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A pandemia de Covid-19 e os impactos na dinâmica de vida dos moradores da 
Vila Tuyuka em São Gabriel da Cachoeira 
 
Norma Orjuela, (Somé) 
Auxiliar de dentista 
Moradora de São Gabriel da Cachoeira 
 
Colaboradores: 
Dulce Meire Mendes Morais 
José Miguel Nieto Olivar 
 
 
Nós, do povo Tuyuka, somos parte dos 23 povos indígenas do rio Negro. Minha 
família vive na Vila Tuyuka, localizada na BR 307 próximo ao cemitério na cidade de 
São Gabriel da Cachoeira, noroeste amazônico. Vila dos Tuyuka é o nome dado ao local 
em que vivemos e desenvolvemos nossa Associação Indígena da Etnia Tuyuka 
Moradores de São Gabriel da Cachoeira (AIETUM-SGC) formada por um grupo de dez 
irmãos de etnia Tuyuka e, com o passar do tempo, os parentes de etnia Tukano 
começaram a fazer parte de sua composição. 
Nossa família é referência em São Gabriel da Cachoeira no que diz respeito à 
produção de mandioca e seus derivados (beiju, farinha, tapioca). Por isso, uma 
nutricionista que atua nas escolas municipais da cidade solicitou nossa ajuda, em maio de 
2019, com o projeto Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), para 
entregarmos os produtos agrícolas para as escolas de nosso município. No entanto, devido 
a questões de negociação de valores e da documentação necessária para participarmos do 
PNAE, apenas em setembro, do mesmo ano, que os associados conseguiram participar 
efetivamente do programa. Nesse contrato inicial, em 2019, fizemos entregas de farinha, 
maçoca, tapioca, goma lavada, macaxeira e verduras nos meses de setembro, outubro e 
novembro. Essas entregas foram e ainda são realizadas para todas as escolas municipais 
da sede urbana de São Gabriel da Cachoeira e, também participamos da distribuição de 
produtos agrícolas para o Exército Brasileiro (sede do Comando de Fronteira Rio Negro 
e 5º Batalhão de Infantaria de Selva). 
Aos domingos realizamos uma feira em nossa maloca (espaço grande e aberto, 
com o teto de folhas de caranã — Mauritia carana, planta da América do Sul) para 
vendermos nossos produtos advindos da agricultura familiar e, também, comidas típicas 
da região como a bebida fermentada a base de mandioca caxiri, a quinhampira caldo de 
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peixe apimentado, a mujeca que consiste em peixe em migalhas misturado com goma, a 
carne de caça que geralmente é o caldo de carne de paca. Além da realização da feirinha, 
utilizamos o espaço da maloca para nos reunir, dançar e compartilhar refeições. 
Esses produtos que comercializamos são produzidos em nosso sítio localizado a 
40 minutos, rio (Negro) abaixo, de São Gabriel da Cachoeira. Geralmente, nas terças-
feiras meus pais e tios se deslocam com voadeira (canoa) e rabeta (motor) para o sítio 
onde cada família da Vila Tuyuka tem uma casa e roças para trabalhar com a plantação 
de mandioca, banana, abacaxi entre outros. Através da colheita da mandioca produzimos 
a farinha, a tapioca, a goma para fazer beiju e o tucupi (ingrediente importante para a 
quinhampira). No sábado colhem as frutas e retornam para a cidade, pelo rio Negro, com 
todos os produtos que puderam preparar durante a semana. Às vezes, meus parentes vão 
para o sítio de ônibus que faz o trajeto de São Gabriel da Cachoeira até Camanaus, 
comunidade indígena e região portuária de São Gabriel. De ônibus são 30 minutos de 
São Gabriel até a beira do rio, ponto em que descemos para chegarmos ao nosso sítio, 
depois temos que caminhar por uma trilha durante 25 minutos e atravessar o rio até 
chegarmos ao nosso destino. 
Com o Decreto municipal nº 003 do dia 18 de março de 2020, que versou sobre a 
proibição da circulação de pessoas entre a cidade e as comunidades e a proibição da 
circulação do transporte público na cidade, meus parentes optaram por ficar isolados no 
sítio na primeira semana após o Decreto. Estávamos com muito medo e preocupados 
porque de acordo com os jornais muitas pessoas já haviam falecido no Brasil e no mundo 
por conta do vírus que ainda não tinha nenhuma possibilidade de cura. Então o desespero 
foi muito grande porque apesar dos conhecimentos culturais para nos proteger das 
doenças este vírus era uma novidade para todos nós. Quando o prefeito da cidade decretou 
a proibição de aglomerações, no mês de março de 2020, a reação inicial foi de 
preocupação, pois iria afetar a venda de nossos produtos na feirinha e essa é a principal 
fonte de renda da nossa família. 
Apesar do medo da contaminação, meus parentes retornaram para a cidade e não 
hesitaram em fazer uso das máscaras. Depois da confirmação do primeiro caso de Covid-
19 em São Gabriel, no dia 26 de abril, meu tio que é pajé, fez os benzimentos com breu 
branco (queima de carvão para produzir fumaça para espantar os males) e rapé (pó da 
mistura de folhas de embaúba, queimado com folhas de tabaco) - as pessoas inalam o pó 
para serem protegidos. Cercou os nossos corpos para que, caso fossemos contaminados, 
não desenvolvêssemos o estágio mais avançado da doença. Ao nos proteger através dos 
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benzimentos (culturalmente temos nossos nomes que são associados a natureza), o pajé 
interage o nosso nome indígena com a nossa vivência, bem-estar para que todos os seres 
da natureza não estranhem as nossas almas humanas. 
Por falta de medicação e de vacina para realizarmos os tratamentos, minha mãe e 
minhas tias começaram a fazer chás com ervas que geralmente são utilizadas para o 
tratamento da gripe, como o gengibre, o mel, as folhas de boldo e o capim santo. As 
pessoas da cidade foram comentando qual erva fazia efeito, foi uma troca de informação 
e de conhecimento durante todo o período de pandemia ao que diz respeito ao preparo 
dos chás. Como a união da família é grande cada vez que meu tio fazia os benzimentos 
nos reuníamos para inalar o rapé e cheirar a fumaça do breu branco, tomar o chá e nos 
proteger. 
Inclusive, quando um dos padres da cidade foi infectado, a minha tia tomou a 
decisão de — além de desenvolver seu trabalho como doméstica — cuidar dele, dando-
lhe dos nossos chás e, com isso, foi melhorando aos poucos. No início de maio de 2020 
nós apresentamos alguns dos sintomas da Covid-19, no entanto, não tinha como sabermos 
se estávamos contaminados pelo coronavírus. Alguns apresentaram sintomas bem leves, 
como se fosse uma gripe ou um resfriado. Na segunda semana de maio de 2020 eu 
apresentei um sintoma diferente, tive uma forte dor no peito que perdurou por alguns dias. 
Como eu trabalho na cidade, com um outro círculo de pessoas, fui até o Hospital de 
Guarnição (hospital da cidade administrado pelo Exército Brasileiro) para saber se 
poderia fazer o teste da Covid-19 e poder tomar cuidados para proteger meus parentes da 
Vila. No entanto, me informaram que os únicos que poderiam ser testados eram as pessoas 
idosas e aquelas que apresentavam sintomas graves da doença. Falaram que os sintomas 
que eu apresentava não eram graves, então, apenas recomendaram cuidados como o 
isolamento domiciliar e o uso de máscaras. 
Apesar das recomendações e a importância do isolamento domiciliar, nós, 
moradores da Vila Tuyuka temos uma convivência de muita união. Nossa Vila é 
constituída por aproximadamente 50 pessoas (adultos e crianças) distribuídos em oito 
casas e, como mencionado, nos reunimos constantemente na maloca para 
compartilharmos nossos alimentos. Sabendo da minha situação de saúde minha mãe 
retornou do sítio para me oferecer cuidados como a ingestão de chás e benzimentos. 
Como não conseguimos fazer os testes, só acreditávamos que alguém estava com 
Covid-19 quando perdia o olfato ou o paladar, imagino que tenha sido desta forma para a 
grande maioria dos moradores da cidade. Esses sintomas foram aparecendo entre os 
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moradores da Vila desde o mês de maio até o mês de novembro de 2020 e, hoje, 
acreditamos que todos fomos infectados. Alguns inclusive apresentaram esses sintomas 
mais de uma vez durante o ano de 2020. Apesar de termos perdidoduas pessoas de nossa 
família neste período de dois anos de pandemia (uma inclusive havia testado positivo para 
a doença), nenhuma foi por conta da Covid-19. Não apenas os sintomas faziam com que 
acreditássemos que havíamos contraído a doença: alguns dos moradores da Vila 
conseguiram realizar o teste no Hospital de Guarnição. Meu pai conseguiu realizar o teste 
na segunda quinzena do mês de maio, meu cunhado que trabalha como mototáxi na cidade 
foi testado em junho, minha tia em julho, eu consegui realizar o exame apenas no mês de 
setembro, assim como minha sobrinha de três anos. Todos os testes foram positivos para 
a Covid-19. 
Por mais que na maioria de nós os sintomas não tenham sido graves, eles 
influenciaram na disposição e ritmo de trabalho realizado na produção agrícola. 
Entendemos que dores de cabeça, fadiga e problemas de pressão são algumas das sequelas 
da Covid-19 que os moradores da Vila desenvolveram. Já em junho de 2020 ao voltar ao 
trabalho desenvolvido na roça muitos de meus tios, após melhorarem da infecção, 
sentiam-se cansados e não conseguiam ficar muito tempo trabalhando debaixo do sol e a 
dinâmica de produção foi, inevitavelmente, diminuindo. 
A ameaça de contaminação pelo vírus fez com que minha família circulasse 
menos entre a cidade e o sítio para a produção de nossos produtos e isso interferiu na 
nossa organização para disponibilizarmos os nossos produtos na feirinha e para o PNAE. 
Tivemos que adiar algumas entregas de março até maio de 2020, somente a partir do mês 
de junho que conseguimos realizar as entregas e isso influenciou diretamente no nosso 
pagamento. 
Durante a vigência do Decreto que visava o fechamento de todos os locais que 
produziam aglomerações de pessoas a nossa feirinha ficou fechada. Aos poucos, no início 
de agosto quando a situação foi melhorando, os estabelecimentos de vendas começaram 
a abrir e voltamos a vender nossos produtos seguindo todos os protocolos da saúde: com 
uso obrigatório de máscaras para os vendedores e para os clientes que realizavam a 
retirada e o pagamento dos produtos no local. Nesse período os feirantes foram proibidos 
de produzir o caxiri para evitar o seu consumo que culturalmente é realizado em uma 
mesma cuia como recipiente. 
Um outro tio que faz parte do Conselho Municipal de Saúde estava bem-
informado sobre as decisões que estavam sendo tomadas a respeito dos protocolos de 
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segurança em relação a Covid-19. Então, ele imprimiu em alguns papéis as medidas de 
prevenção que estavam sendo divulgadas pela Secretaria Municipal de Saúde e colou em 
um pequeno mural na maloca para que todos que chegassem na feira também pudessem 
se informar. 
Quando o sistema de saúde do município entrou em colapso, no primeiro mês de 
pandemia na cidade, os Médicos Sem Fronteiras vieram atuar em um centro de referência 
da Covid-19 e no mês de agosto esses médicos vieram fazer uma visita na Vila. 
Aproveitando o momento, o meu tio convidou-os para realizarem uma palestra a respeito 
dos cuidados que deveríamos continuar tomando e esclarecer os sintomas da doença. 
Então, na semana seguinte, eles retornaram à Vila e falaram sobre o coronavírus, os 
principais sintomas, os órgãos mais afetados pela doença. Também trouxeram kits de 
higiene, que continha uma escova e um creme dental, uma barra de sabão, um sabonete e 
duas máscaras de pano; também doaram uma caixa de sabão e máscaras para todos que 
estavam participando da palestra e, ainda, fizeram uma doação de baldes improvisados 
com torneiras para que pudéssemos lavar as mãos. Esses baldes são como pequenas caixas 
d'água e foram colocados em três cantos de maior acesso à nossa maloca. Essa ação foi 
bem importante e necessária, por isso, até hoje utilizamos todos os domingos durante a 
venda de nossos produtos. 
Devido ao fechamento da feira durante três meses carecemos em conseguir os 
alimentos para o sustento da família e por sermos indígenas então recebemos, em agosto 
de 2020, cestas básicas do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN) 
por meio da campanha “Rio Negro, nós cuidamos!”. Essa foi uma ação dupla porque as 
cestas foram entregues junto com a distribuição da cartilha “Violência doméstica e 
violência sexual em tempos de pandemia - redes de apoio e denúncias: você não está 
sozinha!” que foi elaborada pelas mulheres do DMIRN, pesquisadores da Faculdade de 
Saúde Pública (FSP/USP), o Instituto Socioambiental (ISA) e, especialmente, minha 
irmã, moradora da Vila Tuyuka. 
Outras organizações também nos ajudaram com cestas básicas, como a pastoral 
da criança e a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) por meio da articulação de uma 
vereadora da cidade. Essas doações foram feitas porque sabiam da situação dos moradores 
da Vila Tuyuka que estava comprometida, bem como de diversos outros feirantes da 
cidade, por conta das medidas sanitárias para o enfrentamento da Covid-19. Essas 
doações foram fundamentais para os moradores da Vila porque sem as vendas de nossos 
https://noscuidamos.foirn.org.br/
https://acervo.socioambiental.org/acervo/publicacoes-isa/violencia-domestica-e-violencia-sexual-em-tempos-de-pandemia-redes-de-apoio
https://acervo.socioambiental.org/acervo/publicacoes-isa/violencia-domestica-e-violencia-sexual-em-tempos-de-pandemia-redes-de-apoio
https://acervo.socioambiental.org/acervo/publicacoes-isa/violencia-domestica-e-violencia-sexual-em-tempos-de-pandemia-redes-de-apoio
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produtos na feirinha a nossa alimentação (feijão, arroz, leite, café, macarrão) estava 
comprometida nesse período inicial de pandemia em São Gabriel da Cachoeira. 
No início de 2021 receberam mais um empenho do quartel da cidade que 
solicitaram macaxeira e farinha. A entrega dos produtos do PNAE foi paralisada devido 
a renovação do projeto, mas já iniciaram as entregas agora no mês de agosto. 
Recentemente foram procurados pelos dirigentes do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro 
e Pequenas Empresas (SEBRAE) em parceria com o Programa de Regionalização da 
Merenda Escolar (PREME), que solicitaram a entrega de farinha branca, verduras, 
banana, abacaxi entre outros produtos agrícolas. Recentemente fizemos a reforma da 
maloca e voltamos a ter um ritmo de produção para as garantir as vendas de nossos 
produtos. A feirinha voltou a normalidade, com o atendimento aos clientes, algumas 
pessoas mais cuidadosas continuam no uso da máscara. Atualmente em toda a cidade o 
nível do contágio tem amenizado, por isso, a maioria dos cidadãos deixaram de usar 
máscara. 
No dia 12 do mês de julho de 2021 os moradores da Vila Tuyuka, acima de 18 
anos, receberam a primeira dose da vacina AstraZeneca e aguardamos a aplicação da 
segunda dose no mês de outubro. Todos os integrantes da família tomaram a vacina a não 
ser aqueles que estavam tratando a malária. Isso foi possível porque meu tio que faz parte 
do Conselho Municipal de Saúde articulou com os profissionais para que fossem até a 
Vila realizar a vacinação dos parentes que estavam com dificuldades de se deslocarem 
até a UBS por causa das atividades agrícolas e até mesmo pela falta de hábito de 
frequentar a instituição de saúde.

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