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Organização Linguística da Libras Aline Aparecida Adão da Silva Organização Linguística da Libras 2 Introdução Neste conteúdo, você irá aprender sobre a estrutura e organização linguística de Libras. Como toda língua, a Língua Brasileira de Sinais não poderia ser diferente, possui estrutura gramatical organizada a partir de alguns parâmetros que estruturam sua formação nos diferentes níveis linguísticos que precisam ser respeitadas e que, devido à falta de informação, algumas pessoas pensam que a Libras é composta por gestos ou mímica. Assim como o português e qualquer outra língua de um país vasto, a Libras também tem variações de sinais de uma região para outra, no mesmo país. Sendo reconhecida como a primeira língua do surdo, a Libras rompe barreiras que a cultura surda já vem lutando há muito tempo para eliminar, assim surgindo o bilinguismo e abrindo as portas de novas descobertas. Novas descobertas que são antigas, que precisam ser reestruturadas com formação, capacitação e adequação do ambiente para receber alunos surdos. Objetivos da Aprendizagem Ao final do conteúdo, esperamos que você seja capaz de: • Analisar as estruturas que compõem a língua, a gramática e a compreensão de textos escritos; • Apresentar o vocabulário adaptado à Língua de Sinais; • Conhecer os sinais da Libras referentes ao lar e à escola; • Conhecer o processo do diálogo entre surdos e ouvintes; 3 Estrutura de Libras A Língua de Sinais é um sistema linguístico utilizado pelos surdos como meio de comunicação, que nasceu da necessidade de se comunicar um com o outro, através do meio gestual-visual, o que acaba em alguns momentos sendo confundido, erroneamente, com as mímicas. Infelizmente, o intenso preconceito contra as formas icônicas acarretou o preconceito contra as línguas de sinais. As pessoas afirmaram durante muitos anos (alguns ainda o fazem) com base nos aspectos icônicos das línguas de sinais que elas são meras mímicas, encenação, imitação – e não verdadeiras línguas como um todo, e incapaz de expressar conceitos abstratos [...]. (TAUB, 2001, p. 2-3). De acordo com Alvez (2010), a Língua de Sinais surge devido às relações entre as pessoas, em que é possível perceber a grande diferença entre as línguas devido ao fato de as orais utilizarem o meio viso-espacial, enquanto a de sinais, o meio oral-auditivo. Para a inclusão do surdo, é preciso que este esteja em um ambiente que ofereça condições necessárias de aprendizagem, possibilitando o desenvolvimento da Língua Brasileira de Sinais e da Língua Portuguesa, com profissionais capacitados e que tenham domínio delas. As Línguas de Sinais têm regras próprias e são linguisticamente estruturadas, visto que não se trata apenas de gestos ou mímicas, mas principalmente de uma língua em si. A Língua Brasileira de Sinais (Libras) é conhecida também como Língua de Sinais Brasileira (LSB); língua natural utilizada pelas pessoas surdas que vivem no Brasil. Segundo Streiechen (2012), a Libras possui uma estrutura gramatical própria e, ao contrário do que muitos pensam, é independente da Portuguesa, pois apresenta suas regras próprias que precisam ser respeitadas para que a frase obtenha o resultado esperado no ato comunicativo. Ela não consiste na soletração, mas, sim, na representação do real, em que os signos são significados por meio dos sinais. Os sinais são formados pelo movimento das mãos com um determinado formato em um determinado lugar, podendo este ser uma parte do corpo ou espaço em frente ao corpo. Essas articulações das mãos, que podem ser comparadas aos fonemas e às vezes aos morfemas, são chamadas de parâmetros. A estrutura da Libras se divide em cinco parâmetros, são eles: 4 1º Parâmetro: Configuração das Mãos (CM): são as mãos que tomam as diversas formas na realização de sinais, podendo ser da datilologia (alfabeto manual). Figura 1 - Alfabeto manual Fonte: Plataforma Deduca (2023). 2º Parâmetro: Pontos de Articulação (PA) ou Localização: é o espaço em frente ao corpo ou onde incide a mão predominante configurada próxima à região do próprio corpo (à frente do tórax, por exemplo) ou em um espaço neutro vertical. Figura 2 - Movimento de mão Fonte: Plataforma Deduca (2023). 5 3º Parâmetro: Movimento (M): os sinais podem ou não ter um movimento. Figura 3 - Movimento Fonte: Capovilla e Raphael (2001). 4º Parâmetro: Expressão facial e/ou corporal: a entonação em Libras é feita pela expressão fácil. Figura 4 - Expressão facial/corporal Fonte: Capovilla e Raphael (2001). 5º Parâmetro: Orientação/Direção: os sinais têm direção com relação aos parâmetros citados anteriormente. Direção da mão durante a execução do sinal da Libras, para cima, para baixo, para o lado, para a frente e assim por diante. Também pode ocorrer a mudança de orientação durante a execução de um sinal. 6 Figura 5 - Parâmetros/Direção Fonte: Capovilla e Raphael (2001). É importante saber que a Configuração de Mão (CM), o Ponto de Articulação (PA) e o Movimento (M) são considerados como os parâmetros primários. Enquanto a expressão facial e/ou corporal e orientação/direção são denominados parâmetros secundários. Sinais Básicos (Família, Meio de Transporte, Utensílios Domésticos) No Brasil, a luta dos surdos por uma educação de qualidade e respeito aos aspectos socioculturais considera que a Língua Portuguesa não pode substituir a Língua de Sinais. Além disso, compreende-se também que o biliguismo, ou seja, o uso dessas duas línguas, não altera o direito do surdo de ser educado em sua língua natural, a Libras. Segundo Leffa (1988), no ensino comunicativo: [...] o material usado para a aprendizagem da língua deve ser autêntico. Os diálogos devem apresentar personagens em situações reais de uso da língua, incluindo até os ruídos que normalmente interferem no enunciado (conversas de fundo, vozes distorcidas no telefone, dicções imperfeitas, sotaques, etc.) [...] as quatro habilidades (ouvir, falar, escrever e ler) são apresentadas de modo integrado, mas dependendo dos objetivos, pode haver concentração em uma só. (LEFFA, 1988, p. 25). Falar sobre o ensino de vocabulário em cursos de línguas é um grande desafio devido às estratégias utilizadas para memorização de listas de sinais organizados por categorias, como, por exemplo, animais, frutas, dias da semana e assim por diante, como uma prática recorrente nos cursos de Libras. Mas essa prática, muitas vezes, não deixa de ser fruto da falta de conhecimento de que as Línguas de Sinais possuem estrutura gramatical própria, visto que há também a falta de embasamento teórico e científico e de como ocorre a aprendizagem e seus aspectos didáticos. 7 Para Gesser (2009), é típico que o aluno, no início do aprendizado de uma nova língua, baseie-se na sua primeira língua, visto que as transferências, misturas e alternâncias linguísticas são comuns. Quando acontece o aprendizado é de extrema importância a utilização do meio visual, por exemplo, fazendo uso de vídeos com usuários surdos, sinalizando em diferentes contextos e oferecendo informações culturais a respeito da língua, da sua estrutura gramatical e da expressão. Richards (2006) menciona que, nas abordagens tradicionais, ou seja, de cunho estruturalista, os programas de estudo consistiam em listas de palavras ou de itens gramaticais classificados de acordo com seus diferentes níveis de complexidade. Eram utilizados diálogos pré-elaborados pelo professor, contendo as estruturas que constituíam o enfoque da aula. As propostas educacionais começam a estruturar-se a partir do Decreto nº 5.626/2005, que regulamentou a Lei de Libras (Língua Brasileira de Sinais), passando para os surdos o direito ao conhecimento a partir dessa língua. O português é utilizado na modalidade escrita, sendo a segunda língua, e assim a educação dos surdos passa a ser bilíngue. Quando se fala em bilinguismo, vem a preocupação de qual seria sua contribuição para o desenvolvimento da criança surda, reconhecendoa Língua de Sinais como primeira língua e a Língua Portuguesa como segunda. O bilinguismo visa oferecer à pessoa com surdez a possibilidade de se comunicar na Língua de Sinais e na língua da comunidade ouvinte sem problemas. Ele é mais do que o domínio puro e simples de outra língua como mero instrumento de comunicação, favorece o desenvolvimento cognitivo e a ampliação do vocabulário. E, nesse sentido, apenas os integrantes dessa comunidade, como surdos, podem contribuir de modo efetivo para a educação de crianças surdas. (FERNANDES, 2003). A aquisição da Língua de Sinais permite ao surdo ter acesso aos conceitos de sua comunidade, formando e transformando sua maneira de pensar, agir e ver o mundo; enquanto que a Língua Portuguesa vem para complementar e fortalecer as suas estruturas linguísticas, permitindo e facilitando o acesso à comunicação. Segundo Paiva (2004), a aprendizagem significativa aborda alguns elementos. Conheça-os. • Listas de vocabulário (as listas de palavras a serem aprendidas podem apa- recer acompanhadas de sinônimos, antônimos, tradução ou definições). • Mapas conceituais. • Gradações de sentido. 8 • Prefixos e sufixos (uma forma de desenvolvimento de vocabulário é o traba- lho com formação de palavras por meio da adição de sufixos). • Associação de imagem com itens lexicais (as gravuras são importantes au- xiliares para a aprendizagem de vocabulário). • Recursos mnemônicos (técnicas que auxiliam a memorização). • Combinação de palavras com definições. • Colocação (fazer com que os alunos combinem itens que ocorrem normal- mente juntos). • Ações e gestos. • Atividades lúdicas. Richards (2006) relata que é fundamental que o professor tanto de línguas orais como de línguas de sinais como língua estrangeira, ao planejar sua aula, leve em conta: Aprendizado O aprendizado será facilitado no envolvimento dos alunos e com sua interação e comunicação por meio de tarefas e exercícios em sala de aula. Conteúdo O conteúdo deve ser relevante, pertinente, interessante e motivador. Linguagem O aprendizado de idiomas é facilitado tanto por atividades que envolvem o aprendizado indutivo ou por descoberta das regras de estruturação linguística quanto por aquelas que envolvem análise e reflexão sobre a linguagem. Desenvolvimento Os alunos desenvolvem seus próprios caminhos para o aprendizado, progridem em ritmos diferentes e apresentam necessidades e motivações distintas para aprender uma língua. 9 Estratégia de aprendizagem O aprendizado bem-sucedido envolve a utilização de estratégias eficazes de aprendizado e comunicação. Papel do professor O papel do professor é o de facilitar a aprendizagem e promover o conhecimento, oferecendo oportunidades para que os alunos utilizem e pratiquem a língua estrangeira, além de refletir sobre a utilização e o aprendizado linguístico. Colaboração A colaboração e o compartilhamento entre todos os envolvidos favorecem o aprendizado. Para uma aula significativa e eficaz na aprendizagem dos alunos, o professor deve desenvolver estratégias de ensino que estes reconheçam e façam uso de tais termos. Sinais Básicos: Objetos do Lar e Material Escolar O ensino de línguas orais foi orientado por abordagens fundamentadas em diferentes bases filosóficas, valores e conhecimento científico do contexto social e educacional vigentes, em consonância com as metas definidas por alunos e professores. Segundo Gesser (2009), de modo geral, essas abordagens de ensino podem ser classificadas em duas categorias, diferenciadas de acordo com os conceitos de “língua(gem), de ensinar e de aprender”: as com foco na forma (estruturalista) e as com foco no uso (comunicativa) da língua. Analisando a estrutura da língua(gem), esta precisa ser entendida e estudada a partir da análise da estrutura formal da língua, contemplando o estudo da gramática, que inclui a sintaxe e a fonética, por exemplo. As regras e suas funções seriam o objeto de aprendizagem pelo aluno. No outro extremo, ou seja, para a abordagem comunicativa, a língua(gem) é concebida com um instrumento de comunicação e interação social. Os indivíduos são partícipes na construção discursiva, e de maneira sempre negociada buscam a compreensão mútua que vai além da simples decodificação linguístico-estrutural (GESSER, 2009). 10 Somente nos anos 1980 foi que começou a surgir a abordagem comunicativa, a qual esclarece que aprender uma língua é saber se comunicar, com as funções comunicativas da língua, e o exercício mecânico ficando como segundo plano dentro do processo de ensino-aprendizagem. Na proposta comunicativa do ensino de línguas, o vocabulário deve ser trabalhado dentro de contextos significativos para o aluno e que reflita o uso natural do idioma. (RICHARDS, 2006). Foram desenvolvidos muitos estudos em torno do ensino de línguas, com incentivos e buscas de estratégias de aprendizagem com vocabulários relevantes e significativos. Cotterall e Reinders (2005) reforçam esse relato através de um levantamento da área de ensino de línguas, agrupando as estratégias específicas para a aprendizagem de vocabulário em metacognitivas, cognitivas, sociais e de comunicação. Estratégias metacognitivas Estratégias que os aprendizes utilizam para organizar e avaliar sua aprendizagem. Estratégias cognitivas Estratégias que implicam a utilização de processos mentais para a aprendizagem. Estratégias sociais e de comunicação Estratégias relacionadas ao aprender com o outro. Também chamadas de estratégias de compensação, estão relacionadas às táticas empregadas pelo aprendiz para superar ausência de conhecimento para permitir a comunicação. Espera-se que os surdos compreendam a escrita a partir de estruturas simples que gradativamente progridem para estruturas complexas. Diante disso, Sánchez (1989) diz que os surdos, diferentemente dos ouvintes, não podem aprender o som das letras porque não ouvem e não podem fazer uso do mecanismo alfabético para extrair significado do escrito. As propostas educacionais direcionadas para o sujeito surdo vêm com o objetivo de proporcionar o pleno desenvolvimento de suas capacidades, desenvolvendo a importância de a criança compreender a utilidade da escrita, oferecendo-lhe uma metodologia de ensino própria. O contato com a Língua Portuguesa se dá de forma funcional, com objetos e coisas familiares para estabelecer a relação da palavra com 11 as coisas, através de recursos visuais seguidos de uma exploração contextual do conteúdo para que a sua aquisição provoque no aluno interesse, vontade, prazer, criando desafios para que haja uma evolução em sua aprendizagem. É importante que a escola consiga ter esse olhar preocupado com a aprendizagem do aluno surdo, buscando maneiras para inserir e oferecer uma oportunidade de aprendizagem, não se preocupando somente em alfabetizar, mas oferecendo as condições necessárias para que se torne leitor e escritor, apoiado no aspecto visual e não codificador e decodificador dos símbolos gráficos. Conseguindo realizar esse tipo de aprendizagem, o resultado será de surdos alfabetizados em ambas as línguas (bilíngues), que conhecem e podem desfrutar de sua cultura e da cultura ouvinte, dando a oportunidade de se inserir na sociedade, participando e exercendo seu papel de cidadão. Comunicação do Surdo A Língua de Sinais é a língua natural dos surdos com suas características próprias, que utiliza os gestos e as expressões faciais como forma de comunicação. Através de inúmeros estudos em diversos ambientes linguísticos, foram encontrados surdos filhos de pais surdos, surdos filhos de pais ouvintes e ouvintes filhos de pais surdos, que contribuíram para identificar as fases que demonstram o processo de apropriação da Língua de Sinais por parte dos surdos que se comunicam através das mãos e dos movimentos com determinado formato que se caracterizam como articulações das mãos. Na Língua de Sinais, cada pessoa tem um sinal correspondente a fim facilitara comunicação, não sendo preciso utilizar todas as letras do alfabeto para indicar o nome. Quando um surdo se apresenta, é bem comum que diga seu nome e seu sinal. Se você ainda não tem, quando conhecer um surdo ou um grupo de surdos, poderá ser “batizado” com um sinal. Alfabeto manual é usado somente para nomes de pessoas e lugares, rótulos; não é uma representação direta do português e sim da ortografia. É uma sequência de letras escritas do português que chamamos de datilologia. Segundo Quadros (1997), a linguagem é um sistema de comunicação natural ou artificial, humano ou não, assim, linguagem pode ser compreendida como qualquer forma utilizada com algum tipo de intenção comunicativa incluindo a própria língua. A fim de que os surdos tivessem a oportunidade de se comunicar, foram desenvolvidos alguns meios de comunicação, como: 12 a. Língua Brasileira de Sinais (Libras) Usada pelos surdos e pelas comunidades surdas, está fundamentada pela Lei Federal nº 10.436, de 24 de abril de 2002, e regulamentada pelo Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Apresenta-se de forma diferente das línguas orais-auditivas, pois são línguas espaço-visuais; meio da visão e da utilização do espaço; articulada através das mãos, das expressões faciais e do corpo. As Línguas de Sinais, ao contrário do imaginário de muitos, não são simplesmente mímicas e gestos soltos que os surdos utilizam para se comunicarem. São línguas com estruturas gramaticais próprias, assim como as demais línguas. (QUADROS, 1997). “A aquisição da Libras possibilita a estruturação do pensamento e da cognição e ainda uma interação social, ativando consequentemente o desenvolvimento da linguagem”. (BRASIL, 2006, p. 28). b. Comunicação total É vista como uma filosofia de educação em que o princípio básico é se comunicar. Chegou ao Brasil no final da década de 1970. Ela defende a utilização de toda e qualquer forma de comunicação com a criança surda, incluindo a fala, a leitura orofacial, o treinamento auditivo, a mímica, a leitura, a escrita e os sinais, sendo estes considerados como facilitadores de comunicação com as pessoas surdas, privilegiando a comunicação e interação das línguas tanto orais quanto sinalizadas. (MARTINS, 2012). A comunicação total valoriza a comunicação e a interação, e não apenas a língua; defende a utilização de qualquer recurso linguístico, como a Língua de Sinais, a linguagem oral ou os códigos manuais. Dentro de sua filosofia, não há exigência da participação de adultos surdos na educação da criança com deficiência auditiva. O seu desenvolvimento não tem foco apenas nos processos de aquisição da linguagem, mas também no funcionamento da linguagem, em que, apoiada pelos pressupostos da Teoria da Comunicação, a linguagem é concebida como um código que propicia um reservatório de mensagens possíveis. A criança é exposta desde cedo: à linguagem oral; à leitura labial; aos gestos e ao alfabeto manual; à amplificação sonora; à leitura e escrita. c. Oralismo É um método de ensino da língua materna por meio da imposição da oralização nos processos de aprendizagem dos surdos, em que se defende que a maneira mais eficaz 13 de ensinar o surdo é a partir da língua oral ou falada. Nas suas diversas configurações, passou-se a ser criticado devido ao fracasso em oferecer condições efetivas para a educação e o desenvolvimento da pessoa surda, pelo fato de propiciar a aquisição da linguagem oral como forma de integração, em vez de eliminar a desigualdade entre surdos e ouvintes quanto às oportunidades de desenvolvimento. Na tentativa de impor o meio oral, interditando formas de comunicação viso-gestual, reduziu as possibilidades de trocas sociais, impossibilitando a integração. d. Bilinguismo É caracterizado pelo aprendizado de duas línguas; é a aquisição da Língua de Sinais, que é considerada a língua natural dos surdos, e da língua oral utilizada em seu país como uma segunda língua. Segundo Quadros (1997), o bilinguismo é uma proposta de ensino em que as escolas se propõem a tornar acessível à criança as duas línguas no contexto escolar. Estudos apontam para essa proposta como sendo a mais adequada para o ensino das crianças surdas, uma vez que considera a Língua de Sinais como sendo natural e parte desse pressuposto para a instrução da língua escrita. A proposta educacional do bilinguismo só começou a se estruturar a partir do Decreto nº 5.626/2005, o qual prevê a organização de turmas bilíngues, compostas de alunos surdos e ouvintes, em que as duas línguas, Libras e Língua Portuguesa, são utilizadas no mesmo espaço educacional, tendo os alunos surdos a Libras como primeira língua e a Língua Portuguesa como segunda, na modalidade escrita. Essa proposta bilíngue traz uma grande contribuição para o desenvolvimento da criança surda ao reconhecer a Libras como uma língua oral e como instrumento de fortalecimento de estruturas linguísticas, favorecendo o desenvolvimento cognitivo. Assim sendo, independentemente de serem oralizadas ou sinalizadas, o ideal é fazer escolhas que permitam à pessoa surda ser natural em sua comunicação. Portanto, o que importa realmente é oferecer uma educação que possibilite o desenvolvimento integral do indivíduo a fim de que desenvolva todas as suas potencialidades. 14 Quando se pensa no aluno surdo nas turmas regulares, há pontos que precisam ser analisados, como: O professor tem a formação específica?; Como será a comunicação entre professor e aluno?; Como será sua alfabetização?; Terá intérprete para acompanhá-lo nas aulas? Reflita Se a escola estivesse preparada para receber o aluno surdo, essas dúvidas não existiriam, mas com a realidade de hoje essa é a maior preocupação: apenas “incluir” o aluno, deixando de fazer a sua real inclusão. A Libras trabalhada com a Língua Portuguesa insere o aluno no contexto escolar e o faz interagir com o todo. A formação do professor é um dos fatores imprescindíveis para que os profissionais de educação possam atuar, efetivamente, frente aos alunos em classe e no ambiente escolar, de maneira eficiente, por mais diversificado que esse grupo se apresente, oferecendo-lhe conteúdos adequados de acordo com a necessidade do aluno. No entanto, essa ainda não é a nossa realidade, pois faz-se da inclusão uma socialização e esquece-se do ponto principal: o direito e a igualdade de uma educação de qualidade. A inserção do surdo não pode ficar apenas na socialização, não que seja ruim, pois é indispensável para seu desenvolvimento, porém, é preciso oferecer a oportunidade de vivenciar e apropriar-se de comportamentos produzidos pela sociedade da qual está fazendo parte, adquirindo os valores, as normas, os costumes e as condutas que a sociedade transmite e exige. A partir do momento em que a criança passa a frequentar a escola, ela está se transformando em outro importante contexto de socialização que será determinante para o seu desenvolvimento e curso posterior de sua vida, pois irá interagir com pessoas de diferentes meios familiares, concepções de vida, graus de conhecimento, etnias, religiões etc. (BRASIL, 2006). Quando o aluno surdo tem essa oportunidade, ele consegue adequar-se aos espaços e buscar aceitação em cada situação do cotidiano escolar. A língua, nesse caso, será aquisição considerável para que o processo de inclusão do aluno surdo se efetive. A aceitação de uma proposta educacional que valorize a Libras, o contato com os surdos e a identidade da criança será mais fortalecida. Com esses modelos, surgirão as oportunidades de representações sociais e a interiorização de significados da cultura, que serão compartilhados socialmente em todos os momentos de sua vida. Não podemos esquecer que a interação do surdo deverá estar estruturada de forma a estimular a troca, valorizar ideias e oferecer respeito. Se a escola seguir o 15 que se pede nos direitos ao surdo, seu ensino será muito mais significativo, pois oferecerá um ambiente desafiador,que estimula a troca de opiniões, a construção do conhecimento, a interação e a empatia. Tão importante quanto o desenvolvimento da linguagem é proporcionar ao surdo o meio para desenvolvê-la de acordo com as possibilidades próprias da sua condição. O seu desempenho não pode ficar restrito à fala, deixando-a como o único recurso para a expressão do pensamento. O aprendizado da Língua Portuguesa é a maior dificuldade para os alunos surdos. Apesar do enorme esforço de professores e dos próprios alunos, os resultados nem sempre são satisfatórios. O desempenho do aluno surdo está diretamente ligado à atenção que lhe é dada com relação à língua, pois, quanto mais cedo tem contato com sua língua materna, mais fácil se dará seu processo de aprendizagem. Embora uma língua se organize nos níveis fonológico, morfossintático, semântico e pragmático, para o aprendizado de Língua Portuguesa pelo aluno surdo, praticamente são considerados apenas os níveis morfossintáticos, semântico e pragmático, observando a não configuração de imagem acústica e as dificuldades articulatórias de alunos surdos. (BRASIL, 1997). Não podemos ignorar a aprendizagem da Língua Portuguesa ou valorizar somente a Língua de Sinais, até porque o surdo utiliza-se de contextos em que o conhecimento do português escrito é necessário. Conforme a Lei de Diretrizes e Bases, no artigo 59: Os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com necessidades especiais: I – currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específica para atender às especificidades próprias das necessidades; A pré-escola de o ensino regular e a da educação especial devem ser estimuladas a oferecer uma educação pautada no bilinguismo. (BRASIL, 1996). A Língua Brasileira de Sinais (Libras) figura entre as milhares de fontes disponíveis para uso em editores de texto. Com sinais do alfabeto manual/datilológico (com letras de A a Z) e numerais (de 0 a 9), a fonte Libras2002 permite brincar com a língua gestual em programas do pacote Office, Adobe etc. Para baixar a fonte, acesse o site da Cultura Surda (culturasurda.net). 16 Conclusão Vimos neste conteúdo que a Língua de Sinais, além de um sistema linguístico utilizado pelos surdos para se comunicarem, vem para reafirmar que é a língua natural dos surdos que precisam vivenciar suas experiências e interagir com sua comunidade. Sua gramática é constituída de elementos próprios; estruturada a partir de mecanismos fonológicos, morfológicos, sintáticos e semânticos, suas variações linguísticas (icônica e arbitrária) são significativas para a vivência e experiência da comunidade surda. A Libras consegue transmitir ideias de movimento e expressão faciais e/ou corporais para que o surdo tenha toda sua capacidade desenvolvida através de estratégias adequadas. A estrutura gramatical é organizada a partir de parâmetros que estruturam sua formação nos diferentes níveis linguísticos, como: Configuração das Mãos, Pontos de Articulação ou Localização, Movimento, Expressão visual e/ou facial e Orientação/Direção, os quais, sendo utilizados corretamente e com respeito, proporcionarão uma comunicação natural entre o surdo e o ouvinte. O respeito é o ponto-chave para que a comunidade surda realize a comunicação, e todo o direito de aprendizagem que o Decreto nº 5.626/05, que regulamentou a Lei de Libras (Língua Brasileira de Sinais), vem para reafirmar o direito ao conhecimento a partir de sua língua natural. Mesmo com leis que oportunizam essa oportunidade de aprendizagem com igualdade para todos, é preciso que haja professores qualificados que possam oferecer essa aprendizagem significativa de acordo com a necessidade dos alunos surdos, valorizando sua primeira língua, a de sinais, e depois a sua segunda, a Língua Portuguesa. Já imaginou como deve ser interessante trabalhar a leitura e escrita com surdos com o auxílio de um software? Quer saber mais? Então, veja este artigo no link. Saiba mais http://ojs.sector3.com.br/index.php/wie/article/view/2618 17 Referências ALVEZ, C. B. et al. A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar: Abordagem bilíngue na escolarização de pessoas com surdez. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial; [Fortaleza]: Universidade Federal do Ceará, 2010. ALMEIDA, M. A. A criança deficiente e a aceitação da família. Rio de Janeiro: Nova Era, 1993. BRASIL. Decreto-Lei nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, e o art. 18 da Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 23 dez. 2005. ______. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 20 dez. 1996. 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