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Briefing: Políticas Públicas e Organização da 
Educação Básica no Brasil 
Sumário Executivo 
Este documento sintetiza os principais temas, marcos legais e estruturas que definem as 
políticas públicas e a organização da educação básica no Brasil. A análise revela que a 
educação é legalmente estabelecida como um direito social fundamental e um dever do 
Estado, uma concepção consolidada progressivamente através das Constituições 
brasileiras, culminando na Carta Magna de 1988 e na Lei de Diretrizes e Bases da 
Educação Nacional (LDB) de 1996. A estrutura educacional é organizada em dois 
níveis — Educação Básica e Educação Superior —, sendo a Educação Básica composta 
pela Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio, e complementada por 
diversas modalidades, como a Educação de Jovens e Adultos (EJA) e a Educação 
Especial, para atender às necessidades diversas da população. 
Historicamente, as reformas educacionais foram moldadas por contextos políticos e 
econômicos mais amplos, desde as propostas nacionalistas do início do século XX e o 
movimento da Escola Nova, passando pelo viés tecnicista do regime militar, até as 
influências neoliberais da década de 1990, que priorizaram a eficiência e a avaliação 
sistêmica. O planejamento do setor é orientado pelo Plano Nacional de Educação 
(PNE), um instrumento decenal que estabelece metas para a universalização do acesso, 
melhoria da qualidade, formação e valorização dos profissionais da educação. O 
financiamento, pilar crucial para a efetivação das políticas, é estruturado em torno de 
mecanismos como o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e 
de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), que redistribui receitas 
tributárias, e programas de transferência direta, como o Programa Dinheiro Direto na 
Escola (PDDE), embora a suficiência desses recursos para garantir um padrão de 
qualidade elevado permaneça um desafio central. 
A Educação como Ato Social e Político 
A Relação Sistêmica entre Escola, Estado e Sociedade 
A educação é um ato social intrinsecamente ligado às interações humanas. A escola, 
como instituição central desse processo, opera dentro de uma concepção sistêmica, 
sendo um subsistema do sistema social mais amplo. Ela mantém uma relação de troca 
constante com o meio em que se insere, sendo influenciada pela estrutura econômica, 
pelas decisões políticas e pelas relações de poder vigentes na sociedade. 
• Entradas (Inputs) da Sociedade para a Escola: 
o Conteúdo Cultural: O acervo de conhecimentos, cultura, 
descobertas científicas e conquistas tecnológicas da sociedade que 
forma a base para os currículos escolares. 
o Recursos Humanos: A sociedade fornece os profissionais 
necessários para o funcionamento do sistema, como 
administradores, técnicos e professores. 
o Recursos Financeiros: O sistema escolar, especialmente o público, 
é mantido por orçamentos provenientes majoritariamente de 
impostos pagos pelos cidadãos. 
o Recursos Materiais: A indústria produz os materiais didáticos, 
móveis e tecnológicos utilizados nas escolas. 
o Alunos: A população em idade escolar constitui a razão de ser do 
sistema educacional. 
• Contribuições (Outputs) da Escola para a Sociedade: 
o Melhoria do Nível Cultural: A ampliação do universo cultural da 
população, alterando estilos de vida, valores e interesses. 
o Aperfeiçoamento Individual: Maior escolaridade capacita o 
indivíduo a compreender relações sociais e amplia suas chances de 
realização pessoal e profissional. 
o Formação de Recursos Humanos: A qualificação técnica e cultural 
de trabalhadores para os diversos setores da economia. 
o Inovações Científicas e Tecnológicas: As universidades e centros 
de pesquisa são responsáveis por avanços por meio da pesquisa. 
A prática educativa é, portanto, um ato político. As decisões e ações de um educador, 
mesmo que não percebidas como tal, interferem na sociedade, pois estão articuladas 
com uma determinada direção do processo social. 
A Educação na Sociedade Contemporânea 
A sociedade atual, caracterizada como a "sociedade da informação e do conhecimento", 
apresenta desafios complexos para a educação. Fatores como a automatização, a 
explosão do setor de serviços, a tecnicização da administração e a elevação educacional 
das populações deslocaram a ênfase do capital físico para o capital humano e 
intelectual. 
Neste contexto, a globalização transcende o econômico, abrangendo o desenvolvimento 
humano e os valores sociais, ao mesmo tempo que acarreta riscos de exclusão. A 
educação assume o papel crucial de formar cidadãos e pessoas comprometidas com a 
construção de uma sociedade mais justa e democrática, capazes de pensar criticamente 
sobre seus problemas. A proposta da escola cidadã emerge como uma resposta a esses 
desafios, defendendo uma instituição pública, financiada pelo Estado, com gestão 
democrática e comunitária, voltada para a transformação social. 
A Trajetória Histórica da Legislação Educacional Brasileira 
A Evolução do Direito à Educação nas Constituições 
O reconhecimento da educação como um direito fundamental evoluiu gradualmente na 
história constitucional do Brasil. 
• Constituição Imperial (1824): Estabeleceu a "instrução primária gratuita a 
todos os cidadãos", introduzindo o princípio da gratuidade, mas sem 
mencionar a obrigatoriedade. 
• Primeira República (1891): Não fez referência à obrigatoriedade ou 
gratuidade do ensino primário em nível federal, descentralizando a 
responsabilidade para os estados. 
• Constituição de 1934: Foi a primeira a incluir explicitamente tanto a 
obrigatoriedade quanto a gratuidade do ensino primário, definindo a 
educação como um dever a ser ministrado "pela família e pelos poderes 
públicos". 
• Constituições de 1937, 1946 e 1967: Mantiveram e refinaram os preceitos 
de gratuidade e obrigatoriedade. A Constituição de 1967 foi a primeira a 
especificar a faixa etária obrigatória de escolarização (7 a 14 anos). A 
Emenda Constitucional de 1969 foi a primeira a afirmar explicitamente a 
educação como "dever do Estado". 
A Educação na Constituição de 1988: A "Constituição Cidadã" 
A Constituição Federal de 1988 representa um marco, consolidando a educação como 
um direito social e um dever do Estado e da família. 
• Art. 6º: Coloca a educação entre os direitos sociais fundamentais, ao lado 
de saúde, trabalho e moradia. 
• Art. 205: Define a educação como "direito de todos e dever do Estado e da 
família", visando "ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o 
exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho". 
• Art. 206: Estabelece os princípios do ensino, incluindo: igualdade de 
condições para acesso e permanência; liberdade de aprender e ensinar; 
pluralismo de ideias; gratuidade do ensino público; valorização dos 
profissionais da educação; e gestão democrática. 
• Art. 208: Detalha as garantias do Estado, como a "educação básica 
obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade" e o 
atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede 
regular. 
• Art. 212: Determina a aplicação mínima de recursos em educação: 18% da 
receita de impostos pela União e 25% pelos Estados, Distrito Federal e 
Municípios. 
• Art. 214: Exige a criação de um plano nacional de educação de duração 
decenal, com o objetivo de articular o sistema nacional de educação. 
Reformas Educacionais e o Papel do Estado 
Do Escolanovismo ao Regime Militar 
As reformas educacionais no Brasil refletem as transformações políticas e sociais do 
país. 
• Anos 1920-1930: Período de grande efervescência, marcado pela 
influência do movimento da Escola Nova, liderado por intelectuais como 
Anísio Teixeira e Fernando de Azevedo. O objetivo era modernizar o país e 
construir uma identidade nacional, utilizando a educação como ferramenta 
para formar o "cidadão Republicano". A criação do Ministério dos Negócios 
da Educação e da Saúde em 1930 centralizouos esforços de reforma. 
• Estado Novo e Pós-Guerra (1937-1964): O ensino secundário foi 
consolidado como instituição formadora de uma nova elite. Após a 
redemocratização, intensos debates culminaram na promulgação da 
primeira LDB (Lei nº 4.024) em 1961. 
• Regime Militar (1964-1985): A política educacional foi atrelada aos planos 
de desenvolvimento e segurança nacional. O foco era a formação de 
"capital humano" para o mercado de trabalho, com forte controle político-
ideológico sobre a vida intelectual e artística. 
O Contexto Neoliberal e a Política Educacional dos Anos 90 
A partir dos anos 1980, a crise do modelo de Estado intervencionista e a ascensão do 
neoliberalismo redefiniram as políticas públicas globais. 
• Influência Internacional: Organismos como o Banco Mundial e o FMI 
passaram a influenciar as agendas nacionais, promovendo reformas 
estruturais orientadas para o mercado. O conceito de governabilidade foi 
associado à capacidade dos governos de implementar essas reformas. 
• Políticas no Brasil: Na década de 1990, a prioridade do Estado foi garantir 
o acesso e a permanência na escola. Foram implementados programas 
como o "Dinheiro Direto na Escola", o Fundo de Fortalecimento da Escola 
(FUNDESCOLA), e sistemas de avaliação em larga escala, como o SAEB e o 
ENEM. 
• O Relatório Delors: O documento "Educação: um tesouro a descobrir" 
(UNESCO, 1998) teve grande influência, popularizando a ideia dos quatro 
pilares da educação: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a 
viver juntos e aprender a ser. 
Estrutura e Organização da Educação Nacional (LDB 9394/96) 
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), sancionada em 1996, 
disciplina a educação escolar no Brasil. Ela define a educação escolar em dois níveis: 
Educação Básica e Educação Superior. 
Níveis de Ensino da Educação Básica 
A Educação Básica tem por finalidade desenvolver o educando, assegurar a formação 
comum para a cidadania e fornecer meios para progredir no trabalho e em estudos 
posteriores. 
Nível Descrição 
Educação 
Infantil 
Primeira etapa, para crianças de até 5 anos, com finalidade de 
desenvolvimento integral (físico, psicológico, intelectual e social). 
Oferecida em creches (0 a 3 anos) e pré-escolas (4 a 5 anos). A 
matrícula é obrigatória a partir dos 4 anos. 
Ensino 
Fundamental 
Etapa obrigatória com duração de 9 anos (para a faixa etária dos 6 aos 
14 anos). Seu objetivo é a formação básica do cidadão, mediante o 
domínio da leitura, escrita e cálculo, e a compreensão do ambiente 
natural e social. 
Ensino Médio 
Etapa final da educação básica, com duração mínima de 3 anos. Tem 
como finalidades a consolidação dos conhecimentos do Ensino 
Fundamental, a preparação básica para o trabalho e a cidadania, e o 
desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico. 
Modalidades de Educação e Ensino 
A LDB prevê modalidades que perpassam os níveis de ensino para atender a públicos e 
necessidades específicas. 
• Educação de Jovens e Adultos (EJA): Destinada àqueles que não tiveram 
acesso ou continuidade de estudos na idade própria. 
• Educação Profissional: Integrada às diferentes formas de educação, visa 
ao desenvolvimento de aptidões para a vida produtiva. 
• Educação Especial: Modalidade de educação escolar oferecida, 
preferencialmente, na rede regular de ensino para educandos com 
deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou 
superdotação. 
• Educação Escolar Indígena: Assegura uma educação bilíngue e 
intercultural, que valoriza as línguas maternas e os processos próprios de 
aprendizagem das comunidades indígenas. 
• Educação a Distância (EAD): O Poder Público deve incentivar sua 
veiculação em todos os níveis e modalidades de ensino. 
• Educação no Campo: Reconhece o direito da população rural a uma 
educação que considere suas vivências e cultura. 
Estrutura Administrativa 
A educação brasileira é organizada em um regime de colaboração entre os sistemas de 
ensino. 
• Sistema Federal de Ensino: Responsabilidade da União, abrange as 
instituições federais (universidades, institutos federais, etc.) e a 
coordenação da política nacional. O Ministério da Educação (MEC) é o 
órgão executivo. 
• Sistemas Estaduais de Ensino: Os Estados e o Distrito Federal atuam 
prioritariamente no Ensino Fundamental e Médio. 
• Sistemas Municipais de Ensino: Os Municípios atuam prioritariamente na 
Educação Infantil e no Ensino Fundamental. 
Planejamento e Financiamento da Educação 
O Plano Nacional de Educação (PNE) 
O PNE é um plano decenal que define diretrizes, objetivos e metas para a educação 
nacional. 
• Histórico: O primeiro PNE data de 1962. A versão para a década 2001-2010 
foi aprovada após longos debates e criticada por vetos presidenciais que 
enfraqueceram suas metas. 
• PNE (2011-2020): Elaborado a partir de um amplo processo de 
participação social, materializado na Conferência Nacional de Educação 
(CONAE) de 2010, o plano estabeleceu 20 metas claras e suas respectivas 
estratégias para todos os níveis e modalidades, desde a universalização da 
pré-escola até a ampliação da pós-graduação e o aumento do investimento 
público. 
Metas do PNE (2011-2020) 
Meta 1: Universalizar a educação infantil na pré-escola (4-5 anos) e ampliar a oferta 
em creches (0-3 anos) para 50%. 
Meta 2: Universalizar o ensino fundamental de 9 anos para a população de 6 a 14 anos. 
Meta 3: Universalizar o atendimento escolar para a população de 15 a 17 anos e elevar 
a taxa de matrículas no ensino médio para 85%. 
Meta 4: Universalizar o atendimento escolar para estudantes com deficiência (4-17 
anos) na rede regular. 
Meta 5: Alfabetizar todas as crianças, no máximo, até o final do 3º ano do ensino 
fundamental (8 anos de idade). 
Meta 6: Oferecer educação em tempo integral em, no mínimo, 50% das escolas 
públicas. 
Meta 7: Atingir as médias nacionais estabelecidas para o IDEB. 
Meta 8: Elevar a escolaridade média da população de 18 a 24 anos e reduzir as 
desigualdades educacionais (campo, pobreza, raça). 
Meta 9: Erradicar o analfabetismo absoluto até 2020 e reduzir em 50% o analfabetismo 
funcional. 
Meta 10: Oferecer, no mínimo, 25% das matrículas de EJA na forma integrada à 
educação profissional. 
Meta 11: Duplicar as matrículas da educação profissional técnica de nível médio. 
Meta 12: Elevar a taxa bruta de matrícula na educação superior para 50% e a líquida 
para 33% da população de 18 a 24 anos. 
Meta 13: Elevar a qualificação do corpo docente da educação superior, atingindo 75% 
de mestres e doutores, sendo 35% doutores. 
Meta 14: Elevar o número de matrículas na pós-graduação stricto sensu, atingindo a 
titulação anual de 60 mil mestres e 25 mil doutores. 
Meta 15: Garantir que todos os professores da educação básica possuam formação 
superior de nível de licenciatura na área em que atuam. 
Meta 16: Formar, em nível de pós-graduação, 50% dos professores da educação básica. 
Meta 17: Valorizar os profissionais do magistério, equiparando seu rendimento médio 
ao de outros profissionais com escolaridade equivalente. 
Meta 18: Assegurar a existência de planos de carreira para os profissionais do 
magistério em todos os sistemas de ensino. 
Meta 19: Garantir critérios técnicos de mérito e desempenho para a nomeação de 
diretores de escola, com participação da comunidade. 
Meta 20: Ampliar o investimento público em educação para atingir, no mínimo, 7% do 
PIB. 
Mecanismos de Financiamento 
• Fundeb: O Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica 
e de Valorização dos Profissionais da Educação foi criado em 2007 para 
substituir o Fundef. Trata-se de um fundo contábil de âmbito estadual, 
composto por uma cesta de impostos estaduais e municipais, com 
complementação da União para os estados que não atingem um valor 
mínimo nacional por aluno. Os recursos são destinados exclusivamente à 
educação básica. Críticas apontam que o Fundeb funciona maiscomo um 
mecanismo de redistribuição do que como uma fonte de novos recursos. 
• PDDE: O Programa Dinheiro Direto na Escola, criado em 1995, transfere 
recursos federais diretamente para as escolas públicas e escolas privadas 
de educação especial sem fins lucrativos. O objetivo é dar autonomia para 
a gestão escolar na aplicação de verbas para manutenção, pequenos 
reparos e aquisição de material pedagógico, melhorando a infraestrutura e 
fortalecendo a autogestão. 
• Salário-Educação: Contribuição social paga pelas empresas (2,5% sobre a 
folha de pagamento), destinada ao financiamento da educação básica 
pública. Os recursos são arrecadados pela Receita Federal e distribuídos 
pelo FNDE aos estados e municípios, proporcionalmente ao número de 
matrículas. 
 
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