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TPN Básico Uma visão geral da identificação, do diagnóstico e do tratamento do Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN) 4a Edição Elsa Ronningstam, Ph.D. McLean Hospital Harvard Medical School 2022 2 Tradução para o português pelo Ambulatório para o Desenvolvimento dos Relacionamentos e das Emoções (ADRE) do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-HCFMUSP) – 2022 Marcos S. Croci, M.D. Marcelo J. A. A. Brañas, M.D. Eduardo Martinho Jr., M.D. 3 NARCISISMO – DO SAUDÁVEL AO PATOLÓGICO 5 TRANSTORNO DE PERSONALIDADE NARCISISTA 6 TPN NO DSM-5 7 TPN – UM MODELO ALTERNATIVO 9 INDIVÍDUOS COM NARCISISMO PATOLÓGICO OU TPN 10 VARIAÇÕES INDIVIDUAIS PERCEPTÍVEIS 12 LUTA INTERNA E REATIVIDADE 12 FUNCIONAMENTO INTERPESSOAL 13 FUNCIONAMENTO VOCACIONAL 14 EXPLICAÇÕES DE ALGUMAS DIMENSÕES E FACETAS DO NARCISISMO 15 GRANDIOSIDADE – VULNERABILIDADE 15 PERFECCIONISMO – AUTOCRÍTICA 15 EXPOSIÇÃO – EVITAÇÃO 16 RAIVA, VERGONHA E MEDO 16 EMPATIA COMPROMETIDA 17 O TRAUMA NARCISISTA 18 COMPORTAMENTO SUICIDA 19 PREVALÊNCIA, GÊNERO E IDADE 19 ASPECTOS CULTURAIS DO NARCISISMO SAUDÁVEL E PATOLÓGICO 20 4 COOCORRÊNCIA COM OUTROS TRANSTORNOS 21 TPN E TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE (TPB) 21 TPN E TRANSTORNO DE PERSONALIDADE ANTISSOCIAL (TPA) 22 TPN E O ESPECTRO DO TRANSTORNO BIPOLAR 22 TPN E TRANSTORNO DEPRESSIVO 23 TPN E TRANSTORNO POR USO DE SUBSTÂNCIAS (TUS) 23 TRATAMENTO 24 TRATAMENTO PSICODINÂMICO E PSICANALÍTICO 25 TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL 27 MODALIDADES DE TRATAMENTO ADICIONAIS 28 CONCLUSÕES 28 LITERATURA SOBRE O TRANSTORNO DE PERSONALIDADE NARCISISTA 30 TEORIA, PESQUISA, DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO: 30 LIVROS-GUIA 30 FILMES CARACTERIZANDO AS PERSONALIDADES NARCISISTAS 31 FILMES AMERICANOS: 31 FILME BRITÂNICO-AMERICANO: 31 FILMES BRITÂNICOS: 31 FILME NORUEGUÊS: 31 FILMES FRANCESES: 31 FILME ALEMÃO: 31 5 Narcisismo – do saudável ao patológico O termo narcisismo se refere aos sentimentos e às atitudes em relação ao próprio self (eu). É o cerne da autoestima e das emoções, que influencia a forma como as pessoas percebem e se relacionam com os outros. O narcisismo normal envolve um saudável senso de autovalorização e de autoapreço positivo1 com autoaceitação, curiosidade e compaixão, incluindo orgulho e satisfação. Do ponto de vista interpessoal, motiva respeito e conexão com os outros, assim como um compartilhamento recíproco de interesse genuíno com os pensamentos e sentimentos dos outros, ou seja, comprometimento e empatia. Isso também promove uma habilidade para lidar com situações desafiadoras para tolerar tanto críticas e derrotas, assim como emoções autoconscientes, como vergonha, inveja, humilhação, frustração e culpa. Os ideais desejados e as aspirações alcançáveis se relacionam em um senso de agenciamento, competência, responsabilidade, controle e domínio interno de pensamentos, sentimentos, ações e impulsos. Acima de tudo, está relacionado à capacidade de compreender e tolerar a raiva. Isso promove uma autoavaliação com habilidade para avaliar e lidar com situações ameaçadoras e estressantes, assim como perdas. Além disso, a autopreservação e o senso de merecimento normal2 3, isto é, a sobrevivência e a proteção do próprio self e do território também são expressões de um narcisismo normal. Tudo isso contribui para um senso integrado e equilibrado de identidade, que se reflete na capacidade de estabelecer relações íntimas e próximas, bem como na tolerância às divergências e discordâncias. O narcisismo exagerado ou estilo de personalidade narcisista, caracterizado por autopromoção, competitividade, atitudes críticas ou condescendentes em relação aos outros e às manobras sociais, é mais perceptível em certas faixas etárias ou subculturas na sociedade de hoje em dia. Embora isso possa levar às interações interpessoais provocativas e desafiadoras em contextos privados, sociais ou profissionais, não é geralmente um indicador de patologia de personalidade ou transtorno psiquiátrico. Está mais relacionado à autodeterminação inabalável, ignorância e arrogância, intolerância aos obstáculos e autopromoção e preocupações consigo mesmo exageradas em algumas situações e contextos. O narcisismo patológico difere do narcisismo normal e saudável principalmente devido à flutuação ou desregulação da autoestima e das emoções. Pessoas que apresentam um narcisismo patológico se esforçam para elevar a si mesmas a fim de proteger e sustentar um ego grandioso, mas frágil, e para se afastar de ameaças e sentimentos de inferioridade causados por experiências e sentimentos negativos, principalmente quando relacionados ao self. Apesar de a grandiosidade narcisista geralmente estar associada a uma sobrevalorização das próprias qualidades e intenções positivas e valiosas, estudos recentes mostraram tanto a coocorrência como as interações entre grandiosidade e vulnerabilidade. A autonegatividade excessiva, ou seja, ser o pior, uma falha, sem valor ou indigno, pode, paradoxalmente, estimular e fortalecer o engrandecimento de si mesmo com esforços excepcionais, controle ou esquiva efetiva. Por outro 1 Nota dos tradutores: Do original “positive self-regard” 2 Nota dos tradutores: Do original “entitlement” 3 “Devido à sua associação ao narcisismo patológico, isto é, às expectativas irrealistas e exigências interpessoais exageradas e autoritárias, o senso de merecimento como um aspecto fundamentalmente saudável do narcisismo normal e do funcionamento normal da vida tende a ser facilmente desconsiderado.”(Ronningstam, 2005) 6 lado, vulnerabilidade com baixa autoestima, insegurança, dúvidas sobre si mesmo e propensão para comparações autodepreciativas e vergonha podem ser ocultadas por apresentações e atitudes extrovertidas, confiantes, altamente inspiradoras e de autopromoção. Dificuldades em tolerar, processar e regular emoções, especialmente raiva, vergonha e inveja, são comuns. Tudo isso contribui para as dificuldades e lutas subjetivas e internas para os indivíduos com essa patologia. O narcisismo patológico pode ser expresso em reações temporárias e traços, ou em um transtorno de personalidade estável e duradouro. Tanto o narcisismo patológico quanto o Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN) podem coexistir com áreas e períodos de alto funcionamento, competência e sensação de autonomia, ou com qualidades, capacidades, afiliação social ou proximidade interpessoal intermitentes. Quando o nível de narcisismo patológico é menos grave, desencadeado em certas situações, ou limitado a um conjunto de características específicas de caráter, ele é referido como perturbação narcisista ou traços narcisistas. O termo diagnóstico TPN refere-se a um funcionamento estável da personalidade de longo prazo que preenche os critérios do DSM-5 para o TPN ou de qualquer outra descrição diagnóstica compreensiva. Independentemente do nível de gravidade, o narcisismo patológico pode ser evidente e marcante, ou internamente escondido, e, à primeira vista, pouco notável. Flutuações e interações entre o funcionamento de personalidade grandioso e vulnerável também são dependentes de contextos de vida e eventos, que podem tanto desafiar ou apoiar o funcionamento de personalidade narcisista e, consequentemente, tanto aumentar quanto diminuir a patologia narcisista. Envolvimento no trabalho ou estudos e afiliações específicas comunitárias ou interpessoais podem eventualmente proteger ou aumentar a autoestima e equilibrar as dificuldades com a autoestima ou a ausência de interações próximas, mútuas e afetuosas. Por outro lado, a falha em se adaptar às exigências de trabalho ou estudo, ou em corresponder às expectativas sociais ou comunitárias, pode ser extremamente desafiadorada relação terapêutica, bem como de fantasias, sonhos e desejos para promover mudanças na maneira de pensar e de se relacionar do paciente. 26 A psicoterapia focada na transferência para TPN, TFP-N, é um tratamento focado na relação objetal que foca a difusão da identidade do paciente, promovendo capacidade de autorreflexão, tomada de perspectiva e tolerância e regulação emocional. Mais especificamente, presta atenção nas defesas narcisistas dos pacientes, na agressividade subjacente, nas atuações do senso de merecimento e grandiosidade, na sensibilidade, nos sentimentos de inveja, na humilhação, na vergonha e na inferioridade. Com foco exploratório nos estados internos e nos comportamentos dos pacientes, a TFP-N usa esclarecimento, confrontações e interpretações como técnicas principais. O foco está na interação entre o terapeuta e o paciente, e tanto a transferência quanto a contratransferência são avaliadas e integradas ao processo terapêutico. A estratégia é flexível e adaptável ao alcance e nível da patologia narcísica, usando uma técnica menos interpretativa em pacientes com estrutura de personalidade mais frágil. O Tratamento Baseado em Mentalização (MBT) visa melhorar a capacidade reflexiva do paciente, isto é, a compreensão dos estados mentais próprios e dos outros, incluindo pensamentos, atitudes, emoções e intenções. Estudos mostraram que essa capacidade reflexiva ou mentalizadora pode melhorar o funcionamento patológico da personalidade, em particular dos estados mentais rígidos e inflexíveis, e desconectar os próprios pensamentos e as experiências genuínas. Ajustada ao TPN, essa modalidade tem o objetivo de engajar a curiosidade, a flexibilidade e a resiliência do paciente na elaboração e na compreensão de si mesmo e dos outros, especialmente em situações interpessoais vivenciadas como estressantes ou desafiadoras. Usando uma abordagem terapêutica mais suportiva, validante, exploratória, colaborativa e acolhedora, essa modalidade pode melhorar a regulação da autoestima, a reatividade e os relacionamentos interpessoais. A Psicoterapia Orientada para o Esclarecimento (POE) concentra-se na autorregulação e na motivação nas interações e nos relacionamentos interpessoais do paciente. Ao diferenciar os motivos autênticos do paciente das manobras interacionais estratégicas, essa modalidade auxilia o paciente a identificar problemas interpessoais e insatisfações. A exploração de situações específicas aumenta a consciência do paciente sobre necessidades internas, motivos, suposições e afetos, especialmente aqueles relacionados à vergonha e à raiva, que motivam manobras compensatórias interpessoais. O esclarecimento e o processamento de esquemas disfuncionais podem levar a um novo comportamento autêntico e à compaixão em relação a si mesmo e aos outros. A psicoterapia psicanalítica intensiva com duas ou três sessões semanais é indicada quando os pacientes têm sintomas narcisistas mais graves ou experimentam consequências agudas de seus sintomas. É apropriada para pacientes que podem se beneficiar de uma abordagem exploratória ativa e interativa e para quem a interação face a face e o contato visual são importantes para contrabalançar o distanciamento e o não engajamento emocional. A psicanálise com três a cinco sessões por semana ao longo de vários anos é recomendada para pacientes com narcisismo patológico ou TPN que estão motivados e que tenham alto funcionamento. É preciso também boa capacidade para associações livres, insights e relações interpessoais e alta sensibilidade afetiva e tolerância. 27 Terapia Cognitivo-Comportamental Terapia focada em esquema para TPN, combina técnicas cognitivas, comportamentais, experienciais e baseadas em transferência para trabalhar com modos de esquema. O tratamento tem como foco mudar as relações íntimas do paciente, incluindo tanto a relação com o terapeuta quanto outras relações significativas. O objetivo do tratamento é promover um modo adulto saudável de agir, ajudando o paciente a reparar e regular afetos narcisistas significativos. Estratégias cognitivas e comportamentais gerais, combinadas com o confrontamento empático e as tarefas para casa, são usadas para lidar com distorções cognitivas narcisistas típicas, como o pensamento “preto ou branco” ser desvalorizado e privado pelos outros e o perfeccionismo. A Terapia Interpessoal Metacognitiva (MIT), um tratamento manualizado em etapas para TPN, começa com uma abordagem autobiográfica para obter uma compreensão compartilhada dos problemas dos pacientes e, em seguida, promove o reconhecimento e a conscientização de sua funcionalidade e estados mentais, esquemas de relacionamento interpessoal e indicações de mau autogerenciamento e atuação. A mudança é alcançada através da estimulação de percepções baseadas na realidade e na tomada de perspectivas, e pela identificação da grandiosidade normal, estimulando uma distância crítica do comportamento antigo e construindo novos esquemas de pensamento, sentimento e relações interpessoais que promovam autogerenciamento e autonomia. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), em grande parte projetada para pacientes com TPB, pode ser benéfica para alguns pacientes com narcisismo patológico e TPN que são mais naturalmente orientados por estratégias comportamentais e voltadas à ação e precisam obter controle dos pensamentos e comportamentos. Três estratégias, ou seja, psicoeducação, validação e identificação de “comportamentos-alvo”, podem ser úteis, especialmente em conjunto com a psicoterapia psicodinâmica como parte de um plano de tratamento multimodal. Note que algumas pessoas com narcisismo patológico e TPN podem achar essas estratégias muito superficiais e objetivas, ou até mesmo ameaçadoras e intrusivas, e reagir com protesto, rebeldia ou abandono prematuro do tratamento. A Terapia Comportamental Dialética – Dialectical Behavior Therapy – (DBT), originalmente desenvolvida para pacientes com TPB, incorpora a validação como uma importante ferramenta terapêutica para promover a autoidentificação e a aceitação e potencialmente ajudar a reduzir os sentimentos de vergonha, autocrítica e culpa. Os sintomas acordados ou os “comportamentos-alvo” são especificamente focados através de uma tabela de desempenho semanal que pode fornecer evidências claras do progresso da mudança. Habilidades com foco na regulação emocional e na tolerância ao sofrimento podem ser benéficas para pacientes com TPN. Embora isso possa ser muito desafiador para alguns pacientes com TPN, para outros, o trabalho exploratório e focado em habilidades pode fornecer indicações claras de problemas e progresso e, portanto, apoiar o senso de controle interno e autogerenciamento do paciente. 28 Modalidades de tratamento adicionais O Bom Manejo Clínico – Good Psychiatric Management – para o TPN (GPM-N) usa uma abordagem pragmática para facilitar o funcionamento e a regulação da autoestima em pacientes com TPN. Baseia-se no gerenciamento de relacionamentos, na psicoeducação e na negociação de metas. As vantagens dessa abordagem incluem flexibilidade, abertura para inclusão de outras modalidades de tratamento, facilidade de aprendizado e intensidade relativamente baixa de tratamento. A psicoeducação, adaptada a partir de princípios da DBT, pode melhorar a compreensão dos incentivos motivacionais e das experiências emocionais e intrapsíquicas. Isso pode fortalecer o senso de controle interno e autogerenciamento dos pacientes narcisistas e diminuir a esquiva, além do medo do desconhecido, da perda de controle, dos sentimentos e dos processos mentais incompreensíveis. Isso também pode ajudar a apoiar a motivação e a coragem dos pacientes para se engajarem ainda mais no tratamento, entenderem o propósito e explorarem emoções e conflitos mais profundos. A terapia de casais tem se mostrado cada vez mais útil à medida que problemas narcisistas frequentemente ocorrem e aumentamna relação entre os cônjuges. A vantagem de incluir diferentes perspectivas e oportunidades de realizar análise em cadeia e promover a compreensão das reações pode levar tanto à aceitação quanto à mudança. No entanto, as discrepâncias, a raiva e o descontentamento entre os cônjuges podem ser desafiadores. A terapia em grupo pode, em conjunto com o tratamento individual, fornecer exposição ativadora e oportunidades corretivas para identificar e enfrentar a vergonha, a autossuficiência, a dependência, a não relação e as fantasias narcisistas. A configuração do grupo pode, gradualmente, desafiar e estimular a interação com os outros e proporcionar oportunidades para aprender e praticar a autotolerância. O equilíbrio entre interesses individuais e de grupo pode ser difícil tanto para os pacientes quanto para o líder do grupo. O tratamento psicofarmacológico pode ser benéfico para transtornos comórbidos do Eixo I, como transtorno bipolar, depressão grave ou transtorno de ansiedade. É importante a hipersensibilidade desses pacientes aos efeitos colaterais, especialmente aqueles que afetam seu funcionamento sexual e intelectual, o que pode contribuir para a sua não adesão ou recusa desses tratamentos. Nenhuma farmacoterapia específica provou ser eficaz para o narcisismo patológico e o TPN. Conclusões O narcisismo e a sua patologia relacionada têm recebido atenção social, principalmente por causa de seus padrões de autoengrandecimento, suas provocações interpessoais e suas consequências organizacionais ou sociais. Atitudes negativas significativas e estigmatização dessa condição mental, infelizmente, se desenvolveram. No entanto, graças à crescente atenção clínica e empírica ao narcisismo patológico e ao TPB, nosso conhecimento e nossa 29 compreensão do indivíduo por trás do diagnóstico estão mudando. A coocorrência e a interação entre o funcionamento de autoengrandecimento consistente e deliberado e a vulnerabilidade interna e o sofrimento encobertos foram verificadas em estudos clínicos e empíricos. Estudos neurocientíficos recentes também contribuíram para a nossa compreensão dos padrões e das deficiências subjacentes que contribuem para a vigilância e a reatividade narcísicas. A maioria das pessoas com TPN luta com autoestima flutuante, incluindo autoengrandecimento/grandiosidade e vulnerabilidade/inferioridade. Da mesma forma, a capacidade empática está presente, mas comprometida e flutuante. A nova abordagem focada em traços dimensionais para diagnosticar transtornos de personalidade também pode capturar características e padrões psicológicos clinicamente relevantes, além do funcionamento externo típico. É importante avaliar e focar o narcisismo como um espectro de funcionamento da personalidade que ocorre em diferentes contextos e fases da vida. Uma diferenciação útil pode ser entre: 1) narcisismo exagerado em situações específicas ou contextos de vida; 2) estilo de personalidade narcisista consistente sem patologia narcisista; 3) narcisismo patológico com diferentes graus de gravidade que ocorrem de forma intermitente ou constantemente em contextos específicos; 4) TPN preenchendo completamente a visão geral do funcionamento da personalidade com traços ou critérios de acordo com o DSM-5; 5) TPN com comorbidades, como transtorno de humor, transtorno do estresse pós- traumático, transtorno por abuso de substâncias, ou comportamento imoral ou antissocial. Estratégias de tratamento mais eficazes estão gradualmente se desenvolvendo, focadas na construção de aliança terapêutica, na compreensão da complexa coocorrência, nas interações entre a grandiosidade autopromovida e a vulnerabilidade autoesgotada e no funcionamento cognitivo e emocional da personalidade narcisista, bem como na vida do paciente ou nos contextos interpessoais. O aumento da conscientização da sociedade sobre a natureza do narcisismo e a complexidade do narcisismo patológico e do TPN é um trabalho em andamento que, com sorte, ajudará a reduzir mal-entendidos, condenações e preconceitos e tornará o tratamento, para pacientes que lutam com essas condições, mais disponível e eficaz. 30 Literatura sobre o Transtorno de Personalidade Narcisista Teoria, pesquisa, diagnóstico e tratamento: American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th Edition (DSM-5). Washington, D.C., Author. 2013 Campbell K, Miller J (Eds). The Handbook of Narcissism and Narcissistic Personality Disorder: Theoretical Approaches, Empirical Findings and Treatments. Hoboken NJ, John Wiley & Sons, Inc., 2011 Diamond D, Yeomans FE, Stern BL, Kernberg OF. Treating Pathological Narcissism with Transference Focused Psychotherapy. Guilford Press, 2021 Huprich S. Narcissistic patients and new therapists – Conceptualization, treatment and managing countertransference. Lanham, Maryland, 2008 Ogrodniczuk JS. (Ed). Understanding and Treating Pathological Narcissism. Washington, D.C., American Psychological Association, 2013 Maccoby M. The Productive Narcissist. The Promise and Peril of Visionary Leadership. New York, Broadway Books, 2007 Ronningstam E. Identifying and Understanding the Narcissistic Personality. New York, Oxford University Press, 2005 Ronningstam E. (Ed). Disorders of Narcissism – Diagnostic, Clinical and Empirical Implications. Northvale, NJ, Jason Aronson, 2000 Livros-guia Brown NW. Children of the Self-Absorbed. A grown-up’s guide to getting over narcissistic parents. 3rd Ed. Oakland CA, New Harbinger Publications, Inc., 2020 Brown N W. Loving the Self-Absorbed: How to create a more satisfying relationship with a narcissistic partner. Oakland CA, New Harbinger Publications, Inc., 2003 Filmes caracterizando as personalidades narcisistas Muitos filmes anunciados para capturar personalidades narcisistas ou pessoas com funcionamento patológico de personalidade narcisista geralmente destacam as características e os padrões interpessoais marcantes e, às vezes, excessivamente exagerados. Filmes americanos: À Meia-Luz – Charles Boyer, Ingrid Bergman All That Jazz (O Show Deve Continuar) – Roy Scheider Psicopata Americano – Christian Bale Provocação – Jeff Bridges Rick – Bill Pullman, Aaron Stanford Minhas Ideias Assassinas – Michael Caine O Diabo Veste Prada – Meryl Streep Mamãezinha Querida – Faye Dunaway Deixe-me Viver – Michelle Pfeiffer E o Vento Levou – Vivien Leigh Atração Fatal – Michael Douglas, Glenn Close, Anne Archer Rain Man – Tom Cruise, Dustin Hoffman Memórias – Woody Allen, Charlotte Rampling Gente Como a Gente – Donald Sutherland, Mary Tyler Moore Cisne Negro – Natalie Portman, Vincent Cassel Harry Potter e a Câmara Secreta – Daniel Radcliffe, Rupert Grint Blue Jasmine – Cate Blanchett, Alec Baldwin Wall Street – Michael Douglas, Charlie Sheen Filme britânico-americano: Alfie, O Sedutor – Jude Law, 2004 Filmes britânicos: The King’s Speech – Colin Firth, Geoffrey Rush, Helena Bonham Carter Alfie – Michael Caine, 1966 Dorian Gray – Ben Barnes, Colin Firth Filme norueguês: Headhunters – Aksel Hennie, Synnøve Macody Lund (baseado no romance de Jo Nesbø) Filmes franceses: Read My Lips – Vincent Cassel e Emmanuelle Devos The Piano Teacher – Isabelle Huppert e Benoît Magimel (baseado no romance de Elfriede Jelinek) Filme alemão: Mostly Martha – Sandra Nettelbeck, Martina Gedeck http://www.imdb.com/name/nm0377336/?ref_=tt_ov_st NOTAS Elsa Ronningstam, Ph.D., é professora associada (PT) na Harvard Medical School e psicóloga clínica no McLean Hospital, afiliado ao Gunderson Outpatient Program para tratamento de transtornos de personalidadeNarcisismo – do saudável ao patológico Transtorno de Personalidade Narcisista TPN no DSM-5 TPN – Um modelo alternativo Indivíduos com narcisismo patológico ou TPN Variações individuais perceptíveis Luta interna e reatividade Funcionamento interpessoal Funcionamento vocacional Explicações de algumas dimensões e facetas do narcisismo Grandiosidade – vulnerabilidade Perfeccionismo – autocrítica Exposição – evitação Raiva, vergonha e medo Empatia comprometida O trauma narcisista Comportamento suicida Prevalência, gênero e idade Aspectos culturais do narcisismo saudável e patológico Coocorrência com outros transtornos TPN e Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) TPN e Transtorno de Personalidade Antissocial (TPA) TPN e o espectro do transtorno bipolar TPN e transtorno depressivo TPN e Transtorno por Uso de Substâncias (TUS) Tratamento Tratamento psicodinâmico e psicanalítico Terapia Cognitivo-Comportamental Modalidades de tratamento adicionais Conclusões Literatura sobre o Transtorno de Personalidade Narcisista Teoria, pesquisa, diagnóstico e tratamento: Livros-guia Filmes caracterizando as personalidades narcisistas Filmes americanos: Filme britânico-americano: Filmes britânicos: Filme norueguês: Filmes franceses: Filme alemão:para indivíduos com patologia narcisista. Transtorno de Personalidade Narcisista O TPN não tem sido associado às urgências psiquiátricas ou sociais ou aos notáveis custos de saúde pública ou mental. No entanto, o TPN tem sido reconhecido como uma condição mental urgente e complicada, principalmente ligada aos conflitos excessivos em relações íntimas, nos casamentos e nas famílias, ou em contextos sociais relacionados ao trabalho ou às questões legais. Características marcantes do TPN, tais como autoengrandecimento4 e autocentrismo, geralmente contribuem para pouca sensibilidade interpessoal e comportamentos competitivos ou provocativos, assim como para dificuldades em assumir compromissos, colaborações, cooperações, proximidade e reciprocidade. Também há um sofrimento pessoal bastante significativo, embora este possa ficar escondido e não ser notado pelos outros, ou ser expresso de forma aparentemente contraditória em comportamentos provocativos e antagonistas. Algumas pessoas com TPN podem apresentar um senso de ética comprometido, acompanhado de comportamentos manipuladores, enganadores, corruptos ou de exploração do outro. O TPN também pode coocorrer com outras condições mentais que podem tanto escalonar os sintomas 4 Nota dos tradutores: Do original self-enhancing 7 relacionados ao narcisismo patológico quanto esconder características narcisistas marcantes, como transtorno bipolar, transtorno por uso de substâncias ou transtorno depressivo maior. O TPN tem uma origem genética com hipersensibilidade herdada, baixa tolerância à frustração e regulação e tolerância emocional comprometida. As interações precoces entre criança e cuidador são influenciadas por superproteção, leniência e supervalorização ou, alternativamente, por inconsistência, desprezo e falta de confiabilidade. As próprias aspirações dos cuidadores podem fazê-los atribuir à criança papéis e expectativas que vão além de sua própria personalidade e das tarefas esperadas para aquele estágio do desenvolvimento. Por outro lado, a insegurança dos cuidadores pode prejudicar as capacidades especiais e as aspirações apropriadas à idade das crianças. Isso contribui para uma hiperestimulação e uma subregulação no desenvolvimento precoce da personalidade da criança que resultam em problemas com autoestima, regulação emocional e do self e senso de identidade. As crianças que desenvolvem TPN podem ter se sentido vistas e valorizadas quando alcançavam ou se comportavam de forma a satisfazer às expectativas dos cuidadores, mas ignoradas, rejeitadas ou repreendidas quando falhavam em atingi-las. Algumas crianças sentem que nunca poderão corresponder ou superar os seus cuidadores idealizados, enquanto outras sentem que não podem se afastar das experiências de ser julgadas ou desprezadas por eles. Outro padrão de desenvolvimento é observado em crianças que, em uma idade precoce, adquirem autossuficiência em resposta à ausência, à ignorância ou à disfunção dos cuidadores. Essas crianças podem, desde cedo, se tornar adultas e ter a função de sustento para a família ou de “audiência” para um cuidador disfuncional. Alternativamente, elas podem também se tornar parentificadas e assumir as responsabilidades adultas pelos irmãos. Para algumas crianças, seu próprio desenvolvimento e suas realizações podem ser percebidos como ameaças ao cuidador e contribuir para flutuações ou perda de cuidado e valorização parental. A ausência ou a inconsistência na atenção apropriada à idade e o apoio interativo, consequentemente, causam flutuações na experiência de como ela é percebida e de como ela percebe a si mesma. Isso afeta a compreensão e a percepção tanto do self como dos outros e, mais especificamente, das expectativas em relação aos outros. Padrões de apego inseguro estão associados ao desenvolvimento do narcisismo patológico e com o TPN. TPN no DSM-5 O TPN é definido no DSM-5 (American Psychiatric Association & American Psychiatric Association, 2013) como um padrão difuso de grandiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia, com senso de merecimento interpessoal e tendência à exploração, à arrogância e à inveja. Cinco de nove desses critérios precisam estar presentes para o preenchimento do diagnóstico de TPN. Os nove critérios são: DSM-1. Sensação grandiosa da própria importância (p. ex., exagera conquistas e talentos, espera ser reconhecido como superior sem que tenha as conquistas correspondentes); DSM-2. Preocupação com fantasias de sucesso ilimitado, poder, brilho, beleza ou amor ideal; DSM-3. Crenças de ser “especial” e único e de que pode ser somente compreendido 8 por, ou associado a, outras pessoas (ou instituições) especiais ou com condição elevada; DSM-4. Demanda admiração excessiva; DSM-5. Apresenta um sentimento de possuir direitos5 (i.e., expectativas irracionais de tratamento especialmente favorável ou que estejam automaticamente de acordo com as próprias expectativas); DSM-6. Comportamento explorador em relações interpessoais (i.e., tira vantagem de outros para atingir os próprios fins); DSM-7. Carece de empatia, não tem disposição em reconhecer ou se identificar com os sentimentos e as necessidades dos outros; DSM-8. Tem inveja dos outros ou acredita que outros têm inveja dele; DSM-9. Comportamentos ou atitudes arrogantes e orgulhosas. Reproduzido com permissão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, Quinta Edição (Copyright©2013). Associação Americana de Psiquiatria. Todos os direitos reservados. O diagnóstico de TPN no DSM tem sido criticado por ser unilateral e baseado principalmente em características socialmente externas e em aspectos provocativos das relações interpessoais. Por isso acabou falhando em captar toda a gama de patologias narcisistas, principalmente a vulnerabilidade interna e a insegurança caracterizada por autocrítica intensa, insegurança, confusão, vergonha, solidão e medo. Em vez disso, o diagnóstico enfatizou, primariamente, as características externas relacionadas à grandiosidade exibicionista e ao funcionamento interpessoal obviamente conflituoso. Aspectos importantes do sofrimento interno do paciente e experiências dolorosas de flutuações de autoestima, difusão de identidade e desregulação emocional não foram incluídos. Além disso, estudos recentes mostraram que indivíduos com TPB apresentam funcionamento empático comprometido com habilidade intacta para reconhecer e compreender os sentimentos e as necessidades dos outros, mas uma capacidade ou motivação flutuante para participar e se envolver na experiência emocional alheia. Em outras palavras, pessoas que sofrem com TPB ou narcisismo patológico não carecem de empatia, mas escolhem por abster-se ou têm dificuldades em tolerar o envolvimento empático com os outros. Em suma, o diagnóstico de DSM não é considerado informativo e orientador, nem para os pacientes, nem para os clínicos e psicoterapeutas, que, muitas vezes, demonstram relutância em usá-lo. Enquanto alguns pacientes se opuseram fortemente a ser “rotulados” com o TPN, concebendo-o como injusto e danoso, outros optaram por abraçar ou se identificar com o diagnóstico de TPB como um meio de autodefinição, poder ou atenção, e o diagnóstico, infelizmente, se tornou um campo de batalha. Em outras palavras, existe uma necessidade intensa para explicações claras e esclarecimento sobre o diagnóstico e a forma como a patologia narcisista influencia o funcionamento do indivíduo, tanto internamente quanto do ponto de vista interpessoal. Tanto estudos clínicos quanto empíricos confirmaram que sofrimento emocional, vulnerabilidade 5 Nota dos tradutores: Sentimento de possuir direitos excessivos e desproporcionais. Ou senso de merecimento, conforme citado anteriormente. 9 interpessoal, sensação de inadequação, necessidade decontrole, medo, dor, evitação e ansiedade são características importantes do funcionamento da personalidade narcisista. A coocorrência e as flutuações entre as características de autoengrandecimento pessoal e a vulnerabilidade autodepreciativa também estão presentes na patologia narcisista. Sinais típicos de vulnerabilidade narcísica incluem inferioridade e insegurança, esquiva, timidez, reações agressivas escondidas, vergonha e negatividade sobre si mesmo persistente. Características adicionais frequentemente encontradas em pacientes com TPN são perfeccionismo e busca por altos padrões de conquista, acompanhados de autocrítica e crítica sobre os outros, além do medo de não atingir as expectativas e falhar. Ademais, inveja crônica, vergonha, raiva, tédio e o vazio podem coexistir com hipervigilância e reatividade emocional defensiva, especialmente agressividade, crítica e desdém. TPN – Um modelo alternativo Um modelo híbrido com a combinação de dimensões diagnósticas e traços foi incluído no DSM-5, Seção III, Modelo Alternativo para Transtornos de Personalidade – AMDP – (APA, 2013). Este modelo de diagnóstico identifica dificuldades e comprometimentos específicos no funcionamento da personalidade, ou seja, na identidade e no autodirecionamento relacionados ao self e na empatia e na intimidade que são domínios interpessoais. Além disso, existem traços de personalidade específicos que indicam cada transtorno de personalidade. As características típicas do TPN (págs. 767 e 768) incluem principalmente uma autoestima flutuante e vulnerável e um conjunto de padrões interpessoais. O comprometimento moderado ou grave no TPN é encontrado nas seguintes áreas do funcionamento da personalidade: 1. Identidade: Referência excessiva aos outros para autodefinição e regulação da autoestima; autoapreciação exagerada6 (inflada ou esvaziada ou oscilando entre os extremos); a regulação emocional espelha flutuações na autoestima. 2. Autodirecionamento: Definição dos objetivos baseada na obtenção de aprovação dos outros; padrões pessoais irracionalmente altos, visando ver-se como excepcional, ou muito baixos, com base em um senso de merecimento; com frequência, sem consciência das próprias motivações. 3. Empatia: Prejuízo na capacidade de reconhecer ou de se identificar com os sentimentos e as necessidades das outras pessoas; excessivamente atento às reações dos outros, mas somente se percebidas como relevantes para si; superestimação ou subestimação do próprio efeito nos outros. 4. Intimidade: Relacionamentos em grande parte superficiais e que existem para servir à regulação da autoestima; reciprocidade restringida pelo pouco interesse nas experiências dos outros e pela predominância de uma necessidade de ganho pessoal. 6 Nota dos tradutores: Do original “Self-appraisal” 10 Dois traços de personalidade identificam o TPN: 1. Grandiosidade: Sentimentos de merecimento, declarados ou encobertos; egocentrismo; firme apego à crença de ser melhor do que os outros; e condescendência com os outros. 2. Busca de atenção: Tentativas excessivas de atrair e ser o foco da atenção dos outros; e busca de admiração. Reproduzido com permissão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, Quinta Edição (Copyright©2013). Associação Americana de Psiquiatria. Todos os direitos reservados. Este diagnóstico de TPN é definido como uma combinação de problemas significativos dentro de quatro áreas de funcionamento da personalidade e pelo menos um dos dois traços de personalidade. Além disso, o prejuízo no funcionamento e nas expressões dos traços deve ser persistente em diferentes situações pessoais e sociais, estável ao longo do tempo, não explicado por outras condições mentais ou médicas e avaliado no contexto do estágio de desenvolvimento do indivíduo e no contexto sociocultural. Este novo modelo de diagnóstico é mais clinicamente significativo e informativo para clínicos e pacientes. É mais descritivo e captura uma gama mais ampla do funcionamento da personalidade narcisista, incluindo flutuações e variações na gravidade da patologia. Este modelo também chama a atenção para a motivação e intenção do indivíduo, assim como para padrões de autorregulação interna e interpessoais. Ele conecta flutuações na autoestima, ou seja, sentimentos de superioridade e inferioridade, com problemas de identidade, e objetivos e motivação inconsistentes. Acima de tudo, concentra-se no funcionamento interpessoal complexo, ou seja, na necessidade de apoio dos outros à própria autoestima e ao senso de identidade, combinado com a preocupação consigo mesmo, a capacidade comprometida de empatia e a desatenção às necessidades e reações dos outros. Em suma, flutuações acionadas internamente7 no autoengrandecimento pessoal ocorrem em conjunto com uma necessidade intensa da atenção e admiração alheia, assim como com distanciamento e desinteresse na relação com os outros. Ainda sendo um modelo proposto para o diagnóstico de transtornos de personalidade, este modelo está servindo para orientar pesquisas visando à identificação do funcionamento patológico e dos transtornos de personalidade. Indivíduos com narcisismo patológico ou TPN Indivíduos lutando com narcisismo patológico ou TPN se apresentam de forma bem 7 Nota dos tradutores: internally driven 11 diferente; na realidade, não há nenhum protótipo-padrão. Alguns são profissionalmente bem-sucedidos, apresentam um consistente alto funcionamento e são socialmente bem- conectados, mostrando apenas reatividade, distanciamento e esquiva em alguns contextos. Outros podem apresentar flutuações funcionais ou comprometimentos específicos, seja com traços narcisistas, funcionamento do caráter gravemente incapacitante, seja acompanhado de outros transtornos mentais, tais como transtorno de humor (depressão grave, distimia, transtorno bipolar), transtorno por uso de substâncias ou transtorno alimentar. Alguns podem ter condições somáticas que, de diferentes maneiras, afetam sua autoestima, sua motivação e seu senso de identidade. Outros ainda podem ter um comportamento criminoso ocasional, e aqueles com narcisismo maligno mais grave podem ter comportamentos antissociais ou psicopáticos, como vingança violenta, exploração dos outros e hostilidade. Flutuações no narcisismo patológico e momentos de piora ou melhora do funcionamento da personalidade narcisista são frequentemente influenciados por eventos de vida reais (por exemplo, laborais, sociais, interpessoais/conjugais, familiares, médicos ou financeiros). Tais eventos podem ser percebidos ou vivenciados pelo indivíduo como ameaçadores ou destrutivos, de maneira que o levem ao escalonamento de traços patológicos e do funcionamento narcísico. Alternativamente, eles também podem ser vivenciados como suportivos, confirmadores ou estimulantes, ou até corretivos, levando às novas realizações, à autoestima estabilizada e a uma diminuição do funcionamento narcisista patológico. Pessoas com narcisismo patológico ou TPN podem ter pontos fortes e habilidades em determinadas áreas, tais como em sua vida profissional ou social, ou em certos tipos de relacionamento nos quais sintam suporte para sua autoestima, para seu senso de identidade e/ou para seu funcionamento interpessoal. No entanto, elas ainda podem apresentar vulnerabilidades graves ou padrões narcisistas patológicos externos em outras áreas, especialmente em relacionamentos íntimos, papéis parentais, determinadas situações sociais, profissionais ou relacionadas ao trabalho ou em seus padrões de comportamento moral e ético. Consequentemente, elas podem vivenciar a si mesmas e parecer de formas diferentes, a depender dos contextos sociais ou interpessoais. A mesma pessoa pode se sentir confiante e competente ou agir de forma dominante e assertiva em um cenárioe, em outro, ser tímida e evitativa ou insegura, facilmente humilhada e lutando com perda de controle, sentimentos de inveja ou ressentimento, ou com medo de falhar ou de ser exposta. Além disso, certas circunstâncias e experiências podem evocar ou agravar traços narcisistas em resposta às experiências ameaçadoras ou traumáticas. Isso pode gerar comportamentos interpessoais provocativos, críticos e agressivos. Algumas experiências podem ser percebidas como traumáticas porque assumem um significado subjetivo e assustador ou podem ativar um trauma narcisista prévio que, consequentemente, pode ameaçar a autoestima da pessoa e o senso de afiliação social, a coerência, a estabilidade e o bem-estar. Por outro lado, certos eventos e experiências podem ser facilmente vistos como organizadores e consoladores e, portanto, ativando a confiança proativa do paciente. Algumas pessoas optam por assumir a patologia narcisista como um senso de identidade, apresentando-se como “eu sou um narcisista”, especialmente em resposta a ser rotuladas 12 ou acusadas de “ser narcisista” ou de ter TPN. Tal autocaracterização pode, paradoxalmente, servir a uma função fortalecedora que pode ajudar a proteger a verdadeira vulnerabilidade interna ou as lutas interpessoais relacionadas com a autoestima e as emoções. A habilidade de autorreflexão e de formar narrativas coerentes e significativas de experiências pessoais mais profundas é muitas vezes comprometida. Variações individuais perceptíveis Quando pessoas com narcisismo patológico ou TPN procuram tratamento, elas podem se apresentar de muitas maneiras diferentes. Algumas correspondem à expectativa típica de pacientes com uma personalidade narcisista por se autopromoverem, serem egocêntricas e interpessoalmente provocativas. Outras efetivamente escondem suas características narcisistas e podem inicialmente ser amigáveis e sintonizadas, mas, gradualmente, se tornam distantes e desconectadas. Algumas apresentam traços corruptos e antissociais, enquanto outras se orgulham de seus altos padrões morais e éticos. Algumas são arrogantes, assertivas e pretensiosas; outras podem ser modestas e despretensiosas, com um ar de graça; e ainda outras podem se apresentar como “fracassadas perpétuas” enquanto constantemente impulsionadas por objetivos inatingíveis e grandiosos. Algumas podem ser charmosas e amigáveis; outras, tímidas, silenciosas e vulneráveis; e outras, dominadoras, agressivas e manipuladoras. Algumas são intrusivas e controladoras; outras são evasivas e evitativas. Algumas podem exibir abertamente e sem rodeios as características narcisistas mais extremas e os conflitos, mas, ainda assim, manter escondidos outros problemas mais significativos da personalidade narcisista. Outras são perfeccionistas, impulsionadas por padrões pessoais elevados, extremamente exigentes tanto de si mesmas quanto de outros. A ausência de sintomas e vivências de sofrimento pode ser uma bênção paradoxal para algumas pessoas com TPN. Outras, no entanto, podem lutar com grave sofrimento interno, incluindo intensa autocrítica, dúvidas em relação a si mesmas, medo, vergonha, insegurança e raiva que pode, ou não, ser expressa. Algumas podem fornecer relatos bem-informados e precisos de seu funcionamento narcisista patológico com insights nos padrões interpessoais ou contribuindo para as experiências de seu desenvolvimento. Outras podem estar totalmente alheias aos seus problemas, colocando a culpa nos outros ou até se sentindo forçadas a procurar tratamento. No entanto, os comportamentos indicativos mais comuns do funcionamento da personalidade narcisista incluem autoengrandecimento aparente ou disfarçado com flutuações na autoestima, sentimentos de vulnerabilidade e inferioridade e medo de perder o controle e falhar. Evitação, controle e distanciamento são padrões-chave. Ambiguidade e flutuações no senso de identidade são comuns. Algumas pessoas podem estar cientes de suas limitações nas relações interpessoais, com funcionamento empático comprometido e reações intensas às críticas e ameaças à autoestima, com alta necessidade de controle. Outras predominantemente externalizam criticando os outros. Outras ainda podem assumir o seu diagnóstico, identificar-se com vários dos traços comuns sem, no entanto, identificar e responsabilizar-se pelos seus próprios problemas reais. Luta interna e reatividade 13 Ao contrário da confiança externa, arrogância e insensibilidade, pessoas com narcisismo patológico e TPN lutam com um senso de identidade e de self alternante e em conflito. Por trás de uma fachada externa e mais notável de autoengrandecimento ou egocentrismo, elas podem ser excessivamente autocríticas e cheias de julgamentos. Algumas sofrem com perfeccionismo e padrões excepcionalmente altos para si mesmas e, às vezes, para os outros também. São comuns reações fortes e extremas quando sentem alguma ameaça à sua autoestima, como humilhação, derrota, crítica, fracasso ou inveja dos outros. Tais reações podem incluir sentimentos intensos que são expressos abertamente ou de modo camuflado (raiva/hostilidade, inveja, vergonha ou medo), mudanças de humor (irritabilidade, ansiedade, sintomas depressivos ou elação) e comportamentos de enganar ou retaliar outras pessoas (comportamento agressivo, antissocial ou suicida). Reações fortes indicam flutuações na autoestima, que pode alternar entre estados de excesso de confiança, superioridade e assertividade e estados de inferioridade, insegurança e incompetência (grandiosidade e vulnerabilidade). Além de não conhecer suas próprias motivações, as pessoas com TPN também podem ter um senso de identidade comprometido e não saber quem realmente são ou o que querem. Seu senso de agenciamento (isto é, objetivos, direcionamento e determinação) é influenciado pela necessidade de controle interno, por manter rigidamente um senso de autossuficiência e evitando qualquer ameaça ou desafio à autoestima, com relutância ou incapacidade de confiar nos outros. O autoengrandecimento e a preocupação consigo mesmo servem como armadura protetora, protegendo ou ocultando baixa autoestima, dura autocrítica, insegurança, inferioridade, vergonha, solidão, desconexão e medo. Essa autonegatividade8 interna excessiva, muitas vezes erroneamente percebida como transtorno depressivo, pode, paradoxalmente, fazer parte do autoengrandecimento narcisista, fornecendo um controle da autodefinição e justificando a esquiva (“Eu sou um fracasso”, “Eu não mereço”, “Ninguém pode me entender ou me ajudar” etc.). Funcionamento interpessoal Sinais de traços narcisistas ou padrões funcionais dos indivíduos são geralmente identificados em suas interações interpessoais. Cônjuges, parentes, amigos ou colegas podem notar um padrão de distanciamento evitativo com falta de motivação para se relacionar de perto ou, alternativamente, uma busca por atenção ansiosa com expectativas ou demandas sobre os outros para satisfazer às suas necessidades e aos seus anseios. Maneiras de se relacionar esnobes, arrogantes, agressivas ou competitivas podem ser típicas para alguns. Outros podem ser extraordinariamente atenciosos, confiáveis e sintonizados, desde que sintam que recebem a aprovação ou o apoio de que precisam, enquanto alguns geralmente mostram uma atitude ou maneira de se relacionar mais crítica, desdenhosa ou desvalorizadora. Pessoas com narcisismo patológico ou TPN podem ser vulneráveis e insensíveis ao feedback dos outros. Elas estão atentas à rivalidade e às rejeições percebidas e podem facilmente assumir um papel de vítima empoderada, culpando os outros por não ser capazes de atingir os seus próprios padrões. Tendências para combater e retaliar as supostas críticas 8 Nota dos tradutores: self-negativity 14 ou os desacordos são comuns, mas o recuo para a autossuficiência ou a autoabsorção sem reações perceptíveis também pode ser umpadrão enraizado. Inveja, ressentimento e animosidade de longa data podem estimular ainda mais o distanciamento. Especialmente em relacionamentos de longo prazo, padrões combativos e de retaliação duradouros podem ocorrer concomitantemente com dependência até maior. Algumas pessoas podem facilmente se sentir criticadas, degradadas, maltratadas ou ignoradas pela pessoa com narcisismo patológico, mas algumas podem se sentir, pelo menos parcialmente ou intermitentemente, altamente valorizadas, idealizadas e confiáveis. Em pessoas de funcionamento superior com narcisismo patológico mais compartimentalizado, os relacionamentos colaborativos construtivos de longa data podem coexistir com outros relacionamentos pessoais profundamente conflituosos, distantes ou contenciosos. Dificuldades para acessar, identificar, tolerar e verbalizar emoções são típicas para indivíduos com narcisismo patológico ou TPN. Tais deficiências afetam a sua capacidade de manter relacionamentos próximos e mútuos. As tendências de extrair, evitar ou se isolar dos outros podem ser uma forma de sustentar a superioridade e as fantasias de autoengrandecimento, ou seja, um “isolamento esplêndido”, mas tal afastamento dos outros também pode ser motivado pela vergonha e pelo medo de exposição ou fracasso. Funcionamento vocacional A capacidade de trabalhar e permanecer dedicado ao comprometimento profissional tanto em tempos de sucesso quanto durante desafios e contratempos é indicação significativa de autonomia e competência sustentável que podem estar presentes em pessoas com TPN de alto funcionamento. Para aquelas que trabalharam com sucesso em condições estáveis por décadas, mudanças repentinas, retrocessos ou interrupções em seu contexto de trabalho podem ser traumatizantes do ponto de vista narcísico, levando-as às dúvidas excessivas, às autocríticas e à perda da identidade profissional. Algumas têm habilidades excepcionais em criatividade, inovação ou liderança. Outras apresentam conquistas temporárias e um histórico de realizações ocasionais ou irregulares ou de um feito único excepcional em circunstâncias favoráveis. Tudo isso pode indicar uma capacidade real ou potencial que é dificultada por mudanças nas condições de trabalho ou por flutuações ou vulnerabilidades narcisistas. No entanto, tais conquistas fugazes podem, para algumas pessoas com menor capacidade de resiliência, ser os resultados de circunstâncias temporárias favoráveis que trazem suporte aos comportamentos egoístas e de autoengrandecimento. Indivíduos cujo trabalho inclui tanto experiência própria quanto colaboração ou liderança em equipe podem se encontrar repetidamente em situações incontroláveis, sentindo-se ameaçados, dispensados ou invadidos pelas opiniões e demandas dos outros. Aspirações e visões de sucesso e realizações notáveis são comuns e naturais em jovens que estão no início de sua carreira educacional e profissional. O equilíbrio entre autoestima e direcionamento e a integração de experiências de sucesso e decepções com realizações de competência e limitações são essenciais para o funcionamento contínuo e para o desenvolvimento da identidade e do direcionamento vocacional. 15 Explicações de algumas dimensões e facetas do narcisismo Grandiosidade – vulnerabilidade A grandiosidade tem sido considerada por muito tempo o traço central e a característica mais marcante do TPN. No entanto, estudos têm demonstrado que a grandiosidade não só é reativa e depende do estado mental quanto também coocorre e flutua com a vulnerabilidade, a inferioridade e a insegurança. A grandiosidade, a superioridade e outras estratégias autoengrandecedoras podem ser estimuladas por experiências que entram em consonância com ideais, aspirações e perfeccionismo, mas também podem ser escondidas em convicções internas e fantasias que apoiam o senso de qualidades especiais, únicas ou excepcionais. Experiências interpessoais podem afetar os aspectos grandiosos da autoestima, dependendo se são percebidas como potencialmente favoráveis ou ameaçadoras. Uma busca contínua e geralmente determinada pela aprovação ou admiração dos outros é típica, assim como o uso de estratégias interpessoais de autorregulação, como tirar proveito dos outros, demandar tratamento especial ou culpar os outros por falhas. No contexto da autoestima e da autorregulação, a grandiosidade está intimamente atrelada a esses tipos de padrão de autoengrandecimento, que são centrais para o narcisismo patológico e para o TPN. A vulnerabilidade, por outro lado, pode estar relacionada à insegurança, à propensão à vergonha, ao trauma psicológico subjacente ou à inconsistência e a não confiar em suas próprias capacidades e pensamentos. Essa oscilação entre grandiosidade e vulnerabilidade é muitas vezes acompanhada por um padrão de pensamento intransigente “preto ou branco” ou de pensamento “isso ou aquilo”, especialmente relacionado ao “sucesso ou fracasso” e ao “ganhar ou perder”, o que aumenta a insegurança interna, a autocondenação e o medo. Ameaças súbitas à autoestima ou a uma autoimagem mais favorável podem levar a um aumento temporário de pensamentos e comportamentos grandiosos defensivos, tais como fantasias e aspirações, comportamento competitivo ou gabar-se em excesso e demonstrações de hostilidade ou de desvalorização dos outros. Alternativamente, tais ameaças também podem causar flutuações não esperadas ou perda de autoestima, resultando em sentimentos de vergonha, medo e desconexão. A grandiosidade pode ser abalada por breves reações depressivas ou por um transtorno depressivo maior, causando uma atitude mais autocrítica e mais humilde. A passagem da adolescência para a idade adulta, com expectativas da realidade ancoradas à competência, com a obtenção de resultados e cumprimento de demandas, pode envolver outro desafio à grandiosidade. Da mesma forma, envelhecer e se deparar com a aposentadoria e com as mudanças e limitações típicas dessa fase pode também causar aumento da postura de autoengrandecimento ou defensiva do narcisismo patológico. Além disso, as mudanças na aparência, beleza, competência física ou saúde, que podem ocorrer em qualquer momento da vida, podem causar reatividade narcisista significativa em oscilações da autoestima. Perfeccionismo – autocrítica O perfeccionismo com altos padrões e ideais tem sido considerado uma parte significativa do funcionamento da personalidade narcisista. Alguns prontamente falam sobre seu perfeccionismo, enquanto outros são mais hesitantes e o mantêm em segredo. O perfeccionismo tem várias formas e significados, ou seja, a obrigatoriedade de se sentir ou de 16 ser perfeito, um requerimento vindo de si mesmo ou de circunstâncias externas. Isso pode contribuir para a autoestima vulnerável e para diversos problemas nas relações e realizações, levando à vergonha, à autocrítica e à hipervigilância. O perfeccionismo também pode se relacionar com a autoapresentação, ou seja, parecer perfeito se torna mais interpessoalmente problemático, pois envolve esconder e ocultar tudo o que não é perfeito. Especialmente, pode levar a uma relutância em reconhecer ou admitir as próprias imperfeições e procurar ajuda. Um terceiro aspecto do perfeccionismo diz respeito às conquistas, ou seja, a um desempenho perfeito, como obter uma nota 10 no trabalho, ganhar um prestigioso prêmio ou receber a promoção aspirada, que pode se tornar um parâmetro incondicional de autoestima. Como padrões perfeccionistas muitas vezes podem ser irrealistas ou inatingíveis, o perfeccionismo geralmente é acompanhado por autocrítica que pode se desenvolver em um processo de julgamento interno contínuo, levando à autoprivação, à retração e aos sentimentos de grave insegurança e inferioridade. Exposição – evitação Ser e sentir-se visto e atendido pode ser muito importante para algumas pessoas com funcionamento da personalidade narcisista, e elas desejam e se sentem confiantes dianteda exposição e da publicidade. Seu senso de identidade e a autoestima estão fortemente relacionados ao desempenho visível, com direções e objetivos. Algumas podem sustentar tal funcionamento dedicado mesmo por um longo período de sua vida. A perda súbita dessa atenção definidora de identidade, causada por falhas ou desaprovação ou marginalização competitiva, pode causar uma crise pessoal com patologia narcisista significativamente crescente e reações depressivas concomitantes, abuso de substâncias ou mesmo comportamento suicida. Para outras que são mais hipervigilantes e sensíveis, a publicidade inevitavelmente envolve o risco tanto de expor as deficiências ou imperfeições como o fracasso em atender aos padrões e às expectativas ou de antecipar enfrentar os julgamentos negativos dos outros. Isso torna a exposição em situações públicas ou interpessoais extremamente desconfortável ou mesmo ameaçadora, e a evasão, ou mesmo o isolamento, torna-se a forma consistente e eficaz de se proteger contra os riscos previstos de ser visto. Raiva, vergonha e medo A raiva e a fúria têm sido consideradas afetos centrais no TPN, especialmente indicadas por reatividade assertiva, forçada, defensiva ou crítica, e por comportamento interpessoal arrogante, imprudente, explorador ou retaliatório. A raiva no contexto do narcisismo patológico pode ter uma causa motivacional ou reativa. No contexto interpessoal, pode servir para proteger contra o perigo percebido ou para restaurar a autoestima e o poder interno. Quando impulsionada pelo direito de sentimento de inveja, pode resultar em atacar, ferir ou derrotar os outros. Voltadas para si mesmas, a raiva e a fúria podem levar à autocrítica severa, autoaversão e ideações suicidas com intenções de acabar com a própria vida. A raiva e a fúria relacionadas ao narcisismo podem ser efetivamente controladas, ocultas, negadas ou compartimentadas em indivíduos com narcisismo patológico ou TPN. Também podem ser integradas de maneira hábil, bem-planejada e realizada para ganho pessoal ou dano 17 interpessoal. A vergonha pode ser vivenciada como intrusiva, atormentadora e, às vezes, paralisante, mas também pode ser oculta, ignorada, não percebida ou não identificada. A vergonha pode também ser expressa como baixa autoestima crônica, por sentimentos de não ser digno de algo, de ser ruim e sem valor, ou em comportamento agressivo, explosões de raiva e suicídio. A vergonha no contexto do perfeccionismo é uma resposta dolorosa ao enfrentar aspectos imperfeitos ou inaceitáveis de si mesmo, pois poderiam ser percebidos por outros em contextos interpessoais sociais. Isso pode até ser experimentado como traumatizante pelo indivíduo. A vergonha no contexto da raiva, por outro lado, pode servir tanto como um gatilho de agressão, ou seja, reações agressivas baseadas na vergonha, ou como um disfarce no qual a vergonha contribui para esconder ou evitar a raiva. Os sentimentos de medo são frequentemente considerados contraintuitivos ao narcisismo e, aparentemente, contraindicando traços narcisistas típicos, como autoengrandecimento assertivo, domínio agressivo e conquistas competitivas. No entanto, o medo pode estar subjacente às conquistas e ao perfeccionismo e servir tanto como o motivador para o sucesso quanto como o cerne da insegurança e antecipação de perda ou fracasso. O medo também pode neutralizar a exposição, ou seja, “medo de ser visto”, e levar à procrastinação e à evitação. Raiva, medo e vergonha muitas vezes ocorrem concomitantemente e, às vezes, podem interagir de maneiras complexas e confusas, tornando difícil separar e identificar qual é qual e o que causa e contribui para cada emoção. A raiva pode gerar vergonha, e a vergonha pode gerar raiva, bem como impotência e medo. Por outro lado, o medo também pode gerar raiva, assim como vergonha. Empatia comprometida A empatia refere-se à capacidade de reconhecer e compreender o estado emocional dos outros e identificar e sentir seus sentimentos e suas necessidades. A empatia requer tolerância e apreciação das próprias emoções, bem como das emoções dos outros. Pesquisas recentes identificaram a empatia como um processo complexo envolvendo fatores psicológicos internos, interpessoais e neurocognitivos. A empatia é uma parte importante da regulação da autoestima e do self e crucial para a capacidade de gerenciar relações interpessoais. Estudos mostraram que as pessoas com TPN podem perceber e entender os estados e sentimentos internos dos outros, mas podem não ser capazes de se envolver emocionalmente e de responder a eles. Em outras palavras, pessoas com narcisismo patológico ou TPN têm empatia comprometida e flutuante, mas não têm falta de empatia. Egocentrismo, desregulação emocional (insensibilidade ou dificuldades para tolerar e processar algumas emoções próprias e dos outros), desregulação da autoestima (flutuações entre grandiosidade autorreforçada e vulnerabilidade depreciativa autovigilante) e dificuldades mais profundas em sentir cuidado e preocupação com os outros podem contribuir para a empatia comprometida. Indivíduos com narcisismo patológico ou TPN podem ser capazes de empatizar adequadamente sob certas circunstâncias, quando se sentem no controle ou quando sua autoestima não é contestada ou até promovida pela sua capacidade e motivação Marcos Croci Marcos Croci Marcos Croci Marcos Croci Marcos Croci Marcos Croci Marcos Croci 18 para respostas empáticas aos outros. Sua motivação e seu desejo de empatia também podem variar dependendo do contexto interpessoal e das vantagens percebidas. Alguns podem simpatizar mais com os sentimentos positivos e as experiências relacionadas ao sucesso dos outros do que com os sentimentos negativos ou derrotas, e vice-versa. Aqueles influenciados pela inveja podem ser incapazes de tolerar os eventos e as experiências positivas dos outros, enquanto aqueles que tendem a se espelhar à luz dos outros podem perceber o sucesso dos outros como uma oportunidade de autoengrandecimento. Da mesma forma, aqueles que prontamente sentem desprezo podem achar as derrotas e perdas dos outros desprezíveis. Consequentemente, eles escolhem por garantir a sua própria superioridade ou o seu perfeccionismo na comparação entre si mesmos e o sofrimento do outro. Alguns são capazes de empatizar sob certas circunstâncias, por exemplo, quando é solicitado um conselho por um amigo que tem problemas conjugais, mas sem a capacidade de relacionar com seus próprios problemas conjugais, como apontado pelo cônjuge. Outros têm capacidade limitada de tolerar as emoções que veem nos outros e sentem em si mesmos, resultando em sua rejeição e no afastamento da atenção e do cuidado de alguém que está sofrendo. Em suma, o funcionamento empático comprometido em indivíduos com narcisismo patológico ou TPN pode causar conflitos interpessoais, oscilação ou baixa autoestima e subjacente insegurança. A percepção do sentimento dos outros pode gerar sensação esmagadora de impotência, nojo, vergonha ou perda de controle interno e desencadear fortes reações críticas, depreciativas ou agressivas, ou mesmo retraimento emocional e/ou físico. Alguns estão cientes e querem responder aos outros, mas se sentem extremamente provocados ou incapazes. Outros ignoram deliberadamente os sentimentos ou as necessidades dos outros com base em sua própria priorização. O próprio indivíduo pode, ou não, estar ciente de tais deficiências ou escolhas e suas consequências. O trauma narcisista Um evento externo da vida que não apenas ameace a autoestima dos indivíduos, mas que também promova a perda de esperança, de ideais e de significado pode causar um trauma narcisista. Tal trauma é caracterizado por uma sensação de falta de competência com perda de valores e de autovalor ou de perda de conexões ou de afiliações aos outros. Isso pode potencialmente se tornar esmagador, intolerável e até aterrorizante. É a percepção interna e a interpretaçãoindividual do evento externo, bem como as reações esmagadoras que o acompanham, que se tornam narcisisticamente traumatizantes, principalmente porque desafiam ou danificam as experiências de suporte e apoio tanto de si quanto dos outros. Especialmente difíceis para a autoestima são as experiências não esperadas, repentinas, de rebaixamentos e outros fracassos relacionados a trabalho, contratempos financeiros, falências, rejeições pessoais ou traições, infidelidade, divórcios e problemas legais. Embora seja inerentemente traumático, o significado subjetivo específico atribuído a tal evento contribui para uma experiência traumática psicológica internalizada. Isso diferencia um trauma narcisista de um trauma em que o evento externo real (ou seja, abuso, terror, tortura, acidentes, catástrofes, perdas, doenças ou outras condições que causem sofrimento ou desafios sociais, físicos e mentais) define e contribui para um impacto interno e uma Marcos Croci Marcos Croci Marcos Croci Marcos Croci Marcos Croci Marcos Croci Marcos Croci Marcos Croci 19 experiência de sofrimento. O primeiro tipo de trauma causa um trauma associado aos sintomas narcisistas, principalmente vergonha esmagadora, humilhação e raiva, enquanto o segundo tipo de trauma está relacionado ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), principalmente associado à ansiedade grave. Comportamento suicida Pessoas com personalidades narcisistas são particularmente vulneráveis ao suicídio. Estudos indicaram que experiências de desafios abruptos ou graduais para a autoestima e o senso de controle são os principais fatores contribuintes. A flutuação interna da autoestima acompanhada de reações emocionais intensas e relacionamentos interpessoais frágeis é outro fator de personalidade que contribui. Em contraste com pacientes com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), aqueles com TPN não se envolvem em autolesões deliberadas. Além disso, podem ter pensamentos e impulsos suicidas na ausência de depressão, ou seja, tanto transtorno depressivo maior ou sintomas depressivos como condição psiquiátrica, assim como sentimentos depressivos, ou excesso de autonegatividade, relacionados à personalidade. Por exemplo, o suicídio pode servir como meio de ataque ou destruição para aspectos percebidos como imperfeitos do self. A vulnerabilidade narcisista, ou seja, a suscetibilidade de sentir vergonha, humilhação, raiva ou ódio, assim como a sensibilidade ao fracasso e à derrota, torna certos tipos de evento estressante de maior risco à vida e de maior risco de suicídio. Tais eventos, considerados particularmente perniciosos para pessoas com patologia narcisista, podem incluir problemas legais ou disciplinares, mudanças ou perdas em afiliações profissionais, sociais ou pessoais, doenças físicas, problemas financeiros e transições e limitações relacionadas à idade e ao envelhecimento. Ideações suicidas podem servir a funções de autorregulação emocional e interpessoal, e o paciente com TPN pode atribuir certo significado ou função subjetiva pessoal ao suicídio. Às vezes, a ideia de suicídio pode proteger contra ameaças, traumas ou defeitos e representar uma ilusão de maestria, controle ou indestrutibilidade como uma “porta de saída”. Alguns podem ter ideações suicidas que podem servir para controlar e processar sentimentos ou condições insuportáveis. Essas ideações podem ajudá-los a proteger e manter conexões com a vida e promover o incentivo para se manter vivos. Paradoxalmente, para pessoas com esses tipos de preocupação suicida persistente, o pensamento e a consciência de sua capacidade de acabar com sua própria vida podem ter um efeito organizador e estruturante e, em alguns casos, tornar a sua vida mais suportável e até agradável. Prevalência, gênero e idade A prevalência do TPN foi estimada em até 6% na população geral, até 17% na população clínica e entre 8,5% e 20% na prática privada ambulatorial. Alguns estudos descobriram que o TPN é mais comum e incapacitante em homens, enquanto outros encontraram TPN igualmente prevalente em homens e mulheres. No entanto, a patologia narcisista pode ter diferentes causas e padrões relacionados a mulheres e homens. Para as mulheres, equilibrar 20 o senso de identidade e a autoestima como esposa, mãe e profissional pode ser um desafio. Da mesma forma, para os homens, equilibrar as responsabilidades financeiras com o relacionamento com a esposa e os filhos pode causar dúvidas e escalonar experiências precoces de desenvolvimento. A transição da adolescência para a idade adulta tende a aumentar os desafios relacionados ao narcisismo, e o narcisismo exagerado com características de narcisismo patológico pode ser mais frequente entre adolescentes e adultos jovens. A luta com o senso de identidade, aspirações, relacionamentos e pertencimento social em um momento de separação da infância e dependência dos pais em relação à individuação e à autonomia adulta pode ser especificamente desafiadora. Além disso, esse momento da vida envolve competição, navegação nas mídias sociais, exploração e aceitação do senso de identidade e incorporação de aspirações e ideais ao decidir e se candidatar a uma trilha educacional/vocacional ou profissional. Os distúrbios narcisistas relacionados a esse período geralmente são corrigidos por meio de experiências de vida de desenvolvimento e, normalmente, não se desenvolvem em TPN adulto. O TPN não necessariamente remite com a idade avançada. A meia-idade é um período especialmente crítico para o desenvolvimento ou o agravamento do TPN, e a patologia narcisista e o transtorno de personalidade também foram encontrados em idosos. Da mesma forma, as diferenças culturais e o enfrentamento da aculturação e do ajuste após a migração podem escalar reações narcisistas defensivas e traços narcisistas patológicos. Aspectos culturais do narcisismo saudável e patológico A atenção ao contexto cultural e social do indivíduo é muito importante para entender e diagnosticar o narcisismo patológico e o TPN. As diferenças entre sociedades e subculturas tradicionais, sociais, religiosas ou orientadas para a família versus sociedades e subculturas competitivas, individualistas e elitistas modernas tendem a afetar o funcionamento da personalidade, especialmente no contexto de mudança, adesão e adoção de novas culturas. Alguns problemas centrais no funcionamento da personalidade narcisista podem ser altamente influenciados por normas ou mudanças culturais, especialmente relacionadas ao senso de identidade, à autoestima e ao funcionamento interpessoal. No contexto de mudança ou enfrentamento de diferenças subculturais, as lacunas entre os encontros esperados e reais podem ser decepcionantes ou chocantes. Esperanças e visões podem se transformar em incerteza, medo e evitação e diminuir a capacidade de abraçar, acomodar e crescer no novo contexto cultural ou social. Por outro lado, as mudanças e a aculturação também podem abrir oportunidades que permitam o desenvolvimento pessoal narcísico proativo relacionado a competências especiais, aspirações, criatividade, carreira, influência e senso de pertencimento social ou profissional etc. A insegurança e as incertezas relacionadas às diferenças socioculturais podem ocorrer concomitantemente com o aumento da competência e do avanço educacional ou profissional e com a sensação de adequação e proximidade social e pessoal. Jovens talentosos que se mudam para oportunidades educacionais ou de carreira podem lutar com confusão interior, vergonha ou culpa ao enfrentar diferenças culturais e pessoais em comparação com a sua 21 formação. Casar em uma família com diferentes condições socioculturais ou econômicas pode escalonar desafios narcisistas inesperados relacionados a valores, comportamento e padrões relacionais. Diferentes culturas ou contextos sociais também têm diferentes estilos de personalidade relacionados ao narcisismo, sendo alguns maisvisíveis, focados no sucesso, competitivos, extravagantes ou autoafirmativos, enquanto outros tendem a ser mais propensos à vergonha e valorizam a modéstia e a autocrítica, com lealdade e compromisso social. O ajuste psicológico em qualquer direção pode ser desafiador para o senso de identidade do indivíduo e causar conflitos internos com hipervigilância interpessoal e insegurança que, erroneamente, podem ser considerados patologia de personalidade narcisista. Coocorrência com outros transtornos TPN e Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) A TPN coexiste com TPB, e os dois transtornos compartilham desregulação emocional, reatividade e relações instáveis. Outras semelhanças incluem sensibilidade à crítica, à agressividade e ao senso de merecimento. Pacientes borderline lutam com a intolerância à solidão, o comportamento impulsivo e os lapsos do juízo de realidade como principais reações à separação ou ao abandono. Pacientes narcisistas, por outro lado, têm intolerância às ameaças à autoestima com reações intensas, incluindo manobras cognitivas e interpessoais protetoras e sentimentos de raiva e vergonha em resposta às tais ameaças. No entanto, embora a reatividade do paciente borderline seja mais consistentemente perceptível, as reações narcisistas podem ser expressas em raiva explícita ou comportamento de autoengrandecimento ou egoísta, mas também podem permanecer escondidas ou imperceptíveis aos outros. A intolerância às emoções intensas e a necessidade de controle interno também influenciam as reações no TPN. Estudos da patogênese do TPB identificaram apego inseguro, separações e perdas parentais e experiências de abuso como significativas para o desenvolvimento da patologia borderline. Desafios de desenvolvimento semelhante para a TPN incluem apego evitativo e desapego, projeções parentais, expectativas e atribuições de papéis, trauma psicológico e inconsistência ou desequilíbrio entre gratificação (mimo, idealização) e confrontações e limitações realistas e estabelecimento de limites apropriados para a idade. Traços narcisistas podem coexistir em TPB e influenciar o funcionamento borderline e seus sintomas. A preocupação autodestrutiva em pacientes narcisistas limítrofes pode ser expressa em uma combinação particular de comportamento autodestrutivo controlado, de busca de emoção ou de risco, que serve tanto para conquistar sentimentos subjetivos de maldade quanto para manter um controle superior. Em outras palavras, a capacidade narcisista de maior controle de impulsos está ligada a uma preocupação borderline com autodestrutividade, levando a uma experiência superior de equilíbrio entre a vida e a morte, entre o controle e a destrutividade. Quando os traços borderline coocorrem com TPB, o paciente pode ser mais capaz de tolerar e processar emoções e se importar com desafios interpessoais. 22 TPN e Transtorno de Personalidade Antissocial (TPA) O TPN pode coexistir com o Transtorno de Personalidade Antissocial (TPA) e sua variante, a psicopatia. Ao contrário daquelas com TPA, as pessoas com TPN normalmente não apresentam comportamento antissocial recorrente, mas podem ocasionalmente cometer atos criminosos em estado de raiva ou competição. Elas podem ser motivadas pelo autoengrandecimento para alcançar ganhos potenciais ou para evitar exposição e derrota esperadas. Pessoas com TPA demonstram desonestidade mais persistente e recorrente, falhas no comportamento moral e ético, frieza, desrespeito, manipulação e comportamento de risco. Na exploração em pessoas antissociais, é mais provável que haja consciência disso e seja ativamente relacionada ao ganho material ou sexual, enquanto as pessoas com TPN tendem a tirar vantagem dos outros de forma passiva ou involuntária como parte de sua autorregulação e seu autoengrandecimento. A capacidade emocional empática está prejudicada em ambos os transtornos. Quando traços narcisistas coexistem com TPA e psicopatia, a combinação de autoengrandecimento e funcionamento moral e ético comprometido pode ser refletida em abuso de drogas e álcool, estilo de vida antissocial e criminoso cronicamente instável, impulsividade e busca de estimulação. Algumas pessoas com TPN que se apresentam mais perto da faixa da psicopatia podem ser impiedosamente insensíveis, sentir-se no direito de ser exploradoras, charmosas e astutas, com comportamento manipulador e sádico. TPN e o espectro do transtorno bipolar O autoengrandecimento no TPN e a elevação do humor (hipomania) em transtornos bipolares podem parecer semelhantes, mas eles têm origem e fenomenologia distintas. O autoaprimoramento e o aumento da autoestima no TPN representam um padrão caracterológico de longo prazo, acompanhado de reações intensas às ameaças percebidas à autoestima. Pessoas com transtorno bipolar têm mudanças de humor autônomas subjacentes que, em estados elevados, podem causar autoestima temporariamente inflada. Pacientes com transtorno bipolar em hipomania ou em fases agudas de mania podem apresentar algumas das características centrais do TPN, ou seja, autoaprimoramento, autocentramento, senso de merecimento, insensibilidade e comportamento arrogante, pretensioso e exibido. Diferenças notáveis são que os pacientes com TPN buscam mais ativamente a admiração, mostrando desprezo e desvalorização crítica dos outros, raiva vingativa e negação. Além disso, não há evidência de uma estrutura de caráter narcisista ou características consistentes do narcisismo patológico em pacientes bipolares quando eles estão eutímicos. Quando a bipolaridade e o narcisismo patológico coocorrem, pode haver um processo progressivo interativo em que os eventos e as experiências que afetam o funcionamento da personalidade narcisista podem gerar mudanças de humor, que podem ter um grande impacto na autoestima narcisista e na desregulação afetiva. Consequentemente, em algumas pessoas com TPN, a elevação do humor, combinada com a capacidade de integrar alto nível de energia e de atividade, pode levar aos períodos de funcionamento produtivo de muito sucesso, resultando em realizações profissionais ou criativas valiosas ou mesmo excepcionais. Em outras, que sentem o seu senso de controle ameaçado por mudanças de 23 humor, as elevações de humor podem ser extremamente desconfortáveis e até assustadoras. TPN e transtorno depressivo Os sintomas depressivos são relativamente comuns em pacientes com TPN. Os indicadores mais frequentes são perda de interesse e prazer, baixa energia e um estado mental consistentemente negativo. Sentimentos de vergonha, desesperança, vazio e falta de sentido geralmente estão subjacentes a esses sinais de depressão. A depressão reativa geralmente ocorre concomitantemente com a autoestima ameaçada ou esgotada, causada por derrotas, fracassos ou perdas. As vivências individuais de perda de status, controle ou senso de competência ou agenciamento podem gerar fortes sentimentos de inutilidade, impotência, inveja ou raiva. Uma autonegatividade mais consistente com autocrítica ou ódio autodirigido, combinada com um profundo sentimento de ser um fracasso e incapaz de atingir os seus próprios padrões ou ideais, pode contribuir para sintomas depressivos, distimia ou anedonia. Pacientes com narcisismo patológico ou TPN podem ter dificuldades em identificar tais sentimentos e descrever sua causa e seu contexto, mas tendem a apresentar e descrever sintomas típicos de depressão. Desafios narcisistas relacionados à vida, como atingir a meia-idade e o envelhecimento, também podem gerar padrões crônicos de desvalorização, amargura, ressentimento ou pessimismo relacionados à perda de propósito e funções importantes na vida diante de limitações e solidão. Paradoxalmente, indivíduos com narcisismo patológico ou TPN também podem, devido à baixa tolerância ao afeto ou à incapacidade de identificar ou prestar atenção nas emoções negativas, se envolver em diferentes maneiras de evitar taisestados de sentimentos avassaladores. Ideações e planos suicidas podem, como mencionado acima, na ausência de depressão, servir para essa fuga. Da mesma forma, o uso de substâncias, os jogos de azar ou outras atividades escapistas podem ser motivados por emoções ou preocupações negativas subjacentes graves. O transtorno depressivo, ou os sintomas em pacientes com narcisismo patológico ou TPN, coocorre com a patologia narcisista subjacente grave. Consequentemente, é muito importante na avaliação e no planejamento do tratamento considerar o funcionamento da personalidade do paciente e os sentimentos subjacentes, bem como o seu contexto de vida e o significado subjetivo de eventos de vida específicos ou as circunstâncias em andamento. Muitas vezes, a depressão nesses pacientes está principalmente relacionada à autonegatividade narcisista, vulnerabilidade e reatividade, e pode, ou não, ser tratável ou remissível com tratamento psicofarmacológico, EMT ou ECT. Em vez disso, ela precisa ser abordada em uma psicoterapia combinada de apoio e gradualmente exploratória. TPN e Transtorno por Uso de Substâncias (TUS) O TPN pode ser um fator predisponente ou uma consequência secundária do TUS, mas as duas condições também podem ser recíprocas e escalonar mutuamente uma à outra. Além de servir a uma função defensiva contra sentimentos intoleráveis, o uso de substâncias pode, paradoxalmente, também ter um efeito sustentador e até mesmo potencializador na 24 autoestima, no senso de domínio e de controle em pessoas com TPN. Da mesma forma, o uso de substâncias também pode afetar a sua capacidade de se relacionar com uma melhor flexibilidade interpessoal e tolerância. Algumas pessoas de alto funcionamento com TPN e dependência de substâncias controladas, principalmente o álcool, podem ter a capacidade de esconder e regular o seu consumo. Por longos períodos, elas podem até ser capazes de manter a competência profissional e a carreira de sucesso enquanto se orgulham de esconder e controlar o seu vício. No entanto, para uma parcela das pessoas com TPN, o uso de substâncias pode induzir um senso de onipotência com aumento de comportamento de risco e prejuízo da capacidade de julgamento e autopreservação, o que, em última análise, pode ser fatal e levar ao suicídio. Para outras, elas se permitem uma devoção às substâncias que pode servir como um retiro protetor que justifica evitar o envolvimento. Tratamento O indivíduo muitas vezes livre de sintomas perceptíveis de TPN geralmente busca tratamento, principalmente devido às crises agudas causadas por falhas ou perdas vocacionais ou pessoais, pedidos ou ultimatos de família, empregador ou tribunal, ou no contexto de um crescente sentimento de insatisfação ou insignificância em sua própria vida. Além disso, a coocorrência de outras condições mentais incontroláveis, como o uso de substâncias ou o transtorno de humor, pode motivar ou reforçar o tratamento. O nível de motivação varia de acordo com as experiências de urgência, necessidade ou ultimato do paciente. Além disso, a ausência versus a disponibilidade de fontes externas de apoio, que podem ajudar a sustentar a função narcisista individual e o estilo de vida, também influencia a motivação e a conexão no tratamento. A construção da aliança é desafiadora, pois pacientes com TPN tendem a ser críticos, evitativos ou desinteressados. Outros podem ser sintonizados, articulados e sedutores enquanto ainda se escondem e evitam abordar problemas reais. As observações do terapeuta sobre o funcionamento dos pacientes narcisistas muitas vezes não concordam com as próprias experiências dos pacientes ou as formulações de seus problemas. Alguns aspectos da patologia narcisista podem ser mais perceptíveis externamente ou provocativos, mas o paciente pode desconhecê-los, ou ser incapaz ou ser resistente em não querer resolver tais problemas em um estágio inicial do tratamento. Por outro lado, o paciente pode prontamente identificar e lutar com problemas aparentemente irrelevantes ou descartados por outros, incluindo os terapeutas. Alguns pacientes podem iniciar o tratamento com descrições ostensivamente fixas e convincentes de si mesmos e de seus problemas, que inicialmente implicam os padrões de personalidade narcisista ou o diagnóstico de TPN. Explorações posteriores podem revelar que tais autoatribuições diagnósticas servem para controlar ou manobrar interações conjugais ou familiares conflituosas e acusatórias, em vez de indicar a própria consciência e as vivências de problemas relacionados ao narcisismo consigo mesmo e com os outros. Outros podem ter experiências negativas ou traumas profundamente enraizados que causaram o desenvolvimento do funcionamento patológico narcisista, e pode levar um tempo significativo para construir alianças e confiança até que possam ser acessíveis ao processo de psicoterapia. 25 Para alguns pacientes, a possibilidade de confirmar a patologia narcísica ou receber o diagnóstico de TPN ao iniciar o tratamento pode ser extremamente desafiadora e gerar profunda vergonha e desesperança. Esses pacientes muitas vezes obtiveram informações injustamente tendenciosas e negativas sobre narcisismo e TPN e podem precisar dos benefícios de uma psicoeducação diagnóstica inicial. Alternativamente, alguns pacientes podem se beneficiar mais concentrando o tratamento em seus próprios objetivos com escolha, compreensão e processamento de sua própria compreensão e vivência de seus problemas. Recomenda-se fortemente uma abordagem flexível, colaborativa e exploratória de tratamento, ajustada ao funcionamento, à motivação e ao grau de autoconsciência e capacidade autorreflexiva do paciente. É necessário equilibrar os impulsos dos pacientes para rejeitar e desvalorizar o terapeuta e abandonar o tratamento, com esforços para incentivá-los e apoiá-los a enfrentar e refletir sobre suas próprias experiências e seus comportamentos. Chegar a um acordo mútuo de compreensão do propósito de cada paciente para buscar tratamento, metas, capacidade psicológica individual para a mudança e motivação é a tarefa inicial mais importante. O terapeuta ou clínico deve focar os problemas vivenciados como urgentes e relevantes para o paciente e identificar a sua própria compreensão e descrição desses problemas. É importante engajar a própria curiosidade do paciente, o senso de ação e o envolvimento colaborativo ativo. Com alguns pacientes, isso pode levar muitas sessões e ser um processo integrado com a construção de uma aliança terapêutica. Igualmente importante é aderir a uma atitude terapêutica respeitosa, neutra, atenta e focada em tarefas. Tendo em mente que muitas características e padrões narcisistas marcantes podem servir a uma função protetora para o senso frágil de identidade, o controle interno e a autoestima do paciente, isso pode ajudar a orientar e equilibrar a abordagem e a escolha do terapeuta de foco e de intervenções. A escolha de intervenções e estratégias terapêuticas deve ser ajustada aos problemas e ao funcionamento específico do paciente. A motivação, a curiosidade e a capacidade de se relacionar e refletir são os fatores principais a ser considerados, bem como as circunstâncias externas na vida pessoal, social ou profissional do paciente que apoiam ou interferem no tratamento. Diferentes modalidades estão disponíveis. Algumas são especificamente adaptadas para TPN, outras podem ser úteis para alguns pacientes narcisistas, mas não para outros. Tratamento psicodinâmico e psicanalítico A psicoterapia psicodinâmica é considerada há muito tempo o principal tratamento para transtornos de personalidade, incluindo o TPN. Essa modalidade se concentra no processamento e nos conteúdos relacionados ao funcionamento do self e das relações interpessoais. A esquiva de emoções e experiências, relacionadas tanto ao passado quanto ao presente, também é foco de atenção. A abordagem psicodinâmica usa a exploração