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Língua Portuguesa: Sintaxe Sintaxe Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof. Dr. Manoel Francisco Guaranha Revisão Textual: Profa. Ms. Silvia Augusta Albert 5 • Introdução • O Surgimento da Gramática – Um Pouco de História • Antiguidade Clássica – Os Filósofos Gregos Agora, na disciplina de sintaxe, iniciamos nossos estudos a partir do surgimento da gramática desde a antiguidade grega. Seu roteiro de estudo deve começar pela leitura do texto teórico. Nele, você encontrará informações importantes sobre pesquisas de como se desenvolveram a língua portuguesa, a gramática e o surgimento da sintaxe. Este material é capaz de instrumentalizá-lo para participação em todas as atividades propostas. Nesta unidade propomos como Atividade de Aprofundamento (AP) um fórum. Para garantir a qualidade do seu estudo e suas intervenções neste ambiente é necessário que estude o tema e posicione-se de forma crítica e criativa. Reflita sobre o tema a partir da contextualização e responda às questões da Atividade de Sistematização (AS). Por fim, mas não menos importante, consulte as indicações sugeridas em Material Complementar e Referências Bibliográficas para aprofundar e ampliar seus conhecimentos. · A disciplina de Sintaxe suscita muitas discussões a respeito do que vem a ser gramática. Deixamos claro que apresentaremos várias teorias linguísticas, no entanto, daremos ênfase para a gramática tradicional descritiva da língua, por acreditarmos que, como um estudioso das letras, quanto maior seu conhecimento sobre a língua, mais habilidade terá para manipulá-la. É num curso de Letras o momento para refletir, analisar, descrever e explicar os fatos linguísticos. Sintaxe • Os Gramáticos Alexandrinos • Os Gramáticos “Quinhentistas” e a Língua Portuguesa • As Gramáticas no Século XX 6 Unidade: Sintaxe Atenção Lembramos a você da importância de realizar todas as leituras e as atividades propostas dentro do prazo estabelecido para cada unidade, no cronograma da disciplina. Para isso, organize uma rotina de trabalho e evite acumular conteúdos e realizar atividades no último minuto. Em caso de dúvidas, utilize a ferramenta “Mensagens” ou “Fórum de dúvidas” para entrar em contato com o tutor. É muito importante que você exerça a sua autonomia de estudante e que desenvolva sua proativi- dade para construir novos conhecimentos. Nesta primeira unidade, realizamos um estudo sobre o surgimento da gramática, desde os filósofos gregos até nossos gramáticos de hoje. Você vai notar que o artigo aborda conceitos básicos para que você possa entender o ensino da sintaxe, sobretudo, nas escolas desde séculos passados. Para que possa apreender melhor todas as informações, faça um pequeno resumo das ideias principais do texto. Com certeza, este será um material útil para a construção de novos conhecimentos! Contextualização Explore A fim de melhor contextualizar esse histórico e para que você possa relacionar com estudos sobre o ensino da gramática atualmente, é necessário que leia o texto indicado no link abaixo. • http://www.maxwell.lambda.ele.puc-rio.br/4009/4009_4.PDF %20http://www.maxwell.lambda.ele.puc-rio.br/4009/4009_4.PDF 7 Sintaxe à Vontade Composição de O Teatro Mágico Introdução O Teatro Mágico é uma banda criada pelo músico Fernando Anitelli em 2003. Desde o início o grupo adiciona a seus shows muitos elementos visuais e cênicos para o palco. O Teatro Mágico se consolidou como um dos principais cases de sucesso da América Latina no uso das redes para a formação de público e referência em sua estética na união da música com as artes perfomáticas. Para saber mais acesse: http://www.oteatromagico.mus.br/sobre. Sem horas e sem dores, Respeitável público pagão, Bem-vindos ao teatro mágico. A partir de sempre Toda cura pertence a nós. Toda resposta e dúvida. Todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser, Todo verbo é livre para ser direto ou indireto. Nenhum predicado será prejudicado, Nem tampouco a frase, nem a crase, nem a vírgula e ponto final! Afinal, a má gramática da vida nos põe entre pausas, entre vírgulas, E estar entre vírgulas pode ser aposto, E eu aposto o oposto: que vou cativar a todos. Sendo apenas um sujeito simples. Um sujeito e sua oração, Sua pressa, e sua verdade, sua fé, Que a regência da paz sirva a todos nós. Cegos ou não, Que enxerguemos o fato De termos acessórios para nossa oração. Separados ou adjuntos, nominais ou não, Façamos parte do contexto da crônica E de todas as capas de edição especial. Sejamos também o anúncio da contra-capa, Pois ser a capa e ser contra a capa É a beleza da contradição. É negar a si mesmo. E negar a si mesmo é muitas vezes Encontrar-se com Deus. Com o teu Deus. Sem horas e sem dores, Que nesse momento que cada um se encontra aqui e agora, Um possa se encontrar no outro, E o outro no um... Até por que, tem horas que a gente se pergunta: Por que é que não se junta Tudo numa coisa só? http://www.oteatromagico.mus.br/sobre 8 Unidade: Sintaxe Iniciamos nossos estudos com uma questão: O que vem a ser Sintaxe? Para tanto, buscamos resposta no dicionário de linguística de Zélio dos Santos Jota e encontramos: “Sintaxe é a parte da gramática que estuda as relações que as palavras mantêm entre si, combinando-as segundo determinada ordem para que se formule uma frase. Ou ainda, palavra que vem do grego syntaxis, “ato de colocar em ordem”.” E agora, como surgiu a Sintaxe? O termo sintaxe vem de muito longe e foi criado há muito tempo... Foi Apolônio Díscolo, que viveu na primeira metade do século II d. C., quem introduziu a sintaxe nos estudos gramaticais, pois, até então, ela não merecera a atenção dos estudiosos. Já no século VI de nossa era, Prisciano foi considerado o primeiro a escrever uma sintaxe da língua latina. Se a sintaxe é parte da gramática, agora, vejamos um pouco sobre a história da gramática. Ao longo dos séculos, a gramática tem sido vista de diferentes maneiras. Etimologicamente, gramática é palavra que vem do grego e significa “a arte de escrever.” Segundo LOBATO (1986), a gramática surgiu no mundo ocidental por volta do século V a. C., na Grécia, como ramo da filosofia, especificamente, como um apêndice da lógica. Durante este período, o mundo grego estava sob o domínio da Macedônia, cujo rei Alexandre não impediu que a forte influência cultural de seu império predominasse nos territórios por ele conquistados. Esse período ficou conhecido como época helenística, na qual a influência cultural grega se estendeu a toda região do Mediterrâneo Oriental e do Oriente Próximo. Durante o império alexandrino, a língua grega era utilizada por todas as regiões a ele subjugadas. Os gregos não se preocuparam com um estudo mais aprofundado de sua língua. A atenção estava voltada somente para o estudo da língua sob uma perspectiva estética e filosófica. As discussões centravam-se, principalmente, nas relações entre forma e significado das palavras. O estudo gramatical na Grécia Antiga é caracterizado por três períodos, a saber: (LOBATO, 1986) O Surgimento da Gramática – Um Pouco de História Antiguidade Clássica – Os Filósofos Gregos 9 a) iniciou-se com os filósofos pré-socráticos e os primeiros retóricos e seguiu com Sócrates, Platão e Aristóteles; b) o período dos estoicos; c) o período dos alexandrinos. No primeiro período, a língua não era uma preocupação independente, encontrando-se de forma esparsa na obra de cada pensador do período. Em Sócrates e Aristóteles, existe uma preocupação indireta. Já em Platão, encontramos no “Crátilo”, um dos mais importantes diálogos escritos por ele, um texto totalmente dedicado a questões linguísticas. Nele se discutem a questão da origem da língua, bem como a relação natural entre o significado das palavras e a motivação ou arbitrariedade do signo linguístico. Em Crátilo1, Platão define a gramática como a téchne (arte), cuja função seria regular a atribuiçãodas letras na formação dos nomes. Entretanto, esta obra não chegou a se constituir em um compêndio gramatical. Em posição oposta à de Platão, Aristóteles defendia o caráter convencional da linguagem e da relação arbitrária entre palavra e significado. Ele foi o primeiro a realizar uma análise mais apurada da estrutura linguística. A este filósofo se devem as contribuições sobre as categorias aristotélicas, as quais deram origem às chamadas categorias gramaticais ou classes de palavras. Por exemplo: substância/ substantivo, ação/verbo, relação/conjunção. No entanto, foi somente com a escola estoica que a língua passou a ser reconhecida como independente. Segundo os estoicos, o homem, ao nascer, era uma espécie de página em branco, que seria preenchida com as experiências. Foram eles os precursores da ideia de que a língua é a expressão do pensamento e o veículo dessa expressão, a voz e, nessa perspectiva deveria ser investigada. Embora tenham se dedicado a questões de pronúncia e de etimologia, seus estudos gramaticais envolveram classes de palavras e paradigmas flexionais. Mas, apesar disso, não estavam interessados na língua em si mesma. Essa é uma característica que os estoicos compartilharam com os estudiosos do período anterior: todos desenvolveram o estudo sobre a língua no âmbito de pesquisas filosóficas ou lógicas. (Lobato, 1986). 1 Crátilo é o nome de um diálogo platônico. Nele se coloca em questão o nome, sua origem, seu estatuto, discutindo também se é naturalista ou convencionalista. O filósofo pensava que fosse impossível dar um nome às coisas, pois, estando estas em constante devir, não seriam mais aquelas. Sócrates Fonte: Thinkstock.com Platão Aristóteles 10 Unidade: Sintaxe A grande contribuição que os estoicos trazem é o estudo voltado para a dicotomia entre forma e significado, semelhante à distinção entre significado e significante que Saussure vem apresentar tempos depois. Para os estoicos, o significado é construído por meio do conhecimento global que se tem da língua; já para Saussure, o significado é uma representação mental. Seguindo cronologicamente essa história, o período seguinte, será o “alexandrino”. Os estudiosos alexandrinos recebem esse nome por terem desenvolvido seus estudos na colônia grega de Alexandria, onde, no séc. III a.C., nasceu um grande centro de estudos literários e linguísticos. Foram eles que passaram a considerar o estudo linguístico como parte do estudo literário. A escolha pelo estudo literário deveu-se a dois fatores: o primeiro deles era tornar acessível aos contemporâneos a obra de Homero; segundo porque existia uma preocupação com o uso correto da língua, a fim de preservar o grego clássico de possíveis alterações de uso. Os alexandrinos tinham como objetivo educar os povos conquistados na língua e na cultura grega. Assumiram uma postura purista da língua, ao privilegiarem a escrita dos grandes escritores em detrimento dos demais usos da língua. Dividiam-se em duas posturas linguísticas baseadas nas regularidades e irregularidades da língua: os analogistas e os anomalistas. – os primeiros privilegiaram as regularidades linguísticas, adotando uma atitude normativa (preocupação em como a língua dever ser); – já os anomalistas reconheciam a existência de irregularidades e enfatizavam o uso efetivo da língua (preocupação em como a língua é). Os estudos realizados pelos alexandrinos marcaram profundamente o período helenístico2. É deles a identificação de oito classes de palavras – nome, verbo, particípio, artigo, pronome, preposição, advérbio e conjunção – bem como o reconhecimento de categorias gramaticais relacionadas às classes – caso, tempo, número, gênero, etc. As classes de palavras foram criadas paulatinamente como resultado de contribuições de vários estudiosos em diferentes épocas. Para a conceituação das classes de palavras, os gregos utilizavam uma mistura de critérios: semânticos, sintáticos e morfológicos, o que ainda caracteriza nossas gramáticas. (Lobato, 1986). Como vimos, os gregos empreenderam estudos nas áreas da Etimologia (origem das palavras), da Fonética (pronúncia) e da Gramática (morfologia). Foram, no entanto, os estudos morfológicos que mais se notabilizaram. 2 O período helenístico foi um marco entre o domínio da cultura grega e o advento da civilização romana. Os sopros inspiradores da Grécia se disseminaram, nesta época, por toda uma região exterior conquistada por Alexandre Magno, rei da Macedônia. Com suas investidas bélicas ele incorporou ao universo grego, o Egito, a Pérsia e parte do território oriental, incluindo a Índia”. Para saber mais: http://www.infoescola.com/historia/helenismo/ A gramática normativa foi elaborada a partir de critérios filosóficos. Desde a sua origem, na Antiguidade Clássica (séc. II ou III a.C.) até nossos dias, apesar dos diferentes paradigmas sócio-culturais, ela mantém essa característica. http://www.infoescola.com/historia/helenismo/ 11 Dionísio, de origem trácia ou Dionísio, o Trácio, nasceu em Alexandria e viveu entre 170 e 90 a. C. (séculos II e I a. C.). Com ele, tem-se a “primeira descrição ampla e sistemática publicada no mundo ocidental” de uma língua – o grego ático; ele foi considerado, portanto, o autor da primeira gramática publicada no ocidente - a Téchne Grammatiké – a arte de ler e escrever. Para Dionísio, a gramática era o conhecimento prático dos usos da língua feita pelos poetas e escritores de prosa. Naquele momento, a gramática já era considerada disciplina independente da lógica e da filosofia. Assim, a Téchne Grammatiké alexandrina surge como uma arte/técnica voltada para capacitar as novas gerações a ler, a apreciar, a entender e a criticar os poetas. (NEVES, 2002) A gramática de Dionísio dava pouca ênfase à sintaxe, sobrepondo a ela a flexão paradigmática das palavras gregas. Essa gramática apresentava uma finalidade pedagógica por meio da contemplação da literatura grega clássica. Ela foi considerada referência de estudo no mundo de fala grega até o século XII, tendo sido traduzida para outras línguas. Além disso, serviu de modelo para o estudo de línguas como o latim, por exemplo. Merece destaque o fato de que foi um gramático alexandrino, Apolônio Díscolo, no século II AC, quem formulou a primeira teoria sintática ao estudar a língua grega. Na obra deste autor, percebemos características básicas que orientaram os trabalhos dos primeiros gramáticos e que foram transmitidas ao Ocidente – a exclusividade de atenção ao uso da língua feito por autores consagrados em detrimento de outras variantes de menor prestígio. Seus estudos abrangeram questões de diacronia, estilística, ortografia, prosódia, dialetos, elementos e partes das orações. Contudo, sua importância na história da gramática ocidental deve-se ao tratamento dado à sintaxe, até então ausente nos trabalhos dos gramáticos alexandrinos. Os estudos sintáticos revelavam a influência dos trabalhos de Dionísio de Trácia e a influência mentalista dos estoicos. Apolônio foi o único gramático antigo que escreveu uma obra completa e independente sobre sintaxe, segundo Neves (2002). O gramático não foi partidário de nenhuma das correntes que investigavam a origem da linguagem e suas relações com o pensamento, tampouco procurou delimitar a natureza da gramática à arte x ciência. Os estudos de Dionísio de Trácia e de Apolônio Díscolo não só influenciaram significativamente o ensino do grego, como despertaram o interesse para o estudo dessa língua em momentos históricos posteriores. Na época helenística, uma grammatiké seria um “exame dos textos escritos” com a finalidade de resguardar as obras que representavam o espírito grego, constituindo-se em uma disciplina de cunho didático. Ela é, então, definida por Dionísio de Trácia como empeiriá (conhecimento empírico)3. 3 Segundo o dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa 1.0: conhecimento empírico é aquele “baseado na experiência e naobservação, metódicas ou não”. Os Gramáticos Alexandrinos 12 Unidade: Sintaxe Concluímos que os filósofos não fizeram gramática, apenas criaram doutrinas, já que seus estudos não foram desenvolvidos de maneira autônoma e sistemática. Os filósofos gregos consideravam-na apenas um caminho para o desvendamento da atividade linguística, enquanto os filólogos alexandrinos estudavam-na como um meio de se alcançar a regularidade do uso. Em suma: – na filosofia grega: grammatiké é “um sistema regulador da interdependência dos elementos linguísticos”; – na cultura helenística: grammatiké é uma “regulamentação de um determinado uso da língua, num dado momento de sua história”; – na ciência linguística moderna: gramática é a “explicitação das regras que regem a Linguística” (Neves, 2002). Trabalhos sobre sintaxe, posteriores a Apolônio Díscolo, se perderam e a fonte mais confiável e abrangente na antiguidade é o texto de Prisciano. É com esse estudioso romano que a gramática latina chega ao seu apogeu. Ele é o primeiro a elaborar uma sintaxe, inspirado nas teorias lógicas dos gregos. A intenção primeira do autor teria sido traduzir as obras gramaticais dos gregos. O estudioso lançou mão de discussões da lógica para construir uma sintaxe com estes princípios. Para Prisciano, a sintaxe visa estudar “a obtenção de uma oração perfeita (oratio perfecta)”. Assim, o autor tenta recuperar as primeiras especulações filosóficas gregas sobre a linguagem, que a entendiam como a expressão do pensamento. Portanto, a sintaxe de Prisciano, baseada principalmente nas reflexões de Apolônio Díscolo, parte do átomo até a formação da sentença conexa, representada pela oratio perfecta. A gramática desse estudioso torna-se o modelo de todos os gramáticos da Idade Média. É nesse período que um impasse ocorre: se as construções linguísticas latinas eram lógicas e, portanto, naturais, as línguas modernas deveriam seguir essas mesmas causas? É a gramática proposta pelos estudiosos de Port-Royal (1660) que vai tentar esclarecer esse impasse. É somente no século XVII, com a gramática de Port-Royal, ou melhor, Grammaire générale et raisonée de Port Royal, organizada por Lancelot e Arnauud, que vai se definir claramente os postulados de todas as categorias relacionais lógicas a que são submetidas as categorias linguísticas, desde os tão distantes povos gregos e romanos. A Gramática de Lancelot e Arnauld era baseada nos princípios aperfeiçoados por Descartes, que idealizava a existência de um pensamento extralinguístico e designava a linguagem como uma das causas dos nossos erros. A Grammaire Générale dominou o século XVII, trazendo uma grande contribuição para estudos posteriores. A tentativa lógica de Port-Royal marca de tal forma o estudo da linguagem, até os nossos dias, que os linguistas vão ter grande dificuldade em separar a sua análise da dos componentes lógicos. A linguística vai oscilar entre um formalismo empirista (descrição das estruturas formais) e um logicismo transcendental (divisão do conteúdo em categorias tomadas à lógica). Com este arcabouço histórico, justificamos o caráter normativo, tradicional, ou a disciplina do certo/errado que a gramática conserva até a atualidade. 13 No século XVI, as línguas românicas passaram a ser descritas em gramáticas. Vale lembrar que os dois primeiros gramáticos portugueses foram Fernão de Oliveira e João de Barros, publicando a Gramática da Linguagem Portuguesa, em 1536; e a Gramática da Língua Portuguesa, em 1540, respectivamente. Segundo SILVA (2000) apenas João de Barros, dos quatro gramáticos quinhentistas4, trata do que hoje se chama sintaxe. Apesar de o autor considerar a sintaxe como uma parte da gramática, é dado pouco relevo a esta parte no conjunto de sua obra. Sua sintaxe se resume a observações sobre concordância e regência, elementos essenciais da gramática tradicional. No entanto, Jerônimo Soares Barbosa (1737-1816) critica gramáticos que o precederam, dentre eles João de Barros, por construírem uma gramática da língua portuguesa que imitasse a latina. Sua gramática segue a Grammaire générale et raisonée de Port Royal, ou Gramática de Port Royal5, da qual já tratamos anteriormente. O autor defende que qualquer gramática tem uma parte mecânica e uma parte lógica. Na parte mecânica encontra-se a Orthoepia, que se preocupa com os sons da língua; e a Orthographia, preocupada com os sinais. À parte lógica pertencem a Etymologia, que ensina as espécies de palavras que entram na composição de qualquer oração e a analogia de suas variações e propriedades gerais; e a Syntaxe, que ensina a coordenar estas palavras e a dispô- las no discurso de modo que façam um sentido, ao mesmo tempo distinto e ligado. Contudo a gramática tradicional não acolheu a classificatória complexa de Jerônimo Soares Barbosa. SILVA (2000) lembra que, ainda assim, até fins da década de 1950 do século passado, qualquer bom professor de português seguia os ensinamentos deste estudioso. 4 Fernão de Oliveira (1536), A gramática da linguagem portuguesa; João de Barros (1540), Gramática da língua portuguesa; Pero de Magalhães Gândavo (1574), Regras que ensinam a maneira de escrever e a ortografia da língua portuguesa; e Duarte Nunes de Leão (1576), Ortografia e origem da língua portuguesa. 5 A gramática geral e racional foi organizada no século XVII por dois monges de um mosteiro, de uma região francesa (Antoine Arnoud e Claude Lancelot) e torna-se modelo para grande número de gramáticas deste século. Os Gramáticos “Quinhentistas” e a Língua Portuguesa Fonte: Biblioteca Nacional de Portugal - purl.pt 14 Unidade: Sintaxe Para começarmos a falar de gramáticas do século XX, não devemos nos esquecer de nomes como Celso Cunha e Lindley Cintra, Evanildo Bechara, entre outros. Celso Cunha e Lindley Cintra são considerados especialistas da língua portuguesa. O primeiro, brasileiro; o segundo, português. Segundo SILVA (2000), a Nova Gramática do Português Contemporâneo, cuja 10ª edição data de 1985, é uma gramática que privilegia a língua escrita culta literária de escritores portugueses, brasileiros e africanos do Romantismo para cá. Segue, portanto, o princípio já estabelecido em Alexandria. Os autores definem a sintaxe como a parte da gramática que descreve as regras segundo as quais as palavras se combinam para formar frases. Já Evanildo Bechara, em sua Moderna Gramática Portuguesa, cuja 37ª edição data de 1999 e a 1ª de 1961, apresenta, em sua revisão, uma consciente atualização, amadurecida pela leitura de teóricos da linguagem, especialmente, Eugênio Coseriu, M. Said Ali e nosso primeiro linguista J. Mattoso Câmara. É Evanildo Bechara (1999, p. 27) quem afirma: Em Portugal, no Brasil, em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, a língua portuguesa, patrimônio cultural de todas estas nações, tem sido, e esperamos seja por muito tempo, expressão da sensibilidade e da razão, do sonho e das grandes realizações. Voltaremos a estudar a sintaxe, sobretudo, a partir da concepção gramatical desses autores, em unidades posteriores. As Gramáticas no Século XX 15 Para ampliar seus conhecimentos, leia o artigo, intitulado Prisciano e a história da gramática: considerações acerca da sintaxe e da morfologia, de Rodrigo Tadeu Gonçalves, que é Professor Doutor de Língua e Literatura Latina do DLLCV/UFPR. Considerando que as reflexões linguísticas na antiguidade tiveram reflexos nos estudos atuais, o artigo trata da gramática antiga, feita nos moldes da tradição grega do precursor Dionísio Trácio. Em especial, o escopo deste trabalho é baseado em duas obras do gramático Prisciano (Bizâncio, séc. VI). Com o objetivo de mostrar a concepção linguística do pensamento gramatical de Prisciano, o artigo aborda a sintaxe na obra Institutiones grammaticae e a morfologia na Institutio denomine et pronomine et verbo. Para esboçar a característica de veículo transmissor da tradição grega e paraexplicitar os conceitos de sintaxe e morfologia, este trabalho lança mão de traduções de excertos das duas obras, algumas inclusive inéditas. Ao fim, fica evidente uma sintaxe atomista baseada na ideia de oratio perfecta e uma morfologia que faz uso de operações de manipulação de letras e de modelos paradigmáticos. Não se esqueça de fazer registros durante a leitura, anotando as ideias principais de que trata o artigo. Essa é uma forma de ir criando ao longo da disciplina um material para consulta e estudos posteriores. Material Complementar Explore O artigo foi publicado na Revista Eletrônica Antiguidade Clássica ISSN 1983 7614 – No. 005/ Semes- tre I/2010/pp.85-99 e você o encontra no link: ∙ http://goo.gl/ZNp8dG http://goo.gl/ZNp8dG 16 Unidade: Sintaxe BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37. ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 1999. CUNHA, Celso & CINTRA, Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. JOTA, Zélio dos Santos. Dicionário de Lingüística. Rio de Janeiro: Presença Edições, 1976. LOBATO, Lúcia Maria Pinheiro. Sintaxe gerativa do português. Belo Horizonte: Belo Horizonte, 1986. NEVES, Maria Helena de Moura. A gramática: história, teoria e análise, ensino. São Paulo: Editora da UNESP, 2002. SILVA, Rosa Mattos. Tradição Gramatical e Gramática Tradicional. 4. ed. São Paulo: Contexto, 2000. Referências 17 Anotações www.cruzeirodosulvirtual.com.br Campus Liberdade Rua Galvão Bueno, 868 CEP 01506-000 São Paulo SP Brasil Tel: (55 11) 3385-3000 http://www.cruzeirodosulvirtual.com.br Blank Page