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1. A Filosofia Bizantina e contexto oriental Origem do Império Bizantino Império Bizantino corresponde ao lado oriental do Antigo Império Romano, que explica qual a origem deste império com duração de quase mil anos. Mas, quando e por que ele deixa de ser Império Romano e passa a ser considerado Bizantino? Copiar A denominação de Império Bizantino se estabeleceu na historiografia tardiamente, a partir de estudos do século XIX. Observamos, então, que nome não estava definido para aqueles que habitaram este império. Como não houve um evento histórico fundador que pudesse estabelecer precisamente seu início, os estudos sobre Império Bizantino destacam as controvérsias sobre seus marcos temporais. Veja algumas correntes sobre início do império. Década de 280 Tetrarquia romanaNesta década houve a consolidação de tetrarquia romana. Início do Século IV Conversão ao Cristianismo e fundação de Constantinopla Conversão de Constantino ao Cristianismo e a fundação da cidade de Nova Roma ou Constantinopla. Ano de 395 Divisão do império Divisão do império entre os filhos de Teodósio. Ano de 565 Fim do governo Fim do governo de Justiniano, quando a esperança da retomada do lado ocidental desaparece. Qualquer que seja a data de início, que que caracteriza este império é sua origem romana, com administração e organização romanas, aliadas aos elementos orientais e helênicos. Os historiadores perceberam que, a partir de um determinado momento, difícil de medir precisamente, as mudanças introduzidas com Cristianismo e com a cultura grega haviamtransformado de tal forma estrutura e organização imperiais, que já não era mais possível falar em Império Romano do Oriente. Constantino No Oriente, bem como ocorreu no Ocidente, a Filosofia e a Teologia estiveram profundamente relacionadas durante a Idade Média. No caso Bizantino, a Teologia esteve ligada às discussões políticas, já que a definição de ortodoxia e das heresias fazia parte da política de Estado bizantina. imperador era representante religioso e político do Império, que trouxe inúmeras consequências, especialmente do ponto de vista filosófico, já que as discussões cristológicas marcaram a política e pensamento Bizantino. Copiar Um dos grandes destaques do Império Bizantino foi seu caráter cristão - imperador Constantino se converteu ao Cristianismo e publicou Édito de Milão, que deu liberdade de culto aos cristãos. Além de se converter ao Cristianismo, Constantino fundou uma cidade que se tornariaa capital do Império Romano do Oriente: a cidade de Constantinopla. Localizada em uma antiga cidade grega às margens do estreito de bósforo, na região entre a Europa e a Ásia, uniram-se os elementos romanos, cristãos e a cultura grega que caracterizaram Império Bizantino. de Constantinopla. Constantinopla foi a capital até 1453, com a invasão dos turcos otomanos que puseram fim à longa história bizantina. Essa data tornou-se um dos marcos que caracterizaram final do período medieval. Do ponto de vista do pensamento político e filosófico, modelo Bizantino se caracterizou por uma relação íntima entre a esfera política e a religiosa. Em Bizâncio (se tornaria Constantinopla e atualmente é Istambul, capital da Turquia) modelo imperial ficou conhecido como Cesaropapismo, isto é, imperador possuía atribuições religiosas, além das políticas que exercia. imperador Bizantino podia convocar concílios, decidir sobre a doutrina, que seriaou não considerado heresia dentro do seu território. Império Romano teve como seu último defensor Imperador Justiniano, que governou durante século VI e chegou a retomar alguns territórios do lado ocidental, na esperança de restabelecer glamour do antigo Império Romano. Com auxílio do general Belisário, Império Bizantino chegou a conquistar territórios em torno do mediterrâneo ocidental, particularmente na península itálica, no sul da península Ibérica e no norte da África. Comentário Os esforços de conquista dos territórios ocidentais àquela altura estavam dominados por reinos germânicos estabelecidos após às migrações - foram tão desgastantes que, ao final do governo de Justiniano, custo financeiro e humano revelou a dificuldade de seguir apostando na união entre os territórios do Ocidente e do Oriente. Assista ao vídeo e entenda a relação entre Ocidente e Oriente no medievo.A antiga grandeza de Roma passaria para um plano simbólico, já que a partir do fim do reinado de Justiniano não houve mais tentativa de retomada do Ocidente. A partir de então, Império Bizantino se restringia ao lado ocidental e se consolidava nos aspectos culturais e políticos que caracterizaram. Disputas cristológicas Com Concílio de Niceiaem 325, Imperador Constantino buscou resolver certas disputas cristológicas que vinham sendo discutidas desde século anterior. Assista ao vídeo e aprenda sobre os concílios na Era Medieval. A seguir, vamos conhecer algumas doutrinas defendidas nas disputas cristológicas. A Arianismo arianismo foi uma doutrina defendida por Ário, presbítero de Alexandria (uma das cidades mais importantes do mundo antigo, ao norte do Egito, na costa mediterrânea, fundada por Alexandre, grande em 331 a.C.), e amplamente difundida no início da Idade Média, embora tenha sidoconsiderada uma heresia. Segundo Arianismo, Jesus Cristo havia sido gerado pelo Deus pai e, portanto, negava-se que os dois fossem a mesma pessoa, isto é, negava- se a consubstancialidade A disputa em relação à natureza de Cristo ocorreu com bispo Alexandre, da cidade de Alexandria. A partir do Concílio de Niceia, imperador Constantino acreditou ter posto fim a controvérsia, considerando Arianismo uma heresia e afirmando a consubstanciação, ou seja, a união entre Jesus e Deus Pai. No século V, desenvolveu-se entre os cristãos de Antioquia uma interpretação segundo a qual havia uma distinção entre as duas naturezas de Cristo, ou seja, havia uma separação entre a natureza humana e a natureza sagrada. Nestorianismo Jesus veio ao mundo como homem e foi na carne que sofreu os castigos que redimiam a humanidade, por isso sua natureza humana seria mais importante. Foi sua natureza humana que lhe permitiu sofrer como homem e dar àhumanidade a possibilidade de salvação do pecado. Essa concepção foi apoiada pelo patriarca de Constantinopla, Nestório. A doutrina nestoriana se difundiu no Império Bizantino e ganhou inúmeros adeptos. Ela foi considerada heresia no Concílio de Éfeso, em 431. Esse concílio foi convocado por Teodósio II, em 431, onde, por força de manobras políticas, Nestório foi deposto e sua doutrina que distingue as naturezas de Cristo foi considerada heresia. Os estudiosos têm dificuldades de analisar pensamento de Nestório, já que todas as suas obras foram destruídas depois do Concílio. Em virtude disso, que se sabe sobre a doutrina foi retirada de seus comentadores ou de seus opositores. c Monofisista Entre os adversários do Nestorianismo se difundiu, a partir da cidade de Alexandria, uma interpretação que desvalorizava a natureza humana de Cristo e reconhecia basicamente sua natureza divina.A doutrina Monofisita surgiu no século V e se difundiu rapidamente pelas províncias bizantinas da Síria e do Egito. Segundo Monofisismo, com a encarnação teria ocorrido a união perfeita da dupla natureza e, assim, Jesus teria apenas uma única natureza, a divina. A Igreja bizantina sentiu a necessidade de convocar mais um concílio para discutir tema. Desse modo, foi realizado Concílio de Calcedônia, em 451, que condenou Monofisismo como heresia e estabeleceu a primazia da ortodoxia, com a crença na dupla natureza de Cristo: humana e divina. Essa decisão, por um lado, aproximava a igreja bizantina da romana, que estabelecia a dupla natureza e a trindade, mas por outro lado, afastou importantes províncias - como Egito e Síria - do centro imperial, em Constantinopla. Apesar de serem consideradas heresias tanto Nestorianismo e Monofisismo tiveram vida longa no Império Bizantino e muitos pensadores Bizantinos eram seguidores dessas doutrinas. Teologia versus Filosofia no Império Bizantino No Oriente Bizantino, as relações e tensõesentre Filosofia e Teologia marcaram especulação filosófica durante período medieval, bem como ocorria do lado ocidental. Em Bizâncio, no seio da Igreja ortodoxa, encontrava-se a oposição entre Teologia, como a verdadeira especulação iluminada pela fé e a Filosofia dos antigos pagãos. Os padres da Capadócia colocam a ênfase de seus estudos no tema da Trindade. Significava considerar que a Filosofia bizantina esteve relacionada com a Teologia, mas, em certos casos, não foi considerada um conhecimento inferior. Observe mapa a seguir. do antigo Império Bizantino. Alguns pensadores Bizantinos buscavam na sabedoria antiga, nas reflexões dos filósofos gregos, os presságios da revelação divina. Exemplo Encontramos a lenda segundo a qual Platão, no Hades, havia acreditado na pregação de Cristo. Além disso, era comum recorrer a Aristóteles e Platão para fundamentar os mais variados temas de Teologia. É bastante comum encontrar autores, comoJuan Crisóstomo, que se dedicaram a fazer um ataque a Filosofia. Ele foi Patriarca de Constantinopla, considerado um dos grandes Padres da Igreja do Oriente e, segundo seus escritos, Paganismo aparecia como mal e a Filosofia antiga obscurecia a verdadeira fé. As escolas filosóficas No início da era bizantina encontramos duas grandes escolas filosóficas, que foram centros intelectuais de grande importância no início da era bizantina, mas divergiram do ponto de vista da postura política e religiosa assumida. Confira. Neoplatônica de Atenas A escola de Atenas, fundada em princípios do século V, representava uma etapa importante da fixação dos estudos filosóficos da época. Ali atuaram Plutarco, Siríaco, Poclo, Marino, entre outros, organizando um plano de estudos com uma progressão que conduzia de Aristóteles e Platão às fontes da Teologia, as revelações dos deuses. Defensora aberta de um modelo político baseado na República platônica, não foi por acaso que foi fechada por Justiniano, em 529. Aristotélica de AlexandriaA escola de Alexandria se mostrava mais próxima ao Cristianismo e, especialmente, mais prudente e conciliadora politicamente com poder central em comparação aos seus colegas atenienses. Primeiro Humanismo Bizantino Durante patriarcado de Fócio retomou-se interesse pela Filosofia de Aristóteles, no período conhecido como Primeiro Humanismo Bizantino, no século IX. Pintura de Fócio. Filosoficamente, Fócio foi um enciclopedista, isto é, se dedicou aos mais variados assuntos, em uma intenção de organizar e sistematizar pensamento. Suas principais obras foram a Biblioteca e as Respostas às questões de Anfilóquio, cobrindo um imenso e desarticulado campo de investigações. A Biblioteca contém textos variados, desde a vida de Isidoro (um dos últimos mestres da Escola de Atenas) até a Providência e destino, de Hiérocles. enciclopedismo inaugurado com Fócio chegou ao auge com dicionário enciclopédicocompilado por mãos anônimas, na segunda metade do século X, sob título de Suda (A muralha), contendo aproximadamente trinta mil artigos, com os mais variados temas. Miguel de Psellós (1018-1078) A atividade filosófica conheceu um período rico no mundo da ortodoxia bizantina, com uma espécie de renascimento da Filosofia grega, no século XI, com Miguel de Psellós professor da escola platônica, fundada por João Mavrupos. Psellós foi conselheiro do Imperador Constantino IX. Conheça um pouco mais sobre ele a seguir. Lecionou na Academia de Constantinopla. Tornou-se monge e participou da acusação do patriarca Miguel Cerulário, fomentada em 1059, pelo imperador Isaac Comeno. Comentou texto que os neoplatônicos da Antiguidade consideravam portador da revelação filosófica, os oráculos caldaicos (ou caldeus), atribuídos a Juliano Caldeu. A escolha que Psellós fez das citações e a ordem na qual as examinou mostrou que ele se esforçava para retirar dos oráculos caldeus umaespécie de sistema. De fato, ele foi mais neoplatônico do que cristão ou platônico. Ele distinguiu os três poderes correspondentes às três espécies de objetos de conhecimento. Veja. sentido Para os sensíveis. cogitativo Para os objetos do pensamento discursivo. intelecto Para os inteligíveis. Com Miguel de Psellós, a dicotomia Platão- Aristóteles perdeu intensidade, já que sua máxima admiração foi reservada aos neoplatônicos: Proclo, Jámblico e os oráculos caldeus. A atitude que prevaleceu na base de valorização de Psellós implicou, finalmente, a escolha que fez de Platão guia para a esfera mais filosófica e teológica, distintamente de Aristóteles, cujo âmbito de investigação e de aplicação se limitava à lógica e à física. Assim, entende-se porque Psellós não aprovava a condena indiferenciada de toda a Filosofiaplatônica e aristotélica que resultou no sínodo patriarcal de Miguel de Cerulário, bem como esclareceu que desejava resguardar a doutrina da igreja dos erros da Filosofia pagã. A tradição bizantina e a escolástica ocidental Com a fundação do Reino Latino de Constantinopla, estabelecido com a Quarta Cruzada, que tomou a capital do Império, mundo Bizantino entrou em contato com pensamento escolástico que vinha se desenvolvendo no Ocidente. Ocorreu, em Bizâncio, um interesse pela Teologia latina, que até então era conhecida apenas por um seleto círculo de teólogos e de forma pouco significativa. Coube aos mosteiros da ordem mendicante dos dominicanos, difundir no Oriente pensamento de Santo Tomás de Aquino, especialmente a partir de traduções gregas dos originas latinos. A partir de tais traduções era possível ampliar e divulgar conhecimento sobre sua doutrina. No século XIV, secretário imperial Demetrio Cidônio dedicou-se ao estudo do latim com propósito de ler a Summa contra gentiles, deSanto Tomás. A partir desses estudos, Demetrio realizou uma tradução para grego dessa obra, concluída em 1354, além de traduzir outros textos de Tomás de Aquino e outros teólogos latinos. 2. mundo islâmico: Filosofia e conhecimento Sufi mundo islâmico: da revelação à expansão do interior de uma mesquita. Para compreender mundo islâmico é preciso remontar às origens da religião islâmica, investigando a pregação de Maomé e processo de expansão de uma nova cultura no Oriente próximo. Maomé era um homem da família dos coraixitas e nasceu em Meca. Seu pai faleceu quando ele ainda era criança. Por isso, foi criado durante certo tempo por beduínos seminômades da desértica península arábica e, de volta a Meca, foi criado por seu tio Abu Talibe. Trabalhou como pastor e ajudou seu tio no comércio. É possível que tenha feito algumas viagens para fora da península chegando até a Síria, acompanhando seu tio em expediçõescomerciais. Se tais viagens ocorreram podem ter colocado Maomé em contato com as religiões monoteístas na região da Palestina e da Síria, que nessa ocasião se encontrava sob domínio Bizantino. Aos 25 anos de idade casou-se com Cadija, uma viúva com 40 anos que possuía uma condição econômica favorável, significando uma melhora social na vida de Maomé. A revelação Quando tinha 40 anos, em um retiro meditativo no Monte Hira, onde costumava fazer suas meditações e jejuns, Maomé recebeu a primeira revelação divina por intermédio do arcanjo Gabriel. Retrato do profeta Maomé. Essa revelação foi ditada ao profeta por Deus e posta por escrito por parentes e amigos próximos ao profeta no livro que ficou conhecido como Alcorão. Al que antecede palavra Alcorão é artigo indefinido em árabe. Já a palavra Corão, vem de de Qua'ram, que significa "recitação". livro sagrado para os muçulmanos é umarevelação do Deus único para profeta Maomé. Este Deus em árabe chama-se Alah, mesmo Deus único de outras religiões monoteístas. texto recitado pelo arcanjo Gabriel teria sido memoriado por ele e então ditado aos escribas. De acordo com a doutrina muçulmana, nenhuma palavra das suas 114 suratas (capítulos do Livro Sagrado) foi mudada no decorrer dos séculos. Assim, livro contém a tradição árabe que caracteriza a religião islâmica. Para povo muçulmano, Alcorão é a derradeira palavra de Deus revelada aos homens e a principal fonte da fé e da prática de todo muçulmano. livro trata de todos os assuntos relacionados com as relações humanas: sabedoria, doutrina, rituais e leis, mas tema principal é relacionamento entre Deus e os homens. Existe, ainda, outra fonte sagrada para os seguidores da religião islâmica. A Suna, livro que reúne as práticas e os exemplos de vida do profeta e se constitui como a segunda autoridade para os muçulmanos. Na tradição islâmica, um Hádice é a narraçãofidedigna transmitida do que Profeta disse, fez ou aprovou durante sua vida. Islamismo se coloca na linha sucessória das outras duas religiões monoteístas, Judaísmo e Cristianismo. É bem possível que Maomé tenha tido contato com tais religiões em suas viagens para fora da Península Arábica. contato com essas religiões pode ter sido também fruto de algum encontro com comunidades judaicas ao sul da península. Seja como for, a influência de tais religiões é marcante na tradição islâmica, especialmente na crença em um Deus único. monoteísmo pregado por Maomé foi ao encontro das crenças politeístas que predominavam na região. A cidade de Meca já era um centro sagrado de peregrinação antes do surgimento do Islamismo. Lá se localizava um pequeno santuário onde estava a Caaba e, em seu interior encontrava-se a pedra negra, sagrada para os povos da Península Ibérica, que viajavam até a cidade para visitá-la. Meca, como lugar de visitação, tinha um significativo comércio em torno do santuário. Veja maisalgumas características da tradição islâmica. Segundo a tradição islâmica, a Caaba é local de adoração que Deus ordenou a Abraão e a Ismael construírem há mais de cinco mil anos. Deus teria ordenado a Abraão convocar toda a humanidade para visitar local. A cultura judaico cristã está presente na islâmica, porque Islamismo nunca se colocou como contrário ou oposto às religiões monoteístas, e sim herdeiro delas. Também reconhece Jesus Cristo como um profeta de Deus, bem como Abraão ou Moisés. Maomé aparece na linha sucessória de profetas, enviado para trazer ao mundo a derradeira mensagem divina. A expansão A nova doutrina pregada por Maomé foi disseminada na cidade até que começou a incomodar algumas lideranças locais. Em virtude de tais dificuldades, Maomé conseguiu fazer uma espécie de acordo com moradores de outra cidade na Península, Yatrib. profeta se mudou com seus seguidores da cidade de Meca para Medina, em um movimentoque ficou conhecido como Hégira. A Hégira marcou ano zero da religião islâmica, no ano de 622. A partir de Medina, profeta começou uma série de batalhas de expansão. Entrou em conflito com a cidade de Meca, acabou vencendo, dominando e expandindo seu domínio e sua fé por praticamente toda a Península Itálica. Observe mapa a seguir. mostrando a Hégira. Desde início da formação do mundo islâmico, os aspectos políticos, territoriais, culturais estão vinculados com a religião em formação. Isto é, processo de constituição do Islã ocorreu ao mesmo tempo que a expansão de um poder político e a formação de uma unidade cultural e territorial na Península Arábica. Entender mundo islâmico e, consequentemente, sua História e Filosofia significa compreender a produção de uma cultura de origem árabe que lentamente se fundiu com os elementos das culturas e dos povos que foram sendo dominados ao longo do tempo.Assista ao vídeo para conhecer mais sobre a península arábica e entender contexto da origem do islamismo. Maomé faleceu em 632, dez anos após a Hégira. Foi em um curto período de tempo que ele dominou praticamente toda a península arábica. Essa dominação veloz encobriu diversos conflitos locais que, após a morte do profeta, iriam eclodir. De fato, poder que ele formara não estava sedimentado quando se viu sem principal líder. A forma em que seria feita a sucessão do líder não havia sido definida por Maomé, e isso levou a inúmeros conflitos no mundo árabe após seu falecimento. A instituição do califado A sucessão aconteceu na figura do Califa, que, em princípio era proveniente do círculo mais próximo de Maomé. Os quatro primeiros califas foram parentes ou amigos próximos. último deles foi Ali, primo e genro de Maomé (casou-se com Fátima, filha do profeta). Desde falecimento de Maomé, Ali defendiaque a sucessão devia ser consanguínea ficando poder na família do escolhido por Deus e, assim, como ele era primo de Maomé, seria herdeiro natural para a conduzir povo muçulmano. Ali chegou a fundar partido de Shia, de onde surgiria a corrente xiita que, entre suas principais reivindicações, propõe a consanguinidade do profeta como pré-requisito para ocupar cargo de guia do povo muçulmano. Comentário período dos quatro primeiros califas (632-661), terminou com Ali, e foi bastante conflituoso do ponto de vista político, pois todos, com a exceção de um, foram assassinados. Do ponto de vista territorial, Império Islâmico se expandiu de forma considerável, tendo dominado territórios fora da península arábica até a Síria, do lado Oriental e uma parte do norte da África, ao Ocidente. No processo de expansão, alguns territórios do Império Bizantino foram dominados e incorporados ao Império Islâmico. Essesterritórios possuíam uma forte cultura greco- romana e uma religião cristã. Durante primeiro século de formação, Islã precisou incorporar elementos das culturas conquistadas enquanto se expandia e consolidava. Vamos conhecer, a seguir, alguns dos califados e suas principais características. A Califado Omíada Após período dos quatro primeiros califas, também chamado de Califado Ortodoxo, se estabeleceu Califado Omíada (661-750), quando governador da Síria assumiu poder do Império Islâmico. A capital passou para Damasco. Esse fato é relevante para compreender como Islã cresceu em um mundo com forte cultura cristã. Os califas omíadas buscaram manter a língua árabe como centro da cultura islâmica, ao mesmo tempo que incorporaram diversos elementos dos povos conquistados. Califado Omíada chegou ao fim com uma sublevação que instaurou um novo califado, com capital em Bagdá. Califado Abássida(750-1258) reivindicou uma cultura persa islamizada, formadora do mundo islâmico, a partir do século VIII. Califado de Córdoba Império Islâmico se expandiu também na direção ocidental. A partir da dominação do norte da África, os muçulmanos cruzaram estreito de Gibraltar e se instalaram na Península Ibérica, estabelecendo Califado de Córdoba. Fundado por descendentes dos omíadas, foi considerado como parte do Califado Omíada por alguns estudiosos. Califado de Córdoba estabeleceu uma relação ambígua com os Abássidas, pois, ao mesmo tempo que reconhecia sua autoridade, era um califado autônomo. Os muçulmanos se estabeleceram por vários séculos na Península Ibérica e ali floresceu uma cultura com influências dos cristãos e judeus que habitavam a região. c Califado Abássida Califado Abássida precisou conviver comCalifado Fatímida, que subiu ao poder por meio de um movimento xiita dos ismaelitas. Estabelecido na região do Egito, se expandiu em direção da Síria e norte da África e chegou a ter uma grande influência no mundo islâmico. Os fatímidas fundaram a capital no Cairo e dali exerceram uma poderosa autoridade durante os séculos X a XII. último califa fatímida foi deposto por Saladino, que assumiu como sultão na região do Egito e, após a morte de Nuraldin, assumiu a região da Síria e Palestina. Ainda no período medieval, a Histórica islâmica foi marcada pela chegada dos povos turcos, particularmente os turcos Seljúcidas, que adentraram Califado Abássida se estabelecendo dentro do território e iniciando um período dos Grandes Seljúcidas no mundo islâmico, sem destituir califa Abássida, que àquela altura havia se tornado uma figura com atribuições mais místicas e sagradas do que propriamente políticas. século XIII teve um período especialmente conturbado com a chegada dos Mongóis, povos seminômades vindos da região central da Ásia.Comandados por Gengis Kan, os mongóis se expandiram por um território muito vasto, desde a China até Oriente Médio. Adentram império, causando grande destruição em Bagdá, onde Califa Abássida não foi poupado. Com passar do tempo, acabaram se convertendo ao Islã e se fundiram com a cultura muçulmana, que novamente foi amalgamada com as tradições trazidas pelos povos mongóis. A Filosofia no mundo islâmico Estátua de Aristóteles. Durante período do Califado Omíada, pensamento filosófico foi fundamentalmente baseado no estudo dos clássicos da Antiguidade, já que a cultura bizantina ainda estava presente nos territórios conquistados. Do século VII até final do século X, os cristãos desempenharam um papel essencial no campo da Filosofia, assegurando a transmissão da Antiguidade Tardia até período de produção intelectual significativa sob os abássidas. Durante período Abássida, a Filosofia viveu um rico período de produção intelectual islâmica. Deve-se destacar a leitura e as traduções dasobras de Aristóteles, além de neoplatônicos como Plotino, Porfírio e Proclo. Desde 830 funcionava em Bagdá a Bayt al-hikmah, Casa do Saber, que reunia os principais tradutores da época. Assista ao vídeo e entenda os estereótipos que devem ser revistos com relação ao mundo islâmico. Copiar A Filosofia Sufi Sufismo teve origem em um movimento místico, individual, de contato com Deus e acabou se transformando em um conhecimento com significativa aceitação entre a população muçulmana. Organizaram-se em irmandades, conhecidas como Tariqa, em árabe. As irmandades sufis possivelmente cumpriam um papel de acolhimento e direcionamento místico que não era preenchido pelo papel dos ulemás. Era preciso dar sentido para a doutrina sunita, que criava um distanciamento entre os homens e Deus. Os líderes sufis, diferentemente dos ulemás, buscaram cumprir papel de líderes e guias, fazendo uso de música, dança ecanto como forma de aproximação a Deus, uma união mística com a divindade. Apesar de ter se disseminado entre as classes populares, Sufismo influenciou intelectuais muçulmanos. Os mais destacados teólogos e filósofos do mundo islâmico na Idade Média foram. Mohammed al-Ghazali (1059-1111) Nascido na província oriental iraniana de Khorasan, estudou em colégios de Nixapur e Bagdá. Escreveu suas obras em árabe e algumas em Persa e exerceu significativa influência nas ciências religiosas muçulmanas. Tornou-se professor no colégio (madrasa) fundado pelo ministro chefe persa do sultão seljúcida em Bagdá. Após quatro anos na função, abandonou a atividade e se concentrou nos estudos e na busca por sabedoria. Viajou pelas principais cidades do mundo muçulmano como Damasco, Meca, Jerusalém e Alexandria. Em uma obra autobiográfica explicou comobuscou resposta para suas inquietações na Filosofia escolástica, na Filosofia racional e nas doutrinas xiitas, mas apenas encontrou consolo no Sufismo. Em 1106, voltou para sua terra e fundou uma espécie de loja sufi. Fez críticas ao formalismo religioso e às discussões sobre palavras ou sistemas de classificação. Defendeu um caminho que deu ênfase à experiência religiosa subjetiva, que seria reconhecidos pelo Sufismo. Jalal ad-Din Muhammad Rumi (1207-1273) Nasceu em Balkn, na Ásia Central e se estabeleceram em Konya, atual Turquia. Foi mais destacado poeta do conhecimento sufi. Agora, veja exemplos de poesias de Rumi. A casa de hóspedes ser humano é uma casa de hóspedes. Toda manhã uma nova chegada. A alegria, a depressão, a falta de sentido, como visitantes inesperados. Receba e entretenha a todosMesmo que seja uma multidão de dores Que violentamente varrem sua casa e tira seus móveis. Ainda assim trate seus hóspedes honradamente. Eles podem estar te limpando para um novo prazer. pensamento escuro, a vergonha, a malícia, encontre-os à porta rindo. Agradeça a quem vem, porque cada um foi enviado como um guardião do além. A lua de Tabriz Com a maré da manhã surgiu no céu uma lua. De lá desceu e fitou-me. Como falcão que arrebata pássaro, Essa lua agarrou-me e cruzou céu. Quando olhei para mim, já não me vi: Naquela lua meu corpo se tornara, Por graça, sutil como a alma. Viajei então em estado de alma. E nada mais vi senão a lua. Até que segredo do saber divino Me foi por inteiro revelado: As nove esferas celestes fundiram-se na luaE vaso do meu ser dissolveu-se inteiro no mar. Quando mar quebrou-se em ondas, A sabedoria divina lançou sua voz ao longe. Assim tudo ocorreu, assim tudo foi feito. Logo mar inundou-se de espumas, E cada gota de espuma Tomou forma e corpo. Ao receber chamado do mar, Cada corpo de espuma se desfez, E tornou-se espírito no oceano. Sem a majestade de Shams de Tabriz Não se poderia contemplar a lua. Nem tornar-se mar. Sufismo, embora bastante difundido no mundo islâmico, também sofreu algumas críticas de teólogos ou ulemás que acusavam os sufis de se mostrarem negligentes na correta observância da lei divina, enquanto buscavam atingir almejado encontro com Deus. Uma forma de transmissão do conhecimento sufi ocorria por meio de histórias e contos, na maioria das vezes, de cunho pedagógico e de autoconhecimento. Vejamos aqui uma história sufi!Isto também passará Certo dia, um poderoso Rei, governante de muitos domínios, sentiu-se confuso. Então chamou seus sábios e disse: "Embora não saiba motivo, algo me impele a procurar alguma coisa que possa equilibrar meu estado de espírito. Algo que me faça alegre quando eu me sentir infeliz e que ao mesmo tempo, me faça triste quando eu me sentir feliz". Os sábios, sem entender que significava aquele pedido, foram pedir conselho a um santo Sufi. Sufi, depois de escutar que os sábios lhe disseram, tirou um anel do dedo e entregou a eles. "Dêem este anel ao Rei. Existe uma mensagem oculta sob a pedra. Mas digam-lhe que há uma condição que deve ser cumprida. A mensagem não deve ser lida apenas por curiosidade, porque então ela perderá significado. A mensagem está debaixo da pedra, mas é necessário um momento certo na consciência do Rei para encontrá-la. Não é uma mensagem morta que ele simplesmente vai abrir e ler."Disse Sufi. "A condição que tem de ser preenchida é a seguinte: Quando tudo estiver perdido, quando momento for impossível de ser tolerado, quando a confusão for total, quando a agonia for perfeita, quando ele estiver absolutamente indefeso, e quando nem ele nem a mente dele tiver nada mais para fazer, só então deverá abrir a pedra do anel. A mensagem estará ali". Complementou Sufi. Rei recebeu anel e seguiu as instruções do Sufi, transmitida através dos sábios. Rei tinha muitos inimigos na corte. Certo dia houve uma rebelião e seu castelo foi tomado por seus inimigos. Não lhe restou alternativa a não ser fugir para salvar sua vida. Seus inimigos não teriam piedade dele. Seria certamente morto, se capturado. país estava perdido. inimigo estava vitorioso. Apareceram muitos momentos em que ele esteve no limiar de tirar a pedra e ler a mensagem, mas achava que ainda não era fim: "Ainda estou vivo. Mesmo que reino esteja perdido, posso recuperá-lo. reino pode serreconquistado". Os seus inimigos perseguiram. Ele podia ouvir os barulhos dos cascos dos cavalos ao tocar nas pedras e chegavam cada vez mais perto. Ele continuou fugindo. Os amigos que seguiam com ele foram ficando pelo caminho. Seu cavalo morreu de cansaço e ele passou a correr a pé. Os pés sangravam, e embora sem poder andar nem mais um passo, ele teve de correr sem parar. Ele tinha fome e inimigo se aproximava cada vez mais. Ele subiu por um caminho entre as pedras e chegou a um ponto sem saída. A trilha terminou. Não havia mais estrada à frente, apenas um abismo. inimigo estava cada vez mais perto. Não podia voltar, pois inimigo estava lá e também não podia saltar. abismo era grande. Ele poderia morrer na queda. Agora parecia não haver mais possibilidades, mas ele ainda esperava pela condição. Ele disse: "Ainda estou vivo, talvez inimigo vá noutra direção. Talvez, se pular neste abismo, eu não morra. A condição ainda não está E então, subitamente, sentiu que inimigoestava perto demais. Quando ele decidiu saltar, viu que dois leões famintos e ferozes chegaram na parte de baixo do abismo e olhavam para ele. Não restava mais tempo. inimigo estava muito perto e seus últimos momentos simplesmente haviam chegado. Rapidamente ele tirou anel, abriu-o e olhou por trás da pedra. Havia uma mensagem que dizia: "ISTO TAMBÉM De súbito, tudo se relaxou! "ISTO TAMBÉM PASSARÁ". Aconteceu naturalmente um grande silêncio. inimigo foi para outra direção se afastando cada vez mais. Ele então se sentou e descansou. Depois de dormir por um longo tempo, ele acordou e começou a voltar em direção ao castelo. À medida que retornava, ele ia tomando consciência de que seus amigos tinham feito uma contrarrevolução. Seus inimigos haviam sido derrotados. Chegando ao castelo, viu que era novamente Rei. Nos dias que se seguiram houve um grande júbilo e grandes celebrações. povo enlouqueceu, dançou nas ruas, iluminados pelasmuitas luzes de várias cores dos fogos de artifício. Rei estava se sentindo vitorioso e muito feliz. Seu coração batia tão rápido que ele pensava que poderia morrer de tanta felicidade. De repente, se lembrou do anel, abriu-o e olhou. Lá estava a frase: "ISTO TAMBÉM PASSARÁ". E ele relaxou.