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Estudo de Caso – Família em Acolhimento Institucional Contexto Geral A família é composta por pai, mãe e seis filhos. Antes do acolhimento, viviam em condições precárias em um barraco de madeira e lona, no assentamento conhecido como “Moscou”, em Campinas. O pai apresenta histórico de alcoolismo e violência doméstica, com comportamento agressivo e resistência às orientações. A mãe, por sua vez, é semi-analfabeta, apresenta baixa autoestima e mantém dependência emocional em relação ao marido, o que dificultou a proteção dos filhos e a possibilidade de rompimento do ciclo de violência. Essa combinação de vulnerabilidade social, violência e negligência culminou no acolhimento institucional por busca e apreensão, uma medida protetiva frente ao risco imediato. Dinâmica dos Filhos no Acolhimento • Filho de 15 anos: histórico de uso de maconha, mantinha vínculo parcial com os irmãos, mas com certo distanciamento afetivo. Foi encaminhado para a Instituição Padre Haroldo, especializada em adolescentes com dependência química. • Filho de 13 anos: comunicativo, com boa autoestima e liderança protetora. Gosta de esportes e demonstra habilidade em se envolver com os irmãos e pares, funcionando como figura de apoio. • Filho de 11 anos: apresenta rigidez comportamental, imaturidade emocional e dificuldades cognitivas. É profundamente religioso, afirmando com frequência que “será pastor”. Esse aspecto se torna parte de sua identidade e pode funcionar como estratégia de enfrentamento. • Filha de 9 anos: manifesta revolta e conflitos com educadores e outras crianças. Seu comportamento é desafiador, expressando de forma direta a contradição entre o desejo de afeto e a frustração com a história vivida. • Filha de 7 anos: meiga, comunicativa, muito apegada aos educadores e bem vinculada às outras meninas. Representa um polo de afetividade e confiança, sendo sensível às relações de cuidado. • Filha de 5 anos: acolhida no Lar da Criança Feliz, mas mantém vínculos positivos com os irmãos durante as visitas, revelando apego e desejo de proximidade. No contexto escolar, todos os filhos apresentam dificuldades de aprendizagem, mas apenas o filho de 11 anos possui atrasos significativos em todas as disciplinas. Vivências no Acolhimento Os cinco irmãos mais velhos foram acolhidos inicialmente na Casa Betel e depois transferidos para a Cidade dos Meninos. Ali, criaram uma rotina relativamente equilibrada, com vínculos positivos com educadores. Apesar disso, apresentavam resistência quando se tratava das visitas da família, principalmente pela permanência da mãe ao lado do pai agressor. Ao longo dos anos, houve episódios de evasão institucional. Inicialmente, apenas o segundo e o terceiro filho saíam em busca dos pais, alegando saudade. Depois, os demais também passaram por experiências semelhantes, sempre de forma individual, nunca em grupo. Esse movimento revela tanto a persistência do vínculo parental quanto a dificuldade de ressignificar a relação familiar diante da violência vivida. Após três anos, houve intervenção da COHAB no assentamento, com a construção de novas moradias. A família passou a residir em um sobrado de alvenaria, melhorando as condições físicas de habitação, mas sem mudanças significativas na dinâmica relacional e no ciclo de violência. Pontos de Reflexão Este caso nos convida a olhar para além da condição material e enxergar como os vínculos afetivos, as marcas da violência e as estratégias de sobrevivência se entrelaçam. • O filho de 13 anos aparece como um recurso positivo, sendo protetor e engajado nos esportes. • O filho de 11 anos expressa sua rigidez e imaturidade através da religiosidade, que pode ser um refúgio, mas também uma forma limitada de lidar com as demandas sociais. • A filha de 9 anos canaliza sua revolta em conflitos, apontando para a necessidade de acolhimento do sofrimento de forma não punitiva. • A filha de 7 anos demonstra o valor do vínculo saudável com educadores como um fator de proteção. • A filha de 5 anos, mesmo separada, mantém laços fraternos fortes, reforçando a importância das visitas e da manutenção de vínculos. O fio condutor que sustenta essa família é o vínculo entre irmãos – protetivo, afetivo e resiliente, mesmo diante de tanta ruptura. Perguntas para Supervisão 1. Qual o ponto mais sensível e importante a ser desenvolvido pela equipe do abrigo nessa família? Estamos diante de uma dinâmica marcada pela violência e pela dependência química. O que merece prioridade: o fortalecimento dos vínculos fraternos, a reconstrução da autoestima materna, ou a mediação das relações conflituosas com educadores? 2. Que orientações são fundamentais para a equipe residencial no bom desenvolvimento das crianças e adolescentes? Quais práticas educativas e relacionais devem ser adotadas para lidar com perfis tão distintos – como a religiosidade rígida do filho de 11, a revolta da filha de 9 e a sensibilidade da filha de 7? 3. Como podemos desenvolver os vínculos familiares de crianças e adolescentes que não têm perfil para adoção? Se a reintegração com os pais é inviável, como fortalecer o papel da família extensa e, sobretudo, como valorizar o vínculo fraterno como base para o futuro desses jovens? 4. Qual a percepção geral desse caso e que metas podemos estabelecer a curto, médio e longo prazo? Curto prazo: apoio escolar, regulação emocional e prevenção de evasões. Médio prazo: inserção em atividades comunitárias (esporte, religião, arte). Longo prazo: autonomia progressiva, fortalecimento de vínculos fraternos e encaminhamento para vida adulta com suporte institucional.