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Supervisão Clínica Os medos que encontramos no setting Encontro 07 Marcos Simoes Psicanalista Os medos que encontramos no setting Medo do desconhecido Medo de não ser eficaz / bom o suficiente Medo do sofrimento do paciente Medo de julgamento / do que vão dizer Medo de transferência e contratransferência Medo de cometer erros / de não saber Medo de enfrentar conteúdos pessoais difíceis Medo do compromisso e da responsabilidade Medo da solidão profissional e do abandono Medo de desafiar suas próprias opiniões e valores Caso para refletir... "Lembro que estava na frente da casa dela, quando ela saiu pela janela, olhou para mim e ficou me encarando. Olhei para ela e ali eu entendi que era aquela pessoa que eu mais queria. Eu comecei a ficar fissurado por ela. Comecei a passar mais vezes por aquela rua só para ver se a encontrava. De vez em quando, ela estava na janela. Em outras vezes, estava no portão, caminhando na frente da casa, esperando o ônibus... Eu passei a anotar todos os horários dela. Sabia quando ela ia sair. Eu saia do meu trabalho e ia direto para a esquina da casa dela, ficar olhando quando ela estaria ali. Ela era linda. Era o tipo de mulher que minha mãe iria adorar como nora. Foi por isso que eu a observei tanto. Fingia que estava ali, cuidando do jardim da casa da esquina, mas na verdade só a estava observando. Caso para refletir... Acha que isso é algum tipo de loucura, Doutor? Eu não acho. Eu estava apenas apreciando aquela linda mulher. Só que teve um dia que ela apareceu com um rapaz! Nossa, aquele dia a raiva pairou sobre mim. Eu fiquei muito agressivo! Eu anotei a placa do carro dele. Dias depois, estava lá na esquina novamente e vi ela chorando no portão, foi daí que me aproximei dela. Eu consegui falar com ela. Aquele cara tinha morrido assassinado de forma violenta, mas ainda não se sabia porque. Eu tenho que te dizer que gostei de saber disso, mas não tenho nada a ver com isso, viu? Foi coincidência! Foi aí que eu consegui a atenção dela... quando ele morreu!” Supervisão Clínica Caso 06 Paciente Maria Encontro 07 Caso 06 Dados iniciais Paciente mulher, 51 anos, formada em artes plásticas, solteira, namora, religião espírita. Professora de artes em escolas estaduais. Ela procurou psiquiatra e foi prescrito os seguintes medicamentos: rivotril, sertralina, clomipramina. Traz como queixa principal, em suas palavras, “estou de luto, sou muito ansiosa, tenho insônia e depressão” Caso 06 Relato das sessões Na primeira sessão a paciente entra na sala e, antes mesmo de nos apresentarmos, ela inicia falando compulsivamente, ficou neste estado por quase 30 minutos. Atualmente realizei 4 sessões. A família é de uma cidade próxima a Campinas e viveram na mesma casa. Maria (nome fictício) é filha do segundo casamento por parte de pai (mãe faleceu). Do primeiro casamento do pai tem uma irmã e um irmão. O relacionamento com os pais foram intensos. Ela destaca o relacionamento afetuoso com o pai: “era uma pessoa muito boa, minha paixão”. A mãe era do tipo controladora. A paciente ressalta que apesar de ter um bom relacionamento com ela, sentia-se Caso 06 sufocada, não tinha liberdade para escolhas. Teve um bom relacionamento com a irmã, mas com o irmão foi sempre conflituoso, e atualmente, sem clima para conversas, o relacionamento está rompido. Explorei se ela sentia-se aceita pelos irmãos, com a irmã sim, mas com o irmão, sempre foi conflituoso. O irmão saiu quando se casou, os pais faleceram, e a irmã continuou a morar na casa até sua morte; Maria saiu quando tinha 22 anos – veio para Campinas estudar. Atualmente a casa está em processo de inventário. Nesse ponto, o conflito com o irmão se intensifica, não conseguem entrar em acordo. Ela se retrata a esta casa com pesar, angústia de saber que está vazia, suja, sem Caso 06 ninguém. Fica imaginando como uma casa de fantasmas. Por conta dessa angústia demonstra ansiedade em "se livrar da casa”, vende-la. Percebo que o conflito com o irmão não é somente por causa da casa, mas vem de longa data. Ela demonstra ter muita raiva, disse que se fosse homem bateria nele. Ela o considera um homem covarde, que não enfrenta os problemas, sempre reclamando. A relação da paciente com a família dele não é saudável. Maria viver em uma cidade próxima a Campinas até os 21 anos, mudando-se para Campinas. A intenção de sair de casa foi para ter liberdade, o que não tinha devido ao comportamento controlador da mãe. Caso 06 Ela menciona que gostou de arrumar o seu cantinho. Percebo que Maria tem desgosto com o comportamento da mãe, apesar de entendê-la: “quando completei 40 anos, entendi o jeito de minha mãe”. Ela ressalta que foi muito rígida, tudo tinha que ser do seu jeito. Maria passou vários processos de depressão durante a adolescência e mesmo adulta. Aliás, percebo que ela está em processo de depressão. Sintomas: não tem vontade de fazer nada, tudo é muito difícil, tem vontade de ficar quieta, dormindo, para ir até a padaria é um sacrifício, lecionar está pesando. Caso 06 Ainda sobre a depressão, há alguns anos, ela pediu licença das aulas, não estava dando conta. Neste período, ela relata que ficou 2 anos morando com a irmã, e dormia 24 horas. Não tinha forças para fazer nada. Pediu licença do trabalho para cuidar da irmã, como ela disse: “minha irmã está indo embora, tenho que ajudá-la”. Passou o primeiro semestre deste ano (2017) com ela, retornando a lecionar no segundo semestre. Outro aspecto interessante: seus relacionamentos. Quando mais jovem teve namorados que não deram certo, não mencionou o que aconteceu. Atualmente tem um namorado, relacionamento de 7 anos. Caso 06 Ele é separado. Demonstra irritação com ele, intolerância. Quando alguém faz alguma coisa para ela que não gosta, ou não aceita por julgar errado, ela devolve, revida, com o dobro de intensidade: “vou com tudo”. Possui determinação e foco perante problemas ou situações de desafios: enfrenta-os, definida em entender e solucionar. Sobre o seu trabalho (lecionar) informa que não está vendo sentido. Não gosta de dar aulas, não foi o que projetou para sua vida. Tentou montar um negócio com o atual namorado, mas não deu certo, ele achou que ela estava falando demais e dando ordens. Ela se questionou se não estava mesmo. Ainda sobre esse evento, ela Caso 06 mencionou que sua irmã já falava isso para ela: “você está agindo como a mamãe”. Maria gosta de fazer as “coisas certinhas”, planejadas, tudo tem que estar bem organizado. Não suporta pessoas que fazem as coisas erradas. Comportamento similar ao de sua mãe, dando ordens, fazendo do seu jeito. Percebo que ela não se permite ter um momento de prazer, de satisfação, tudo tem que ser rígido e organizado. Pontuamos juntos esse aspecto, ela ficou surpresa. Sempre pensa no que tem para fazer amanhã: no domingo fica pensando na segunda, que será um dia difícil de muitas aulas, ficará fora de casa o dia todo, sente-se ansiosa. Caso 06 Neste formato, ou neste contexto, não se permite relaxar, aproveitar o que tem de bom deixando passar, mais que isto, passar a vida sem prazer, sem sabor. Agora, que está com 50 anos, estes questionamentos estão aparecendo, sobre o que tem sentido, ou o que teve sentido, e como fará para viver com sentido. Ela coloca esperança que os remédios irão tirá-la do estado de stress e depressão. Informei que os remédios ajudam a dar estabilidade emocional, mas que os problemas, ou como encará-los é que precisam ser trabalhados. Maria responde: “gostaria de melhorar 10%, já estaria muito bom”. Percebo o nível de sofrimento e angústia que está vivendo. Caso 06 Não fazendo diagnóstico, mas entendo que ela vem perdendo objetos importantes: o falecimento do pai, depois a mãe, irmã, e por último a casa, a rua, local onde viveu. São várias perdas consecutivas no decorrer de anos. Ela simboliza o que está vivendo: “parece que estou dentro de uma casa assombrada, escura, queme dá muito medo, e não consigo sair”. Demonstra preocupação com o futuro: “agora não tenho mais minha irmã, mãe e nem pai, como vou fazer?”. Finalização Até o próximo encontro!