Prévia do material em texto
1 CONJUNTO HABITACIONALCONJUNTO HABITACIONAL HELIÓPOLISHELIÓPOLIS HABITAÇÃO SOCIAL FAVELA DO HELIÓPOLIS Universidade São Judas Tadeu Arquitetura e Urbanismo Trabalho final de graduação Tamires Rocino Castino Orientador: Marcelo Galli Serra São Paulo, 2022 HABITAÇÃO SOCIAL FAVELA DO HELIÓPOLIS AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente aos meus pais, Cláudia e Renato, meu marido, Fábio, e a toda minha família, que nunca duvidaram que eu pudesse chegar até aqui, e me apoiaram incondicionalmente durante essa jornada. Aos amigos que estiveram comigo, e às colegas Ieda e Natalia, que além de colegas de turma e de trabalhos, se tornaram meu porto seguro e amigas que levarei para a vida toda. Ao orientador Marcelo Galli, por todo o ensinamento, apoio, paciência e suporte. Ao meu filho, Pedro, que é meu maior incentivo em dar sempre o melhor de mim. É tudo por ele, e para ele. RESUMO A questão habitacional brasileira é uma velha conhecida da população, que afeta principalmete os mais pobres, por meio de segregação urbana e déficit habitacional. O objetivo do trabalho é contextualizar essa questão, trazendo embasamento histórico, principais causas, políticas públicas adotadas ao longo dos anos, e como a população é afetada direta e indiretamente. Assim, propõe-se apresentar análises dos principais fatores que influenciaram no déficit habitacional brasileiro, a maneira que o poder público lida com a situação e as formas propostas de solucioná-la, por meio de construção de habitações de interesse social nem sempre pensadas da melhor forma para favorecer a população. Por fim, é apresentada uma proposta de habitação, projetada para atender às necessidades dos moradores de São Paulo, com foco na população da Favela do Heliópolis, visando equilibrar o adensamento existente. Observando parâmetros urbanísticos e sociais, e propostas já existentes, o objetivo é criar um modelo de habitação voltado também para a cidade. Palavras-chave: habitação social; déficit habitacional; políticas públicas RESUMO LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 - Mapa da Cidade de São Paulo . . . . . . . . . . . . . . 21 FIGURA 2 - Aproximação da Área de Intervenção . . . . . . . . 21 FIGURA 3 - Mapa de Densidade Demográfica . . . . . . . . . . . 22 FIGURA 4 - Mapa de Mobilidade Urbana . . . . . . . . . . . . . . . . 23 FIGURA 5 - Mapa de Equipamentos Públicos . . . . . . . . . . . . 24 FIGURA 6 - Mapa de Zoneamento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25 FIGURA 7 - Mapa de Terreno Escolhido. . . . . . . . . . . . . . . . . 26 FIGURA 8 - Ampliação terreno escolhido. . . . . . . . . . . . . . . . . 27 FIGURA 9 - Foto Jardim Edite . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28 FIGURA 10 - Distribuição do Partido . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29 FIGURA 11- Foto Complexo Residencial Las Américas . . . . 30 FIGURA 12 - Diagrama de Projeto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31 ÍNDICE INTRODUÇÃO 1. A QUESTÃO HABITACIONAL BRASILEIRA DO PROCESSO DE URBANIZAÇÃO AOS DIAS ATUAIS 1.1 Contexto histórico 1.1.1 Institutos de Aposentadoria e Pensão 1.1.2 Lei do Inquilinato 1.1.3 Fundação da Casa Popular 1.1.4 Alternativas Habitacionais 1.1.5 Sistema Financeiro de Habitação (SFH) / Banco Nacional de Habitação (BNH) 1.2 Políticas Pós BNH 1.2.1 Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social (SNHIS) 1.2.2 Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV) 1.2.3 Segregação Urbana e Déficit Habitacional 2. LOCAL 2.1 História da Região 2.2 Parâmetros Urbanísticos 2.2.1 Densidade Demográfica 2.2.2 Mobilidade Urbana 2.2.3 Equipamentos Públicos 2.2.4 Zoneamento 2.2.5 Terreno Escolhido 7 8 8 10 11 12 13 14 16 16 17 18 20 20 22 22 23 24 25 26 3. ESTUDO DE CASO 3.1 Conjunto Habitacional do Jardim Edite 28 3.2 Complexo Residencial Las Américas 30 4.HABITAÇÃO SOCIAL HELIÓPOLIS 32 4.1 Implantação, 1º pavimento, 33 fluxograma e detalhes 4.2 2º pavimento, 3º pavimento, 34 4º pavimento e corte AA 4.3 5º pavimento, 6º pavimento 35 corte BB e corte CC 4.4 7º pavimento, 8º pavimento ampliação circulação e unidades 36 5. BIBLIOGRAFIA 37 7 INTRODUÇÃO O processo brasileiro de urbanização deu origem ao problema habitacional que enfrentamos até os dias de hoje. A industrialização causou um intenso processo de migração campo-cidade, que intensificou o déficit habitacional e a segregação urbana, já que os migrantes e a população mais pobre foi levada a ocupar a periferia das cidades. O Estado se mantinha alheio às questões habitacionais, até que houvesse uma crescente conscientização de que o poder público deveria intervir, já que a iniciativa privada não supriria a demanda criada. A partir desse momento, diversas políticas públicas foram criadas, na tentativa de solucionar o problema. Porém, sempre pairou o interesse do mercado imobiliário sobre as políticas, dificultando o alcance desejado. Ainda assim, foram criados alguns programas habitacionais importantes, que contribuíram significativamente na construção de habitações de interesse social e na propagação da discussão sobre o déficit habitacional brasileiro. 8 1. A QUESTÃO HABITACIONAL BRASILEIRA DO PROCESSO DE URBANIZAÇÃO AOS DIAS ATUAIS 1.1 Contexto Histórico De acordo com Santos (1993, pág. 17) “durante séculos o Brasil como um todo é um país agrário [...] no começo, a ‘cidade’ era bem mais uma emanação do poder longínquo, uma vontade de marcar presença num país distante.”. Podemos observar que é a partir do século XVIII que a urbanização se desenvolve, e segundo R. Bastide (1978, pág. 56) “a casa da cidade torna-se a residência mais importante do fazendeiro ou do senhor de engenho, que só vai à sua propriedade rural no momento do corte e da moenda da cana” (apud Santos, 1993, pág. 19). No século XIX a urbanização amadurece, e somente no século XX assume características que conhecemos hoje (Santos, 1993). O índice da urbanização brasileira caminhou a curtos passos entre o fim do período colonial até o final do século XIX, porém em apenas 20 anos, entre 1920 e 1940, a taxa passou de 10,7% para 31,24%, triplicando o seu valor. (Santos, 1993, pág. 22). Neste período, o Brasil passa por uma transformação econômica, onde a população ocupada em serviços cresce rapidamente. A participação dos setores primário e secundário diminui, enquanto a do setor terciário aumenta. Este contexto está diretamente ligado à industrialização, que causou um intenso processo de migração campo-cidade, atraindo uma grande massa de trabalhadores e, por outro lado, a mecanização do campo influenciou na diminuição da mão de obra, que, aliada a ausência de políticas públicas voltadas para o campo, forçou a saída das pessoas para as cidades, buscando melhor qualidade de vida. (Monteiro e Veras, 2017) As cidades não comportavam o crescimento acelerado, e esse processo escancarou a desigualdade social: as pessoas recém chegadas e a população mais pobre foi inserida nas periferias, por meio de habitações irregulares, autoconstrução ou cortiços. Segundo Maricato (2000, pág. 22), As reformas urbanas, realizadas em diversas cidades brasileiras entre o final do século XIX e início do século XX, lançaram as bases de um urbanismo moderno ‘à moda’ da periferia. Eram feitas obras de saneamento básico e embelezamento paisagístico, implantavam-se as bases legais para um mercado imobiliário de corte capitalista, ao mesmo tempo em que a população excluída desse processo era expulsa para os morros e as franjas da cidade. 9 A elite passou a alterar as moradias dos trabalhadores de forma higienista, expulsando as classes pobres dos centros, com a justificativa de controlesanitário. O objetivo, porém, era o embelezamento das cidades, a fim de atrair investidores estrangeiros. Essa política urbana se estendeu até a República Velha, onde, além dos fatores citados anteriormente, os centros das cidades passaram a abrigar comércios e serviços, tornando os terrenos próximos a essa região inacessíveis para a população de baixa renda. (Rubin e Bolfe, 2014) Para Bonduki (1994, pág. 713), É neste contexto que se inseria a intensa produção habitacional realizada pela iniciativa privada para locação. Em São Paulo, em 1920, apenas 19% dos prédios eram habitados pelos seus proprietários, predominando largamente o aluguel como forma básica de acesso à moradia (Bonduki 1982). Considerando-se que boa parte dos prédios ocupados pelos trabalhadores de baixa renda eram cortiços e, portanto, ocupados por mais de uma família, conclui-se que quase 90% da população da cidade, incluindo quase a totalidade dos trabalhadores e da classe média, era inquilina, inexistindo qualquer mecanismo de financiamento para aquisição da casa própria Neste período havia uma regra geral: o Estado não assumia a responsabilidade de prover moradias, nem de regulamentar os aluguéis e seus preços. A conclusão era que se o poder público investisse na construção de casas para os os trabalhadores, desestimularia a produção privada. (Bonduki, 1994) Bonduki (1994, pág. 715) afirma que “‘o governo não deve produzir casas para os operários mas estimular os particulares a investirem’ é a lógica que orienta, de modo geral, o Estado liberal da República Velha.” Embasada nesta lógica, as vilas operárias surgiram como solução ideal. Os próprios industriais construíam casas para serem alugadas a baixo custo a seus operários, instalando-os nas imediações das indústrias e ainda podendo manter um controle político e ideológico. As vilas operárias eram divulgadas como iniciativa a ser estimulada pois tirava a população da insalubridade dos cortiços, garantindo moradia digna. Villaça (1986, pág. 17) diz que “para a classe dominante, evidentemente, era mais fácil conviver com as vilas operárias do que com os cortiços.” Porém, devemos lembrar que por trás das ditas melhorias, está o interesse direto dos industriais em manter um controle direto sobre seus operários, visto o recorrente medo de revolta, e o interesse do Estado em se manter sem intervir na questão habitacional brasileira. O modelo melhor aplicado, que garantia moradia e a tutela da indústria sobre o operário foi a Vila Maria Zélia, em São Paulo, que era localizada ao lado da fábrica e mantinha uma série de serviços (escola, igreja, etc.) e garantia um 10 controle absoluto sobre os operários e suas famílias, já que o tempo livre era mantido também dentro da vila. (Bonduki, 1994) O modelo da Vila Maria Zélia, porém, não foi seguido. A predominância era de industriais que apenas buscavam rentabilizar seus capitais por meio de aluguéis, oferecendo moradias apenas para manter apenas trabalhadores indispensáveis próximos a elas. (Bonduki, 1994) Já a partir de 1930 na Era Vargas (1930-1945), a questão habitacional começou a se fazer mais presente nos debates do poder público, porém não podemos afirmar que esse governo e os que o seguiram formularam uma política habitacional sólida e coerente. Em decorrência da crescente conscientização de que a iniciativa privada não supriria a necessidade de moradia que se instalava e que o poder público deveria intervir, o governo começa a demonstrar sensibilidade diante de questões de grande impacto na vida dos trabalhadores, como o preço do aluguel e construção de conjuntos habitacionais. Esse interesse nas questões sociais é uma característica marcante dos governos populistas. (Bonduki, 1994) Bonduki (1994, pág 719) diz que O resultado é a ausência de uma política centralizada e o surgimento de uma colcha de retalhos de intervenções. Isto, no entanto, não obscurece a importância da ação governamental neste período, pois ela representou uma ação concreta que deu início à ideia da habitação social no Brasil. 1.1.1 Institutos de Aposentadoria e Pensão As primeiras instituições públicas a investirem efetivamente na questão habitacional foram os Institutos de Aposentadoria e Pensão (IAPS), porém em função secundária, já que a primária era proporcionar benefícios previdenciários e assistência médica aos seus associados. Entre 1933 e 1938 foram criadas seis IAPS, regulamentadas por leis específicas para cada uma. Em 1937, os IAPS começam a atuar no campo habitacional e puderam investir até 50% de suas reservas para o financiamento habitacional. (Rubin e Bolfe, 2014) Sobre os IAPS, Bonduki (1994, pág 725) afirma que Efetivamente, a criação das carteiras prediais dos Institutos de Aposentadoria e Pensões representou um mecanismo através do qual os imensos recursos que afluíam aos cofres dos IAPs e que não tinham destinação imediata (estes recursos proviam do depósito compulsório de empresas e trabalhadores para o pagamento futuro de aposentadorias e pensões) podiam 11 financiar a construção civil, não só na habitação social (Planos A e B), mas também no Plano C, que financiava a incorporação imobiliária para os setores médios Porém, a baixa rentabilidade dos investimentos em habitação social nos IAPS causa um debate sobre a continuidade desses investimentos, já que poderia colocar em risco as reservas necessárias para o pagamento de aposentadorias. Esse debate deu início a uma significativa redução da produção de habitação social dos institutos, que optaram por investir quase exclusivamente no financiamento da produção habitacional para a renda média (Bonduki, 1994). 1.1.2 Lei do Inquilinato Uma das intervenções diretas mais impactantes do governo populista na questão habitacional foi a lei do inquilinato, decretada em 1942, que congelou os preços dos aluguéis. Para Bonduki (1994, pág. 720) O congelamento dos aluguéis inclui-se entre aquelas medidas aplicadas pelo Estado populista das quais fica difícil saber se fazem parte da política econômica ou se são apenas uma decisão útil para ampliar as bases de apoio do poder. Na verdade, os dois objetivos estavam presentes na estratégia governamental. A justificativa do governo para tal medida era que eram abusivos e exagerados os aumentos dos aluguéis. Porém, devemos observar que a partir de 1938, os índices de custo de vida e inflação subiram exageradamente, mas a elevação do custo da moradia foi o menor entre vários outros itens de consumo. Se até então o aluguel era uma fonte de investimento muito rentável, com a lei do inquilinato, passa a ser um investimento desvantajoso. Num período de inflação crescente e preços de aluguéis congelados, a iniciativa privada diminui drasticamente o investimento em construção de casas de aluguel. A escassez de oferta causa uma elevação significativa nos preços de novos aluguéis. A consequência dessa série de acontecimentos é uma grande crise habitacional, com um epicentro muito marcante: o despejo. Os proprietários, sem mecanismos legais para aumento de preços, passaram a despejar os inquilinos para, em novo aluguel, ter um lucro maior. As pessoas despejadas, por sua vez, não tinham renda suficiente para arcar com o custo elevado dos novos aluguéis. Isso levou os trabalhadores a buscarem loteamentos na periferia e a produzirem suas próprias habitações. (Bonduki, 1994) 12 1.1.3 Fundação da Casa Popular Em 1946, foi instituído o primeiro órgão de âmbito nacional que tinha objetivo de centralizar a política habitacional do país e prover habitação à população de baixa renda: a Fundação da Casa Popular. (Azevedo e Andrade, 2011) Villaça (1986, pág. 25) diz que A Fundação da Casa Popular foi o primeiro órgão em escala nacional criado com a finalidade de oferecer habitação popular ao povo em geral. Propunha-se a financiar não apenas casas, mas também infraestrutura urbana,produção de materiais de construção, estudos e pesquisas etc. Tais finalidades parecem indicar que houve avanços na compreensão de que o problema da habitação não se limita ao edifício casa, mas que houve pouco progresso na compreensão da faceta econômica e financeira da questão Para Bonduki (1994, pág. 717), “ a proposta da Fundação da Casa Popular revelava objetivos surpreendentemente amplos, demonstrando até mesmo certa megalomania”. Na prática, o que aconteceu foi um demonstrativo de que as ações dos governos da época eram desarticulados e não agiam coordenadamente para enfrentar a questão habitacional brasileira de forma efetiva. Isso somado ao fato de que a Fundação tinha carência de recursos financeiros, a levou ao fracasso. Ainda assim, Bonduki (1994, pág. 718), defende que O fracasso da Fundação da Casa Popular como órgão central e coordenador de uma emergente «política habitacional», no entanto, não obscurece o fato de que sua criação, como o primeiro órgão nacional destinado exclusivamente à provisão de moradias para a população de baixa renda, representou o reconhecimento de que o Estado brasileiro tinha obrigação de enfrentar, através de uma intervenção direta, o grave problema da falta de moradias. 1.1.4 Alternativas Habitacionais A grande crise habitacional, causada pela série de acontecimentos trazidos pelas políticas habitacionais - ou falta delas -, forçou a população a buscar por alternativas viáveis para morar. Devido ao aumento excessivo nos preços de aluguéis após o decreto da Lei do Inquilinato e a manobra de despejo que os proprietários começaram a fazer, as pessoas despejadas e os migrantes recém chegados as capitais tiveram que procurar outras soluções: favelas e casas próprias auto-construídas em loteamentos periféricos e carentes de infra-estrutura urbana. 13 Bonduki (1994, pág. 729) afirma que As primeiras favelas de São Paulo e a intensificação do crescimento das favelas no Rio de Janeiro ocorrem exatamente nesta conjuntura nos primeiros anos da década de 40, ocupando terrenos públicos e abrigando famílias despejadas ou migrantes recém-chegados Neste contexto, o consenso era que a casa própria de baixo custo seria a solução ideal, pois não implicaria em elevações salariais, e traria estabilidade ao sistema político e econômico. A grande questão era tornar viável o acesso aos lotes próprios, uma vez que os trabalhadores seriam submetidos a grandes sacrifícios para construírem suas casas. (Bonduki, 1994) A partir de 1938, interligado a um Decreto que regulamentou a compra de terrenos a prestações, criou-se um mercado de terrenos destinados aos setores populares. Tomando por exemplo São Paulo, que possuía imensa capacidade de ampliação, foi possível a compra de lotes a baixas prestações pelos trabalhadores, já que eram lotes distantes e carentes de infra-estrutura. Para Bonduki (1994, pág. 730) Os problemas desta «solução habitacional», principalmente a carência de transporte e de infra- estrutura, assim como as dificuldades inerentes ao processo construtivo, acabaram por não se constituir em obstáculos intransponíveis à sua expansão, devido à absoluta ausência de alternativas, que provocava uma aspiração crescente pela casa própria, só factível mediante tais sacrifícios. Assim, entre 1940 e 1950, cerca de cem mil novas casas próprias são edificadas em São Paulo, elevando de 25% para 37,5% a sua participação no total de domicílios na cidade. O poder público pouco interveio em relação à expansão periférica. Apenas se limitou a garantir o acesso aos lotes e não exigiu qualquer parâmetro urbanístico ou arquitetônico para as ocupações, com a justificativa de que essa expansão -desregulada- era a única forma de superar a crise habitacional. (Bonduki, 1994) 1.1.5 Sistema Financeiro de Habitação (SFH) / Banco Nacional de Habitação (BNH) Entre as décadas de 1940 e 1960, a política habitacional consistia apenas na oferta de crédito imobiliário pelas Caixas Econômicas e pelos IAPS. Em 1964, logo após o Golpe Militar, foi criado o Sistema Financeiro de Habitação (SFH) e o Banco Nacional de Habitação (BNH). 14 Para Villaça (1986, pág. 26) “A criação do BNH ocorreu cinco meses apenas, após o golpe de 64. É um típico produto da ditadura que então se instalou, dadas as características econômicas, políticas e ideológicas de sua atuação” O SFH juntamente com o BNH tinha o objetivo de “estimular a construção de habitações de interesse social e o financiamento da aquisição da casa própria, especialmente pelas classes da população de menor renda” (Lei nº 4.380/64 de 21 de agosto de 1964) (Botega, 2007) A criação do SFH e BNH, porém, tem origem na intenção de demonstrar interesse pelas pautas sociais, uma vez que o novo governo ditatorial temia a suposta facilidade com que as populações marginalizadas tinham sido mobilizadas pela esquerda por conta das recorrentes reivindicações por habitação e pelo agravamento das condições de vida urbana nos últimos anos. (Azevedo e Andrade, 2011) Essa intenção fica clara na carta enviada por Sandra Cavalcanti ao presidente da República, encaminhando a proposta do plano, onde diz que “Aqui vai o trabalho sobre o qual estivemos conversando. Estava destinado à Campanha Presidencial de Carlos, mas nós achamos que a Revolução vai necessitar de agir vigorosamente junto às massas. Elas estão órfãs e magoadas, de modo que vamos ter de nos esforçar para devolver a elas uma certa alegria. Penso que a solução dos problemas de moradia, pelo menos nos grandes centros, atuará de forma amenizadora e balsâmica sobre suas feridas cívicas.” Segundo Azevedo e Andrade (2011, pág 43) Sob três aspectos, o modelo BNH representa uma inovação na política habitacional. Primeiro, trata-se de um banco, ao contrário das soluções anteriores, baseadas na Fundação da Casa Popular e nas caixas de pecúlio e órgãos previdenciários. Segundo, os financiamentos concedidos preveem um mecanismo de compensação inflacionária – a correção monetária – que reajusta automaticamente os débitos e prestações por índices correspondentes às taxas da inflação. Terceiro, constitui um sistema em que se busca articular o setor público (na função de financiador principal) com o setor privado, a quem compete, em última análise, a execução da política de habitação Em 1967, o BNH ganha mais importância, pois recebe a gestão do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e com a implantação do Sistema Brasileiro de Poupança e 15 Empréstimos. Essas mudanças ampliaram o capital do banco, e o tornaram uma das principais instituições financeiras do país e a maior instituição mundial voltada para a questão habitacional. (Botega, 2007) Em tese, o BNH teria condições de impulsionar a superação do déficit habitacional brasileiro, mas o que vimos na prática foi uma grande produção habitacional: financiou 4,8 milhões de habitações (cerca de 25% das moradias construídas entre 1964 e 1986), porém a população de baixa renda - que era a mais necessitada de ser beneficiada pelo programa - representou apenas 20% dos financiamentos. A partir da crise econômica mundial que afetou o Brasil principalmente nos primeiros anos da década de 1980, o país passou por uma grave alta nas taxas de inflação, recessão e desemprego, que diminuiu drasticamente o poder de compra da população. Essa crise causou um aumento significativo nas taxas de inadimplência e colaborou para o enfraquecimento do SFH/BNH, juntamente com os constantes casos de corrupção verificados. Após algumas tentativas de solucionar o problema, em 1986 foi decretado o fechamento do Banco Nacional de Habitação, que foi incorporado pela Caixa Econômica Federal. (Botega, 2007) Botega (2007, pág. 70) diz que com o fim do BNH, abria-se uma nova etapa para a política urbana e habitacional brasileira caracterizada por uma forte confusão institucional provocadapor constantes reformulações nos órgãos responsáveis pelas políticas habitacionais Essa confusão gerou o fortalecimento de programas alternativos ao SFH, como o Programa Nacional de Mutirões Comunitários, voltado para famílias com renda inferior a três salários mínimos. O programa propunha financiar 550 mil unidades habitacionais, mas com a ausência de política clara, acabou fracassando. Aliado a isso, tivemos o forte desmanche na área social do SFH e o enfraquecimento das COHAB’s que eram os principais responsáveis pelas demandas do SFH. A partir de 1990, no governo Collor, a política brasileira começou a tomar o rumo do neoliberalismo, agravando a crise habitacional. Os principais programas de habitação passaram para o controle do Ministério da Habitação Social, e novamente, esses programas se direcionaram ao capital imobiliário privado. Botega (2007, pág. 71) afirma que Assim, enquanto o governo Collor começava a era neoliberal, o Brasil chegava há um número de 60 milhões de cidadãos de rua, em uma realidade no qual 55,2% das famílias que se encontravam em déficit habitacional recebiam até dois salários mínimos. 16 1.2 Políticas Pós BNH Em 1988, foi regulamentado, na Constituição Federal, o Estatuto da Cidade, que estabeleceu diretrizes gerais para a política urbana e tem como um de seus objetivos reverter a segregação espacial. (Ferreira, Calmon, Fernandes, Araújo, 2019) A partir de 1995, no governo de Fernando Henrique Cardoso, ocorreu a retomada dos financiamentos de habitação e saneamento com base nos recursos do FGTS e foram adotadas flexibilidade e descentralização como diretrizes para a política de habitação. Neste contexto, foi apresentada a Política Nacional de Habitação, em 1996, que continham programas como o Pró Moradia, voltado à urbanização de áreas precárias, e em 2001, o Programa de Arrendamento Residencial para a produção de unidades para arrendamento utilizando recursos do FGTS e de origem fiscal. O Pró Moradia traria maior flexibilidade para os municípios e estados, que definiriam as alternativas adotadas e quais programas e projetos seriam financiados. A partir de 2003, no governo Lula, a política habitacional passou por um novo arranjo. (Rubin e Bolfe, 2014) Sobre esse novo arranjo, Rubin e Bolfe (2014, pág. 210) afirmam que “seu principal foco de atuação é a inclusão dos setores excluídos do direito à cidade, já que a habitação e o acesso aos serviços básicos são fundamentais para a cidadania”. 1.2.1 Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social (SNHIS) Em 2005, foi aprovado o projeto de lei que dava origem ao Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social e o Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social. Porém, devemos observar que esse foi um processo que tramitou por 13 anos no Congresso Nacional. Sua origem foi um projeto de lei de iniciativa popular apresentado ao Congresso Nacional em 1992, com mais de um milhão de assinaturas. (Ferreira, Calmon, Fernandes, Araújo, 2019) Segundo Ferreira, Calmon, Fernandes e Araujo (2019, pág. 06) Esse projeto de lei de iniciativa popular foi elaborado com o auxílio do Fórum Nacional de Reforma Urbana, com o objetivo de criar um fundo público para o atendimento das demandas por moradia popular. Essa iniciativa surgiu na era Collor como uma ação propositiva de entidades da sociedade civil organizada. Entre os principais grupos de atores envolvidos é possível citar a Confederação Nacional das Associações de Moradores, a Central de Movimentos Populares, 17 a União Nacional por Moradia Popular e o Movimento Nacional de Luta por Moradia. A lei previa um processo participativo na elaboração do Plano Nacional de Habitação, além da constituição de fundos articulados nos diferentes níveis da federação. O SNHIS tinha por um de seus objetivos equilibrar as ações do Estado, que se encarregava das ações de habitação de interesse social, e do mercado, que se encarregava das ações de habitação mercadológica para atender a demanda habitacional da classe média. Para alcançar esse equilíbrio, foram propostos dois subsistemas que separam o acesso à habitação da população que necessita de subsídio daquela que não necessita. (Ferreira, Calmon, Fernandes, Araújo, 2019) Sobre esses subsistemas, Ferreira, Calmon, Fernandes e Araujo (2019, pág. 06), afirmam que A separação repercute nas fontes de financiamento destinadas a cada subsistema. Para a sustentação dos subsídios necessários ao subsistema de habitação de interesse social foram reservados o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e o FNHIS, além de recursos provenientes do Fundo de Arrendamento Residencial (FAR), do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e do Fundo de Desenvolvimento Social (FDS), ou seja, recursos públicos ou geridos pelo poder público. Já o subsistema de mercado se sustenta por meio da captação de recursos disponíveis no mercado de investimento, seja por meio das cadernetas de poupança, seja por meio de outros instrumentos, como os títulos securitizados lastreados pelos Certificados de Recebíveis Imobiliários, regulados pelo Sistema Financeiro Imobiliário. O SNHIS propunha estabelecer uma política de longo prazo, integrando diversos níveis de governo, o fortalecimento do papel dos Estados e Municípios, e a participação da sociedade. Apesar de todo o planejamento, as mudanças nas conjunturas políticas forçaram o governo a abdicar da proposta de desenvolvimento urbano integrado, e o SNHIS foi continuamente enfraquecido, segundo Ferreira, Calmon, Fernandes e Araujo (2019, pág. 07), “por meio da limitada influência dos movimentos sociais na discussão e deliberação da aplicação dos recursos do FNHIS” 1.2.2 Programa Minha, Casa Minha vida (PMCMV) O programa Minha Casa, Minha Vida foi instituído em 2009, quando o governo optou por políticas com resultados a curto prazo referente ao aquecimento da economia, como 18 resposta à crise econômica mundial de 2008 e visando as eleições de 2010. O PMCMV foi realizado em parceria com o setor imobiliário e o setor da construção civil, e tinha por objetivo ampliar o mercado habitacional para atendimento às famílias com renda de até dez salários mínimos. Assim, já no lançamento, o governo anunciou a construção de um milhão de casas, com um investimento de R$34 bilhões. (Ferreira, Calmon, Fernandes, Araújo, 2019) Sobre o programa, Ferreira, Calmon, Fernandes e Araujo (2019, pág. 07), afirmam que Estabelecendo um patamar de subsídio direto, proporcional à renda das famílias, esse programa buscou impactar a economia por meio de efeitos multiplicadores gerados pela indústria da construção. Além dos subsídios, buscava também aumentar o volume de crédito para aquisição e produção de moradias, ao mesmo tempo em que reduzia os juros com a criação do Fundo Garantidor da Habitação O PMCMV promove uma política com apelo social, e institucionalizou e centralizou as políticas habitacionais, antes dispersas em vários órgãos. Segundo Ferreira, Calmon, Fernandes e Araujo (2019, pág. 08), O Minha Casa, Minha Vida significou a criação da marca de um programa que abarca uma série de subprogramas, modalidades, fundos, linhas de financiamento, tipologias, agentes financeiros, agentes operadores e formas de acesso ao produto da casa própria. Nas duas fases do programa, o total de habitações construídas foi de 3,4 milhões em cinco anos (2009-2014), porém não foi o suficiente para conter as taxas de déficit habitacional da época, que era superior a 6,048 milhões de unidades, segundo o Relatório de Déficit Habitacional no Brasil 2013-2014 (Fundação João Pinheiro, 2016) 1.2.3 Segregação Urbana e Déficit Habitacional Durante toda essa pesquisa, pudemos observar que a segregação urbana e o déficit habitacional são questões presentes no Brasil desde o período de urbanização. A tendência das cidades foi fazer uma separação regional por renda:os mais ricos no centro e os mais pobres nas periferias, seja por meio da legislação urbanística, onde os centros foram privilegiados concentrando serviços, ou do mercado imobiliário, que tornou o preço das terras centrais inacessíveis à classes mais baixas. (Villaça, 2011) As políticas públicas adotadas propunham resolver a questão do déficit habitacional, porém agravavam a 19 segregação urbana, visto que as unidades construídas eram em sua maioria afastadas das regiões centrais para beneficiar o lucro das construtoras, visto que o preço desses terrenos é mais baixo. Tomando por exemplo o PMCMV, podemos observar que o volume de concessões de subsídios foi significativo para o atendimento às necessidades habitacionais, porém a incumbência da elaboração de projetos e escolhas de terrenos ficou com as construtoras privadas, o que causou um negligenciamento ao enfrentamento do problema da segregação. As construtoras procuram terrenos com valores mais baixos possíveis, para viabilizar a rentabilidade das construções, e o resultado são grandes conjuntos habitacionais nas periferias, onde o acesso à infra-estrutura urbana é prejudicado. (Rolnik,2015) De acordo com o Relatório de Déficit Habitacional no Brasil - 2016-2019, último relatório divulgado, o déficit habitacional em 2019 é de 5.876.699 unidades, e São Paulo é o estado com o maior déficit absoluto. 20 ‘2. O LOCAL 2.1 História da Região O Complexo Heliópolis está localizado na Subprefeitura do Ipiranga, zona sudeste de São Paulo, e ocupa uma área de cerca de 1 milhão de metros quadrados. O início da ocupação de Heliópolis foi em 1971, quando moradores foram removidos da favela Vila Prudente e Vergueiro, por causa de obras de um viaduto, e realocados em um alojamento provisório no terreno, que ainda na década de 1970, foi parcelado e teve lotes comercializados, expandindo a favela. Sua área, que era de cerca de 3 milhões de m² na época, foi comprada pelo IAPI em 1942, para construir moradias para os associados do instituto. Passado algum tempo, a área passou a ser propriedade do Instituto de Administração da Previdência e Assistência Social (IAPAS), que construiu em 1969 o Hospital Heliópolis e o Posto de Assistência Médica. Parte do terreno foi vendido para a Petrobrás e SABESP, para construção da Estação de Tratamento de Esgotos do ABC e em 1980, outra parte foi comprada pela Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (COHAB-SP). Atualmente, a região conta com equipamentos institucionais (creches, escolas, centros educacionais e de saúde) e está servida de transporte público, com vias servidas por ônibus e pela proximidade com a estação Sacomã do metrô. (Castilho, 2013) 21 CIDADE DE SÃO PAULO HDROGRAFIA ÁREA DE INTERVENÇÃO Fig1 -Mapa Cidade de São Paulo Fonte: Elaborado pela Autora (2022) Fig2 - Aproximação da área de intervenção Fonte: Elaborado pela Autora (2022) 22 2.2 Parâmetros Urbanísticos 2.2.1 Densidade Demográfica Analisando o mapa ao lado, podemos perceber que mesmo com as construções de algumas habitações de interesse social para os moradores da Favela do Heliópolis, a sua densidade demográfica continua alta. Essa análise reforça a necessidade de construção de habitações em mais quantidade, uma vez que atualmente grande parte da população da região vive em habitações improvisadas ou irregulares. Fig3 -Mapa de Densidade Demográfica Fonte: Geosampa - adaptado pela Autora (2022) 23 2.2.2 Mobilidade Urbana A Favela do Heliópolis está em uma posição privilegiada em relação a transporte coletivo. Os moradores contam com a estação Sacomã do metrô, que fica a poucos metros da favela, além de também ter um terminal de ônibus com linhas para diversas regiões de São Paulo. Além disso, a região conta com diversas linhas de ônibus passando por suas vias mais importantes, que também contam com ciclovias ou ciclofaixas. Apesar de contar com essas opções, os moradores ainda sofrem com a super lotação dos transportes. Por se tratar de uma área muito densa, a demanda por transporte é alta, e nem sempre é atendida. Fig4 -Mapa de Mobilidade Urbana Fonte: Geosampa - adaptado pela Autora (2022) 24 2.2.3 Equipamentos Públicos A oferta de equipamentos públicos voltados para saúde e educação é relativamente grande. Nesse contexto, podemos destacar o Hospital Heliópolis e a ETEC de Heliópolis. Em relação à cultura, podemos destacar o Cine Favela, porém a oferta cultural pode ser considerada baixa. Podemos observar que a maior demanda do local é voltado ao esporte. Mesmo tendo algumas quadras pela região, não existe um equipamento que contemple diversos esportes, ou que possa inserir o esporte na vida das crianças e jovens da favela. Fig5 -Mapa de Equipamentos Públicos Fonte: Geosampa - adaptado pela Autora (2022) 25 2.2.3 Zoneamento A maior parte da Favela do heliópolis está contemplada por ZEIS (Zonas Especiais de interesse Social), que, de acordo com a Prefeitura de São Paulo, são áreas destinadas à moradia digna para a polulação de baixa renda por meio de intervenções urbanísticas, e também com a construção de Habitações de Interesse Social. Fig6 -Mapa de Zoneamento Fonte: Geosampa - adaptado pela Autora (2022) 26 2.2.4 Terreno Escolhido O terreno escolhido está localizado ao lado da Favela do Heliópolis, mais precisamente na R. Comandante Taylor x R. Visconde de Camamu. Ele conta com uma área total de aproximadamente 19mil metros quadrados, e está contemplado na ZEIS-2 no zoneamento de São Paulo. Fig7 -Mapa do Terreno Escolhido Fonte: Elaborado pela Autora (2022) 27 Fig8 -Mapa do Terreno Escolhido Fonte: Elaborado pela Autora (2022) 28 3. ESTUDOS DE CASO3. ESTUDOS DE CASO 3.1 Conjunto Habitacional do Jardim Edite Fig 9: Foto Jardim Edite Fonte: Nelson Kon para Archdaily 29 Ficha técnica Aquitetos: H+F Arquitetos, MMBB Arquitetos Área: 25714 m² Ano: 2010 Local: São Paulo, SP De acordo com a descrição enviada pela equipe de projeto ao Archdaily O conjunto Habitacional do Jardim Edite foi projetado para ocupar o lugar da favela de mesmo nome que se situava nesse que é um dos pontos mais significativos para o recente crescimento do setor financeiro e de serviços de São Paulo: o cruzamento das avenidas Engenheiro Luís Carlos Berrini e Jornalista Roberto Marinho, junto à ponte estaiada, novo cartão postal da cidade. Para garantir a integração do conjunto de habitação social à sua rica vizinhança, o projeto articulou a verticalização do programa de moradia a um embasamento constituído por três equipamentos públicos – Restaurante Escola, Unidade Básica de Saúde e Creche O projeto possui uma área total construída de 25.500 m², com 252 Unidades Habitacionais de 50 m². O Restaurante Escola tem 850 m², a Unidade Básica de Saúde, 1300 m², e a Creche, 1400 m² Fig10- Distribuição do partido Fonte: H+F Arquitetos, MMBB Arquitetos 30 3.2 Complexo Residencial Las Américas Fig11: Foto Complexo Residencial Las Américas Fonte: Iwaan Baan para Archdaily 31 Ficha técnica Aquitetos: SO-IL Área: 3000 m² Ano: 2021 Local: León, México De acordo com a descrição enviada pela equipe de projeto ao Archdaily Las Americas é um protótipo para o desenvolvimento de moradias verticais na cidade de León, no México. O projeto habitacional visa compensar a expansão descontrolada da cidade, servindo como um catalisador para a regeneração urbana e melhoria da qualidade de vida em comunidades de baixa renda. Nosso projeto cria 60 unidades de condomínio como um bloco habitacional vertical no centro da cidade. O projeto maximiza área edificável do terreno e gera dois pátios internos que fornecem ventilação cruzada para cada unidade, com estacionamento e uma base comercial. Em ressonância à sensação de privacidade da casa tradicional, não há duas unidades voltadas uma para a outra. As unidades são dispostas em um corredor de acesso unilateral, que se volta para o pátio e proporcionavistas da vizinhança, promovendo a sensação de propriedade privada. Fig12 - Diiagrama de projeto Fonte: SO-IL HABITAÇÃO SOCIAL - HELIÓPOLIS UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU │ 2022.2 │ TAMIRES ROCINO CASTINO │ ORIENTADOR: MARCELO GALLI │ 32 O PROCESSO OO processo brasileiro de urbanização deu origem ao problema habitacional que enfrentamos até os dias de hoje. A industrialização causou um intenso processo de migração campo-cidade, que intensificou o déficit habitacional e a segregação urbana, já que os migrantes e a população mais pobre foi levada a ocupar a periferia das cidades. OO Estado se mantinha alheio às questões habitacionais, até que houvesse uma crescente conscientização de que o poder público deveria intervir, já que a iniciativa privada não supriria a demanda criada. A partir desse momento, diversas políticas públicas foram criadas, na tentativa de solucionar o problema. OO objetivo do trabalho é contextualizar essa questão, trazendo embasamento histórico, principais causas, políticas públicas adotadas ao longo dos anos, e como a população é afetada direta e indiretamente. Assim, propõe-se apresentar análises dos principais fatores que influenciaram no déficit habitacional brasileiro, a maneira que o poder público lida com a situação e as formasformas propostas de solucioná-la, por meio de construção de habitações de interesse social nem sempre pensadas da melhor forma para favorecer a população. Por fim, é apresentada uma proposta de habitação, projetada para atender às necessidades dos moradores de São Paulo, com foco na população da Favela do Heliópolis, visando equilibrar o adensamento existente. AA região conta com equipamentos institucionais (creches, escolas, centros educacionais e de saúde) e está servida de transporte público, com vias servidas por ônibus e pela proximidade com a estação Sacomã do metrô. ObservandoObservando parâmetros urbanísticos e sociais, e propostas já existentes, o objetivo é criar um modelo de habitação voltado também para a cidade. A PROPOSTA O projeto proposto tem como conceito a distribuição de unidades residenciais de forma linear e pouco verticalizado, ocupando grande parte da projeção do térreo, porém deixando o mesmo livre. Trata-seTrata-se de uma edificação multifamiliar que conta com 347 unidades, variando entre 70m² e 35m², a fim de atender diferentes necessidades de moradia. O térreo da edificação é em sua maior parte sustentado por pilotis, deixando o terreno livre para circulação. As áreas delimitadas abrigam a circulação vertical da habitação, e também comércio aberto para a cidade. OO acesso ao edifício poderá ser feito pelo nível 0,00 por meio de escadas ou elevadores, ou pelo nível 8,00 da Rua Comandante Taylor (também contemplada por comércios), através de uma passarela metálica que a interliga com o segundo pavimento. Toda sua circulação interna para acesso aos apartamentos é feita por uma passarela metálica que interliga todo o seu perímetro.seu perímetro. Além disso, o local contará com uma creche de 2200m² para atender a demanda já existente dos moradores da Favela do Heliópolis e do Sacomã, e a demanda eventualmente acrescida pelo complexo residencial. N ÁREA DE INTERVENÇÃO ÁREA DE INTERVENÇÃO ÁREA DE INTERVENÇÃO CULTURA EDUCAÇÃO ESPORTE SAÚDE 0 - 92 (hab/ha) 92 - 146 (hab/ha) 146 - 207 (hab/ha) 207 - 351 (hab/ha) 351 - 30346 (hab/ha) ESTAÇÃO DE METRÔ PONTO DE ÔNIBUS REDE CICLOVIÁRIA MAPA DA CIDADE DE SÃO PAULO DIAGRAMAS SOLARES IMPLANTAÇÃO DENSIDADE DEMOGRÁFICA EQUIPAMENTOS PÚBLICOS MOBILIDADE URBANA LOCALIZAÇÃO TERRENO AMPLIAÇÃO TERRENO LINHA DE ÔNIBUS CRECHE COMÉRCIO CIRCULAÇÃO VERTICAL IMPLANTAÇÃO DETALHE PASSARELA METÁLICA MATERIALIDADE O PROJETO O projeto foi pensado para comportar unidades residenciais pouco verticalizadas, para valorizar o entorno existente. OO grande destaque é sua circulação e abertura para a cidade, uma vez que o térreo é livre, podendo ser acessado pela Rua Comandante Taylor e pela Rua Visconde de Camamu, e conta com comércios, espaços de convivência, um coworking e uma creche. TodaToda a circulação elevada é feita por meio de passarelas metálicas que interligam todo o perímetro da habitação, além de permitirem acesso direto para a Rua Comandante Taylor, principal rua da região. OsOs blocos são escalonados para permitir entrada de luz e ventilação além de não prejudicar o entorno que é composto em sua maior parte por casas, e o mais alto conta com oito pavimentos. SuaSua materialidade simples, composta por concreto, vidro e aço, deixa em evidência o destaque para a circulação, por meio da pintura laranja que as passarelas recebem. A habitação conta com duas opções de apartamentos, sendo 253 unidades de 70m² e 94 unidades de 35m², que totalizam 347 unidades habitacionais, a fim de comportar o mais variado tipo de família. OO coeficiente de aproveitamento é 1,5 conferindo uma permeabilidade ao terreno de 0,30 e adensando um grande número de habitações de forma linear com um gabarito máximo de 27,54m. A taxa de ocupação é de 0,40 permitindo um térreo livre e aberto para a cidade, e pavimentos com total entrada de iluminação e ventilação devido a distãncia entre blocos. Ambas as unidades possuem janelas piso-teto em todos os ambientes, que permite entrada de iluminação natural ao longo da maior parte do dia, além de ventilação abundante. A unidade de 70m² conta com três dormitórios, sala de jantar/estar, cozinha e um sanitário. AA unidade de 35m² é um estúdio com um dormitório, sala de jantar/estar e cozinha integradas e um sanitário. 1º PAVIMENTO UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU │ 2022.2 │ TAMIRES ROCINO CASTINO │ ORIENTADOR: MARCELO GALLI │ 33 CIRCULAÇÃO VERTICAL HABITAÇÃO SOCIAL - HELIÓPOLIS UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU │ 2022.2 │ TAMIRES ROCINO CASTINO │ ORIENTADOR: MARCELO GALLI │ 32 O PROCESSO OO processo brasileiro de urbanização deu origem ao problema habitacional que enfrentamos até os dias de hoje. A industrialização causou um intenso processo de migração campo-cidade, que intensificou o déficit habitacional e a segregação urbana, já que os migrantes e a população mais pobre foi levada a ocupar a periferia das cidades. OO Estado se mantinha alheio às questões habitacionais, até que houvesse uma crescente conscientização de que o poder público deveria intervir, já que a iniciativa privada não supriria a demanda criada. A partir desse momento, diversas políticas públicas foram criadas, na tentativa de solucionar o problema. OO objetivo do trabalho é contextualizar essa questão, trazendo embasamento histórico, principais causas, políticas públicas adotadas ao longo dos anos, e como a população é afetada direta e indiretamente. Assim, propõe-se apresentar análises dos principais fatores que influenciaram no déficit habitacional brasileiro, a maneira que o poder público lida com a situação e as formasformas propostas de solucioná-la, por meio de construção de habitações de interesse social nem sempre pensadas da melhor forma para favorecer a população. Por fim, é apresentada uma proposta de habitação, projetada para atender às necessidades dos moradores de São Paulo, com foco na população da Favela do Heliópolis, visando equilibrar o adensamento existente. AA região conta com equipamentos institucionais (creches, escolas, centros educacionais e de saúde) e está servida de transporte público, com vias servidas por ônibus e pela proximidade com a estação Sacomã do metrô. ObservandoObservando parâmetros urbanísticos e sociais, e propostas já existentes, o objetivo é criar um modelo de habitação voltado também para a cidade. A PROPOSTA O projeto proposto tem como conceito a distribuição de unidades residenciais de forma linear e pouco verticalizado, ocupando grande parte da projeção do térreo, porém deixando o mesmo livre. Trata-seTrata-se de uma edificação multifamiliar que conta com 347 unidades, variando entre 70m² e 35m²,a fim de atender diferentes necessidades de moradia. O térreo da edificação é em sua maior parte sustentado por pilotis, deixando o terreno livre para circulação. As áreas delimitadas abrigam a circulação vertical da habitação, e também comércio aberto para a cidade. OO acesso ao edifício poderá ser feito pelo nível 0,00 por meio de escadas ou elevadores, ou pelo nível 8,00 da Rua Comandante Taylor (também contemplada por comércios), através de uma passarela metálica que a interliga com o segundo pavimento. Toda sua circulação interna para acesso aos apartamentos é feita por uma passarela metálica que interliga todo o seu perímetro.seu perímetro. Além disso, o local contará com uma creche de 2200m² para atender a demanda já existente dos moradores da Favela do Heliópolis e do Sacomã, e a demanda eventualmente acrescida pelo complexo residencial. N ÁREA DE INTERVENÇÃO ÁREA DE INTERVENÇÃO ÁREA DE INTERVENÇÃO CULTURA EDUCAÇÃO ESPORTE SAÚDE 0 - 92 (hab/ha) 92 - 146 (hab/ha) 146 - 207 (hab/ha) 207 - 351 (hab/ha) 351 - 30346 (hab/ha) ESTAÇÃO DE METRÔ PONTO DE ÔNIBUS REDE CICLOVIÁRIA MAPA DA CIDADE DE SÃO PAULO DIAGRAMAS SOLARES IMPLANTAÇÃO DENSIDADE DEMOGRÁFICA EQUIPAMENTOS PÚBLICOS MOBILIDADE URBANA LOCALIZAÇÃO TERRENO AMPLIAÇÃO TERRENO LINHA DE ÔNIBUS CRECHE COMÉRCIO CIRCULAÇÃO VERTICAL IMPLANTAÇÃO DETALHE PASSARELA METÁLICA MATERIALIDADE O PROJETO O projeto foi pensado para comportar unidades residenciais pouco verticalizadas, para valorizar o entorno existente. OO grande destaque é sua circulação e abertura para a cidade, uma vez que o térreo é livre, podendo ser acessado pela Rua Comandante Taylor e pela Rua Visconde de Camamu, e conta com comércios, espaços de convivência, um coworking e uma creche. TodaToda a circulação elevada é feita por meio de passarelas metálicas que interligam todo o perímetro da habitação, além de permitirem acesso direto para a Rua Comandante Taylor, principal rua da região. OsOs blocos são escalonados para permitir entrada de luz e ventilação além de não prejudicar o entorno que é composto em sua maior parte por casas, e o mais alto conta com oito pavimentos. SuaSua materialidade simples, composta por concreto, vidro e aço, deixa em evidência o destaque para a circulação, por meio da pintura laranja que as passarelas recebem. A habitação conta com duas opções de apartamentos, sendo 253 unidades de 70m² e 94 unidades de 35m², que totalizam 347 unidades habitacionais, a fim de comportar o mais variado tipo de família. OO coeficiente de aproveitamento é 1,5 conferindo uma permeabilidade ao terreno de 0,30 e adensando um grande número de habitações de forma linear com um gabarito máximo de 27,54m. A taxa de ocupação é de 0,40 permitindo um térreo livre e aberto para a cidade, e pavimentos com total entrada de iluminação e ventilação devido a distãncia entre blocos. Ambas as unidades possuem janelas piso-teto em todos os ambientes, que permite entrada de iluminação natural ao longo da maior parte do dia, além de ventilação abundante. A unidade de 70m² conta com três dormitórios, sala de jantar/estar, cozinha e um sanitário. AA unidade de 35m² é um estúdio com um dormitório, sala de jantar/estar e cozinha integradas e um sanitário. 1º PAVIMENTO UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU │ 2022.2 │ TAMIRES ROCINO CASTINO │ ORIENTADOR: MARCELO GALLI │ 33 CIRCULAÇÃO VERTICAL UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU │ 2022.2 │ TAMIRES ROCINO CASTINO │ ORIENTADOR: MARCELO GALLI │ 34 2º PAVIMENTO 3º PAVIMENTO 4º PAVIMENTO CORTE AA UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU │ 2022.2 │ TAMIRES ROCINO CASTINO │ ORIENTADOR: MARCELO GALLI │ 34 2º PAVIMENTO 3º PAVIMENTO 4º PAVIMENTO CORTE AA UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU │ 2022.2 │ TAMIRES ROCINO CASTINO │ ORIENTADOR: MARCELO GALLI │ 35 5º PAVIMENTO 6º PAVIMENTO CORTE BB CORTE CC AMPLIAÇÃO CIRCULAÇÃO PRINCIPAL UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU │ 2022.2 │ TAMIRES ROCINO CASTINO │ ORIENTADOR: MARCELO GALLI │ 36 7º PAVIMENTO UNIDADE 70m² UNIDADE 35m² 8º PAVIMENTO 37 5. BIBLIOGRAFIA AZEVEDO, S., and ANDRADE, LAG. Habitação e poder: da Fundação da Casa Popular ao Banco Nacional Habitação [online]. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2011, 116 p. ISBN: 978-85-7982-055-7. Available from SciELO Books BONDUKI, Nabil. Origens da habitação social no Brasil. Análise Social, vol. xxix (127), 1994 (3 °), 711-732 BOTEGA, Leonardo da Rocha. De Vargas a Collor: urbanização e política habitacional no Brasil. Revista Espaço Plural. Ano VIII nº 17, p. 65 -72 2º semestre 2007. CASTILHO, Juliana Vargas de. A favelização do espaço urbano em São Paulo. Estudo de caso: Heliópolis e Paraisópolis - São Paulo, 2013 FERREIRA, Geniana Gazotto; CALMON, Paulo; FERNANDES, Antônio Sérgio Araújo and ARAUJO, Suely Mara Vaz Guimarães de. Política habitacional no Brasil: uma análise das coalizões de defesa do Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social versus o Programa Minha Casa, Minha Vida. urbe, Rev. Bras. Gest. Urbana [online]. 2019, vol.11 PINTOS, Paula. Complexo Residencial Las Américas / SO-IL. Archdaily, 2021. Disponível em: . Acesso em: 10 de jun. de 2022. RUBIN, Graziela Rossato; BOLFE, Sandra Ana. O desenvolvimento da habitação social do Brasil. Revista ciência e natureza. Santa Maria, maio/agosto 2014.Vol 38. Disponível em: http://periodicos.ufsm.br/cienciaenatura. Acesso em: 20 abril de 2022. AMPLIAÇÃO CIRCULAÇÃO PRINCIPAL UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU │ 2022.2 │ TAMIRES ROCINO CASTINO │ ORIENTADOR: MARCELO GALLI │ 36 7º PAVIMENTO UNIDADE 70m² UNIDADE 35m² 8º PAVIMENTO 38 SANTOS, Milton. A Urbanização Brasileira. 5ª Edição. 2ª Reimpressão. São Paulo, Edusp, 2009 Urbanismo na periferia do mundo globalizado. Perspectiva, São Paulo, v. 14, n. 4, p. 21-33, 2000. Disponível em SciELO - Brasil - Urbanismo na periferia do mundo globalizado: metrópoles brasileiras Urbanismo na periferia do mundo globalizado: metrópoles brasileiras. Acesso em 20 abr. 2022. VADA, Pedro. Conjunto Habitacional do Jardim Edite / MMBB Arquitetos + H+F Arquitetos. Archdaily, 2019. Disponível em: . Acesso em: 10 de jun. de 2022 VILLAÇA, Flávio. O que todo cidadão precisa saber sobre habitação. São Paulo: Global, 1986