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POLÍTICAS SETORIAIS II Valquiria Viviani Rodrigues Backes Forster Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Analisar os contextos socioeconômico e político dos anos 1980 e o processo de mobilização popular no Brasil. Reconhecer o ECA e a doutrina da proteção integral. Identificar os desafios das políticas públicas para o reconhecimento da criança e do adolescente como sujeitos de direitos. Introdução O Brasil viveu diversos momentos cruciais em sua história, economia e política, mas, sem dúvida, o fim da década de 1980 e o início da de 1990 se destacam entre eles, já que viram surgir diversos movimentos e articulações muito necessários para o restabelecimento democrático com o fim do regime militar. Nesse sentido, foram fundamentais a ela- boração de dois instrumentos que protegem e reconhecem a criança e o adolescente no Brasil: a Constituição Federal de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Neste capítulo, você vai acompanhar uma contextualização do pro- cesso de mobilização popular no Brasil que precedeu e contribuiu com a construção e aprovação da Constituição Federal de 1988 e, dois anos depois, do ECA. Além disso, você também vai reconhecer o ECA e os principais desafios das políticas públicas para reconhecer a criança e o adolescente como sujeitos de direitos. Contexto econômico e político dos anos 1980 e o processo de mobilização popular no Brasil Os anos 1980 e 1990 no Brasil foram de articulação e fortalecimento da mobiliza- ção popular. Inicialmente, a articulação se deu em torno da resistência ao regime militar, culminando em grandes greves que se intensifi caram nos anos de 1978 e 1979. Setores como as Comunidades Eclesiais de Base (ligadas à Igreja Católica), a educação, a saúde e segmentos ligados aos trabalhadores passaram a se organizar e criaram movimentos pelos transportes, movimentos de favelados pelo direito de uso das terras onde estavam, a Confederação Geral dos Trabalhadores, a Central Única dos Trabalhadores, a Confederação Nacional de Moradores, entre outros, sendo que muitos deles deram origem a alguns dos atuais movimentos sociais. Os anos entre 1937 e 1985 compuseram uma fase paradoxal na sociedade brasileira, pois, de um lado, o regime militar estabelecia uma profunda opressão social, com o cerceamento de liberdades e repressão vivida especialmente pelos grupos historicamente marginalizados no país, como, entre outros: as mulheres (o regime, por meio da religião e da comunicação, pregava que o papel da mulher deveria ser o da mãe e esposa dedicada, obediente e casta, não reagindo e não resistindo; aquelas que se colocavam contra o regime militar eram duramente castigadas, sendo vítimas de violências diversas, muita crueldade e, muitas vezes, de morte), os negros (que foram alvo da violência policial, que não permitia a participação dessa população na sociedade, relegando o povo negro à subalternidade e impedindo-o, inclusive, de manifestar sua religião ou suas tradições), os indígenas (que sofreram principalmente porque residiam em terras que eram do interesse das ações desenvolvimentistas, ou seja, atrapalhavam as obras previstas, como estradas, hidrelétricas, etc.; há registro de que esses povos sofreram torturas de todos os tipos Brasil afora); a população LGBT+ (cabe lembrar que a homossexualidade era considerada uma patologia nessa época, inclusive pela OMS; a população LGBT+ era duramente perseguida, ofendida e encarcerada arbitraria e ilegalmente). De outro lado, houve a consolidação de direitos políticos, o que, de alguma maneira, minimizou o momento de torturas e impedimentos diversos pelos quais o Brasil passava, mantendo um véu sobre o fato de que as políticas desenvolvidas nesse período eram impostas pelos militares “de cima para baixo”, com o claro objetivo nacional desenvolvimentista. Pode- -se dizer que, nesse período, o regime militar se utilizou, além da repressão, de muita propaganda estabelecida pela mídia controlada pelo governo, o que dava aos menos avisados a impressão de se viver um bom período, afinal, muitas construções e desenvolvimento econômico estavam acontecendo, o que fazia parecer que tudo estava bem. Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)2 Todos os anos e vivências do período do regime militar deixaram profundas marcas na sociedade brasileira e, na atualidade, ainda encontramos resquícios de perseguições aos povos que compõem as minorias sociais, repressão às li- berdades, cerceamento das lutas e dos movimentos sociais. Ainda hoje, pode-se encontrar notícias de líderes sendo calados (muitas vezes com a própria morte) para que não se oponham àqueles que se encontram no poder. Atualmente, ainda se tortura, prende e mata a população de negros, especialmente os jovens negros que se encontram marginalizados nos grandes centros urbanos, e ainda se acompanha no discurso de políticos e governantes do país ideias de repressão e de cerceamento da liberdade e do pensamento que esteja apartado do que defende a elite da política brasileira — assim, encontramos no cotidiano da nossa sociedade diversos exemplos de reverberação da ditadura militar. O ano de 1984 foi marcado fortemente pela organização popular, que foi para as ruas do país pedindo o fim do regime militar e eleições diretas para presidente da república, o que acabou por só acontecer no ano de 1989. Nesse mesmo tempo, o país passava por uma crise econômica, que assolava também o restante do planeta, e o desemprego, a flexibilização de contratos de trabalho e a reestruturação geral do mercado passaram a ser o tema do momento. A pauta de reivindicação dos trabalhadores passa a ser a manutenção do emprego, sem luta por melhores salários ou melhores condições de trabalho. Nesse momento histórico, os movimentos populares urbanos se enfraquecem. Diferentemente deles, os movimentos sociais no campo ganham força nesse período e passam a ser o principal conflito social (GOHN, 2000). Os movimentos sociais dos anos 1980 e 1990 trouxeram para a sociedade brasileira um legado de democracia participativa. Foram os movimentos sociais que envidaram a aprovação da Constituição Federal (CF) de 1988. Chamada de Carta Magna, ela apresenta os direitos gerais e específicos dos cidadãos brasileiros e tem base democrática, já que, com ela, a sociedade brasileira passou a “ter o direito de ter direitos”. Para a criação da Constituição Fede- ral, foi formado, em 1º de janeiro de 1987, um grupo chamado Assembleia Nacional Constituinte (Figura 1), o qual era composto por 487 deputados e 72 senadores. Esse grupo, responsável pela criação da CF, estava aberto para receber emendas e proposições populares, desde que fossem apresentadas por associações civis devidamente estabelecidas e tivesse, pelo menos, 30 mil assinaturas (para comprovar o apoio popular às propostas apresentadas), tendo recebido mais de 120 mil propostas nas mais diversas áreas e apresentado aproximadamente 12 milhões de assinaturas. Isso tem verdadeira importância, pois denota o interesse e envolvimento da população na construção desse importante instrumento de liberdade, direitos e justiça. 3Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Figura 1. Assembleia Nacional Constituinte, responsável pela construção e aprovação da Constituição Federal de 1988. Fonte: Leão (2018, documento on-line). Eram tão fortes a mobilização e o sentimento de cidadania vividos naquele momento pela sociedade brasileira que o preâmbulo da Constituição Federal trazia em si o sentimento de democracia dos constituintes ao assim dizer: Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar,o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supre- mos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte Constituição da República Federativa do Brasil (BRASIL, 1988, documento on-line). Esse texto demonstra a crença dos constituintes na mudança social que a CF/88 viria trazer aos cidadãos brasileiros. A CF traz em si os direitos e garantias fundamentais, tanto individuais quanto coletivos, aos indivíduos que nascem ou vivem no país. Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)4 Os movimentos sociais que lutaram pela inclusão de textos democráticos e justos às populações excluídas obtiveram êxito em maior ou menor grau. Foram os movimentos sociais que contribuíram com a inclusão de pautas relacionadas aos mais prejudicados pela ditadura militar, neles incluídos as mulheres, os negros, a população LGBT+, os indígenas e as pessoas com deficiência. Às mulheres, foi garantida a igualdade jurídica, a definição do princípio da não discriminação por sexo e raça-etnia, a ampliação dos direitos sociais e econômicos, a igualdade de direitos e responsabilidades na família, ficou proibida a discriminação no mercado de trabalho e foram contemplados direitos no campo da anticoncepção. Aos negros, foi garantido, também, o direito a igualdade e a não discriminação racial, porém, na própria composição da Assembleia Nacional Constituinte, havia somente 2% de representantes negros, o que denota o tímido interesse em promover os direitos para essa população. A população homossexual (termo usado à época) foi tímida em suas aquisições na Constituição Cidadã, mas o movimento ocorrido por conta da aprovação da CF refletiu na ampliação e no fortalecimento do movimento, inclusive ampliando a abertura para abarcar outras identidades, o que vêm a ser atualmente os movimentos sociais de lutas pelos direitos da população LGBT+ e outros. No que se refere aos indígenas, embora os partidos políticos tenham inicialmente ignorado essa população, a presença dos índios e de suas lideranças nas discussões constitucionais acabaram por garantir um capítulo exclusivo para tratar de assuntos relacionados a eles, especialmente no que se refere às terras por eles ocupadas. Quanto às pessoas com deficiência, após diversos embates, o texto final da Carta Magna contemplou as demandas apresentadas pelos movimentos sociais, garantindo atendimento educacional especializado, percentual obrigatório em cargos e empregos públicos, proteção e integração social, habilitação e reabilitação, adaptação dos locais públicos (acessibilidade), entre outros (CONFEDERAÇÃO..., 2018). Como se pode ver, os movimentos sociais tiveram importante participação na construção da Constituição Federal que nos rege atualmente, tanto nos momentos que precederam a convocação da Assembleia Nacional Consti- tuinte quanto durante os trabalhos de elaboração do seu texto. É mérito da participação popular a sua veia democrática, cidadã e protetora dos direitos humanos. Não obstante, é fundamental ter conhecimento de que os movimentos sociais têm sua manifestação (popular) e organização garantidas justamente pela Constituição Cidadã. A Constituição Federal de 1988 protege os direitos humanos e, nesse sentido, importa que saibamos que esses direitos são temas dos debates contemporâneos, sendo imprescindível que a sociedade como um todo promova a efetivação dos 5Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) direitos promulgados, pois somente assim se alcançará a justiça social e a demo- cracia. Entre os direitos humanos estabelecidos na CF/88 (anteriormente afirmado nas Convenções Internacionais, das quais o Brasil é signatário), destacam-se aqueles que objetivam garantir a dignidade da pessoa humana e colocam todos os brasileiros em condições de igualdade. Esses direitos são também base do trabalho dos profissionais do Serviço Social e, portanto, devem ser conhecidos e defendidos. São eles o direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança, à propriedade, ao pluralismo, à democracia e à justiça social, ao desenvolvimento, a não ser torturado. Provêm da Constituição, também, os direitos sociais que devem alcançar todos os brasileiros e brasileiras, quais sejam: a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência aos desamparados. Todos esses são direitos que estão no escopo do Serviço Social e, como tal, os assistentes sociais devem criar maneiras de garanti-los e lutar para que sejam efetivados, alcançando a todos com igual intensidade. Agora que você conhece um pouco melhor a Constituição Federal de 1988, vamos abordar um novo aspecto de igual importância para seu conhecimento. Da CF/88, no seu artigo 227, provém a necessidade de, dois anos mais adiante, construir-se e aprovar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A con- textualização socioeconômica e política do período de criação e aprovação do ECA não difere em muito do período de promulgação da CF/88. No entanto, não se pode deixar de refletir que os movimento sociais que lutaram pela aprovação do ECA já tinham como horizonte e base de direitos a Constituição Federal já aprovada e que a luta se dava em um momento em que o país já estava livre do regime militar, de modo que a liberdade de expressão já era um direito constituído. O Estatuto da Criança e do Adolescente e a doutrina de proteção integral O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é, para os brasileiros, um marco normativo de grande importância e que tem o objetivo de regrar a relação do Estado, da família e da sociedade como um todo em todos os temas relacionados às crianças e aos adolescentes. É reconhecido internacionalmente como uma lei abrangente e contemporânea e foi construído com base nas convenções, diretrizes e tratados internacionais, dos quais o Brasil é também signatário. Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)6 Ao estudar o ECA, você deve ter em mente que ele não é uma normativa findada, e, sim, que está em constante revisão, recebendo as adequações necessárias de acordo com as demandas desse segmento; então, sempre que fizer uma pesquisa que tenha o Estatuto como base, atente para usar a versão com todas as atualizações em vigência. A criação do ECA ocorreu para regulamentar os artigos 227 e 228 da Cons- tituição Federal de 1988, que tratam genericamente da proteção de crianças e adolescentes e apontam de quem é a responsabilidade de prover a proteção dessa parcela da população. Para iniciar o mergulho sobre o ECA, é necessário que você fique alerta para a grande modificação que essa lei trouxe para o arcabouço normativo e regulatório no Brasil. O ECA traz a quebra de um forte paradigma social; diferentemente das legislações vigentes até sua aprovação (a exemplo do Código de Menores de 1979), que traziam a concepção de menor em situação irregular, o ECA passa a tratar da proteção integral a todas as crianças e os adolescentes brasileiros, independentemente de sua condição ou classe social, ou seja, essa lei protege a todos sem distinção. Para o ECA, são considerados crianças os indivíduos de até 12 anos in- completos e adolescentes aqueles que possuem de 12 a 18 anos, podendo, nos casos expressos em lei, aplicar-se essa lei a indivíduos entre 18 e 21 anos, ou seja, no caso de que em outras normativas esteja escrito que se aplicará o ECA a essa faixa de idade, assim se fará. O Estatuto está dividido em livros, títulos e capítulos, cada um deles disposto em artigos, parágrafos, incisos e alíneas, o que é necessário para melhor entendimento e aplicação de seu conteúdo. Assim, você poderá acompanhar, a seguir, uma descrição dos principais pontos desse importanteinstrumento de garantia de direitos das crianças e dos adolescentes do nosso país. O Livro I do ECA apresenta a parte geral. Nele, estão as disposições preliminares, ou seja, tudo aquilo que serve como base para o entendimento e a aplicação dos direitos das crianças e dos adolescentes. É no Livro I que estão contidos, também, os direitos fundamentais, como: direito à vida e à saúde; direito à liberdade, ao respeito e à dignidade; direito à convivência familiar e comunitária; direito à educação, à cultura, ao esporte e ao lazer; direito à profissionalização e à proteção no trabalho. Já o Livro II trata a parte especial que dispõe sobre a política de atendimento a crianças e adolescentes; as medidas de proteção; a prática do ato infracional; as medidas pertinentes 7Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) aos pais ou responsáveis; o Conselho Tutelar; o acesso à Justiça; os crimes e infrações administrativas e, ainda, as disposições finais e transitórias. Para melhor compreensão da importância e magnitude que o ECA tem, é importante destacar o artigo 3º, que, logo em seu início, esclarece que as crianças e os adolescentes são demandatários de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, ou seja, além daqueles direitos previstos no ECA, esse público deverá alcançar quaisquer outros direitos que sejam dirigidos à pessoa humana. Esse artigo dá às crianças e aos adolescentes o reconheci- mento de serem pessoas dignas de atenção e os coloca na situação de sujeitos de direitos. Esse artigo abrange a todos os indivíduos contidos na faixa etária a que se destinam, sejam eles de qualquer etnia, raça, cor, religião, condição econômica ou outras condições que os diferenciem. Como você pode ver, o ECA diverge totalmente do código de menores, o qual tinha sua existência voltada apenas para aqueles que estivessem em “situação irregular”. A doutrina jurídica da proteção integral adotada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente assenta-se em três princípios, a saber: criança e adolescente como sujeitos de direito — deixam de ser objetos passivos para se tornarem titulares de direitos; destinatários de absoluta prioridade; respeitando a condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. Outra questão de destaque apontada pelo ECA é a responsabilidade da família, do poder público e da sociedade em geral de priorizar a efetivação dos direitos das crianças e dos adolescentes sob qualquer circunstância. Essa responsabilidade está imputada a todos os cidadãos brasileiros e não é uma escolha. Todos estamos obrigados a defender e garantir que esses direitos alcancem os seus destinatários, o que quer dizer que, tanto na nossa vida particular como cidadãos quanto na nossa vida profissional, temos o dever de aplicar o ECA, independentemente do nosso desejo. Assim sendo, o artigo 5º vai nos ajudar a compreender isso quando disserta que nenhuma criança ou adolescente será objeto de negligência, discriminação, violência, crueldade, exploração, entre outros. Mais do que isso, o referido artigo afirma que serão punidos aqueles que, por ação ou omissão, atentarem contra os direitos funda- mentais de crianças e adolescentes (BRASIL, 1990). Então, precisamos ficar atentos, pois não só haverá crime quando agimos em contrário ao ECA, mas também quando não agimos para defender suas premissas. É também logo no seu início que o Estatuto vai afirmar a primazia de que a criança e o adolescente recebam proteção e socorro em quaisquer circunstâncias. Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)8 Isso vale tanto para o atendimento nos serviços públicos e privados quanto para a formulação e execução das políticas públicas ou para a destinação de recursos públicos, devendo sempre prevalecer a ideia de que crianças e adolescentes são indivíduos em desenvolvimento. Isso equivale a dizer que, no planejamento ou execução das políticas públicas, a infância e a adolescência deverão ter prioridade, de modo que as diversas políticas públicas precisam trabalhar intersetorialmente para a execução desse princípio, inclusive, adequando os orçamentos públicos dos entes federados para atender às necessidades desse segmento. No que se refere ao direito à vida e à saúde, é fundamental que saibamos que esse direito cobre a criança antes mesmo de seu nascimento e que se estende à mãe gestante, à qual está destinado o direito a um atendimento digno e respeitoso para garantir que também a criança tenha seus direitos concretizados. Aliado a esse direito, o ECA é muito claro quanto ao papel de toda sociedade no que se trata de defender os direitos de crianças e ado- lescentes e, em seu artigo 18, assim aponta: “É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qual tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor” (BRASIL, 1990, documento on-line). Ou seja, qualquer pessoa, ao tomar conhecimento de uma situação que exponha esses indivíduos a qualquer violação de seus direitos, tem a obrigação de tomar as providências cabíveis para que se cesse a violação, devendo levar os fatos ao conhecimento dos Órgãos de Defesa e Garantia de Direitos (Conselhos Tutelares, Conselhos de Direitos da Criança e do Adolescente e Ministério Público), sem prejuízo de outras ações para a proteção desses indivíduos, que estão, segundo o ECA, em “condição peculiar de desenvolvimento”. Devemos dar atenção, também, ao fato de que o ECA não designa um ou outro órgão ou instituição para velar pelos direitos nele afirmados, e, sim, afirma que é papel do conjunto Estado, família e sociedade, de forma articulada, defender e promover direitos de crianças e adolescentes. É fundamental refletir sobre o direito à convivência familiar e comunitária sobre o qual reza o ECA, pois, sendo esse um direito fundamental, ao pensar na proteção integral, os profissionais devem atentar ao fato de que nem sempre as famílias conseguem, sozinhas, cumprir o papel que a elas foi determinado. Assim sendo, cabe ao Estado auxiliar no processo, garantindo que a convivência familiar seja maximizada para o bem da infância e da adolescência. Nesse sentido, o papel do Estado é orientar, apoiar, encaminhar para atendimento ou tratamento especializado aquelas famílias que necessitam. Esse é um princípio elementar que, segundo Digiácomo e Digiácomo (2017), deve ser uma preocupação per- manente das políticas públicas. Ao tratar desse direito, o ECA trouxe, de um lado, a manutenção e o fortalecimento de vínculos com a família de origem, e, 9Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) de outro, quando isso não for possível, a inserção em família substituta de modo criterioso e responsável, devendo evitar-se a institucionalização. Para os profissionais que lidam diariamente com famílias, é imprescindível ter conhecimento e convencer-se do importante papel que têm a desempenhar na defesa dessa importante lei, que, sozinha, não alcançará os propósitos para os quais foi criada. É necessário que, para além de tratar o ECA como base das ações diárias que contemplem crianças e adolescentes, também busquemos defender a execução dos seus preceitos, para que a dignidade e o respeito à infância e à adolescência, prometidos desde 1990, possam de fato ser alcançados. No cotidiano de trabalho, ao lidar com situações de violação de direitos, é fundamental que os profissionais se furtem ao agravamento do problema, evitando a revitimização, o constrangimento e o desrespeito dos sujeitos que são, naquele momento, sua responsabilidade. Ainda em relação à proteção integral, o ECA instituiu os Conselhos de Direitos da Criança e do Adolescente, os Fundos da Infância e Adolescência e os Conselhos Tutelares, os quais, junto ao Estado e à sociedade civil, devem articular um conjunto de ações para o atendimento às necessidades de crianças e adolescentes nos três níveis governamentais (Município,Estado e União). Estabeleceu, também, quais são as medidas de proteção contra ameaça ou violação dos direitos das crianças e dos adolescentes; como será a guarda, a tutela e a curatela; estabeleceu os critérios e procedimentos para a adoção; definiu a conduta de ato infracional e ordenou como será o tratamento aos adolescentes que vierem a cometê-lo; definiu parâmetros e diretrizes para a execução das medidas socioeducativas dos adolescentes em conflito com a lei; criou a remissão; instituiu o Juizado da Infância e da Juventude, entre outras condições, atividades, aspectos, diretrizes e procedimentos relacionados a crianças e adolescentes no país. Após essa breve contextualização, que teve o objetivo de despertar o seu interesse pelo aprofundamento do estudo sobre esse importante tema, você obteve o conhecimento sobre o alicerce legal que rege as práticas voltadas à criança e ao adolescente no Brasil. Esse conhecimento é essencial para todo cidadão e profissional, que deve sensibilizar-se e inspirar a luta pela implemen- tação da doutrina de proteção integral às crianças e aos adolescentes brasileiros. Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)10 Acesse o link a seguir e leia o artigo “A doutrina da proteção integral e os Princípios Norteadores do Direito da Infância e Juventude”, de Renata Malta Vilas-Bôas (2011). https://goo.gl/aVfdtE Desafios das políticas públicas para o reconhecimento da criança e do adolescente como sujeitos de direitos Embora o Estatuto da Criança e do Adolescente seja conhecido nacional e internacionalmente como uma lei abrangente e que reconhece crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, que deverão estar livres de qualquer ameaça ou violação de direitos, a sua execução não se dá na íntegra e, sem muita difi culdade, podemos acompanhar, em várias regiões do país, em todos os níveis de governo, embaraços ao se planejar, implantar, implementar e executar políticas públicas que materializem os direitos pelo ECA preconi- zados. Pretendemos, aqui, chamar sua atenção para os principais desafi os encontrados nesse campo com o intuito de sensibilizar suas práticas atuais e futuras na busca por uma sociedade mais justa e digna para aqueles que são o futuro da nação brasileira. Um dos desafios para as políticas públicas se refere ao amadorismo e ao improviso ainda presentes nas práticas, o que acarreta prejuízos diversos no reconhecimento de crianças e adolescentes como sujeitos de direitos. É muito comum vivenciar a execução das mais variadas políticas públicas sendo praticadas sem o conhecimento necessário sobre os temas próprios a essa fase da vida. Essas práticas, sem a devida capacitação de seus agentes, tendem a não considerar as especificidades da infância e adolescência, assim como as premissas apontadas no ECA. A atual conjuntura em que o Brasil se encontra apresenta uma grande parte da população vivendo marginalizada na sociedade, ou seja, à margem dos di- reitos fundamentais. Isso posto, devemos imaginar que, com as crianças e os adolescentes, a realidade não é diferente: há uma grande massa de brasileiros e brasileiras que têm menos de 18 anos e que não acessam os direitos apontados no ordenamento jurídico. Esse é, talvez, o maior desafio a ser superado no sentido de se reconhecer essa população como sujeitos de direito, haja vista que o abandono 11Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) do Estado e da sociedade os atinge diariamente. Não há como separar a infância e a juventude das suas famílias desempregadas, humilhadas, sem casa, sem renda, vivendo em situação de pobreza e de extrema pobreza. Além disso, vivemos em um modelo econômico em que os indivíduos são compelidos a cada vez mais adquirir, apenas para si, bens materiais e imateriais, ampliando cada vez mais as diferenças socioeconômicas entre os indivíduos. Para que as políticas públicas atinjam o reconhecimento desses indivíduos como sujeitos de direito, é preciso que as desigualdades sociais e econômicas sejam fortemente combatidas. Para elucidar essa questão, vamos ver alguns dados do IBGE (Pnad, 2015) sobre a população entre 0 (zero) e 14 (catorze) anos de idade em situação domiciliar de baixa renda, separando-se pobres e extremamente pobres. Se- gundo a referida pesquisa, no ano de 2015, o Brasil contava com 17,3 milhões de brasileiros (0 a 14 anos) na condição de pobreza, ou seja, compunham famílias em que as pessoas vivem com renda domiciliar per capita mensal igual ou menor que meio salário mínimo. Já os extremamente pobres, ou seja, aqueles cujas famílias vivem com renda per capita mensal igual ou inferior a um quarto de salário mínimo, somavam 5,8 milhões. Esse é um número alarmante, que demonstra que ainda estamos muito aquém de tratar nossas crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, pois, quando a família não tem condições financeiras suficientes para prover as necessidades básicas dos seus membros, devemos atentar para a imposição de condições de risco e vulnerabilidades ligadas à ausência ou à insuficiência da renda. Ainda para materializar os desafios que estão postos às políticas públicas, apresentamos os dados da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República sobre o Disque 100 no ano de 2016, que, nesse ano, recebeu 144 mil denúncias de violações de direito em todo o país. O Disque 100 é um mecanismo que recebe denúncias feitas pelo telefone sobre todos os tipos de violação de direitos de crianças e adolescentes em todos os municípios do país. Após receber as denúncias, o Disque 100 encaminha os fatos para que os Conselhos Tutelares e as políticas públicas do município em questão tomem as providências cabíveis. No ano de 2016, foram 54.304 denúncias de negligência; 15.707 de violência se- xual; 32.040 de violência física; 33.860 de violência psicológica e 8.669 de outras violências. Esses números são alarmantes, haja vista que, desde 1990, temos uma lei específica que proíbe qualquer tipo de violência e maus-tratos à infância e à juventude. É desafiador pensar e materializar políticas públicas que deem conta de diminuir e quiçá eliminar a incidência de violações de direito no país. Também de modo a materializar o desafio das políticas públicas em tratar crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, podemos analisar os dados do Ministério da Saúde que apontam que, no ano de 2016, a taxa de mortalidade Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)12 de menores de 1 ano de idade no Brasil foi de 12,7 para cada mil nascidos vivos; para menores de 5 anos, foi de 14,9 para mil nascidos vivos, e a taxa de mortalidade materna foi de 56,7 para cada mil nascidos vivos. Esses dados são fundamentais para refletirmos sobre o direito à vida e à saúde garantidos no ECA e que, atualmente, embora haja esforços das políticas públicas, ainda é um grande desafio a ser ultrapassado. Urge que governos e sociedade civil se unam em esforços para que a proteção integral à infância e à adolescência aconteça. Nesse sentido, não é do ECA ou demais doutrinas a função de intervir para a materialização do reconhecimento dessa população como sujeitos de direitos. É necessário que a primazia prometida seja realizada no momento de definição do uso dos recursos financeiros. É necessário que o país busque equidade (Figura 2) para todos, especialmente para o futuro da nossa nação, isto é, dar a todos as condições que lhes são necessárias para alcançar os mesmos direitos que os demais. Figura 2. Equidade consiste na adaptação da regra existente à situação concreta, observando-se os critérios de justiça. Pode-se dizer, então, que a equidade adapta a regra a um caso específico, a fim de deixá-la mais justa. Fonte: Interaction Institute for Social Change, Angus Maguire (2016, documento on-line). 13Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) É um imenso desafio entregar educação, saúde,lazer, cultura, segurança pública de qualidade a todos os brasileiros; para ultrapassá-lo, é necessário que aqueles que detêm efetivo poder tenham uma ação firme e ativa para contemplar os direitos das crianças e dos adolescentes. É dos governantes o papel principal de cumprir o que ditam as leis, e esse é, talvez, o mais difícil enfrentamento a ser feito pela sociedade, pois a prioridade e a primazia não ocupam os orçamentos e nem as execuções financeiras nos nossos municípios, estados e país. Para elucidar o princípio da prioridade absoluta, devemos imaginar que, quando os governantes planejam o gasto dos recursos com as políticas públicas, a prioridade deverá ser sempre para aquelas que atenderão crianças e adolescentes; sendo assim, na administração pública, não deverá haver investimentos em asfalto, pontes, praças, museus ou quaisquer outras obras enquanto não existem moradias dignas, postos de saúde, creches, escolas, atendimento preventivo e emergencial às gestantes, atenção especializada à infância e à adolescência. É imprescindível, também, que o Sistema de Garantia de Direitos tenha maior afinco em garantir que a Lei se aplique, materializando-a em direitos. É desafiador combater a corrupção que assola o país e que leva para o lugar privado o recurso financeiro que deve ser aplicado na esfera pública. É muitas vezes o recurso desviado na corrupção que fará falta na execução de políticas públicas abrangentes e de qualidade. Não se pode negar, também, que é provocatória a deserção social que vivenciamos no que se refere ao descaso com que crianças e adolescentes são tratados todos os dias ao nosso redor. A ampliação da participação efetiva da sociedade civil na luta pelo reconhecimento e garantia dos direitos da infância e adolescência é premente. Sem a participação popular, nos mais diversos canais e das mais variadas formas, é muito difícil que consigamos quebrar paradigmas e construir uma cultura de proteção integral, a qual, legalmente, já está instituída. É dos Conselhos de Direitos da Criança e do Adolescente a função de convocar a sociedade para participar da luta pela ampliação de políticas públicas de qualidade. Não apartado do acima exposto, o desafio que por certo se sobressai aos demais é a integração convergente de decisões, forças e atitudes das diversas políticas públicas para que crianças e adolescentes sejam, de fato, reconhecidos como sujeitos de direitos. Essa convergência é vital, haja vista que há uma transversalidade desse segmento, de modo que os mais diversos setores devem agir, direcionando esforços nesse sentido. Não é possível separar a política de atendimento a crianças e adolescentes das demais políticas públicas sob a pena de não se atingir um lugar de direitos a essa população. Nesse sentido, o artigo 86 do ECA assim profere: “[...] a política de atendimento dos direitos da Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)14 criança e do adolescente far-se-á através de um conjunto articulado de ações governamentais e não governamentais, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios”. Essa afirmação do ECA pressupõe uma atuação em rede em que a efetividade das ações está diretamente ligada à integração entre os saberes profissionais e entre as diretrizes de cada uma das áreas envolvi- das. Para que o desafio da integração das políticas públicas seja enfrentado e superado, a construção de uma relação de interdependência entre as políticas é necessária, e o trabalho em rede pressupõe que a tomada das decisões seja feita de forma horizontal, respeitando-se a democracia, a cooperação e a solidariedade. Devemos lembrar que o Serviço Social tem papel fundamental de agregar e articular as diversas políticas públicas em torno de uma rede integrada de atendimento a crianças e adolescentes, propondo e estabelecendo fluxos e protocolos a serem executados nos processos de trabalho. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/ Constituiçao.htm. Acesso em: 18 mar. 2019. BRASIL. Lei nº. 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, ano 128, n. 135, p. 13.563-13.577, Brasília, DF, 16 jul. 1990. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/LEIS/L8069.htm. Acesso em: 18 mar. 2019. CONFEDERAÇÃO NACIONAL DOS TRABALHADORES NA SAÚDE. Participação dos movi- mentos sociais foi imprescindível para que Constituição se tornasse cidadã. Brasília, DF, 2018. Disponível em: https://cnts.org.br/noticias/participacao-dos-movimentos-sociais-foi- -imprescindivel-para-que-constituicao-se-tornasse-cidada/. Acesso em: 18 mar. 2019. DIGIÁCOMO, M. J.; DIGIÁCOMO, I. A. Estatuto da criança e do adolescente anotado e interpre- tado. 7. ed. Curitiba: Ministério Público do Estado do Paraná/Centro de Apoio Operacional das Promotorias da Criança e do Adolescente, 2017. Disponível em: http://femparpr.org. br/site/wp-content/uploads/2017/07/Livro-ECA.pdf. 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São Paulo: Fun- dação ABRINQ, 2018. Disponível em: https://fadc.org.br/sites/default/files/2019-02/ cenario-brasil-2018.pdf. Acesso em: 18 mar. 2019. SIMÕES, C. Curso de direito do Serviço Social. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2014. VILAS-BÔAS, R. M. A doutrina da proteção integral e os Princípios Norteadores do Direito da Infância e Juventude. Âmbito Jurídico, Rio Grande, v. 14, n. 94, nov. 2011. Disponível em: http://www.ambito-juridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_ id=10588&revista_caderno=12. Acesso em: 18 mar. 2019. Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)16 LEGISLAÇÃO SOCIAL Andreia da Silva Lima Estatuto da criança e do adolescente e os desafios de aplicá-lo Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Sintetizar a trajetória da construção dos direitos da criança e do ado- lescente no Brasil. Explicar o que é e o que prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente. Definir no que consiste o Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente e os desafios da sua aplicação. Introdução A atuação do Estado sempre foi aplicada de forma diferenciada, consi- derando classe social, raça, cor ou etnia de crianças e adolescentes. Do Brasil Colônia até a Ditadura Militar, no século XX, não houve avanços nessa questão, produzindo, assim, a doutrina da situação irregular com a atuação policialesca e punitiva a certos grupos sociais. O processo de reabertura democrática só ocorreu no fim dos anos de 1980, capitaneado pelo debate internacional sobre a proteção integral e ratificado pela Convenção Internacional do Direito de Crianças e Adoles- centes, em 1989, e pela Constituição Federal de 1988. Os movimentos so- ciais em favor da infância e adolescência tiveram papel fundamental para que, em 1990, fosse sancionadoo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O ECA é uma legislação pioneira reconhecida internacionalmente e apresenta uma política de atenção infantojuvenil, que é materializada por meio do sistema de garantia de direitos. Nosso histórico de 400 anos de doutrina de situação irregular ainda interfere de forma política e cultural, dificultando a garantia da doutrina da proteção integral. Nesse sentido, neste capítulo você vai estudar o atendimento do Estado à juventude pobre brasileira, bem como conhecer o histórico da política para crianças e adolescentes desde o Brasil Colônia até os dias atuais. Você vai conhecer, também, o ECA, os avanços dessa legislação na prática a partir do que se apresenta no sistema de garantia de direitos e as dificuldades da sua implementação efetiva por conta de nosso histórico baseado na doutrina da situação irregular. Infância e adolescência no Brasil: da punição à proteção O que entendemos hoje por infância e adolescência é fruto de uma constru- ção histórica e social; ou seja, nem sempre a criança e o adolescente foram considerados sujeitos de direitos em desenvolvimento com proteção social do Estado, com direito à convivência familiar e comunitária, à educação, entre outros direitos sociais. Na Idade Média, a criança era considerada um adulto em miniatura, retratada em pinturas com vestimentas iguais às de homens e mulheres adultos. Por volta do século XV, a criança era retratada como um anjo, como um ser inocente e dotado de candura (ÀRIES, 1981 apud FALEIROS, 2004). Rousseau entendia a criança na perspectiva da inocência, ou seja, um ser ainda não corrompido pela sociedade e que deveria ser cuidada e protegida. No Brasil Colônia, a Igreja Católica atuou com a evangelização por meio da atuação dos padres jesuítas com as crianças indígenas. Nesse período, foram criadas instituições para meninas e meninos índios para separá-los dos seus costumes e de suas tradições. O objetivo era a introdução ao cristianismo para a introdução ao trabalho dentro da economia da metrópole portuguesa. Assim, a atenção à infância brasileira se iniciou pela introdução ao trabalho, objetivado não para o consumo próprio no qual se baseia a tradição indígena, mas sim para a exploração da força de trabalho para o acúmulo de riquezas. Simões (2011) apresenta que as crianças indígenas, chamadas de curumins, realizavam o trabalho de evangelização pelas matas e pelos sertões, além de servirem de intérpretes aos jesuítas. Já os filhos dos colonos não eram evangeli- zados e alfabetizados para servir como mão de obra no processo de colonização. Nesse momento, já podemos perceber a diferenciação entre as crianças, ou seja, uma formada na educação culta e outra formada para o trabalho. A economia brasileira na época da colônia estava centrada na exportação de produtos extrativistas e, além da mão de obra indígena, foi baseada na escravização de pessoas negras vindas do continente africano. O comércio escravocrata valorizava o adulto, pois a criação de uma criança negra era muito cara devido à grande mortalidade dessas crianças. As mães negras Estatuto da criança e do adolescente e os desafios de aplicá-lo2 eram usadas como amas de leite para os filhos dos senhores, a amamentação era um ato desvalorizado e as crianças brancas e negras eram criadas juntas. A infância negra, porém, servia como brinquedo aos filhos da casa grande. No momento da juventude, o negro era incorporado ao trabalho e o branco era enviado para a formação intelectual. Isso demonstra o desenvolvimento da infância pobre para o trabalho e da infância rica para a educação formal, ou seja, quem vai trabalhar e quem vai comandar. A relação de superioridade entre brancos e negros e a relação das mulheres negras na casa amamentando as crianças brancas não envolviam apenas a exploração do trabalho doméstico, mas também a exploração sexual. Por mais cruel que seja, é necessário ter a perspectiva de que a miscigenação brasileira se deu pelos estupros cometidos pelos senhores às suas escravas, o que já era uma prática também cometida com as índias. Podemos ver nas histórias contadas pela elite banca letrada, muitas vezes, a romantização dessa relação, mas a realidade foi bem mais trágica para a infância miscige- nada, que era, com raras exceções, relegada ao abandono. Em 1726, houve a primeira ação pública para essas crianças, que se deu pela caridade e pela institucionalização com a atuação da Igreja Católica, assim, na perspectiva não de atender ou proteger essas crianças, mas de “[...] proteger a honra pri- vada, escondendo-se a ilegitimidade com um véu assistencialista/religioso” (FALEIROS, 2004, p. 3). A primeira atuação de institucionalização de crianças aconteceu nas Santas Casas de Misericórdia, que estabeleceram, com o apoio do governo colonial no século XVIII, um sistema anônimo de entrega de crianças, que foi chamado de Roda dos Expostos. Esse sistema consistia em um mecanismo rotatório instalado na porta das Santas Casas, no qual havia uma parte aberta virada para a rua, em que a criança era colocada e, de forma manual, girava-se a Roda; do outro lado, uma religiosa acolheria essa criança. Esse sistema anônimo de abandono de crianças, no qual não se sabia sua origem, foi utilizado no Brasil até a década de 1950. As Santas Casas acolhiam principalmente as meninas, que eram utilizadas para o trabalho doméstico. Já os meninos eram enviados a escolas agrícolas e industriais para o trabalho. Essa foi a atuação da política pública para infância e adolescência após a independência do Brasil com o intuito de acabar com a pobreza e a vagabundagem. Assim, Faleiros (2004, p. 4) aponta que “[...] no final do século XIX havia trinta asilos de órfãos, sete escolas industriais e de artífices e quatro escolas agrícolas vinculando-se a atenção a criança ao trabalho subalterno”. 3Estatuto da criança e do adolescente e os desafios de aplicá-lo Com a proclamação da República em 1889, não houve mudança na pers- pectiva de institucionalização da infância empobrecida, com um aumento nas instituições asilares para menores abandonados e desvalidos. Faleiros (2004) afirma que a questão da ordem se aliava à higiene, e a medicina começava a se preocupar com a mortalidade infantil e outras formas de atuação pública que não valorizassem apenas o abandono. Assim, a escola e a creche públicas foram pensadas de forma embrionária nessa perspectiva. Muitas ações eram pensadas para a infância desvalida e abandonada, mas a República trouxe a perspectiva da punição, por meio dos tribunais especiais e das casas correcionais para menores, aos que não se ajustassem. Os tribunais tinham a função substituta dos pais e, a partir do delito ou da índole do infante, eram aplicadas sanções. As casas correcionais eram os espaços criados para separar a infância delituosa dos adultos marginais. Assim, era do Estado a educação moralizante da juventude pobre por meio da punição. A primeira legislação para infância e adolescência brasileira foi promulgada em 1927, chamada de Código de Menores, sendo a consolidação de 20 anos de políticas públicas de assistência a menores abandonados e delinquentes. Assim, o Código de Menores estabelecia a infância pobre como uma questão pública e a dividia entre abandonados e delinquentes. A figura do juiz se apresentava na vigilância às famílias pobres, cabendo a ele a retirada do pátrio poder em casos de maus-tratos a crianças, não havendo trabalho com a família, apenas a separação do infante do seio de sua família e encaminhado à institucionalização (FALEIROS, 2004). O adolescente delinquente, até os 14 anos, não respondia a processo penal. Entre os 16 e 18 anos, já podia ser encaminhado à prisão de adultos, havendo lá um espaço separado para eles. A perspectiva era de busca de regeneração desse menor por meio da ação pública via instituições, sejam elas de assistência ou de punição. Dessa forma, o Estado assumiu para sia questão da infância e adolescência pobre, assumindo, assim, uma atuação pública junto à juventude empobrecida, porém, nas famílias com possibilidades financeiras, não havia qualquer interferência. Esse código vigorou até 1979, mas, até essa alteração, diversas ações públicas de atenção aos menores foram realizadas. No Governo Vargas, a política higienista e de ordem social foi a tônica das políticas públicas para infância. Os meninos encontrados na rua em atos suspeitos de delito ou de vício eram encaminhados às delegacias de menores. Nesse período, foi criado o Serviço Nacional de Assistência aos Menores (SAM), com internatos por todo o Brasil, funcionando por cerca de 20 anos e recebendo críticas por sua postura repressiva em detrimento da perspectiva educativa. Estatuto da criança e do adolescente e os desafios de aplicá-lo4 O higienismo foi a política pública presente na Primeira República e no Estado Novo. Com o discurso de ordenamento social e erradicação de doenças, estabeleceu vigilância à pobreza na perspectiva de saúde pública. O SAM foi substituído pela Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (Funabem) em nível nacional. Nos Estados, foram criadas instituições que materializavam a assistência ao menor, chamadas de Fundação de Bem-Estar do Menor (Febem). A Funabem veio com a perspectiva de evitar a internação, mas acabou por ser usada dentro do projeto ditatorial militar de repressão, que responsabilizava as famílias pelo abandono e construía prédios para “[...] internar os marginalizados e os marginais” (FALEIROS, 2004, p. 8). Ao contrário do que se propunha, a política da Funabem não reduziu o processo de marginalização. Durante a Ditadura, acentuou-se a exclusão social, ou seja, a fabricação do menor (expressão criada em 1986) pela exclusão da escola, pela necessidade do trabalho e pela situação de rua, que não raramente desembocava no extermínio (FALEIROS, 2004, p. 8). O Código de Menores de 1979 não apresentou mudanças paradigmáticas em relação ao de 1927, apenas reforçou a perspectiva punitiva da infância e juventude pobres por meio de ações policialescas, tendo no Judiciário a instituição da ordem e da moral, cabendo ao magistrado a destituição do poder familiar, internação e colocação em família substituta. Nessa concepção, só quem tem seus direitos violados possui direitos. Assim, as crianças não eram sujeitos de direitos, cabendo apenas seguir o que lhes determinavam. Nesse sentido, nesse período, ocorreu a doutrina da situação irregular (FALEIROS, 2004). O Contador de histórias é um filme nacional que apresenta a vida de Roberto Carlos Ramos, internado na Febem por sua mãe com a promessa do Estado de ter direito à melhor educação. Só que a instituição dificultava a convivência familiar, e Roberto sofreu as consequências da política pública baseada na doutrina da situação irregular. 5Estatuto da criança e do adolescente e os desafios de aplicá-lo Em contraposição à doutrina da situação irregular, foi se construindo a doutrina da proteção integral, aprovada em 1989 na Convenção dos Direitos das Crianças e Adolescentes, realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU), que também consta no art. 227 da Constituição Federal de 1988. Assim, em 1990, foi instituído o ECA, que se apresentava na perspectiva da doutrina da proteção integral, entendendo a criança e o adolescente como sujeitos de direitos, em desenvolvimento, com prioridade absoluta no atendimento. É importante entender a política de atendimento à criança e ao adolescente na visão da proteção integral, livre de estereótipos relacionados à pobreza, entendendo-a não como responsabilidade pessoal, mas como uma ação de atenção do Estado, não sendo mais um motivo para afastar a família de suas crianças. Essa mudança afasta o termo menor para crianças e adolescentes, marcando a saída da ideia da menoridade marginal e pobre para o conceito de infância e adolescência, que deve ser protegida e assistida, independentemente de sua condição social. Vamos ver a seguir o que determina o ECA. Estatuto da Criança e do Adolescente: a organização da proteção integral O ECA foi o resultado da luta de diversos movimentos sociais que participaram do processo de redemocratização brasileiro e participaram da Constituinte. O Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua teve destaque no em- poderamento de jovens em situação de rua com o objetivo de problematizar sua situação e cobrar do Estado ações efetivas e respeitosas a essas pessoas em desenvolvimento e sujeitos de direitos. A Constituinte apresentou um debate entre a doutrina da situação irregular e a doutrina da proteção integral. Um exemplo desse debate foi a apresentação da política de infância e adolescência para o biênio 1987–1989, que previa a prio- ridade de atendimento a crianças entre 7 e 12 marginalizadas (SIMÕES, 2011). Os arts. 227 e 228 da Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988) afirmam: Art. 227 É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignida- de, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. Art. 228 São penalmente inimputáveis os menores de dezoito anos, sujeitos às normas da legislação especial. Estatuto da criança e do adolescente e os desafios de aplicá-lo6 O ECA, sancionado com a Lei nº. 8.069, de 13 de julho de 1990, regulamenta os arts. 227 e 228 da Constituição Federal, revogando a doutrina da proteção irregular e apresentando a organização da política pública de atendimento à infância e adolescência, a partir da proteção integral, incluindo todas crianças e adolescentes, independentemente de classe social (SIMÕES, 2011). Nessa legislação, é definido por idade o que se considera criança e adolescente. No art. 2º, a idade definida para crianças é de 0 a 12 incompletos e de 12 a 18 anos incompletos para adolescentes (BRASIL, 1990). As crianças serão sempre acompanhadas por algum responsável, já o ado- lescente tem responsabilidades que pode cumprir em parceria com a família. Assim, o adolescente pode comparecer sozinho nos atendimentos da saúde e cumprir medida socioeducativa em caso de ato infracional. No caso das crianças, mesmo que cometam ato infracional, a família será responsabilizada e acompanhada pelo Conselho Tutelar. Assim, o adolescente, mesmo como um indivíduo em formação, já possui responsabilidades sobre seus atos. No ECA, as medidas socioeducativas estão dispostas no art. 112 e na Lei nº. 12.594, de 18 de janeiro de 2012, que instituiu o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase), regulamenta a execução de medidas destinadas a adolescentes que cometem ato infracional e altera o ECA, entre outras leis (BRASIL, 2012). Outra lei recente que mudou o ECA foi a Lei nº 13.812, de 16 de março de 2019, que instituiu a Política Nacional de Busca de Pessoas Desparecidas. A principal alteração é a autorização para o adoles- cente viajar desacompanhado em âmbito nacional: antes era aos 12 anos e, a partir dessa legislação, passou para os 16 anos. É também aos 16 anos que o adolescente pode exercer alguns atos da vida civil, podendo ser emancipado, casar com autorização dos pais e votar, conforme determina o Código Civil de 2002, no qual os menores de 16 anos são absolutamente incapazes, e os adolescentes entre 16 e 18 são relativamente incapazes. O ECA é uma legislação ampla, que se relaciona com muitas outras no atendimento à infância e à adolescência. Além das citadas, há uma relação bem próxima com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que, por meio da educação formal, atenderá crianças e adolescentes desde a creche ao ensino médio, ou seja, em toda a educação básica. Existe a relação com a Consolidação das Leisdo Trabalho (CLT) na questão do trabalho de adolescentes, que só é permitido a partir dos 14 anos de forma protegida e que garanta a frequência escolar. Segundo Bazílio (2003, p. 21), “[...] o ECA traz a lógica da desjudicializa- ção das questões relativas à infância”. Se os Códigos de Menores anteriores apresentavam um poder absoluto no papel do juiz, a nova lógica imposta de proteção integral proporciona uma rede de atendimento que estabelece orien- 7Estatuto da criança e do adolescente e os desafios de aplicá-lo tação e encaminhamentos à família. Assim, a questão da pobreza não é mais um motivo para tirar da criança e do adolescente seu direito à convivência familiar e comunitária. Nesse sentido, o ECA apresenta uma inovação com a instituição do Conselho Tutelar, que é um setor da sociedade civil, autônomo, composto por conselheiros eleitos, que tem por objetivo zelar pelo direito de crianças e adolescentes. Com essas funções e atribuições, o Conselho Tutelar tem o poder de exigir atendimento para as famílias junto aos órgãos públicos com o intuito de contribuir para o fortalecimento familiar. Assim, o Conselho Tutelar não tem a perspectiva punitiva, mas de garantia de direitos. O papel da justiça está na responsabilidade das Varas da Infância e Ju- ventude, que atuam nos casos de: atos infracionais; pedidos de adoção; aplicação de medidas judiciais administrativas para instituições de atendimento à infância e adolescência; destituição do poder familiar. A destituição do poder familiar deve ser o último caminho na atuação junto às famílias de crianças e adolescentes; assim, o poder familiar é retirado somente em casos de grave violação de direitos pelos responsáveis. As Varas da Infância e Juventude são uma adaptação do Judiciário ao que se propõe o ECA, dentro da lógica da proteção integral. Assim, a atuação do sistema de garantia de direitos deve ocorrer em conjunto, estando a justiça como última instância de atuação. Historicamente, na lógica da situação irregular, a justiça determinava a atuação junto a crianças, adolescentes e suas famílias. O ECA apresenta o Conselho Tutelar como espaço extrajudicial, mas com poder de solicitar atendimento prioritário junto à rede socioassistencial. O Ministério Público, como órgão extrajudicial implantado com a Constituição Federal, atua como fiscalizador dos direitos das crianças e dos adolescentes. Assim: [...] o acionamento do Poder Judiciário (e/ou MP), em qualquer caso, deve ocorrer apenas em caráter excepcional e plenamente justificado, quando a Estatuto da criança e do adolescente e os desafios de aplicá-lo8 própria lei assim o exigir, como é o caso do afastamento de criança/adolescente do convívio familiar, assim como do agressor da moradia comum (art. 130, ECA), providências que não podem ficar a cargo do CT (art. 101, par. 1º e 136, PU, ECA), cujo acionamento pela rede de proteção também deve ser efetuado com parcimônia, apenas quando de fato se mostrar necessário (LIBERATI; CYRINO, 2003, p. 138). Após um processo longo, no qual a rede de atendimento trabalha em par- ceria com o Judiciário para a reinserção familiar, não sendo possível estar na família de origem (extensa ou ampliada, ou seja, tios, primos, avós), é iniciado o processo de colocação em família substituta. A institucionalização deve ser sempre provisória, enquanto se trabalha na colocação de família substituta, que se inicia pela guarda até se consagrar a adoção. A relação entre a lentidão do processo de adoção e o princípio da convi- vência familiar e comunitária, de preferência na família de origem, sempre foi um debate. Outro ponto é o perfil de criança exigido por quem vai adotar, que é de crianças de até 5 anos e brancas, enquanto o maior número é de crianças e adolescentes longe desse perfil. Segundo dados do Cadastro Nacional de Crianças Acolhidas (CNCA), em 2016, havia 7 mil crianças aptas para a adoção e 37 mil pessoas interessadas em adotar. Esse descompasso foi o pontapé para o debate sobre a necessidade de revisão do processo de adoção, pois a lentidão amplia o tempo de institu- cionalização e consequentemente as chances de adoção (LEI..., 2016). Para conhecer o perfil das crianças disponíveis para adoção no Brasil, acesse o link a seguir. https://qrgo.page.link/D5ryZ Assim, como forma de trabalhar com a desinstitucionalização de crianças e adolescente e garantir o direito de convivência familiar e comunitária, foi sancionada a Lei no.. 12.010, de 3 de agosto de 2009, conhecida como Lei da Adoção. Essa legislação aborda as determinações que já constavam no ECA sobre a adoção, mas que ficavam a cargo de interpretação (BRASIL, 2009). Dessa forma, a Lei da Adoção, apesar de comumente chamada assim, apresenta 9Estatuto da criança e do adolescente e os desafios de aplicá-lo determinações legais que visam garantir a convivência familiar e comunitária por meio de diversos dispositivos, como família acolhedora e apadrinhamento. O ECA é uma legislação inovadora que institui os direitos fundamentais e as medidas preventivas em seu Livro I. No Livro II, apresenta as medidas socioeducativas e protetivas que buscam assegurar esses direitos (SIMÕES, 2011; BAZÍLIO, 2003), além de estabelecer diretrizes que apresentam a muni- cipalização do atendimento, a criação de conselhos nas três esferas de governo e fundos específicos para esse fim. Essa atuação a partir de órgãos municipais, com a perspectiva do controle social e dotação orçamentária para a execução dos serviços que garantam os direitos de crianças e adolescentes, formam o Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente (SGDCA), no qual se agrupam as atividades da iniciativa privada que atuam em parceria. Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente O SGDCA é instituído por meio da política de atendimento apresentada pelo ECA, que acontece a partir “[...] de um conjunto articulado de ações gover- namentais e não governamentais da união, estados e municípios” (SIMÕES, 2011, p. 220). Esse sistema é necessário devido à perspectiva de desinstitucio- nalização, que apresenta o ECA, no qual a justiça é convocada pela rede de atendimento para garantir os direitos de crianças e adolescentes. Assim, o SGDCA é composto por diversas instituições que atuam na po- lítica de atendimento à criança e ao adolescente, em que cada uma tem a sua função e deve-se atuar, de forma integrada, para garantir os direitos previstos no ECA. Dessa forma, é construída uma rede de atendimento que responde administrativamente a órgãos diferenciados, mas que se une no desenvolvi- mento da proteção integral da infância e juventude brasileira. No link a seguir, é representado o SGDCA a partir de uma engrenagem em que todas as instituições funcionam em conjunto e, para funcionar bem, precisam de recursos públicos, profissionalismo e compromisso com a causa. https://qrgo.page.link/VWNK7 Estatuto da criança e do adolescente e os desafios de aplicá-lo10 O SGDCA se organiza em três eixos — da promoção, do controle social e da defesa — dos quais fazem parte diversas instituições, que participam da atuação da proteção integral. Assim: [...] tem a finalidade de promover, defender e controlar a efetivação integral de todos os direitos da criança e do adolescente (direitos civis, políticos econômicos, sociais, culturais, coletivos e difusos). Trata-se de um sis- tema estratégico, para além de um sistema de atendimento, complexo em sua estruturação, que deve promover ações que viabilizem a prioridade do atendimento à infância em qualquer situação (FARINELI; PIERINI, 2016, p. 65). Esse sistema está disposto no ECA, mas tem sua estruturação na Resolução nº. 113, de 19 de abril de 2006, do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), que foi responsável por instituir e normatizar o que já estava previsto desde 1990. Até então, não havia nada claro no texto do ECA. O Conanda, como órgão decontrole social de nível federal da aplicação e das ações em favor da política para infância e adolescência, apresenta a sis- tematização de uma perspectiva de atendimento que já perpassava os serviços e profissionais que atuam no SGDCA. A efetivação do SGDCA aconteceu por meio do eixo da promoção com a execução de políticas públicas que atendam crianças e adolescentes e promovam a proteção integral desses indivíduos em formação. Assim, as políticas de educação, saúde e assistência social, a partir de suas ações efetivas de maneira descentralizada e territorializada, têm como objetivo promover atividades a partir do ECA. Essas políticas públicas, atuando de forma intersetorial, conseguem atender às necessidades de crianças, adolescentes e suas famílias próximo ao seu local de moradia. Essa forma de atuação das políticas sociais ocorre a partir do princípio da municipalização, entendendo que esse ente federativo conhece e reconhece as ações mais efetivas para atender à sua população. As políticas sociais de âmbito privado complementam as ações públicas e são parceiras na proteção integral. Para que as políticas públicas para infância e adolescência ocorram, é neces- sária a atuação dos conselhos de direitos e do Legislativo na aplicação correta do orçamento, que vem do Fundo da Criança e do Adolescente. Assim, o eixo de controle social acontece partindo da relação democrática da participação social no planejamento e na execução dos recursos públicos para a infância e adolescência. Dessa forma, os conselhos de direitos e os parlamentares que atuam na causa da infância devem estar atentos e participativos para garantir a melhor forma de aplicação financeira em cada município. 11Estatuto da criança e do adolescente e os desafios de aplicá-lo Quando a violação de direitos acontece, entra o eixo de defesa, composto por Conselho Tutelar, Ministério Público e Judiciário, por meio da atuação da Vara da Infância e Juventude. Esse eixo atua em conjunto com os demais para a promoção e o controle, a fim de evitar a judicialização da vida das famílias pobres e seus filhos. Assim, muitas vezes, a ausência ou fragilidade da atuação do Estado contribuem para a violação de direitos pela família, que também é vítima, dessa forma, a retirada do poder familiar acaba por punir as vítimas. Assim, a destituição do poder familiar e o processo de colocação em família substituta são os últimos recursos. A política pública infantojuvenil brasileira, a partir da doutrina da proteção integral proposta pelo ECA e operacionalizada pelo SGDCA, é replicada e elogiada pelo mundo afora, mas ainda existem práticas repressoras, punitivas e preconceituosas que não refletem o pioneirismo do ECA. Além das práticas dos operadores do sistema, temos, em âmbito político, a eterna tensão sobre a proteção integral, principalmente no que concerne a adolescentes em conflito com a lei, além da corrupção de governos e entidades privadas, que estão presentes nos conselhos de direitos, apresentando propostas orçamentárias que garantam retorno financeiro e não a proteção integral. Esse processo faz parte da dinâmica contraditória do capitalismo neoli- beral, compondo a formação sócio-histórica-cultural brasileira, que, até a promulgação do ECA, vivia a doutrina da situação irregular. Assim, crianças e adolescente pobres, durante mais de 400 anos, foram punidos, preparados para o trabalho, separados de suas famílias, de sua cultura, entre tantas outras restrições. Dessa forma, a doutrina da proteção integral é muito recente no Brasil. Apesar dos movimentos sociais em favor dessa perspectiva lutarem décadas, só em 1990, pela primeira vez em nossa história, a criança e o ado- lescente foram vistos como sujeitos de direitos e em formação. Assim, é preciso estar sempre atento ao movimento do conservadorismo, que ataca as políticas e legislações sociais. Estatuto da criança e do adolescente e os desafios de aplicá-lo12 BAZÍLIO, L. C. Avaliando a implantação do estatuto da criança e do adolescente. In: BAZILIO, L. C.; KRAMER, S. Infância, educação e direitos humanos. São Paulo: Cortez, 2003. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 5 out. 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/consti- tuicao/constituicao.htm. Acesso em: 8 maio. 2019. BRASIL. Lei nº. 12.010, de 3 de agosto de 2009. Dispõe sobre adoção; altera as Leis nos 8.069, de 13 de julho de 1990 — Estatuto da Criança e do Adolescente, 8.560, de 29 de dezembro de 1992; revoga dispositivos da Lei nº. 10.406, de 10 de janeiro de 2002 — Código Civil, e da Consolidação das Leis do Trabalho — CLT, aprovada pelo Decreto-Lei nº. 5.452, de 1o de maio de 1943; e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 4 ago. 2009. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_ato2007-2010/2009/lei/l12010.htm. Acesso em: 8 maio. 2019. BRASIL. Lei nº. 12.594, de 18 de janeiro de 2012. Institui o Sistema Nacional de Atendi- mento Socioeducativo (Sinase), regulamenta a execução das medidas socioeducativas destinadas a adolescente que pratique ato infracional; e altera as Leis nº. 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente); nº. 7.560, de 19 de dezembro de 1986, nº. 7.998, de 11 de janeiro de 1990, 5.537, de 21 de novembro de 1968, nº. 8.315, de 23 de dezembro de 1991, nº. 8.706, de 14 de setembro de 1993, os Decretos-Leis nº. 4.048, de 22 de janeiro de 1942, nº. 8.621, de 10 de janeiro de 1946, e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada pelo Decreto-Lei nº. 5.452, de 1º de maio de 1943. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 19 jan. 2012. Disponível em: http://www.planalto.gov. br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/lei/l12010.htm. Acesso em: 8 maio. 2019. BRASIL. Lei nº. 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispões sobre o estatuto da criança e do adolescente e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 16 jul. 1990. 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Institui a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, cria o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas e altera a Lei nº. 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 18 mar. 2019. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_ato2007-2010/2009/lei/l12010.htm. Acesso em: 8 maio. 2019. SANTIAGO, M. A. S. O sistema de garantias de direitos de crianças e adolescentes e as dificuldades enfrentadas pelo conselho tutelar. Âmbito Jurídico, Rio Grande, ano XVI, n. 118, nov. 2013. Disponível em: http://www.ambito-juridico.com.br/site/?n_link=revista_ artigos_leitura&artigo_id=13812. Acesso em: 8 maio. 2019. Estatuto da criança e do adolescente e os desafios de aplicá-lo14 1a 1b