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1. AS SITUAÇÕES QUE LEVAM À NOTA ZERO Anderson Luís nunes dA MAtA1 A ETIQUETA EM UMA PROVA É preciso ter bons modos ao escrever um texto em uma prova? A essa pergunta um estudante, um professor ou qualquer outro cidadão responderia afirmativamente, sem a necessidade de uma maior análise. Parece óbvio que seja necessário demonstrar respeito em uma situação de comunicação pública. E é óbvio, em certa medida, como parte do que se considera como atitudes éticas esperadas de um cidadão. Contudo, mesmo que haja um conjunto de atitudes éticas que as pessoas adotam desde a infância, é errado pensar que ética pode ser vista como algo natural. Ela é sempre fruto de uma reflexão que nos faz distinguir o certo do errado, o bom do mau. Há alguns anos, o filósofo Renato Janine Ribeiro propôs em uma entrevista a relação entre etiqueta e ética, sendo a primeira uma forma menor – mas não menos importante - da segunda. Pensar a etiqueta como uma pequena ética é realmente tentador: a homofonia dos radicais parece lançar uma luz sobre um termo que, se não caiu em desuso, passou por um bom tempo sendo visto como uma mera frivolidade e afetação, situando-se em campo oposto ao da própria ética. A tentação de fazer a associação entre as palavras não resiste a uma breve análise etimológica, pois o termo em francês, etiquette, de atar, cunhado por Stanhope para definir o conjunto de regras de comportamento na corte, não tem uma relação direta com a noção de ética, de ethos, do grego, que define um modo de ser. Contudo, junto com Janine Ribeiro, proponho aqui que possamos 1 Professor Associado de Teoria da Literatura na Universidade de Brasília. Doutor e Mestre em Literatura pela UnB, é membro do Programa de Pós-Graduação em Literatura (UnB) e desenvolveu, como pesquisador visitante, pós- doutorado na Universidade de Bolonha. ENEM 2023 ● A alegria dos reencontros Artigos e e-Book 8 atar a ética à etiqueta, pois o conjunto de normas de comportamento que caracterizam as regras de etiqueta podem, sim, ter uma relação com um modo de ser público, pautado pelo respeito a si e ao outro. Não se ignora que as regras de comportamento foram transformadas em algum momento em instrumento de controle, como demonstra Norbert Elias (2001), e articularam violências e opressões, porém a recuperação da ideia da etiqueta como uma forma de delicadeza é oportuna aqui nesse contexto. Quais seriam as regras de etiqueta demandadas ao candidato de uma prova? Não vamos entrar nos aspectos do comportamento exigido na sala de prova. Como o que nos interessa é o texto, a questão em que podemos nos concentrar aqui é: como ter bons modos na escrita? O ponto principal é sobre como respeitar o espaço público que é a prova do ENEM, quais são os limites e que sanção deve pesar sobre quem não observa esse respeito, requisito básico para que o texto seja admitido para avaliação. No ENEM há uma lista de possibilidades de uma redação receber a nota zero, a maior parte delas ligadas às regras de etiqueta da prova, que demonstram o respeito do participante com o exame. Por isso, não trataremos da fuga ao tema e ao tipo textual, que são questões estruturais, ligadas à compreensão da proposta e ao domínio dos gêneros. A redação deixada em branco, que também recebe nota zero, tampouco será alvo de nossa atenção, pois é apenas o caso de um participante que optou por não escrever o texto na folha de resposta. As demais razões que levam um texto a receber a nota zero é que serão aqui objeto de um maior detalhamento, seja por anulação, seja por uma ética incompatível com a cidadania. Anulação São diversas as formas que levam o candidato a anular a prova do ENEM. Esses motivos de anulação são organizados na grade de correção em uma hierarquia para que uma redação que infrinja mais de uma regra não seja avaliada por critérios diferentes. Assim, do que se chama Formas Elementares de Anulação, passa-se à Cópia dos Textos Motivadores, então à Fuga ao Tema e à Fuga ao Tipo Textual, até, por fim, à Parte Desconectada. O primeiro conjunto é o que tem sido denominado formas elementares de anulação. Elas são: identificação do participante, acréscimo de desenho, número ou sinal gráfico na prova, recusa em escrever a redação, ilegibilidade e texto em língua estrangeira. São todas formas de desacordo com o trato que o participante faz com o examinador, que é escrever um “texto dissertativo-argumentativo em modalidade escrita formal da língua portuguesa”. As formas elementares de anulação estão, de um lado, ligadas ao impedimento de que o participante possa ser identificado por algum dos avaliadores. É uma das medidas que garantem a isonomia, e assim o respeito ao Art. 5º. da Constituição Federal, entre todos os que se submetem ao exame, uma vez que, por mais improvável que fosse um texto identificado por assinatura ou outra notação gráfica (desenho, sinal ou numeral) ser avaliado por alguém que efetivamente conhecesse o participante, em um universo de Artigos e e-Book ENEM 2023 ● A alegria dos reencontros 9 milhões de redações e milhares de avaliadores, é preciso garantir que isso não ocorra. Por isso, a redação deve ser anulada tão logo se localize uma possível forma de identificação. De outro lado, é o desacordo com a solicitação feita ao participante de que o texto deve ser escrito em língua portuguesa. A redação predominantemente em língua estrangeira fere o objetivo básico da avaliação, que é medir o domínio da modalidade escrita na língua portuguesa. Assim, ainda que se reconheça que o Enem possa ser uma forma de acesso à cidadania no país buscada, por exemplo, por refugiados, bem como se leva em consideração as diversas formas de contato linguístico na fronteira, que podem resultar em um candidato que, com domínio precário da língua portuguesa termine por escrever o texto predominantemente em sua língua materna, é preciso considerar que nem os avaliadores teriam condições de avaliar textos em línguas diversas, nem considerar esse texto como válido é compatível com o que é pedido no exame. Por fim, o texto ilegível impede materialmente a avaliação. Pode ser fruto de uma escolarização precária ou de falta de cuidado com a forma final do texto para os avaliadores. O resultado é um só: um texto que não pode ser lido e, por isso, nem avaliado pela banca, sendo, assim, anulado. Texto insuficiente Se o texto em branco não é objeto de nossa análise, o texto insuficiente é. Trata-se também do descumprimento do que é solicitado nas instruções da redação. O participante sabe que deve escrever um texto com, pelo menos, oito linhas de sua autoria. É o que se considera como suficiente para se ter um texto, ainda que precário – pouco mais de um quarto do limite máximo de linhas permitido. A informação está explícita na proposta de redação, logo é esperado que se saiba que receberá nota zero nesses casos. Contudo, é comum que sejam encontradas redações em que o participante formula um texto mínimo, que, eventualmente, atinge ou até supera as oito linhas. Para o avaliador, esse aspecto é suficiente para que o texto seja considerado como válido. Até mesmo o título, que não é nem solicitado nem objeto da avaliação, contaria para o cumprimento do requisito das oito linhas. Nesses casos, a avaliação passará a ser de outros aspectos. É importante notar que quando se fala em “desconto” de linhas na avaliação das cópias de trechos dos textos motivadores, como veremos mais adiante, isso não significa que as linhas seriam anuladas e o texto passaria a ser insuficientes. Se chegamos a avaliar se o texto copia ou não informações é porque ele já passou dessa barreira e já é um texto suficiente. Cópia dos textos motivadores Avançando no campo dos problemas éticos que levam à nota zero na redação, há a cópia dos textos motivadores ou de outros textos que estejam disponíveis no caderno de prova. Em um contexto em que a remixagem ou a mera reprodução é recurso aceito, principalmente nos meiosdigitais, como forma de expressão, a redação do ENEM demanda ENEM 2023 ● A alegria dos reencontros Artigos e e-Book 10 autoria. Desse modo, o manejo que o participante faz dos textos presentes no caderno de prova deve ser cuidadoso e não podem caracterizar o plágio. Por isso, todas as sequências consideradas longas (três palavras ou mais), que estiverem presentes da mesma forma nos textos motivadores ou no caderno de prova são consideradas cópia e levam à nota zero. O que é importante, nesses casos, é distinguir a cópia da paráfrase. Para Orlandi, “é impossível ao autor evitar a repetição” (Orlandi, 1998, p. 13), então é até esperado que os participantes repitam o que acabaram de ler. Contudo, é preciso estar atento para que essa repetição não seja mera cópia, aproximando o gesto da escrita daquele do plágio, uma falha ética grave. Alterações simples, como o acréscimo ou modificação de uma letra, de um acento gráfico, a mudança de um tempo verbal ou até a supressão de uma ou mais palavras não são suficientes para caracterizar a paráfrase, que é uma repetição formal, como pontua Orlandi. Nesse sentido, a repetição que caracteriza a paráfrase é aquela que coincide com o que Orlandi define como “repetir com outras palavras” (Orlandi, 1998, p. 14). No processo de avaliação das redações, a identificação de cópias é uma tarefa que toma tempo, pois é preciso retomar os textos avaliados, subtrair as linhas que contêm qualquer trecho de cópia do total escrito e contabilizar, ao final, se a redação receberá nota zero por não ter até oito linhas autorais suficientes. Nesse caso, não se trata de texto insuficiente, mas de cópia, que é o motivo de ruptura com as regras do exame. Parte desconectada Entre os desvios da etiqueta da prova, os que caracterizam a parte desconectada então entre os maiores. Trata-se efetivamente da identificação de maus modos do participante. É quando há o acréscimo de fragmento de texto desconectado da redação escrita. É uma modalidade de anulação que surge justamente para coibir a tentativa deliberada de zombar do exame. Assim, se a redação contiver, por exemplo, uma receita culinária ou um hino de um time de futebol em seu interior, ainda que, nas demais partes, demonstre compreensão do tema e do tipo textual, a atitude dainclusão do trecho será analisada como uma forma de desrespeito ao exame e, assim, a redação receberá a nota zero. Aos trechos desconexos não se faz julgamento: não é o teor da parte desconectada que a caracteriza, mas, sim, a falta de nexo com o restante do texto. Desse modo, uma anedota ou um trecho de um livro sagrado, se não estiverem articulados com o projeto de texto, são igualmente motivo para que a redação receba a nota zero. Dirigir-se à banca de avaliação também é considerada falha grave em uma situação formal como a da prova e, de fato, caracteriza uma parte desconectada do texto. Não há hipótese prevista de um tema que requeira uma comunicação direta entre o participante e a banca. Pondere-se que tampouco é proibido que o participante se dirija a um leitor hipotético. Só a efetiva leitura do texto e avaliação da redação específica poderá permitir que se tome uma decisão sobre a anulação. Da mesma forma, discorrer sobre o próprio desempenho, Artigos e e-Book ENEM 2023 ● A alegria dos reencontros 11 um tipo de enunciação que costuma também ter a banca como interlocutor, ainda que não esteja citada explicitamente, é parte desconectada. Os dois casos citados rompem com a impessoalidade esperada não da redação, que pode conter a subjetividade do participante, mas da banca, que não deve ser chamada ao texto. Se o autor da redação força essa relação, ele está cruzando um limite ético inaceitável e, assim, receberá a nota zero. Caso mais grave é o do uso de impropérios. Espera-se o emprego da modalidade formal da língua, em que não cabem palavras de calão. Desse modo, xingamentos, desde que não façam parte de uma citação da fala de terceiros, são considerados como parte desconectada. Nesses casos, a palavra pode até estar conectada à discussão, mas definitivamente não é adequada ao exame. É o tipo mais evidente de maus modos, de inobservância da etiqueta da prova e, principalmente, de ruptura com a ética esperada do cidadão que se submete ao exame. CONSIDERAÇÕES FINAIS A ética, portanto, atravessa todas as relações que estabelecemos na esfera pública, e quando toca as questões de polidez, pode ganhar o nome de etiqueta. Apesar de se tratar de um aspecto secundário em uma avaliação que coloca em primeiro plano o domínio da língua, não é menos importante, como pudemos constatar na exposição das diferentes formas pelas quais a ética e a etiqueta podem ser afrontadas pelo participante, nem menos complexo, como as transformações nesses quesitos foram sendo feitas ao longo da história do exame. Para tanto, basta lembrarmos que a afronta ética mais contundente, que é elaborar proposta que fere os princípios dos direitos humanos, já foi motivo de anulação da redação e, após debate e decisão do Supremo Tribunal Federal, em 2017, deixou de ser causa para a nota zero em todo o texto. Esse conjunto de situações aqui expostas como passíveis de anulação por infringir a ética, como os casos de cópias, ou a etiqueta, como os impropérios ou a comunicação com a banca, reforçam a complexidade não só do processo avaliativo, mas também do uso da língua. O esforço da banca avaliadora de tornar objetivos os critérios de um campo de conhecimento que rege as delicadezas e as sutilezas resulta em uma grade que tem respondido satisfatoriamente ao dinamismo com que a sociedade interage com exame e o tratamento respeitoso, polido – ético, enfim – que essa relação demanda e merece obter. ENEM 2023 ● A alegria dos reencontros Artigos e e-Book 12 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS RIBEIRO, Renato Janine. Etiqueta e ética. Café Filosófico CPFL. Entrevista. Disponível em: . Acesso em 03/07/2023. ELIAS, Norbert. A Sociedade de corte. Trad. Pedro Süssekind. Rio de Janeiro: Zahar, 2001 ORLANDI, Eni P. Paráfrase e polissemia: a fluidez nos limites do simbólico. Revista Rua, v. 4, Campinas, 1998. Artigos e e-Book ENEM 2023 ● A alegria dos reencontros 13