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TPN Básico 
Uma visão geral da identificação, 
do diagnóstico e do tratamento 
do Transtorno de Personalidade Narcisista 
(TPN) 
 
4a Edição 
 
 
Elsa Ronningstam, Ph.D. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
McLean Hospital 
Harvard Medical School 
2022 
2 
 
 
 
 
 
 
 
 
Tradução para o português pelo Ambulatório para 
 o Desenvolvimento dos Relacionamentos e das Emoções (ADRE) 
do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina 
 da Universidade de São Paulo (IPq-HCFMUSP) – 2022 
 
 
Marcos S. Croci, M.D. 
Marcelo J. A. A. Brañas, M.D. 
Eduardo Martinho Jr., M.D. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3 
NARCISISMO – DO SAUDÁVEL AO PATOLÓGICO 5 
TRANSTORNO DE PERSONALIDADE NARCISISTA 6 
TPN NO DSM-5 7 
TPN – UM MODELO ALTERNATIVO 9 
INDIVÍDUOS COM NARCISISMO PATOLÓGICO OU TPN 10 
VARIAÇÕES INDIVIDUAIS PERCEPTÍVEIS 12 
LUTA INTERNA E REATIVIDADE 12 
FUNCIONAMENTO INTERPESSOAL 13 
FUNCIONAMENTO VOCACIONAL 14 
EXPLICAÇÕES DE ALGUMAS DIMENSÕES E FACETAS DO 
NARCISISMO 15 
GRANDIOSIDADE – VULNERABILIDADE 15 
PERFECCIONISMO – AUTOCRÍTICA 15 
EXPOSIÇÃO – EVITAÇÃO 16 
RAIVA, VERGONHA E MEDO 16 
EMPATIA COMPROMETIDA 17 
O TRAUMA NARCISISTA 18 
COMPORTAMENTO SUICIDA 19 
PREVALÊNCIA, GÊNERO E IDADE 19 
ASPECTOS CULTURAIS DO NARCISISMO SAUDÁVEL E PATOLÓGICO
 20 
4 
COOCORRÊNCIA COM OUTROS TRANSTORNOS 21 
TPN E TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE (TPB) 21 
TPN E TRANSTORNO DE PERSONALIDADE ANTISSOCIAL (TPA) 22 
TPN E O ESPECTRO DO TRANSTORNO BIPOLAR 22 
TPN E TRANSTORNO DEPRESSIVO 23 
TPN E TRANSTORNO POR USO DE SUBSTÂNCIAS (TUS) 23 
TRATAMENTO 24 
TRATAMENTO PSICODINÂMICO E PSICANALÍTICO 25 
TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL 27 
MODALIDADES DE TRATAMENTO ADICIONAIS 28 
CONCLUSÕES 28 
LITERATURA SOBRE O TRANSTORNO DE PERSONALIDADE NARCISISTA
 30 
TEORIA, PESQUISA, DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO: 30 
LIVROS-GUIA 30 
FILMES CARACTERIZANDO AS PERSONALIDADES NARCISISTAS 31 
FILMES AMERICANOS: 31 
FILME BRITÂNICO-AMERICANO: 31 
FILMES BRITÂNICOS: 31 
FILME NORUEGUÊS: 31 
FILMES FRANCESES: 31 
FILME ALEMÃO: 31 
5 
 
Narcisismo – do saudável ao patológico 
O termo narcisismo se refere aos sentimentos e às atitudes em relação ao próprio self (eu). É o 
cerne da autoestima e das emoções, que influencia a forma como as pessoas percebem e se 
relacionam com os outros. O narcisismo normal envolve um saudável senso de autovalorização e 
de autoapreço positivo1 com autoaceitação, curiosidade e compaixão, incluindo orgulho e 
satisfação. Do ponto de vista interpessoal, motiva respeito e conexão com os outros, assim como 
um compartilhamento recíproco de interesse genuíno com os pensamentos e sentimentos dos 
outros, ou seja, comprometimento e empatia. Isso também promove uma habilidade para lidar 
com situações desafiadoras para tolerar tanto críticas e derrotas, assim como emoções 
autoconscientes, como vergonha, inveja, humilhação, frustração e culpa. Os ideais desejados e 
as aspirações alcançáveis se relacionam em um senso de agenciamento, competência, 
responsabilidade, controle e domínio interno de pensamentos, sentimentos, ações e impulsos. 
Acima de tudo, está relacionado à capacidade de compreender e tolerar a raiva. Isso promove 
uma autoavaliação com habilidade para avaliar e lidar com situações ameaçadoras e 
estressantes, assim como perdas. Além disso, a autopreservação e o senso de merecimento 
normal2 3, isto é, a sobrevivência e a proteção do próprio self e do território também são 
expressões de um narcisismo normal. Tudo isso contribui para um senso integrado e equilibrado 
de identidade, que se reflete na capacidade de estabelecer relações íntimas e próximas, bem 
como na tolerância às divergências e discordâncias. 
O narcisismo exagerado ou estilo de personalidade narcisista, caracterizado por autopromoção, 
competitividade, atitudes críticas ou condescendentes em relação aos outros e às manobras 
sociais, é mais perceptível em certas faixas etárias ou subculturas na sociedade de hoje em dia. 
Embora isso possa levar às interações interpessoais provocativas e desafiadoras em contextos 
privados, sociais ou profissionais, não é geralmente um indicador de patologia de personalidade 
ou transtorno psiquiátrico. Está mais relacionado à autodeterminação inabalável, ignorância e 
arrogância, intolerância aos obstáculos e autopromoção e preocupações consigo mesmo 
exageradas em algumas situações e contextos. 
O narcisismo patológico difere do narcisismo normal e saudável principalmente devido à flutuação 
ou desregulação da autoestima e das emoções. Pessoas que apresentam um narcisismo 
patológico se esforçam para elevar a si mesmas a fim de proteger e sustentar um ego grandioso, 
mas frágil, e para se afastar de ameaças e sentimentos de inferioridade causados por 
experiências e sentimentos negativos, principalmente quando relacionados ao self. Apesar de a 
grandiosidade narcisista geralmente estar associada a uma sobrevalorização das próprias 
qualidades e intenções positivas e valiosas, estudos recentes mostraram tanto a coocorrência 
como as interações entre grandiosidade e vulnerabilidade. A autonegatividade excessiva, ou seja, 
ser o pior, uma falha, sem valor ou indigno, pode, paradoxalmente, estimular e fortalecer o 
engrandecimento de si mesmo com esforços excepcionais, controle ou esquiva efetiva. Por outro 
 
1 Nota dos tradutores: Do original “positive self-regard” 
2 Nota dos tradutores: Do original “entitlement” 
3 “Devido à sua associação ao narcisismo patológico, isto é, às expectativas irrealistas e exigências 
interpessoais exageradas e autoritárias, o senso de merecimento como um aspecto fundamentalmente saudável 
do narcisismo normal e do funcionamento normal da vida tende a ser facilmente desconsiderado.”(Ronningstam, 
2005) 
6 
lado, vulnerabilidade com baixa autoestima, insegurança, dúvidas sobre si mesmo e propensão 
para comparações autodepreciativas e vergonha podem ser ocultadas por apresentações e 
atitudes extrovertidas, confiantes, altamente inspiradoras e de autopromoção. Dificuldades em 
tolerar, processar e regular emoções, especialmente raiva, vergonha e inveja, são comuns. Tudo 
isso contribui para as dificuldades e lutas subjetivas e internas para os indivíduos com essa 
patologia. 
O narcisismo patológico pode ser expresso em reações temporárias e traços, ou em um 
transtorno de personalidade estável e duradouro. Tanto o narcisismo patológico quanto o 
Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN) podem coexistir com áreas e períodos de alto 
funcionamento, competência e sensação de autonomia, ou com qualidades, capacidades, 
afiliação social ou proximidade interpessoal intermitentes. Quando o nível de narcisismo 
patológico é menos grave, desencadeado em certas situações, ou limitado a um conjunto de 
características específicas de caráter, ele é referido como perturbação narcisista ou traços 
narcisistas. O termo diagnóstico TPN refere-se a um funcionamento estável da personalidade de 
longo prazo que preenche os critérios do DSM-5 para o TPN ou de qualquer outra descrição 
diagnóstica compreensiva. Independentemente do nível de gravidade, o narcisismo patológico 
pode ser evidente e marcante, ou internamente escondido, e, à primeira vista, pouco notável. 
Flutuações e interações entre o funcionamento de personalidade grandioso e vulnerável também 
são dependentes de contextos de vida e eventos, que podem tanto desafiar ou apoiar o 
funcionamento de personalidade narcisista e, consequentemente, tanto aumentar quanto diminuir 
a patologia narcisista. Envolvimento no trabalho ou estudos e afiliações específicas comunitárias 
ou interpessoais podem eventualmente proteger ou aumentar a autoestima e equilibrar as 
dificuldades com a autoestima ou a ausência de interações próximas, mútuas e afetuosas. Por 
outro lado, a falha em se adaptar às exigências de trabalho ou estudo, ou em corresponder às 
expectativas sociais ou comunitárias, pode ser extremamente desafiadorada 
relação terapêutica, bem como de fantasias, sonhos e desejos para promover mudanças na 
maneira de pensar e de se relacionar do paciente. 
26 
A psicoterapia focada na transferência para TPN, TFP-N, é um tratamento focado na relação 
objetal que foca a difusão da identidade do paciente, promovendo capacidade de 
autorreflexão, tomada de perspectiva e tolerância e regulação emocional. Mais 
especificamente, presta atenção nas defesas narcisistas dos pacientes, na agressividade 
subjacente, nas atuações do senso de merecimento e grandiosidade, na sensibilidade, nos 
sentimentos de inveja, na humilhação, na vergonha e na inferioridade. Com foco exploratório 
nos estados internos e nos comportamentos dos pacientes, a TFP-N usa esclarecimento, 
confrontações e interpretações como técnicas principais. O foco está na interação entre o 
terapeuta e o paciente, e tanto a transferência quanto a contratransferência são avaliadas e 
integradas ao processo terapêutico. A estratégia é flexível e adaptável ao alcance e nível da 
patologia narcísica, usando uma técnica menos interpretativa em pacientes com estrutura de 
personalidade mais frágil. 
O Tratamento Baseado em Mentalização (MBT) visa melhorar a capacidade reflexiva do 
paciente, isto é, a compreensão dos estados mentais próprios e dos outros, incluindo 
pensamentos, atitudes, emoções e intenções. Estudos mostraram que essa capacidade 
reflexiva ou mentalizadora pode melhorar o funcionamento patológico da personalidade, em 
particular dos estados mentais rígidos e inflexíveis, e desconectar os próprios pensamentos e 
as experiências genuínas. Ajustada ao TPN, essa modalidade tem o objetivo de engajar a 
curiosidade, a flexibilidade e a resiliência do paciente na elaboração e na compreensão de si 
mesmo e dos outros, especialmente em situações interpessoais vivenciadas como 
estressantes ou desafiadoras. Usando uma abordagem terapêutica mais suportiva, validante, 
exploratória, colaborativa e acolhedora, essa modalidade pode melhorar a regulação da 
autoestima, a reatividade e os relacionamentos interpessoais. 
A Psicoterapia Orientada para o Esclarecimento (POE) concentra-se na autorregulação e na 
motivação nas interações e nos relacionamentos interpessoais do paciente. Ao diferenciar os 
motivos autênticos do paciente das manobras interacionais estratégicas, essa modalidade 
auxilia o paciente a identificar problemas interpessoais e insatisfações. A exploração de 
situações específicas aumenta a consciência do paciente sobre necessidades internas, 
motivos, suposições e afetos, especialmente aqueles relacionados à vergonha e à raiva, que 
motivam manobras compensatórias interpessoais. O esclarecimento e o processamento de 
esquemas disfuncionais podem levar a um novo comportamento autêntico e à compaixão em 
relação a si mesmo e aos outros. 
A psicoterapia psicanalítica intensiva com duas ou três sessões semanais é indicada quando 
os pacientes têm sintomas narcisistas mais graves ou experimentam consequências agudas 
de seus sintomas. É apropriada para pacientes que podem se beneficiar de uma abordagem 
exploratória ativa e interativa e para quem a interação face a face e o contato visual são 
importantes para contrabalançar o distanciamento e o não engajamento emocional. 
A psicanálise com três a cinco sessões por semana ao longo de vários anos é recomendada 
para pacientes com narcisismo patológico ou TPN que estão motivados e que tenham alto 
funcionamento. É preciso também boa capacidade para associações livres, insights e 
relações interpessoais e alta sensibilidade afetiva e tolerância. 
 
 
27 
Terapia Cognitivo-Comportamental 
Terapia focada em esquema para TPN, combina técnicas cognitivas, comportamentais, 
experienciais e baseadas em transferência para trabalhar com modos de esquema. O 
tratamento tem como foco mudar as relações íntimas do paciente, incluindo tanto a relação 
com o terapeuta quanto outras relações significativas. O objetivo do tratamento é promover 
um modo adulto saudável de agir, ajudando o paciente a reparar e regular afetos narcisistas 
significativos. Estratégias cognitivas e comportamentais gerais, combinadas com o 
confrontamento empático e as tarefas para casa, são usadas para lidar com distorções 
cognitivas narcisistas típicas, como o pensamento “preto ou branco” ser desvalorizado e 
privado pelos outros e o perfeccionismo. 
A Terapia Interpessoal Metacognitiva (MIT), um tratamento manualizado em etapas para 
TPN, começa com uma abordagem autobiográfica para obter uma compreensão 
compartilhada dos problemas dos pacientes e, em seguida, promove o reconhecimento e a 
conscientização de sua funcionalidade e estados mentais, esquemas de relacionamento 
interpessoal e indicações de mau autogerenciamento e atuação. A mudança é alcançada 
através da estimulação de percepções baseadas na realidade e na tomada de perspectivas, 
e pela identificação da grandiosidade normal, estimulando uma distância crítica do 
comportamento antigo e construindo novos esquemas de pensamento, sentimento e 
relações interpessoais que promovam autogerenciamento e autonomia. 
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), em grande parte projetada para pacientes com 
TPB, pode ser benéfica para alguns pacientes com narcisismo patológico e TPN que são 
mais naturalmente orientados por estratégias comportamentais e voltadas à ação e precisam 
obter controle dos pensamentos e comportamentos. Três estratégias, ou seja, 
psicoeducação, validação e identificação de “comportamentos-alvo”, podem ser úteis, 
especialmente em conjunto com a psicoterapia psicodinâmica como parte de um plano de 
tratamento multimodal. Note que algumas pessoas com narcisismo patológico e TPN podem 
achar essas estratégias muito superficiais e objetivas, ou até mesmo ameaçadoras e 
intrusivas, e reagir com protesto, rebeldia ou abandono prematuro do tratamento. 
A Terapia Comportamental Dialética – Dialectical Behavior Therapy – (DBT), originalmente 
desenvolvida para pacientes com TPB, incorpora a validação como uma importante 
ferramenta terapêutica para promover a autoidentificação e a aceitação e potencialmente 
ajudar a reduzir os sentimentos de vergonha, autocrítica e culpa. Os sintomas acordados ou 
os “comportamentos-alvo” são especificamente focados através de uma tabela de 
desempenho semanal que pode fornecer evidências claras do progresso da mudança. 
Habilidades com foco na regulação emocional e na tolerância ao sofrimento podem ser 
benéficas para pacientes com TPN. Embora isso possa ser muito desafiador para alguns 
pacientes com TPN, para outros, o trabalho exploratório e focado em habilidades pode 
fornecer indicações claras de problemas e progresso e, portanto, apoiar o senso de controle 
interno e autogerenciamento do paciente. 
 
 
 
28 
Modalidades de tratamento adicionais 
O Bom Manejo Clínico – Good Psychiatric Management – para o TPN (GPM-N) usa uma 
abordagem pragmática para facilitar o funcionamento e a regulação da autoestima em 
pacientes com TPN. Baseia-se no gerenciamento de relacionamentos, na psicoeducação 
e na negociação de metas. As vantagens dessa abordagem incluem flexibilidade, 
abertura para inclusão de outras modalidades de tratamento, facilidade de aprendizado e 
intensidade relativamente baixa de tratamento. 
A psicoeducação, adaptada a partir de princípios da DBT, pode melhorar a compreensão 
dos incentivos motivacionais e das experiências emocionais e intrapsíquicas. Isso pode 
fortalecer o senso de controle interno e autogerenciamento dos pacientes narcisistas e 
diminuir a esquiva, além do medo do desconhecido, da perda de controle, dos 
sentimentos e dos processos mentais incompreensíveis. Isso também pode ajudar a 
apoiar a motivação e a coragem dos pacientes para se engajarem ainda mais no 
tratamento, entenderem o propósito e explorarem emoções e conflitos mais profundos. 
A terapia de casais tem se mostrado cada vez mais útil à medida que problemas 
narcisistas frequentemente ocorrem e aumentamna relação entre os cônjuges. A 
vantagem de incluir diferentes perspectivas e oportunidades de realizar análise em cadeia 
e promover a compreensão das reações pode levar tanto à aceitação quanto à mudança. 
No entanto, as discrepâncias, a raiva e o descontentamento entre os cônjuges podem ser 
desafiadores. 
A terapia em grupo pode, em conjunto com o tratamento individual, fornecer exposição 
ativadora e oportunidades corretivas para identificar e enfrentar a vergonha, a 
autossuficiência, a dependência, a não relação e as fantasias narcisistas. A configuração 
do grupo pode, gradualmente, desafiar e estimular a interação com os outros e 
proporcionar oportunidades para aprender e praticar a autotolerância. O equilíbrio entre 
interesses individuais e de grupo pode ser difícil tanto para os pacientes quanto para o 
líder do grupo. 
O tratamento psicofarmacológico pode ser benéfico para transtornos comórbidos do Eixo 
I, como transtorno bipolar, depressão grave ou transtorno de ansiedade. É importante a 
hipersensibilidade desses pacientes aos efeitos colaterais, especialmente aqueles que 
afetam seu funcionamento sexual e intelectual, o que pode contribuir para a sua não 
adesão ou recusa desses tratamentos. Nenhuma farmacoterapia específica provou ser 
eficaz para o narcisismo patológico e o TPN. 
 
 
Conclusões 
O narcisismo e a sua patologia relacionada têm recebido atenção social, principalmente por 
causa de seus padrões de autoengrandecimento, suas provocações interpessoais e suas 
consequências organizacionais ou sociais. Atitudes negativas significativas e estigmatização 
dessa condição mental, infelizmente, se desenvolveram. No entanto, graças à crescente 
atenção clínica e empírica ao narcisismo patológico e ao TPB, nosso conhecimento e nossa 
29 
compreensão do indivíduo por trás do diagnóstico estão mudando. A coocorrência e a 
interação entre o funcionamento de autoengrandecimento consistente e deliberado e a 
vulnerabilidade interna e o sofrimento encobertos foram verificadas em estudos clínicos e 
empíricos. Estudos neurocientíficos recentes também contribuíram para a nossa 
compreensão dos padrões e das deficiências subjacentes que contribuem para a vigilância e 
a reatividade narcísicas. A maioria das pessoas com TPN luta com autoestima flutuante, 
incluindo autoengrandecimento/grandiosidade e vulnerabilidade/inferioridade. Da mesma 
forma, a capacidade empática está presente, mas comprometida e flutuante. A nova 
abordagem focada em traços dimensionais para diagnosticar transtornos de personalidade 
também pode capturar características e padrões psicológicos clinicamente relevantes, além 
do funcionamento externo típico. 
É importante avaliar e focar o narcisismo como um espectro de funcionamento da 
personalidade que ocorre em diferentes contextos e fases da vida. 
Uma diferenciação útil pode ser entre: 
1) narcisismo exagerado em situações específicas ou contextos de vida; 
2) estilo de personalidade narcisista consistente sem patologia narcisista; 
3) narcisismo patológico com diferentes graus de gravidade que ocorrem de forma 
intermitente ou constantemente em contextos específicos; 
4) TPN preenchendo completamente a visão geral do funcionamento da personalidade 
com traços ou critérios de acordo com o DSM-5; 
5) TPN com comorbidades, como transtorno de humor, transtorno do estresse pós-
traumático, transtorno por abuso de substâncias, ou comportamento imoral ou 
antissocial. 
Estratégias de tratamento mais eficazes estão gradualmente se desenvolvendo, focadas na 
construção de aliança terapêutica, na compreensão da complexa coocorrência, nas 
interações entre a grandiosidade autopromovida e a vulnerabilidade autoesgotada e no 
funcionamento cognitivo e emocional da personalidade narcisista, bem como na vida do 
paciente ou nos contextos interpessoais. O aumento da conscientização da sociedade sobre 
a natureza do narcisismo e a complexidade do narcisismo patológico e do TPN é um trabalho 
em andamento que, com sorte, ajudará a reduzir mal-entendidos, condenações e 
preconceitos e tornará o tratamento, para pacientes que lutam com essas condições, mais 
disponível e eficaz. 
 
30 
Literatura sobre o Transtorno de Personalidade Narcisista 
Teoria, pesquisa, diagnóstico e tratamento: 
American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental 
Disorders, 5th Edition (DSM-5). Washington, D.C., Author. 2013 
Campbell K, Miller J (Eds). The Handbook of Narcissism and Narcissistic Personality 
Disorder: Theoretical Approaches, Empirical Findings and Treatments. Hoboken 
NJ, John Wiley & Sons, Inc., 2011 
Diamond D, Yeomans FE, Stern BL, Kernberg OF. Treating Pathological Narcissism 
with Transference Focused Psychotherapy. Guilford Press, 2021 
Huprich S. Narcissistic patients and new therapists – Conceptualization, treatment and 
managing countertransference. Lanham, Maryland, 2008 
Ogrodniczuk JS. (Ed). Understanding and Treating Pathological Narcissism. 
Washington, D.C., American Psychological Association, 2013 
Maccoby M. The Productive Narcissist. The Promise and Peril of Visionary Leadership. 
New York, Broadway Books, 2007 
Ronningstam E. Identifying and Understanding the Narcissistic Personality. New York, 
Oxford University Press, 2005 
Ronningstam E. (Ed). Disorders of Narcissism – Diagnostic, Clinical and Empirical 
Implications. Northvale, NJ, Jason Aronson, 2000 
 
 
Livros-guia 
 
Brown NW. Children of the Self-Absorbed. A grown-up’s guide to getting over 
narcissistic parents. 3rd Ed. Oakland CA, New Harbinger Publications, Inc., 2020 
 
Brown N W. Loving the Self-Absorbed: How to create a more satisfying relationship with 
a narcissistic partner. Oakland CA, New Harbinger Publications, Inc., 2003 
 
 
 
Filmes caracterizando as personalidades narcisistas 
 
Muitos filmes anunciados para capturar personalidades narcisistas ou pessoas com 
funcionamento patológico de personalidade narcisista geralmente destacam as 
características e os padrões interpessoais marcantes e, às vezes, excessivamente 
exagerados. 
 
Filmes americanos: 
À Meia-Luz – Charles Boyer, Ingrid Bergman 
All That Jazz (O Show Deve Continuar) – Roy Scheider 
Psicopata Americano – Christian Bale 
Provocação – Jeff Bridges 
Rick – Bill Pullman, Aaron Stanford 
Minhas Ideias Assassinas – Michael Caine 
O Diabo Veste Prada – Meryl Streep 
Mamãezinha Querida – Faye Dunaway 
Deixe-me Viver – Michelle Pfeiffer 
E o Vento Levou – Vivien Leigh 
Atração Fatal – Michael Douglas, Glenn Close, Anne Archer 
Rain Man – Tom Cruise, Dustin Hoffman 
Memórias – Woody Allen, Charlotte Rampling 
Gente Como a Gente – Donald Sutherland, Mary Tyler Moore 
Cisne Negro – Natalie Portman, Vincent Cassel 
Harry Potter e a Câmara Secreta – Daniel Radcliffe, Rupert Grint 
Blue Jasmine – Cate Blanchett, Alec Baldwin 
Wall Street – Michael Douglas, Charlie Sheen 
 
Filme britânico-americano: 
Alfie, O Sedutor – Jude Law, 2004 
 
Filmes britânicos: 
The King’s Speech – Colin Firth, Geoffrey Rush, Helena Bonham Carter 
Alfie – Michael Caine, 1966 
Dorian Gray – Ben Barnes, Colin Firth 
 
Filme norueguês: 
Headhunters – Aksel Hennie, Synnøve Macody Lund 
 (baseado no romance de Jo Nesbø) 
Filmes franceses: 
Read My Lips – Vincent Cassel e Emmanuelle Devos 
The Piano Teacher – Isabelle Huppert e Benoît Magimel 
 (baseado no romance de Elfriede Jelinek) 
Filme alemão: 
Mostly Martha – Sandra Nettelbeck, Martina Gedeck 
 
 
 
 
 
 
 
http://www.imdb.com/name/nm0377336/?ref_=tt_ov_st
 
NOTAS 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Elsa Ronningstam, Ph.D., é professora associada (PT) na Harvard Medical School e psicóloga 
clínica no McLean Hospital, afiliado ao Gunderson Outpatient Program para tratamento de 
transtornos de personalidadeNarcisismo – do saudável ao patológico
	Transtorno de Personalidade Narcisista
	TPN no DSM-5
	TPN – Um modelo alternativo
	Indivíduos com narcisismo patológico ou TPN
	Variações individuais perceptíveis
	Luta interna e reatividade
	Funcionamento interpessoal
	Funcionamento vocacional
	Explicações de algumas dimensões e facetas do narcisismo
	Grandiosidade – vulnerabilidade
	Perfeccionismo – autocrítica
	Exposição – evitação
	Raiva, vergonha e medo
	Empatia comprometida
	O trauma narcisista
	Comportamento suicida
	Prevalência, gênero e idade
	Aspectos culturais do narcisismo saudável e patológico
	Coocorrência com outros transtornos
	TPN e Transtorno de Personalidade Borderline (TPB)
	TPN e Transtorno de Personalidade Antissocial (TPA)
	TPN e o espectro do transtorno bipolar
	TPN e transtorno depressivo
	TPN e Transtorno por Uso de Substâncias (TUS)
	Tratamento
	Tratamento psicodinâmico e psicanalítico
	Terapia Cognitivo-Comportamental
	Modalidades de tratamento adicionais
	Conclusões
	Literatura sobre o Transtorno de Personalidade Narcisista
	Teoria, pesquisa, diagnóstico e tratamento:
	Livros-guia
	Filmes caracterizando as personalidades narcisistas
	Filmes americanos:
	Filme britânico-americano:
	Filmes britânicos:
	Filme norueguês:
	Filmes franceses:
	Filme alemão:para indivíduos com 
patologia narcisista. 
 
Transtorno de Personalidade Narcisista 
O TPN não tem sido associado às urgências psiquiátricas ou sociais ou aos notáveis custos de 
saúde pública ou mental. No entanto, o TPN tem sido reconhecido como uma condição mental 
urgente e complicada, principalmente ligada aos conflitos excessivos em relações íntimas, nos 
casamentos e nas famílias, ou em contextos sociais relacionados ao trabalho ou às questões 
legais. Características marcantes do TPN, tais como autoengrandecimento4 e autocentrismo, 
geralmente contribuem para pouca sensibilidade interpessoal e comportamentos competitivos ou 
provocativos, assim como para dificuldades em assumir compromissos, colaborações, 
cooperações, proximidade e reciprocidade. Também há um sofrimento pessoal bastante 
significativo, embora este possa ficar escondido e não ser notado pelos outros, ou ser expresso 
de forma aparentemente contraditória em comportamentos provocativos e antagonistas. Algumas 
pessoas com TPN podem apresentar um senso de ética comprometido, acompanhado de 
comportamentos manipuladores, enganadores, corruptos ou de exploração do outro. O TPN 
também pode coocorrer com outras condições mentais que podem tanto escalonar os sintomas 
 
4 Nota dos tradutores: Do original self-enhancing 
7 
relacionados ao narcisismo patológico quanto esconder características narcisistas marcantes, 
como transtorno bipolar, transtorno por uso de substâncias ou transtorno depressivo maior. 
O TPN tem uma origem genética com hipersensibilidade herdada, baixa tolerância à frustração e 
regulação e tolerância emocional comprometida. As interações precoces entre criança e cuidador 
são influenciadas por superproteção, leniência e supervalorização ou, alternativamente, por 
inconsistência, desprezo e falta de confiabilidade. As próprias aspirações dos cuidadores podem 
fazê-los atribuir à criança papéis e expectativas que vão além de sua própria personalidade e das 
tarefas esperadas para aquele estágio do desenvolvimento. Por outro lado, a insegurança dos 
cuidadores pode prejudicar as capacidades especiais e as aspirações apropriadas à idade das 
crianças. Isso contribui para uma hiperestimulação e uma subregulação no desenvolvimento 
precoce da personalidade da criança que resultam em problemas com autoestima, regulação 
emocional e do self e senso de identidade. As crianças que desenvolvem TPN podem ter se 
sentido vistas e valorizadas quando alcançavam ou se comportavam de forma a satisfazer às 
expectativas dos cuidadores, mas ignoradas, rejeitadas ou repreendidas quando falhavam em 
atingi-las. Algumas crianças sentem que nunca poderão corresponder ou superar os seus 
cuidadores idealizados, enquanto outras sentem que não podem se afastar das experiências de 
ser julgadas ou desprezadas por eles. Outro padrão de desenvolvimento é observado em 
crianças que, em uma idade precoce, adquirem autossuficiência em resposta à ausência, à 
ignorância ou à disfunção dos cuidadores. Essas crianças podem, desde cedo, se tornar adultas 
e ter a função de sustento para a família ou de “audiência” para um cuidador disfuncional. 
Alternativamente, elas podem também se tornar parentificadas e assumir as responsabilidades 
adultas pelos irmãos. Para algumas crianças, seu próprio desenvolvimento e suas realizações 
podem ser percebidos como ameaças ao cuidador e contribuir para flutuações ou perda de 
cuidado e valorização parental. A ausência ou a inconsistência na atenção apropriada à idade e o 
apoio interativo, consequentemente, causam flutuações na experiência de como ela é percebida e 
de como ela percebe a si mesma. Isso afeta a compreensão e a percepção tanto do self como 
dos outros e, mais especificamente, das expectativas em relação aos outros. Padrões de apego 
inseguro estão associados ao desenvolvimento do narcisismo patológico e com o TPN. 
 
TPN no DSM-5 
O TPN é definido no DSM-5 (American Psychiatric Association & American Psychiatric 
Association, 2013) como um padrão difuso de grandiosidade, necessidade de admiração e falta 
de empatia, com senso de merecimento interpessoal e tendência à exploração, à arrogância e 
à inveja. Cinco de nove desses critérios precisam estar presentes para o preenchimento do 
diagnóstico de TPN. 
Os nove critérios são: 
DSM-1. Sensação grandiosa da própria importância (p. ex., exagera conquistas e talentos, 
espera ser reconhecido como superior sem que tenha as conquistas 
correspondentes); 
DSM-2. Preocupação com fantasias de sucesso ilimitado, poder, brilho, beleza ou 
 amor ideal; 
DSM-3. Crenças de ser “especial” e único e de que pode ser somente compreendido 
8 
 por, ou associado a, outras pessoas (ou instituições) especiais ou com 
 condição elevada; 
DSM-4. Demanda admiração excessiva; 
DSM-5. Apresenta um sentimento de possuir direitos5 (i.e., expectativas irracionais de 
tratamento especialmente favorável ou que estejam automaticamente de 
acordo com as próprias expectativas); 
DSM-6. Comportamento explorador em relações interpessoais (i.e., tira vantagem 
de outros para atingir os próprios fins); 
DSM-7. Carece de empatia, não tem disposição em reconhecer ou se identificar 
com os sentimentos e as necessidades dos outros; 
DSM-8. Tem inveja dos outros ou acredita que outros têm inveja dele; 
DSM-9. Comportamentos ou atitudes arrogantes e orgulhosas. 
Reproduzido com permissão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos 
Mentais, Quinta Edição (Copyright©2013). Associação Americana de Psiquiatria. 
Todos os direitos reservados. 
O diagnóstico de TPN no DSM tem sido criticado por ser unilateral e baseado principalmente 
em características socialmente externas e em aspectos provocativos das relações 
interpessoais. Por isso acabou falhando em captar toda a gama de patologias narcisistas, 
principalmente a vulnerabilidade interna e a insegurança caracterizada por autocrítica intensa, 
insegurança, confusão, vergonha, solidão e medo. Em vez disso, o diagnóstico enfatizou, 
primariamente, as características externas relacionadas à grandiosidade exibicionista e ao 
funcionamento interpessoal obviamente conflituoso. Aspectos importantes do sofrimento interno 
do paciente e experiências dolorosas de flutuações de autoestima, difusão de identidade e 
desregulação emocional não foram incluídos. Além disso, estudos recentes mostraram que 
indivíduos com TPB apresentam funcionamento empático comprometido com habilidade intacta 
para reconhecer e compreender os sentimentos e as necessidades dos outros, mas uma 
capacidade ou motivação flutuante para participar e se envolver na experiência emocional 
alheia. Em outras palavras, pessoas que sofrem com TPB ou narcisismo patológico não 
carecem de empatia, mas escolhem por abster-se ou têm dificuldades em tolerar o 
envolvimento empático com os outros. Em suma, o diagnóstico de DSM não é considerado 
informativo e orientador, nem para os pacientes, nem para os clínicos e psicoterapeutas, que, 
muitas vezes, demonstram relutância em usá-lo. Enquanto alguns pacientes se opuseram 
fortemente a ser “rotulados” com o TPN, concebendo-o como injusto e danoso, outros optaram 
por abraçar ou se identificar com o diagnóstico de TPB como um meio de autodefinição, poder 
ou atenção, e o diagnóstico, infelizmente, se tornou um campo de batalha. Em outras palavras, 
existe uma necessidade intensa para explicações claras e esclarecimento sobre o diagnóstico e 
a forma como a patologia narcisista influencia o funcionamento do indivíduo, tanto internamente 
quanto do ponto de vista interpessoal. 
Tanto estudos clínicos quanto empíricos confirmaram que sofrimento emocional, vulnerabilidade 
 
5 Nota dos tradutores: Sentimento de possuir direitos excessivos e desproporcionais. Ou senso de merecimento, 
conforme citado anteriormente. 
9 
interpessoal, sensação de inadequação, necessidade decontrole, medo, dor, evitação e 
ansiedade são características importantes do funcionamento da personalidade narcisista. A 
coocorrência e as flutuações entre as características de autoengrandecimento pessoal e a 
vulnerabilidade autodepreciativa também estão presentes na patologia narcisista. Sinais típicos 
de vulnerabilidade narcísica incluem inferioridade e insegurança, esquiva, timidez, reações 
agressivas escondidas, vergonha e negatividade sobre si mesmo persistente. Características 
adicionais frequentemente encontradas em pacientes com TPN são perfeccionismo e busca por 
altos padrões de conquista, acompanhados de autocrítica e crítica sobre os outros, além do 
medo de não atingir as expectativas e falhar. Ademais, inveja crônica, vergonha, raiva, tédio e o 
vazio podem coexistir com hipervigilância e reatividade emocional defensiva, especialmente 
agressividade, crítica e desdém. 
 
TPN – Um modelo alternativo 
Um modelo híbrido com a combinação de dimensões diagnósticas e traços foi incluído no 
DSM-5, Seção III, Modelo Alternativo para Transtornos de Personalidade – AMDP – (APA, 
2013). Este modelo de diagnóstico identifica dificuldades e comprometimentos específicos no 
funcionamento da personalidade, ou seja, na identidade e no autodirecionamento 
relacionados ao self e na empatia e na intimidade que são domínios interpessoais. Além 
disso, existem traços de personalidade específicos que indicam cada transtorno de 
personalidade. As características típicas do TPN (págs. 767 e 768) incluem principalmente 
uma autoestima flutuante e vulnerável e um conjunto de padrões interpessoais. 
O comprometimento moderado ou grave no TPN é encontrado nas seguintes áreas do 
funcionamento da personalidade: 
1. Identidade: Referência excessiva aos outros para autodefinição e regulação da 
autoestima; autoapreciação exagerada6 (inflada ou esvaziada ou oscilando entre os 
extremos); a regulação emocional espelha flutuações na autoestima. 
2. Autodirecionamento: Definição dos objetivos baseada na obtenção de aprovação dos 
outros; padrões pessoais irracionalmente altos, visando ver-se como excepcional, ou muito 
baixos, com base em um senso de merecimento; com frequência, sem consciência das 
próprias motivações. 
3. Empatia: Prejuízo na capacidade de reconhecer ou de se identificar com os sentimentos 
e as necessidades das outras pessoas; excessivamente atento às reações dos outros, mas 
somente se percebidas como relevantes para si; superestimação ou subestimação do 
próprio efeito nos outros. 
4. Intimidade: Relacionamentos em grande parte superficiais e que existem para servir à 
regulação da autoestima; reciprocidade restringida pelo pouco interesse nas experiências 
dos outros e pela predominância de uma necessidade de ganho pessoal. 
 
 
6 Nota dos tradutores: Do original “Self-appraisal” 
10 
 Dois traços de personalidade identificam o TPN: 
 
1. Grandiosidade: Sentimentos de merecimento, declarados ou encobertos; 
egocentrismo; firme apego à crença de ser melhor do que os outros; e condescendência 
com os outros. 
2. Busca de atenção: Tentativas excessivas de atrair e ser o foco da atenção dos outros; 
e busca de admiração. 
Reproduzido com permissão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos 
Mentais, Quinta Edição (Copyright©2013). Associação Americana de Psiquiatria. 
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Este diagnóstico de TPN é definido como uma combinação de problemas significativos 
dentro de quatro áreas de funcionamento da personalidade e pelo menos um dos dois traços 
de personalidade. Além disso, o prejuízo no funcionamento e nas expressões dos traços 
deve ser persistente em diferentes situações pessoais e sociais, estável ao longo do tempo, 
não explicado por outras condições mentais ou médicas e avaliado no contexto do estágio de 
desenvolvimento do indivíduo e no contexto sociocultural. 
 
Este novo modelo de diagnóstico é mais clinicamente significativo e informativo para clínicos 
e pacientes. É mais descritivo e captura uma gama mais ampla do funcionamento da 
personalidade narcisista, incluindo flutuações e variações na gravidade da patologia. Este 
modelo também chama a atenção para a motivação e intenção do indivíduo, assim como 
para padrões de autorregulação interna e interpessoais. Ele conecta flutuações na 
autoestima, ou seja, sentimentos de superioridade e inferioridade, com problemas de 
identidade, e objetivos e motivação inconsistentes. Acima de tudo, concentra-se no 
funcionamento interpessoal complexo, ou seja, na necessidade de apoio dos outros à própria 
autoestima e ao senso de identidade, combinado com a preocupação consigo mesmo, a 
capacidade comprometida de empatia e a desatenção às necessidades e reações dos 
outros. Em suma, flutuações acionadas internamente7 no autoengrandecimento pessoal 
ocorrem em conjunto com uma necessidade intensa da atenção e admiração alheia, assim 
como com distanciamento e desinteresse na relação com os outros. 
 
Ainda sendo um modelo proposto para o diagnóstico de transtornos de personalidade, este 
modelo está servindo para orientar pesquisas visando à identificação do funcionamento 
patológico e dos transtornos de personalidade. 
 
 
Indivíduos com narcisismo patológico ou TPN 
Indivíduos lutando com narcisismo patológico ou TPN se apresentam de forma bem 
 
7 Nota dos tradutores: internally driven 
11 
diferente; na realidade, não há nenhum protótipo-padrão. Alguns são profissionalmente 
bem-sucedidos, apresentam um consistente alto funcionamento e são socialmente bem-
conectados, mostrando apenas reatividade, distanciamento e esquiva em alguns 
contextos. Outros podem apresentar flutuações funcionais ou comprometimentos 
específicos, seja com traços narcisistas, funcionamento do caráter gravemente 
incapacitante, seja acompanhado de outros transtornos mentais, tais como transtorno de 
humor (depressão grave, distimia, transtorno bipolar), transtorno por uso de substâncias ou 
transtorno alimentar. Alguns podem ter condições somáticas que, de diferentes maneiras, 
afetam sua autoestima, sua motivação e seu senso de identidade. Outros ainda podem ter 
um comportamento criminoso ocasional, e aqueles com narcisismo maligno mais grave 
podem ter comportamentos antissociais ou psicopáticos, como vingança violenta, 
exploração dos outros e hostilidade. 
Flutuações no narcisismo patológico e momentos de piora ou melhora do funcionamento 
da personalidade narcisista são frequentemente influenciados por eventos de vida reais 
(por exemplo, laborais, sociais, interpessoais/conjugais, familiares, médicos ou 
financeiros). Tais eventos podem ser percebidos ou vivenciados pelo indivíduo como 
ameaçadores ou destrutivos, de maneira que o levem ao escalonamento de traços 
patológicos e do funcionamento narcísico. Alternativamente, eles também podem ser 
vivenciados como suportivos, confirmadores ou estimulantes, ou até corretivos, levando às 
novas realizações, à autoestima estabilizada e a uma diminuição do funcionamento 
narcisista patológico. 
Pessoas com narcisismo patológico ou TPN podem ter pontos fortes e habilidades em 
determinadas áreas, tais como em sua vida profissional ou social, ou em certos tipos de 
relacionamento nos quais sintam suporte para sua autoestima, para seu senso de 
identidade e/ou para seu funcionamento interpessoal. No entanto, elas ainda podem 
apresentar vulnerabilidades graves ou padrões narcisistas patológicos externos em outras 
áreas, especialmente em relacionamentos íntimos, papéis parentais, determinadas 
situações sociais, profissionais ou relacionadas ao trabalho ou em seus padrões de 
comportamento moral e ético. Consequentemente, elas podem vivenciar a si mesmas e 
parecer de formas diferentes, a depender dos contextos sociais ou interpessoais. A mesma 
pessoa pode se sentir confiante e competente ou agir de forma dominante e assertiva em 
um cenárioe, em outro, ser tímida e evitativa ou insegura, facilmente humilhada e lutando 
com perda de controle, sentimentos de inveja ou ressentimento, ou com medo de falhar ou 
de ser exposta. Além disso, certas circunstâncias e experiências podem evocar ou agravar 
traços narcisistas em resposta às experiências ameaçadoras ou traumáticas. Isso pode 
gerar comportamentos interpessoais provocativos, críticos e agressivos. 
Algumas experiências podem ser percebidas como traumáticas porque assumem um 
significado subjetivo e assustador ou podem ativar um trauma narcisista prévio que, 
consequentemente, pode ameaçar a autoestima da pessoa e o senso de afiliação social, a 
coerência, a estabilidade e o bem-estar. Por outro lado, certos eventos e experiências 
podem ser facilmente vistos como organizadores e consoladores e, portanto, ativando a 
confiança proativa do paciente. 
Algumas pessoas optam por assumir a patologia narcisista como um senso de identidade, 
apresentando-se como “eu sou um narcisista”, especialmente em resposta a ser rotuladas 
12 
ou acusadas de “ser narcisista” ou de ter TPN. Tal autocaracterização pode, 
paradoxalmente, servir a uma função fortalecedora que pode ajudar a proteger a 
verdadeira vulnerabilidade interna ou as lutas interpessoais relacionadas com a autoestima 
e as emoções. A habilidade de autorreflexão e de formar narrativas coerentes e 
significativas de experiências pessoais mais profundas é muitas vezes comprometida. 
 
Variações individuais perceptíveis 
Quando pessoas com narcisismo patológico ou TPN procuram tratamento, elas podem se 
apresentar de muitas maneiras diferentes. Algumas correspondem à expectativa típica de 
pacientes com uma personalidade narcisista por se autopromoverem, serem egocêntricas e 
interpessoalmente provocativas. Outras efetivamente escondem suas características 
narcisistas e podem inicialmente ser amigáveis e sintonizadas, mas, gradualmente, se 
tornam distantes e desconectadas. Algumas apresentam traços corruptos e antissociais, 
enquanto outras se orgulham de seus altos padrões morais e éticos. Algumas são 
arrogantes, assertivas e pretensiosas; outras podem ser modestas e despretensiosas, com 
um ar de graça; e ainda outras podem se apresentar como “fracassadas perpétuas” 
enquanto constantemente impulsionadas por objetivos inatingíveis e grandiosos. Algumas 
podem ser charmosas e amigáveis; outras, tímidas, silenciosas e vulneráveis; e outras, 
dominadoras, agressivas e manipuladoras. Algumas são intrusivas e controladoras; outras 
são evasivas e evitativas. Algumas podem exibir abertamente e sem rodeios as 
características narcisistas mais extremas e os conflitos, mas, ainda assim, manter 
escondidos outros problemas mais significativos da personalidade narcisista. Outras são 
perfeccionistas, impulsionadas por padrões pessoais elevados, extremamente exigentes 
tanto de si mesmas quanto de outros. 
A ausência de sintomas e vivências de sofrimento pode ser uma bênção paradoxal para 
algumas pessoas com TPN. Outras, no entanto, podem lutar com grave sofrimento interno, 
incluindo intensa autocrítica, dúvidas em relação a si mesmas, medo, vergonha, insegurança 
e raiva que pode, ou não, ser expressa. Algumas podem fornecer relatos bem-informados e 
precisos de seu funcionamento narcisista patológico com insights nos padrões interpessoais 
ou contribuindo para as experiências de seu desenvolvimento. Outras podem estar 
totalmente alheias aos seus problemas, colocando a culpa nos outros ou até se sentindo 
forçadas a procurar tratamento. No entanto, os comportamentos indicativos mais comuns do 
funcionamento da personalidade narcisista incluem autoengrandecimento aparente ou 
disfarçado com flutuações na autoestima, sentimentos de vulnerabilidade e inferioridade e 
medo de perder o controle e falhar. Evitação, controle e distanciamento são padrões-chave. 
Ambiguidade e flutuações no senso de identidade são comuns. Algumas pessoas podem 
estar cientes de suas limitações nas relações interpessoais, com funcionamento empático 
comprometido e reações intensas às críticas e ameaças à autoestima, com alta necessidade 
de controle. Outras predominantemente externalizam criticando os outros. Outras ainda 
podem assumir o seu diagnóstico, identificar-se com vários dos traços comuns sem, no 
entanto, identificar e responsabilizar-se pelos seus próprios problemas reais. 
 
Luta interna e reatividade 
13 
Ao contrário da confiança externa, arrogância e insensibilidade, pessoas com narcisismo 
patológico e TPN lutam com um senso de identidade e de self alternante e em conflito. Por 
trás de uma fachada externa e mais notável de autoengrandecimento ou egocentrismo, elas 
podem ser excessivamente autocríticas e cheias de julgamentos. Algumas sofrem com 
perfeccionismo e padrões excepcionalmente altos para si mesmas e, às vezes, para os 
outros também. São comuns reações fortes e extremas quando sentem alguma ameaça à 
sua autoestima, como humilhação, derrota, crítica, fracasso ou inveja dos outros. Tais 
reações podem incluir sentimentos intensos que são expressos abertamente ou de modo 
camuflado (raiva/hostilidade, inveja, vergonha ou medo), mudanças de humor (irritabilidade, 
ansiedade, sintomas depressivos ou elação) e comportamentos de enganar ou retaliar outras 
pessoas (comportamento agressivo, antissocial ou suicida). 
Reações fortes indicam flutuações na autoestima, que pode alternar entre estados de 
excesso de confiança, superioridade e assertividade e estados de inferioridade, insegurança 
e incompetência (grandiosidade e vulnerabilidade). Além de não conhecer suas próprias 
motivações, as pessoas com TPN também podem ter um senso de identidade comprometido 
e não saber quem realmente são ou o que querem. Seu senso de agenciamento (isto é, 
objetivos, direcionamento e determinação) é influenciado pela necessidade de controle 
interno, por manter rigidamente um senso de autossuficiência e evitando qualquer ameaça 
ou desafio à autoestima, com relutância ou incapacidade de confiar nos outros. O 
autoengrandecimento e a preocupação consigo mesmo servem como armadura protetora, 
protegendo ou ocultando baixa autoestima, dura autocrítica, insegurança, inferioridade, 
vergonha, solidão, desconexão e medo. Essa autonegatividade8 interna excessiva, muitas 
vezes erroneamente percebida como transtorno depressivo, pode, paradoxalmente, fazer 
parte do autoengrandecimento narcisista, fornecendo um controle da autodefinição e 
justificando a esquiva (“Eu sou um fracasso”, “Eu não mereço”, “Ninguém pode me entender 
ou me ajudar” etc.). 
 
Funcionamento interpessoal 
Sinais de traços narcisistas ou padrões funcionais dos indivíduos são geralmente 
identificados em suas interações interpessoais. Cônjuges, parentes, amigos ou colegas 
podem notar um padrão de distanciamento evitativo com falta de motivação para se 
relacionar de perto ou, alternativamente, uma busca por atenção ansiosa com expectativas 
ou demandas sobre os outros para satisfazer às suas necessidades e aos seus anseios. 
Maneiras de se relacionar esnobes, arrogantes, agressivas ou competitivas podem ser 
típicas para alguns. Outros podem ser extraordinariamente atenciosos, confiáveis e 
sintonizados, desde que sintam que recebem a aprovação ou o apoio de que precisam, 
enquanto alguns geralmente mostram uma atitude ou maneira de se relacionar mais crítica, 
desdenhosa ou desvalorizadora. 
Pessoas com narcisismo patológico ou TPN podem ser vulneráveis e insensíveis ao 
feedback dos outros. Elas estão atentas à rivalidade e às rejeições percebidas e podem 
facilmente assumir um papel de vítima empoderada, culpando os outros por não ser capazes 
de atingir os seus próprios padrões. Tendências para combater e retaliar as supostas críticas 
 
8 Nota dos tradutores: self-negativity 
14 
ou os desacordos são comuns, mas o recuo para a autossuficiência ou a autoabsorção sem 
reações perceptíveis também pode ser umpadrão enraizado. Inveja, ressentimento e 
animosidade de longa data podem estimular ainda mais o distanciamento. Especialmente em 
relacionamentos de longo prazo, padrões combativos e de retaliação duradouros podem 
ocorrer concomitantemente com dependência até maior. Algumas pessoas podem facilmente 
se sentir criticadas, degradadas, maltratadas ou ignoradas pela pessoa com narcisismo 
patológico, mas algumas podem se sentir, pelo menos parcialmente ou intermitentemente, 
altamente valorizadas, idealizadas e confiáveis. Em pessoas de funcionamento superior com 
narcisismo patológico mais compartimentalizado, os relacionamentos colaborativos 
construtivos de longa data podem coexistir com outros relacionamentos pessoais 
profundamente conflituosos, distantes ou contenciosos. Dificuldades para acessar, identificar, 
tolerar e verbalizar emoções são típicas para indivíduos com narcisismo patológico ou TPN. 
Tais deficiências afetam a sua capacidade de manter relacionamentos próximos e mútuos. 
As tendências de extrair, evitar ou se isolar dos outros podem ser uma forma de sustentar a 
superioridade e as fantasias de autoengrandecimento, ou seja, um “isolamento esplêndido”, 
mas tal afastamento dos outros também pode ser motivado pela vergonha e pelo medo de 
exposição ou fracasso. 
 
Funcionamento vocacional 
A capacidade de trabalhar e permanecer dedicado ao comprometimento profissional tanto 
em tempos de sucesso quanto durante desafios e contratempos é indicação significativa de 
autonomia e competência sustentável que podem estar presentes em pessoas com TPN de 
alto funcionamento. Para aquelas que trabalharam com sucesso em condições estáveis por 
décadas, mudanças repentinas, retrocessos ou interrupções em seu contexto de trabalho 
podem ser traumatizantes do ponto de vista narcísico, levando-as às dúvidas excessivas, às 
autocríticas e à perda da identidade profissional. Algumas têm habilidades excepcionais em 
criatividade, inovação ou liderança. Outras apresentam conquistas temporárias e um 
histórico de realizações ocasionais ou irregulares ou de um feito único excepcional em 
circunstâncias favoráveis. Tudo isso pode indicar uma capacidade real ou potencial que é 
dificultada por mudanças nas condições de trabalho ou por flutuações ou vulnerabilidades 
narcisistas. No entanto, tais conquistas fugazes podem, para algumas pessoas com menor 
capacidade de resiliência, ser os resultados de circunstâncias temporárias favoráveis que 
trazem suporte aos comportamentos egoístas e de autoengrandecimento. 
Indivíduos cujo trabalho inclui tanto experiência própria quanto colaboração ou liderança em 
equipe podem se encontrar repetidamente em situações incontroláveis, sentindo-se 
ameaçados, dispensados ou invadidos pelas opiniões e demandas dos outros. Aspirações e 
visões de sucesso e realizações notáveis são comuns e naturais em jovens que estão no 
início de sua carreira educacional e profissional. O equilíbrio entre autoestima e 
direcionamento e a integração de experiências de sucesso e decepções com realizações de 
competência e limitações são essenciais para o funcionamento contínuo e para o 
desenvolvimento da identidade e do direcionamento vocacional. 
 
 
15 
Explicações de algumas dimensões e facetas do narcisismo 
Grandiosidade – vulnerabilidade 
A grandiosidade tem sido considerada por muito tempo o traço central e a característica mais 
marcante do TPN. No entanto, estudos têm demonstrado que a grandiosidade não só é 
reativa e depende do estado mental quanto também coocorre e flutua com a vulnerabilidade, a 
inferioridade e a insegurança. A grandiosidade, a superioridade e outras estratégias 
autoengrandecedoras podem ser estimuladas por experiências que entram em consonância 
com ideais, aspirações e perfeccionismo, mas também podem ser escondidas em convicções 
internas e fantasias que apoiam o senso de qualidades especiais, únicas ou excepcionais. 
Experiências interpessoais podem afetar os aspectos grandiosos da autoestima, dependendo 
se são percebidas como potencialmente favoráveis ou ameaçadoras. Uma busca contínua e 
geralmente determinada pela aprovação ou admiração dos outros é típica, assim como o uso 
de estratégias interpessoais de autorregulação, como tirar proveito dos outros, demandar 
tratamento especial ou culpar os outros por falhas. No contexto da autoestima e da 
autorregulação, a grandiosidade está intimamente atrelada a esses tipos de padrão de 
autoengrandecimento, que são centrais para o narcisismo patológico e para o TPN. A 
vulnerabilidade, por outro lado, pode estar relacionada à insegurança, à propensão à 
vergonha, ao trauma psicológico subjacente ou à inconsistência e a não confiar em suas 
próprias capacidades e pensamentos. Essa oscilação entre grandiosidade e vulnerabilidade é 
muitas vezes acompanhada por um padrão de pensamento intransigente “preto ou branco” ou 
de pensamento “isso ou aquilo”, especialmente relacionado ao “sucesso ou fracasso” e ao 
“ganhar ou perder”, o que aumenta a insegurança interna, a autocondenação e o medo. 
Ameaças súbitas à autoestima ou a uma autoimagem mais favorável podem levar a um 
aumento temporário de pensamentos e comportamentos grandiosos defensivos, tais como 
fantasias e aspirações, comportamento competitivo ou gabar-se em excesso e demonstrações 
de hostilidade ou de desvalorização dos outros. Alternativamente, tais ameaças também 
podem causar flutuações não esperadas ou perda de autoestima, resultando em sentimentos 
de vergonha, medo e desconexão. A grandiosidade pode ser abalada por breves reações 
depressivas ou por um transtorno depressivo maior, causando uma atitude mais autocrítica e 
mais humilde. A passagem da adolescência para a idade adulta, com expectativas da 
realidade ancoradas à competência, com a obtenção de resultados e cumprimento de 
demandas, pode envolver outro desafio à grandiosidade. Da mesma forma, envelhecer e se 
deparar com a aposentadoria e com as mudanças e limitações típicas dessa fase pode 
também causar aumento da postura de autoengrandecimento ou defensiva do narcisismo 
patológico. Além disso, as mudanças na aparência, beleza, competência física ou saúde, que 
podem ocorrer em qualquer momento da vida, podem causar reatividade narcisista 
significativa em oscilações da autoestima. 
 
Perfeccionismo – autocrítica 
O perfeccionismo com altos padrões e ideais tem sido considerado uma parte significativa do 
funcionamento da personalidade narcisista. Alguns prontamente falam sobre seu 
perfeccionismo, enquanto outros são mais hesitantes e o mantêm em segredo. O 
perfeccionismo tem várias formas e significados, ou seja, a obrigatoriedade de se sentir ou de 
16 
ser perfeito, um requerimento vindo de si mesmo ou de circunstâncias externas. Isso pode 
contribuir para a autoestima vulnerável e para diversos problemas nas relações e realizações, 
levando à vergonha, à autocrítica e à hipervigilância. O perfeccionismo também pode se 
relacionar com a autoapresentação, ou seja, parecer perfeito se torna mais interpessoalmente 
problemático, pois envolve esconder e ocultar tudo o que não é perfeito. Especialmente, pode 
levar a uma relutância em reconhecer ou admitir as próprias imperfeições e procurar ajuda. 
Um terceiro aspecto do perfeccionismo diz respeito às conquistas, ou seja, a um desempenho 
perfeito, como obter uma nota 10 no trabalho, ganhar um prestigioso prêmio ou receber a 
promoção aspirada, que pode se tornar um parâmetro incondicional de autoestima. 
Como padrões perfeccionistas muitas vezes podem ser irrealistas ou inatingíveis, o 
perfeccionismo geralmente é acompanhado por autocrítica que pode se desenvolver em um 
processo de julgamento interno contínuo, levando à autoprivação, à retração e aos 
sentimentos de grave insegurança e inferioridade. 
 
Exposição – evitação 
Ser e sentir-se visto e atendido pode ser muito importante para algumas pessoas com 
funcionamento da personalidade narcisista, e elas desejam e se sentem confiantes dianteda 
exposição e da publicidade. Seu senso de identidade e a autoestima estão fortemente 
relacionados ao desempenho visível, com direções e objetivos. Algumas podem sustentar tal 
funcionamento dedicado mesmo por um longo período de sua vida. A perda súbita dessa 
atenção definidora de identidade, causada por falhas ou desaprovação ou marginalização 
competitiva, pode causar uma crise pessoal com patologia narcisista significativamente 
crescente e reações depressivas concomitantes, abuso de substâncias ou mesmo 
comportamento suicida. Para outras que são mais hipervigilantes e sensíveis, a publicidade 
inevitavelmente envolve o risco tanto de expor as deficiências ou imperfeições como o 
fracasso em atender aos padrões e às expectativas ou de antecipar enfrentar os julgamentos 
negativos dos outros. Isso torna a exposição em situações públicas ou interpessoais 
extremamente desconfortável ou mesmo ameaçadora, e a evasão, ou mesmo o isolamento, 
torna-se a forma consistente e eficaz de se proteger contra os riscos previstos de ser visto. 
 
Raiva, vergonha e medo 
A raiva e a fúria têm sido consideradas afetos centrais no TPN, especialmente indicadas por 
reatividade assertiva, forçada, defensiva ou crítica, e por comportamento interpessoal 
arrogante, imprudente, explorador ou retaliatório. A raiva no contexto do narcisismo patológico 
pode ter uma causa motivacional ou reativa. No contexto interpessoal, pode servir para 
proteger contra o perigo percebido ou para restaurar a autoestima e o poder interno. Quando 
impulsionada pelo direito de sentimento de inveja, pode resultar em atacar, ferir ou derrotar os 
outros. Voltadas para si mesmas, a raiva e a fúria podem levar à autocrítica severa, 
autoaversão e ideações suicidas com intenções de acabar com a própria vida. A raiva e a fúria 
relacionadas ao narcisismo podem ser efetivamente controladas, ocultas, negadas ou 
compartimentadas em indivíduos com narcisismo patológico ou TPN. Também podem ser 
integradas de maneira hábil, bem-planejada e realizada para ganho pessoal ou dano 
17 
interpessoal. 
A vergonha pode ser vivenciada como intrusiva, atormentadora e, às vezes, paralisante, mas 
também pode ser oculta, ignorada, não percebida ou não identificada. A vergonha pode 
também ser expressa como baixa autoestima crônica, por sentimentos de não ser digno de 
algo, de ser ruim e sem valor, ou em comportamento agressivo, explosões de raiva e suicídio. 
A vergonha no contexto do perfeccionismo é uma resposta dolorosa ao enfrentar aspectos 
imperfeitos ou inaceitáveis de si mesmo, pois poderiam ser percebidos por outros em 
contextos interpessoais sociais. Isso pode até ser experimentado como traumatizante pelo 
indivíduo. A vergonha no contexto da raiva, por outro lado, pode servir tanto como um gatilho 
de agressão, ou seja, reações agressivas baseadas na vergonha, ou como um disfarce no 
qual a vergonha contribui para esconder ou evitar a raiva. 
Os sentimentos de medo são frequentemente considerados contraintuitivos ao narcisismo e, 
aparentemente, contraindicando traços narcisistas típicos, como autoengrandecimento 
assertivo, domínio agressivo e conquistas competitivas. No entanto, o medo pode estar 
subjacente às conquistas e ao perfeccionismo e servir tanto como o motivador para o sucesso 
quanto como o cerne da insegurança e antecipação de perda ou fracasso. O medo também 
pode neutralizar a exposição, ou seja, “medo de ser visto”, e levar à procrastinação e à 
evitação. 
Raiva, medo e vergonha muitas vezes ocorrem concomitantemente e, às vezes, podem 
interagir de maneiras complexas e confusas, tornando difícil separar e identificar qual é qual e 
o que causa e contribui para cada emoção. A raiva pode gerar vergonha, e a vergonha pode 
gerar raiva, bem como impotência e medo. Por outro lado, o medo também pode gerar raiva, 
assim como vergonha. 
 
Empatia comprometida 
A empatia refere-se à capacidade de reconhecer e compreender o estado emocional dos 
outros e identificar e sentir seus sentimentos e suas necessidades. A empatia requer 
tolerância e apreciação das próprias emoções, bem como das emoções dos outros. Pesquisas 
recentes identificaram a empatia como um processo complexo envolvendo fatores 
psicológicos internos, interpessoais e neurocognitivos. A empatia é uma parte importante da 
regulação da autoestima e do self e crucial para a capacidade de gerenciar relações 
interpessoais. Estudos mostraram que as pessoas com TPN podem perceber e entender os 
estados e sentimentos internos dos outros, mas podem não ser capazes de se envolver 
emocionalmente e de responder a eles. Em outras palavras, pessoas com narcisismo 
patológico ou TPN têm empatia comprometida e flutuante, mas não têm falta de empatia. 
Egocentrismo, desregulação emocional (insensibilidade ou dificuldades para tolerar e 
processar algumas emoções próprias e dos outros), desregulação da autoestima (flutuações 
entre grandiosidade autorreforçada e vulnerabilidade depreciativa autovigilante) e dificuldades 
mais profundas em sentir cuidado e preocupação com os outros podem contribuir para a 
empatia comprometida. Indivíduos com narcisismo patológico ou TPN podem ser capazes de 
empatizar adequadamente sob certas circunstâncias, quando se sentem no controle ou 
quando sua autoestima não é contestada ou até promovida pela sua capacidade e motivação 
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para respostas empáticas aos outros. Sua motivação e seu desejo de empatia também podem 
variar dependendo do contexto interpessoal e das vantagens percebidas. 
Alguns podem simpatizar mais com os sentimentos positivos e as experiências relacionadas 
ao sucesso dos outros do que com os sentimentos negativos ou derrotas, e vice-versa. 
Aqueles influenciados pela inveja podem ser incapazes de tolerar os eventos e as 
experiências positivas dos outros, enquanto aqueles que tendem a se espelhar à luz dos 
outros podem perceber o sucesso dos outros como uma oportunidade de 
autoengrandecimento. Da mesma forma, aqueles que prontamente sentem desprezo podem 
achar as derrotas e perdas dos outros desprezíveis. Consequentemente, eles escolhem por 
garantir a sua própria superioridade ou o seu perfeccionismo na comparação entre si mesmos 
e o sofrimento do outro. Alguns são capazes de empatizar sob certas circunstâncias, por 
exemplo, quando é solicitado um conselho por um amigo que tem problemas conjugais, mas 
sem a capacidade de relacionar com seus próprios problemas conjugais, como apontado pelo 
cônjuge. Outros têm capacidade limitada de tolerar as emoções que veem nos outros e 
sentem em si mesmos, resultando em sua rejeição e no afastamento da atenção e do cuidado 
de alguém que está sofrendo. 
Em suma, o funcionamento empático comprometido em indivíduos com narcisismo patológico 
ou TPN pode causar conflitos interpessoais, oscilação ou baixa autoestima e subjacente 
insegurança. A percepção do sentimento dos outros pode gerar sensação esmagadora de 
impotência, nojo, vergonha ou perda de controle interno e desencadear fortes reações críticas, 
depreciativas ou agressivas, ou mesmo retraimento emocional e/ou físico. Alguns estão 
cientes e querem responder aos outros, mas se sentem extremamente provocados ou 
incapazes. Outros ignoram deliberadamente os sentimentos ou as necessidades dos outros 
com base em sua própria priorização. O próprio indivíduo pode, ou não, estar ciente de tais 
deficiências ou escolhas e suas consequências. 
 
O trauma narcisista 
Um evento externo da vida que não apenas ameace a autoestima dos indivíduos, mas que 
também promova a perda de esperança, de ideais e de significado pode causar um trauma 
narcisista. Tal trauma é caracterizado por uma sensação de falta de competência com perda 
de valores e de autovalor ou de perda de conexões ou de afiliações aos outros. Isso pode 
potencialmente se tornar esmagador, intolerável e até aterrorizante. É a percepção interna e 
a interpretaçãoindividual do evento externo, bem como as reações esmagadoras que o 
acompanham, que se tornam narcisisticamente traumatizantes, principalmente porque 
desafiam ou danificam as experiências de suporte e apoio tanto de si quanto dos outros. 
Especialmente difíceis para a autoestima são as experiências não esperadas, repentinas, de 
rebaixamentos e outros fracassos relacionados a trabalho, contratempos financeiros, 
falências, rejeições pessoais ou traições, infidelidade, divórcios e problemas legais. Embora 
seja inerentemente traumático, o significado subjetivo específico atribuído a tal evento 
contribui para uma experiência traumática psicológica internalizada. Isso diferencia um 
trauma narcisista de um trauma em que o evento externo real (ou seja, abuso, terror, tortura, 
acidentes, catástrofes, perdas, doenças ou outras condições que causem sofrimento ou 
desafios sociais, físicos e mentais) define e contribui para um impacto interno e uma 
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experiência de sofrimento. O primeiro tipo de trauma causa um trauma associado aos 
sintomas narcisistas, principalmente vergonha esmagadora, humilhação e raiva, enquanto o 
segundo tipo de trauma está relacionado ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), 
principalmente associado à ansiedade grave. 
 
Comportamento suicida 
Pessoas com personalidades narcisistas são particularmente vulneráveis ao suicídio. Estudos 
indicaram que experiências de desafios abruptos ou graduais para a autoestima e o senso de 
controle são os principais fatores contribuintes. A flutuação interna da autoestima 
acompanhada de reações emocionais intensas e relacionamentos interpessoais frágeis é 
outro fator de personalidade que contribui. Em contraste com pacientes com Transtorno de 
Personalidade Borderline (TPB), aqueles com TPN não se envolvem em autolesões 
deliberadas. Além disso, podem ter pensamentos e impulsos suicidas na ausência de 
depressão, ou seja, tanto transtorno depressivo maior ou sintomas depressivos como 
condição psiquiátrica, assim como sentimentos depressivos, ou excesso de autonegatividade, 
relacionados à personalidade. Por exemplo, o suicídio pode servir como meio de ataque ou 
destruição para aspectos percebidos como imperfeitos do self. 
A vulnerabilidade narcisista, ou seja, a suscetibilidade de sentir vergonha, humilhação, raiva 
ou ódio, assim como a sensibilidade ao fracasso e à derrota, torna certos tipos de evento 
estressante de maior risco à vida e de maior risco de suicídio. Tais eventos, considerados 
particularmente perniciosos para pessoas com patologia narcisista, podem incluir problemas 
legais ou disciplinares, mudanças ou perdas em afiliações profissionais, sociais ou pessoais, 
doenças físicas, problemas financeiros e transições e limitações relacionadas à idade e ao 
envelhecimento. 
Ideações suicidas podem servir a funções de autorregulação emocional e interpessoal, e o 
paciente com TPN pode atribuir certo significado ou função subjetiva pessoal ao suicídio. Às 
vezes, a ideia de suicídio pode proteger contra ameaças, traumas ou defeitos e representar 
uma ilusão de maestria, controle ou indestrutibilidade como uma “porta de saída”. Alguns 
podem ter ideações suicidas que podem servir para controlar e processar sentimentos ou 
condições insuportáveis. Essas ideações podem ajudá-los a proteger e manter conexões com 
a vida e promover o incentivo para se manter vivos. Paradoxalmente, para pessoas com esses 
tipos de preocupação suicida persistente, o pensamento e a consciência de sua capacidade 
de acabar com sua própria vida podem ter um efeito organizador e estruturante e, em alguns 
casos, tornar a sua vida mais suportável e até agradável. 
 
Prevalência, gênero e idade 
A prevalência do TPN foi estimada em até 6% na população geral, até 17% na população 
clínica e entre 8,5% e 20% na prática privada ambulatorial. Alguns estudos descobriram que 
o TPN é mais comum e incapacitante em homens, enquanto outros encontraram TPN 
igualmente prevalente em homens e mulheres. No entanto, a patologia narcisista pode ter 
diferentes causas e padrões relacionados a mulheres e homens. Para as mulheres, equilibrar 
20 
o senso de identidade e a autoestima como esposa, mãe e profissional pode ser um desafio. 
Da mesma forma, para os homens, equilibrar as responsabilidades financeiras com o 
relacionamento com a esposa e os filhos pode causar dúvidas e escalonar experiências 
precoces de desenvolvimento. 
A transição da adolescência para a idade adulta tende a aumentar os desafios relacionados 
ao narcisismo, e o narcisismo exagerado com características de narcisismo patológico pode 
ser mais frequente entre adolescentes e adultos jovens. A luta com o senso de identidade, 
aspirações, relacionamentos e pertencimento social em um momento de separação da 
infância e dependência dos pais em relação à individuação e à autonomia adulta pode ser 
especificamente desafiadora. Além disso, esse momento da vida envolve competição, 
navegação nas mídias sociais, exploração e aceitação do senso de identidade e 
incorporação de aspirações e ideais ao decidir e se candidatar a uma trilha 
educacional/vocacional ou profissional. Os distúrbios narcisistas relacionados a esse período 
geralmente são corrigidos por meio de experiências de vida de desenvolvimento e, 
normalmente, não se desenvolvem em TPN adulto. 
O TPN não necessariamente remite com a idade avançada. A meia-idade é um período 
especialmente crítico para o desenvolvimento ou o agravamento do TPN, e a patologia 
narcisista e o transtorno de personalidade também foram encontrados em idosos. Da mesma 
forma, as diferenças culturais e o enfrentamento da aculturação e do ajuste após a migração 
podem escalar reações narcisistas defensivas e traços narcisistas patológicos. 
 
Aspectos culturais do narcisismo saudável e patológico 
A atenção ao contexto cultural e social do indivíduo é muito importante para entender e 
diagnosticar o narcisismo patológico e o TPN. As diferenças entre sociedades e subculturas 
tradicionais, sociais, religiosas ou orientadas para a família versus sociedades e subculturas 
competitivas, individualistas e elitistas modernas tendem a afetar o funcionamento da 
personalidade, especialmente no contexto de mudança, adesão e adoção de novas culturas. 
Alguns problemas centrais no funcionamento da personalidade narcisista podem ser 
altamente influenciados por normas ou mudanças culturais, especialmente relacionadas ao 
senso de identidade, à autoestima e ao funcionamento interpessoal. 
No contexto de mudança ou enfrentamento de diferenças subculturais, as lacunas entre os 
encontros esperados e reais podem ser decepcionantes ou chocantes. Esperanças e visões 
podem se transformar em incerteza, medo e evitação e diminuir a capacidade de abraçar, 
acomodar e crescer no novo contexto cultural ou social. Por outro lado, as mudanças e a 
aculturação também podem abrir oportunidades que permitam o desenvolvimento pessoal 
narcísico proativo relacionado a competências especiais, aspirações, criatividade, carreira, 
influência e senso de pertencimento social ou profissional etc. 
A insegurança e as incertezas relacionadas às diferenças socioculturais podem ocorrer 
concomitantemente com o aumento da competência e do avanço educacional ou profissional 
e com a sensação de adequação e proximidade social e pessoal. Jovens talentosos que se 
mudam para oportunidades educacionais ou de carreira podem lutar com confusão interior, 
vergonha ou culpa ao enfrentar diferenças culturais e pessoais em comparação com a sua 
21 
formação. Casar em uma família com diferentes condições socioculturais ou econômicas 
pode escalonar desafios narcisistas inesperados relacionados a valores, comportamento e 
padrões relacionais. Diferentes culturas ou contextos sociais também têm diferentes estilos 
de personalidade relacionados ao narcisismo, sendo alguns maisvisíveis, focados no 
sucesso, competitivos, extravagantes ou autoafirmativos, enquanto outros tendem a ser mais 
propensos à vergonha e valorizam a modéstia e a autocrítica, com lealdade e compromisso 
social. O ajuste psicológico em qualquer direção pode ser desafiador para o senso de 
identidade do indivíduo e causar conflitos internos com hipervigilância interpessoal e 
insegurança que, erroneamente, podem ser considerados patologia de personalidade 
narcisista. 
 
Coocorrência com outros transtornos 
TPN e Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) 
A TPN coexiste com TPB, e os dois transtornos compartilham desregulação emocional, 
reatividade e relações instáveis. Outras semelhanças incluem sensibilidade à crítica, à 
agressividade e ao senso de merecimento. Pacientes borderline lutam com a intolerância à 
solidão, o comportamento impulsivo e os lapsos do juízo de realidade como principais 
reações à separação ou ao abandono. Pacientes narcisistas, por outro lado, têm intolerância 
às ameaças à autoestima com reações intensas, incluindo manobras cognitivas e 
interpessoais protetoras e sentimentos de raiva e vergonha em resposta às tais ameaças. 
No entanto, embora a reatividade do paciente borderline seja mais consistentemente 
perceptível, as reações narcisistas podem ser expressas em raiva explícita ou 
comportamento de autoengrandecimento ou egoísta, mas também podem permanecer 
escondidas ou imperceptíveis aos outros. A intolerância às emoções intensas e a 
necessidade de controle interno também influenciam as reações no TPN. 
Estudos da patogênese do TPB identificaram apego inseguro, separações e perdas 
parentais e experiências de abuso como significativas para o desenvolvimento da patologia 
borderline. Desafios de desenvolvimento semelhante para a TPN incluem apego evitativo e 
desapego, projeções parentais, expectativas e atribuições de papéis, trauma psicológico e 
inconsistência ou desequilíbrio entre gratificação (mimo, idealização) e confrontações e 
limitações realistas e estabelecimento de limites apropriados para a idade. 
Traços narcisistas podem coexistir em TPB e influenciar o funcionamento borderline e seus 
sintomas. A preocupação autodestrutiva em pacientes narcisistas limítrofes pode ser 
expressa em uma combinação particular de comportamento autodestrutivo controlado, de 
busca de emoção ou de risco, que serve tanto para conquistar sentimentos subjetivos de 
maldade quanto para manter um controle superior. Em outras palavras, a capacidade 
narcisista de maior controle de impulsos está ligada a uma preocupação borderline com 
autodestrutividade, levando a uma experiência superior de equilíbrio entre a vida e a morte, 
entre o controle e a destrutividade. Quando os traços borderline coocorrem com TPB, o 
paciente pode ser mais capaz de tolerar e processar emoções e se importar com desafios 
interpessoais. 
 
22 
TPN e Transtorno de Personalidade Antissocial (TPA) 
O TPN pode coexistir com o Transtorno de Personalidade Antissocial (TPA) e sua variante, 
a psicopatia. Ao contrário daquelas com TPA, as pessoas com TPN normalmente não 
apresentam comportamento antissocial recorrente, mas podem ocasionalmente cometer 
atos criminosos em estado de raiva ou competição. Elas podem ser motivadas pelo 
autoengrandecimento para alcançar ganhos potenciais ou para evitar exposição e derrota 
esperadas. Pessoas com TPA demonstram desonestidade mais persistente e recorrente, 
falhas no comportamento moral e ético, frieza, desrespeito, manipulação e comportamento 
de risco. Na exploração em pessoas antissociais, é mais provável que haja consciência 
disso e seja ativamente relacionada ao ganho material ou sexual, enquanto as pessoas com 
TPN tendem a tirar vantagem dos outros de forma passiva ou involuntária como parte de 
sua autorregulação e seu autoengrandecimento. A capacidade emocional empática está 
prejudicada em ambos os transtornos. 
Quando traços narcisistas coexistem com TPA e psicopatia, a combinação de 
autoengrandecimento e funcionamento moral e ético comprometido pode ser refletida em 
abuso de drogas e álcool, estilo de vida antissocial e criminoso cronicamente instável, 
impulsividade e busca de estimulação. Algumas pessoas com TPN que se apresentam mais 
perto da faixa da psicopatia podem ser impiedosamente insensíveis, sentir-se no direito de 
ser exploradoras, charmosas e astutas, com comportamento manipulador e sádico. 
 
TPN e o espectro do transtorno bipolar 
O autoengrandecimento no TPN e a elevação do humor (hipomania) em transtornos 
bipolares podem parecer semelhantes, mas eles têm origem e fenomenologia distintas. O 
autoaprimoramento e o aumento da autoestima no TPN representam um padrão 
caracterológico de longo prazo, acompanhado de reações intensas às ameaças percebidas 
à autoestima. Pessoas com transtorno bipolar têm mudanças de humor autônomas 
subjacentes que, em estados elevados, podem causar autoestima temporariamente inflada. 
Pacientes com transtorno bipolar em hipomania ou em fases agudas de mania podem 
apresentar algumas das características centrais do TPN, ou seja, autoaprimoramento, 
autocentramento, senso de merecimento, insensibilidade e comportamento arrogante, 
pretensioso e exibido. Diferenças notáveis são que os pacientes com TPN buscam mais 
ativamente a admiração, mostrando desprezo e desvalorização crítica dos outros, raiva 
vingativa e negação. Além disso, não há evidência de uma estrutura de caráter narcisista ou 
características consistentes do narcisismo patológico em pacientes bipolares quando eles 
estão eutímicos. 
Quando a bipolaridade e o narcisismo patológico coocorrem, pode haver um processo 
progressivo interativo em que os eventos e as experiências que afetam o funcionamento da 
personalidade narcisista podem gerar mudanças de humor, que podem ter um grande 
impacto na autoestima narcisista e na desregulação afetiva. Consequentemente, em 
algumas pessoas com TPN, a elevação do humor, combinada com a capacidade de integrar 
alto nível de energia e de atividade, pode levar aos períodos de funcionamento produtivo de 
muito sucesso, resultando em realizações profissionais ou criativas valiosas ou mesmo 
excepcionais. Em outras, que sentem o seu senso de controle ameaçado por mudanças de 
23 
humor, as elevações de humor podem ser extremamente desconfortáveis e até 
assustadoras. 
 
TPN e transtorno depressivo 
Os sintomas depressivos são relativamente comuns em pacientes com TPN. Os indicadores 
mais frequentes são perda de interesse e prazer, baixa energia e um estado mental 
consistentemente negativo. Sentimentos de vergonha, desesperança, vazio e falta de 
sentido geralmente estão subjacentes a esses sinais de depressão. A depressão reativa 
geralmente ocorre concomitantemente com a autoestima ameaçada ou esgotada, causada 
por derrotas, fracassos ou perdas. As vivências individuais de perda de status, controle ou 
senso de competência ou agenciamento podem gerar fortes sentimentos de inutilidade, 
impotência, inveja ou raiva. Uma autonegatividade mais consistente com autocrítica ou ódio 
autodirigido, combinada com um profundo sentimento de ser um fracasso e incapaz de 
atingir os seus próprios padrões ou ideais, pode contribuir para sintomas depressivos, 
distimia ou anedonia. Pacientes com narcisismo patológico ou TPN podem ter dificuldades 
em identificar tais sentimentos e descrever sua causa e seu contexto, mas tendem a 
apresentar e descrever sintomas típicos de depressão. 
Desafios narcisistas relacionados à vida, como atingir a meia-idade e o envelhecimento, 
também podem gerar padrões crônicos de desvalorização, amargura, ressentimento ou 
pessimismo relacionados à perda de propósito e funções importantes na vida diante de 
limitações e solidão. Paradoxalmente, indivíduos com narcisismo patológico ou TPN 
também podem, devido à baixa tolerância ao afeto ou à incapacidade de identificar ou 
prestar atenção nas emoções negativas, se envolver em diferentes maneiras de evitar taisestados de sentimentos avassaladores. Ideações e planos suicidas podem, como 
mencionado acima, na ausência de depressão, servir para essa fuga. Da mesma forma, o 
uso de substâncias, os jogos de azar ou outras atividades escapistas podem ser motivados 
por emoções ou preocupações negativas subjacentes graves. 
O transtorno depressivo, ou os sintomas em pacientes com narcisismo patológico ou TPN, 
coocorre com a patologia narcisista subjacente grave. Consequentemente, é muito 
importante na avaliação e no planejamento do tratamento considerar o funcionamento da 
personalidade do paciente e os sentimentos subjacentes, bem como o seu contexto de vida 
e o significado subjetivo de eventos de vida específicos ou as circunstâncias em andamento. 
Muitas vezes, a depressão nesses pacientes está principalmente relacionada à 
autonegatividade narcisista, vulnerabilidade e reatividade, e pode, ou não, ser tratável ou 
remissível com tratamento psicofarmacológico, EMT ou ECT. Em vez disso, ela precisa ser 
abordada em uma psicoterapia combinada de apoio e gradualmente exploratória. 
 
TPN e Transtorno por Uso de Substâncias (TUS) 
O TPN pode ser um fator predisponente ou uma consequência secundária do TUS, mas as 
duas condições também podem ser recíprocas e escalonar mutuamente uma à outra. Além 
de servir a uma função defensiva contra sentimentos intoleráveis, o uso de substâncias 
pode, paradoxalmente, também ter um efeito sustentador e até mesmo potencializador na 
24 
autoestima, no senso de domínio e de controle em pessoas com TPN. Da mesma forma, o 
uso de substâncias também pode afetar a sua capacidade de se relacionar com uma melhor 
flexibilidade interpessoal e tolerância. Algumas pessoas de alto funcionamento com TPN e 
dependência de substâncias controladas, principalmente o álcool, podem ter a capacidade 
de esconder e regular o seu consumo. Por longos períodos, elas podem até ser capazes de 
manter a competência profissional e a carreira de sucesso enquanto se orgulham de 
esconder e controlar o seu vício. No entanto, para uma parcela das pessoas com TPN, o 
uso de substâncias pode induzir um senso de onipotência com aumento de comportamento 
de risco e prejuízo da capacidade de julgamento e autopreservação, o que, em última 
análise, pode ser fatal e levar ao suicídio. Para outras, elas se permitem uma devoção às 
substâncias que pode servir como um retiro protetor que justifica evitar o envolvimento. 
 
Tratamento 
O indivíduo muitas vezes livre de sintomas perceptíveis de TPN geralmente busca 
tratamento, principalmente devido às crises agudas causadas por falhas ou perdas 
vocacionais ou pessoais, pedidos ou ultimatos de família, empregador ou tribunal, ou no 
contexto de um crescente sentimento de insatisfação ou insignificância em sua própria vida. 
Além disso, a coocorrência de outras condições mentais incontroláveis, como o uso de 
substâncias ou o transtorno de humor, pode motivar ou reforçar o tratamento. O nível de 
motivação varia de acordo com as experiências de urgência, necessidade ou ultimato do 
paciente. Além disso, a ausência versus a disponibilidade de fontes externas de apoio, que 
podem ajudar a sustentar a função narcisista individual e o estilo de vida, também influencia 
a motivação e a conexão no tratamento. 
A construção da aliança é desafiadora, pois pacientes com TPN tendem a ser críticos, 
evitativos ou desinteressados. Outros podem ser sintonizados, articulados e sedutores 
enquanto ainda se escondem e evitam abordar problemas reais. As observações do 
terapeuta sobre o funcionamento dos pacientes narcisistas muitas vezes não concordam 
com as próprias experiências dos pacientes ou as formulações de seus problemas. Alguns 
aspectos da patologia narcisista podem ser mais perceptíveis externamente ou 
provocativos, mas o paciente pode desconhecê-los, ou ser incapaz ou ser resistente em não 
querer resolver tais problemas em um estágio inicial do tratamento. Por outro lado, o 
paciente pode prontamente identificar e lutar com problemas aparentemente irrelevantes ou 
descartados por outros, incluindo os terapeutas. 
Alguns pacientes podem iniciar o tratamento com descrições ostensivamente fixas e 
convincentes de si mesmos e de seus problemas, que inicialmente implicam os padrões de 
personalidade narcisista ou o diagnóstico de TPN. Explorações posteriores podem revelar 
que tais autoatribuições diagnósticas servem para controlar ou manobrar interações 
conjugais ou familiares conflituosas e acusatórias, em vez de indicar a própria consciência e 
as vivências de problemas relacionados ao narcisismo consigo mesmo e com os outros. 
Outros podem ter experiências negativas ou traumas profundamente enraizados que 
causaram o desenvolvimento do funcionamento patológico narcisista, e pode levar um 
tempo significativo para construir alianças e confiança até que possam ser acessíveis ao 
processo de psicoterapia. 
25 
Para alguns pacientes, a possibilidade de confirmar a patologia narcísica ou receber o 
diagnóstico de TPN ao iniciar o tratamento pode ser extremamente desafiadora e gerar 
profunda vergonha e desesperança. Esses pacientes muitas vezes obtiveram informações 
injustamente tendenciosas e negativas sobre narcisismo e TPN e podem precisar dos 
benefícios de uma psicoeducação diagnóstica inicial. Alternativamente, alguns pacientes 
podem se beneficiar mais concentrando o tratamento em seus próprios objetivos com 
escolha, compreensão e processamento de sua própria compreensão e vivência de seus 
problemas. 
Recomenda-se fortemente uma abordagem flexível, colaborativa e exploratória de 
tratamento, ajustada ao funcionamento, à motivação e ao grau de autoconsciência e 
capacidade autorreflexiva do paciente. É necessário equilibrar os impulsos dos pacientes 
para rejeitar e desvalorizar o terapeuta e abandonar o tratamento, com esforços para 
incentivá-los e apoiá-los a enfrentar e refletir sobre suas próprias experiências e seus 
comportamentos. Chegar a um acordo mútuo de compreensão do propósito de cada 
paciente para buscar tratamento, metas, capacidade psicológica individual para a mudança 
e motivação é a tarefa inicial mais importante. 
O terapeuta ou clínico deve focar os problemas vivenciados como urgentes e relevantes 
para o paciente e identificar a sua própria compreensão e descrição desses problemas. É 
importante engajar a própria curiosidade do paciente, o senso de ação e o envolvimento 
colaborativo ativo. Com alguns pacientes, isso pode levar muitas sessões e ser um 
processo integrado com a construção de uma aliança terapêutica. Igualmente importante é 
aderir a uma atitude terapêutica respeitosa, neutra, atenta e focada em tarefas. Tendo em 
mente que muitas características e padrões narcisistas marcantes podem servir a uma 
função protetora para o senso frágil de identidade, o controle interno e a autoestima do 
paciente, isso pode ajudar a orientar e equilibrar a abordagem e a escolha do terapeuta de 
foco e de intervenções. 
A escolha de intervenções e estratégias terapêuticas deve ser ajustada aos problemas e ao 
funcionamento específico do paciente. A motivação, a curiosidade e a capacidade de se 
relacionar e refletir são os fatores principais a ser considerados, bem como as 
circunstâncias externas na vida pessoal, social ou profissional do paciente que apoiam ou 
interferem no tratamento. Diferentes modalidades estão disponíveis. Algumas são 
especificamente adaptadas para TPN, outras podem ser úteis para alguns pacientes 
narcisistas, mas não para outros. 
 
Tratamento psicodinâmico e psicanalítico 
A psicoterapia psicodinâmica é considerada há muito tempo o principal tratamento para 
transtornos de personalidade, incluindo o TPN. Essa modalidade se concentra no 
processamento e nos conteúdos relacionados ao funcionamento do self e das relações 
interpessoais. A esquiva de emoções e experiências, relacionadas tanto ao passado quanto 
ao presente, também é foco de atenção. A abordagem psicodinâmica usa a exploração

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