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1 ESTIMULAÇÃO DO RECÉM-NASCIDO 2 Sumário Unidade 1: Atuação da fisioterapia através da estimulação precoce em bebês prematuros ............................................................................................ 3 Seção 1.1: Introdução ........................................................................ 3 Seção 1.2: Relação com os pre-maturos ......................................... 6 Seção 1.3: A prematuridade e o desenvolvimento: revisando ..... 11 Unidade 2: Estimulação Precoce .................................................................. 13 Seção 2.1: Introdução ...................................................................... 13 Seção 2.2: Estimulação Auditiva .................................................... 14 Seção 2.3: Estimulação das habilidades auditivas ....................... 16 Seção 2.4: Estimulação Visual ........................................................ 19 Seção 2.5: Estimulação Precoce de Crianças com Baixa Visão .. 21 Seção 2.6: Estimulação Precoce de Crianças Cegas .................... 22 Seção 2.7: Estimulação da Função Motora .................................... 24 Unidade 3: Estimulação tátil-cinestésica no desenvolvimento e ganho de peso do rn pré-termo na uti. .......................................................................... 41 Seção 3.1: Introdução ...................................................................... 41 Seção 3.2: Prematuridade e fatores de risco ................................. 43 Seção 3.3: Desenvolvimento neuropsicomotor e a maturação dos sistemas ...................................................................................................... 44 Seção 3.4: Ganho de peso na UTI ................................................... 44 Seção 3.5: Protocolo de estimulação tátil-cinestésica ................. 45 Unidade 4: Os benefícios da estimulação motora em recém-nascidos na UTIN ................................................................................................................. 47 Seção 4.1: Introdução ...................................................................... 47 Seção 4.2: exercícios e posicionamento terapêuticos ................. 49 Referências ..................................................................................................... 54 3 Unidade 1: Atuação da fisioterapia através da estimulação precoce em bebês prematuros Seção 1.1: Introdução A prematuridade tem sido, há anos, um grande de-safio no atendimento em neonatologia, afetando o desenvolvimento e crescimento dos bebês, fazendo com que esses bebês manifestem deficiências na área em que começaria a assumir funções normais à idade. São chamados, então, de alto risco, nascidos antes das 37 semanas de gestação, pré-termo e com baixo peso, mais especificamente menor ou igual a 1,500 g. Ocorre devido a vários fatores, entre eles, a má for-mação uterina, baixa condição socioeconômica, gestações múltiplas, tabagismo e, também, a rup-tura prévia da bolsa. A estrutura musculoesquelética desses bebês apresenta perda de destreza, perda ou ausência de força de contração voluntária, além de hipotonia. A Estimulação Precoce, também classificada como Estimulação Essencial ao Desenvolvimento, obje-tiva o desenvolvimento sensório-motor, cognitivo, afetivo do bebê prematuro e também a integração família-bebê. Em Cabral (1989 apud Navajas, 2003), é definida como uma necessidade humana básica para o crescimento e desenvolvimento harmônico, pois, através desta prática, a criança desenvolve o seu potencial genético e atinge a maturidade física, mental e social. Segundo Souza (2013), o peso ao nascer e a pre-maturidade podem ser considerados, isoladamente, um dos principais fatores correlacionados à morbidade e à mortalidade neonatal, portanto, constituindo-se um indicador de saúde imediata do futuro do recém-nascido. Considera-se que o baixo peso ao nascer e a prematuridade sejam um problema de difícil controle, pois a prevenção desse quadro torna-se uma tarefa que envolve a quali-dade de vida da população. A condição socioeconômica é um dos fatores de risco que aumentam a probabilidade de déficits no desenvolvimento neuropsicomotor, acarretando o 4 comprometimento nos bebês nascidos pré-termo, visto que famílias de baixa renda e pais sem grau de instrução estão menos favorecidos no acesso ao atendimento. Para Pinto et al. (2010), o risco de morbimortalidade é tanto maior quanto menor a idade gestacional e o peso ao nascimento, havendo riscos para a adaptação à vida extrauterina devido à imaturidade dos órgãos e sistemas. Esses riscos são agravados pelo fato de que grande parte dos recém-nascidos prematuros e de baixo peso é proveniente de famílias que apresentam problemas socioambientais e de saúde. O fator ambiental também é relevante em Pereira et al. (2014), quando dizem que o baixo grau de instrução e a precariedade dos serviços de saúde, com relação ao pré-natal, condições de parto e acompanhamento do bebê recém-nascido, podem ser agra-vantes com relação aos efeitos de risco para o bebê. Além de o Sistema Nervoso não estar em perfeita harmonia, os prematuros apresentam tecido adiposo reduzido, tônus muscular diminuído, a cabeça é relativamente grande em relação ao tórax, caixa torácica deficiente e abdômen distendido. Funcionalmente, apresentam maior probabilidade para o desenvolvimento tardio da icterícia fisiológica, funções digestivas e urinárias deficientes, rins menos eficientes, hipoglicemia, função respiratória prejudicada, incapacidade de manutenção da temperatura corpórea, níveis baixos dos fatores de coagulação, maior fragilidade capilar e armazenamento inadequado de minerais e vitaminas. Essas condições, na maioria das vezes, estão associadas também à hidrocefalia, microcefalia, às anormalidades cromossômicas, ao nascimento múltiplo, à lesão do plexo braquial e às doenças metabólicas. Com o atraso da maturação do Sistema Nervoso e do processo de mielinização, têm-se as complicações neurológicas, logo, com o intuito de evitá-las, o tratamento especializado, através da estimulação precoce, torna-se necessário para normalizar o tônus e permitir que a criança possa experimentar movimentos e posturas normais desde o nascimento, favorecendo o desenvolvimento mais perto possível do normal a esses recém- nascidos. Segundo Hallal (2008), a estimulação precoce visa possibilitar ao indivíduo desenvolver-se em todo o seu potencial. Quanto mais imediata for a intervenção, 5 preferencialmente antes dos 3 anos de idade, maiores as chances de prevenir e/ou minimizar a instalação de padrões posturais e movimentos anormais. A estimulação precoce busca devolver aos bebês seu perfeito desenvolvimento, e/ou condição mais próxima do normal, através de condutas específicas, após uma minuciosa avaliação, identificando os possíveis distúrbios e traçando um plano de tratamento adequado a cada paciente. A fisioterapia tem o papel fundamental de dar oportunidade para o bebê se desenvolver normalmente, ajudando na sua organização global, ou seja, diagnosticar alterações no desenvolvimento neuropsicomotor, orientar os pais, humanizar o ambiente, proporcionar melhor qualidade de postura evitando os padrões anormais, possibilitando movimento e a percepção adequada à idade gestacional, organi-zar o sono, facilitar a percepção global, normalizar o tônus, prevenir deformidades e contraturas, reduzir o stress do ambiente, tornar curto o tempo de internamento e oferecer tratamento especializado em bebê com anormalidade neurológica. Para Rios et al. (2008), a importância da atuação do fisioterapeuta na UTI neonatal será prevenirda urina que levam ao ganho de peso (FOGAÇA; CARVALHO; VERRESCHI, 2006). Também é importante lembrar que a responsividade do recém-nascido à estimulação tátil é muito melhor do que qualquer outra técnica sensorial, e as respostas de crescimento e maturação são muito maiores nos primeiros dias de vida do que quando comparada com em qualquer outra fase da vida. Seção 3.4: Ganho de peso na UTI A perda de peso nos primeiros dias após o nascimento é considerada normal por conta da redistribuição de fluidos. Rugolo (2005) traz que a dinâmica do crescimento neonatal é proporcional a idade gestacional, já a intensidade e duração 45 da perda de peso inicial e consequente recuperação é inversamente proporcional a idade gestacional, peso e gravidade do prematuro. a necessidade nutricional de cada um costuma variar de acordo com o peso no momento do nascimento, porém a dificuldade de absorção interfere diretamente no ganho de peso ponderal , apesar da oferta da quantidade necessária . Kuhn et al. (1991), começou a relacionar o ganho de peso na uti e a maturação comportamental com a estimulação tátil-cinestésica, o que só vem se fortalecendo ao longo do tempo e dos artigos encontrados A estimulação tátil-cinestésica destaca-se como uma medida extremamente eficaz dentre as possíveis intervenções aplicadas no RN para acelerar o ganho de peso diário e reduzir por consequência o tempo de internação hospitalar. Field et al.(1986), realizou um estudo com prematuros com idade média de 31 semanas e concluiu que a estimulação tátil-cinestésica fez com que os bebes ganhassem em média 47% a mais de peso por dia, permanecessem mais tempo acordados e possuíssem mais movimentos espontâneos do que os que não receberam nenhum tipo de estímulo. Em outro estudo encontrado os autores tinham como objetivo verificar os efeitos da estimulação no desenvolvimento de 5 crianças prematuras e de baixo peso ao nascer e após dez dias consecutivos de estimulação, concluíram que as crianças demonstraram maior ganho de peso, maior permanência em estado de alerta e padrões mais maduros quanto ao aspecto psicomotor (FERREIRA; BERGAMASCO, 2010). Seção 3.5: Protocolo de estimulação tátil-cinestésica Não foi possível definir um protocolo unanime, os autores estudados nesse artigo possuíam o seu próprio protocolo e eram diferentes uns dos outros, porem todos os autores concordam que os estímulos só poderiam ser realizados de acordo com o comportamento de aproximação ou afastamento do RN, para que ele aceitasse bem a técnica e que esta fosse eficaz. Em um estudo apenas a estimulação foi dividida em duas etapas, e o total de tempo de aplicação da técnica não poderia passar de 25 minutos. A primeira etapa, que deveria ser de no máximo 5 minutos, foi a estimulação cinestésica, que consistia em movimentos de flexão e extensão das articulações dos 46 membros inferiores e superiores e a segunda, que não deveria passar de 10 minutos, foi a estimulação tátil e que consistia em deslizar os dedos com uma pressão moderada em toda superfície da região temporal, frontal, periorbital, nasal, perilabial e mandibular do rosto e na face externa dos membros superiores e inferiores (MENDES, 2007). Em outro estudo feito com 40 recém-nascidos pré-termo e com baixo peso pode-se observar um protocolo diferente, que consistia em 4 ou 5 intervenções semanais com duração entre 5 e 15 minutos cada uma. O tempo variava de acordo com os limiares de cada bebê e era sempre feito no estado de alerta. A estimulação tátil consistia em toques suaves, lentos e contínuos e de sequencia não rígida e na direção cefalo-caudal quando feita no tronco e proximal pra distal quando era realizada nos membros. Já a estimulação cinestésica consistia na flexão e extensão lenta dos membros, exploração manual do prematuro pelo seu corpo e do posicionamento em decúbito lateral ou dorsal, sempre com a ajuda de rolos de tecido colocados em formato de ninho. O resultado desse estudo concordou com os outros, apresentando um ganho de peso de 5 gramas por dia e a diminuição da permanência hospitalar em 4,5 dias, porém esses números não apresentaram uma significância estatística, o que significa apenas uma tendência a melhora de ambos os critérios citados anteriormente (FERREIRA; BERGAMASCO, 2010). A presente unidade verificou que a estimulação tátil-cinestésica é um recurso, seguro e eficaz quando realizado por uma equipe treinada e motivada. Contudo, faz- se necessário maior investigação sobre o tema e evidências para confirmar os reais efeitos sobre o peso, já que os poucos estudos realizados anteriormente mostravam apenas uma tendência a melhora, mas não conseguiram atingir níveis significativos estaticamente, como mostrado no estudo recentemente publicado, o que se apresenta muito encorajador mas que deve ser visto com cautela. 47 Unidade 4: Os benefícios da estimulação motora em recém-nascidos na UTIN Seção 4.1: Introdução De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o RN é classificado como pré-termo (RNPT) quando nasce com idade gestacional (IG) inferior a 37 semanas, sendo que nesta fase o mesmo ainda apresenta órgãos em fase de desenvolvimento, com imaturidade do SNC (sistema nervoso central), esses bebês nascidos precocemente apresentam maior chance de desenvolver alterações no seu desenvolvimento (SCOCHI et al., 2003 citado por URZÊDA et al., 2009). O desenvolvimento do SNC tem inicio no período embrionário, continuando esse processo após o nascimento (MEDEIROS; ZANIN; ALVES, 2009). Cada fase de desenvolvimento e crescimento cerebral tem seu tempo e não ocorre individualmente, o nascimento prematuro interrompe a evolução normal desses eventos e as crianças nascidas prematuramente são consideradas de risco em relação ao desenvolvimento e às incapacidades funcionais (MARLOW et al., 2005 apud ZOMIGNANI; ZAMBELLI; ANTONIO, 2008). A idade gestacional e o peso ao nascimento constituem os principais fatores determinantes de complicações neonatais, que tem sido mais frequentemente apontadas como possíveis fatores de risco para o desenvolvimento neurológico e intelectual anormais, dentre as complicações, destacam-se: hemorragia intracraniana, 48 anóxia, pacientes com apneia ou doenças de membrana hialina, infecções (LEONE, 2002 citado por ZOMIGNANI; ZAMBELLI; ANTONIO, 2008). Garcia et al. (2005) apud Medeiros, Zanin e Alves (2009), citam ainda, hemorragia periventricular, doenças respiratórias e cardíacas, distúrbios metabólicos, hematológicos, gastrintestinais, dificuldade na manutenção da temperatura corpórea e asfixia perinatal, que podem prejudicar o desenvolvimento neuropsicomotor (DNPM) da criança, levando à distúrbios como retardo mental, paralisia cerebral, perda visual e auditiva, problemas neurológicos mais leves e distúrbios da coordenação motora, tendo assim uma evolução desigual em relação a uma criança nascida a termo. O desenvolvimento neuropsicomotor é caracterizado por uma sequência de mudanças que ocorrem no comportamento da criança com a idade podendo sofrer influencias biológicas e ambientais (GALLAHUE e OZMUN, 2003 citado por URZÊDA et al., 2009). “Os fatores ambientais interferem na motricidade e também no atraso do desenvolvimento da imagem corporal da criança, isso acontece devido à internação por longos períodos em UTI sem receber estímulos adequados e exposta a ruídos excessivos e luminosidade exagerada” (SILVA e GAETAN, 2004 citado por MEDEIROS; ZANIN; ALVES, 2009, p. 368). A maioria dos estudos classifica os riscos para problemas no desenvolvimento da criança em dois tipos: biológicos eambientais. Os fatores de riscos biológicos são eventos que ocorrem no período pré, peri e pós-natal que resultam em danos biológicos e podem aumentar a probabilidade de prejuízo no desenvolvimento da criança. Entre elas, podem se destacar a prematuridade, o baixo peso ao nascimento, a anóxia neonatal. Os fatores de risco ambientais estão relacionados às experiências adversas ligadas à família, ao meio ambiente e à sociedade em que a criança vive (FORMIGA e LINHARES, 2011). E com os avanços médico-cientifícos na área de neonatologia e consequentemente o aumento das taxas de sobrevivência dos RN’s prematuros, tem se observado RN com idade gestacional (IG) cada vez menores recebendo alta das UTIN em condições aparentemente satisfatórias (RESEGUE; PUCCINI; SILVA, 2007 citado por URZÊDA et al., 2009). 49 Embora a taxa de mortalidade dos RN’s de alto risco tenha diminuído, houve um aumento de incidência de distúrbios neuropsicomotores entre os bebês sobreviventes (PERLMAN, 2001 e NETO et al., 2005 citado por URZÊDA et al., 2009). Além dos fatores orgânicos e/ou ambientais que podem interferir negativamente no desenvolvimento da criança, o conhecimento e a identificação dos de proteção são de grande importância na implementação de medidas preventivas e intervenção precoce com bebês de risco (GUIMARÃES e TUDELLA, 2003 apud FORMIGA et al., 2004). A identificação precoce das alterações no desenvolvimento da criança e/ou dos indicadores de risco (orgânicas e/ou ambientais), possibilita uma intervenção oportuna (Pedromônico, 2003) e, de acordo com a Política Nacional de Prevenção de Deficiências (Brasil, 1992), o objetivo seria encontrar o momento ideal para a intervenção; na legislação, prevenir significa realizar ações que impeçam a ocorrências dos fatos ou fenômenos prejudiciais à vida, a saúde e, caso ocorram, evitar a progressão de seus efeitos (FORMIGA et al., 2004). Segundo Johnston et al. (2012) o fisioterapeuta que atua na área de neonatologia é responsável pela avaliação e prevenção cinético-funcional como também por intervenções de tratamento (fisioterapia respiratória e/ou motora). Seção 4.2: exercícios e posicionamento terapêuticos Segundo Duarte et al. (2011) o processo de maturação neurológica do RN ocorre a partir do desenvolvimento e a diferenciação das fibras musculares (Tipo I e Tipo II). Sendo que os estágios de diferenciação e desenvolvimento das células musculares primárias ocorrem nos primeiros meses de gestação, e, ao nascimento, a maior parte dos músculos esqueléticos já estão formados. As estruturas articulares estão desenvolvidas no final da 8ª semana de gestação. O crânio se desenvolve no período fetal e a plasticidade dos ossos e suas conexões articulares frouxas permitem que a calvária sofra, durante o parto, modificações temporárias na sua forma. Com 30 a 32 semanas de IG, o tono flexor torna-se aparente nos membros inferiores (MMII), e, com 36 semanas, é observado nos membros superiores (MMSS). 50 O bebê prematuro apresenta uma hipotonia global devido a imaturidade do SNC quanto do músculo, tendo suas extremidades em padrões de extensão e abdução (pela falta de flexão fisiológica), pois o RNPT não desenvolve o padrão de flexão por não ter permanecido “contido”o tempo suficiente dentro do útero materno caracterizando-se como um bebê em extensão (GARCIA e LIMA, 2009). Nos RNPT, a mielinização do sistema subcorticoespinhal ocorre sob forte influencia da ação da gravidade que sobre a musculatura hipotônica e a restrição dos movimentos espontâneos, associados ao posicionamento insuficiente no leito, resultam em anormalidades transitórias do tono muscular e deformidades do sistema musculoesquelético mesmo em RN neurologicamente sadios (DUARTE et al., 2011). A grande parte dos movimentos dos RN’s é representada por reflexos primitivos, como: sucção, Moro, preensão palmar, preensão plantar, Galant, Marcha, reflexo tônico cervical assimétrico (RTCA) e anfíbio, que desaparecem ao longo dos 6 primeiros meses de vida, pois as estruturas neurológicas vão amadurecendo e tornando-se funcionais. A ausência desses reflexos em idades em que deveriam estar presentes ou a persistência desses em idade em que deveriam ter desaparecido, poderá indicar prejuízo neurológico (SCHERZER, 2000 citado por URZÊDA et al., 2009). A ausência de estímulos nos primeiros dias de vida pode levar o RN a ter uma dificuldade de adaptação sensorial e atraso no desenvolvimento motor necessitando intervir precocemente (BARBOSA, 2007 citado por MATTOS e BELLANI, 2010). “Durante a infância, especialmente no 1º ano de vida, se a criança for privada de estímulos, como em hospitalizações prolongadas, o desenvolvimento neuropsicomotor pode ser comprometido” (SARMENTO, 2007 citado por IZUMI; FUJISAWA; GARANHANI, 2011, p. 218). “A intervenção precoce é definida como o conjunto de ações tendentes a proporcionar a criança as experiências sensório-motoras de que esta necessita desde o seu nascimento, para desenvolver ao máximo seu potencial neuropsicomotor” (BRANDÃO, 1992 citado por URZÊDA et al., 2009, p. 320). A intervenção precoce é vista como uma forma de potencializar a interação da criança com o meio ambiente através de estímulos que levam a obtenção de 51 respostas próximas ao padrão de normalidade e à inibição da aprendizagem de movimentos e posturas anormais (DUARTE et al., 2011). A principal justificativa da intervenção precoce é normalizar o tônus e permitir que pela plasticidade, estas sensações normais sejam absorvidas e sejam mantidas pelo maior tempo possível, para que as sensações anormais sejam colocadas em segundo plano, fazendo com que o cérebro só integre as sensações normais e depois as use para sempre (OLIVEIRA e OLIVEIRA, 2006 apud MEDEIROS; ZANIN; ALVES, 2009). Quando ocorre lesão de um sistema que ainda não esta em pleno funcionamento, ao contrário de um já amadurecido, a possibilidade de adaptação é maior, que ocorre pela plasticidade cerebral sendo máxima nos primeiros meses de vida do RN (ALBANUS, 2004 citado por MEDEIROS; ZANIN;ALVES, 2009). De acordo com Lopes et al. (2010) a estimulação é fundamental no desenvolvimento dos RN’s sendo que ele nasce com muitas habilidades inatas, mas que para serem aprimoradas é necessário que ele seja estimulado a conhecer coisas novas e isso contribui para que ele se desenvolva mais rápido e eficazmente se estimulado desde cedo. “Antes de ser submetido a qualquer tipo de intervenção, o neonato deve possuir capacidade mínima para controlar suas funções fisiológicas básicas e estar responsivo aos estímulos do meio ambiente” (DUARTE et al., 2011, p. 344). O fisioterapeuta deve ter noções e conhecimentos sobre o desenvolvimento, para poder avaliar o lactente sabendo identificar as características individuais do desempenho (OLIVEIRA e OLIVEIRA, 2006 citado por MEDEIROS; ZANIN; ALVES, 2009). “A avaliação neurológica do bebe é composta basicamente pela observação do tônus muscular, da postura, da movimentação espontânea e reflexos primitivos” (MARLOW, 2004 citado por URZÊDA et al., 2009, p. 320). De acordo com Duarte et al. (2011) o fisioterapeuta na sua avaliação deve coletar dados de nascimento, evolução nas primeiras horas de vida, evolução clínica, estado de consciência, tono muscular, reflexos primitivos, desenvolvimento motor, maturidade dos sistemas, doenças associadas e intercorrencias durante o período de 52 internação. Essas informações indicarão o melhor momento para o inicio da intervenção. Obter informações sobre o seu dia: como dormiu, se chorou, e o nível de estresse que é percebido por alterações fisiológicas, como o aumentoda freqüência respiratória (FR), freqüência cardíaca (FC), e sinais e sintomas, como bocejar, soluçar, espirrar, vomitar, coloração da pele, arquear o tronco, suspirar, desviar o olhar, franzir a testa, tremer, chorar e abrir os dedos da mão com mais freqüência. Verifica-se também o posicionamento do RN na incubadora ou no berço aquecido quanto à sua organização, deve-se apresentar um estimulo de cada vez, levando em consideração intensidade, duração, freqüência e tipo, de acordo com a tolerância fisiológica de cada RN, pois muitos não são capazes de processar múltiplas interações e podem chegar ao seu limite (GARCIA e LIMA, 2009). Alguns estudos enfatizam os cuidados que devem ser tomados quanto ao excesso de estímulos nos RN’s, pois eles não apresentam estrutura de defesa formada, então estímulos em excesso podem complicar ainda mais o crescimento e o desenvolvimento (MARTINEZ et al., 2003 citado por MEDEIROS; ZANIN; ALVES, 2009). Segundo Garcia e Lima (2009) a intervenção precoce envolve tanto a inibição quanto a estimulação, protegendo o neonato do excesso de estimulação de acordo com o desenvolvimento adaptativo do neonato. Os objetivos da intervenção precoce é dar condições para que o neonato se auto-organize, assim como promover a normalização do tônus diminuindo os padrões e posições anormais, as contraturas, as deformidades e as possíveis sequelas, reposicionar o RN na direção da maturação fisiológica, facilitando e mantendo o desenvolvimento, e não o acelerando. 53 54 Referências ALBUQUERQUE, R. C. et al. Comportamiento visuomotor de lactantes pretérmino en el primer mês de vida. 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Assim, o ambiente em que vive a criança assume um papel decisivo em sua vida, de forma que as oportunidades presentes no domicílio possam favorecer ou não a construção de habilidades funcionais necessárias à adaptação e exploração do meio. 6 Os recursos terapêuticos utilizados devem levar em conta o melhor posicionamento para o bebê, intensificando o padrão flexor, aumentando orientação da linha média e promovendo estados de organização. Deve visar a um melhor desempenho funcional na acomodação, na orientação e no comportamento motor. Quanto à estimulação sensório-motora, o tratamento busca organizar o fun- cionamento do sistema nervoso, inibindo as atividades motoras patológicas, adequando o tônus muscular e facilitando o desenvolvimento, sempre utilizando o meio em que o bebê vive como instrumento terapêutico. O planejamento de intervenções em fisioterapia, através da estimulação precoce em bebês prematuros, traz vários benefícios e potencializa seu desenvolvimento neuropsicomotor. Assim, seja qual for a causa da pre-maturidade, ao identificar o atraso, esses programas devolvem aos bebês, após meses de tratamento, uma melhora significativa quanto aos padrões motores normais de cognição e comportamento. Este estudo busca identificar quais são as causas mais frequentes do atraso no desenvolvimento em bebês prematuros e como essas afetam o seu crescimento. Tem como objetivo mostrar a importância da estimulação precoce e/ou essencial, através da abordagem fisioterapêutica, no processo de desenvolvimento dos bebês nascidos pré-termo. Também irá abordar a necessidade do acompanhamento do cuidador e da família em paralelo ao profissional, no ambiente da criança, para acelerar os programas interventivos minimizando os comprometimentos e mostrar que o perfil das mães dos prematuros e a caracterização dos nascidos vivos são influenciados pela condição socioeconômica e ambiental onde vivem, desde a gestação ao nascimento dos bebês. Seção 1.2: Relação com os pre-maturos Com base nos resultados de estudo, observou-se que a família representada, principalmente pela participação da mãe, cuidadora primária, trouxe um significativo apoio na intervenção nos pre-maturos, uma vez que ela participava e tinha mais convicção da importância da figura materna junto ao fisioterapeuta, que busca focalizar a atenção da criança e das necessidades da família, considerando os fatores 7 psicoafetivos. A figura materna foi descrita, inicialmente, como desestimulada e ansiosa, por não ter resultados imediatos e para querer tê-los logo. Algumas, depois que entenderam a importância do seu papel, se motivaram e encontraram respostas positivas no tratamento. Segundo Bosanello (1998 apud Britto, 2013), o principal motivo da criança não demonstrar progresso no seu desenvolvimento é o fato de as mães não cumprirem as orientações dadas. As mães se mostram superprotetoras, ansiosas, não colaboram e apresentam inadequações em sua relação com o filho, podendo, assim, comprometer o desenvolvimento infantil. Supõe-se que as faltas frequentes das mães sejam devido à ausência de motivação para frequentar o atendimento. Quanto à dedicação paterna, verificou-se que os pais assumiam um apoio menor, mas fundamental no tratamento. Um grande número de pais se mantinha afastado por causa, principalmente, das suas responsabilidades, como provedores do lar, não por vontade própria, cabendo às mães uma condição mais favorável na participação. De acordo com essa ideia, ressaltou-se em Sígolo (2000 apud Formiga et al., 2004) o papel da interação mãe-filho no processo de construção de um ambiente adequado como estimulante ao desenvolvimento da criança. Os estudos realizados apontaram que as mães se revelam promotoras da autonomia infantil à medida que, gradativamente, permitem iniciativas de contato mais frequentes por parte da criança, aumentam a provisão de estimulação de nível moderado e direcionam o com- portamento infantil para a realização da tarefa e/ou atividade de forma independente. Já analisando o papel do cuidador e da família, foi constatado que existiam interações que se agregavam ao desenvolvimento e às capacidades sociocognitivas dos bebês. Os primeiros anos de vida da criança, compreen-didos do 4º mês aos 18 meses de vida, são carac-terizados pelo período mais importante para a maturação neurológica e aquisição da independência motora. Os artigos avaliados indicam a prematuridade como uma das principais causas de atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, com predomínio no sexo masculino, de baixo peso ao nascer e a necessidade de ser acompanhado através de uma avaliação dos reflexos neonatais. 8 Assim, com a estimulação precoce, as aquisições das habilidades motoras foram favorecidas, bem como o surgimento das atividades reflexas junto aos movi-mentos voluntários no prematuro, já que a mesma é a primeira forma de integração do ser humano com o ambiente e chave para o surgimento dos movimentos voluntários. Para Eckert (2009), a importância de se avaliar os reflexos neonatais para verificar se há alguma de-fasagem no desenvolvimento motor do bebê pre-maturo (falta complementar a frase). Porém, esse é apenas um instrumento que facilita a detecção pre-coce de desvios no desenvolvimento motor de bebês que nasceram em condições de risco, não significando que a criança de tenra idade, que apresenta resposta inadequada a determinados estímulos durante a avaliação dos reflexos neonatais, necessariamente, terá atraso no desenvolvimento motor. Vale ressaltar que o acompanhamento até o primeiro ano de vida é fundamental no caso de bebês prematuros, pois, caso seja detectada alguma alteração, é possível indicar, de forma precoce, o atendimento adequado, com vistas à estimulação psicomotora global. Conforme dados apresentados na 5ª Jornada Materno-Infantil realizada em 1998, no Brasil, a taxa de nascimento pré-termo representa 11% dos nascimentos, enquanto o índice mundial de recém-nascidos com baixo peso varia de 6 a 11%. Considerando que a estimulação precoce consiste em um planejamento de técnicas psicomotoras, através dos estímulos sensoriais que condicionam a criança a apresentar uma interação melhor com o meio, há uma correlação com a necessidade de estimular a atividade reflexa, nesses prematuros, através da integração sensorial. Para Perin (2010), a estimulação precoce dentro da fisioterapia é baseada no comportamento neuromuscular e também nos princípios da plasticidade neural, determinando períodos do desenvolvimento neonatal como altamente receptivos a intervenções com exercícios sensório-motores. Dentro da estimulação, o fisioterapeuta conduz uma avaliação inicial e contínua da criança, desen-volvendo metas e objetivos, por meio da utilização de métodos adequados às suas necessidades. 9 O planejamento de uma intervenção adequada é fei-to através de umaavaliação criteriosa, identificação dos desvios, peso ao nascer, força muscular, motricidade fina e ampla, fala e das capacidades funcionais. Segundo Willrich (2008), a repercussão do baixo peso ao nascer sobre o desempenho motor de lac-tentes a termo, peque nos para a idade gestacional, foi avaliada, compa rando-os com bebês de peso adequado para a idade gestacional. O peso ao nas-cimento influenciou o de sempenho motor, favore-cendo o grupo de bebês com peso adequado. Quanto à Tabela II, os estudos fornecem embasa-mentos relacionados à estimulação precoce, considerando o desenvolvimento harmônico da criança através da prática, e a atuação do fisioterapeuta, através de atividades lúdicas, fundamental para que os bebês desenvolvam todo o potencial. As fases do programa de estimulação precoce e/ou essencial devem ter como objetivos favorecer a aceitação do tratamento e a hospitalização, verificar o grau de coordenação motora, ganhos de coeficiente de desenvolvimento e participação da família, promover estímulos visuais, táteis e sonoros, além de estimular a deambulação, desenvolver hábitos de vida diária e estímulo ao desenvolvimento da linguagem. Segundo Cabral (1989), através do lúdico, a criança descobre o mundo, estimula a criatividade e a coordenação sensório-motora e a percepção, além de preparar-se para a vida adulta. A preocupação dos profissionais quanto ao acompanhamento para com o pré-termo é demonstrada no momento em que esses se dispõem a esclarecer aos pais a debilidade do filho, despertando neles a curiosidade de aprender, fornecendo guias, para que possam pôr em prática. Afirmam Martinez et al.( 2007) que uma das formas de favorecer a relação entre pais e bebês é disponibilizar sugestões de manuseios e cuidados na estimulação de seus bebês. Neste processo, o mais importante a se considerar é a individualidade de cada bebê, capacitando os pais a identificarem as potencialidades de seu filho. É necessário que se utilizem recursos que subsidiem as situações de orientação dos pais para o acompanhamento e estimulação do desenvolvimento do bebê, capazes de agir em relação à probabilidade de ocorrência de problemas. 10 Conhecer esses bebês é um dos primeiros passos durante a intervenção, e a individualidade de cada um é que trará diferentes respostas aos estímulos dados, fazendo com que o tempo de hospitalização seja variável para bebês com idades diferentes. De acordo com isso, Medeiros (2009) salienta que a intervenção fisioterapêutica precoce apresenta bons re sultados, mas, na prática, muitos bebês são encaminha dos tardiamente às instituições, ge-ralmente apresentando algum tipo de deficiência. Tal situação restringe a intervenção, que não pode alcançar o objetivo de prevenção das alterações patológicas no desenvolvimento. Quando o quadro já se encontra instalado, a fisioterapia tem como objetivos principais promover o desenvolvimento neuropsicomotor da criança e minimizar os padrões patológicos presentes, incentivando o contato do pequeno com os pais para conseguir melhor eficácia da in tervenção. Afirma Willrich (2008) que o desenvolvimento motor atípico não se vinc ula, obrigatoriamente, à presença de alterações neurológicas ou estruturais. Mesmo crianças que não apresentam sequelas graves podem ter comprometimento em algumas áreas de seu desenv olvimento neuropsicomotor. A imaturidade biológica dos bebês nascidos pre-maturos, principalmente os bebês de alto risco e crianças até 3 anos, requer muita delicadeza na identificação precoce dos desvios, através da avaliação fisioterapêutica. E o encaminhamento para o diagnóstico e intervenção, através de testes dos reflexos e reações, auxilia na elaboração de um programa de tratamento. Segundo Oliveira (2006), o fisioterapeuta precisa ter noções e conhecimento claros sobre o desenvolvimento, para poder avaliar o lactente ou a criança, sendo capaz de identificar as características indi-viduais do desempenho, além de conhecer mais as capacidades e respostas diante de certos estímulos que podem ser esperados em determinada idade. Para Figueiredo et al. (1995), a cada retorno são dadas orientações referentes ao manuseio, ao brin-car e ao posicionamento adequados de acordo com os resultados obtidos dos testes aplicados e o grau de desenvolvimento apresentado pelas crianças. 11 As duas últimas citações deixam claro que a individualidade de cada paciente deve ser sempre considerada, visto que a evolução do tratamento para cada um segue naturalmente, durante toda a intervenção, sempre acrescendo novas condutas, até que se aproxime do normal. A estimulação precoce dentro da fisioterapia é ba-seada no comportamento neuromuscular e tam-bém nos princípios da plasticidade neural, deter-minando períodos do desenvolvimento neonatal como altamente receptivos a intervenções com exercícios sensórios-motor. Dentro da estimulação, o fisioterapeuta conduz uma avaliação inicial e contínua da criança, desenvolvendo metas e ob-jetivos, utilizando métodos adequados às suas ne-cessidades (PERIN, 2010). O fisioterapeuta, através da estimulação precoce, acompanha os bebês de alto risco, direcionando-os às suas famílias, em uma articulação dos fato-res, tais como a maturação, a autonomia, a psicomotricidade e a socialização, de forma que possam atingir o melhor desenvolvimento possível. Seção 1.3: A prematuridade e o desenvolvimento: revisando Pode-se concluir que a prematuridade é o maior fator de risco para o aparecimento das alterações no desenvolvimento motor dos bebês, comprometendo o processo de crescimento e sua capacidade funcional. Esse fato interfere no cotidiano da criança, proporcionando limitações. Trata-se de um problema de saúde pública, visto que envolve famílias de diversas classes sociais, sendo cada vez mais frequente nos centros de pediatria. A família é dita como de grande importância para incentivá-los durante o tratamento, com apoio, afetividade e atuação no processo de socialização. A figura da mãe foi a que mais se destacou quanto ao suporte dado ao fisioterapeuta e demais profissionais, mesmo com as várias reações de insegurança, muitas das vezes. Esse sentimento mudou a partir do momento que começaram a observar os resultados positivos e a evolução da terapia. A atuação do fisioterapeuta buscou promover, de forma preventiva, a harmonia no desenvolvimento motor dos bebês prematuros, através de técnicas que 12 promovessem, aos poucos, uma melhora funcional, desenvolvessem a psicomotricidade, o controle motor e estimulassem a relação entre o bebê a sua família. Faz-se necessária a existência de uma equipe multidisciplinar, que trate cada aspecto conforme a sua particularidade, respeitando a idade e o limite de cada paciente, principalmente durante os primeiros anos de vida. Assim, envolve-se a participação de psicólogos, nutricionistas, educadores físicos, enfermeiros, médicos, educadores e fonoaudiólogos. 13 Unidade 2: Estimulação Precoce Seção 2.1: Introdução Entende-se a estimulação precoce (EP) como uma abordagem de caráter sistemático e sequencial, que utiliza técnicas e recursos terapêuticos capazes de estimular todos os domínios que interferem na maturação da criança, de forma a favorecer o desenvolvimento motor, cognitivo, sensorial, linguístico e social, evitando ou amenizando eventuais prejuízos (LIMA; FONSECA, 2004; RIBEIRO et al., 2007; HALLAL; MARQUES; BRACHIALLI, 2008). Os primeiros anos de vida têm sido considerados críticos para o desenvolvimento das habilidades motoras, cognitivas e sensoriais. É neste período que ocorre o processo de maturação dosistema nervoso central sendo a fase ótima da plasticidade neuronal. Tanto a plasticidade quanto a maturação dependem da estimulação (BRAGA, 2014). De acordo com Lima e Fonseca (2004), a plasticidade neural fundamenta e justifica a intervenção precoce para bebês que apresentem risco potencial de atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor. Isso porque é justamente no período de zero a 3 anos que o indivíduo é mais suscetível a transformações provocadas pelo ambiente externo. A estimulação precoce tem, como meta, aproveitar este período crítico para estimular a criança a ampliar suas competências, tendo como referência os marcos do desenvolvimento típico e reduzindo, desta forma, os efeitos negativos de uma história de riscos (PAINEIRAS, 2005). Na sequência, serão apresentadas orientações e técnicas de intervenção, como subsídios aos profissionais de saúde na efetuação da estimulação precoce das crianças de zero a 3 anos, bem como para contribuir na orientação às famílias, na perspectiva de potencializar os efeitos positivos desta abordagem no desenvolvimento da criança. 14 Seção 2.2: Estimulação Auditiva A perda auditiva, independente do tipo (condutiva ou sensorioneural) e grau (leve a profunda) pode levar a prejuízo na aquisição e desenvolvimento da linguagem oral, e pode se manifestar após o nascimento e de maneira tardia. A audição será estimulada por meio da localização sonora afim de exercitar a memória, atenção e a repetição de sons ludicamente. Imitando os sons, possibilita-se a repetição por parte da criança e início de um jogo que será importante para a futura articulação da fala. Iniciando assim a possibilidade de discriminação dos sons. Os sons que a criança é capaz de emitir são muito ricos e variados e, por essa razão, deve se dar oportunidade de exercitar os movimentos de boca e lábios constantemente (BARATA; BRANCO, 2010). À medida que o bebê se desenvolve, podem ser introduzidas atividades com música e imagens (DVD, por exemplo), livros de plástico e emborrachados, miniaturas e brinquedos macios para encaixe que facilitem a nomeação de objetos, o cantar e o contar histórias. Para crianças de 6 a 12 meses, é importante a estimulação de vocabulário voltada à criança, como o uso de objetos de uso diário, partes do corpo e nomes de pessoas e animais. Figura 6 – Estímulo por meio de localização sonora utilizando brinquedo que emite sons A estimulação auditiva pode ocorrer de forma isolada afim de trabalhar gradativamente as habilidades auditivas de: atenção, localização, lateralização, discriminação, compreensão auditiva. Logo este aspecto pode ser eliciado 15 conjuntamente com a estimulação de linguagem durante o momento lúdico e contextual. As crianças que apresentam perda auditiva podem se beneficiar de Aparelhos de Amplificação Sonora Individual (AASI) e Implante Coclear, cuja concessão e adaptação estão disponíveis no SUS. A escolha do tipo de AASI depende do grau da perda auditiva e tem como objetivo estimular a audição residual da criança. Nas perdas auditivas de graus leve e moderado, a criança vai ser capaz de ouvir sons como as vogais e consoantes mais graves do tipo: /m/, /d/, /b/, etc. A dificuldade maior será para ouvir os sons fricativos do tipo: /f/, /v/, /s/, /z/ etc. Por outro lado, nas perdas auditivas sensório-neuronais bilaterais de graus severo e profundo, a criança obtém pouco ou nenhum benefício com a indicação do AASI. Nesses casos, a indicação é o tratamento cirúrgico p através do implante coclear. Destaca-se que apenas a adaptação do AASI e/ou Implante Coclear não será suficiente para que a criança adquira a linguagem oral, sendo imprescindível a realização de terapia fonoaudiológica, tendo como foco a criança, a família e a escola. Além das perdas auditivas, existem outros distúrbios relacionados à audição humana que requer atenção dos profissionais da áreas da saúde voltados à comunicação. Os distúrbios do processamento auditivo, são alterações qualitativas que interferem no processamento das informações captadas pelas vias auditivas. Neste caso, a pessoa ouvirá claramente a fala humana, mas apresentará dificuldades na decodificação e interpretação da mensagem recebida. Assim como na perda auditiva, o Distúrbio do Processamento Auditivo pode interferir na compreensão verbal e consequentemente na expressão linguística do individuo, afetando a comunicação verbal. O papel da família é fundamental no processo de estimulação precoce, adaptação de AASI/Implante Coclear e reabilitação, uma vez que é o ambiente familiar que melhor pode oferecer situações para estimulação das funções auditivas e o desenvolvimento da linguagem, seja esta oral ou através dos sinais. A primeira infância é o período mais nobre para a plasticidade neuronal, portanto, a tendência dessas crianças é de apresentarem os melhores resultados quando estimuladas. 16 Seção 2.3: Estimulação das habilidades auditivas A criança deve reconhecer os sons produzidos por objetos e pelas pessoas através da fala, monitorar a própria voz em termos de padrões de timbre, duração, intensidade e entonação e desenvolver a percepção auditiva, que compreende a consciência, a localização e a compreensão dos sons. • Detecção: é a habilidade auditiva em que a criança deve perceber a presença e ausência do som. • Discriminação: é o ato de diferenciar dois ou mais estímulos sonoros. • Reconhecimento: é a habilidade de identificar o som e a fonte sonora com capacidade de classificar ou nomear o que ouviu. • Compreensão: é o ato de estabelecer relações entre o estímulo sonoro produzido, outros eventos do ambiente e o próprio comportamento. Essas relações têm as propriedades de reflexividade, simetria e transitividade.(BASTOS; FLEIG; NASCIMENTO, 2010). O reconhecimento auditivo ocorre em duas etapas: a) introdutória, onde os estímulos são apresentados em conjunto fechado (closed-set); b) o reconhecimento auditivo avançado, na qual são apresentados estímulos auditivos em conjunto aberto (open-set) (BEVILAQUA; FORMIGONNI, 2005). O reconhecimento representa o início da habilidade de compreensão, consequentemente, pressupõe todos os níveis de processamento auditivo, a saber: detecção, discriminação, reconhecimento introdutório e avançado, envolvendo os processos psíquicos de atenção e memória (BASTOS; FLEIG; NASCIMENTO, 2010). Para trabalhar as habilidades auditivas, em situações ou atividades que têm por objetivo desenvolver a discriminação auditiva, a criança deverá indicar se os sons, palavras, frases são iguais ou diferentes, começando por grandes diferenças e avançando com diferenças mais sutis entre os sons. Quanto ao reconhecimento dos sons, na etapa introdutória do reconhecimento auditivo, o fonoaudiólogo apresenta para a criança atividades de múltipla escolha, promovendo o reconhecimento de onomatopeias, vogais, consoantes, palavras e frases, e, na etapa avançada, as 17 opções devem ser abertas e a criança deve, necessariamente, repetir o que ouviu. Já, para estimular a compreensão, recomenda que se comece de forma simples, com a criança respondendo a perguntas simples, como: “qual é seu nome?”, “onde está o papai?”; e com o passar do tempo e com o avanço do processo terapêutico, habilidades para entender frases mais complexas, histórias, entre outros (BASTOS; FLEIG; NASCIMENTO, 2010). Durante o reconhecimento auditivo, espera-se que a criança saiba: reconhecer as vogais, reconhecer os traços distintivos das consoantes, reconhecer as palavras e as frases. Em relação à compreensão, as autoras afirmam que as pessoas envolvidas com o trabalho terapêutico da criança devem estar com ela, auxiliando-aem sua tarefa mais difícil, que é a utilização da audição, pois é aí que se encontra uma alteração em seu sistema anatomofisiológico (BEVILAQUA; FORMIGONNI, 2005). Os estímulos verbais a serem utilizados nas tarefas e atividades para o desenvolvimento das habilidades auditivas podem ser de diferentes níveis de complexidade, dependendo de cada criança, da sua idade, do domínio da língua oral que apresenta e da habilidade auditiva já conquistada. O trabalho com detecção tem os seguintes objetivos: determinar se a prótese auditiva está funcionando bem, ajudar a criança a aprender e a se descobrir, e preparar a criança para os níveis mais refinados das habilidades auditivas. Assim que a criança consegue detectar o som, o trabalho deve focar a discriminação auditiva, estimulando a criança a diferenciar os seguintes sons: vogais, traços distintivos de consoantes, palavras, frases e curvas melódicas (BASTOS; FLEIG; NASCIMENTO, 2010). Algumas respostas ao comportamento auditivo são expressas por meio de respostas motoras, como a localização do som, que é expressa por meio do controle e rotação cervical, e posteriormente pela dissociação de cinturas escapular e pélvica. Dessa maneira, faz-se necessário integrar a observação das aquisições de habilidades motoras à avaliação do comportamento auditivo, a fim de excluir alterações puramente motoras que alterariam resultados audiológicos, além de ser de fundamental importância avaliar o desenvolvimento global do indivíduo nos diversos domínios, tais como motor, de linguagem e da cognição (COSTA, 2000). 18 Exposição à Língua Oral A criança deve ter a oportunidade de interagir com crianças que usam a fala como meio de comunicação. A exposição à língua oral deve ocorrer de forma frequente. Deve ser trabalhada a produção de fonemas, palavras e frases e a compreensão da fala através da leitura orofacial. A leitura orofacial deve ocorrer de forma natural, com a pessoa falando com voz clara, um pouco mais devagar do que o normal, usando articulação normal e sem exageros. A voz deve ter intensidade normal. Falar de frente, com o rosto iluminado, no mesmo nível visual que a criança. Usar expressões faciais e entonações ricas. Deixar os lábios descobertos. Comunicar- se através de um contexto significativo. Manter sempre um diálogo. Respeitar as trocas de turnos. Exposição à Língua de Sinais A Língua de Sinais é uma língua visual-gestual. Ela é composta de movimentos e formatos específicos de mãos, braços, olhos, face, cabeça e postura corporal. Deve ser considerada a possibilidade de inserção da criança em um ambiente em que a interação se faça por meio dos estímulos sonoros associados à língua de sinais. Orientação à família: No caso de crianças pequenas, de zero a 3 anos de idade, a família deve ser o centro das orientações. A essência de um programa centrado na família é a divisão de tarefas entre pais e profissionais, pois muitas vezes, após o diagnóstico, os pais param de falar com a criança. São eles que passam a maior parte do tempo com a criança e, portanto, devem ser orientados quanto à estimulação de linguagem de forma geral. Deve haver um trabalho com grupos de pais, a fim de que possam externalizar, explorar e dividir sentimentos e emoções sobre a problemática da surdez. Sentimentos dos pais: negação, culpa, raiva, confusão, inadequação. Estágios pelos quais eles passam: negação, resistência, afirmação, aceitação. Profissional deve respeitar esses sentimentos. Desenvolver a autoconfiança dos pais e da criança. A criança deve ser vista em sua totalidade. A criança deve ser tratada de forma igual ao das outras crianças. Seu desenvolvimento ocorre de forma igual ao das outras 19 crianças. Não esperar resultados imediatos, o progresso é lento e gradual. Envolver toda a família no processo. A família é a chave do sucesso. Seção 2.4: Estimulação Visual A estimulação visual, não tem que ser nada muito complexo, sendo necessário ocorrer desde os primeiros dias de vida, nas atividades de vida diária e nos contatos afetivos com o cuidador. Para realizar a estimulação é necessário criar experiências agradáveis através do brincar, para chamar a atenção da criança. Desta forma, utilizam-se os possíveis recursos/intervenções: • Estimular o uso da visão residual durante o brincar com outras crianças e com os cuidadores. • Estimular o comportamento exploratório do ambiente demonstrando de forma verbal onde a criança está, com quem está, onde irá, quais objetos estão no ambiente. • Utilizar brinquedos e objetos adaptados de acordo com as necessidades da criança por meio das funções sensoriais (auditiva, tátil, proprioceptiva e vestibular) com brinquedos grandes, na linha média e no campo visual de 20 cm, estimulando verbalmente que a mesma busque com o olhar e a cabeça (se houver controle de tronco). • Objetos de tamanhos e tipos variados, com cores de alto contraste e coloridos (com amarelo e preto e/ou vermelho e branco) e/ou com brilho e iluminados, estimulando a visão residual e percepção tátil no campo visual de 20 cm. • Brinquedos sonoros (como por exemplo chocalhos), dispostos na frente da linha média da criança, em seu campo visual e/ou horizontalmente realizando movimentos com o brinquedo de trás para frente e assim sucessivamente, de forma lenta para a criança perceber o objeto à sua volta. • Estimular aspectos táteis com diferentes texturas, como por exemplo: grãos, esponjas, algodão etc. É necessário colocar as mãos da criança na textura e com ajuda terapêutica auxiliar a criança a se auto estimular, sempre dando estímulos 20 verbais do que está sendo passado em seu corpo e qual o tipo de textura, se é: áspero, liso, gelado, entre outros. • Evitar a luz direta nos olhos em crianças que apresentem crises convulsivas, mas se não houver é importante utilizar lanternas em ambiente escuros apontando para determinados pontos do ambiente e para objetos que o terapeuta quer que a criança olhe. • Orientar familiares de como utilizar esses recursos em suas residências, para que o faça e aumente o estímulo dado à criança (BRASIL, 2013). É importante que, durante a estimulação visual, seja observada a postura, uma vez que pode ocorrer desvios compensatórios inadequados a outros processos sensoriais, resultando em respostas desordenadas. A relação entre visão e coordenação motora é indissociável, pois o movimento da cabeça acompanha o olhar propiciando a percepção do objeto, enquanto é captada a forma. Desencadear a reação de proteção em deficientes visuais é importante, uma vez que esta é a última etapa de defesa do SNC, estando relacionada com as respostas de equilíbrio postural. Deve-se evitar o uso de objetos agrupados, sendo necessário dar um maior espaço entre eles, pois há a possibilidade da criança não conseguir observar o objeto apresentado no meio. Respostas visuais de perto são melhor recuperadas, requerendo a realização da estimulação inicial numa esfera visual mais próxima, 21 distanciando de acordo com a melhora da criança. Para observar se há melhora é necessário observar se há fixação do olho no objeto, interesse e capacidade de exploração do estímulo (FERNANDES, 2004 O conhecimento do desenvolvimento infantil (aspectos motores, sensoriais, cognitivos, sociais), da influência do aspecto visual no desenvolvimento e na aprendizagem, da observação atenta do comportamento da criança (com relação aos familiares, brinquedos e atividades propostas) e das informações sobre sua vida doméstica ajudará na análise e na elaboração do plano de atendimento para cada criança/família. É importante salientar que a orientação aos pais/cuidadoresauxilia no tratamento realizado com a criança com deficiência visual, pois ao entenderem quais recursos e como utilizá-los serão coterapeutas, auxiliando no tratamento mais efetivo. Seção 2.5: Estimulação Precoce de Crianças com Baixa Visão Cabe ao profissional de estimulação precoce evidenciar junto a família as reais potencialidades da criança. Muitas destas estão encobertas pela expectativa da família por uma resposta igual a de crianças sem comprometimentos. As respostas tão esperadas podem necessitar de adaptações para melhor posicionamento, para apresentação de objetos em localização adequada (de acordo com o campo visual), para adequação da iluminação ambiente ou direcionada, para adequação da distância de apresentação dos estímulos, para adequação das características dos objetos (cor, contraste, tamanho, textura). Essas modificações/ adaptações devem ser orientadas à família e adotadas em todas as atividades da criança. Essa interação modifica a relação a criança desenvolve-se com o estímulo, e a família, ao perceber o quanto a criança pode realizar, irá oferecer maiores oportunidades. Para avaliação mais efetiva, é necessário realizar após o exame oftalmológico, a avaliação funcional da criança para estimulação visual de acordo com a etapa do desenvolvimento sensório motor. A avaliação contém: funções visuais básicas, como: apresentar reação à luz, reflexo palpebral, reação ao sol, reage às cores, visão periférica, visão central, entre outros; visão à distância, como: localização de luz, cores, objetos grandes e pequenos, miniaturas e a qual distância; funções 22 visomotoras, como: seguir a luz ou objetos em movimento, fixar o olhar, apresentar coordenação mão/boca, olho/mão, olho/objeto, manipular objetos examinando-os visualmente, aproximar objetos para examiná-los, realizar busca visual, entre outros; e funções perceptivas: identificar expressão facial, reconhecer a própria imagem no espelho, reconhecer objeto familiar, separar objeto por forma, por tamanho, por cor, entre outros. Quando a deficiência visual é diagnosticada no 1° ano de vida e a criança recebe a estimulação precoce, observam-se melhoras na eficiência visual, e consequentemente no desenvolvimento neuropsicomotor. Se adotada a estimulação sensorial precoce com ênfase no visual, mais de 50% das crianças com deficiência poderiam atingir o desenvolvimento normal. Dessa forma, a visão é o sentido mais importante para a criança, em que olhando, ela observa suas ações, suas atitudes, as pessoas, os gestos, e o meio em que vive, possibilitando interação com objetos e formando significados (RIBEIRO, 2007). Seção 2.6: Estimulação Precoce de Crianças Cegas Nos atendimentos programados para realização de estimulação precoce, é importante orientar a família sobre a importância de experimentar os diversos movimentos e posições na aquisição de habilidades motoras futuras, assim como elucidar e demonstrar as formas adequadas de promovê-las. Vale lembrar que toda a estimulação deve ser realizada de forma lúdica e agradável para a criança. Frequentemente observamos que a criança apresenta a cabeça baixa e necessita de um estímulo visual adequado ou diferente do visual (ou associado) para elevá-la. O contato com o rosto da mãe, o sopro suave no seu rosto, a fala mansa e direcionada funcionam como estímulo agradável. É importante que quando a criança localiza o brinquedo e leva as mãos para tentar alcançá-lo, seja permitido efetivar o alcance e a exploração do brinquedo através de outros sentidos (tato, olfato, gustação, auditivo), uma vez que o processo de aprendizagem de crianças cegas se dá por meio dos sentidos remanescentes. O tato, por exemplo, auxilia no reconhecimento de padrões 3D. Entretanto, não são 23 poucas as crianças que reagem evitando o contato com texturas, sons, gostos diversos, necessitando intervenção também nesta área. Quanto ao alcance, considerando que a visão não será o seu motivador primário, são necessários outros atrativos para que a criança busque algo que não esteja em contato com o seu corpo. Os brinquedos que produzem sons são frequentemente usados para promover o alcance, mas para uma abordagem mais efetiva, podem estar combinados a movimentos direcionados ou coativos (mão sobre mão). No movimento coativo, a mão da criança é posicionada sobre ou sob a mão do adulto e este direciona o movimento. É importante permitir que a criança participe da forma mais ativa possível. Assim, a criança pode aprender movimentos de alcance e exploração direcionados de uma forma segura e eficaz. Algumas crianças chegam a manter-se com os braços fletidos e elevados na altura da cabeça (como um castiçal), necessitando de auxílio para iniciar o brincar e o manipular na linha média. Atitudes simples, como incentivá-la a segurar a mamadeira, o peito, ou o copinho durante a alimentação e o direcionamento de movimentos com descrito anteriormente, podem ser bastante úteis. Cada criança tem sua forma de aprender padrões visuais, do seu jeito, assumindo comportamentos específicos, a partir das suas necessidades. O importante é oferecer condições para que a criança vivencie novas experiências e as internalize, sempre ao seu tempo. Todas as crianças com baixa visão ou cegueira, devem realizar avaliação oftalmológica e serem acompanhadas pelos Centros Especializados em Reabilitação ou em Serviços de Reabilitação Visual para realização de treino de mobilidade, indicação de uso tecnologia assistiva lentes especiais, bengalas, entre outras, como estratégias de apoio, ampliação da autonomia e da inclusão social. Sugere-se que os serviços especializados também realizem matriciamento das equipes de atenção básica para acompanhamento e monitoramento do desenvolvimento das crianças, bem como para o adequado acolhimento e orientação quanto às adaptações de ambiência na residência, uso de materiais especiais por parte das famílias, utilizando 24 inclusive de dispositivos de cuidado em reabilitação na comunidade que possam promover o cuidado e o desenvolvimento das habilidades dessas crianças. Seção 2.7: Estimulação da Função Motora Formiga, Pedrazzani e Tudela (2010) ressalta que a intervenção precoce em bebês de risco possui importante significado no sentido de fortalecer e/ou formar novas conexões neuronais: tendo-se em mente que os eventos plásticos de reorganização que ocorrem em decorrência de uma lesão cerebral têm paralelo com o processo de desenvolvimento ontogenético, reforça-se ainda mais o conceito de que se deve tê-lo como ponto de partida no tratamento, no qual os estímulos sensitivo-motores devem ser conduzidos do mais simples até que alcancem, através do aumento progressivo no grau de dificuldades, uma complexidade funcional maior (FORMIGA; PEDRAZZANI; TUDELA, 2010, p. 46). Tudella et al. (2004) investigaram a eficácia da intervenção precoce em bebês com diagnóstico de paralisia cerebral. Os resultados mostraram que o tratamento iniciado precocemente, até o quinto mês de idade, em crianças com diagnóstico de paralisia cerebral traz significativamente mais benefícios ao desenvolvimento neuromotor em comparação ao tratamento realizado após essa idade. Formiga, Pedrazzani e Tudela (2010) citam as principais metas de um programa de intervenção precoce: 1. Maximizar o potencial de cada criança inserida no programa por meio da estimulação em nível ambulatorial e também em seu ambiente natural, estabelecendo o tipo, o ritmo e a velocidade dos estímulos, e designando, na medida do possível, um perfil de reação. 2. Potencializar a contribuição dos pais ou responsáveis, de modo que eles interajam com a criança de forma estabelecer mutualidade precoce na comunicação eafeto, prevenindo o advento de patologias emocionais e cinestésicas. 3. Promover um ambiente favorável para o desempenho de atividades que são necessárias para o desenvolvimento da criança. 25 4. Oferecer orientações aos pais e a comunidade quanto às possibilidades de acompanhamento desde o período neonatal até a fase escolar. 5. Promover um modelo de atuação multiprofissional e interdisciplinar. 6. Disseminar informações incentivando e auxiliando a criação de novos programas de estimulação precoce. A estimulação das funções motoras irá ocorrer por meio da abordagem proprioceptiva, visando proporcionar a sensação de onde se localizam partes do seu próprio corpo, no espaço, com maior diversidade de experiências sensitivas/sensoriais e promoção de praxias do sistema sensório motor oral e do próprio toque. Quanto à motricidade deve ser trabalhado e reforçado movimentos diversos, que favoreçam adequação de tônus e força muscular. Este é um trabalho que resulta na consciência do próprio corpo e inibição de movimentos estereotipados (BARATA; BRANCO, 2010). Formiga, Pedrazzani e Tudela (2010) destacam a importância do contato físico da criança com o terapeuta e com as pessoas que a cincundam, bem como brinquedos e brincadeiras proporcionando apoio afetivo, segurança e o equilíbrio de que necessita para crescer em harmonia com o meio em que vive. Para isso, é necessário compreender que a quantidade de estímulos oferecidos estará estreitamente relacionada à sua capacidade, interesse e possibilidades. Não se deve forçar a criança, e nem cansá-la, pois o essencial nessa relação é ter conhecimento de suas necessidades e da medida exata de estímulos para supri-las. É importante que o ambiente familiar seja estimulador; cada troca de posição, troca de roupa, oferta de brinquedos, banho, deve ser acompanhados de estímulos verbais e táteis. Sempre que possível, a criança deve estar perto dos pais, cuidadores, irmãos, enquanto estiverem trabalhando, conversando, se alimentando ou brincando. Ela precisa participar da dinâmica da casa. Atividades de estimulação sensorial tátil com objetos de diferentes cores, texturas, ruídos são de fácil execução e aquisição pela família e são de suma importância para auxiliar no desenvolvimento. Atividades de interação tátil e proprioceptiva que promovam a interação e reforcem os laços afetivos, como a 26 Massagem Shantala, também podem e devem ser utilizadas no processo de estimulação precoce. Várias técnicas podem ser usadas para a estimulação precoce dos bebês com alterações do desenvolvimento neuropsicomotor. Esta técnicas ou métodos de tratamento são apoiados em diferentes modelos teóricos que reconhecem a contribuição genética na determinação hierárquica do desenvolvimento da criança, como também a contribuição de outras áreas do desenvolvimento infantil, como sensorial, cognitiva, biomecânica e ambiental, na caracterização final do comportamento motor (DARRAH, 1998). Apesar das divergências entre as várias teorias ou entre os métodos de tratamento, é consenso que o desenvolvimento motor resulta, em última instância, da interação contínua entre potenciais biológicos e circunstâncias ambientais que envolvem a criança. Em situações de alterações neurológicas, através de mecanismos de neuroplasticidade e aprendizagem motora, o cérebro cria caminhos alternativos na busca de movimentos mais eficazes (LENT, 2002). As experiências ambientais, que incluem a estimulação precoce, têm um papel fundamental na formação de redes neurais mais fortes e definitivas. Esse processo, entretanto, é definido pelo potencial neurológico de cada criança. De acordo com suas potencialidades, a criança com alterações neurológicas poderá encontrar caminhos alternativos para desempenhar suas funções motoras (LATASH, 1996). Diferentes posturas e formas adaptativas de movimento podem propiciar maior estabilidade e funcionalidade. A criança, por exemplo, pode encontrar uma forma diferente para sentar ou andar, que favoreça maior equilíbrio ou menor gasto energético. O enfoque do tratamento não deve ser a deficiência ou a tentativa de obter um padrão “normal” de movimento, mas sim alcançar a funcionalidade. Uma alteração motora não deve ser tratada somente por existir, mas na medida em que a intervenção contribua para melhorar o desempenho da criança em seu contexto cotidiano, e consequentemente sua funcionalidade (BRAGA, 2005). Para fins didáticos, vamos dividir as propostas de atividade de estimulação motora pela sequência dos principais marcos do desenvolvimento. Não é necessário que a criança atinja um dos marcos para que seja estimulado o outro, isso vai da 27 observação do terapeuta e do potencial motor da criança. Muitas vezes a estimulação de uma postura mais alta ajuda a adquirir o controle em uma postura mais baixa. Estimulação da linha média: O alcance bimanual e a manipulação de objetos são propiciados quando o bebê domina a movimentação, principalmente dos membros superiores, na linha média. A postura em supino é ideal para este estímulo. Podemos usar brinquedos coloridos e luminosos para atrair a atenção do bebê, incentivando-o a manter a cabeça na linha média. Se ele não conseguir ativamente, pode ser auxiliado pelo terapeuta. Nessa mesma posição, já com a cabeça posicionada, estimule a preensão bimanual na linha média. Enquanto o bebê percebe o objeto, ajude-o a alcança-lo apoiando seus cotovelos e direcionando suas mãos. Para que a informação seja melhor recebida e assimilada pelo SNC podemos acentuar a descarga de peso na região cervical e tronco superior, elevando a pelve do bebê e aproximando os membros inferiores dos superiores. Este movimento também fortalece a musculatura abdominal, alonga a musculatura cervical e permite o alcance dos pés pelas mãos, conforme mostrado a seguir: 28 Podemos estimular a linha média posicionando a criança em uma boia de pano ou inflável ou na postura de decúbito lateral, sempre observando a posição da cabeça. Estimulação do controle cervical Para que o controle cervical aconteça é necessário que exista um sinergismo entre a musculatura flexora e extensora do pescoço e do tronco superior. 29 Podemos promover esta estimulação em supino e até mesmo em decúbito lateral. Porém, na postura em prono, temos um melhor controle da simetria corporal e podemos utilizar a gravidade como fator de estimulação. Pode-se colocar um rolo de tecido ou espuma em baixo das axilas, com os braços a frente desse, para auxiliar no deslocamento do peso corporal e no movimento de extensão cervical. É importante utilizar objetos coloridos, ruidosos ou luminosos para atrair a atenção do bebê, favorecendo o seguimento visual e a elevação da cabeça. O rolo deve ser de uma altura que permita o apoio dos cotovelos. Podemos ainda utilizar para esse objetivo bolas terapêuticas, cunhas de espuma e até mesmo o colo do estimulador. O puxado para sentar pode ser utilizado como estimulação desde que o bebê já tenha um controle cervical inicial. 30 Uma maneira prazerosa e eficaz de se estimular o controle cervical é posicionando o bebê deitado sobre o peito do estimulador. 31 Para estimular o equilíbrio da cabeça na posição sentada, é importante que o tronco da criança esteja estabilizado. O terapeuta, posicionado a criança à frente do seu corpo, pode auxiliar o bebê a manter a cabeça ereta, apoiando-a por trás do pescoço e no queixo, mas sem restringir seus movimentos. Gradualmente, o apoio podeser diminuído até que o bebê seja capaz de manter sua cabeça bem alinhada. Quando a criança atingir um equilíbrio parcial de cabeça, movimentar lentamente seu tronco para trás e para frente, assim como para ambos os lados, pode favorecer as reações de endireitamento da cabeça (BRAGA, 2005). 32 Estimulação do Rolar Na postura supina, podemos incentivar o rolar através da fixação visual em um objeto ou mesmo no rosto do terapeuta ou estimulador. No início pode ser necessário auxílio para atingir a postura e, para isso, o terapeuta pode apoiar os ombros ou a pelve do bebê, ajudando-o na impulsão do movimento. Provavelmente, será necessário ajudá-lo na liberação do braço tanto no rolar de supino para prono, quanto vice-versa. Essa atividade também promove estímulos vestibulares e labirínticos, auxiliando na aquisição das reações labirínticas e retificação. Em crianças que já tenham desenvolvido essa reação, podemos utilizá-la como auxiliar da estimulação do rolar. Realizar esta atividade no colo do terapeuta ou estimulador também é bastante eficaz e, muitas vezes, mais confortável e acolhedor para o bebê. 33 Estimulação do sentar A partir do momento em que entendemos que o desenvolvimento neuropsicomotor é contínuo e dependente das ações e repetições dos padrões motores, compreendemos que todas as atividades estimuladas desde o início já estão preparando o bebê para sentar. O domínio da postura sentada exige um bom sinergismo de musculatura de tronco e membros inferiores, além do completo desenvolvimento do controle cervical e das reações de retificação e proteção. Formiga, Pedrazzani e Tudela (2010), relatam a resistência de familiares e cuidadores do bebê em colocá-lo precocemente nesta posição, por medo de alguma alteração na estrutura vertebral. Porém, sentar a criança e fornecer o apoio necessário é essencial 34 para o bom desenvolvimento de suas capacidades. O controle de tronco pode ser estimulado através de: – Atividade em prono proporcionando a extensão do tronco seja utilizando a bola, rolo ou o colo do terapeuta. – Incentivo da postura sentada, mesmo com apoio, utilizando-se de boias infláveis, almofadas, colo ou até mesmo o cantinho do sofá ou poltrona. Devem-se incentivar as posturas de carregar sentado no braço como cadeirinha ou mesmo apoiado pelo abdômen e desencorajar a prática de colocar a criança no ombro com o rosto voltado para trás ou deitado no colo. 35 – Atividades com a criança sentada no chão, ajudando-a a manter o equilíbrio através do apoio na pelve. Incentive a criança a fazer o apoio anterior das mãos. À medida que o controle de tronco melhore, ofereça a ela um brinquedo favorito para que possa alcançar somente se liberar o apoio de uma das mãos, praticando assim as reações de equilíbrio (BRAGA, 2005). – Atividades sentado na bola, rolo, cavalo de borracha ou colo do terapeuta provocando desequilíbrios para frente, para trás e para os lados ativando a musculatura de tronco e as reações de retificação. – Depois que a criança for capaz de sentar-se sem o uso das mãos para apoio, o terapeuta pode encorajá-la a realizar movimentos rotacionais do tronco, durante jogos, para melhorar o seu equilíbrio sentado (BRAGA, 2005). 36 Estimulação do arrastar – O arrastar permite à criança locomover-se por maiores distâncias, de forma mais rápida e com mudanças mais eficazes de direção do que o rolar. O terapeuta ou familiares podem ajudar a criança a aprender a arrastar em prono, flexionando um dos membros inferiores, o que confere o apoio necessário para que ela impulsione o corpo à frente através da extensão dessa perna. A criança pode completar o movimento, utilizando os braços para puxar o corpo (BRAGA, 2005). Estimulação da postura de gatas e do engatinhar Para que o bebê consiga se manter na postura de gatas é necessário que ele tenha uma boa fixação de cintura escapular e pélvica. Atividades que promovam o apoio de mão com cotovelos estendidos, utilizando bola, rolo, cunha, colo do terapeuta e até atividades mais elaboradas como a brincadeira do “carrinho de mão” são úteis para aquisição dessa habilidade. 37 Treino de transferência de side para side e side para gatas são importantes para treinar a musculatura rotadora do tronco favorecendo o engatinhar com dissociação. A estimulação do engatinhar propriamente dita pode ser feita com o incentivo de um brinquedo a frente da criança e a facilitação dos movimentos alternados de braço e pernas. Um tecido no tronco pode ser utilizado para auxiliar nessa estimulação, porém com muita atenção para não puxar a criança para cima, não permitido assim a correta descarga de peso nos membros. A criança pode necessitar de ajuda para a aprendizagem da transferência de sentado para a posição de gatas e vice-versa. O terapeuta ou familiares podem ajudá- la a fazer apoio com as mãos no chão, enquanto gira a pelve fazendo apoio nos joelhos e mãos. Essa mudança de posição permite à criança maior independência enquanto brinca no chão. Os movimentos intermediários entre uma posição e outra podem ser ensinados à criança de forma lenta e gradativa, dando chance para que ela experimente cada etapa, exercitando o equilíbrio e a tomada de peso corporal (BRAGA, 2005). 38 Estimulação da postura ajoelhada e agachada A estimulação destas posturas mais altas é importante para preparar o bebê para a postura bípede. Para isso, podemos utilizar atividades de alcance acima da cabeça (presas na parede ou em um espelho, por exemplo) e facilitar a passagem do sentado de lado (side) para a postura de joelho e com isso conseguir alcançar o objeto. Incentivar a postura agachada (cócoras) também é importante, pois o bebê precisa dela para pegar objetos no chão e transferir-se de sentado para de pé. Estimulação do semiajoelhado e transferência para o ortostatismo O semiajoelhado é uma postura de transição e muito utilizada para atingir a postura ortostática. Aproveite a atividade da postura ajoelhada e incentive a passagem do pé para frente, ora de um lado, ora de outro. Pode-se manter a postura de frente 39 para o espelho ou posicionar a criança de frente para o terapeuta. Esse tipo de postura fortalece o vínculo do estimulador com a criança, tornando a atividade mais eficaz e prazerosa. Coloque o objeto uma pouco mais acima da cabeça incentivando o alcance e, com isso, a extensão do joelho que está à frente e a transferência para a postura de pé. Outro modo de estimular a transferência de sentado para de pé, especialmente se a criança apresentar dificuldades em dissociar movimentos da perna, é a mudança da posição sentada em um banco ou colo de um adulto com os dois pés tocando o chão (BRAGA, 2005). Estimulação do ortostatismo estático e do andar 40 Com a criança apoiada em um móvel ou em outra pessoa, promover o desequilíbrio para frente, trás e lados estimulando as estratégias de equilíbrio do tornozelo e quadril. Pode-se incentivar a marcha lateral com apoio, progredir para marcha para frente com apoio seja empurrando uma cadeira, banco ou mesmo um andador infantil. Ao estimular a marcha com o apoio de uma ou ambas as mãos do estimulador, é necessário estar atento a não incentivar a extensão dos ombros da criança (manter os braços para cima), pois essa posição altera a descarga de peso e com isso dificulta a aquisição do equilíbrio de péseja estático ou dinâmico. O melhor ponto de apoio para estimulação da marcha é pelo quadril. Estimulando a exploração do ambiente Formiga, Pedrazzani e Tudela (2010) salientam a importância dessa estimulação. É necessário que sejam oferecidas diversas oportunidades para o bebê explorar e movimentar-se ativamente durante a intervenção. Ela coloca também a importância de objetos diversificados como escorregadores, bancos de madeira, piscinas de bolinhas, cama elástica, degraus e materiais de diferentes texturas, porém destaca que é no ambiente doméstico que a criança irá entrar em contato com os objetos e pessoas do seu convívio, explorar os móveis da sala, mexer nas panelas da cozinha, bater nos móveis com escovas, pentes e chaveiros. Os pais devem ser orientados da importância destas atividades. O bebê também precisa ser incentivado a engatinhar embaixo das cadeiras da sala ou da cozinha na intenção de buscar um objeto e, com isso, desenvolver uma variedade de sensações e movimentos, como abaixar a cabeça para passar por baixo, movimentar os membros dentro das amplitudes permitidas. Estes deslocamentos vão 41 auxiliar no desenvolvimento das noções espaciais como “em cima”, “embaixo”, “dentro” e “fora”. Programas de orientações para os pais e cuidadores devem ser desenvolvidos visando o melhor benefício para o bebê. As atividades de estimulação precoce devem ser realizadas diariamente e se possível mais de uma vez ao dia. Porém, de nada adianta ir diariamente à sessão de terapia e depois passar o resto do dia em situações que não favoreçam esta estimulação. É muito mais vantajoso um bebê ir uma a duas vezes por semana na terapia onde a família e o cuidador são devidamente orientados e participam do tratamento. Unidade 3: Estimulação tátil-cinestésica no desenvolvimento e ganho de peso do rn pré-termo na uti. Seção 3.1: Introdução É considerado recém-nascido pré-termo (ou prematuro) aquele nascido antes de 37 semanas de idade gestacional (ou IG). Ao longo dos anos e com o aumento da tecnologia nas UTIS neonatais, assim como com o uso de ventilação mecânica e o 42 advento da terapia com surfactante e o melhor treinamento e conhecimento na perinatologia a taxa de sobrevivência de lactentes prematuros vem aumentando cada vez mais. Apesar disso os prematuros ainda se encontram sob maior risco de déficits de desenvolvimento e condições de incapacidade que os termos, que são aqueles indivíduos nascidos após as 37 semanas gestacionais (SHEAHAN; BROCKWAY; TECKLIN, 2002). O acompanhamento de crianças consideradas de risco é de suma importância, visto que o desenvolvimento do RNPT pode ocorrer de forma adequada, porem num ritmo mais lento do que o termo, devido a imaturidade de seus sistemas (que pode ser maior ou menor a depender da IG). Nesse momento a estimulação precoce entra como uma forma de potencializar a interação do lactente com o ambiente através de estimulações que levam a facilitação e a obtenção de respostas próximas ao padrão de normalidade e a inibição ou correção da aprendizagem de movimentos e postura anormais ou inadequados. Ela tem como principal objetivo normalização do tono de forma global, estimulação proprioceptiva e aumento do limiar de sensibilidade tátil- cinestésica. Portanto, a estimulação precoce procura dar ao neonato condições para que ele se auto-organize, assim como visa facilitar ou corrigir os desvios do desenvolvimento neuropsicomotor dessas crianças, já que a experiência do movimento frequentemente é limitada ou perturbada no bebê prematuro (DUARTE et al., 2007) Qualquer programa de intervenção deve seguir algumas normas como, por exemplo, adequar o ambiente às limitações impostas pelo cuidado intensivo, adaptar- se de acordo com a maturidade de cada lactente, observar e adequar as condições fisiológicas e comportamentais, ser individualizado e modificado conforme as condições clinicas e maturidade apresentada por cada criança, considerar a quantidade de estímulos que cada um pode tolerar e estar sempre atento aos sinais emitidos, como os sinais de aproximação ou afastamento que normalmente são muito claros e indicam quanto mais pode-se trabalhar (DUARTE et al., 2007). Dentre as estimulações comumente utilizadas na pratica clinica pelos fisioterapeutas, temos a estimulação Tátil-cinestésica que foi definida como uma terapia onde o toque é aplicado de maneira suave e sistemática, baseada na 43 precocidade do sentido do tato que já se encontra presente no feto a partir de sete semanas e meia de gestação. Ela é considerada um procedimento muito seguro para auxiliar no desenvolvimento dos prematuros, além disso, sabe-se também que nos primeiros dias de vida a resposta dos recém-nascidos (RN) ao estimulo tátil é melhor do que em qualquer outra fase do desenvolvimento, quando comparada a outras modalidades sensoriais, por isso ela vem sendo amplamente divulgada e estudada (VICKERS, 2008). A dinâmica do crescimento neonatal é proporcional a idade gestacional, já a intensidade e duração da perda de peso inicial e consequente recuperação é inversamente proporcional a idade gestacional, peso e gravidade do prematuro. a necessidade nutricional de cada um costuma variar de acordo com o peso no momento do nascimento, porém a dificuldade de absorção interfere diretamente no ganho de peso ponderal (RUGOLO, 2005). Seção 3.2: Prematuridade e fatores de risco Os autores estudados concordam que prematuro é aquele recém-nascido que vem ao mundo com menos de 37 semanas de gestação. A prematuridade é decorrente de circunstâncias diversas e muitas vezes imprevisíveis, acontece em todos os lugares e classes sociais e trazem como fatores de risco inúmeros fatores, porém foram encontradas algumas causas mais citadas e muitas delas são relacionadas ao aparelho genital feminino como, por exemplo, alterações placentárias (placenta prévia e descolamento prematuro) e excesso de líquido amniótico. Outros fatores incluem ainda a idade materna, (que possuem maior incidência em mães muito jovens) eclampsia, infecções maternas e primiparidade. Porém, na grande maioria dos casos, os autores concordam que a causa ainda é desconhecida. 44 Seção 3.3: Desenvolvimento neuropsicomotor e a maturação dos sistemas O sistema nervoso da criança está em constante evolução e transformação desde a vida intrauterina, e após o nascimento dependem muito das condições ambientais encontradas, como resultado da soma desses fatores intra e extrauterinos temos o desenvolvimento neuropsicomotor. Quando o RN vem ao mundo de forma prematura, algumas fases são interrompidas e por isso pode ocorrer o atraso no desenvolvimento e na maturação dos sistemas. É importante lembrar que todo exame neurológico deve respeitar a evolução do desenvolvimento do sistema nervoso do RN, e os comportamentos do mesmo não estão devidamente estabelecidos até a 36 semana de idade gestacional, sendo assim é importante se atentar para o fato de que no prematuro as respostas neurológicas são compatíveis com o que seria encontrado na idade gestacional que ele se encontra, e não na idade cronológica como comumente se espera (GHERPELLI, 2003). Um estudo encontrado evidenciou uma capacidade da pele em metabolizar coordenar e organizar estímulos externos mantendo a homeostase interna e externa sinalizando a interação que existe entre o sistema endócrino e a estimulação cutânea. Assim foi observado que a estimulação tátil-cinestésica produz efeitos importantes na maturação e na atividade do sistema nervoso simpático, ele leva a um aumento da excreção de adrenalina e noroadrenalina através