compensações financeiras, e se recolocavam em outras empresas porque “traziam resultados paraos acionistas”, mantendo o modus operandi. O BSC veio como uma resposta a esse modelo, procurando privilegiar os interesses dos acionistas e incentivar o pensamento estratégico de longo prazo dos executivos. 123 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA O BSC, segundo Kaplan e Norton (1997), tem como características: • Focaliza a gestão da estratégia através de objetivos, iniciativas e indicadores ligados a quatro perspectivas: clientes, processos internos, aprendizagem/desenvolvimento organizacional e financeira. Note que são três perspectivas não financeiras! A ideia é poder gerenciar diversos fatores, financeiros e não financeiros, alinhados com o futuro da organização. • Incentiva a comunicação e o alinhamento dos funcionários e gestores para poder balancear o uso dos recursos da organização dentro da estratégia formulada. • Acompanha as relações de causa e efeito entre as quatro perspectivas trazendo sinergia nas ações tomadas, tanto de curto quanto de longo prazo. • Garante feedback das ações e resultados, facilitando a aprendizagem e correção de rota da estratégia. Assim, passou a ser possível adotar formas de avaliar estratégias além dos tradicionais indicadores financeiros. O BSC preserva os indicadores financeiros como a síntese final do desempenho gerencial e organizacional, mas incorpora um conjunto de medidas mais genéricas e integradas que vinculam o desempenho sob a ótica dos clientes, processos internos, funcionários e sistemas ao sucesso financeiro a longo prazo (KAPLAN; NORTON, 1997, p. 21). De acordo com Sousa e Rodrigues (2002), o BSC foi criado inicialmente como uma simples ferramenta de medição e avaliação de desempenho, tanto que a formação original de Kaplan era contabilidade gerencial. Porém, sua característica multidimensional fez com que fosse adotado cada vez mais como um sistema de comunicação e alinhamento da empresa com a estratégia. Assim, o BSC passou a ser considerado uma metodologia de implementação da estratégia. Kaplan e Norton (1997) enfatizam que o BSC permite o acompanhamento do desempenho financeiro imediato e, ao mesmo tempo, o monitoramento do progresso na construção de capacidades e na aquisição dos ativos intangíveis necessários para o crescimento futuro. Lembrete Ativos intangíveis possuem valor, mas não são palpáveis. Valor de marca é um deles. Formulada a estratégia, o BSC define quatro pontos focais (as chamadas perspectivas) e estabelece objetivos, indicadores, metas e ações de curto, médio e longo prazo. Observe sua estrutura: 124 Unidade IV Cliente Para alcançar nossa visão, como devemos ser vistos pelos clientes? Processos internos do negócio Para satisfazer os clientes, em quais processos devemos nos sobressair? Visão e estratégia Aprendizado e crescimento Para alcançar nossa visão, como sustentar a habilidade de mudar e progredir? Financeiro Para ter sucesso financeiramente, como nós devemos aparecer para os nossos investidores Figura 56 – As quatro perspectivas do Balanced Scorecard Adaptada de: https://bit.ly/3LdPBeR. Acesso em: 16 maio 2022. 7.2.1 Perspectiva financeira A perspectiva financeira é naturalmente a que mais atrai a atenção do acionista. Dentro do tradicional horizonte de tempo – curto, médio e longo prazos –, toda estratégia precisa atender essa perspectiva. Note que é possível projetar baixo retorno no curto prazo, desde que a estratégia permita maximizá-lo no médio e no longo prazo. Assim, finanças são o ponto focal inicial na elaboração do BSC, dividindo a estratégia em objetivos financeiros de curto, médio e longo prazo. Ou seja, é facultado ao acionista entender que a estratégia formulada pode trazer recursos financeiros caso seja bem-sucedida em todo o horizonte temporal. Com objetivos financeiros claros, deve-se selecionar os indicadores de desempenho que permitam o acompanhamento da execução. Os mais comuns são: • Faturamento: total de dinheiro que entrou na empresa em determinado período em função da venda de produtos ou serviços. Ou seja, é a receita bruta do negócio. • Margem bruta: segundo Farris et al. (2007), é a diferença entre o preço de venda e o custo, sendo tipicamente expressa em percentagem do preço de venda. • Margem de contribuição: diferença entre a receita da venda de produtos e dos custos e despesas variáveis. É o quanto vai restar do preço de venda após remover custos e despesas variáveis e vai ser usado para quitar os custos fixos. 125 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA • Retorno sobre o patrimônio (Return on Equity – ROE): indicador que mede a capacidade de uma empresa para gerar valor a partir dos recursos que a empresa possui. • Lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização (EBITDA – Earning Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization). Indicador financeiro com o lucro antes de ser descontado o que a empresa gastou em juros e impostos e perdeu em depreciação e amortização. • Retorno sobre o investimento (ROI): de acordo com Farris et al. (2007), é uma métrica que descreve como os ativos estão sendo utilizados. Consiste na razão entre lucro líquido e investimentos. Em seguida, os objetivos são desdobrados em metas específicas de algumas atividades que, em sinergia, se somam para alcançar os objetivos propostos. Também se desenham as ações (que os autores denominam iniciativas) a serem realizadas para cada uma das metas. Num exemplo simples, se o objetivo é aumentar a margem bruta em 0,3%, as metas poderiam ser “aumentar preços médios em 0,4%” e “diminuir custos médios em 0,2%”, sendo que para diminuir custos médios as ações poderiam ser “buscar novos fornecedores”, “trocar maquinário antigo por novo mais eficiente” etc. Observe a seguir o exemplo de uma aplicação simples dessa perspectiva: Quadro 14 Perspectiva financeira Metas Ações Indicadores Reduzir custos Diminuir os custos operacionais em x% Buscar fornecedores alternativos Redução do valor das contas com fornecedores Criar um programa de uso consciente de recursos de materiais Redução do valor de pagamento Elevar a receita Aumentar em x% a receita líquida Aprimorar o conhecimento na identificação das vendas mais lucrativas Demonstração do resultado do exercício Reavaliar o prazo de concessão de crédito a clientes com liquidação duvidosa Demonstração do resultado do exercício Adaptado de: Carneiro Júnior, Oliveira e Niveiros (2020, p. 94). Note que não é simplesmente um plano que fica mofando na gaveta. É uma metodologia que amarra as pontas e desenha um conjunto de ações que devem ser tomadas e que especifica como será feito o controle. No exemplo anterior, para reduzir custos operacionais os responsáveis devem buscar novos fornecedores mais baratos, e o controle da execução será um indicador numérico que mostra o valor dos pagamentos aos fornecedores, que deverá diminuir. Em paralelo, em outra perspectiva, deverá surgir um indicador de qualidade dos materiais fornecidos, balanceando a decisão de troca de fornecedor por um mais barato. 126 Unidade IV 7.2.2 Perspectiva do cliente O foco é acompanhar indicadores não financeiros, voltados para o lado externo da empresa, visando identificar o nível de satisfação dos clientes. Kaplan e Norton (1997) estabelecem três categorias: • Serviço/produto: funcionalidade, benefícios, preço, qualidade etc. • Relacionamento com o cliente: entrega, acesso a informações, feedback. • Imagem e reputação: apresentação, valoração de marca. Essa perspectiva se inicia com a definição dos segmentos de mercado a serem atendidos com alinhamento aos objetivos da perspectiva financeira. Cada segmento tem características a serem consideradas na elaboração das metas, indicadores de resultado e ações. Lembrete Segmento de mercado é o pedaço escolhido de um mercado total que será alvo da estratégia. Os indicadores de resultados mais comuns são ligados à satisfação, fidelidade e lucratividade em cada segmento. Outros indicadores são frequência, recência,retenção e captação. • Frequência é uma métrica de quantidade de transações por período. Clientes com alta frequência de compra são clientes satisfeitos. • Recência é uma métrica que indica o tempo decorrido desde a última transação. Ou seja, quão recente é a última compra. Observação Há ramos de atividade que medem não só frequência e recência de compra, mas também de consumo, uma vez que nem toda compra leva a consumo imediato. Pense em garrafas de bebida, por exemplo. A compra ocorre num momento, e o consumo ocorre em vários momentos a posteriori. • Retenção é a capacidade de manter um cliente na base. Alto índice de retenção significa que poucos clientes abandonam a empresa. É típico de negócios com base cadastral, como bancos, serviços de telefonia e internet, clubes. • Captação é a capacidade de aumentar a base de clientes. Alto índice de captação significa sucesso em atrair clientes. 127 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA A lógica permanece a mesma: objetivos desdobrados em metas que desenham ações controladas por indicadores. Todo o processo deve estar articulado com as outras três perspectivas. Quadro 15 – Exemplo de perspectiva de clientes Perspectiva do cliente Metas Ações Indicadores Conquistar novos revendedores Aumentar o cadastro de revendedores em x% Procurar novos revendedores nas praças de Campinas e região Índice de novos cadastros de revendedores Ser referência no mercado Manter todos os revendedores antigos Identificar satisfação dos revendedores Índice de reclamações de revendedores Adaptado de: Carneiro Júnior, Oliveira e Niveiros (2020, p. 94). Nesse exemplo, além de entrar em novos canais de distribuição, a empresa quer manter os canais antigos satisfeitos. Para tal, define as ações e os indicadores de controle. 7.2.3 Perspectiva de processos internos Trata-se de indicadores não financeiros voltados para o ambiente interno da organização, identificando os processos essenciais para atingir os objetivos. Kaplan e Norton (1997, p. 67) pontuam que “as medidas dos processos internos estão voltadas para os processos que terão maior impacto na satisfação do cliente e na consecução dos objetivos financeiros da empresa”. Nesse caso, por estarem ligados aos processos internos, há uma gigantesca quantidade de indicadores, pois cada tipo de negócio tem suas especificidades. Indicadores de desperdício de insumos em função de ajuste de máquinas são comuns na indústria gráfica, mas não fazem sentido em empresas de varejo. Crepaldi (2012) propõe a discriminação em processos de inovação, operacionais e de serviços pós-venda. Ou seja, processos de identificação de oportunidades, de produção/operação para fazer o produto e de satisfação dos clientes. Assim, teremos objetivos desmembrados em metas para definir ações controladas por indicadores. Quadro 16 – Exemplo de perspectiva de processos internos Perspectiva de processos internos Metas Ações Indicadores Melhoria no planejamento de entrega de mercadoria Diminuir o tempo de entrega do produto em um dia Automatizar transporte dentro do estoque Diminuição entre a data do pedido e a data de entrega do produto Qualidade e eficiência no atendimento aos clientes Diminuição de reclamações no atendimento em x% Ampliar central de atendimento e treinar atendentes Baixo índice de perda de clientes Adaptado de: Carneiro Júnior, Oliveira e Niveiros (2020, p. 94). 128 Unidade IV 7.2.4 Perspectiva de aprendizagem e crescimento Essa perspectiva tenta otimizar o potencial intelectual e operacional da organização. Assim, busca identificar como os funcionários devem aprimorar suas atividades. Trata-se de aprendizagem com erros e acertos. Organizações são essencialmente pessoas trabalhando em conjunto e com um objetivo em comum. Essa perspectiva aborda exatamente a necessidade de manter a equipe coesa, capacitada e motivada para atingir suas metas. Portanto, é preciso lançar mão de programas de treinamento, capacitação, qualificação, certificação, motivação, atração e retenção de pessoas. Também fazem parte dessa perspectiva os sistemas de comunicação interna para que não haja gargalos no fluxo de informações. Por fim, deve-se ter processos ajustados de coleta, processamento, armazenamento e disseminação do conhecimento gerado pelas atividades. O procedimento é o mesmo das outras três perspectivas: estabelecer objetivos alinhados com a estratégia, definir indicadores e desdobrar em metas e ações. Quadro 17 – Exemplo de perspectiva de aprendizagem e crescimento Objetivos da perspectiva do cliente Metas Ações Indicadores Desenvolver a conscientização dos colaboradores quanto ao conhecimento total das normas internas da empresa Instruir todos os colaboradores quanto às normas da empresa Programar cursos e treinamentos internos em dias e horários adequados a todos os turnos Redução de advertências, multas e acidentes Capacitar os funcionários em suas áreas específicas Aumentar o número de funcionários com capacitação Fornecer cursos e treinamentos ligados às áreas funcionais Melhoria no desempenho dos colaboradores Adaptado de: Carneiro Júnior, Oliveira e Niveiros (2020, p. 95). Portanto, o BSC é uma ferramenta útil para implementação e controle de estratégias organizacionais focadas no curto, médio e longo prazos. 7.3 Design Thinking Você certamente já ouviu elogios ou críticas ao design de produtos. Um automóvel Ferrari com design arrebatador, um clássico relógio Rolex e uma mesa de jantar inovadora são expressões fáceis de ser entendidas. Design é idealizar, criar, conceber e especificar produtos normalmente produzidos em série, o que exige padronização num desenho técnico que será usado na replicação. O desenho técnico é a base para a reprodução em massa do produto. 129 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Note que essa definição permite entender que alguém (ou um conjunto de pessoas) desenhou o modelo e as peças da Ferrari, do Rolex e da mesa de jantar. São os chamados designers, profissionais do design. Contudo, qual a relação entre design e estratégia? Torquato, Willerding e Lapolli (2015) afirmam que “o Design Thinking pode ser definido como uma abordagem centrada no ser humano para inovação que integra as necessidades individuais, as possibilidades tecnológicas e os requisitos para o sucesso”. Ou seja, gente criando inovações para ter sucesso. No mundo globalizado de rápidas mudanças em que vivemos, inovação é uma necessidade, e não um diferencial. A ideia da abordagem do Design Thinking é experimentar novos caminhos sem temer o erro, pois o erro cria aprendizado que é usado para melhorar o projeto. Um designer de produto não cria um design na primeira tentativa. Na verdade, ele pensa e refaz o pensamento criando alternativas, eliminando algumas, refinando outras até ter um projeto completo. E se essa lógica difusa fosse usada na criação de estratégias? Torquato, Willerding e Lapolli (2015) dizem que o Design Thinking é uma abordagem centrada no ser humano que possibilita a geração de ideias em diversos contextos. Assim, essas ideias podem ser focadas em inovação e estratégia em vez de simplesmente em produtos. Coutinho e Penha (2015) vão além. Descrevem três possibilidades de futuro para serem levadas em consideração na estratégia: o futuro provável, o futuro possível e o futuro desejável. Este terceiro é proposto pelos autores como algo que as organizações podem, por meio do Design Thinking, moldar com ideias e conceitos consubstanciados em protótipos e produtos. Mais importante do que idealizar o futuro é trazê-lo ao presente por meio de experimentos. Desde os anos 1970 a Shell já anunciava o fim do petróleo e colocava entre seus objetivos a busca por fontes alternativas de energia, tornando-se precursora em tecnologias limpas, como a energia eólica e a solar. Em 1996 a Philips se lançou no projeto Vision of the Future, cujo objetivo era antever os impactos da vida moderna em seuportfólio de produtos (COUTINHO; PENHA, 2015, p. 1). Também podemos citar os avanços rápidos em robótica, tecnologia da informação e biotecnologia e o quanto contribuem para o Design Thinking criar novas gerações de negócios escaláveis com ruptura de negócios estabelecidos. Por exemplo, a GoPro foi fundada em 2002 por um surfista e esquiador que queria filmar a si mesmo durante a prática esportiva. No início a tecnologia era cara, mas com o tempo o custo da câmera caiu exponencialmente, aumentando a escala de produção. Hoje é uma empresa multinacional com mais de 26 milhões de câmeras GoPro vendidas em mais de cem países. A GoPro está na lista das 50 empresas mais inovadoras do mundo pela Fast Company, revista americana sobre tecnologia e informação que anualmente ranqueia as empresas inovadoras. 130 Unidade IV Figura 57 – Câmera GoPro Disponível em: https://bit.ly/38BvJoq. Acesso em: 16 maio 2022. A Nokia, empresa finlandesa, já foi o maior fabricante de celulares do mundo. Em 2008, no auge da liderança, investiu U$ 8 bilhões na compra da Navteq, uma empresa de navegação por mapas em GPS, que coletava dados por sensores físicos fixados em esquinas de grandes cidades, além de sensores alocados em carros de frota própria. A ideia era ser a principal fornecedora de dados de trânsito, e a estrutura seria de milhões de sensores espalhados pelo mundo. Porém, no mesmo ano a empresa Waze foi criada em Israel, que oferecia o mesmo serviço sem necessitar de investimentos em sensores, pois os smartphones coletavam os dados e os apresentavam ao mesmo tempo. Observe a diferença! Uma empresa ajudou a moldar o futuro criando uma ruptura nos negócios de mapeamento, e a outra foi relegada ao passado. A Nokia quase quebrou na época. A) B) Figura 58 – Celular Nokia e automóvel com sensor Navteq Disponível em: A) https://bit.ly/3MqbwRh; B) https://bit.ly/3LjswqY. Acesso em: 16 maio 2022. Na verdade, o Design Thinking está incentivando projetos inovadores e disruptivos por parte de quaisquer organizações, mesmo as que estão fora dos ramos de atuação originais. 131 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Os projetos mais inovadores do carro elétrico (Tesla) ou do autônomo (Google) nasceram fora da centenária indústria automotiva. A maior rede de hotéis (Airbnb) não tem um ativo sequer. É inegável que a influência de tendências como a inteligência artificial e a economia compartilhada entre nas reflexões sobre a estratégia das empresas. Ao conectar tendências e especular futuros criam-se territórios e os projetos que deles decorrem. Este exercício provocativo permite às organizações explorar espaços de oportunidade, fazer suas apostas sobre o futuro e trazê-las ao presente por meio de experimentos que promovam aceleração de ideias (COUTINHO; PENHA, 2015, p. 1). Assim, o designer de negócio (ou designer social, caso a lógica não seja ligada a business) capta fatos, evidências e percepções para criar inovações em busca do futuro desejável. Por meio da iniciativa Pictures of the Future (Pof), a Siemens reúne a cada seis meses dezenas de especialistas de várias áreas em todo o mundo para discutir o futuro e suas implicações nos próximos 20-30 anos. No Brasil, a Siemens lançou em 2012 o Pictures of the Future Rio de Janeiro + 20 em virtude da Copa 2014 e das Olimpíadas 2016. Visões como “Fique bem no Rio” (referente à saúde e bem-estar) ou “Tudo deve fluir” (40 minutos de qualquer ponto no Rio ao centro da cidade) são fonte de inspiração para a própria Siemens, que vem trabalhando em pelo menos dez novas soluções pensando no Rio do futuro (COUTINHO; PENHA, 2015, p. 1). A Google X Lab, divisão do Google voltada a novas tecnologias e negócios de futuro, desenvolveu vários projetos, alguns dos quais foram lançados. Você provavelmente já ouviu falar do carro autônomo do Google, bem como de seus acidentes no trânsito. É um futuro desejável. O Google X Lab também desenvolveu o Google Glass, que estudaremos neste capítulo. Outro projeto é chamado de Loon, que consiste em dar acesso à internet em áreas rurais e remotas através de balões colocados na estratosfera a uma altitude de 20 km. Não há medo de errar, pois há projetos que nunca foram divulgados por terem sido abortados. O investimento é alto, e as perspectivas de ter em mãos tecnologias e produtos disruptivos e altamente lucrativos é maior ainda. Se você pesquisar sobre o papel de startups no desenho do futuro, ficará surpreso. Há milhares de empresas pequenas, voltadas para tecnologia e suas aplicações sendo criadas, e há outros milhares já em operação. Certamente a maioria não vingará, mas algumas darão certo e umas poucas realmente trarão mudanças para o futuro. Brown (2010) contribui com uma ponderação: designers tradicionais, por assim dizer, sabem que não existe uma maneira ideal de criar algo. A cada projeto, os métodos e estilos variam. Na verdade, os designers não solucionam problemas, e sim trabalham através deles. E isso faz a diferença na formulação da estratégia: pensar como um designer e assumir que no processo de formular e implementar vão ocorrer erros e adaptações que geram um resultado melhor. 132 Unidade IV O processo defendido por Brown (2010) tem cinco etapas: • A primeira etapa é a da descoberta, fase em que a equipe procura entender o contexto da situação e compreender os objetivos a serem atingidos, observando clientes, mapeando processos relevantes, conversando com agentes externos especialistas etc. É preciso também entender as expectativas dos acionistas. Observe que essa etapa incentiva a curiosidade da equipe. • A segunda etapa é a interpretação, quando dados coletados são analisados e interpretados buscando padrões relevantes. Ideias, percepções e experiências são levadas em consideração para interpretar as descobertas. • A terceira etapa é a ideação. Ideias e soluções são geradas a partir das descobertas e interpretações. É uma boa iniciativa envolver pessoas de perfis diferentes, pois da variedade surgem múltiplos insights. “Os insights são estímulos ou pequenas partes de uma informação maior coletada por um indivíduo”. Assim, “quando há um conjunto de insights, é possível montar cenários, compreender relações, hábitos e crenças” (RECHE; JANISSEK-MUNIZ, 2018, p. 88). • A quarta etapa é a da experimentação, quando as ideias e soluções saem do plano abstrato e se consubstanciam em protótipos e testes para verificar se são boas alternativas. Nessa etapa são experimentadas algumas possibilidades de solução. Os erros cometidos emergem e geram aprendizado, podendo refinar as ideias e melhorar a aplicabilidade. • A última etapa é a da evolução, que parte da aceitação das ideias e de sua implementação. Trata-se do feedback da implementação da estratégia. Dentro da lógica de melhoria contínua, são observados os aspectos positivos e negativos, sendo que estes servem como ponto de partida para melhorias. Quando se adota o Design Thinking, presume-se a liberdade de imaginar o futuro, criar, propor, inventar e testar mais de uma vez e mais de uma alternativa para o mesmo problema. Isso significa que as empresas devem aprender a interpretar o erro não como uma falha, mas como menos uma opção. O ato de errar é a forma de reduzir as incertezas, é a oportunidade de adquirir novos conhecimentos. As empresas perdem oportunidades por não serem ousadas, por estarem correndo atrás de alternativa mais rápida (RECHE; JANISSEK-MUNIZ, 2018, p. 89). Como exemplo de erro, citemos o caso do Google Glass. A maior parte das pessoas já esqueceu desse produto, lançado pelo Google em 2014 por U$ 1,500 para o grande público e descontinuado dois anos depois. O Google Glass era um dispositivo semelhante a um par de óculos com uma pequena tela visível por um dos olhos. Através do movimento dos olhos, era possível “navegar” na tela e acessar mapas, imagens, músicas etc. O dispositivo tinha câmera, microfone e saída de áudio (junto a uma orelha), podendo gravar vídeos, fotose sons para o usuário, além de fazer e receber ligações telefônicas. A intenção era ter um produto de alto consumo de massa, podendo substituir os smartphones. 133 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Lembrete Uma das forças competitivas de Porter é a ameaça de produtos substitutos. Imagine o panorama de mudanças no mercado de smartphones caso o Google Glass tivesse sido um sucesso como produto de consumo! Vários motivos levaram o Google Glass ao fracasso: a interface era cansativa; pessoas que não usavam reclamavam de invasão de privacidade, pois estavam sendo gravadas o tempo inteiro; o preço era muito alto; atrapalhava a visão. Todavia, dentro do conceito de Design Thinking, o produto saiu de linha para pessoas físicas e continuou sendo desenvolvido nos bastidores até ser relançado para pessoas jurídicas em uso profissional, como médicos em cirurgias, funcionários de chão de fábrica, pilotos de avião etc. O erro gerou aprendizado e se transformou em um acerto: de acordo com as estratégias genéricas de Porter, a estratégia mudou de diferenciação para foco. E nada impede que seja desenvolvida uma versão mais adequada ao grande público. Completando o ciclo, há rumores de que a Apple está desenvolvendo um produto equivalente. A) B) Figura 59 – Google Glass Disponível em: A) https://bit.ly/3PmIkMV; B) https://bit.ly/3NjDQoA. Acesso em: 16 maio 2022. 7.4 Controle A última etapa do processo de administração estratégica é o controle. Após planejar e implementar, cabe aos gestores a tarefa de verificar se o planejado está sendo realmente executado, se os resultados estão em conformidade com o esperado e se há necessidade de correção de rota. Controle estratégico é um tipo especial de controle organizacional que se concentra em monitorar e avaliar o processo de administração estratégica garantindo que esta funcione apropriadamente. Em essência, o controle estratégico é empreendido para garantir que todos os resultados planejados durante o processo de administração estratégica tornem-se realidade. Apesar desta definição simplificá-lo demais e fazer com que pareça um tanto mecânico, na prática se percebe o quanto ele é desafiador e intrincado (CERTO; PETER, 1993, p. 139). 134 Unidade IV O controle estratégico também tem por função gerar feedback que serve tanto de aprendizado quanto de estímulo a ações corretivas que se façam necessárias. Veja o processo de controle estratégico: Fora dos limites Revisar os parâmetros Estabelecer parâmetros de desempenho Medir o desempenho real Comparar o desempenho com parâmetros Implementar medidas corretivas Continuar a execução da tarefa Feedback sbre o processo Dentro dos limites Ajustar o desempenho Figura 60 – Processo de controle Fonte: Sobral e Peci (2013, p. 189). O início consiste em ter os parâmetros de desempenho das diversas ações previstas na estratégia. Esses parâmetros são os objetivos corporativos, das unidades de negócio e os de nível funcional desdobrados em metas para os níveis funcionais. A seguir, deve-se medir o desempenho comparando o planejado (os parâmetros) com o realizado. Duas possibilidades surgem: ou o desempenho está dentro de limites ou margens aceitáveis de desvio ou não está. Se estiver dentro do estabelecido, não é necessário fazer correção alguma, prosseguindo a execução como definido e retroalimentando a informação de conformidade para prosseguir o ciclo. Se o desempenho diferir dos parâmetros especificados além dos limites aceitáveis (ou seja, se o resultado for julgado significativamente diferente dos objetivos e metas), será necessária uma ação corretiva. A ação corretiva pode ser tomada de duas formas: • Ajustar o desempenho: consiste em melhorar o resultado da ação realizada buscando atingir os parâmetros (objetivos). Exemplos: reforço de equipe de vendas, mudança de fornecedor, retirada do produto, melhoria do produto. • Revisar os parâmetros: ocorre quando se conclui que os parâmetros são inadequados. Ou seja, os objetivos foram super ou subdimensionados. Assim, devem-se revisar os objetivos de acordo com os resultados julgados insatisfatórios. Essa forma só é adotada quando se verifica que realmente não é possível cumprir os objetivos, mesmo se forem feitos ajustes no desempenho. Uma das ferramentas mais utilizadas pelas grandes organizações para o controle é denominada Indicador-Chave de Desempenho (KPI – Key Performance Indicator). 135 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Indicadores de desempenho são usados pelas organizações há décadas. A medição de desempenho adquiriu um papel fundamental dentro das organizações nas últimas décadas. Fornecendo informações cruciais para a gestão das atividades organizacionais mesmo estando alicerçada, historicamente, na contabilidade aplicada, principalmente, no processo de manufatura. Indicadores como o ROI (retorno sobre o investimento), custo de mão de obra, custos de processos, custos de materiais entre outros foram os primeiros indicadores utilizados (VALADOR, 2015, p. 16). Daft (2013) comenta que em meados de 1990 as ferramentas tradicionais de avaliação de desempenho foram sendo paulatinamente substituídas por outras. Essa década testemunhou profundas mudanças tecnológicas, sociais e ambientais, o que levou à criação de novos indicadores. Lembrete Discutimos ao longo do livro-texto diversos exemplos de adaptação de estratégias organizacionais em função da mudança do ambiente competitivo. Lembre-se da centenária IBM abandonando seu principal negócio. O KPI é utilizado como ferramenta de medição de desempenho de vários processos organizacionais. Além disso, permite a comunicação clara da performance dos setores funcionais para os funcionários. Há, inclusive, a utilização de termos como dashboards, ou painéis de controle, que se assemelham ao visual de painéis de controle físicos existentes nas indústrias. Você certamente já viu em filmes uma sala com diversos monitores mostrando gráficos, tabelas e imagens que são controlados pelos técnicos. Figura 61 – Sala de controle com dashboards Disponível em: https://bit.ly/3NeF0BC. Acesso em: 16 maio 2022. 136 Unidade IV Em nossa aplicação, dashboards são agregadores de KPIs para apresentação visual na forma de gráficos e tabelas que devem ser acessados pelos funcionários ligados à atividade mensurada. Figura 62 – Exemplo de dashboard com KPIs de marketing Disponível em: https://bit.ly/3ldXFBJ. Acesso em: 16 maio 2022. Assim, tendo acesso on-line a resultados do andamento de processos e atividades, é possível acompanhar o desempenho da organização. Dessa forma, os funcionários podem visualizar o impacto das atividades controladas e ganhar maior engajamento na persecução dos objetivos. Os KPIs permitem que os gerentes percebam a necessidade de mudança de rota, caso os indicadores mostrem resultados abaixo do projetado. 137 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA 8 APRENDIZADO ESTRATÉGICO De acordo com Fernandes e Berton (2014), a estratégia de uma empresa nunca será totalmente conhecida em seus mínimos detalhes, uma vez que o processo competitivo é dinâmico. As estratégias realizadas são o resultado de estratégias deliberadas e estratégias emergentes, como vimos anteriormente. Hábitos de consumo mudam, o ritmo econômico se altera, concorrentes atuam no sentido contrário e os humores da política governamental interferem na vida da sociedade. Autores como Quinn, Senge e Mintzberg defendem a ideia de que durante a implementação ainda não é possível conhecer a estratégia total. Somente após os fatos é que se pode saber do todo. Essa visão de estratégia como aprendizado parte da disposição em experimentar e aprender com a experiência da implementação, seja de acertos, seja de erros. Mintzberg (apud FERNANDES; BERTON, 2014, p. 218) estabelece premissas para o aprendizado: 1. A natureza complexa e imprevisível do ambiente das organizações, associada à difusão do conhecimento necessário à implantação da estratégia, exclui a possibilidadede um controle absoluto. Assim, o processo de definir estratégias é um processo de aprender ao longo do tempo. 2. Embora os líderes possam aprender, o mais comum é que a organização, como um sistema coletivo, é que aprenda. 3. O papel do líder não é conceber e prescrever estratégias, mas administrar o processo estratégico de forma que o aprendizado ocorra mais rapidamente. Peter Senge, professor e diretor do renomado MIT (Massachusetts Institute of Technology), desenvolveu o conceito da learning organization (organização que aprende), que são aquelas nas quais as pessoas aprimoram continuamente suas capacidades para criar o futuro que realmente gostariam de ver surgir. Ou seja, para sobreviver e crescer é preciso aprender continuamente. Para Senge (1990), o processo de aprendizagem ocorre a partir de cinco disciplinas: • Domínio pessoal: as características pessoais dos funcionários e gestores auxiliam o aprendizado. Paciência, foco, ser realista nas observações, saber ouvir o outro etc. são qualidades recomendáveis para o trabalho em equipe numa organização que aprende. • Modelos mentais: crenças arraigadas, paradigmas e ideias/valores afetam a visão de mundo e as percepções das pessoas. No mundo da política, os líderes, os partidos e as organizações sociais propagam ideias e conceitos que afetam os modelos mentais das pessoas, sejam contra, sejam a favor. No mundo dos negócios, os modelos mentais se constituem nas crenças compartilhadas e disseminadas na empresa e até mesmo no ramo de atividade. Por exemplo, na virada do século XIX para XX grandes fortunas americanas eram ligadas ao transporte ferroviário, e fortes investimentos eram feitos para melhorar a malha ferroviária e os trens. O modelo mental dos acionistas dessas companhias era voltado para ferrovias. Porém, no início do século XX o transporte por carros 138 Unidade IV e caminhões começou a se estabelecer (tratamos do assunto sobre Henry Ford e Alfred Sloan anteriormente) e cresceu de maneira estupenda. O modelo mental de transportes ferroviários permaneceu arraigado em vários acionistas e investidores, os quais perderam fortunas à medida que as estradas de rodagem foram sendo construídas de costa a costa. Outros acionistas mudaram seu modelo mental e passaram a investir além de ferrovias. • Objetivo comum: envolve metas, valores e compromissos compartilhados em conjunto por membros da organização. Quando a empresa e funcionários/gestores compartilham um objetivo comum e legítimo, o esforço espontâneo para cumpri-lo gera aprendizado de maneira natural. • Aprendizagem em grupo: a força de um grupo é superior à soma das forças individuais. Aprendizado em grupo também é superior. Quando o aprendizado é só do funcionário, sem compartilhamento, ele pode ser contratado pelo concorrente e levar o aprendizado junto. Quando ocorre aprendizagem em grupo, o resultado é da organização e não pode ser copiado de fora. • Raciocínio sistêmico: é a base da teoria sistêmica o fato de ser possível entender um sistema observando-o como um todo, e não por suas partes. Qualquer organização é um sistema aberto que interage com o ambiente. Assim, a organização deve ser analisada como um todo. De acordo com Senge (1990), raciocínio sistêmico é uma estrutura de conhecimentos e instrumentos que permite observar e intervir nesse todo com vistas a aprimorá-lo. Essa disciplina cria a integração das outras quatro porque observa o conjunto integral da organização. Lampel (apud FERNANDES; BERTON, 2014) incentiva atitudes favoráveis à aprendizagem: • Fracasso e sucesso geram aprendizado, e as empresas devem aproveitá-lo. • O ditado “em time que está ganhando não se mexe” deve ser rejeitado, uma vez que as estratégias e sua implementação merecem ser reexaminadas frequentemente. • Os gestores e funcionários das áreas funcionais ligadas a produção/operação e vendas/marketing em geral têm muito mais conhecimento de suas áreas que seus superiores do alto escalão, e esse conhecimento é imprescindível. • As empresas devem disseminar ativamente o conhecimento em todas as áreas funcionais. • As empresas devem ir além das próprias fronteiras do seu conhecimento e buscar mais, sem se darem por satisfeitas. Ou seja, há muito a aprender na concorrência, com os fornecedores e com os clientes. Visando contribuir para o processo, Mumford (2001) postula que as pessoas adotam estilos de aprendizagem em função de suas características pessoais. 139 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Ativista Realizando experiência Teórico Concluindo a partir da experiência Pragmático Planejando as próximas etapas Reflexivo Reavaliando a experiência Figura 63 – Estilos de aprendizagem Fonte: Mumford (2001, p. 17). Cada um tem um pouco de cada estilo, variando de intensidade. A maior parte tem um estilo dominante e um secundário, ficando outros dois em menor escala. De qualquer modo, os gestores de uma organização focada no conhecimento devem identificar os estilos de seus colaboradores para otimizar o processo. O estilo ativo – as pessoas em que o estilo ativo predomina, gostam de novas experiências, são de mente aberta, entusiasmadas por tarefas novas; são pessoas do aqui e do agora, que gostam de viver novas experiências. Seus dias estão cheios de atividades: em seguida ao desenvolvimento de uma atividade, já pensam em buscar outra. Gostam dos desafios que supõem novas experiências e não gostam de grandes prazos. São pessoas de grupos, que se envolvem com os assuntos dos demais e centram ao seu redor todas as atividades. [...] O estilo reflexivo – as pessoas desse estilo gostam de considerar a experiência e observá-la sob diferentes perspectivas; reúnem dados, analisando-os com detalhes antes de chegar a uma conclusão. Sua filosofia tende a ser prudente: gostam de considerar todas as alternativas possíveis antes de realizar algo. Gostam de observar a atuação dos demais e criam ao seu redor um ar ligeiramente distante e condescendente. [...] O estilo teórico – são mais dotadas desse estilo as pessoas que se adaptam e integram teses dentro de teorias lógicas e complexas. Enfocam problemas de forma vertical, por etapas lógicas. Tendem a ser perfeccionistas; integram o que fazem em teorias coerentes. Gostam de analisar e sintetizar. São profundos em seu sistema de pensamento e na hora de estabelecer princípios, teorias e modelos. Para eles, se é lógico é bom. Buscam a racionalidade e objetividade; distanciam-se do subjetivo e do ambíguo. 140 Unidade IV [...] O estilo pragmático – os pragmáticos são pessoas que aplicam na prática as ideias. Descobrem o aspecto positivo das novas ideias e aproveitam a primeira oportunidade para experimentá-las. Gostam de atuar rapidamente e com seguridade com aquelas ideias e projetos que os atraem. Tendem a ser impacientes quando existem pessoas que teorizam. São realistas quando têm que tomar uma decisão e resolvê-la. Partem dos princípios de que “sempre se pode fazer melhor” e “se funciona significa que é bom” (MUMFORD, 2001, p. 17-18). Resumo Para reduzir o risco de insucesso na implementação das estratégias, Porter sugeriu a aplicação três testes: teste da atratividade, de custo de entrada e de melhoria das condições. Se a estratégia elaborada for bem avaliada nos três testes, poderá ser implementada. Implementar a estratégia é uma das etapas mais complicadas do processo: colocar em prática tudo o que foi planejado é uma tarefa difícil. Para obter sucesso na implementação, é preciso haver alinhamento entre os processos da organização e a estratégia. A quantidade de pessoas afetadas nas alterações promovidas pela implementação, para o bem e para o mal, pode ser muito representativa. Enquanto a formulação da estratégia é feita nos mais altos níveis hierárquicos, a implementação acaba sendo responsabilidade direta dos níveis intermediários de gerências, e estes dependem da estrutura que a organização dispõe. Chandler (1962) demonstrou quea estrutura segue a estratégia, pois observou que o crescimento e a mudança de estratégia alteravam a estrutura das empresas. Em suas observações, ele descobriu que as empresas adotavam diferentes estratégias de crescimento seguidas de alterações na estrutura como meio de enfrentar os novos problemas administrativos. A estrutura organizacional determina características como cadeia de comando, amplitude de controle, cargos e departamentos, centralização de poder, as quais precisam ser adequadas à estratégia escolhida. Bourgeois e Brodwin (1984) classificam a implementação da estratégia em cinco modelos, que são ordenados em função da profundidade de pensamento e complexidade de realização: comando, mudança, colaborativo, cultural e crescente. Cada empresa, por força das circunstâncias, adota um 141 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA desses modelos do seu jeito. O primeiro, o de comando, é bastante comum por confiar na expertise de consultorias, mas é custoso. O último modelo, por outro lado, só pode ser feito se a empresa já tiver consolidada a ideia de participação conjunta nas decisões. Há várias ferramentas metodológicas que podem facilitar boa parte do processo de implementação, como o Balanced Scorecard (BSC) e o Design Thinking. O BSC foi criado em 1992 pelos teóricos acadêmicos Robert Kaplan e David Norton para reduzir os danos causados por executivos focados no curto prazo para ter direito a bônus no final do exercício. Um estudo da época mostrava que os métodos de avaliação do desempenho empresarial eram inadequados por serem baseados somente em indicadores contábeis/financeiros. Se o desempenho era medido apenas em indicadores financeiros, os executivos focavam no resultado de curto prazo para embolsar grandes bônus e deixavam de lado a estratégia de médio e longo prazo. Claro que após alguns anos o valor de mercado dessas organizações cairia, pois não havia estratégia de longo prazo. Muitos desses executivos eram demitidos após alguns anos e se recolocavam em outras empresas porque traziam resultados rápidos para os acionistas. O BSC procurava privilegiar os interesses dos acionistas e incentivar o pensamento estratégico de longo prazo dos executivos. O BSC permite o acompanhamento do desempenho financeiro imediato e, ao mesmo tempo, do progresso na construção de capacidades e na aquisição dos ativos intangíveis necessários para o crescimento futuro. Formulada a estratégia, o BSC estabelece quatro perspectivas e fixa objetivos, indicadores, metas e ações de curto, médio e longo prazo. As perspectivas são: financeira, do cliente, de processos internos e de aprendizagem e crescimento. A perspectiva financeira divide a estratégia em objetivos financeiros de curto, médio e longo prazo com indicadores de desempenho que permitam o acompanhamento da execução, como faturamento, margem bruta, ROI. A perspectiva do cliente acompanha indicadores não financeiros voltados para o nível de satisfação dos clientes em três categorias: serviço/produto, relacionamento com o cliente e imagem e reputação. Inicia-se com a definição dos segmentos de mercado a serem atendidos com alinhamento aos objetivos da perspectiva financeira e cada segmento contém metas, indicadores de resultado e ações. 142 Unidade IV A perspectiva de processos internos utiliza indicadores não financeiros voltados para processos internos essenciais para atingir os objetivos. Assim, há uma gigantesca quantidade indicadores, pois cada tipo de negócio tem suas especificidades. Crepaldi (2012) propõe a discriminação em processos de inovação, operacionais e de serviços pós-venda. A perspectiva de aprendizagem e crescimento busca otimizar o potencial intelectual e operacional da organização identificando como os funcionários podem aprender e, com isso, aprimorar suas atividades. Trata-se de aprendizagem com erros e acertos. Essa perspectiva aborda a necessidade de manter a equipe coesa, capacitada e motivada para atingir suas metas. Portanto, é preciso ter programas de treinamento, capacitação, qualificação, certificação, motivação, atração e retenção de pessoas. Também estudamos o Design Thinking, uma abordagem para inovação que integra as necessidades individuais, as possibilidades tecnológicas e os requisitos para o sucesso. Ou seja, gente criando inovações para ter sucesso utilizando uma metodologia replicável. Das três possibilidades de futuro para serem levadas em consideração na estratégia (futuro provável, futuro possível e futuro desejável), o futuro desejável é o que pode ser moldado pelas empresas que adotarem o Design Thinking em protótipos e produtos. A última etapa do processo de administração estratégica é o controle. Após planejar e implementar, cabe aos gestores a tarefa de verificar se o planejado está sendo realmente implementado, se os resultados estão em conformidade com o esperado e se há necessidade de correção de rota. O aprendizado estratégico parte de uma visão de estratégia como aprendizado como a disposição da empresa em experimentar e aprender com a experiência da implementação, seja de acertos, seja de erros. Em uma learning organization (organização que aprende), as pessoas aprimoram continuamente suas capacidades para criar o futuro que realmente gostariam de ver surgir. Ou seja, para sobreviver e crescer é preciso aprender continuamente através de cinco princípios: domínio pessoal, modelos mentais, objetivo comum, aprendizagem em grupo e raciocínio sistêmico. 143 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Exercícios Questão 1. A estratégia BSC (Balanced Scorecard) estabelece quatro pontos focais: financeiro, cliente, aprendizado e crescimento e processos internos do negócio. Avalie as afirmações a seguir acerca desses quatro pontos. I – As finanças são o ponto inicial para a elaboração do BSC. Esse ponto diz respeito aos objetivos financeiros e aos indicadores de desempenho da execução desses objetivos. II – O objetivo da perspectiva do cliente é acompanhar marcadores não financeiros acerca do cenário externo à empresa, tais como os benefícios do produto, o feedback dos clientes e a apresentação da marca. III – A perspectiva de processos internos diz respeito aos fatores financeiros internos à empresa, como a identificação e a avaliação de oportunidades e a satisfação dos clientes. IV – O aspecto de aprendizado e crescimento tem seu foco em otimizar o potencial intelectual e operacional da empresa por meio, por exemplo, de programas de treinamento e capacitação. É correto o que se afirma em: A) I e II, apenas. B) II e III, apenas. C) I, II e III, apenas. D) I, II e IV, apenas. E) I, II, III e IV. Resposta correta: alternativa D. Análise da questão A perspectiva de processos internos diz respeito a fatores internos, não financeiros. 144 Unidade IV Questão 2. Segundo Brown (2010), o processo de Design Thinking deve ocorrer em cinco etapas: descoberta, interpretação, ideação, experimentação e evolução. BROWN, T. Design Thinking: uma metodologia poderosa para decretar o fim das velhas ideias. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010. Sobre essas etapas, avalie as afirmativas. I – Na descoberta, a equipe levanta dados buscando encontrar padrões que auxiliem no entendimento do contexto do mercado e dos objetivos da empresa. Em seguida, na etapa da interpretação, essas descobertas são interpretadas levando em conta ideias, percepções e experiências. II – Na terceira etapa, da ideação, são geradas potenciais soluções para problemas e questões que surgiram nas etapas anteriores. É recomendado que esse processo seja feito por uma equipe especializada, em que todos compartilhem dos mesmos conhecimentos e experiências. III – A quarta etapa é a experimentação, em que são realizados protótipos e testes para identificar as melhores soluções. IV – A última etapa é a da evolução, em que se leva em conta o feedback da implementação da estratégia, estabelecendo ideias e soluções. Se o feedback for negativo, todo o processonegócio tenha diferenciais e acabe sobrepujando o outro. Dois mercadinhos de atuação semelhante vão dividir o mesmo mercado e a rentabilidade dos dois será sofrível – talvez ambos quebrem. Em mercados grandes o suficiente para acomodar dois ou mais competidores, quando a atuação de um é percebida como diferente e positiva, este naturalmente se sobrepõe aos outros e conquista espaço, crescendo mais rapidamente. Como vimos, esse é o papel da estratégia: criar vantagens competitivas dificilmente copiáveis pelos concorrentes. Observação O fator cópia é extremamente comum nos negócios. E não estamos falando de produtos falsificados, e sim de cópia de ideias sem proteção de registro oficial. Por exemplo, a Record tentou anos atrás copiar declaradamente (a própria emissora noticiou) a grade de programação da Globo. No início da noite, por décadas, a grade da Globo era: novela I (inicialmente às 18h, foi mudando para 18:20); jornalismo local (SP TV, RJ TV etc.); novela II (inicialmente às 19h, foi mudando para 19:30); jornalismo nacional (Jornal Nacional); novela III (inicialmente às 20h, foi mudando para 21:30); e variedades (filmes, programas e séries que variavam por noite). A Record copiou exatamente a mesma grade de programação e após anos acabou desistindo da cópia, pois não foi bem-sucedida como desejava: a audiência não mudou de canal em quantidade suficiente. O que se percebe é que a vantagem competitiva da Globo não é somente essa grade de programação: há inúmeros elementos exclusivos que a Record não conseguiu copiar. Se a Grécia Antiga criou o conceito da estratégia, coincidentemente no mesmo período histórico, por volta de 500 a.C., um general e filósofo chinês chamado Sun Tzu escreveu um livro impactante até hoje: A arte da guerra, obra em que o autor desenvolve várias técnicas estratégicas para derrotar um exército adversário. [...] o livro cobre todos os aspectos de como se fazer uma guerra e fornece grandes quantidades de conselhos estratégicos e filosóficos que ainda estão sendo usados como uma fonte de inspiração para políticos e líderes empresariais (AURIK; JONK; FABEL, 2014, p. 5). A obra em questão é um texto derivado daquilo que se concebia na época como guerra na China. Ou seja, há toda uma contextualização social, histórica e comportamental cujo conteúdo foi apropriado pela área da administração como uma metáfora: negócios são guerra. 16 Unidade I Tzu (2006) considera o conhecimento como o recurso mais importante, pois permite que o general consiga calcular os fatores vitoriosos na batalha. Conhece teu inimigo e conhece-te a ti mesmo; se tiveres cem combates a travar, cem vezes serás vitorioso. Se ignoras teu inimigo e conheces a ti mesmo, tuas chances de perder e de ganhar serão idênticas. Se ignoras ao mesmo tempo teu inimigo e a ti mesmo, só contarás teus combates por tuas derrotas. [...] Segue esse princípio. Não deixes escapar nenhuma oportunidade. [...] Se um general ignora o ponto fraco e o forte do inimigo que deve combater, se não conhece a fundo o terreno que ele ocupa no momento, nem os que pode ocupar em função das circunstâncias, talvez contraponha ao que há de melhor no exército inimigo o que há de pior no seu (TZU, 2006, p. 23-58). A apropriação do conteúdo pela área da administração é compreensível: esses trechos podem ser utilizados para abordar a importância da análise de pontos fortes e fracos do inimigo e assim poder sobrepujá-lo. Depois, estudaremos a análise SWOT e você poderá traçar suas próprias conjecturas a respeito. De maneira direta e utilizando o linguajar da época, Tzu (2006) descreve o que se pode interpretar como conceitos e aplicações de: • oportunidades; • ameaças; • uso do tempo como vantagem; • uso do espaço físico como vantagem; • eficiência e eficácia; • disciplina; • táticas. Saiba mais Há várias metáforas aplicáveis à área da administração na obra de Tzu, e sua leitura é recomendada. TZU, S. A arte da guerra. Tradução: Samuel B. Griffith [do chinês para o inglês]; Gilson César Cardoso de Souza e Klauss Brandini Gerhardt. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2006. 17 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Avancemos alguns séculos e passemos para a época do descobrimento do Brasil. Nicolau Maquiavel (Niccolò Machiavelli, originalmente, em italiano) foi filósofo, historiador, dramaturgo, diplomata e escritor. É considerado o precursor da teoria política, pois procurava descrever o Estado e os meios de governar de maneira direta e clara. Tanto é assim que um de seus livros, O príncipe, publicado em 1532, é editado e estudado com afinco até hoje pelos interessados em ciências políticas. Figura 10 – Nicolau Maquiavel Disponível em: https://bit.ly/3LfTz6x. Acesso em: 16 maio 2022. Contudo, em nosso resgate histórico, foi outro livro de Maquiavel, coincidentemente intitulado A arte da guerra, que trouxe grandes contribuições para entender estratégia. São sete volumes descrevendo “a organização do exército, a hierarquia de comando, a formação de soldados, o Estado-maior e os códigos de leis militares” (DAROS, 2017, p. 88). Para Maquiavel, a guerra deve ser um assunto de Estado e de responsabilidade do poder maior: o rei. [...] Muda de decisão quando perceberes que o inimigo a descobriu. Convém nos aconselharmos com muitos a respeito das coisas que devemos fazer; depois, devemos confiar a poucos aquilo que queremos fazer. [...] Cuidemos que nossos inimigos não saibam como queremos dispor nosso exército para a batalha. Em uma ordem de batalha é melhor prover reforços suficientes atrás da primeira linha do que uma frente mais ampla, com soldados dispersos. Dificilmente será vencido quem souber avaliar suas forças e as do inimigo. Mais vale a coragem dos soldados do que a multidão; e algumas vezes mais vale a situação do que o valor. [...] Quem persegue em desordem o inimigo, depois de vencê-lo, quer passar de vitorioso a derrotado. Quem não prepara os alimentos necessários para subsistir é vencido sem o emprego de armas. Os bons comandantes nunca se empenham em uma batalha se a necessidade não os impele, ou a oportunidade não os chama (MAQUIAVEL, 2007, p. 128). 18 Unidade I Veja que é possível discutir conceitos estratégicos como ameaças e oportunidades, bem como sigilo. Nenhum método é melhor do que aquele que o inimigo não percebe até o adotarmos. Na guerra, reconhecer a oportunidade e aproveitá-la vale mais do que qualquer outra coisa. A natureza não faz muitos homens bravos; a aplicação e o exercício, sim. Na guerra, a disciplina pode mais que o ímpeto (MAQUIAVEL, 2007, p. 127). A questão de recursos humanos treinados e disciplinados também é abordada, como pode ser visto no trecho anterior. Algumas décadas depois, o famoso samurai japonês Musashi escreveu suas ideias sobre guerra e estratégia: [...] o estudo do caminho da estratégia é o estudo de como vencer o homem. Através da vitória alcançada, cruzando espadas com outra pessoa ou enfrentando batalhas repletas de gente, conseguimos alcançar fama para nós próprios e para nossos senhores. Esta é a virtude da estratégia (MUSASHI, 2000, p. 41). Três séculos após, em 1832, um general prussiano chamado Carl Von Clausewitz publicou o livro Da guerra, conteúdo obrigatório para os estudantes de teoria militar em todo o mundo. Para nós, o que interessa é o conjunto de contribuições que ele deu para que possamos compreender estratégia. [...] o estrategista deve definir, portanto, uma meta para todo o aspecto operativo da guerra, que deverá estar de acordo com o seu propósito. Em outras palavras, ele esboçará o plano de guerra, e o propósito determinará a série de ações pretendidas para atingi-lo [...] (CLAUSEWITZ, 2010, p. 199). Observe que nesse trecho ele está descrevendo como uma estratégia se desdobra em planos de ação para atingir um objetivo. Qualquer situação determinada exige que sejam calculadas as probabilidades à luz das circunstâncias, e o tempo disponível para estes cálculosdas etapas anteriores deverá ser descartado. É correto o que se afirma somente em: A) I e II. B) II e III. C) I, II e IV. D) II, III e IV. E) I e III. Resposta correta: alternativa E. Análise da questão Na etapa de ideação, é recomendado que haja variedade e diversidade na equipe, para que as ideias também sejam diversificadas. Na etapa da evolução, não é necessário descartar completamente o processo diante do feedback negativo, pois é possível repensá-lo e adaptá-lo. 145 REFERÊNCIAS Audiovisuais FOME de poder. Direção: John Lee Hancock. EUA: The Weinstein Company, 2016. 115 min. O PATRIOTA. Direção: Roland Emmerich. EUA: Columbia Pictures, 2000. 165 min. TROIA. Direção: Wolfgang Petersen. EUA: Warner Bros, 2004. 163 min. VEJA como é feita a produção dos carros mais luxuosos do mundo, Rolls-Royce. [s.l], 2020. 1 vídeo (3m54s). Publicado por Razed Cars. Disponível em: https://bit.ly/3li2rya. Acesso em: 16 maio 2022. VOLKSWAGEN T-Cross 2020 – Linha de Produção em São José dos Pinhais. Paraná, 2019. 1 vídeo (4m27s). Publicado por Top Carros. Disponível em: https://bit.ly/3PqT3py. Acesso em: 16 maio 2022. Textuais 21º RANKING nacional das lojas de material de construção. Revista Anamaco, a. 29, n. 315, 2020. Disponível em: https://bit.ly/3Lxl63L. Acesso em: 16 maio 2022. ABDALLAH, A. Como transformar o planejamento estratégico em ação. Época Negócios, 8 jul. 2015. Disponível em: http://glo.bo/3LhOUkz. Acesso em: 16 maio 2022. ALMEIDA, F. C.; MACHADO NETO, A. J.; GIRALDI, J. M. E. Estrutura e estratégia: evolução de paradigmas. Revista de Gestão USP, São Paulo, v. 13, n. 2, p. 15-26, abr./jun. 2006. ALVES, E. J.; MAÑAS, A. V. Estratégia por diferenciação: uma proposta de vantagem competitiva através do composto de marketing e valor social. Revista Administração em Diálogo, São Paulo (PUC), v. 10, n. 1, 2008. Disponível em: https://bit.ly/3yEu0t8. Acesso em: 16 maio 2022. ANDREWS, K. R. The concept of corporate strategy. Abingdon: Routledge, 1971. ANSOFF, H. I. Corporate strategy: an analytic approach to business policy for growth and expansion. Nova York: McGraw-Hill Companies, 1965. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EMRPESAS DE PESQUISA (ABEP). Critério de classificação econômica: Brasil. Abep, 2018. p. 3. Disponível em: https://bit.ly/3yFHCEB. Acesso em: 16 maio 2022. AURIK, J.; JONK, G.; FABEL, M. The history of strategy and its future prospects. Seul: AT Kearney, 2014. BARNEY, J. B.; HESTERLY, W. S. Administração estratégica e vantagem competitiva. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007. 146 BOURGEOIS, L. J.; BRODWIN, D. R. Strategic implementation: five approaches to an elusive phenomenon. Strategic Management Journal, v. 5, n. 3, p. 241-264, jul./set. 1984. Disponível em: https://bit.ly/38xFRPd. Acesso em: 16 maio 2022. BROWN, T. Design Thinking: uma metodologia poderosa para decretar o fim das velhas ideias. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010. CARNEIRO JÚNIOR, J. B. A.; OLIVEIRA, N. A.; NIVEIROS, S. I. Balanced Scorecard em uma empresa do ramo de transporte revendedor retalhista. Revista Brasileira de Administração Científica, v. 11, n. 2, p. 81-97, abr./jun. 2020. Disponível em: https://bit.ly/3NjJ6IQ. Acesso em: 16 maio 2022. CERTO, S. C.; PETER, J. P. Administração estratégica: planejamento e implementação da estratégia. São Paulo: Makron, 1993. CHAFFEE, E. Three models of strategy. Academy of Management Review, v. 10, n. 1, p. 89-98, jan. 1985. Disponível em: https://bit.ly/38BybeC. Acesso em: 16 maio 2022. CHANDLER JUNIOR, A. D. Strategy and structure: chapters in the history of the American industrial enterprise. Cambridge: MIT Press, 1962. CHIAVENATO, I. Gestão de pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. 4. ed. Barueri: Manole, 2014. CHURCHILL JUNIOR, G. A.; PETER, J. P. Marketing: criando valor para os clientes. São Paulo: Saraiva, 2000. CLAUSEWITZ, C. V. Da guerra. Tradução: Michael Howard e Peter Paret [para o inglês]; Luiz Carlos Nascimento e Silva do Valle. São Paulo: Martins Fontes, 2010. CONTADOR, J. C. Campos e armas da competição: novo modelo de estratégia. São Paulo: Saint Paul, 2008. CONTADOR, J. C. Modelo para aumentar a competitividade industrial. São Paulo: Edgard Blücher, 2003. CONTADOR, J. C. Planejamento estratégico: recomendações sobre os ambientes externo e interno. Revista de Administração de Empresas – RAE, São Paulo, v. 35, n. 2, p. 43-56, mar./abr. 1995. Disponível em: https://bit.ly/3Ng1y50. Acesso em: 16 maio 2022. CONTADOR, J. C.; DE SORDI, J. O. Método de planejamento estratégico de sistemas de informação por campos e armas da competição. In: CONGRESSO ANUAL DE TECNOLOGIA DE INFORMAÇÃO, 2004, São Paulo. Anais [...]. São Paulo: FGV, 2004. COUTINHO, A.; PENHA, A. Design estratégico a partir do futuro: ficção e realidade já não estão mais separadas. Harvard Business Review, Brasil, set. 2015. Disponível em: https://bit.ly/3wikXwo. Acesso em: 16 maio 2022. 147 CREPALDI, S. A. Contabilidade gerencial: teoria e prática. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2012. D’AVENI, R. A. Hyper-competition: managing the dynamics of strategic maneuvering. Nova York: The Free Press, 1994. DA COSTA, M. A. M. et al. Campos e armas da competição: um modelo para formular estratégia de produção nas pequenas e médias empresas. RAI – Revista de Administração e Inovação, USP, v. 4, n. 3, p. 102-116, 2007. Disponível em: https://bit.ly/39wKZ6s. Acesso em: 16 maio 2022. DAFT, R. L. Organizações: teoria e projetos. 2. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2013. DALMAU, M. B. L.; TOSTA, K. B. T. Estratégia de gestão de pessoas. Curitiba: Iesde, 2009. DAROS, R. P. O pensamento estratégico em Sun Tzu, Maquiavel, Clausewitz e Carlos Matus. Gavagai – Revista Interdisciplinar de Humanidades, v. 4, n. 2, p. 83-102, jul./dez. 2017. Disponível em: https://bit.ly/3liBUAy. Acesso em: 16 maio 2022. DRUCKER, P. F. The practice of management: a study of the most important function in America society. Nova York: Harper & Brothers, 1954. DRUCKER, P. F. The theory of business. Harvard Business Review, p. 95-104, set./out. 1994. Disponível em: https://bit.ly/39rsMan. Acesso em: 16 maio 2022. DUTRA, J. S. Gestão de pessoas. São Paulo: Atlas, 2002. ENDEAVOR BRASIL. A matriz BCG no ciclo de venda: como identificar vacas-leiteiras e abacaxis. 28 ago. 2015. Disponível em: https://bit.ly/38r9Nwv. Acesso em: 16 maio 2022. FARRIS, P. W. et al. Métricas de marketing. Porto Alegre: Bookman, 2007. FERNANDES, B. H. R.; BERTON, L. H. Administração estratégica. São Paulo: Saraiva, 2014. FERRELL, O. C. et al. Estratégia de marketing. São Paulo: Atlas, 2000. FONSECA, M. Como Waze foi de startup a gigante – e por que o Brasil é tão importante. exame., 13 set. 2019. Disponível em: https://bit.ly/3wiZbJ7. Acesso em: 16 maio 2022. FREITAS, C. F. Infográfico: market share de vendas de cerveja no Brasil em 2019. Catalisi, 6 fev. 2020. Disponível em: https://bit.ly/3wv7Gjc. Acesso em: 16 maio 2022. GHEMAWAT, P. Competition and business strategy in historical perspective. Business History Review, Cambridge, v. 76, n. 1, p. 37-74, 2002. Disponível em: https://bit.ly/3sEaOrX. Acesso em: 16 maio 2022. GHEMAWAT, P.; RIVKIN, J. W. Creating competitive advantage. Boston: Harvard Business School Note, 2006. 148 GOMES, A. S. Havaianas: com o mundo a seus pés. Revista HSM Management, n. 48, jan./fev. 2005. Disponível em: https://bit.ly/3wjtyiw. Acesso em: 16 maio 2022. HITT, M. A.; IRELAND, R. D.; HOSKISSON, R. E. Strategic management: competition and globalization. Ontário: Western College, 1999. KAPLAN, R. S.; NORTON, D. P. A estratégia em ação: balanced scorecard. 2. ed. Rio de Janeiro: Campus, 1997. LAS CASAS, A. L. Administração de marketing: conceitos, planejamento e aplicações à realidade brasileira. São Paulo: Atlas, 2006. LAS CASAS, A. L. Marketing: conceitos, exercícios, casos. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2017. LOPES, M. A. Estudo da competitividade das empresas prestadoras de serviço autorizado de fabricante de ferramentaselétricas e pneumáticas por meio de campos e armas da competição. 220 f. 2002. Dissertação (Mestrado) – Universidade Paulista (UNIP), São Paulo, 2002. MANO, C. Para a MasterCard as opções são mudar ou morrer. exame., 27 nov. 2015. Disponível em: https://bit.ly/3yGKaCC. Acesso em: 16 maio 2022. MAQUIAVEL, N. A arte da guerra. Tradução: Eugênio Vinci de Moraes. Porto Alegre: L&PM, 2007. MAZZON, J. A.; KAMAKURA, W. A. Estratificação socioeconômica e consumo no Brasil. São Paulo: Edgar Blucher, 2016. MEIRELES, M. Armas e campos da competição: uma contribuição a gestão da vantagem competitiva. 362 f. 2000. Dissertação (Mestrado) – Universidade Paulista (UNIP), São Paulo, 2000. MELO, L. 44% dos planos estratégicos das empresas fracassam. exame., 19 ago. 2013. Disponível em: https://bit.ly/3PoZd9N. Acesso em: 16 maio 2022. MENDES, A. et al. O sucesso do Habib’s no Brasil. BH1, 12 abr. 2018. Disponível em: https://bit.ly/3Nh7cDR. Acesso em: 16 maio 2022. MINTZBERG, H. The strategy concept I: five Ps for strategy. California Management Review, v. 30, n. 1, p. 11-24, 1987. MINTZBERG, H.; AHLSTRAND, B.; LAMPEL, J. Safári da estratégia: um roteiro pela selva do planejamento estratégico. Porto Alegre: Bookman, 2000. MUMFORD, A. Aprendendo a aprender. São Paulo: Nobel, 2001. MUSASHI, M. O livro de cinco anéis. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000. 149 NOBLE C. H. The eclectic roots of strategy implementation research. Journal of Business Research, v. 45, n. 2, p. 119-134, 1999. Disponível em: https://bit.ly/3wlq2o0. Acesso em: 16 maio 2022. OHMAE, K. The strategic triangle: a new perspective on business unit strategy. European Management Journal, v. 1, n. 1, p. 38-48, 1982. Disponível em: https://bit.ly/3LdKQSs. Acesso em: 16 maio 2022. OLIVEIRA, M. H. O. Balanced scorecard: uma ferramenta útil para alinhar os interesses estratégicos de uma corporação e sua rede de revendas independentes. 1999. Dissertação (Mestrado) – Fundação Getulio Vargas, São Paulo, 1999. PINTO, C. O rombo do Nacional. Folha de S. Paulo, 4 fev. 1996. Disponível em: https://bit.ly/37OEXxk. Acesso em: 16 maio 2022. PORTER, M. Competição: estratégias competitivas essenciais. 4. ed. Rio de Janeiro: Campus, 1999. PORTER, M. Competitive advantage: creating and sustaining competitive performance. Nova York: The Free Press, 1986. PORTER, M. Competitive strategy: techniques for analyzing industries and competitiors. Nova York: Free Press, 1980. PORTER, M. The competitive advantage of nations. Nova York: Free Press, MacMillan, 1990. PWC BRASIL. Fusões e aquisições. Busca por ano de divulgação. 2021. Disponível em: https://pwc.to/38q4gpX. Acesso em: 16 maio 2022. RECHE, M. M.; JANISSEK-MUNIZ, R. Inteligência estratégica e Design Thinking: conceitos complementares, sequenciais e recorrentes para estratégia inovativa. Revista Future Studies, São Paulo (Profuturo-FIA/USP), v. 10, n. 1, p. 82-108, jan./abr. 2018. Disponível em: https://bit.ly/3PC3Ygv. Acesso em: 16 maio 2022. RIEPER, M. Planilha BCG Excel/matriz BCG Excel/planilha BCG. Guia do Excel, [s.d.]. Disponível em: https://bit.ly/3ldCjEz. Acesso em: 16 maio 2022. ROSSI, C. A. V.; LUCE, F. B. Construção e proposição de um modelo de planejamento estratégico baseado em 10 anos de experiência. In: ENCONTRO ANUAL DA ANPAD, 23., 2002, Salvador. Anais [...]. Salvador: Anpad, 2002. SAITO, R.; SILVEIRA, A. M. Governança corporativa: custos de agência e estrutura de propriedade. Revista de Administração de Empresas – RAE, São Paulo, v. 48, n. 2, p. 79-86, abr./jun. 2008. Disponível em: https://bit.ly/3lhkfcI. Acesso em: 16 maio 2022. SCHNEIDER, L. C. Pensamento estratégico organizacional: origens, evolução e principais influências. In: VI ENCONTRO DE ESTUDOS EM ESTRATÉGIA (3Es), 2013. Bento Gonçalves (RS), 2013. 150 SCHOLES, K.; JOHNSON, G.; WHITTINGTON, R. Exploring corporate strategy. Nova Jersey: Financial Times Prentice Hall, 2002. SENGE, P. The fifth discipline: the art & practice of the learning organization. Nova York: Doubleday Currency, 1990. SERRALVO, F. A.; PRADO, K. P. L. A.; LEAL, C. A. M. A importância do reposicionamento de marcas no contexto competitivo: o caso das sandálias havaianas. XXX ENCONTRO DA ENANPAD, 2006. Salvador, 2006. SOBRAL, F.; PECI, A. Administração: teoria e prática no contexto brasileiro. 2. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2013. SOLOMON, E. Teoria da administração financeira. Rio de Janeiro: Zahar, 1969. SOUSA, M. G. P.; RODRIGUES, L. M. P. L. O Balanced Scorecard: um instrumento de gestão estratégica para o século XXI. Porto: Rei dos Livros. 2002. TARAPANOFF, K.; GREGOLIN, J. A. R. Inteligência organizacional e competitiva. Brasília: UNB, 2001. TORQUATO, M.; WILLERDING, I. A. V.; LAPOLLI, É. M. A ferramenta Design Thinking: uma estratégia da gestão empreendedora da inovação para o despertar criativo em organizações. In: XVI CONGRESSO LATINO-IBEROAMERICANO GESTÃO DA TECNOLOGIA, 2015. Porto Alegre, 2015. TZU, S. A arte da guerra. Tradução: Samuel B. Griffith [do chinês para o inglês]; Gilson César Cardoso de Souza e Klauss Brandini Gerhardt. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2006. VALADOR, N. R. C. Indicadores-chave de desempenho (KPIs) do departamento de F&B: análise de uma cadeia hoteleira. Dissertação (Mestrado) – Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar, Peniche, 2015. WRIGHT, P.; KROLL, M.; PARNELL, L. Administração estratégica: conceitos. São Paulo: Atlas, 2000. ZACCARELLI, S. B.; FISCHMANN, A. A. Estratégias genéricas: classificação e usos. Revista de Administração de Empresas – RAE, São Paulo, v. 34, n. 4, p. 13-22, 1994. Disponível em: https://bit.ly/3yH0HWV. Acesso em: 16 maio 2022. 151 152 Informações: www.sepi.unip.br ou 0800 010 9000dependerá do ritmo em que estão se realizando as operações. [...] A estratégia determina o momento e o lugar em que será travado o engajamento e as forças que dele participarão, e através desta tríplice atividade exerce uma considerável influência sobre o seu resultado. Uma vez travado um combate tático e estando assegurado o resultado, seja a vitória, seja a derrota, a estratégia o usará para servir ao propósito da guerra (CLAUSEWITZ, 2010, p. 88-220). Há inúmeras contribuições para o estudo de estratégia a partir de Von Clausewitz. 19 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Assim, podemos perceber que tanto o conceito quanto a aplicação de estratégia ficaram restritos ao campo militar durante séculos. Pense nas guerras travadas pelo Império Romano, ou por Marco Polo, ou por Napoleão Bonaparte: todas implicavam a adoção de estratégias para derrotar o inimigo. Saiba mais Os filmes a seguir são exemplos de aplicação de estratégias militares: O PATRIOTA. Direção: Roland Emmerich. EUA: Columbia Pictures, 2000. 165 min. Esse filme mostra um fazendeiro americano lutando contra o exército colonial inglês em 1776 utilizando estratégias vencedoras. TROIA. Direção: Wolfgang Petersen. EUA: Warner Bros, 2004. 163 min. Esse filme destaca o mito do cerco e conquista estratégica da cidade-Estado de Troia, na Grécia, em 1250 a.C. 2.1.1 Período de 1900 a 1950 Na primeira metade do século XX, a evolução dos negócios se deu mais por crescimento de demanda do que por concorrência pelos mesmos mercados. Pode-se dizer que na época qualquer coisa produzida tinha demanda certa. Assim, a maioria das empresas estava mais ligada a políticas de negócios voltadas para melhoria de procedimentos, aumento de produção e geração de retorno para os acionistas, sem se preocupar muito em ser melhor que a concorrência: havia mercado para todos, de certa forma. No caso de Europa e EUA, quando o mercado doméstico apresentasse dificuldade concorrencial, nada melhor que exportar os excedentes e dominar novos mercados em outros países. Estratégia em termos de ser melhor que o concorrente ainda não era uma necessidade clara para a maior parte dos negócios, por assim dizer. Isso foi comum na maioria dos ramos de negócio até a Segunda Guerra. Obviamente, nem sempre era tão fácil assim. Alguma concorrência naturalmente iria surgir com o tempo. Desde o início, já havia alguns setores bem competitivos, a exemplo do setor de automóveis. Você provavelmente conhece a história do Ford modelo T, que em 1913 foi o primeiro produto feito em linha de montagem de manufatura seguindo os ditames da administração científica de Taylor. O sucesso de Henry Ford foi enorme, e ele dizia que você poderia escolher qualquer cor para o Ford T, desde que fosse a cor preta, pois a padronização era total. 20 Unidade I A) B) Figura 11 – Linha de produção da Ford em 1913. Henry Ford e o Ford Modelo T Disponível em: A) https://bit.ly/3wvHoNN; B) https://bit.ly/3FXo00j. Acesso em: 16 maio 2022. Em razão do aspecto apresentado, a Ford perdeu a liderança para a General Motors (GM) na década de 1920. Em 1923, o novo presidente da GM, Alfred Sloan, estudou os métodos da Ford e achou um ponto fraco: oferta de uma única cor. Lançou modelos diferentes com várias cores e foi um sucesso. Parece simples e mágico, mas foi um processo bastante complicado. Sloan, sem ser um teórico, mostrou a possibilidade de tomar decisões estratégicas baseadas na análise da concorrência para atingir objetivos. O resultado foi a conquista da liderança da GM no mercado americano, e a liderança do mercado mundial na década de 1950, quando Sloan saiu da presidência da companhia. No Brasil, a IRFM (Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo) foi a maior organização empresarial da América Latina. Baseado em São Paulo, o grupo chegou a ter 350 empresas de vários ramos, como têxtil, químico, bancário e alimentício. Surgiu em 1891 e faliu na década de 1980. O principal motivo foi a concorrência. Enquanto não tinha concorrente, vendia tudo o que fabricava. Ou seja, não tinha vantagem competitiva sustentável. Vamos voltar aos militares por um instante. O maior conflito armado do século passado, a Segunda Guerra (1939-1945), além das tragédias humanas e econômicas, criou uma circunstância inusitada após o seu término: a desmobilização da maioria dos combatentes. Imagine haver milhares de oficiais experientes em estratégia militar perdendo o emprego nas forças armadas ao mesmo tempo em que a Europa precisava de reconstrução e os EUA se consolidavam como a maior potência econômica. Uma boa parte do alto oficialato americano foi contratada por grandes conglomerados industriais americanos em altos cargos (inclusive na GM). E isso não era necessariamente uma ação de agradecimento ou de relações públicas: a visão estratégica desses ex-oficiais poderia contribuir muito para o crescimento das empresas. Tenha em mente que um dos aspectos da estratégia é a gestão de recursos. E, sob o ponto de vista de características pessoais, haja disciplina e respeito à hierarquia. Essa circunstância fortuita trouxe para muitas organizações a aplicação prática de conceitos estratégicos. Naturalmente, esse aspecto atraiu a curiosidade de acadêmicos. 21 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Observação Nesse instante, é válido discutir um tópico paralelo: as teorias acadêmicas que se estudam nas universidades, independetemente da área, são fruto da observação da realidade. Isaac Newton escreveu a Teoria da Gravitação baseado em experiências observáveis. Taylor escreveu sobre administração científica observando e intervindo na produção. Kotler escreveu sobre marketing observando e pesquisando o sucesso e fracasso de empresas. Toda teoria é fruto de algo examinado, e quando a teoria é publicada e aceita por outros pesquisadores da área, passa a ser considerada válida, até que surja uma nova teoria que a suplante. A presença militar nas empresas gerou massa crítica de aplicação de estratégias, nem todas bem-sucedidas, é evidente. Esse fato gerou curiosidade intelectual na academia, o que abriu espaço nas pesquisas de administração. Assim, na década de 1950, um russo radicado nos EUA chamado Igor Ansoff publicou suas ideias sobre estratégia empresarial que culminaram na matriz Ansoff, também chamada de matriz produto/mercado. Essa matriz é uma ferramenta que auxilia executivos a tomar decisões estratégicas até hoje e traz as primeiras definições sedimentadas de estratégia empresarial. 2.1.2 A matriz produto/mercado de Ansoff Igor Ansoff, executivo de topo da empresa americana de aviões militares Lockheed Corporation, era também um acadêmico brilhante que observou e mapeou as distintas realidades das grandes empresas e percebeu o valor da estratégia como um meio de fazer as empresas crescerem. Ansoff (1965) postulava que estratégia só tinha aplicação para empresas que queriam crescer. Hoje sabemos que estratégia não atende somente objetivos de crescimento (estudaremos neste livro-texto), mas na época pós-Segunda Guerra, com tantas oportunidades de crescimento no mercado americano, a observação de Ansoff ficou restrita a esse objetivo. Mesmo assim, foi um início formidável, já que a matriz produto/mercado pode ser utilizada por qualquer empresa até hoje em qualquer lugar do mundo com razoáveis possibilidades de sucesso. É preciso entender melhor a ideia conceitual de estratégia de crescimento. Pela visão de Ansoff, caso a empresa continuasse a fazer o que sempre fazia, não teria crescimento, faturando basicamente o mesmo valor do período anterior. Caso adotasse uma estratégia, cresceria x% sobre o período anterior (se a estratégia fosse bem-sucedida, claro). Veja o gráfico a seguir. Ansoff dizia que, sem estratégia de crescimento, a tendência seria a empresa permanecer com o mesmo faturamento após um período (cor azul). Se adotasse uma estratégia de crescimento bem-sucedida, teria faturamento “azul + laranja”, sendo laranja o acréscimo de vendas advindoda estratégia bem-sucedida. 22 Unidade I Ano 1 Ano 2 Figura 12 – Gráfico conceitual de crescimento Claro que é uma visão reducionista, pois no mundo real nada garante que o faturamento permaneça o mesmo. Mas entenda que na época a economia americana, campo de estudo de Ansoff (1965), estava em franco desenvolvimento, assim, mesmo sem muito esforço, a maioria das empresas americanas reuniam condições de continuar faturando. Quadro 1 – Matriz de Ansoff Produtos Existentes Novos M er ca do s Ex ist en te s Penetração de mercado Desenvolvimento de produtos N ov os Desenvolvimento de mercado Diversificação Adaptado de: Porter (1999). Ansoff (1965) postulava que há duas variáveis para a empresa escolher ao definir sua estratégia, cada uma com duas escolhas: • Mercados: a empresa escolhe em atender aos novos clientes ou atender aos clientes existentes (atuais). Os novos clientes podem ser de outras praças (regiões geográficas), de outra classe econômica (A, B, C, D ou E), de outro gênero (masculino ou feminino) etc. Ou seja, são pessoas ou empresas que não são atendidas pelo produto e que reúnem condições para virarem compradores. O esforço para atrair novos clientes é sempre maior que o esforço para manter os clientes atuais. 23 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA • Produtos: a empresa foca em novos produtos ou em produtos existentes (atuais). Os novos produtos podem ser variação dos produtos atuais (novo sabor, embalagem, benefício), totalmente novos etc. O ponto é que há lançamento de novo produto. Ao observar o quadro anterior, as duas variáveis estão lá: mercados e produtos. Mercados conta com duas divisões, “novos” e “existentes”, o que ocorre também com produtos. O cruzamento dessas variáveis traz quatro estratégias: penetração de mercado, desenvolvimento de mercado, desenvolvimento de produto e diversificação. • Se a empresa opta por continuar vendendo os produtos existentes para os mercados (clientes) existentes, estará realizando a estratégia de penetração de mercado. O crescimento que se espera dessa estratégia é oriundo do aumento do tíquete médio (valor médio de compra por cliente). A cor laranja no gráfico de crescimento é fruto do aumento do tíquete médio. Por exemplo, uma papelaria de bairro opta por atender aos clientes habituais com novas promoções e ofertas dos produtos que sempre vendeu ou uma empresa de cartão de crédito incentiva o uso mais frequente de seus cartões. A ideia é aumentar a compra média de cada cliente. • Se a empresa optar pela estratégia de desenvolvimento de mercado, estará buscando novos clientes para vender os produtos atuais. Note que isso não significa que está abandonando os clientes atuais. Significa que o esforço mercadológico será voltado para novos clientes e que os clientes atuais serão atendidos normalmente. Ou seja, os clientes atuais serão o faturamento azul do gráfico anterior, e os novos clientes serão o faturamento laranja. Para buscar novos clientes, o usual é entrar em novas praças ou passar a vender em outro tipo de varejo. A Netflix adota essa estratégia ano após ano: procura atrair novos clientes sem deixar de atender clientes antigos. Um ramo de atividade que sempre adota essa estratégia é o educacional. Escolas, faculdades e universidades sempre estão procurando atrair novos alunos, uma vez que os formandos vão embora após a conclusão dos cursos. • Ao optar por desenvolvimento de produtos, a organização cresce vendendo novos produtos para a clientela de sempre. No gráfico anterior, essas vendas a mais são representadas pela cor laranja, ficando para a cor azul o faturamento dos produtos atuais junto ao mesmo público. A Nestlé lança novos produtos frequentemente, e todos atendem ao público consumidor de sempre. O ramo de confecções costuma lançar produtos e substituir as coleções anteriores, que continuam vendendo até acabar o estoque. • A última estratégia de crescimento postulada por Ansoff (1965) é a mais arriscada: diversificação. Note que as estratégias anteriores sempre partem de ao menos uma “âncora” que a empresa conhece (ou mercado, ou produto, ou ambos). Aqui o território é inteiramente novo. O crescimento vem da venda de novos produtos para novos mercados. Ou seja, vou vender algo que nunca vendi para um cliente que não me conhece: eis o risco inerente a essa estratégia. Porém, uma regra básica de negócios diz o seguinte: quando o risco é alto, os ganhos também devem ser. Assim, essa estratégia, quando bem-sucedida, pode ser mais rentável que as outras três. Como exemplo, em 1999 o Bank of America investiu na criação do Econ Supermercados, uma rede de 24 Unidade I supermercados de bairro em São Paulo focada em perecíveis e produtos de limpeza voltada para as classes C e D. Veja que o público é novo (o Bank of America era focado em grandes empresas) e o produto também (o Bank of America vendia produtos financeiros). A ideia era fazer o negócio crescer e depois vender toda a operação. Com efeito, cinco anos depois o negócio foi vendido para o Grupo CBA com excelente retorno. A partir de Ansoff, inúmeros acadêmicos se debruçaram no tema e contribuíram para a evolução teórica da administração estratégica. 2.1.3 Período das décadas de 1950 e 1960 Peter Drucker, considerado o maior gênio da administração, escreveu mais de trinta livros de rigor intelectual e, ao mesmo tempo, de fácil compreensão. Uma de suas contribuições à estratégia foi o livro The practice of management, de 1954, obra em que defende que o negócio é determinado pelo cliente e suas necessidades. Veja a linha de pensamento inovadora para a década de 1950: não é o dono (ou acionista) do negócio quem determina sua existência: é o cliente. Drucker (apud GHEMAWAT, 2002, p. 39) argumentava que o comportamento do gestor não é simplesmente passivo e adaptativo diante do ambiente, e sim ativo e propositivo, realizando ações que permitam atingir os objetivos estratégicos. Para Drucker (1954, p. 22), “estratégia é a análise de situação atual e de mudanças, se necessárias. Incorpora-se a essa análise os recursos disponíveis e os que precisam ser adquiridos”. Drucker também desenvolveu na década de 1950 a APO (administração por objetivos), em que gestores e subordinados estabelecem objetivos comuns e definem suas áreas de responsabilidade com foco nos resultados. Assim, todos perseguem objetivos desdobrados em metas verificáveis e controláveis. A APO surgiu quando a empresa privada norte-americana recebia pressões acentuadas com intervenções e controles governamentais. Os empresários viram cair suas margens de lucros e a necessidade de reduzir despesas, de focar mais os resultados do que esforços supérfluos e dispersivos. A pressão econômica tinha gerado uma gestão por pressão, forçando as empresas a endurecer seus controles. A seguir, as empresas buscaram uma forma de equilibrar objetivos, aumentar a participação, descentralizar decisões, permitir autocontrole e autoavaliação, maior liberdade e relaxamento de controles. Surgiu a descentralização e a administração por resultados para reverter o processo: fixação de objetivos para cada área-chave da empresa, descentralização das decisões e centralização de controles. Cada departamento escolheria como atingir os resultados. Aboliram-se os órgãos de staff, ficando a cargo de cada departamento a criação de serviços de que necessitasse para atingir seus objetivos, o que fortaleceu a posição de autoridade dos respectivos gerentes (CHIAVENATO, 2004, p. 228). 25 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Chandler (1962) estudou as mudanças históricas de grandes organizações dos EUA (GM, Du Pont, Standard Oil e Sears, entre outras) sob o ponto de vista da estrutura de negócios. Percebeu que a maioria utilizava um modelo descentralizado de gestão, com várias unidades de negócios sendo controladas por um escritório central, e que as mudanças estruturais (fábricas, recursos etc.) eram guiadas pelos objetivos de longo prazo. Nessa discussãosobre estratégia e estrutura empresarial, formularam-se as bases do planejamento estratégico: “É a determinação de metas e objetivos de longo prazo de uma empresa, e a adoção das linhas de ação e aplicação dos recursos necessários para alcançar essas metas” (CHANDLER, 1962, p. 23). George Steiner (apud MINTZBERG; AHLSTRAND; LAMPEL, 2000) definiu em 1969 o modelo de planejamento estratégico como uma sequência de etapas: • Fixação de objetivo: métodos e procedimentos para estabelecer metas que, somadas, atendem a objetivos. • Auditoria externa: envolve procedimentos de checagem (cheklists) e de projeção de tendências futuras. • Auditoria interna: verificação de atividades-chave para atingir os objetivos. • Avaliação da estratégia: análise de riscos e de perspectivas financeiras. • Operacionalização da estratégia: detalhamento das ações desdobradas em tarefas seguindo procedimentos hierárquicos. • Programação do processo: desenvolvimento de cronogramas com feedback e controle. Schneider (2013) comenta que a década de 1960 viu surgir duas das mais famosas empresas de consultoria ligadas à estratégia: Boston Consulting Group (BCG) e a McKinsey & Company. Ambas desenvolveram métodos de análise de mercado que são largamente utilizados até hoje, como a matriz BCG e a matriz GE (também chamada matriz McKinsey). 2.1.4 Matriz BCG É uma ferramenta de análise de portfólio de produtos. A partir de dados numéricos de volume de vendas próprio e da concorrência, taxa de crescimento de mercado e representatividade no faturamento da empresa para cada um dos produtos oferecidos ao mercado (portfólio de produtos), é plotado um gráfico com padronização conceitual que permite analisar a situação de mercado de cada um. A figura a seguir mostra um gráfico pronto da matriz BCG de uma empresa farmacêutica em determinado ano. 26 Unidade I Participação de mercado relativa Crescimento de mercado Vacas-leiteiras Abacaxis Estrelas Pontos de interrogação Dorian Pentrix Eviron Lotran Zodial Bendac Braviton Xantax Energan Longal 24 21 18 14 11 8 2.0 1.6 1.2 0.8 0.4 0.0 Figura 13 – Exemplo de matriz BCG. Cada círculo é um produto da empresa, e a distribuição nos quadrantes indica sua situação Adaptada de: https://bit.ly/3Pk5nIp. Acesso em: 16 maio 2022. Os círculos são os produtos da empresa, e o tamanho de cada círculo ilustra proporcionalmente a representatividade do faturamento do produto no total da companhia. Quanto maior o círculo, maior o percentual no faturamento da empresa. Um círculo duas vezes maior que outro indica que o primeiro produto tem o dobro de participação no faturamento da empresa. A posição dos círculos na vertical no gráfico obedece a uma métrica específica: quanto mais para o alto, maior a taxa de crescimento do mercado do produto. Não é a taxa de crescimento do produto em si, mas a taxa de crescimento de todo o mercado desse produto. A linha divisória é a taxa de crescimento do país (do PIB). O motivo é simples: a taxa de crescimento de PIB é, resumidamente, a média de crescimento de todos os mercados do país. Portanto, produtos cujo mercado crescem mais que o PIB têm alto crescimento (cresceram mais que a média de tudo no Brasil), e mercados com crescimento inferior ao PIB têm baixo crescimento (pela mesma lógica). Por exemplo, o crescimento do PIB brasileiro de 2019 foi de 1,1%. O mercado brasileiro de computadores em 2019 foi de 1,2%. Portanto, numa matriz BCG de qualquer fabricante de computadores seus produtos estariam acima da linha divisória. No gráfico, o mercado de produtos equivalentes ao Pendrix cresceu mais que o de Bendac e menos que o de Dorian, e tanto o mercado de Pendrix quanto o de Dorian cresceram mais que o PIB. Lembre-se de que se trata da taxa de crescimento do mercado do produto, e não do produto em si. 27 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA A posição na horizontal também tem uma métrica específica: quanto mais para a esquerda, maior a participação relativa de mercado. Quanto mais à direita, menor a participação relativa. Essa métrica compara a participação de mercado do produto e de seu principal concorrente (quando o produto é líder, o principal concorrente é o segundo colocado; quando o produto não é líder, o principal concorrente é o líder). O resultado é participação relativa de mercado. Por exemplo, se meu produto tem 30% de participação e meu principal concorrente tem 20%, logo, 30/20 = 1,5. Como a linha divisória assume sempre o valor 1, meu produto (o círculo) estará localizado à esquerda da linha divisória na localização 1,5. No gráfico, vemos que Dorian, Pendrix, Bendac, Eviron e Lotran são líderes de seus respectivos mercados, uma vez que todos estão à esquerda da linha divisória. Os outros produtos do gráfico não são líderes de seus mercados, e quanto mais à direita estiverem, mais distantes estarão da participação do líder. Para analisar a matriz BCG, é preciso entender os conceitos de cada quadrante. Quadro 2 Estrela Ponto de interrogação Vaca-leiteira Abacaxi Alto Al to Produtos Baixo Ba ix o Cr es ci m en to d o m er ca do -p ro du to As metáforas por trás da nomenclatura da matriz anterior ajudam a entender o conceito. • Estrela: alto crescimento de mercado com alta participação relativa de mercado. Ou seja, dentro desse quadrante entram os produtos que são estrelas de Hollywood: lideram um mercado que cresce mais que o PIB. Produtos nesse quadrante são naturalmente atacados pelos concorrentes, pois o mercado é atrativo e o líder é normalmente o alvo. Exemplo: Amazon.com é uma empresa americana líder em comércio eletrônico que, em função da pandemia de 2020, atuou num mercado com altas taxas de crescimento. Outro exemplo são os produtos alimentícios de moda passageira como empadas gourmet, brigadeiros gourmet, paleterias (sorvetes estilo mexicano) etc. Durante alguns poucos anos, enquanto está na moda, algum player é líder de um mercado que cresce a taxas assombrosas, ficando na posição de estrela. Depois de a moda passar, esses produtos enfrentam queda de venda até praticamente deixarem de existir, mudando de local na matriz BCG. 28 Unidade I • Ponto de interrogação: alto crescimento de mercado com alta participação relativa. Produtos que não são líderes de um mercado que cresce bastante. Assim, esse mercado atrai novos players e os players atuais aproveitam a taxa de crescimento alta, disputando entre si. O ponto de interrogação surge em função da dúvida, isto é, se a empresa vai manter um produto em mercado tão disputado, pois naturalmente são necessários investimentos pesados para manter a participação. Exemplo: concorrentes da Netflix, como Amazon Prime Video, HBO Go, iTunes Store etc. Não são líderes em um mercado que cresce muito e cuja disputa envolve altos investimentos. No exemplo anterior de produtos gourmet, exceto o líder, todos os players ficam na posição de ponto de interrogação enquanto a moda persistir. • Vaca-leiteira: toda organização deveria ter ao menos uma. São produtos líderes cujo mercado apresenta baixa taxa de crescimento, portanto não atrai novos players. A metáfora da vaca-leiteira é precisa: dá leite todo dia e não dá muito trabalho. Ou seja, gera mais recursos do que exige para se manter. O exemplo clássico é a VW Kombi no Brasil, que desde o lançamento, em 1957 (foi o primeiro produto da VW no Brasil), foi líder, e nos últimos anos de vida esteve num mercado com baixas taxas de crescimento. Os executivos da VW Brasil diziam que a Kombi era dinheiro em caixa: não se investia praticamente nada (exceto na produção e transporte) e cada unidade nas concessionárias encontrava comprador sem problemas. Em 2014 a legislação exigiu airbags em todos os carros, e o custo de adaptar na Kombi era proibitivo, criando uma situação incompreensível para quem está de fora do mercado: líder que gera lucro permanente sendo descontinuado. Outro exemplo clássico de vaca-leiteira é o Bombril. Líder inconteste há décadasdo mercado de palha de aço, gera receita na venda em altos volumes, com lucro unitário pequeno, mas não exige muitos recursos para se manter. • Abacaxi: produtos que não são líderes e cujo mercado apresenta baixa taxa de crescimento. A metáfora do abacaxi é essa: vale a pena descascar esse abacaxi? A primeira coisa a avaliar é a rentabilidade. Se não estiver num patamar aceitável para os objetivos da organização, provavelmente valerá a pena descontinuar o produto. A posição do círculo no gráfico também deve ser analisada. Se estiver muito para baixo e muito para a direita, significa que a taxa de crescimento do mercado é muito baixa e que o produto tem participação de mercado muito distante do líder, e talvez valha a pena descontinuar. Um exemplo de abacaxi é dos tablets Samsung, Huawei, Lenovo e outros. A liderança do mercado mundial de tablets é da Apple, e a taxa de crescimento de mercado é negativa (vai caindo ano após ano). Na matriz BCG da Samsung, Huawei e Lenovo, seus produtos estão no quadrante de abacaxi, pois não são líderes de um mercado que cresce pouco (no caso, diminui). 29 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Saiba mais Você mesmo pode montar uma matriz BCG se tiver os dados em mãos. O site indicado a seguir ensina o passo a passo para elaborar o gráfico utilizando o MS-Excel. RIEPER, M. Planilha BCG Excel/matriz BCG Excel/planilha BCG. Guia do Excel, [s.d.]. Disponível em: https://bit.ly/3ldCjEz. Acesso em: 16 maio 2022. Com o gráfico pronto, você pode analisar seguindo a lógica da matriz. Consulte a referência a seguir: ENDEAVOR BRASIL. A matriz BCG no ciclo de venda: como identificar vacas-leiteiras e abacaxis. 28 ago. 2015. Disponível em: https://bit.ly/38r9Nwv. Acesso em: 16 maio 2022. Essa ferramenta de análise, por ter métricas internas claras e por permitir analisar vários fatores externos em conjunto das métricas definidas, é bastante utilizada por empresas cujos mercados são auditados externamente, pois tem acesso a todos os dados requeridos para fazer a matriz. No Brasil, as duas empresas que fazem regularmente auditoria de dados de mercado são a Nielsen, para produtos de consumo, e a Close-Up, para produtos farmacêuticos. A Nielsen é uma multinacional de pesquisa e inteligência de mercado que atua em mais de cem países. No Brasil, há décadas é o principal fornecedor de dados de mercado (participação, preços, locais de distribuição etc.). Seu levantamento de dados abrange mais de 150 categorias de produto de alimentos, higiene/limpeza, eletroeletrônicos. Canais varejistas como supermercados, mercearias, bares, farmácias, perfumarias e papelarias fornecem dados de vendas e estoque à Nielsen para serem inseridos numa base de dados que gera relatórios variados. O varejo que participa cedendo dados tem acesso gratuito aos relatórios. A indústria paga pelos relatórios. A Nielsen é a fonte para os dados que você lê regularmente na mídia, como a participação de mercado da Coca-Cola ou o crescimento do mercado de papel higiênico. A Close-Up International é uma multinacional de consultoria e pesquisa de mercado para a indústria farmacêutica e realiza coleta de dados de maneira equivalente à Nielsen: auditoria de estoque e vendas. 2.1.5 Matriz GE/McKinsey A matriz GE (ou McKinsey) é uma ferramenta de análise de unidades de negócio e foi criada originalmente pela consultoria McKinsey para atender à empresa General Electric. Os dados de análise levam em consideração o nível de atratividade do ramo de atividade e a força competitiva da unidade de negócio. 30 Unidade I Ghemawat (2002) comenta que em 1968 o presidente da General Electric contratou a consultoria McKinsey & Company para examinar a estrutura corporativa da organização, que na época era composta de 145 departamentos dispostos em dez diretorias. A lógica do arranjo organizacional era de controle financeiro. Os consultores da McKinsey consideraram esse arranjo inadequado, pois os departamentos eram voltados para dentro (controles financeiros internos), e propuseram uma estrutura baseada em linhas de estratégia alinhadas com as condições externas (de mercado). A nova estrutura teria divisões em unidades estratégicas de negócios e, de fato, foi implementada. Alguns anos depois, a GE contratou novamente a McKinsey para auxiliar na avaliação das estratégias das unidades de negócio recém-criadas. Após usar a matriz BCG, a GE sentiu necessidade de ir além das variáveis básicas taxa de crescimento de mercado e participação relativa de mercado, que geravam somente quatro possibilidades na matriz (estrela, vaca-leiteira, ponto de interrogação e abacaxi). Assim, encomendou uma nova ferramenta mais adequada para suas necessidades. O resultado foi uma matriz de nove quadrantes que utilizava dez variáveis para análise aprofundada. Por ter sido criada para a uma demanda específica da General Electric, a matriz é voltada para analisar unidades de negócio, e não para produtos em si (muito embora seja possível adaptar). A ferramenta permite que sejam tomadas decisões de investimento, colheita e retração. A matriz parte de dois eixos: atratividade da indústria e força da unidade do negócio. A atratividade da indústria mede o quanto o ramo de atividade da unidade de negócios é atrativo para investimentos. Há um cálculo econométrico que cria três intensidades de atratividade (baixa, média ou alta) a partir dessas variáveis: • tamanho do mercado; • preço atual e projetado; • oportunidades de crescimento; • rentabilidade; • distribuição e logística. A força da unidade de negócio mede o quanto a unidade de negócio reúne de vantagens competitivas defensáveis. Trata-se de um cálculo econométrico que cria três intensidades de força (baixa, média ou alta) a partir dessas variáveis: • força da marca; • força da empresa; • fidelidade dos clientes; • capacidade de inovar. 31 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Após os cálculos, define-se a posição de cada unidade de negócios na matriz: Investimento cauteloso Colheita Zona de perigo Investimento seguro Investimento cauteloso Colheita Investimento prioritário Investimento seguro Investimento cauteloso Baixa Média Alta Ba ix a M éd ia Al ta Força da unidade de negócio At ra tiv id ad e da in dú st ria Figura 14 – Matriz GE/McKinsey Adaptada de: Ghemawat (2002). A análise da matriz pronta consiste em entender o significado da posição em cada um dos nove quadrantes. Cada unidade de negócio estará posicionada em um desses quadrantes: Quadro 3 – Interpretação dos quadrantes da matriz GE/McKinsey Investimento prioritário A unidade de negócio que estiver neste quadrante deve ter atenção especial com investimentos prioritários. É o melhor dos casos possíveis Investimento seguro Vale a pena realizar investimentos, pois as perspectivas de crescimento e rentabilidade são promissoras Investimento cauteloso Unidades de negócio neste quadrante merecem algum investimento se for possível, pois estão em ordem de prioridade 3. Há riscos de investimento que devem ser analisados Colheita Só vale a pena manter se houver geração de lucros satisfatórios, e o investimento deve ser focado basicamente em manter a operação funcionando. Caso contrário, vale a pena se retirar do ramo de atividade Zona de perigo É recomendável parar de investir nesta unidade de negócio e se retirar do ramo de atividade, pois não há perspectivas futuras positivas Adaptado de: Ghemawat (2002, p. 49). Assim, a alta direção da GE teve condições de analisar metodicamente suas unidades de negócio e tomar decisões estratégicas de investimento a partir de então. 32 Unidade I 2.1.6 Michael Porter e estratégia As discussões acadêmicas sobre estratégia das décadas de 1980 e 1990 são notavelmente dominadas por Michael Porter por meio de três livros: Competitive strategy, de 1980, Competitive advantage, de 1986, e The competitive advantage of nations, de 1990. Suas contribuições são inestimáveis: modelo das cinco forçascompetitivas, modelo das estratégias genéricas e vantagens competitivas das nações. A primeira, o modelo das cinco forças competitivas, postula que não são somente os concorrentes que afetam a competitividade de uma organização. Veja que, pelo senso comum, ao se falar de competitividade há uma tendência a considerar somente a força contrária dos concorrentes disputando mercado como importante. Entretanto, Michael Porter apresentou outras quatro forças que também afetam a capacidade competitiva das organizações: Rivalidade entre concorrentes Poder de barganha dos fornecedores Poder de barganha dos clientes Ameaça de novos entrantes Ameaça de produtos substitutos Figura 15 – Cinco forças de Porter Disponível em: https://bit.ly/3PiaY1E. Acesso em: 16 maio 2022. A rivalidade entre concorrentes é a primeira força, e a mais óbvia pelo senso comum. Alguns ramos de atividade são compostos de empresas que disputam espaço com alta rivalidade. Bancos e serviços de celular, por exemplo, vivem tentando convencer clientes da concorrência a mudar de fornecedor. Há, entretanto, alguns ramos com baixa rivalidade. Padarias e lanchonetes de bairro não fazem muitos esforços para atrair fregueses dos concorrentes: cada player toca seus negócios. Observe que o nível de rivalidade afeta as capacidades competitivas de uma empresa, pois quando há alta rivalidade é necessário ter mais investimentos em qualidade, operações, marketing etc. para superar o rival. Em baixa rivalidade ocorre o contrário. Ou seja, o nível de rivalidade afeta a rentabilidade, já que é preciso investir mais para se contrapor a concorrentes mais agressivos. 33 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA Alguns fatores que afetam a força da rivalidade são: • Nível de equilíbrio: mercados com vários players em equivalência de tamanho normalmente geram rivalidade, pois um tenta ganhar espaço de outro. Outros mercados com um ou dois líderes distantes dos outros players geralmente apresentam baixa rivalidade. Como exemplo, entre as décadas de 1960 e 1990 havia duas grandes fabricantes de bicicletas no Brasil: Caloi e Monark, com outros pequenos fabricantes regionais sem expressão. A rivalidade era baixíssima, e dividiam o mercado sem problemas. Consideravam que a rentabilidade era mais do que suficiente, e evitavam disputar mercado. Cada uma estava satisfeita com sua parcela: Caloi era líder, Monark era a segunda colocada e tudo bem. Porém, na década de 1990, com a abertura de mercado para produtos importados (o governo proibia ou restringia importações antes), começaram a ser oferecidos produtos competitivos com várias escalas de preço. O setor de bicicletas no Brasil começou a ter alguma rivalidade a partir daí. • Nível de cartelização: mercados com poucas empresas de porte podem incentivar acordos de não agressão, isto é, cartel. A competição é localizada e sem invadir os espaços combinados entre os players. Mesmo o cartel sendo ilegal pela lei da livre concorrência, há alguns setores nessa situação. Veja o caso de pequenas cidades com somente dois ou três postos de gasolina. Frequentemente, há acusações de cartel, com preços altos combinados e ausência de esforços competitivos. • Taxa de crescimento de mercado: a Teoria de Ciclo de Vida de Produto estabelece que produtos e empresas são como seres humanos: nascem, crescem, atingem a maturidade e entram em declínio em fases sequenciais. No caso de produtos e empresas, sempre é possível adotar estratégias que alonguem o tempo do ciclo ou que recomecem o ciclo em caso de relançamentos. Em geral, a rivalidade é baixa em fase de crescimento (quando a taxa de crescimento de mercado é alta), pois se o mercado cresce não há custo-benefício positivo em investir para conquistar clientes do concorrente. Por outro lado, na fase de maturidade a rivalidade é alta, pois a taxa de crescimento de mercado é baixa/nula e os players tendem a investir para roubar clientes dos concorrentes. Vendas Lucros Vendas Lucro Introdução Crescimento Maturidade Declínio Tempo Figura 16 – Ciclo de vida do produto: curva de vendas e de lucro Fonte: Las Casas (2017, p. 212). 34 Unidade I Claro que a lista não se esgota aqui. Há outros fatores que afetam a rivalidade, até mesmo escolhas pessoais. Destaca-se a centenária rivalidade entre Coca-Cola e Pepsi-Cola no mercado americano. Desde a década de 1930 que essas empresas se digladiam para conquistar o espaço uma da outra. Promoções agressivas de preços, disputas por espaço no varejo e exclusividade em lanchonetes eram ações comuns ao longo dos anos. Nas décadas de 1980 e 1990, especialmente, a mídia passou a acompanhar o que denominou “Guerra das colas”, em que todos os movimentos de uma contra a outra eram noticiados com interesse. Os investimentos publicitários de ambas alcançaram recordes na época, contratando a peso de ouro estrelas como Michael Jackson e Madonna para estrelar comerciais de TV. Um comercial da Pepsi da década de 1980 é emblemático: estudantes de arqueologia com trajes futuristas estão escavando as ruínas de uma civilização antiga (claramente a nossa). Ao encontrar uma lata amassada de Coca-Cola, um estudante pergunta ao professor: O que é isso? E ele responde: Não faço ideia. E abre uma lata de Pepsi! Ou seja, a Pepsi existe no futuro, e a Coca é esquecida. Essa rivalidade extrema foi estudada pela academia, e D’Aveni (1994) calcula que o preço de uma caixa de bebida sabor cola, com preço ajustado pela inflação para compensar, caiu de US$ 6.19 para US$ 3.99 em vinte anos, demonstrando um dos efeitos deletérios da alta rivalidade. Exemplo de aplicação A internet dá acesso a vários comerciais da “Guerra das colas”. Digite “coke versus pepsi commercial” (em inglês, mas vários são simples de entender) e divirta-se! A segunda força de Porter, ameaça de novos entrantes, tem uma peculiaridade. Trata-se da possibilidade de alguma empresa entrar no seu mercado. Não é o concorrente atual, e sim a chance de um concorrente potencial. Para analisar esse risco de alguém vir a competir no seu mercado, é preciso entender as barreiras de entrada, que são os fatores que podem impedir/atrapalhar (ou facilitar/incentivar) a entrada de uma empresa em determinado setor. Por exemplo, o setor de siderurgia tem uma barreira de entrada que limita muito qualquer entrante: necessita de altíssimos investimentos em estrutura (imagine quanto custa construir um alto-forno siderúrgico e os maquinários de corte, processamento e distribuição) e alto volume de capital de giro, o que torna o ramo pouco atraente para a grande maioria de investidores. É o mesmo caso do ramo de aviação comercial: é preciso muito capital para constituir frota/manutenção, maquinário, pessoal, permissões nos aeroportos etc. Por outro lado, o setor de salões de beleza/cabeleireiros/barbeiros não tem praticamente nenhuma barreira de entrada: qualquer um pode criar um salão na garagem de casa sem problemas. Porter (1980) cita algumas barreiras de entrada comuns: • Economias de escala: quanto maior o volume de produção, menor o custo unitário. Em mercados de massa, para um entrante se estabelecer de forma competitiva, é necessário ter escala de produção, sob pena de ter custos unitários muito altos. Imagine um entrante no mercado de smartphones: iniciar já com alta produção é fator mandatório. Huawei e Xiaomi iniciaram suas operações já grandes para poderem competir. Mas normalmente essa barreira acaba desestimulando a entrada em alguns mercados. 35 ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA • Capital de entrada: como vimos, o setor siderúrgico exige um capital inicial altíssimo. Alguns setores de atividade apresentam essa barreira. Claro que os valores são relativos: o investimento necessário para criar um e-commerce pequeno é bem menor do que o necessário para um e-commerce de altos volumes. O volume de capital necessário para entrar em um ramo é uma barreira bastante comum. • Acesso a fornecedores ou distribuidores: na maior parte dos